Hisoka estava a caminho da casa de Naomi naquela noite. O clima mais fresco e agradável o deixava mais animado. Ao chegar perto donde Naomi morava, o ruivo tratou de observar o movimento pelos fundos do apartamento de dois andares. Havia uma velha senhora que estava regando as plantas que havia em torno do local em plena noite. Teria que esperar um pouco mais. Enquanto isso, ele ficou olhando aquela carta, ainda atento em volta dele. Não queria que ninguém o visse ali, mesmo estando nos fundos. A tal senhora foi checar a caixa de correio que havia em frente à porta principal, e saiu dai com uma pequena quantidade de cartas. A ideia que Kuroro sugeriu foi colocar ali mesmo a carta, sem que ninguém o percebesse. A carta não tinha remetente, apenas uma frase atrás do envelope: "Para Naomi, importante." Quando não tinha mais ninguém, o ruivo seguiu a tal senhora bem sigilosamente, e viu em que andar ela entrou: o primeiro. Naomi certamente era a moradora do segundo andar.
Ele foi até as escadas – não tinha elevador naquele edifício antigo – e sentou-se sem fazer barulho. Analisou aquele envelope e começou a descolar o adesivo branco que prendia o conteúdo da carta seguramente. Usando a ponta da língua, Hisoka ia descolando aos poucos sem rasgar o adesivo, até que finalmente pode abrir o envelope e pegar a carta. Sem querer, deixou cair um pequeno bilhete, pegando-o em seguida. Mas o maior interesse era a carta levemente volumosa. Ao abrir, ficou surpreso: não tinha absolutamente nada escrito. Foi aí que ele pegou novamente o bilhetinho, onde revelava que a carta estava escrita com gotas de limão e também o procedimento para conseguir ler.
- Que homem mais espertinho! – exclamou Hisoka, baixinho.
Ele começou a procurar pelo isqueiro que tinha, mas não tinha achado. Queria a luz do fogo para conseguir ler a carta secreta. Depois de exclamar mais um "droga", ele usou a Textura Enganosa para fechar a carta de um jeito que não parecesse que foi violada. Passando a mão pelos cabelos macios e penteados para cima, Hisoka olhou para o final da escada onde dava para a porta de Naomi. Com um sorriso maroto nos lábios, ele se levantou e foi até ali. Por um momento, ficou parado na porta, imaginando o que ela poderia estar fazendo. Uma delas era provavelmente estar dormindo. Não conseguia escutar um barulho sequer de dentro – era como se ninguém estivesse em casa. Resolveu então ligar ali mesmo para ela.
Naomi estava em seu quarto, mexendo no computador quando o smartphone exclusivo dos dois tocou. Ela, animadamente, levantou-se da cadeira e foi até ele, atendendo o chamado.
- Hisoka...
- Naomi... tenho algo a te alertar. O grupo vai partir depois de amanhã...
Naomi ficou séria, já imaginando que não o veria mais por um bom tempo.
- E... você vai desaparecer? – perguntou a outra, preocupada.
A preocupação na voz de Naomi fez Hisoka se sentir seguro dos sentimentos dela. Já sabia que, se Kuroro estivesse tentando reencontrá-la para pedir perdão, nada daria certo – e ele iria contribuir para isso, com toda certeza.
- Não por muito tempo... mas recebi uma ordem de Kuroro.
Por um instante, a moça engoliu seco. Já imaginou que ele pudesse estar tramando algo em relação a ela.
- Ele me pediu para entregar uma carta, de conteúdo sigiloso, para você ler.
- Não quero saber nada dele! – Naomi disse meio aborrecida. – e espero que não esteja se fazendo de "ponte" para me aproximar dele...
- Não quero mesmo que ele se aproxime de você... mas essa carta é um pedido de desculpas, ele pediu para entregá-la antes de partir. Eu poderia destruir essa carta, mas... quero que você a leia, e que diga o conteúdo dela depois.
- Por que... – ela sacudia a cabeça negativamente.
- Preciso saber o que ele trama, para te livrar de alguma coisa! – ele foi claro e objetivo.
- Não sei, Hisoka... estou assustada de novo, por favor, não me faça vê-lo de novo! Nem ele e nem os outros! – Naomi implorava, preocupada.
Hisoka sorria do outro lado. Ela já era sua. Somente sua. Mas ainda receava pelo conteúdo da carta. Kuroro era um homem sábio e culto, poderia ter o poder de acalmar a tempestade do mar agitado que era as perturbações da morena pela escrita daquela carta misteriosa. Naomi poderia se deixar levar por uma boa narrativa. Essas possibilidades causava um sentimento ambíguo dentro do peito do mágico. A insegurança de uma paixão fresca e o receio de uma forte rivalidade o deixava aceso. Desafios eram molas que impulsionam sua aventureira vida.
- Naomi... confia em mim! O que estou fazendo, é mais uma traição ao meu líder por você! Não entendeu isso, ainda?
Naomi sentia as bochechas arderem, um sorriso simples brotar em seus lábios mimosos e levemente carnudos. Estava insegura e confiante ao mesmo tempo.
- Estou com medo, Hisoka...
- Não sinta medo, só apenas desconfiança. – disse o outro num tom provocativo, apreciando aquela situação dela.
Naomi respondeu com silêncio. Depois de uns segundos, Hisoka quebrou o vazio das palavras com uma confiante risada.
- Ora... mas é uma gatinha frágil e assustada...
- E essa carta? Quando vai me entregar, afinal?
- Vá até a sua porta e olhe no chão, perto dela.
Naomi pôs a mão no peito, percebendo que ele estava ali.
- Já vou buscar, só me espere arrumar... – foi até o armário pegar uma roupa simples, sem parar de falar com ele pelo smartphone. Naomi estava de camisola bege, curta, e não queria recebe-lo daquela forma.
- Arrumar-se? Para quê? - perguntou Hisoka, já explicando em seguida. – Eu não estou lá fora te esperando...
Ela deixou a calça jeans na cama.
- E já colocou a carta aqui?
- Sim!
Naomi foi até o tal local e viu a carta. Pegou a carta, olhando pelo olho mágico da porta em seguida. Não havia ninguém. Arriscou abrir a porta e olhou para um lado e para o outro. Sem nenhum indício do mágico.
- Já encontrou a carta, Naomi?
- Sim... é essa carta meio pesada?
- Essa mesmo. É uma carta secreta, você vai ver como ela é...
- Carta secreta? – Naomi olhou para o envelope com certa careta de desconfiança.
- Isso. Vou desligar para dar um tempo de você ler. Depois, ligue de volta quando terminar a leitura, certo?
- ...está certo. Até mais então, Hisoka.
- Diga que me ama, para se despedir.
- ...te amo...
- te amo também...
Hisoka encerrou a ligação. Naomi abriu o bilhete, e teve a mesma reação de surpresa do ruivo. Vendo pelo outro bilhete menor as instruções de como se ler aquela carta, Naomi pegou um isqueiro e foi até o quarto, apagando todas as luzes. Lendo a carta escrita com gotas de limão contra a luz do fogo, Naomi se concentra naquelas palavras e nos seus sentidos.
"Jovem Naomi, peço desculpas primeiramente pelo modo desconfortável de ler essa carta, mas escrevi dessa forma porque queria que somente você lesse o conteúdo desta. E indo diretamente ao foco principal de minhas palavras: peço que me perdoe por ter sido tão ríspido pelas torturas que te fiz passar. Sou uma pessoa que viveu e vive disso, é meu destino viver do crime e sobreviver por ele. Sinceramente, é a primeira vez que escrevo para uma pessoa que já foi minha refém, nunca senti esse tipo de desejo.
Deve estar achando tudo isso um romantismo barato, não é mesmo? Sim, pode até ser, mas vou dizendo para que não se preocupe mais comigo e nem com minha organização. Nunca mais passará por isso, se depender de nós. Não estou me declarando e nem tentando te seduzir, apenas quero me desculpar pelo que eu fiz, desde o dia em que te forcei a sepultar a cabeça do seu padrinho até o dia em que me deixei levar por impulsos sexuais, machucando sua moral e seu corpo. Por um lado, até fiquei feliz por não ser mais virgem, senão eu estaria com peso maior na consciência – foi por isso que perguntei antes sobre sua virgindade.
Talvez meu inconsciente possa estar te amando, mas eu nunca poderei fazer isso. E sinto-me afortunado por um (raro) sentimento bom estar invadindo minha cabeça tão ocupada com trabalhos pesados. Fiquei impressionado com seu caráter e sua força. Sim, você foi bastante firme, manteve sua postura, mesmo até quando fugiu. Fiquei impressionado pela sua fuga perfeita, a ponto de despistar meus mais experientes homens!
Sinta-se livre em rasgar essa carta, se quiser. Mas mantenha as minhas desculpas e o meu adeus, porque não a verei mais. Se eu, Kuroro, for uma tormenta para você ainda, espero que nunca mais venha a te ver novamente. Eu ainda sou um ladrão, um criminoso. Mas ainda tenho uma consciência sã que me permite desculpar (pelo menos) pelos meus erros, e não quero repetir mais nada de ruim que fiz com você. Desejo isso do fundo do meu peito.
Vou encerrar aqui minhas palavras, reforçando minhas desculpas e parabenizando a escritora por dois livros muito interessantes. Foi bem estranho ver que uma pessoa tão jovem como você escrevesse temas tão complexos e maduros! – isso é uma prova viva que idade e raciocínio maduro nem sempre andam juntos. Seu segundo livro publicado me fez lembrar minha vida pobre e perdida na cidade onde nasci.
Seja feliz e produtiva em seu caminho!
Simplesmente Kuroro."
Naomi desligou o isqueiro. Fitou aquela carta com certo odor de limão. Ainda causava temor em ser novamente raptada por eles, mas aquilo parecia ser tão sincero... Os olhos grandes e negros de Kuroro vieram em sua lembrança. Ele era tão enigmático quando Hisoka, mas cada um tinha o seu jeito próprio de ser enigmático. Agora, era hora de ligar novamente para Hisoka e fazer o que ele tinha pedido.
- Naomi... e então, o que dizia a carta? – perguntou o ruivo, do outro lado da ligação.
- ...nem sei por onde começar... até queria que você a lesse! – disse a outra, rindo de forma incrédula.
- Foi carta de amor, não é?
- Não tanto assim... foi mais um interesse de desculpas. E de adeus.
- Adeus? Humm...
- Hisoka, diga-me... vocês vão embora para sempre?
- Eu não. Apenas vou para Meteor City para concluir os projetos de Kuroro. É por isso que queria ter contato com você!
- Quando podemos nos encontrar?
- Não agora...
- ...quer me ver depois que retornar de Meteor City? – disse preocupada, porque seria um tempo indefinidamente longo.
- Ah, não! – Hisoka foi falando imediatamente. Mas esteja pronta amanhã... a qualquer momento eu posso estar por aí, em sua casa! - disse o outro, levemente animado.
- Eh que... amanhã tenho que ir ao meu local de trabalho e ficarei até o crepúsculo. Pode ser depois disso?
- Está certo, então. Vou esperar ansiosamente...
- Estarei tão ansiosa como você... e espero que não me decepcione mais, porque já estou perdida me suas mãos! – disse a outra timidamente, mas praticamente se declarando com a voz morna.
- Hehe... que ótimo!
- Vai querer encerrar a ligação agora?
- Sim, mas dessa vez, quero que vá nesse instante até a janela, e veja a Lua linda que está lá no céu.
- Para quê? – disse a outra, rindo daquele pedido.
- Vai se despedir dessa vez sob a luz dela. Vai, Naomi!
Naomi o obedeceu. E ao olhar para a Lua, deu um suspiro de surpresa e de alegria, ao ver na árvore que estava perto de sua janela a imagem dele... sentado em um galho grosso, olhando para a janela dela.
- Seu... – Naomi quase deixou escapulir um "seu bobo!".
O outro acenou para ela com a mão livre. E continuou a falar.
- Que linda camisola... realça bem suas curvas e o bico dos seios!
Não somente as faces, mas o corpo inteiro ardeu em ouvir aquilo.
- Seu bobo! – agora ela deixou aquela doce ofensa escapulir de seus lábios.
- Amanhã, terei a honra de vê-la novamente. De poder tocá-la... beijá-la...
Ela fechou os olhos por um momento.
- ...e também iremos nos divertir um pouco lendo essa cartinha aí!
Ela cobriu parte do seu rosto, mostrando a delicadeza semelhante de uma princesa que estivesse falando com seu príncipe às escondidas.
- Até mais, Naomi! Te amo... – disse o outro, esperando a despedida típica que queria ouvir dela.
- Também te amo! – respondeu a outra.
Hisoka desligou o smartphone e levantou-se, desaparecendo de forma mágica depois de ter piscado um olho para ela. Ele vestia uma roupa diferente de antes, ainda similar ao estilo de "coringa": blusa e calça de um vermelho opaco, cinturete branco em forma de anéis, meias similares a uma faixa branca e sapatos lilás. Os braços estavam sem braceletes, e eram ainda mais da cor de porcelana sob a luz da Lua. Depois de vê-lo sumir entre aqueles galhos, Naomi fechou parte da janela e foi se deitar, dormir para aliviar sua típica ansiedade de amor.
