Capítulo Vinte e Quatro

Medo.

É tão maravilhoso, tão sublime, que eu consigo até mesmo chegar a senti-lo. Como água, ele desliza pela minha pele e eu sorrio em deleite ao mesmo tempo em que fecho meus olhos, rendendo-me aquelas sensações tão únicas e perfeitas.

É como se, em meio a uma grande guerra, eu tivesse vencido uma importante batalha.

Meus olhos brilham em excitação, tenho absoluta certeza, quando visualizo um grupo caminhando em direção ao DICAT. Mas desta vez não estou pintando, não estou visível aos olhos. Como um bom caçador, estou escondido, apreciando a beleza de minha presa e os sentimentos que ela está expressando.

O grupo constitui-se de três pessoas, um homem e duas mulheres. O homem caminha abraçado à mulher ruiva, enquanto a mulher morena está à frente dos dois, com o queixo erguido e uma aparência assassina.

Mas não é com aquela mulher morena de atitude grosseira que eu estou interessado. Não. Meus olhos estão fixados na mulher de cabelos vermelhos vivos.

Aparentemente, ela não demonstra estar assustada com minhas últimas brincadeiras. Um sorriso dança em meus lábios com tal pensamento.

Ela será minha melhor caça, afinal. Era de se esperar que ela não estivesse demonstrando emoções que, em sua opinião, são tão baixos e insignificantes. Não, não minha mulher perfeita. Não Ginny Weasley, cuja aparência sempre fora suficiente para que outros Aurores mantivessem a compostura e a força para continuar vencendo.

Contudo, ainda consigo sentir o medo. E eles dançam em frente aos olhos verdes do homem que caminha ao lado da minha mulher perfeita, ainda que eu perceba o esforço para escondê-los.

Segurei-me para não rir. O grande Harry Potter demonstrando medo? Quem diria... O mundo, o universo era realmente cheio de mistérios e surpresas.

Sei que ele não está com medo que algo aconteça a ele, mas sinto sua preocupação voltada a Ginny. Até agora estou surpreso em saber que ele chegara a realmente pressentir minha magia antes da explosão no Departamento Caribenho. O homem entraria em um campo de batalha apostando sua vida, com a certeza de que venceria a qualquer momento. E não duvido que venceria sem suar muito.

Mas ele tem medo pela minha mulher perfeita. Ele tem medo que eu a alcance, ele consegue sentir meu cheiro próximo, mas não consegue me identificar. E isso o desespera, porque sabe que, em qualquer momento na noite mais fria, eu posso aparecer, eu posso atacar.

E tirá-la de sua zona de conforto.

Seus olhos me contam esta história quando percebo duas íris verdes em minha direção. Meu sorriso se alargou, pois sei que ele mais uma vez me sentiu, mas não me percebeu.

Penso quando será que este homem montará o quebra-cabeça diante de seus olhos. Quando encontrará a principal peça. Quando perceberá que ele não está lidando apenas com um assassino moribundo comum, mas com um caçador em busca de um prêmio por tantos esforços e dedicações.

Que todos os homens confundidos são apenas peças descartáveis apenas para deixá-los em mais intrigas.

É claro que sempre usei deste artifício ao caçar, mas as últimas vezes tem se provado uma arma mais interessante do que eu próprio havia julgado ser. Lembro-me ainda dos alemães, contra-Voldemort, aterrorizados enquanto eu deslizava o liquido venenoso por suas gargantas antes de confundi-los. Heh, e pensar que, se estivessem um pouco mais conscientes, eles poderiam revelar minha identidade a esses homens e mulheres da lei.

Mas não, apenas serviram fielmente seu propósito. Deram trabalho a esse bando de idiotas enquanto minha queria Nikki seguia seu trabalho com aquela criança. E, desta ultima vez, o garçom serviu seu 

propósito avisando a minha mulher perfeita que, não importa onde ela vá, eu estarei atrás dela. Eu seguirei sua essência, seu cheiro.

Vejo O Eleito dizer algo a ela, que nega com a cabeça e entra no Departamento. Mais uma vez, sinto os olhos daquele homem sobre mim, antes que ele entre seguindo Ginny e a outra.

A risada escapou de meus lábios antes que eu pudesse me conter.


- Oliveira? – Sarah se surpreendeu ao encontrar a brasileira na sala de Michael Stuart, juntamente com Mark Rutherford. Harry e Ginny entraram logo após ela, e Ginny pareceu igualmente surpresa.

Harry estava certo sobre aquela mulher, ele pensou. Não existiam mais traços de sorrisos fáceis e aparência descontraída em seu rosto. Na verdade, ele chegara a pensar até mesmo ter visualizado o mesmo monstro assassino que ele conhecia dentro dele nas íris da Auror.

- Estou reportando a Stuart um relatório a respeito do interrogatório ao garçom de ontem à noite. – Camila respondeu secamente, profissionalmente, antes de tornar suas costas aos três Aurores recém-chegados, mas continuou. – E também vim escoltar o corpo para que seu IML analise. Afinal, essa investigação é de vocês.

- Corpo? – Ginny perguntou surpresa. Mark Rutherford, que estava encostado na escrivaninha de Mike com os calcanhares e braços cruzados, assentiu. Ginny percebeu o pequeno olhar de relance que ele lançou a Camila, antes de tomar a palavra.

- O homem além de confundido estava envenenado. – ele retrucou com a voz baixa e suave. – Não conseguimos extrair nem uma única palavra dele quando finalmente a confusão passou. Foi questão de segundos antes que batesse as botas.

Mike suspirou, antes de assentir. Ginny achou que seus cabelos estavam ainda mais grisalhos do que antes.

- Aconteceu algo semelhante a um ataque parecido aqui em Londres. – ele disse aos Aurores estrangeiros. – Na época a Auror Madison e um Auror do Departamento russo estavam no local.

Sarah franziu o cenho e fechou os punhos. Ginny sabia o que estava se passando pela cabeça dela. "O mesmo padrão, acontecimentos semelhantes... deveríamos ter ficado mais tempo no Caribe, esperado mais tempo."

Ela também se sentiu frustrada ao pensar nisso. Eles já tinham certa experiência com os acontecimentos droga, eles deveriam ter ficado mais.

- Posso enviar reforços caso necessite, Michael. – Camila disse em tom endurecido. Mike lhe lançou um olhar rápido, de cenho franzido.

- Camila! – Mark grunhiu, acreditando que o Auror tivesse sido ofendido. Ela o ignorou.

- Está interessada em cooperação internacional graças aos acidentes terem invadido seu quintal? – Mike perguntou suavemente, unindo as duas mãos e descansando o queixo nelas. De todos os diretores-gerais, Oliveira sempre fora a mais durona deles, ainda que fosse uma das mais novas.

- Estou interessada em cooperação internacional por acreditar que você tenha amaciado demais seus Aurores após a queda de Voldemort.

- Camila, maldição! – Mark a cortou, erguendo-se e a fuzilando com os olhos. Ela sequer se dera trabalho de encará-lo, mantendo os olhos cravados em Michael ao responder seca:

- Se você está tão preocupado e incomodado com o fato de que eu possa ofender alguém aqui, saia da sala! – finalmente, ao dizer aquilo, ela o encarara. Mike quase sorriu ao sentir o Auror tenso. – Se você não tivesse percebido que existia algo de errado com aquele infeliz, talvez à exceção de Ginny e Potter, estaríamos todos mortos! E o mais engraçado que não fazemos a menor idéia de quem é o bastardo! E se ele virar uma ameaça internacional, o que me diz?

- Eu não me sinto ofendido. – Michael respondeu suavemente, atraindo a atenção de todos mais uma vez. – Sei que não era sua intenção, Camila. Mas não, meus Aurores não estão amaciados como você está dizendo.

- Há quanto tempo esse criminoso está solto? – ela perguntou ao cruzar os braços. Mike olhou para Sarah, mas Harry quem respondera:

- Acreditamos que os ataques possam ser conferidos a Nikolai Rostova. Você pode chamá-lo de Nicholas, se quiser.

Camila pareceu inexpressiva com o nome, mas Mark ergueu as sobrancelhas.

- Rostova? Por que vocês estão com este caso então se o criminoso é um russo?

- Rostova está aqui no Reino Unido. – Ginny respondera dessa vez, com a voz tão firme quanto a de Harry. – Acredito que conheça o protocolo, Mark. Se um assassino está em território estrangeiro, cabe ao Departamento cuidar dele. O Departamento inicial apenas pode escalar alguns Aurores para auxilio e continuação do caso, isso com a resolução do Diretor-Geral do departamento estrangeiro, no caso, Mike.

Ele franziu o cenho.

- Certo. E este homem é -.

- Um assassino em série desenvolvendo algum tipo de ritual indefinido. – Sarah cortou todos os presentes. – Entretanto, pode ser também uma assassina em série unida a algum outro maluco, e os ataques sejam atribuídos a ele. Ninguém sabe ao certo.

Mike gemeu.

- Por favor Sarah, de novo não.

Aquilo parecera ser a gota d'água para a Auror.

- Quem está levando essa maldita investigação nas costas todo esse tempo? É você, Mike? – Ginny a encarou surpresa. Por mais que Sarah pudesse ficar nervosa, Ginny nunca a vira elevar o tom de voz da forma que ela estava elevando, nem desafiar seu chefe do jeito que estava desafiando. – Até onde eu sei, você colocou essa merda nas minhas mãos desde que Malfoy pisou neste país, uma vez que a Diretora da área de Homicídios sou eu, uma vez que o próprio Nikolaievich, Ministro russo e Diretor-Geral russo exigiu que eu estivesse em cargo da investigação.

Ginny arregalou os olhos ao ver sua melhor amiga elevar mais e mais o tom de voz.

- Sarah. – ela a chamou, assustada de que aquela explosão da amiga acarretasse problemas mais sérios, mas Sarah não a escutou.

- Mas quando fui que eu pude fazer meu trabalho direito? Em qual momento eu pude me dedicar a essa investigação e apenas a ela? – ela riu debochada. – Quando foi que você ou qualquer outro Auror, que sequer estão tão envolvidos na investigação não meteram seus malditos dedos achando que sabem mais do que eu, ou -.

- Malfoy está no caso a mais tempo do que você, e ele também achou a idéia absurda. – Mike a interrompeu. Camila e Mark a encaravam surpresos.

- Malfoy sequer chegou a pensar na possibilidade de Rostova ser uma mulher! – ela gritou para o chefe, os punhos fechados. – Ninguém chegou a pensar nisso! Simplesmente riram e disseram "Tudo bem, Sarah, você realmente tem uma mente muito fértil, mas é hora de sair de seu mundo de fantasia". Simplesmente assumiram ser um homem e olha só o que está acontecendo! Estamos andando em círculos há semanas, e por que não meses?

- A culpa é minha pela sua incompetência? – Mike perguntou agora também em voz alta, levantando-se. Ginny deu um passo para frente.

- Mike! – ela encarou Harry quando ele colocou uma mão sobre seu ombro, impedindo-a.

- Não se meta. – ele disse em voz baixa, olhando de Mike a Sarah.

- Se eu estou sendo incompetente é porque eu não pude explorar nenhuma das minhas suposições, exatamente POR QUE VOCÊ NÃO DEIXOU! PORQUE VOCÊ ACHOU SABER MAIS, SEMPRE, MESMO NÃO 

SABENDO METADE DA INVESTIGAÇÃO, SEU BASTARDO INFELIZ! – Sarah gritou e a caneca sobre a mesa de Mike explodiu.

A sala caiu em profundo silêncio após a explosão. Mike protegera-se dos cacos que voaram sobre ele e ele lançou um olhar enfurecido sobre Sarah. Em seguida, tornou a se sentar em frente à escrivaninha e anunciou em voz baixa, mas decidida:

- Eu vou afastá-la do caso, Madison. Por favor, entregue as caixas da investigação nas mãos de David Connor, uma vez que ele acompanha o caso desde o inicio aqui no Reino Unido. A senhorita receberá um período para descanso até que eu a considere apropriada para retornar. Eu nunca pensei que você pudesse ficar tão afetada emocionalmente com um trabalho desses.

Ginny arregalou os olhos.

Mike, você não pode estar falando sério.

- Eu gostaria que as caixas fossem entregues até o horário do almoço, por favor.

- Michael, o senhor não acha está – Camila calou-se ao perceber a Auror caminhar em silêncio até que ficasse a um passo da escrivaninha de Mike. Por fim, desabotoou a capa vinho e retirou a corrente com o distintivo do pescoço.

Jogando-os sobre a mesa, ela mediu seu chefe com o olhar, antes de dizer:

- Faça isso você mesmo. Aproveite e dê a ele meu cargo, se quiser. Eu estou fora.

Dando as costas a Mike e caminhando decidida até a porta, ela saiu da sala sob os olhares surpresos de todos os presentes.

Ginny sentiu a imediata vontade de sair atrás da amiga, mas sabia que isso só traria mais problemas. Esperaria tudo o que tinha que acontecer naquela sala acabar, receberia instruções, e iria atrás de Sarah.

Camila ainda encarava a porta da sala com o cenho franzido, talvez lutando consigo mesma da mesma forma que Ginny. Elas foram amigas de Academia, afinal. Camila sabia o quanto Sarah era competente.

Por fim, encarou Mike e respondeu seca:

- Depois dessa pequena demonstração de como está seu Departamento, Mike, eu gostaria de cooperação internacional. Enviarei dois dos meus melhores Aurores ainda hoje e gostaria que até meia noite ambos estivessem inteirados dessa investigação e todas as possibilidades e histórias a respeito de Nikolai Rostova. Quero esse crápula preso, julgado e condenado o mais breve possível.

Mark Rutherford suspirou.

- Ao que parece meu irmão e sua equipe acabou de terminar uma missão na França. Eu o contatarei e ele representará a cooperação americana. – respondeu com a voz baixa e calma. Camila o encarou.

- Eu acredito que essa seja uma situação em que você deveria chamar Nathan.

Ginny sentiu a bizarra vontade de rir ao ver Mark querer fuzilar a brasileira com os olhos, quase perguntando "Será que você tem tantotato quanto parece ter? Cristo, como diabos eu vou chamar o Nathan MADISON?".

- Erick Rutherford é competente o suficiente. – retrucou entre dentes. Mike assentiu.

- Harry, eu vou escalá-lo ao grupo de investigação desse caso.

- Era justamente o que eu iria aconselhá-lo a fazer. – Harry comentou debochado, cruzando os braços. Ginny franziu o cenho.

- E quanto a mim?

- Desculpe, Ginny. Mas você é uma vítima provável, eu não posso colocá-la ainda mais em risco.

Agora era ela quem sentia vontade de gritar com Michael. Antes que ela pudesse se empolgar, Harry apertou carinhosamente a mão em seu ombro e respondeu por ela:

- Ginny compreende essa situação, não é Ginny?

Não. Ela não compreendia. Ela já arriscara sua cabeça demais para não compreender porque diabos teria que ficar de fora. Olhou zangada para Harry.

- Nikolaievich mandou-me uma coruja dizendo que Draco tem notícias interessantes. Ao que parece ele retornará amanhã, eu gostaria que você já se encontrasse com ele.

Harry assentiu. Mike levantou-se e com um agito de varinho, reconstituiu a caneca explodida.

- Neville realizará a autópsia do corpo trazido pela senhorita Oliveira e pelo senhor Rutherford. Quero-os presentes lá ás duas da tarde. Dispensados.

- Sim, senhor. – Harry assentiu e guiou Ginny para a saída, que ainda se mantinha inconformada por ter sido mantida fora da investigação. A porta se fechou e Camila encarou Mike.

- Estou desgostosa com a bagunça que você transformou esse lugar, Stuart. A demora na conclusão de um caso e essa desorganização com Aurores entrando em investigações que não lhe condizem transformam aqui mais em um grupo de Aurores comuns do Ministério da Magia.

- Já chega Camila. – Mark retrucou seco, mas não saíra tão decidido em suas palavras. Parecia mais concordar com a Auror, na verdade.

- Nosso maior prestígio é nossa discrição e nossa agilidade. Se você não voltar a ser o mesmo durão que visara à criação do DICAT, arruinará tudo o que sempre sonhou. E é bom que você saiba, caso seu Departamento caia ou arruíne qualquer um dos outros, eu pessoalmente irei fazer de sua vida um inferno. – Camila retrucou com a voz suave, porém com uma nota de determinação que deixava claro que não estava brincando.


- Quer alguma coisa, Sarah? Um uísque, alguma bebida forte?

Sarah ergueu os olhos para a garçonete, e seu olhar entristeceu ainda mais. Ali estava, em seu pub costumeiro, sentada no lugar costumeiro, sendo atendida pela garçonete costumeira. Aquela mulher, de cabelos castanhos quebradiços, olhos negros e bondosos e na casa dos quarenta, que Sarah se acostumara a ser atendida sempre, como um hábito indispensável.

Sentiu-se horrível por sequer saber o nome daquela mulher, e sentiu ainda mais vergonha de perguntar agora, depois de tanto tempo.

Entretanto, à menção da pergunta da mulher Sarah afundou-se ainda mais na complicação que tudo se transformara, e balançou a cabeça.

- Não, obrigada. Não estou com o estômago muito forte ultimamente para bebida.

- Você não parece muito bem mesmo. – a mulher disse com a voz baixa e suave. – Problemas no Departamento?

- Algo do tipo. – murmurou simplesmente. A garçonete logo parou de lhe dar atenção, indo atender aos outros clientes.

Problemas com o Departamento, com certeza. Por mais que, agora estivesse desempregada e completamente longe de descobrir quem era Rostova e que aquilo sequer seja de seu interesse mais, indiretamente, o Departamento ainda a afetava.

Indiretamente, como o frio pode despertar uma gripe em alguém com o sistema imunológico fraco.

Frio. Rússia.

Ele.

Seus olhos caíram e visualizaram suas próprias mãos, geladas e pálidas graças ao frio.

- Apenas não estava preparada com essa cena. – ela comentou desgostosa, enquanto observava o lado esquerdo de sua testa arroxeado. Neville não pareceu acreditar nela.

- Você, assim como Ginny, sempre foi uma das Aurores com estômago forte. Nunca se incomodou de cutucar feridas de mortos, cheirar provas, fuçar no lixo o mais fundo possível em busca de provas. Não, tem algo de diferente em você... E eu sei que você sabe disso.

- O que você quer dizer com isso? – ela perguntou na defensiva, dando um passo involuntário para trás. Para longe dele, como se tendesse a fugir, a correr daquela conversa.

Neville suspirou.

- Você sabe o que eu quero dizer. Desejos alimentares, necessidade de ir ao banheiro periodicamente, humor instável. Não estou afirmando nada, mas aconselharia um exame, nem que seja um teste caseiro. Pelo menos para limpar as dúvidas. Se não for o que estamos pensando, então teremos que correr atrás do que pode estar acontecendo com o seu sistema.

Abaixando o rosto, ela passou a mão pelos cabelos e deixou que um suspiro cansado lhe escapasse dos lábios. Como deixara tudo em sua vida se tornar tão confuso e problemático?

Problemático. Era isso que aquela situação era. Fora isso seu primeiro pensamento ao ver a cor vermelho, tão viva na vareta de teste naquela manhã fria, dois dias atrás.

Um sorriso debochado escapou-lhe os lábios. Aquilo não era verdade, seu primeiro pensamento fora "Socorro".

Deus, o que ela faria?

O sorriso morreu tão cedo quanto havia começado, e seu semblante tornou ao inicial tom depressivo e cansado. Deslizando a ponta dos dedos sobre a mesa, ela deixou que seus pensamentos voassem de ponto a ponto em sua vida, e isso a atordoou de certo modo.

- O que eu faço? – sussurrou.

- Primeiro, me explica o ataque que você teve. – Sarah ergueu o rosto assustada, encontrando as íris castanhas de Ginny colocadas sobre ela. Ela mantinha um sorriso triste, enquanto colocava a mão sobre o ombro da amiga. – Sarah, o que foi aquilo?

Ginny se sentou também no balcão e colocou os cotovelos sobre o mesmo, direcionando toda sua atenção para a amiga, que tornou a desviar o olhar.

- Eu sei que não deveria ter dito o que disse. – ela replicou suavemente. – Mas eu não tenho conseguido me controlar ultimamente. Cada vez mais parece que estou dentro de uma panela de pressão, entende? É tudo tão complicado... Parece que a minha vida saiu do controle.

Ginny a encarou com tristeza. Ela conseguia compreender aquele sentimento, uma vez que estivera e ainda estava em uma vida tão cheia de complicações.

- Eu sei que o caso tem exigido muito de você.

- Não é apenas o caso. – Sarah contestou em voz baixa, quase inaudível. Ginny ergueu as sobrancelhas. – É a indiferença de Mike. São inúmeros pensamentos malucos. É até mesmo Nate, me incomodando até o ultimo fio de cabelo.

- Você sabe que pode desabafar comigo, se quiser. – Ginny ofereceu com preocupação genuína em seus olhos. Sarah suspirou.

- Eu sei. – entretanto, permaneceu um grande período quieta. – Ginny, tem algo me incomodando.

Isso é óbvio, Ginny pensou.

- A respeito?

- Draco.

Ginny franziu o cenho.

- Bem, sou todos ouvidos.

O que diabos estava acontecendo com ela? Ginny nunca a tinha visto tão desamparada, tão confusa. Apenas de olhar para ela Ginny conseguia perceber o quanto ela estava perturbada.

- Esqueça. – ela resmungou após algum tempo. Contaria sobre a história de Skeeter a Ginny mais tarde. – Isso é apenas besteira. Tem coisas muito piores para se preocupar.

- Sarah, que diabos está acontecendo com você? – Ginny perguntou impaciente. – Por que você tem estado tão -.

- Eu fiz uma besteira enorme. – Sarah disse em voz baixa. Seus olhos azuis encontraram os castanhos da melhor amiga e ela desviou o olhar, como uma criança envergonhada com suas atitudes recentes. Ginny pareceu surpresa. Subitamente, ela riu. – Jesus, eu me sinto tão burra! Nunca mais farei piadas sobre loiras burras.

Com uma careta confusa, Ginny a encarou. Sarah suspirou e disse em voz baixa, agora já não mais rindo:

- Ginny, eu... Eu estou esperando um filho.

Certo, aquilo definitivamente não era algo que ela estava esperando que Sarah dissesse. Seus olhos aos poucos foram ficando do tamanho de duas bolas de tênis e seus lábios entreabriram-se. Sarah girou os olhos e resmungou:

- Eu sei que estou ferrada, não precisa me olhar assim.

- Mas – eu – Quero dizer... Como? – Ginny perguntou, nem percebendo sua voz alta.

- Como se você não pudesse imaginar! – Sarah replicou sarcástica. – Veja só, existe um homem e uma mulher -.

- Não me venha com sarcasmo numa hora critica dessas! – Ginny retrucou enfurecida. – Há quanto tempo?

Sarah fez uma careta pensativa.

- Oh. Talvez um mês e meio, quase dois. – ela disse com a voz baixa. – E eu sou idiota o suficiente para achar que meu ciclo estava atrasado por causa de estresse.

- Isso não seria raro, vindo de você.

- Por isso que eu achei que... Mas tenho certeza que, internamente, eu já sabia. – ela olhou para a garçonete que encarava ela e Ginny com os olhos assustados, provavelmente pela pequena crise de gritos das duas há poucos segundos atrás. Sarah ficou sem graça. Ginny a ignorou. Seus pensamentos estavam todos centrados nas ultimas palavras e frases de Sarah.

Um filho. Jesus Cristo!

- Você contou ao Draco? – ela perguntou em voz baixa. Sarah arregalou os olhos e logo desviou o olhar, envergonhada.

- Não. E não tenho certeza que ele vá querer saber.

- O que você quer dizer com isso? – Ginny franziu o cenho. Sarah mordeu o lábio inferior.

- Quer dizer que talvez eu não conte. – ela retrucou direta.

- Sarah, Draco é o pai. Ele tem o direito de saber.

- Ele tem o direito sobre o que, exatamente? – ela perguntou abruptamente, balançando a cabeça. – Sou eu quem vai carregar uma criança por nove meses – no caso agora quase sete -, não ele. E... Ginny, vamos ser sinceras, o que eu vou fazer com um bebê? O que ele faria com um bebê?

- Ah, eu não sei. – Ginny retrucou com sarcasmo. – Claro que criar está fora de cogitação, certo?

Ela riu; uma risada que não era nem um pouco sincera.

- Você me imagina com mãe? Jesus, eu não consegui sequer segurar o filho de Nev essa semana, quando fui visitar a Luna. E quando ele começou a chorar desesperado eu quase entrei em crise, não sabia o que ele queria. – ela balançou a cabeça. – E vamos ser sinceras, foi uma idiotice isso ter acontecido. Draco e eu não temos nada.

Ginny girou os olhos e suspirou.

- Vamos ser sinceras: do que você tem medo? Que ele rejeite o bebê? Que ele rejeite você?

- Eu não preciso da maldita aprovação dele. – Sarah retrucou secamente. – Estou apenas dizendo que somos novos. Não apenas isso, mas nossas vidas são completamente diferentes. Ele é Auror russo, já trabalhou no serviço secreto russo. E eu tenho minha vida aqui. – ela olhou ao redor do pub, que começava a encher. – E eu nem sei se vou ter esse filho.

Ginny ficou horrorizada com aquilo. Tudo bem, não era ilegal a prática do aborto e Sarah ainda estava em tempo se optasse por aquela escolha, mas para uma mulher como Ginny, que estivera muito 

próxima de segurar um filho nos braços e ter o direito de amá-lo incondicionalmente e logo em seguida perdê-lo, o aborto chegava a ser algo praticamente repulsivo.

Como uma mãe poderia escolher encerrar a vida do próprio filho?

- Você não pode estar falando sério. – ela sussurrou descrente.

- Por que eu não estaria? – Sarah comentou com as sobrancelhas erguidas, mas Ginny vislumbrou o medo em seus olhos; não, ela não estava pensando com a razão, ela estava agindo apenas como um animal encurralado. Mas o instinto materno de Ginny no momento falava mais alto do que o fato de que deveria estar consolando a amiga.

- A criança não tem culpa pelos erros dos pais, Sarah. Seja mulher o suficiente para assumir isso. – Ginny disparou com um tom de voz endurecido. – E Draco tem o direito de saber. Caso você não conte, cedo ou tarde ele vai descobrir e vai reclamar seus direitos. E será pior para você. – Ginny franziu o cenho. – Malfoy mostrou ter mudado pelo pouco que convivi com ele, mas eu sei muito bem o tipo de pessoa que ele é. Ainda mais se o assunto envolver uma pessoa com seu sangue.

Não respondendo a melhor amiga, Sarah chamou a garçonete e pediu gentilmente um copo de suco para ela. A mulher lhe lançou um olhar carregado em curiosidade antes de se retirar em busca do pedido.

Ginny suspirou.

- Você está com medo da reação dele. - ela finalizou com a voz baixa. – Eu conheço você o suficiente para interpretar essas suas expressões.

Sarah encolheu os ombros. Ginny notou a amiga abraçar a si mesma, as mãos deslizando suavemente pelo abdômen ainda reto.

- Meus pais vão ficar decepcionados. Nate vai ficar furioso, para dizer o mínimo. – ela sussurrou. – E Draco... Ginny, isso foi apenas sexo.

- Foi isso que ele foi para você?

A garçonete retornou com o pedido e olhou solidária para Ginny e Sarah.

- Precisam de mais alguma coisa?

- Não, obrigada. – Ginny respondeu. A mulher assentiu e se retirou, e Sarah suspirou.

- Sinceramente? Não. – ela admitiu. – Mas era o que deveria ter sido pelo meu lado. Eu sei que pelo o dele foi assim.

- Eu duvido muito. Vi a maneira que ele olhava para você.

Sarah apenas negou e lhe lançou um olhar que reservava aos idiotas.

- Eu não sei mais o que fazer. – Ginny sentiu seu coração quebrar quando percebeu os olhos da amiga marejar. – Eu não sei mais o que pensar, eu não sei de mais nada. E esses malditos hormônios me fazem chorar cada vez mais, ou surtar como na sala de Mike. Meu Deus, eu não deveria ter gritado com ele daquela maneira.

- Você pode resolver isso com Mike depois. Por um lado é bom você se afastar um pouco, assim pode tomar conta dos outros setores da sua vida, que no momento são mais importantes.

Sarah tomou um longo gole no suco e suspirou. Olhou para Ginny e, amargamente comentou:

- E sabe qual é o maior cúmulo da idiotice com relação a toda essa historia? É que eu realmente sinto falta dele.


- Você está tenso. – Ginny comentou ao sentar-se atrás de Harry na cama, finalmente após o dia longo e exaustivo emocionalmente que ambos haviam passado, e deslizar a mão pelos seus ombros. Ele segurava uma caneca amarela em mãos e olhava distraidamente para os próprios pés descalços. Imediatamente após dizer tais palavras, as mãos pequenas da Auror começaram a massagear seus ombros. Harry fechou os olhos, apreciando aquele gesto, e suspirou.

- Passei praticamente o dia inteiro lendo todos os documentos sobre Rostova, e sabe o que é o pior de tudo? Eu sequer cheguei à metade deles. – respondeu com a voz rouca, satisfeito que a caneca antes cheia de chá quente tivesse aquecido suas mãos, outrora tão geladas.

Ginny o encarou com preocupação.

- Você tem certeza que entrar nesse caso é o melhor para você? Quero dizer, você acabou de passar pelo inferno e -.

- É a maior certeza que eu tenho no momento. – Harry a interrompeu. – Preciso ver esse cara preso e julgado.

Ginny franziu o cenho.

- Você sabe que eu não preciso de proteção. – ela protestou. – E você está fazendo tudo isso justamente porque está achando que minha segurança está ameaçada.

Harry não se sentiu ou pareceu ofendido. Simplesmente encolhera os ombros e pontuou:

- Eu sei bem que você não precisa de proteção, mas isso não muda o fato de que eu estou preocupado com você. E sinceramente, isso vai com certeza acabar com minhas noites de sono. Se eu estiver acompanhando o caso, pelo menos estarei tranqüilo.

- O que você quer dizer com isso?

- Quero dizer que Connor não tem a habilidade suficiente para liderar um caso desse tamanho. – Harry resmungou, desvencilhando-se do toque de Ginny para se levantar e pousar a caneca vazia sobre o criado-mudo. Em seguida, sentou-se novamente na cama e puxou Ginny para perto dele, abraçando-a e deixando que ela encostasse a cabeça em seu peito.

- Você nunca viu Connor trabalhar para dizer isso, Harry. – ela comentou. Harry encolheu os ombros.

- As únicas vezes que o vi dizer alguma coisa foram completamente inúteis e desnecessárias, isso já me deu impressão o suficiente.

- Você está soando arrogante.

- O que? – ele perguntou incrédulo.

- Você sabe, 'O caso vai ser fácil se eu descobrir as coisas logo, porque eu sou o cara'.

Harry gargalhou com aquela escolha de palavras, especialmente por vê-la tentar usar um tom mais grosso de voz, imitando-o.

- Bah, você sabe que não é assim. – o silêncio reinou entre eles durante alguns poucos segundos, antes que Harry terminasse: - Se bem que, eu sou quem tem melhor experiência, realmente.

Ginny riu e lhe deu um cutucão no peito.

- Ron e Hermione retornaram de lua-de-mel. – Harry comentou após algum tempo. – Nunca vi seu irmão tão vermelho por causa do sol. Ele parece um pimentão em tamanho gigante.

- Você não está muito distante disso. – Ginny contestou. Harry fez uma careta.

- Eu não estou vermelho daquele jeito. – Harry resmungou. – Só ombros e rosto, grande porcaria.

Ginny deu uma risadinha.

- Estou surpresa que eles tenham ficado duas semanas viajando, considerando o trabalho dos dois.

- Ron não vai voltar a jogar até pelo menos dois meses, pelo que parece. – Harry disse em voz baixa, alisando distraidamente uma mecha ruiva do cabelo de Ginny. – E Mike estava bêbado o suficiente para dar até um ano de férias para Hermione, se ela pedisse.

Ginny desencostou do peito de Harry e lhe lançou um olhar quando o sentira tenso e ficara terrivelmente quieto.

- Você está pensando no caso. – ela o acusou. Harry lhe entregou um olhar solene.

- Bingo. – e sequer tivera paciência de negar!

Ginny suspirou.

- Não adianta ficar pensando nisso agora Harry, por favor. – ele soltou um resmungo que Ginny não compreendera. – O que foi?

- Tem alguma coisa que eu deixei passar enquanto lia os documentos. Tive essa impressão, e não foi só uma vez. E, sendo realmente sincero, é uma das coisas que eu mais odeio quando acontece.

Percebe-se, Ginny pensou ao observar o semblante carrancudo daquele homem que ela achava tão admirável.

-Você quer ajuda? – ela perguntou após alguns segundos. – Eu costumo anotar o que considero mais importante em cada coisa que leio, isso ajuda muitas vezes.

Harry encarou Ginny por um tempo, e ela chegara até mesmo se sentir incomodado com a intensidade de seu olhar. Por fim, ele franziu o cenho e passou a mão pelos cabelos negros e bagunçados.

- Okay, Gin. Vamos brincar de caça ao tesouro. Nosso prêmio é o que nosso garoto assassino está procurando, e nossas pistas são todas aquelas caixas de informações.

- O que vamos procurar, exatamente? – Ginny ergueu as sobrancelhas quando Harry pulou da cama e em seguida estendeu a mão para erguê-la também. Diferentemente do semblante carrancudo de outrora, aquele Harry estava agora com uma expressão completamente compenetrada e calma. Mas Ginny conseguia praticamente sentir a intensidade que aquele homem agora irradiava.

Harry abriu a porta e passou, não desgrudando sua mão da de Ginny ainda.

- Qualquer coisa, desde indícios de personalidade até mesmo o ritual que até agora não pôde ser identificado. Se descobrirmos algo que vale realmente a pena, então muito provavelmente poderemos saber quando ele atacará em seguida.


Malfoy estava irritado.

Não, aquilo era pouco para descrever seu atual estado. Se homens pudessem imitar aranhas e leões, Draco sabia que estaria escalando as paredes do escritório de seu chefe e urrando como um lunático.

É claro que, se ele tentasse realmente fazer isso, sua única alternativa seria aceitar ser transferido para um manicômio, e de forma passiva.

À frente de seu chefe estava o antigo diário de Lucius Malfoy, do qual Nikolaievich já estava há pelo menos meia hora com os olhos grudados, ignorando até mesmo a presença frustrada de seu melhor Auror. Aquela espera o estava levando à loucura.

Mas não era por causa da espera que Draco estava furioso, não. Sua mente passava repetidas vezes às palavras que lera antes naquele diário, a letra de seu pai golpeando-lhe o cérebro e o peito, trazendo à tona todas as suas piores lembranças.

A primeira vez que lera aquelas palavras, sua primeira reação fora ficar paralisado, apenas, olhando inutilmente para aquele papel. Em seguida, viera a raiva, uma ira completamente cega, e o resultado disso fora a destruição quase completa do escritório de sua casa.

Muito depois, apenas quando já estava no Departamento, sua ira fora substituída pelo medo. Seria então que todas aquelas mortes estavam relacionadas a ele?

Mas aquilo não fazia o menor sentido, uma vez que jamais conhecera nenhuma das vítimas. Lembrou-se então das palavras de Potter, mas logo as descartou também. Potter também não conhecia nenhuma das vitimas. Nenhum deles conhecia, nem as próprias vítimas sabiam da existência uma da outra.

Mas aquela maldita linha de pensamentos o levara para outra nova e ainda mais sufocante: o inimigo agora tinha nome, sobrenome, face e, acima de tudo, passado. E o reconhecimento não lhe dera segurança, como um indício de que estaria chegando próximo a apreensão de um criminoso em potencial, apenas lhe aumentara a sensação de desespero.

Rostova estava na Inglaterra, realmente. Rostova era realmente organizado, ainda que em sua mente existisse um universo alternativo que apenas ele enxergava.

E Sarah estava sozinha, na trilha de um monstro que sequer tinha idéia de como realmente era.

Tudo bem, todos sabiam desde o inicio o quanto Rostova era potencialmente perigoso, especialmente após presenciar as atrocidades cometidas em cada assassinato, mas o fato de que Rostova estava ligado intimamente com seu passado era o suficiente para que suas pernas tremessem.

Nikolaievich finalmente terminara de ler o diário e arrancou a foto que estava grudada às páginas. Draco apenas o assistiu.

- Vou encaminhar esta foto à Hermione Granger. – Nikolaievich respondeu calmamente, como um verdadeiro líder em meio a toda aquela loucura recém-descoberta. – Encaminho também o diário? Você ainda vai demorar algumas horas para chegar ao Reino Unido, e talvez nessas horas eles talvez descubram o paradeiro.

- Envie o que quiser. – Draco respondeu com urgência. – Você sabe que provavelmente Potter vai meter as mãos nesses arquivos assim que souber da existência dos mesmos, então provavelmente é o melhor a ser feito. Mesmo ele não estando no caso -.

- Não estando no caso? – Nikolaievich ergueu as sobrancelhas, enquanto empacotava os arquivos, o diário e a foto. – Potter foi escalado ao caso assim que Madison caiu fora.

Malfoy quase tropeçara nos próprios pés ao escutar aquelas palavras.

- Por que ela está fora do caso?

- Não faço a menor idéia. De qualquer modo, você está certo. Agora que Potter está no meio será mais fácil para nós. Por mais que o Departamento seja bom ou diga ser, duvido que alguém tenha a agilidade que ele tem. Na verdade eu queria mandar os arquivos diretamente a ele, mas isso quebraria a hierarquia. – o russo admitiu a contragosto. Seu Auror já estava abrindo a porta. – Já vai?

- A próxima Chave do Portal sai em quinze minutos. – Draco franziu o cenho.

- O que você vai fazer até Hermione receber os arquivos ou até o Departamento abrir? – Nikolaievich perguntou com a voz séria, mas Draco percebeu claramente que ele estava gozando com a sua cara. Ignorou-o.

- Ficar aqui não vai adiantar nada também. Ela não está na Rússia.

Nikolaievich pensou em impedi-lo, mas não o fez. Por mais que fosse errado envolver um Auror emocionalmente envolvido e abalado com os últimos acontecimentos, ele não se sentiu capaz de retirá-lo da missão.

Enquanto seu chefe enviava a papelada, a única coisa que preenchia seu cérebro eram as lembranças de quase seis anos atrás.

O sangue de seu pai escorrendo por suas mãos. Os gritos de sua mãe. A voz desprovida de emoções de Voldemort...

... E os olhos negros e calculistas de sua executora, Nikki Rostova, a nova 'caloura' do Lorde das Trevas.


Já passavam das quatro da manhã quando Harry finalmente se sentira tendo algum progresso. Por mais que seus olhos estivessem gritando por descanso, seu corpo não sentia o mesmo, não com a excitação crescente no mesmo.

Ele olhou mais uma vez para as fotos das vítimas, não sentindo nem pena nem asco da situação em que cada uma delas fora encontrada, apenas refletindo.

Crianças. Adolescentes. Grávidas.

Nunca o fato de ser um ritual se mostrava tão presente em sua cabeça como naquele momento. Em um momento aquilo parecera tão óbvio que ele se surpreendia por ter até mesmo duvidado antes.

Crianças era o sinônimo de pureza e limpeza em grande parte das tradições; adolescentes simbolizavam a fase de transição, a mudança da vida infantil e inocente para a vida adulta; grávidas faziam uma analogia ao milagre, o milagre de dar a luz a uma nova vida.

Ironicamente, uma vida que seria considerada como pura, por ser uma nova criança.

O ciclo era óbvio, tanto quanto o fato de que todas as vitimas do ritual serem mulheres. Biblicamente, a mulher fora criada para ser a companheira do homem, aquela que lhe daria apoio e colo, a força terrena do mesmo. Não apenas a Bíblia considerava a mulher tão bem, mas em grande parte das outras. Por mais que parecessem ter um papel insignificante, eram sempre elas que usavam de inteligência e doçura, não de força, para atingir seus objetivos.

E poucas eram as vezes que falhavam.

Símbolo de força e vitória e transição. Harry franziu o cenho e coçou o queixo, atitude diretamente ligada aos tempos em que ele pesquisava artimanhas na Guerra. Ele já ouvira falar sobre algo parecido em algum lugar, tinha certeza. Quando finalmente conseguira se lembrar onde vira tais palavras, seus olhos se arregalaram e imediatamente ele encarou Ginny.

Ginny estava deitada no sofá, não mais tão concentrada na pesquisa quanto antes. Ela estava encolhida com um cobertor e a única coisa que Harry conseguia visualizar naquele meio eram os cabelos extremamente vermelhos. Ele sabia que ela já estava dormindo há algumas horas, e sentiu-se extremamente mal pelo que ia fazer em seguida, mas infelizmente era necessário. Ele sabia que os Aurores graduados na Academia do Canadá tinham o que ele precisava.

Harry se levantou e puxou o cobertor dela o suficiente para que revelasse a face.

- Ginny, querida.

Ele ainda precisara a chacoalhar suavemente por algumas vezes antes que ela finalmente abrisse os olhos.

- Já é de manhã? – ela sussurrou tolamente, esfregando os olhos com as costas das mãos. Harry não pôde deixar de sorrir com aquela cena.

- Ainda não, mas preciso de uma ajuda sua.

- Ajuda? – ela reclamou com a voz baixa. – Você assumiu o controle da pesquisa, me deixando só encarando com cara de idiota.

Harry girou os olhos.

- A primeira vez que fui tentar pedir opinião você estava dormindo no meu ombro. – Harry contestou. – E que seja... Gin, preciso de um livro seu dos tempos de Academia.

Ela franziu o cenho. Ginny obviamente não era o tipo de pessoa matinal.

- Pra que?

- Eu digo depois. Apenas me diga onde está.

Ginny bocejou e puxou o cobertor novamente, escondendo seu rosto.

- Está no sótão. Tem uma caixa enorme ali dizendo "Canadá". Todos os meus livros estão lá. – respondeu com a voz abafada, já dando sinal de que mais uma vez voltaria a dormir. Harry assentiu e saiu em disparada ao sótão.

Não se incomodando em sequer ligar a luz do local, ele sacou a varinha do bolso e murmurou "Lumus!", seguindo apressado procurando por qualquer canto que tivesse a maldita caixa. A sorte era que Ginny havia se mudado para lá há pouco tempo, deixando o local então ainda arrumado. Com isso, Harry fora capaz de encontrar a caixa rapidamente.

A caça pelo livro procurado fora igualmente frenético. Harry apenas deixara o corpo relaxar por meros segundos quando seus olhos caíram sobre a figura de um crânio desenhada sobre a capa e a escrita em letras negras.

Maldição, aquele livro era enorme. Harry retornou à sala e sentou-se próximo a Ginny, revirando as paginas como um louco.

Não demorou muito para que ele encontrasse os dois tópicos que procurava; o primeiro tinha um desenho enorme de uma circunferência feito por velas. Segurando a respiração por breves segundos, ele revirou o livro mais uma vez até encontrar o segundo tópico: um corpo estirado no chão, com braços e pernas estendidos formando uma bizarra imagem de estrela; em uma outra imagem na mesma página, o corte enorme nas costas, profundo o suficiente para se perceber apenas de olhar.

Ao ler o significado dos dois, Harry sentiu-se perdendo o ar e o chão ao redor, e a sensação fora ainda pior quando seguira o conselho de Ginny e jogara-se em direção a penas e pergaminhos, começando a escrever enlouquecido neles.

Carolyn Thomas… Jennifer Olsen… Natalya Markovna…

Catherine Eden... Olga Lievna... Maria Rachmaninovna... Teresa Ilva... Eileen e Daphne Delaney...

Camille Lamarck... Anya Volk... Ekaterina Olen... Tamara Abramova... Maria Ovcharova e Anastásia Rogachova...

Observando todos aqueles nomes escritos, Harry sentiu-se sufocado pelo numero de mulheres mortas e pelo súbito pensamento que começava a inundar sua mente. Lentamente, mais do que ele gostaria, ele começava a compreender o padrão em todas aquelas mortes, baseadas na leitura dos dois rituais e o que cada um simbolizava.

Sem realmente perceber o que fazia, Harry começou a embaralhar os nomes e os sobrenomes, e chegara apenas a alguma conclusão sobre o que fazer quando os primeiros raios de sol invadiram a sala, incomodando seus olhos cansados.

Franzindo o cenho em profunda frustração, ele finalmente compreendera como deveria usar aqueles nomes. Separou cada sobrenome – onde em algumas culturas era o nome de maior força em uma pessoa - e utilizou-se deles.

Quando finalmente chegara a alguma conclusão a respeito do real motivo da escolha de todas aquelas vitimas, Harry não conseguiu evitar um palavrão furioso escapar-lhe dos lábios; praticamente um urro, declarando guerra.

Ginny acordou sobressaltada, com a varinha já em mãos e descabelada. Olhou imediatamente para Harry sentado ao seu lado, que fechava os punhos com força descomunal e inclinava o rosto próximo aos joelhos, escondendo o rosto do mundo. Ela se assustou ao perceber que ele tremia como um alcoólatra em abstinência.

- Harry? – Ginny o chamou desesperada, jogando os cobertores para o lado e pulando imediatamente ao seu lado, colocando a mão em seu ombro. Harry não lhe respondeu, apenas continuou ali, tremendo e suando, ocupado demais em sua própria ira. Isso aumentou ainda mais o medo de Ginny. – Harry, por favor, fala comigo. Harry -.

Ela calou-se quando percebeu o pergaminho à frente dele, ao chão. Erguendo-o para que pudesse ler, ela visualizou apenas inúmeros nomes rabiscados e colocados em diversas posições. Encontrou-os repetidos em vários momentos e, quando visualizou as três ultimas palavras escritas no final do pergaminho, suas mãos soltaram o pergaminho como e o mesmo tivesse queimado suas mãos; seus olhos estavam arregalados e o ar faltara-lhe aos pulmões por meros segundos.

Com a letra garranchosa de Harry, Ginny conseguira ler claramente as palavras usadas em letra de forma: TOM MARVOLO RIDDLE.

Ginny quase gritara quando Harry colocara a mão fria sobre seu braço.

- Falta uma vítima, Ginny. – Harry respondeu com a voz rouca e baixa. Ginny engoliu em seco com o tom de sua voz e, principalmente com seu olhar. Ginny já o vira furioso, mas aquilo não era como da vez que Daniel tentara a arrastar pela rua. – Está vendo onde tem o M sublinhado?

O olhar atual de Harry era frio e calculista, e Ginny se surpreendeu ao compará-lo exatamente a de todos os Comensais que ela caçara nos tempos de Guerra; o mesmo olhar de um assassino.

- Como você chegou a essa conclusão?

Harry se levantou, puxando Ginny junto com ele.

- Harry es-espere! Eu não sei de quase nada a respeito de toda essa investigação, salvo o corpo de Catherine que eu vi, mas -.

- Eu coloco você a par de tudo no caminho. Mas são dois rituais. Cristo, eu não acredito que demorei a perceber isso.– Ginny se sentiu sendo arrastada por ele escada acima, enquanto ele resmungava algo sobre se trocarem e rumarem diretamente ao DICAT. - Quem quer que seja Rostova, quer entregar a própria vida para encarnar Voldemort em seu corpo.

Continua...

Notas: Sim, a fanfic continua em Hiatus, mas esse capitulo foi postado por eu já ter escrito mais de seis páginas no dia que publiquei o capitulo passado.

Sim, coisas ficando AINDA mais tensas, e acreditem, tudo irá só piorar e desmoronar! As revelações agora só vão crescer, e se preparem para emoçoes MUITO fortes para ambos os casais.

Espero que vocês gotem. n.n