A ruiva manteve os olhos na Rainha calculando rapidamente todas as saídas possíveis. Mas, nada! Uma das guardas que estava mais perto dela apertou o cerco rasgando um pouco a sua bochecha com a ponta da lança. Ao avistarem o sangue, a Momoko e a Hanna tentaram libertar-se apenas para serem paradas pelos 4 membros da guarda que as prendiam no lugar.
- Isso não é necessário, MajoLin. – disse a Rainha à guarda que a havia ferido.
A MajoHearth aproximou-se parado a um mero metro da ruiva.
- É melhor convocarem mais correntes. E, certifiquem-se que essas estão bem presas!
- Isso não é realmente muito hospitaleiro! – resmungou Doremi ao sentir o peso de mais correntes sobre o corpo. Ela mal se conseguia mexer. Todo o corpo estava coberto de correntes, prendendo-a contra a cadeira. Apenas a ponta dos dedos, que descansavam no fundo dos braços do cadeirão, a ponta dos pés – assentes no chão – e, a cabeça – erguida frontalmente com a força das correntes que lhe apertava o pescoço, estavam livres.
- Não é suposto sermos hospitaleiras quando temos de te apanhar como um demónio em fuga! – resmungou por sua vez a médica.
A Rainha observou durante um tempo a ruiva. Depois virou-se para o lado direito, caminhando até estar em frente à Bibi.
- Onde dizes-te que estava o arranhão na cara dela, minha querida? – a Bibi olhou rapidamente para a irmã presa. Depois suspirou encolhendo-se um pouco.
- Na cara, Majestade.
- Percebo. – A Rainha andou mais uns passos antes de voltar a postar-se em frente à Doremi. Olhando directamente para os seus olhos à procura de algo, a Rainha suspirou. Nada a não ser um ódio gelado. Voltando costas à ruiva subiu uns quantos degraus, observando o trono. Depois virando-se mais uma vez, recitou:
Lutas, mágoas e desgraças
Deixe-nos ver as suas marcas.
Na cara desta jovem mulher,
Eu procuro a verdade saber.
Assim que acabou de recitar e a luz da sua magia passou pela sala, as bruxas que se encontravam de frente para a ruiva suspiraram horrorizadas. A Rainha piscou rapidamente os olhos como se não acredita-se no que via.
Revirando os olhos irritada Doremi Harukase ergueu a sua face, mostrando toda a sua gloria. Os seus prémios e vitórias. As suas cicatrizes.
Um silêncio de arrepiar pousou sobre a corte quando todas as bruxas presentes observavam. Até mesmo os membros da guarda-real olhavam espantadas para a face de Doremi. Tentando imaginar. Tentando imaginar a dor. Tentando.
Ninguém conseguia imaginar o que teria causado a cicatriz que lhe atravessava a cara de um lado ao outro. Que instrumento teria sido usado para a cicatriz que lhe passava por cima do olho? O que lhe teria acertado para marcar de tal modo a parte esquerda da face com aquela pele cor-de-rosa, típica de queimado? E as três marcas que lhe atravessam a testa? E a cicatriz redonda perto do lábio? E o conjunto de linhas mais leves que lhe preenchiam toda a face?
- Como…
A voz de Bibi Harukase era a única coisa ouvida, em conjunto com o choro silencioso de Hanna.
- O quê? – veio a voz de Doremi – Vossa Alteza está sem palavras? – não recebendo resposta a ruiva deixou escapar um esgar, revirando os olhos – Típico! Bem, se já viram tudo o que queriam, podem tipo… Solta-me? Eu tenho mais que fazer. Sabem, por muito divertido que isto tudo esteja a ser e assim.
Descendo os últimos degraus rapidamente a MajoHearth aproximou-se em passos rápidos pegando no queixo da ruiva com um aperto firme e observando a face marcada. Nos seus olhos guardava uma luz de preocupação. Ignorando o modo como toda a pose de Doremi caiu para ficar hirta no seu lugar a bruxa continuou com o seu exame. "Estas marcas…" pensou ela para si.
- MajoHearth? – perguntou uma das bruxas.
Acordando do seu estupor a médica voltou para a escadaria:
- Peço perdão.
Um desdenhe de desprezo veio da ruiva. Esta cultura da corte era uma treta.
- Certo…. Bem eu estou à espera de libertação… - disse ela – Majestade. – completou com uma acentuação escarnecedora.
- Temo que ainda não sejais libertada, minha querida. Temo que este feitiço apenas tenha trazido mais perguntas.
- Espero que não estejam à espera que eu as vá responder.
- Pelo contrário, Doremi Harukase! – exclamou uma das bruxas do conselho, erguendo a mão fechada sobre algo – Tu irás de facto responder-nos! – exclamou atirando com um frasco transparentes – deixando ver um liquido esverdeado – para o pés dela.
Assim que o frasco quebrou contra o seu sapato todas as bruxas do conselho, mais a Rainha, começaram a recitar:
Na cabeça desta jovem
Pedimos as suas memórias
Guiem-nos e dêem-nos as respostas!
Enquanto recitavam, um fumo esverdeado saiu do líquido derramado da poção subindo em espiral sobre o corpo da ruiva, que tinha entretanto um olhar assustado, entrando devagar pela sua têmpora, pressionando entrada na sua cabeça. Com a última palavra do feitiço, uma luz começou a emanar na pele da ruiva tomando a sala.
Assim que conseguiram abrir novamente os olhos, as bruxas presentes na sala piscaram atordoadas com o aspecto da parede do trono pois esta parecia uma tela de cinema. Depois viraram-se para a ruiva que tinham presa e assustaram-se com a sua vulnerabilidade.
Ela estava assustada e olhava cheia de medo para a tela, como se nada de bom pudesse dali vir. A boca estava paralisada num trejeito de horror. Por fim conseguiu deixar escapar uma frase:
- O… O que vocês fizeram…?
A Rainha assustada com a voz frágil que vinha da pequena bruxa deu um passo na sua direcção e, assim que o seu pé pousou no chão, a tela acendeu-se chamando a atenção de todas e, imagens começaram a formar-se.
A imagem devagar formou-se. Havia uma completa ausência de luz. Um som começou a ser ouvido, como um murmúrio interminável. Subitamente um outro som foi ouvido, como se alguém tivesse batido com um taco de madeira na parede e, ao mesmo tempo partículas de um material começaram a cair sobre a imagem.
Tal e qual como num filme a imagem focou-se mostrando uma figura encolhida. Quase se mexer. As bruxas presentes na sala rapidamente se aperceberam que ela estava presa numa espécie de buraco e se os seus olhos observavam bem e a matéria á sua volta era mesmo terra, as bruxas apostavam que ela estava enterrada no chão.
A imagem aproximou-se novamente e as bruxas presentes na sala suspiraram horrorizadas. Era a Doremi. Estava toda encolhida abraçando os joelhos, puxando-os contra o peito. A cabeça estava toda encolhida, pois não tinha espaço para a esticar. Mais uma vez a imagem aproximou-se, deixando as bruxas verem a cara arranhada, a mão sangrenta, o golpe cheio de sangue seco na perna e o pulso inchando e claramente partido.
A ruiva balançava-se lentamente. Tentando manter um ritmo, mas obviamente demasiado cansada para se mexer muito. Os olhos estavam abertos mostrando grande dor e MajoHearth conseguia ver pelo modo como a dobra do olho esquerdo estava descaída, que a ruiva também deveria ter uma concussão. As bruxas olhavam horrorizadas para a imagem tomando em conta todos os detalhes.
Mais uma vez a imagem aproximou-se, enquadrando a cara dela e o som do murmúrio aumentou fazendo as bruxas perceberem que era a Doremi que murmurava. Tomando atenção elas conseguiram ouvir:
- Cow in meadow, sheep in snow, sun is shining red and gold, baby in cradle, bird on nest, moon is raising, time to rest.
Era uma canção de embalar. A ruiva não conseguia parar de a murmurar sem parar, era como se fosse a única coisa a mantê-la sã. E, talvez o fosse.
Ela estava obviamente magoada e assustada, mas para além disso, estava totalmente maltratada, como se não comesse ou bebe-se há dias. E isso assustou as bruxas. Até, mesmo os membros da guarda pareciam enojadas e horrorizadas.
Abruptamente a escuridão acabou quando uma espécie de portinhola foi aberta por cima da cabeça da ruiva, deixando entrar a luz desmaiada do pôr-do-sol. Braços fortes esticaram-se pegando nos ombros da ruiva, puxando-a do buraco. A imagem acompanhou a ruiva mostrando o lugar onde se encontrava – uma espécie de pátio interior gigante em terra batida.
A ruiva foi brutalmente posta de pé pelo homem que a tinha retirado do buraco, que se afastou rapidamente. As bruxas presentes na sala observaram horrorizadas as feridas que até então estavam escondidas, nas suas costas e barriga.
Doremi, apesar de obviamente fraca, mantinha-se de cabeça erguida e tronco direito. A face tinha perdido o ar que tinha quando presa – o de dor e medo – substituindo-o pela fachada fria e vazia que todos os membros da corte conheciam. À sua frente uma mulher observava-a criticamente. Atrás dela uma multidão de crianças, - tal como ela, que não devia ter mais de 14 anos – encaravam-na também. Todas com a mesma expressão de vazio. Desde da mais nova, que não parecia ter mais de 5 anos, até à mais velha, que aparentava ter apenas 19 anos. Por fim a mulher falou:
- Bem Ginger, aprendes-te a lição?
Ao não receber nenhuma resposta da ruiva a mulher estalou os dedos. Imediatamente o homem que havia puxado Doremi, sacou de um chicote e num movimento fluido chicoteou as costas da ruiva.
As bruxas observavam horrorizadas, o modo como todos na memória assistiam sem reagir e o modo como Doremi apenas semicerrou os olhos ao receber o golpe. A mulher falou mais uma vez:
- Tu irás responder-me! – ordenou – Ou preferes passar mais outros 3 dias no caixão?
A ruiva após 2 segundos respondeu numa voz incrivelmente neutra e clara:
- Lição aprendida Madame.
A mulher deixou um sorriso arrepiante tomar conta da sua face. Depois virou costas e exclamou, enquanto andava:
- Prepara-te para o jantar Ginger, eu não tolero atrasos!
A mulher continuou a andar até desaparecer, em conjunto com o homem que a acompanhava, pela entrada principal do pátio. Todas as crianças mantiveram-se no seu lugar. Após uns minutos um rapaz, de cerca de 12 anos, levantou subitamente a cabeça e como se fosse um sinal, 5 crianças avançaram na direcção da ruiva pegando com cuidado nos seus ombros apoiando-a para não cair. Depois começaram a ajuda-la a andar na direcção de um corredor escuro. O rapaz que tinha dado o sinal seguia-os agitado.
- Rápido! Não temos muito tempo! – ouviram-no sussurrar.
O que parecia mais velho assentiu, começando a andar mais rápido, arrastando com cuidado a ruiva ao longo do corredor.
A imagem começou a desvanecer-se, deixando ainda ouvir um comentário sussurrado de uma das raparigas:
- Como é que ela ainda está viva?
Assim que o ecrã se tornou preto, todas as bruxas presentes na sala do trono viraram-se para a ruiva.
Os soluços de Hanna eram ouvidos, assim como os sons calmantes que Momoko sussurrava, tanto para a bebé como para ela mesma.
Bibi observava o ecrã com os olhos vítreos. Emilie chorava silenciosamente sem se conseguir conter. Nicole olhava para Doremi com os olhos abertos cheios de preocupação. Sophie observava o ecrã com um ar desdenhoso.
MajoHearth postou-se em frente à ruiva observando-lhe as cicatrizes. Era como um mapa e, ali estava, na bochecha direita, o arranhão da memória que tinham visto.
As guardas que a cercavam baixaram todas as lanças. Perante elas estava uma sobrevivente e elas respeitavam isso.
Os membros do conselho estavam silenciosas como há muito não acontecia. Tentando absorver tudo o que viram.
A Rainha observava a sua prisioneira com dor. De tudo o que imaginara, esta não era de todo a situação que pensara.
Bruscamente a ruiva levantou os olhos, encarando todas as bruxas friamente.
- Próxima!
Hey! 2º parte!
Estou super entusiamada com estes capitulos! Por isso é que estou aqui a postar às 2:46 da manhã!
Espero que gostem! E eu sei que os feitiços estão uma treta, eu nunca fui realmente boa a poesia! ^_^'
Se alguma coisa tiver muito confusa, digam que tentarei melhor nos proximos capitulos!
É VERDADE! A musica que a Doremi canta é de um livro de Juliet Marilllier. Eu não consegui encontrar nenhuma referencia, e portanto está só de cabeça, por isso se alguém souber a musica e se estiver errada, digam para corrigir!
BACI!
Ines - O pc ainda não está bom, mas com muita ginastica consigo ainda escrever os capitulos, portanto no worry!:D A Momoko e a Hanna não estavam propriamente presas, estavam apenas a ser seguras pela guarda, para não fazerem nada que o conselho não quisesse que elas fizessem (tendo em conta que elas são contra tudo aquilo)!
