Pela primeira vez em meses, Hermione dormiu uma noite inteira sem sobressaltos, medo ou pesadelos. Acordou seriam onze da manhã, a sentir-se cheia de energia e de boa disposição. Saber que estava num lugar seguro fazia milagres.
Quando olhou para a cama ao lado da sua percebeu que Severus já se erguera e saíra do quarto. Vestiu-se por isso mesmo rapidamente e com informalidade e correu a procurá-lo.
Quase tropeçou num elfo doméstico que carregava toalhas no meio do corredor dos quartos com a pressa. Voltou atrás para o ajudar a apanhá-las do chão com um pedido de desculpas apressado e voltou a sair disparada com um sorriso nos lábios.
Encontrou finalmente Severus sentado na sala de visitas onde tinham entrado primeiro na noite interior. Segurava uma chávena de café na mão enquanto lia o jornal com uma expressão interessada. A roupa que Robspierre lhe tinha emprestado ficava-lhe bem. A camisa branca e as calças pretas faziam-no parecer mais o homem que conhecera durante anos. O sorriso que ela exibia alargou-se ainda mais.
"Bom dia."- Cumprimentou-o ela, sentando-se a seu lado no sofá.- "Levantado à muito?"
Severus ergueu os olhos do jornal para olhá-la e quase se engasgou com o café. Hermione exibia o sorriso mais radioso que ele vira em meses, fosse em quem fosse. Uma boa noite de sono parecia ter feito alguns pequenos milagres por ela. Os olhos dela tinham recuperado um pouco do seu antigo brilho e ela parecia… Feliz.
"Bom dia."- Respondeu ele escondendo o rosto por detrás do jornal, tentando ainda recuperar-se do choque sem que ela não percebesse o impacto que tivera.- " Na verdade, cheguei aqui a baixo à pouco. Talvez te tenha acordado quando saí do quarto. Josephine saiu para tratar de um assunto rápido e disse que voltava antes da hora de almoçar. Entretanto, tens aí o pequeno-almoço. Serve-te, por favor." – Sugeriu tentando parecer indiferente.
Hermione não precisou que ele a convidasse uma segunda vez. Foi com prazer que descobriu que com a boa disposição regressara algum apetite. Estava ela a comer um pedaço de croissant quando Severus falou novamente por detrás do jornal.
"Quando terminares" -Frisou ele. –"Quero falar contigo. Mas não te apresses por causa disso. Nenhuma notícia que eu te possa dar é tão importante que valha tu te engasgares."
A voz dele traiu um traço de humor e Hermione soltou uma gargalhada. Céus, como sentira falta de se rir. Era bom perceber que a noite também tinha sido boa para Severus.
Durante os minutos seguintes, Hermione comeu devagar sob os olhares atentos que Severus por vezes deitava sobre o jornal. Quando ele percebeu que ela terminara a chávena de café, pousou o jornal ao seu lado e cruzou os braços sobre o peito. O seu rosto exibia um meio sorriso.
"Ontem como sabes, passei algum tempo a conversar com Robspierre a sós depois de jantar. Confesso que fiquei surpreendido por não me fazeres qualquer pergunta sobre o assunto antes de dormires."- Observou ele, com ar zombeteiro.
"Eu achei que não valia a pena interrogar-te. Eu confio em ti para me contares as coisas, Severus. Além do mais, estávamos muito cansados."- Respondeu Hermione com um encolher de ombros.
Ouvi-la dizer que confiava nele encheu-lhe o peito com um sentimento de prazer que no entanto não demonstrou. Limitou-se a prosseguir.
"Tens razão, estávamos cansados. É por isso mesmo que agora te vou colocar ao corrente do que consegui descobrir. Não é muito por enquanto, mas tenho esperança que esta noite consiga mais alguma coisa."
Hermione continuou a fixá-lo com expectativa, e ele continuou.
" Robspierre tinha esperança que o pudesse elucidar sobre a situação real da Grã- Bretanha neste momento. Como deves de imaginar facilmente, foi-me impossível. Ele no entanto confirmou-me a informação sobre os paradeiros de alguns dos sobreviventes de Hogwarts."- Neste momento Severus fez uma pausa para dar tempo a Hermione para absorver a informação.
Ela pareceu ficar apenas pensativa e o sorriso evaporou-se do seu rosto. Mais uma vez, suou o alarme para Severus. Aquilo não era nada próprio da sua antiga aluna. Tinha-a visto saltar por muito menos no passado.
"Quem?"- Acabou ela por perguntar ao fim de vários minutos, sem o olhar nos olhos.
"Hoje ele ainda me vai trazer uma listagem oficial, quer que saibas disso."- Disse ele lentamente, avaliando o efeito de cada palavra. – "Mas para já posso dizer que a maior parte dos alunos do primeiro e segundos anos que ajudaste a evacuar estarão a esta hora em Beauxbatons. O que é muito bom. E junto deles… Está Minerva."
"Minerva? A nossa Minerva McGonagall?"-Finalmente Hermione demonstrou real emoção.
Quando ergueu o rosto, Severus conseguiu vislumbrar lágrimas. De alegria?
Severus não conteve o sorriso que se apoderou dos seus lábios então.
"Sim, Hermione. A nossa Minerva." – Confirmou ele. –" Ela está com as crianças em Beauxbatons para ter a certeza de que não sofrem demasiado. Muitas das famílias deles estão a chegar igualmente a França e a reunir-se-lhes."
Hermione soltou um som pouco específico e saltou ao pescoço de Severus num impulso.
Ele sentiu-se profundamente aliviado. Isto sim já se parecia mais com a Hermione Granger que ele sempre conhecera.
"Mais tarde dir-te-ei se mais alguém da Ordem está aqui, prometo-te." – Sussurrou ele, abraçando-a contra si. Naquele momento sentia-se estranhamente possessivo dela. Nunca ninguém tivera uma reação daquelas com ele. Sabia… Bem.
"Hum hum."-Murmurou ela, contra a camisa dele.- "Mais alguém que conheçamos?"
Severus hesitou um pouco antes de responder. Sabia que ela e o seu afilhado tinham sempre tido vários problemas.
"Na verdade, sim."- Confessou ele, tentando soar natural.- "Draco Malfoy."
Hermione afastou-se do peito dele para o poder ver. Parecia surpresa.
"Draco? O teu afilhado? Onde está ele?"- Inquiriu ela.
"Com mais alguns refugiados… Suspeitos." – Limitou-se a sugerir Severus.
"Na prisão."- Concluiu Hermione, com expressão séria.
"Provavelmente."- Assumiu Severus, a custo. Sentia um nó só de pensar no miúdo atrás das grades.
Hermione pousou uma mão no rosto dele. O olhar dela estava triste e o sorriso era frágil, mas havia uma certa resolução algures que o deixou assombrado.
" Como o tiramos de lá?"- Perguntou ela.
Isto sim, chocou Severus. Ela estaria mesmo a dizer aquilo? Ela leu-lhe na expressão como num livro aberto. Sim, começava a conhecê-lo ao fim daquele tempo.
"Ele é teu afilhado, Severus. Tu és certamente a pessoa mais indicada para tomar conta dele neste momento. E no fundo, ele não é assim tão insuportável. Parvo sim, muito. Mas acho que consigo aturá-lo, se for necessário. Não o podes deixar na prisão."
"Mas vocês nunca se suportaram…"
O sorriso dela tornou-se mais genuíno e a outra mão dela juntou-se à primeira no seu rosto.
"Nós éramos miúdos. Todos nós. Não passávamos de crianças. Mas neste momento… Até Malfoy é melhor do que nada. Ele é uma parte das nossas vidas, alguém que conhecemos e que ainda está a respirar. E precisa de ti."- Concluiu ela como se fosse a coisa mais lógica do mundo.
Ele nunca tinha sequer esperado que ela se alegrasse com o facto de Draco estar vivo, quanto mais querer tirá-lo da prisão. Ele sabia que se estivesse na situação dela com um dos seus antigos atormentadores não mexeria uma palha. Isso só provava o quanto Hermione era madura e generosa. Se sobrevivessem a tudo aquilo, ela seria uma mulher incrível.
"Obrigado."- Agradeceu-lhe Severus com um sorriso, enquanto lhe acariciava o cabelo com uma mão.
Hermione apenas assentiu.
"Severus, Hermione… Já cheguei." – Ouviram a voz de Josephine algures.
Hermione saiu do colo de Severus e sentou-se novamente ao lado dele no sofá numa posição menos constrangedora.
Também Severus se recompôs e pegou novamente no jornal antes de Josephine entrar na sala, fingindo ler as notícias com uma expressão aborrecida.
Josephine vinha a puxar os óculos de sol do rosto e trazia vários sacos nas mãos. Estava vestida com uma elegância que Hermione quase invejou.
" Por momentos quase temi que se tivessem sumido. A casa está tão silenciosa. Oh, Hermione. O que se passou, ma petit? Tens os olhos vermelhos. Estiveste a chorar?" – Preocupou-se Josephine, ajoelhando-se ao lado dela para a ver melhor.
Hermione tentou oferecer-lhe o seu melhor sorriso.
"Severus deu-me boas notícias sobre alguns amigos nossos. Estão aqui em França. Vivos." – Confessou Hermione.
Josephine sorriu também ao ouvir aquilo. O seu sorriso era verdadeiramente fascinante, até mesmo para Hermione. Fez o gesto de lhe limpar as últimas lágrimas, como se fosse mãe dela.
"Assim está melhor, ma chère. Cest très jolie para chorar assim. Corre ao quarto e passa o rosto por água fria, enquanto eu e Severus tratamos de colocar o almoço na mesa oui?"
Hermione levantou-se e saiu para o corredor, deixando Josephine a sós com Severus.
"Ela é uma rapariga très fantastic, Severus. És um homem de sorte."- Comentou Josephine quando teve a certeza de que Hermione já não os iria ouvir.
"Porquê?"- Perguntou Severus, fingindo-se desentendido.
"Ora, Severus. Eu não sou cega. Nem o Antoine, apesar de por vezes ele andar tão exausto que já nem encontra a cama. Mas faz-me um favor, não a faças chorar mais. Ela merece sorrir todos os dias, pobrezinha. E agora vem ajudar-me com o almoço. Passei pelo meu restaurante favorito e trouxe algumas coisas típicas que gostaria que experimentassem."
Obedientemente, Severus seguiu-a até à cozinha apoiado na bengala e a pedido dela, usou um feitiço para colocar a mesa.
Era estranho sentir-se humano e esatr com outras pessoas. Mas não era de todo desagradável.
