"Mione, você não vai acreditar nisso."

Luna a puxou em direção à janela da torre.

"O que foi? Ah, por favor me diga que não são os advogados de Londres. Ainda não estamos nem perto de prontos. Não estou vestida. E Harry nem está aqui."

"Não são os advogados. Olhe."

Mione enfiou a cabeça pela janela estreita.

À distância, serpenteando pela estrada em direção ao barbacã do castelo, vinham as cores alegres e familiares dos Cavaleiros Montados de Morânglia em West Yorkshire. Acompanhados pela seção irmã das Donzelas de Cressida. Seus estandartes tremulavam na brisa e a luz do sol cintilava nas armaduras.

"O duque conseguiu", Luna comemorou, segurando o braço de Mione. "Ele os convenceu a voltar."

"Suspeito que você também tenha algo a ver com isso", Mione disse. "É óbvio que Sir Neville tem suas próprias razões para voltar. Mas não importa o porquê de eles estarem aqui. Só importa que estejam."

Uma lágrima boba surgiu no canto do olho dela. Mesmo depois de tudo que aconteceu no dia anterior, eles não a abandonaram. Eles continuavam com ela, continuavam seus amigos.

Eles ainda acreditavam.

Não duvide.

As poucas horas seguintes foram de atividade frenética.

A cozinheira e as donzelas se ocuparam da cozinha.

Os cavaleiros foram treinados novamente em serviço de mesa.

Duncan sumiu com Harry para que este tomasse banho, fizesse a barba e provasse o paletó, que o criado ajustou antes de lustrar os sapatos.

Luna gastou quase uma hora e muita paciência na missão de domar o cabelo de Mione.

Quando a vibração das rodas de carruagem soaram, se aproximando da entrada do castelo, Mione não conseguiu se obrigar a ir olhar. Luna teve que fazer isso.

"Sim", ela disse. "São eles. Estão aqui."

"Quantos são?", Mione perguntou.

"Duas carruagens. Três... Não, quatro homens no total."

Quatro no total? Oh, céus. Somente dois eram os advogados. Os outros deviam ser... médicos, testemunhas, talvez assistentes do Lorde Chanceler?

Ela andava de um lado para outro, apenas esperando que tudo estivesse bem lá embaixo. Duncan os receberia e conduziria ao salão e então seria hora de...

Uma batida na porta.

Potter.

"Você está pronta?" Ele lhe ofereceu o braço e juntos percorreram o corredor. "Não se preocupe com nada. Só fique perto de mim."

"Eles não vão estranhar se eu ficar grudada do seu lado o tempo todo?"

Ele entortou o canto da boca.

"Acredite em mim, nenhum dos meus advogados vai ficar surpreso de encontrar uma mulher linda grudada em mim. Isso só vai estimular a impressão de que sou o mesmo de sempre."

A reputação dele não era o motivo das preocupações de Mione. Ela duvidava muito que os advogados estivessem acostumados a vê-lo com mulheres como ela.

"Espere." Mione o segurou.

"O que foi?"

"Eu... eu tenho que lhe contar algo."

"Hum. Certo. Tenho certeza de que deve ser algo ótimo, mas que tal esperar até depois dessa reunião crucial para a qual estamos nos preparando há uma semana?"

"Não dá para esperar", ela disse, puxando a manga dele. "Tem algo que você precisa saber. Agora mesmo."

Quando Mione conseguiu, enfim, a atenção dele, quase perdeu a coragem.

Ela se obrigou a falar.

"Eu não sou linda. Nem um pouco."

Ele franziu o cenho e apertou os lábios como se fosse fazer uma pergunta, mas esta pareceu ficar... presa na garganta.

"Eu devia ter lhe contado isso há muito tempo. Você não sabe como isso tem me preocupado. É só que... Ninguém nunca me chamou de linda. Ninguém nunca fez com que eu me sentisse linda. E eu não resisti e aproveitei, mesmo sabendo que era uma confusão. Mas você precisa saber disso agora. Se nós entrarmos naquela sala juntos, eu agarrada no seu braço... Isso vai ser a evidência mais clara de que você está cego. Eles não vão entender que diabos eu estou fazendo do seu lado."

"Mione." Ele passou a mão pelo braço dela.

Ela se afastou.

"Eu não estou querendo elogios. Sério. É importante que você acredite e entenda isso. Eu não sou linda, Harry. Nem bonita ou bonitinha. Tampouco atraente. Nem mesmo passável. Eu sou extremamente comum. Sempre fui. Nenhum homem jamais me deu atenção."

"Muito bem. Então você não é linda."

"Não."

"De todos os seus mistérios e revelações..." Ele pousou as mãos nos ombros dela. "Esse é o maior segredo que você tem guardado de mim."

"Sim." Ela tentou alcançá-lo.

Harry firmou as mãos, não permitindo que ela se movesse.

"Não." Ele a fez recuar e encostar na parede, mas as palavras continuavam transbordando dela. Palavras tolas, inúteis.

"Pareceu inofensivo, no começo. Eu nunca pensei que isso pudesse causar tantos problemas e eu disse a mim mesma que não havia razão para você saber a verdade. Só que agora... agora outras pessoas estão aqui. E você quer que eu me passe por sua amante, e..."

"Eu não quero que você se passe", ele disse. "Você é minha amante."

Ela levou as mãos ao rosto.

Maldita vaidade. Agora o futuro dele estava em risco.

"Não acredito que isso esteja acontecendo", ele disse. "Esta... esta... é sua grande e vergonhosa confissão. Você me diz que não é linda." Ele riu. "Isso é um absurdo."

"É?"

"Claro. Isso não é nada. Você quer ouvir um segredo realmente horrível, Mione? Ouça o meu. Eu matei a minha mãe."

Harry a sentiu se encolher ao ouvi-lo, evidentemente chocada.

Ele não a culpava. Era uma revelação horrível. Não era agradável ouvir aquilo – algo que o castigava há tempos.

"Minha mãe ficou em trabalho de parto por mais de trinta horas para me colocar neste mundo e morreu menos de uma hora depois", ele disse. "Eu a matei. Foi isso que meu pai me disse, nessas mesmas palavras, quando eu tinha idade suficiente para entender."

As lembranças continuavam muito vivas.

Toda vez que ele chorava, toda vez que ele tremia de frio, toda vez que caía e queria um pouco de carinho. Seu pai o pegava pelo colarinho e o arrastava pelos chãos de mármore até jogá-lo diante do retrato em tamanho natural da mãe. Pare de choramingar , menino. Ela não pode enxugar suas lágrimas agora, pode? Você a matou.

Deus, como ela estava linda naquele retrato. Cabelos ruivos, olhos verdes, em um vestido azul-claro. Um anjo. Ele costumava rezar para ela. Pequenos pedidos blasfemos por milagres, perdão, brinquedos... Qualquer coisa que pudesse mostrar que ela o ouvia.

Mas ela não o ouvia.

Ela tinha morrido.

Ele nunca mais rezou para nada desde então.

"Todos os criados", ele disse, "babás, governanta, tutores... eram instruídos severamente para não demonstrar afeto a mim. Nada de abraços ou beijos. Nenhum carinho ou consolo. Porque essas seriam as coisas que minha mãe teria me dado, e eu não as merecia, porque ele me culpava pela morte dela."

Ele sentiu que Mione ficava sem ar.

"Potter, isso é horrível."

"É mesmo", ele concordou.

"Ele estava completamente errado em tratar você dessa maneira."

"Estava. Ele foi um vagabundo cruel e nojento. Vamos só dizer que eu não ouvi muitas histórias na hora de dormir."

"Eu... não tem sentido dizer isso, mas eu sinto muito."

"Claro que tem sentido", ele encostou a testa na dela.

"Tem todo o sentido. E mais tarde, se você quiser me levar para cama e passar dias acariciando meu cabelo, vou aceitar com alegria." Ele se afastou, colocando certa distância entre os dois. "Mas isso será mais tarde. Neste momento, estamos falando de você. Da Mione que não é linda."

"Eu conheço mulheres, Mione", ele continuou. "Já conheci mulheres demais." Ele tinha passado anos procurando pelo conforto físico que lhe foi negado na infância, sempre evitando ligações mais profundas. "E eu percebi, logo naquela primeira tarde, que você é diferente de qualquer uma que eu conheci antes. E isso me deixa feliz. E se os homens nunca prestaram atenção em você, também fico feliz, porque eu sou um malandro egoísta. Do contrário, você estaria com algum outro homem, em vez de estar aqui comigo."

"Mas não importa o quão apertado eu abrace você, o quão fundo eu entre em você, estou sempre sentindo que existe uma pequena parte de você que não consigo alcançar. Alguma coisa que você nunca entrega. Seu coração, eu supus. Ah, mas eu quero isso. Eu quero você toda. Mas eu não consegui pedir essa coisa que eu claramente não mereço."

Harry sentiu que ela tomava fôlego para protestar, mas ele a interrompeu antes que começasse.

"E isso não tem nada a ver com meu nascimento ou minha infância", ele disse. "Tenho idade suficiente para perceber que o tratamento que recebi do meu pai foi de uma crueldade sem sentido. Mas tem a ver com tudo que aconteceu desde então. Você acha que as feições do seu rosto tornam você comum? Eu sou feio por dentro. A Inglaterra inteira sabe disso. E depois de ler minha correspondência, você também deve saber. Você organizou uma montanha de malfeitos meus. É claro que você levantaria uma muralha ao redor do seu coração. Você é uma mulher inteligente. Como poderia amar isto? Como alguém poderia?"

"Harry." A voz dela vacilou.

"E agora eu fico sabendo que isso... isso... é o que você está guardando. Essa é a razão da sua relutância. Você não se acha bonita o bastante. Para um homem cego. Cristo, Mione. E eu pensava que eu era fútil."

As palavras saíram mais duras do que ele pretendia. Então Harry as acompanhou de beijos. Suaves, calmantes, no rosto, no pescoço, na curva pálida e ascendente do ombro... Abençoada seja essa mulher e sua vaidade tola, absolutamente humana.

Talvez ele nunca soubesse como ser o homem que ela merecia, mas isso?

Isso ele sabia como consertar.

"Mione", ele gemeu, apertando o corpo contra o dela, "você me deixa louco de desejo. Não consegue imaginar."

Ele começou a levantar as saias dela.

"O que você está fazendo?", ela exclamou.

"Isso mesmo que você está pensando."

"Não podemos. Os advogados. Eles estão lá embaixo, esperando."

"Isto aqui é mais importante", ele afirmou.

"É mais importante me agarrar no corredor do que salvar seu título?"

Ele ficou imóvel.

Então beijou os lábios dela.

"É", Harry respondeu, uma afirmação simples, solene e sincera, que ele fazia com tudo que lhe restava.

Corpo e alma.

Que os advogados e o ducado se danassem. Não havia nada que valesse a pena defender em sua vida se ele não conseguisse fazer Mione entender isso.

"Eu já não consigo mais julgar a aparência da beleza", ele disse. "Mas eu conheço o som dela. Ela soa como o fluxo de um rio de mel doce e silvestre. A beleza cheira a alecrim e tem sabor de néctar. A beleza espirra como um esquilo."

Ela sorriu.

Aquele sorriso lindo.

Como ela podia duvidar do efeito que tinha sobre ele?

"É assim que você é comum?" Ele acariciou o seio dela com uma mão, enquanto com a outra abria o fecho da calça. "É assim que eu não acho você atraente?"

Não havia tempo para preliminares ou refinamentos.

Somente para união.

Ele abriu caminho em meio às anáguas, descobrindo que ela estava tão pronta quanto ele – e pôs as duas mãos no traseiro dela, levantando-a do chão e pressionando-a contra a parede.

Ela segurou firme no pescoço de Harry, envolvendo sua cintura com as pernas.

E então ele entrou.

"Eu te amo." Dizer aquelas palavras – as palavras que lhe foram negadas por tanto tempo, até que ele negasse que elas tivessem qualquer significado –, droga, como era bom.

E dizer aquelas palavras enquanto entrava nela era maravilhoso.

"Eu te amo, Mione." Ele enfiou fundo e firme, aconchegando-se cada vez mais a cada movimento de seus quadris. "Eu te amo. Você. Linda... Sedutora... Inteligente... Maravilhosa... Você."

Ele parou dentro dela, embainhado até a guarda. Ele a apertava contra a parede e os dois se esforçavam para respirar. As coxas dela tremiam de encontro à suas.

Não havia como eles ficarem mais próximos.

Ele estava o mais dentro dela possível, entrando ao máximo a cada estocada. Mas seria suficiente? Ele conseguiria tocar o coração dela?

Harry tinha que saber.

Ele fechou os olhos e encostou a testa na pele doce de Mione, enquanto aquela voz antiga, insidiosa, trovejava em seu sangue.

Você não merece isto.

Você não a merece.

Mas ele tinha que pedir assim mesmo.

Ele então falou as palavras mais difíceis de todas.

"Me ame."