Capítulo 25- "3° dia"

- Então esse é o pequeno Sawyer?- disse Sayid acariciando a cabecinha do menino que estava no colo de Kate.

- È o clone dele!- brincou Kate.

O dia ainda não havia clareado totalmente e o grupo já se preparava para partir. Jack contara a Sayid e Locke que não iria com eles pelo bem de Ana-Lucia, do bebê e de Kate. Sayid concordou com ele, embora tenha ficado preocupado em deixá-lo ali no meio da mata com duas mulheres e uma criança para tomar conta. Mas era a única solução, ele sabia. Levá-las com eles seria um risco desnecessário, até porque não sabiam se seriam bem sucedidos em sua missão.

- Devemos ir, Sayd!- disse Locke. Rosseau saiu na frente, os esperava além do córrego.

Jack deu a Pedro alguns analgésicos para o ombro, um pedaço de gaze e álcool para que pudesse continuar cuidando do curativo. Sayid se aproximou de Jack e perguntou:

- Você precisa de mais munição?

- Não.- Jack balançou a cabeça.

- Saiba que eu não fico muito tranqüilo sabendo que você ficará aqui sozinho com elas.

- Eu sei Sayid, mas não temos como sair daqui. Ana Lucia não tem condições de andar.

Sayid assentiu dando um tapinha amigável em Jack.

- Então vou indo. Espero nos vermos muito em breve.

- Eu também.- disse Jack. – Boa sorte, e que vocês encontrem o Sawyer.

Locke e Michael apertaram a mão dele, um de cada vez.

- Tenham muito cuidado.- disse Kate. – Sabemos do que essas pessoas são capazes.

O grupo partiu. Estavam divididos agora. Jack abraçou Kate.

- Vai ficar tudo bem, amor.

- Eu sei, você está aqui!- ela disse se aconchegando a ele enquanto embalava James em seus braços.

- Eu gostaria muito de tomar um banho.- Jack falou.

- Eu também.- falou Kate. – O córrego é muito longe daqui?

- Pedro e Rosseau disseram que não.

- Podíamos ir até lá, pegar algumas frutas nas árvores e tomar um banho, o que acha?- Kate indagou sorrindo.

- Eu acho que você já está me tentando!- ele disse, divertido.

- Ora Jack, vamos! Não demoramos nada. Ana precisa de frutas frescas.

Ele deu um beijinho na testa dela.

- Então está bem!

- Eu vou levar o James pra mamar, já volto.

Kate entrou na tenda. Encontrou Ana Lucia sentada no cobertor, parecia bem mais disposta, o rosto corado.

- È bom ver você assim.- falou Kate. – Como está se sentindo?

- Como se tivesse sido atropelada por um caminhão.- ela gracejou. – Mas vou sobreviver. E você James, por onde andava, moço?

- Não resisti e levei ele para exibir para os outros.

Ana Lucia o pegou.

- Eles já partiram?- seu semblante era triste.

- Sim.- Kate afirmou.

Ana respirou fundo:

- Vou tentar não pensar nisso, tenho meu bebê pra cuidar agora.

O menino começou a procurar pelo seio dela instintivamente. Ana Lucia riu:

- Mas você é mesmo muito guloso! Já quer mamar outra vez?

- Você está com fome?- Kate indagou.

- Tomei o leite que você deixou aqui pra mim, mas ainda estou faminta.

- Eu e o Jack vamos até o córrego pegar água e colher frutas. Voltamos logo, você vai ficar bem?

- Eu vou sim. Não se preocupe.

James esperneou impaciente, exigindo o peito de sua mãe. Ela o aconchegou junto de si, ele se acalmou assim que conseguiu mamar. Kate tirou do bolso de trás da calça a sua pistola e depositou com cuidado ao lado de Ana Lucia.

- Está com a trava, mas está carregada. Pra uma emergência!

Ana-Lucia assentiu com a cabeça. Kate foi até a entrada estreita da tenda.

- Ah, e antes que eu me esqueça, James precisa trocar a fralda.

- Já percebi.- Ana falou torcendo o nariz. Beijou a cabeça do bebê. – Amo você meu bebê. Que olhos tão lindos que você tem.- ela falava carinhosa, com a voz doce.

Kate saiu, encontrou Jack guardando as garrafas de água vazias na mochila.

- Podemos ir, doutor?- ela indagou erguendo a sobrancelha.

Ele riu.

- Esse seu olhar está muito suspeito! Vamos.

Deram as mãos e saíram caminhando. O córrego estava mais para lago, não era mesmo muito longe, e ao seu redor havia várias árvores frutíferas. Kate subiu logo em uma mangueira, derrubando com facilidade algumas mangas suculentas. Jack tirou a camisa e os sapatos molhando os pés na água. Kate tirou uma faquinha do bolso da calça e cortou um pedaço de manga, comendo-o com vontade.

- Está muito doce essa manga!- ela disse sentando-se ao lado de Jack.

- Eu quero provar.- Jack falou.

Ela colocou a manga de lado e beijou os lábios dele. Jack riu e pegou a manga das mãos dela, junto com a faca cortando um pedaço para si. Kate levantou-se e despiu a camiseta e as calças, ficando de calcinha e sutiã. Jack admirou o corpo dela à luz do sol. Ela colocou o pé na água disposta a nadar.

- Vem, Jack!- ela disse chamando-o com o dedo.

Ele colocou a manga de lado e tirou as calças ficando somente com o boxer. Kate olhou o ferimento na perna dele.

- Amor, isso deve estar doendo, né?

- Não se preocupe!- ele disse agarrando-a.

Kate sorriu marota e o beijou. Jack soltou o fecho do sutiã dela, tirando-o. Os dois entraram na água abraçando-se e beijando-se sem parar, jogando água pra cima. Sentiu Jack acariciá-la por debaixo d'água e sussurrou em seu ouvido:

- Não podemos demorar!

- Nós não vamos demorar, eu prometo!- ele disse fazendo uma carícia mais ousada nela, que gemeu mordiscando o ombro dele.

- Jack, não faz assim...

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Na tenda, Ana Lucia havia acabado de trocar a fralda do seu bebê. Beijava a barriguinha dele.

- Você é a coisa mais fofa da mamãe! È sim...

Viu um par de pernas passar em frente à tenda pela fresta. Sorriu e falou:

- Jack, Kate! Onde estão as frutas? Vocês só foram colhê-las ou...

Não ouviu resposta. Mas continuava ouvindo o barulho de passos lá fora.

- Jack! Kate!- chamou outra vez.

Ainda sem resposta. Seu coração começou a bater mais rápido e instintivamente ela pegou a arma que Kate lhe deixara.

- Kate, é você quem está aí? Jack?- perguntou mais uma vez.

Olhou para James que estava bem quietinho. Embrulhou-o na manta e se levantou com muito esforço, fazendo careta por causa da dor. Segurava com um braço o bebê e na outra mão tinha a arma já destravada, pronta para atirar. Saiu da tenda e não viu ninguém, mas sentia que estava sendo observada. De repente, seu medo ganhou vida e dois homens e uma mulher saíram de trás das árvores.

- Para trás!- ela gritou. – Para trás ou eu vou atirar em vocês, filhos da p...!

A mulher sorriu sarcástica:

- Não vai atirar em nós Ana, não quer machucar o seu filho.

Ana Lucia deu um tiro pra cima.

- Experimentem chegar perto de mim.

O bebê começou a chorar por causa do barulho do tiro.

- Me desculpe filhinho, mamãe está tentando nos proteger!- ela disse para o filho, embalando-o no braço com dificuldade.

Os três ficaram encarando ela, sem se aproximar muito. Ela não sabia, mas estavam fazendo aquilo para distraí-la porque um homem mais alto e mais forte do que os dois que já estavam de frente pra ela surgiu por trás e agarrou-a aplicando no braço dela uma seringa. Ela estremeceu, o braço ficou mole deixando cair a arma no chão. Mesmo assim, era nítido o esforço dela para segurar o bebê. A mulher o tomou dela. Ana Lucia desmaiou, tombando no chão.

- Certo, a pegamos!- falou um dos homens.

- Ele não é lindo, Danny?- disse a mulher sacudindo James em seus braços. – Será que podemos ficar com ele?

- Eu não sei Colleen. Agora não temos tempo para isso, precisamos pegar os outros dois que estão no lago.

- Vamos esperar que eles voltem.- sugeriu o outro homem. – Estão desprevenidos, será fácil capturá-los aqui.

Danny concordou, parecia ser o chefe daquele pequeno grupo. Admirou o bebê nos braços de Colleen.

- Se não houver objeção, ficaremos com ele. Eu soube que a mãe será "apagada".

- E quanto ao pai?- indagou Colleen.

- Não sei, mas parece que Ben tem planos para ele.

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Depois daqueles quatro dias de provações, Jack e Kate finalmente podiam curtir a companhia um do outro sem problemas, sem interrupções, ou pelo menos era assim que pensavam enquanto namoravam à beira do lago. Estavam ambos deitados sobre suas próprias roupas estendidas na grama, nus. Em silêncio, os dois se deixavam banhar a luz do sol, abraçados sentindo o calor do corpo um do outro.

- Sempre depois que faço amor com você eu me sinto novo, curado de tudo.- comentou Jack sorrindo para ela.

Kate riu dando um selinho nos lábios dele:

- Eu me sinto da mesma forma.

- Precisamos voltar!- ele disse levantando-se e pegando suas roupas.

- Sim, Ana está com fome. Precisamos levar as frutas, além disso, não me sinto bem a deixando muito tempo sozinha com o bebê.

Vestiram-se e começaram a refazer o caminho até o acampamento improvisado. Estavam tranqüilos, trocando olhares apaixonados. Ao chegarem, Kate correu até a tenda com algumas frutas para Ana-Lucia, mas assustou-se ao constatar que ela não estava lá.

- Ana! Ana!- chamou pelo acampamento.

- O que houve?- indagou Jack.- Ela não está aqui?

Kate preocupou-se e os dois saíram procurando-a desesperados pelos arredores. Nada. Ela ouviu um dos arbustos se mexerem, voltou seus olhos na direção do barulho, mas já era tarde. Sentiu uma dor aguda no pescoço ao ser atingida por um dardo tranqüilizante. Seu corpo inteiro entrou em convulsão. Jack exasperou-se com aquilo e sacou sua arma, atirando na direção de onde o dardo viera. No entanto, suas balas acabaram e ele não conseguiu atingir ninguém. Num impulso incontrolável, colocou Kate em suas costas e tentou fugir com ela, mas foi atingido por um dardo na perna direita, caindo quase imediatamente, desfalecendo junto com sua amada.

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Nikki já estava cansada de correr sem saber do que, desde que fugira daquele estranho lugar com a ajuda de Alex há duas noites parara muito pouco para descansar. Só conseguia pensar que precisava chegar logo ao tal acampamento onde seria acolhida, embora não tivesse a menor idéia de como faria isso. Só seguia direto sem parar. Alex a aconselhara a seguir para o norte, mas a impressão que ela tinha era a de que estava andando em círculos, e que não se afastara muito do local de onde fugira.

Resolveu parar, respirando com dificuldade, as mãos apoiadas nos joelhos. Tirou a mochila das costas e bebeu mais um gole da água que vinha economizando. Sentou-se no chão e fechou os olhos escorando-se em uma árvore. Estava muito suja e suada, os longos cabelos loiros pregando na testa. De repente, o som de passos se aproximando a assustou, e seu coração ficou em alerta.

- Ai meu Deus, ai meu Deus! Eles me descobriram, vão me pegar de volta.- murmurou.

Não tinha sequer uma arma para se defender. Começou a prever o próprio fim, aquelas pessoas a capturariam de volta e muito zangadas acabariam por matá-la. Não queria morrer, imploraria por sua vida, faria o que eles quisessem. Os passos se aproximavam cada vez mais, até que uma mulher desgrenhada de aparência rústica apareceu diante dela e apontou-lhe uma flecha para seu peito. Nikki gritou, histérica:

- Não, não, por favor! Não me mate, podem me levar de volta eu prometo que não irei mais fugir.

- Nikki!- gritou Pedro surgindo do meio das árvores.

- Pedro? È você? Como...?

- Danielle, afaste essa flecha dela, por favor, é a Nikki.- Pedro pediu.

Rosseau se afastou olhando para a mulher, desconfiada. Locke, Michael e Sayid se aproximaram para vê-la também.

- Eu pensei que nunca mais ia ver você.- disse Pedro, abraçando-a.

- Você fugiu do acampamento dos Outros?- indagou Sayid.

- Acampamento dos Outros? Do que está falando e quem é você?

- Acho que ela não tem a menor idéia do que está acontecendo, Sayid.-falou Locke.

- Eu não sei não, ou ela conseguiu fugir de lá foi com a ajuda de alguém ou então estão nos preparando uma armadilha. Soltaram-na para nos atrair e depois nos capturarem- disse Rosseau.

Apontou a flecha para Nikki de novo.

- Não!- disse Pedro se colocando na frente dela.

- Como você fugiu Nikki?- perguntou Michael, muito sério. Conhecia os Outros o suficiente para saber que eles nunca libertavam alguém sem segundas intenções, ele mesmo fora vítima de um desses falsos acordos de liberdade.

- Havia uma garota, adolescente, Alex, ela cuidou de mim durante todo o tempo em que eu estive presa. Foi ela quem me ajudou a escapar. Disse que eu deveria tentar chegar ao acampamento dos sobreviventes de um acidente de avião. São vocês?

Os olhos de Rosseau brilharam ao ouvir o nome da filha. Então estavam perto, isso a animou muito.

- Você falou com Alex?- perguntou a Nikki.

- Sim, se não fosse por ela eu jamais teria escapado.

Uma lágrima rolou dos olhos de Rosseau, e ela disse:

- Precisamos continuar, o acampamento não deve estar longe. Venha conosco, mostre-nos a direção de onde você veio.

- Posso tentar mostrar a direção.- respondeu Nikki. – Mas nem morta volto pra aquele lugar. Pedro, como você conseguiu fugir? Alex também te ajudou?

- Não.- disse Pedro. – Eles me torturaram, e não sei por que depois me soltaram.- confessou.

Locke ergueu uma sobrancelha, surpreso.

- Você nunca nos contou isso.

- Se eu tivesse contado, teriam acreditado em mim?- ele se justificou.

Sayid ficou desconfiado.

- E quanto àquela história de você ser escritor e estar escrevendo um livro sobre os sobreviventes de um acidente de avião?- questionou Locke.

De repente todas as atenções estavam voltadas para Pedro.

- Disse a eles que era escritor? Pedro, por que mentiu?- perguntou Nikki.

Ele ficou nervoso, mas tentou se explicar:

- Nem tudo foi mentira. E eu só disse aquilo pro John acreditar em mim e me ajudar, porque eu sabia que o Jack seria muito mais difícil de ser convencido. E percebi também que havia uma espécie de rixa pela liderança entre eles no grupo, me aproveitei disso para sobreviver.

Michael balançou a cabeça negativamente:

- Nem tudo foi mentira? E que parte foi verdade?

- Bem, a parte de que não sou um dos Outros.

- E quanto às informações que tinha sobre sermos sobreviventes de um acidente de avião?- indagou Sayid.

- Escutei algumas conversas enquanto estive preso pelos Outros, e resolvi usar isso a meu favor.

- Já chega, eu não quero escutar mais nada. Esse cara é um mentiroso!- bradou Michael.

- Cale a boca, Michael.- disse Sayid. – Você melhor do que ninguém não pode julgá-lo por suas mentiras, já que você um dia foi capaz de nos trair para recuperar seu filho. Pedro até agora só tem nos ajudado.

Michael calou-se com as palavras de Sayid, odiava ser lembrado do erro que cometera. Locke ficou muito curioso com as revelações de Pedro.

- Então, como foi que você e Nikki realmente chegaram a essa ilha?

- Eu já te contei isso John, nosso barco quebrou, ficamos presos no mar, fomos arrastados para essa ilha pela correnteza.

- E o que realmente estavam fazendo no mar?- questionou Sayid.

- Bem, Nikki estava me ensinando a mergulhar, ela é instrutora de mergulho como eu já disse. Eu estava em uma missão, fui contratado por Penélope Widmore para encontrar Desmond, seu noivo que desaparecera enquanto participava de uma regata nessas águas.

Os olhos de todos se alargaram, surpresos.

- Mas você o encontrou Pedro. Por que não disse isso a ele?- indagou Locke.

- Porque percebi que não existem meios de sairmos dessa ilha, e achei que contar isso a ele não faria diferença nenhuma.

- Já chega de tanta conversa, precisamos ir!- falou Rosseau, impaciente.

Nikki levantou-se, e disse:

- Não sei ao certo de que direção vim. Mas Alex me aconselhou a seguir para o norte, dizendo que eu não deveria ir para o Oeste, que a morte me esperava lá.

- Então vamos para o Oeste, é lá que eles estão.- afirmou Rosseau, determinada.

- Eu não irei mais com vocês. Vou voltar com Nikki para o acampamento.

Sayid entendeu.

- Está bem, quando chegarem lá digam a todos que estamos bem, e que Jack voltará logo para o acampamento assim que Ana-Lucia se recuperar.

O grupo seguiu adiante, cada vez mais dividido. Pedro e Nikki ficaram para trás, abraçados. Estavam felizes por se reencontrarem.

Sawyer ainda dormia em sua cela quando acordou com o conhecido som dos sapatos da mulher com quem conversara no dia anterior. Levantou do colchão de um salto e encarou a mulher, que desta vez não estava usando o jaleco branco. Ela tinha um olhar inofensivo, por mais que Sawyer acreditasse que aquele olhar era um só uma máscara que escondia sua verdadeira natureza.

- A que devo mais uma visita de sua alteza aos meus humildes aposentos?- ele debochou.

A mulher sorriu e se aproximou bastante da cela dele.

- Está mais calmo agora?

- Como um cordeirinho.- Sawyer respondeu. – O que tem pra mim Hera Venenosa?

- Hera Venenosa?- ela repetiu. – Cada vez acho você mais criativo. Mas bem, eu vim me apresentar, não vai mais precisar ficar inventando apelidos para mim. Eu sou Juliet.

- Muito prazer, Romeu.- disse Sawyer, fazendo pouco caso dela. – Não estou dando a mínima para como você se chama, só quero saber até quando vou ficar preso aqui?

- Não por muito tempo.- ela respondeu calmamente. – Sairá daqui amanhã bem cedo.

- E irei pra onde?- ele indagou. – Pra sua casa? Fique sabendo benzinho, que eu sou um cara comprometido.

Juliet riu.

- Adoraria te levar pra minha casa, e também não estou dando a mínima se você se diz comprometido. Mas não, não vou te dizer para onde você vai.

- E o que veio fazer aqui então? Rir mais um pouco da minha cara?

- Não, vim te dizer que mais tarde receberá uma visita de seu agrado.

Sawyer franziu as sobrancelhas.

- Como é que é? Madonna pagou a minha fiança?

- Você verá. Estou fazendo isso para que reconsidere, e pare de pensar que somos os inimigos.

Depois de dizer isso, ela deu meia volta e foi embora, deixando Sawyer muito intrigado.

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Jack estava confuso, sentia seu corpo ser arrastado por duas pessoas. Piscou os olhos tentando entender onde estava. Mesmo com a vista turva viu que estava em outra escotilha, maior que o Cisne. Foi colocado em uma pequena sala branca, apenas com um sofá e uma mesinha. Os homens que o arrastavam jogaram-no no sofá. Ele ficou lá parado, sem se mexer, a droga ainda circulando no seu sangue.

Kate não foi levada para nenhuma cela, em vez disso a colocaram em uma espécie de consultório médico, onde Juliet a esperava. O efeito da droga começava a passar nela também, mas ainda se sentia muito confusa. A deitaram em uma cama com lençóis brancos e duas mulheres começaram a despi-la, vestindo-a em seguida com uma camisola de hospital branca.

Ana Lucia foi levada para esse mesmo consultório e Juliet mandou que dessem um banho nela, a vestissem com um vestido bem bonito, e refez pessoalmente o seu curativo do parto, deu também um antiinflamatório que não interferiria na amamentação do bebê. A droga que tinham injetado nela era forte e manteve-a desacordada durante todo esse processo, e ela só acordou quando tinham terminado.

Ao vê-la pronta, com o olhar transtornado, Juliet comentou:

- Você está bonita!

Ela franziu as sobrancelhas, irritada.

- Quem é você? O que estão fazendo comigo?

- Acalme-se Ana, está tudo bem.- Juliet respondeu pacientemente.

- Como está tudo bem?- ela esbravejou. – Onde está o meu bebê?

- Ele está bem, precisamos que fique calma, ou então terei que drogá-la de novo e você não quer isso, não é mesmo?

Ana-Lucia agarrou o pescoço dela, tentando enforcá-la. As outras duas mulheres que estavam no consultório seguraram Ana impedindo que ela asfixiasse Juliet. Quando se viu livre, Juliet tossiu muito e ordenou para as duas mulheres que eram muito fortes:

- Amarrem as mãos dela, amordacem e levem-na pro Danny, ele já sabe o que fazer.

Minutos depois, Ana-Lucia se debatia com as mãos amarradas pra trás e um saco na cabeça. A boca amordaçada. Se pudesse matar o desgraçado que a estava arrastando. Finalmente, Danny parou. Ela percebeu que ele abria uma porta, mas não sabia da onde. Seu coração acelerou, o que eles iam fazer com ela?

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Sawyer andava de um lado para o outro da cela como um animal enjaulado, se continuasse mais tempo ali, estava certo de que enlouqueceria. A sala estava na penumbra, uma única lâmpada acesa, sua luz oscilante lançando sombras pelas paredes enferrujadas do lugar. Ouviu a porta abrir. Um homem entrou com uma bandeja, abriu a portinhola da cela e a atirou lá dentro bem rápido, fechando-a em seguida. Sawyer gritou antes que ele saísse:

- Hey, o serviço de quarto aqui nessa bodega tá cada vez pior, hein!

Olhou para o prato de sopa fazendo careta. Aquele com certeza era o pior tempero do mundo, porém sabia que greve de fome não iria adiantar nada, aquelas pessoas não se importavam se ele morreria ou não. Começou a comer resignado quando ouviu a porta de ferro se abrir outra vez com um rangido. Dessa vez, dois homens entraram.

- Que foi? Esqueceram de trazer a minha sobremesa?.- Sawyer debochou, mas sentiu o ar faltar-lhe quando viu um daqueles homens arrastando uma mulher de vestido branco com um saco na cabeça.

Ele piscou os olhos, incrédulo.

- Mas o que diabos é isso? - falou.

- Visita pra você Jimmy Kimmel! Presentinho da chefa!- disse Danny, debochado.

O outro homem riu e retirou o saco da cabeça da mulher.

Naquele momento, foi como se o tempo tivesse parado. Aquele lugar sombrio não existia, muito menos aqueles homens.

- Ana Lucia.- Sawyer sussurrou provando a doçura de poder dizer o nome dela novamente. Seus olhos azuis se perderam nos olhos negros assustados dela.

O peito de Ana subia e descia, a respiração difícil, os olhos marejados. Sentiu o corpo inteiro entorpecer ao vê-lo. Sawyer não estava mais fazendo piada, seu coração batia acelerado ao perceber que os homens a colocariam na cela com ele.

Danny abriu a grade, desamarrando as mãos de Ana-Lucia que não fez qualquer movimento. Sawyer também não tentou escapar, ficou lá parado, com aquela sensação de ansiedade na boca do estômago. Danny a atirou dentro da cela, sem nenhum cuidado. Sawyer a segurou em seus braços, tirando imediatamente a mordaça dela.

- Não se acostumem com isso!- bradou Danny e se retirou da sala com o outro homem.

Ana-Lucia se agarrou a ele, sentindo o conforto de seus braços fortes em torno de si. Lágrimas escorriam de seus olhos sem controle, e ela não conseguia dizer nada. Sawyer tomou o rosto dela entre suas mãos e beijou suas lágrimas antes de unir seus lábios aos dela em um beijo muito intenso. Ficaram se beijando por vários minutos, só se separaram quando estavam sem fôlego, a dor da saudade os havia consumido.

- Não chore, baby!- sussurrou Sawyer.

Ela o abraçou outra vez, finalmente esboçando algumas palavras:

- Doeu tanto ficar longe de você, pensei que fosse morrer...

Ele parou para olhá-la, ela estava muito abatida. O rosto pálido, com olheiras visíveis. Mas, a mudança mais significativa era a ausência da gravidez. Seu ventre ainda estava inchado, porém diminuíra consideravelmente de tamanho. Sawyer tocou a barriga dela.

- O que fizeram com você? O bebê...

- Eu dei a luz.

Sawyer arregalou os olhos azuis.

- Quando? Como foi isso? Ainda faltavam três meses e...

- Minhas contas estavam erradas. Devo ter engravidado muito antes do que pensei.

Ele sorriu, cínico:

- Nossa "estripulia" na floresta rendeu?

Ela fechou os olhos e encostou a cabeça no peito dele.

- E onde está? Não me diga que morreu?- aquele pensamento assustou-o.

- Não Sawyer. Ele está vivo.

- Ele?- os olhos dele se encheram de lágrimas.

- Sim, baby. Eu tive um menino lindo, graças ao Jack. Eu o chamei de James, porque ele se parece tanto com você.- ela tocou o rosto dele com as pontas dos dedos. – Tem os seus olhos, as covinhas do rosto, tudo.

- Mas onde ele está? No acampamento?

Ana-Lucia não conseguiu conter um soluço.

- Os malditos "Outros" o tiraram de mim quando me capturaram na floresta. O nosso bebê.

O rosto de Sawyer assumiu uma expressão de ódio e mais uma vez ele apertou Ana-Lucia junto de si.

- Quase morri para tê-lo, e se não o tiver de volta, morrerei de desgosto.- ela murmurou.

Ela começou a tremer, apesar de ter feito curativo e tomado remédios, a carga emocional que estava sofrendo era muito grande, precisava descansar. Sawyer a carregou com cuidado para o colchão no canto da cela e deitou-se com ela lá, acomodando-a em cima dele. Acariciou seus cabelos.

- James, o que você acha que vão fazer com a gente? Estou com muito medo.- ela confessou aninhada nos braços dele.

- Eu não sei Lu, mas não vou deixar fazerem nada com você. Vão ter que me matar primeiro. Meu dengo...

Ele beijou a testa dela, depois distribuiu beijinhos por seu pescoço. Ana-Lucia suspirou, era bom sentir um pouco de prazer depois de toda a dor que havia sentido ao longo daqueles dias. Sawyer começou a tocar seu corpo com carinho, e ela não fez nenhuma objeção. Sentia-se dolorida por dentro e por fora, mas sentir os carinhos dele outra vez era melhor do que qualquer remédio. Ela voltou seus olhos para ele, e disse baixinho:

- Quero ver outra manhã com você. Mas meu coração me diz que essa é a última vez que nos vemos, cowboy.

- Não Lucy! Por que está dizendo isso, chiquita?

- Eu não sei, é um pressentimento.

- Não acredito em pressentimentos.- ele falou. – Ainda mais nos ruins.

- Você se lembra quando me perguntou uma vez, o que eu queria? Que você ia me dar não importava o que fosse?

Ele sorriu: - Mas é claro que eu me lembro, te fiz essa pergunta tantas vezes e você nunca me deu uma resposta.

- Pois agora tem minha resposta. O que eu sempre quis, você já me deu, um filho e todo o seu amor. Não preciso de mais nada.

Beijaram-se mais uma vez, perdendo-se um no outro. Sawyer a acariciava com cuidado, sabia que ela não podia fazer amor com ele, mesmo assim só poder sentir o corpo dela sobre o seu, seus lábios, a sua respiração morna de encontro ao seu rosto era mais do que suficiente, mais do que ele podia esperar estando preso naquele lugar.

A porta se abriu novamente, e Danny entrou seguido por Colleen que segurava um James muito irritado em seus braços. O rostinho vermelho de tanto chorar.

- Já chega desse chamego aí!- gritou Danny. – Estão pensando que isso aqui é o quê?

Ao ouvir o choro do filho, Ana-Lucia saiu de cima de Sawyer e gritou segurando as barras das grades da cela:

- Meu filho! Meu filho!

Colleen muito a contra-gosto entregou James para Ana-Lucia.

- Não fique tão alegrinha.- falou. – Eu só o trouxe porque ele precisa do seu leite, ainda!

Ana-Lucia ignorou o comentário dela, só queria saber do filho. Danny trancou a cela e os dois saíram outra vez. Ana foi sentar-se com o bebê no colchão. Sawyer ficou de longe, aquele era seu filho. De repente, ele não sabia o que fazer, só sorria.

Ela voltou-se para ele, devolvendo o sorriso.

- Vem aqui meu dengo.- ela disse. – Vem conhecer o seu filho.

O menino estava muito agitado, Ana-Lucia acalentou-o, cantando uma canção de ninar em espanhol: - "Duerme niño bonito..."- ele foi se acalmando ao som da voz dela. Sawyer se aproximou dos dois, e tocou a cabecinha de seu filho, tinha lágrimas nos olhos.

- Oi moleque.- falou doce.

James resmungou fazendo careta, suas mãozinhas tateando o peito da mãe.

- O meu bebê está com fome?- Ana sussurrou. – Mamãe vai cuidar disso.- ela despiu a alça do vestido e guiou o bebê para seu seio.

Sawyer riu ao vê-lo mamando tão avidamente.

- O papai está te olhando!- Ana-Lucia disse.

- Ah, então é assim? Vou ter que me acostumar a dividir você com outro homem?- Sawyer brincou. Ficou tocando o filho maravilhado. – Olha o tamanho desse pé!- exclamou. – È tão pequeno...Você é a mãe mais linda do mundo, Ana. Eu te amo, te amo demais.

Beijaram-se. James chorou, sacudindo as perninhas.

- Tá bom, o papai não faz mais. Ela é toda sua agora, tudo bem.- beijou a cabeça do filho.

- Papai te ama, você e a mamãe.

Aquele era um momento íntimo, mágico. Pela primeira vez se sentiam como uma família. Mas em seus corações, o medo se fazia presente, ainda havia a terrível realidade de que eram prisioneiros. Não tinham a menor idéia do que os "Outros" fariam com eles. Ana-Lucia acariciou o rosto de Sawyer, ele recostou sua cabeça no rosto dela.

- Eu te amo, Sawyer. Não importa o que aconteça, nunca se esqueça disso.

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Um grito estridente encheu a ala Y. Juliet que cochilava diante do monitor de observação despertou com o barulho. Pegou seu caderno e começou a tomar notas. Fora Kate quem gritara, acordando em uma cama de hospital, totalmente imobilizada. No braço esquerdo uma agulha, por onde estava passando soro. Bea, uma das médicas que auxiliavam Juliet entrou no quarto em que ela estava.

- Acalme-se Kate, está tudo bem. Você só está aqui porque precisa ser reidratada.

- Onde está o Jack?- ela indagou, nervosa.

- Já disse pra ficar calma!- pediu Bea.

- Onde está o Jack?- Kate gritou debatendo-se, a agulha saiu do lugar em seu braço fazendo com que um pouco de sangue escorresse para sua mão.

- Ele está bem.- Bea afirmou. – E você deveria se controlar mais, se exaltar assim não faz bem pro seu filho.

- Você não sabe de nada.- Kate disse.

- Ah sei sim. Sei que está grávida de 15 semanas de um bebê saudável.- Bea apontou para um monitor que Kate não tinha notado.

Bea ergueu a camisola branca dela e espalhou um pouco de gel sobre sua barriga. No monitor apareceu o bebê.

- Está vendo? Isso aqui é a cabeça dele, aqui a coluna, o pezinho, mas infelizmente é cedo para sabermos o sexo.

Kate emocionou-se:

- È o meu bebê?

- Sim.- Bea disse sorrindo. – Quer escutar o coraçãozinho dele?

Bea pegou um instrumento em forma de fones de ouvido e ligou no monitor, dando em seguida para Kate escutar. Uma lágrima rolou dos olhos dela ao ouvir as batidas do coração de seu bebê.

- Oh Deus!- exclamou.

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Sayid observava o acampamento dos "Outros", encravado no meio da floresta, através de um binóculo. O grupo estava a uma distância segura, mas podiam ver claramente as instalações do acampamento. Ao contrário do outro acampamento que invadiram, há quase um ano atrás, este não era tão rústico. Era formado por quatro espécies de escotilhas interligadas, com uma bem maior ao centro, a qual Sayid imaginou se estender para o subsolo tamanha suas proporções. O símbolo da Dharma Initiative estava em todas. Porém, o mais curioso era que essas escotilhas davam a impressão de terem sido abandonadas há muito tempo com suas paredes cobertas de ferrugens, e o fato de não haver uma só alma transitando entre elas só reforçava essa idéia.

- Então esse é o novo acampamento dos "Outros"?- observou Michael. – Por que não estamos vendo ninguém? Será que já sabem que estamos aqui?

- Eu não duvido disso.- acrescentou Rosseau.

- O que está vendo Sayid?- indagou Locke.

- Algo interessante.- disse o iraquiano. – Há uma trilha que sai da escotilha maior e leva até a praia. Nesta praia, acredito que exista uma doca.

- Uma doca? Deve ser uma armadilha. Eu sei por experiência própria que não existe saída dessa ilha, quando fugi no barco com Walt, ficamos navegando em círculos até sermos capturados de novo.

- Dessa vez não.- disse Rosseau. – Eu nunca tinha visto essas instalações antes, descobrimos algo realmente importante.

- Pandora.- falou Sayd.

- O quê?- perguntou Locke.

- Pandora, é o que diz na escotilha principal. O nome dessa estação.

- Quantas escotilhas existem nessa ilha?- questionou Michael.

- Muitas.- disse Locke. – E isso é só para termos uma idéia do quão grande esta ilha é. Acredito que ainda não exploramos nem a metade dela.

- E o que faremos agora?- perguntou Michael.

- Ficaremos aqui de tocaia, esperamos o anoitecer e daí seguiremos por um caminho alternativo até a praia.- disse Sayid.

- Isso!- concordou Rosseau. – Façamos uma armadilha para eles, vamos até a doca capturamos reféns e os ameaçamos para que nos entreguem seu amigo e Alex.

Todos concordaram e se prepararam para esperar pelo anoitecer. Michael checou seu relógio de pulso, eram pouco mais de cinco horas da tarde, não demoraria muito para escurecer, e quando isso acontecesse, estariam prontos.

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A luz entrando pela fresta da porta quando esta se abriu, incomodou os olhos de Jack que já havia se habituado à escuridão da sala onde estivera trancado praticamente o dia inteiro. O estômago contorcia-se de fome, e ele também tinha muita sede, porém mais do que isso estava preocupado com Kate. Não sabia para onde a tinham levado e a dúvida o estava enlouquecendo. Quando percebeu que alguém entrava na sala, fingiu ainda estar dormindo e ficou imóvel deitado no sofá.

Juliet acendeu um pequeno abajur na sala, que iluminou parcialmente o ambiente. Estranhou ver Jack ainda dormindo, o efeito da droga já deveria ter passado. Teria ele sucumbido à sede e à fome? Colocou o seu aparelho de dar choques no bolso de trás da calça bege e se aproximou lentamente de Jack. Sentou na beira do sofá, bem perto dele e tomou seu pulso. Aparentemente estava normal. Teriam dado uma dose exagerada para ele dormir? Irritou-se, não fora esse o combinado. Puniria o responsável.

Tocou o rosto dele e sorriu, pensando no quanto ele lhe parecia um homem tranqüilo, agradável e muito atraente. Levantou-se do sofá disposta a ir buscar algo para ele comer e beber assim que acordasse quando sentiu a mão dele firme em seu braço. Assustou-se, mas não teve tempo de correr. Jack se levantou do sofá em um movimento muito rápido e jogou-a no chão prendendo-a com seu corpo.

- Jack, calma!- ela disse.

Ele tinha fúria em seus olhos e apertou os punhos dela com força, machucando-a. Juliet se debateu, mas não conseguia se soltar para pegar o aparelho que estava no bolso da calça.

- Onde está a Kate?- ele gritou.

- Ela está bem, eu posso te garantir isso.- falou Juliet, com medo.

- Eu não acredito em você!-ele esbravejou. – Me leve onde ela está, ou eu juro por Deus que vou te matar.

- Não, Jack, não. – Você não é um assassino!- ela insistiu. – Acalme-se, por favor!

Quanto mais aquela mulher insistia para que ele se acalmasse, mas a raiva crescia dentro dele, e sem se controlar Jack começou a esganá-la. Foi nesse momento, que um homem e uma mulher entraram na sala, apontando armas para ele.

- Solte-a Jack, ou nós vamos atirar!- disse a mulher.

- Saibam que se fizerem isso, essa mulher vai morrer junto comigo.

Mas os dois não pareceram dar a mínima para aquelas palavras, e continuaram empunhando suas pistolas na direção dele.

- Você quer mesmo morrer, Jack? E quanto a Kate? Vai deixá-la sozinha esperando um filho seu?- indagou a mulher.

Aquelas palavras o balançaram, e Jack estava muito cansado para levar aquilo adiante. Soltou Juliet que se afastou rapidamente dele. Ficou lá sentado no chão, se sentindo impotente.

- Algemem-no!- ordenou Juliet.

O homem o fez, prendendo-o ao pé da mesinha de centro.

- Agora saiam!- Juliet disse. Os dois saíram e fecharam a porta.

Ela se agachou de frente para Jack, olhando-o nos olhos enquanto massageava o pescoço dolorido da tentativa dele de matá-la.

- Jack, eu te peço, por favor, que não cometa mais uma bobagem dessas. Não sou sua inimiga, não quero te machucar.

- Me diga onde está a Kate!- ele pediu com a voz chorosa. – E o que vocês fizeram com a Ana e o bebê? E quanto ao Sawyer?

- Não posso te responder essas perguntas Jack. A única coisa que posso te dizer é que eles estão bem.

Batidas na porta.

- Pode entrar!- assentiu Juliet, voltou-se novamente para Jack. – Eu quero que você se acalme, beba e coma alguma coisa. Suas dúvidas serão respondidas no momento certo.

Outra mulher entrou com uma bandeja contendo sopa, pão, e água.

- Agora, eu vou tirar as suas algemas. Prometa-me que não tentará nada.

Jack assentiu com a cabeça, resignado. Juliet destrancou as algemas dele, mas dessa vez sua mão estava devidamente posicionada caso precisasse usar o choque. A mulher colocou a bandeja na mesinha, assim que se viu livre Jack começou a beber desesperadamente a água do copo, e depois comeu o pão sem parar para respirar. Juliet preparou-se para sair. Jack gritou antes que ela o fizesse.

- Quem é você?

- Eu sou Juliet.- ela respondeu calmamente, e fechou a porta atrás de si.

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Quando Juliet saiu da sala onde Jack estava preso, encarou Bea no corredor. Ela sorria para Juliet. Esta devolveu o sorriso, mas de um jeito nada amigável:

- Por um momento realmente pensei que você e o Greg fossem me deixar morrer nas mãos do médico.

- Impressão sua, Julie. Sabíamos que a situação estava sob controle.

Juliet franziu as sobrancelhas, e resolveu deixar o assunto pra lá.

- Ele já chegou, Bea?

- Sim, está na sua sala te esperando. Disse que tem coisas muito importantes para tratar com você.

Ela deu as costas para Bea e rumou para a ala W, onde ficava a sua sala. A Pandora era um Centro de pesquisas importante da Dharma Initiative, mas estavam sendo fechadas, todas as pesquisas seriam transferidas para outro Centro que já estava em fase de construção. Juliet seria transferida para lá também, ela era a chefe da Pandora, mas passaria a coordenar um trabalho nesse novo centro, que era chefiado por Benjamin Linus, vulgo Henry Gale. Os dois não se entendiam muito bem, divergiam bastante em suas opiniões desde que se conheceram, porém Juliet não ousaria desobecer ordens diretas do líder da Dharma Initiative, o homem por trás de tudo aquilo, ou pelo menos quem ela achava que era, Alva Hanso. Se havia alguém acima dele na corporação, tinha certeza que nem ela, nem Ben sabiam quem era.

Ironicamente, bateu em sua própria porta e entrou.

- Batendo na porta de sua sala?- debochou Ben assim que ela entrou.

Juliet deu de ombros. Viu que Ben conversava com Alex.

- Eu estou muito zangado, filha.- ele dizia para ela, enquanto fazia um gesto para que Juliet puxasse uma cadeira e sentasse. – Não quero saber mais de interferências suas nas coisas que acontecem por aqui. Você tem me dado muito trabalho, Alex. Tudo o que você faz aqui tem conseqüências.

- Mas pai, Nikki não servia pra nada, Tom disse que não havia nenhum interesse...

- Cale a boca Alex!- Ben disse num tom firme, mas muito calmo. – Se eu quisesse que Nikki fosse libertada, eu mesmo teria feito isso, como mandei fazer com o outro, o xereta enviado por Penélope Widmore. De qualquer forma, pelo menos a fuga dela serviu para atrair o iraquiano idiota e o resto do grupo para cá. Agora vá, diga ao Tom que preparem tudo, com certeza eles irão atacar à noite e estaremos prontos. Diga-lhe também que eles têm ordem para atirar em todos, menos em John Locke. Quero que ele viva, e possa escapar. Estou entendido?

- Sim, pai.- disse Alex, mecanicamente. Levantou-se da cadeira, e antes de sair, perguntou:

- E quanto ao Carl?

- Ele já foi levado de volta, será punido por ter ajudado você.

Alex fez cara de desgosto e saiu da sala finalmente. Ben voltou seus olhos para Juliet que o encarou e indagou:

- Que bons ventos o trazem aqui, Ben? Não creio que você tenha vindo aqui só para me comunicar que a unidade será transferida, eu já estou sabendo disso.

- Você está certa, Julie. Eu vim aqui só para olhar para a sua cara de decepção ao me dizer isso.- deu uma risada sarcástica. – Mas é claro que eu estou brincando, quero dizer que fico muito feliz em ter você como minha subordinada.

Juliet sorriu e respondeu no mesmo tom:

- Você sabe que jamais serei a sua subordinada.

- Sei, e aí é que está a graça. Mas deixemos de delongas, estou aqui por um motivo maior. Os prisioneiros é claro.

- Serão levados à outra estação ao amanhecer. Recebi seu comunicado sobre permitir que Ana-Lucia passasse um tempo com Sawyer e o filho, embora eu não tenha entendido o que você pretende.

- Esse certamente é um assunto delicado, mas vamos lá. Eu consegui!

- Você conseguiu?- ela fez uma cara de surpresa.

- Projeto 2342.- ele respondeu triunfante.

- Não!- Juliet bradou. – Não o projeto 2342! Como pode? Da onde veio a ordem?

- Karen Degroot.

Juliet balançou a cabeça.

- Sinto muito Julie, apenas estão reconhecendo o meu potencial.

- Está bem.- ela disse resignada. – E qual será o primeiro passo?

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Ana-Lucia dormia com o bebê recostado em seu colo, Sawyer a enlaçava pela cintura. Os dois apertados no velho colchão no canto da cela. Ele havia dividido a horrível sopa com ela, que comera sem reclamar, estava com muita fome. Depois disso, ela adormeceu quase que imediatamente tamanho era o seu cansaço. Mas Sawyer não conseguia dormir, só queria ficar olhando para ela e o filho, temendo que os dois pudessem ser levados dali a qualquer momento.

Quando finalmente, aconchegado a ela conseguiu cochilar um pouco, seu sono foi interrompido pelo rangido da porta. Remexeu-se inquieto, acordando Ana-Lucia. Ela olhou para ele confusa, indagando silenciosamente o que acontecia. Juliet entrou na sala, seguida por Tom, Greg, Danny e Colleen. Sawyer não conseguiu dizer nada, apenas protegeu a família com o próprio corpo instintivamente.

Danny segurava uma pistola e Juliet o aparelho de dar choques. Os demais não tinham armas. Greg destrancou a cela, Sawyer indagou:

- O que foi dessa vez? O que querem?

Ana-Lucia apertou o bebê adormecido em seus braços. Colleen o arrancou dela, despertando-o. James começou a chorar.

- Não, me dá o meu filho!- gritou Ana-Lucia. – Eu quero o meu filho!

Colleen ignorou os gritos dela e saiu logo da sala. Sawyer se jogou em cima de Juliet que usou o choque nele. Ele caiu pra trás, se contorcendo e tremendo.

- Sawyer!- gritou Ana-Lucia abraçando ele no chão.

Danny a puxou de cima dele e a arrastou com toda a força para fora da cela, enquanto ela se debatia e gritava:

- Sawyer! Sawyer!

- Ana!- Sawyer gritou, sentindo dor pelo corpo inteiro. Greg trancou a fechadura da cela novamente. Com esforço, Sawyer sacudiu a grade e gritou novamente:

- Ana! Ana-Lucia!

- Sawyer, eu te amo!- ela gritou da porta enquanto Danny a colocava em seu ombro, segurando-a com força. Impedindo-a de se soltar.

Juliet e Greg seguiram Danny para a fora da sala. Sawyer ficou lá, agarrado à grade, e assim que a porta se fechou murmurou: - Eu te amo também! – depois caiu em um choro convulsivo, o coração doendo porque sentiu que nunca mais a veria de novo.

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Ana-Lucia sentia o desespero tomar conta de si a cada minuto que passava, não parava de gritar e se debater tentando se livrar dos braços fortes de Danny, mas era inútil, não tinha forças para isso, não depois de tudo o que havia passado. Dias comendo mal, caminhando com todo o peso da gravidez pela floresta íngreme, dando a luz da pior maneira possível, e ainda por cima sendo capturada depois? Era coisa demais.

Danny a levou para uma outra sala de hospital, a deitou em uma cama e amarrou seus braços e pernas. Ela já estava rouca de tanto gritar. Depois de amarrá-la, Danny saiu da sala, deixando-a sozinha.

- O meu filho! Eu quero o meu filho!- ela repetia incessantemente, o coração acelerado, suando frio, tentanto se soltar das amarras que a prendiam.

Gritou até não agüentar mais, foi quando viu a porta da sala se abrir. Ben Linus entrou segurando uma bandeja de prata com uma jarra de vidro cheia de água e um copo. Ana-Lucia sentiu o corpo inteiro pulsar de ódio ao vê-lo.

- Está com sede Ana?- ele indagou, sorrindo.

Serviu água no copo para ela. Ana morria de sede, mas não estava disposta a aceitar nada que viesse daquele homem. Ben se aproximou dela e ergueu sua cabeça delicadamente para que ela tomasse a água, já que seus braços estavam amarrados, mas ela cuspiu o líquido no rosto dele. Ele fez uma careta, encheu o copo com água outra vez e derramou no rosto dela.

- Você é uma ingrata mesmo, eu estou tentando ser gentil, embora você não mereça!

- Não quero sua gentileza!- ela esbravejou.- Tudo o que eu quero é sair daqui com Sawyer e o meu filho.

- Sawyer?- ele debochou. – Você sinceramente acha que ele a ama? Ana, não seja ingênua. Sawyer não ama ninguém, acha que o fato dele ter feito um filho em você muda alguma coisa? Você pulou em cima dele no meio da floresta, e ele agiu como um animal aceitando aquela situação, seguindo seu instinto. Que relacionamento mais grotesco!

Ana-Lucia deu um sorriso maldoso, e começou a falar no mesmo tom dele:

- Qual é o seu problema? Está com inveja do que Sawyer e eu temos? Está a tanto tempo trancafiado nessa ilha que não sabe o que é tesão, paixão, amor?

Ben deu de ombros, ela continuou:

- Que espécie de pessoas são vocês? Nos tratam como animais, nos trancando em jaulas, roubando nossa dignidade. Eu odeio você, devia ter te matado quanto tive a chance, me arrependo amargamente de não tê-lo feito.

Ele riu: - Não importa o que você diga Ana, dessa vez estamos em situações opostas. Você é quem está presa e se não me matou quando teve a chance, esse é um erro que pagará com a sua vida.

- Eu não tenho medo de você!- ela falou, encarando os olhos dele.

- Isso é bom!- ele respondeu cínico. Aproximou-se dela e tocou suas coxas, subindo levemente o vestido.

- O que está fazendo?- ela indagou, deixando um pouco do medo que fingia não estar sentindo transparecer em seus olhos escuros.

Ben sorriu:

- Sim, você está com medo.- tocou o rosto dela, que cuspiu nele outra vez.

Ben limpou o rosto com um lenço que tirou do bolso.

- Pare com isso Ana, não é nada educado!

Voltou a tocá-la, dessa vez o decote do vestido. Ana-Lucia estava em pânico.

- Você não seria capaz.- murmurou.

- Por que? Seria um sacrifício tão grande pra você já que transou com o Sawyer somente para roubar sua arma? Mas não, eu não seria capaz, não nessas condições em que você se encontra. Porém, seria uma bela vingança, não seria?

As lágrimas começaram a rolar dos olhos dela outra vez, estava se vendo sem saída.

- Por que essas lágrimas, Ana? Você não acha que eu tenho direito a uma vingança? Depois de tudo o que fizeram comigo no acampamento de vocês?

Ela não agüentou e se entregou ao choro, enquanto outra vez se debatia na tentativa inútil de se soltar.

- Pare de chorar, vamos!- Ben gritou. – Isso não combina com você. Sua assassina! Matou vários dos nossos a sangue frio e agora quer me convencer com essas lágrimas? Pois eu vou mostrar o que pessoas como você merecem.

Ben se dirigiu a um armário no canto do quarto. Seu rosto tinha uma expressão impassível, completamente indiferente ao sofrimento dela. Abriu o armário e retirou de lá uma ampola cheia de um líquido esverdeado e mostrou a ela.

- Sabe o que é isso? O veneno que usamos em você para criar toda essa situação que a traria até aqui. Um idiota chamado Steve nos ajudou a fazer com que isso chegasse até você. Pobrezinho, prometemos a ele que ganharia o coração de Debbie e voltaria para casa. Mas veja pelo lado bom, apesar de toda essa aventura você ainda conseguiu dar à luz a um menino lindo e saudável!

- O que vão fazer com o meu filho?- ela gritou.

- Não faremos nada. Acha que eu tenho cara de assassino de criancinhas?

- De qualquer forma, além do panaca do Steve, como eu dizia usamos a intrometida da Deborah, que sabemos ter uma fascinação pelo seu, hum...companheiro, será que essa é a palavra adequada? Bem, ela não queria mais ser a única virgem na ilha, não é mais.

- Foi você quem a violentou?- Ana-Lucia perguntou, horrorizada.

- Ana você não me conhece mesmo, é claro que não. Mas a identidade dessa pessoa é o de menos.

- Ela disse ter sido Goodwin!- Ana afirmou.

- Goodwin está morto, porque você o matou da maneira mais cruel possível! Pobre coitado! Estava louco de amores por você, queria poupá-la, mas você não o poupou.

- Já chega dessa conversa!- ela bradou. – Onde está querendo chegar, "Henry Gale"?

Ben pegou outra ampola, dessa vez junto com uma seringa munida de uma agulha fina e enorme. Aproximou-se novamente de Ana-Lucia.

- O que é isso?- ela indagou, seu coração acelerando ainda mais, o medo crescendo.

- Eu te disse que mostraria o que pessoas como você merecem.

Ela gritou desesperada, mas não podia fazer nada. Ben aplicou a seringa diretamente no pescoço dela, o líquido dolorido começou a entrar em sua corrente sanguínea de imediato.

- Te vejo em outra vida Ana-Lucia.

O teto branco do quarto começou a girar e Ana-Lucia sentiu como se estivesse sendo tragada para um imenso buraco negro, a dor era tão insuportável que entorpecia o seu corpo inteiro. De repente, ela não conseguia mais se mexer, e não era porque seus pés e mãos estavam amarrados, mas porque seus membros não lhe obedeciam mais. Também não conseguia respirar, e sugava o ar com toda a força que lhe restava, mas seus pulmões tinham parado.

Diversas cenas começaram a passar em sua cabeça como um filme, e ela se viu garotinha sentada no colo da avó, na cadeira de balanço ouvindo mais uma de suas histórias. Vislumbrou o rosto do primeiro garoto que beijou, lindos olhos castanhos ele tinha. Viu-se com sua mãe, a primeira vez em que usou um uniforme de polícia, se arrumando e rindo na frente do espelho. Enxergou o pai morrendo de câncer em uma cama de hospital, enquanto ela e a mãe se abraçavam num choro incontrolável. Na cena seguinte, Danny, o homem de sua vida lhe fazia juras de amor ajoelhado diante de um chafariz enorme. Viu os belos olhos azuis de Sawyer, enquanto faziam amor na areia da praia, escutou a voz dele lhe dizendo que a amava, e a última cena que vislumbrou antes de sentir que o último sopro de vida se esvaía foi o nascimento do filho, a sensação maravilhosa que sentiu ao segurá-lo nos braços pela primeira vez.

Seu corpo ficou rijo, e ela não se mexeu mais. Ben calmamente desamarrou os braços e as pernas dela. Tocou seu cabelo e seu rosto. Pegou um lençol branco cobrindo o corpo dela inteiro e saiu do quarto apagando a luz e trancando a porta.

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Juliet esperava por Ben do lado de fora do quarto, assim que ele saiu, ela que estava sentada em uma cadeira do corredor o chamou:

- Ben!

- Sim, Julie?

- Precisamos saber a que horas partiremos? De manhã cedo?

- Mudanças de planos, não partiremos amanhã, vamos partir agora. È melhor!

- Mas e quanto ao iraquiano? Danny me informou que ele está na praia com seu grupo.

- Quero que Tom nos dê cobertura. Mande preparar os dois barcos, todos irão. Quero os prisioneiros amarrados, amordaçados e com seus rostos cobertos até chegarmos ao barco quando darei outras instruções. Quero também que Colleen entregue o bebê para Alex e vá com Danny ajudar o Tom na praia. Alex virá comigo no barco, junto com Kate e Sawyer. Jack irá no outro barco com você.

- Está bem.- Juliet concordou.

Ben saiu caminhando, Juliet o chamou antes que ele saísse da ala:

- E quanto à Ana-Lucia?

- Ela não é mais seu problema. Está "morta", já sabe o procedimento.

Continua...