.fatos.
Encostou a cabeça no travesseiro, observando o quarto escuro e em silêncio. As pessoas estavam no Salão Comunal, estudando, conversando, atormentando outras pessoas. Ele estava deitado, pensando, começando a colocar a cabeça no lugar. Porque na verdade, já se fazia três dias que as coisas tinham saído dos eixos, e ele queria entender o que se passava a sua volta. Não apenas pensando da forma mais fácil de irritar Potter, mas do jeito certo.
Acostumara-se a fazer isso depois do fim da Guerra: deitar a cabeça e pensar em todas as coisas que aconteceram, todas as mortes, todas as covardias que vira e as covardias que cometera. Agora estava pensando em sobre o que estava fazendo. Potter não lhe exigia nada, nem mesmo uma amizade. Ele apenas queria que Draco sentisse ódio, e que o demonstrasse. E ele demonstrava todo dia, quando o olhava como se o moreno fosse lixo ou quando insultava seus amigos.
Porém, Potter deixou de se importar, deixou de ligar para essas coisas, estava morto, exatamente como parecia. E Draco quis entender, quis que o outro também sentisse ódio. Mas nada, Potter não dava sinal de vida. Então, aconteceu. Ele e Potter finalmente começaram a colocar os peões no tabuleiro e agora, estavam jogando.
Eles não se gostavam, era um fato. Não queriam a amizade do outro, não queriam conversar sobre as banalidades. Na verdade, Draco sabia que Potter estava apenas voltando ao que era, usando seu ódio como propulsor. Usando seu ódio, sua raiva, sua inveja como muleta, para que só então pudessem ser as mesmas pessoas de antes. E Draco se satisfazia em apenas imaginar os velhos e bons dias, de quando tinha ódio, e conseguia apenas olhar para Potter quando queria provocá-lo, quando queria deixá-lo humilhado ao lado dos amigos.
Mas mesmo com tudo aquilo, o que importava – naquele instante – eram os dias que se seguiram desde a primeira atitude do moreno. Queria ver Potter sofrer, ser acolhido como o coitado de sempre. Porém, no contrato não se encontrava noites de bebedeiras, beijos, lutas. Nada daquilo estava em seu contrato e Malfoy sabia que eram bônus, apenas bônus para se ter a vida de volta.
Já imaginava a vida de volta, mas agora tinha que imaginar e ver, o que passara e passaria para chegar até ali. Estava envolvido com Potter, um fato. Não com romance, não com amizade, mas estava envolvido no retorno dele. Fazia parte, e fazer parte era estar envolvido. E estar envolvido com Potter lhe trazia benefícios e prejuízos.
Outro fato é que gostava de tê-lo perto. Não concordaria com isso nunca, nem com o moreno nem com ninguém, nem mesmo seus companheiros. Mas poderia dizer para si mesmo isso, era adulto o suficiente para dizer tal coisa em seu escuro e solitário quarto. Gostava de ter com quem discutir a cada dez segundos, gostava do pensamento rápido do outro. Gostava de ter em quem ter a possibilidade de se bater a cada frase dita. Gostava de ter alguém para ter um gosto diferente em seus lábios.
Fato seguinte era que do mesmo modo que usava Potter, ele lhe usava, e ter novamente utilidade, fosse qual fosse, era ótimo. Seria outra coisa que não admitiria nunca, mas que sentia. E sentia que o outro sabia disso, que Potter sabia que ambos eram utilizáveis. E que isso também os motivava. Porque as perdas e os ganhos da Guerra só haviam alimentado os outros, eles dois apenas pararam no tempo.
Havia um fato que Draco apenas prestara atenção nesse momento, o de poder ser ele mesmo – completamente e sem pensar muito – quando estava com Potter. Draco colocava a máscara de orgulho e de superioridade assim que acordava e a tirava, deixando-a na cabeceira da cama assim que ia dormir. Mas com Potter, não havia necessidade, o outro não ligava, o outro precisava de sua essência, e se ele não fosse Draco Malfoy, não haveria propósito. E sem propósito Potter viraria as costas e morreria em seu vazio.
Não, Draco era o mais Draco que conseguia quando estava perto do outro. E via isso refletido nos olhos verdes de Potter, naqueles olhos que conseguiam falar mais do que o próprio dono. E os olhos de Potter lhe contaram esse último fato, lhe permitiram ver que o outro buscava algo, mesmo que ele não soubesse o que era. E Draco daria de bom grado, porque ele próprio buscava algo.
Fechou os olhos, colocando as mãos atrás da cabeça, segurando com as pontas dos dedos seus fios loiros, sem força alguma, apenas segurando. Por detrás das pálpebras, no escuro, Draco conseguia ver as coisas que aconteceram nos últimos dias, os pequenos detalhes que escaparam antes, as besteiras que deixara escorregar para detrás dos pensamentos, como sujeira escondida debaixo do tapete.
Observou no vazio a imagem de Potter. Tudo nele destoava do que Draco achava ser certo, mas mesmo assim o fizera deixar escapar um sorriso pelo canto da boca, que apenas o escuro do quarto fora testemunha. Via os olhos de Potter a brilharem em intensidades diferentes conforme sentimentos diferentes voltavam a atravessar seu corpo. Ouvia a frase dele a ecoar em sua mente:
"Tentando continuar na realidade."
E agora, se fosse analisar, Potter realmente vivera anos fora da realidade. A realidade para ele fora quando estivera sozinho, abandonado, perdido, ferido, com fome, frio e perdendo a Guerra. Pois a proteção de Dumbledore, a fortaleza de Hogwarts, o calor das amizades, a liberdade de ser amado, tudo fora apenas uma realidade alternativa, Potter nunca havia ficado realmente em contato com o que era real.
E quando estivera na Guerra ele sentira a realidade acertá-lo. E era compreensivo o suficiente que ele estivesse tentando se manter no que sentira daquela realidade quando Malfoy o ajudara a sentir as mesmas coisas de antes. Era totalmente compreensível, porque Draco também se sentira assim.
Outra imagem se formou, a mão de Potter a sangrar em profusão e ele não se importar, apenas continuar a segurar o corpo de Draco. Aquilo era idiota, mas Draco vira o brilho escondido por detrás das lentes do óculos. Era visível, era compreensível outra vez, era a dor que o submetia a realidade de ajudar um companheiro de Guerra ferido. E – querendo ou não – eram companheiros de Guerra. Lados opostos, ideais diferentes, idéias distorcidas, mas os mesmo objetivos perdidos.
Mais uma imagem no escuro das pálpebras fechadas de Draco, Potter o olhando nos olhos enquanto aproximava o rosto do seu, no corredor, de mãos dadas. Ele vira no brilho daquele momento que o outro estava com tanto medo e com tanta vontade que se Draco ousasse se afastar, apanharia até perder a consciência. Entendia o desejo do outro, entendia a vontade, e entendia o que ele procurava de verdade. Por vezes vira Potter achar que estava apaixonado, e por vezes o vira quebrar a cara. Era compreensível – mais uma vez – que o moreno aproveitasse que retirava de Draco todos os outros sentimentos, e tentasse retirar esse também: o prazer.
Não era errado, Draco estava a fazer a mesma coisa. Por que nem Pansy nem Blaise, o faziam se sentir como antes, como quando a Guerra estava no auge e ele só encontrava algum conforto nos braços deles. Balançou a cabeça e sorriu outra vez, pensando em como Potter conseguia ser cada dia mais parecido consigo e a cada dia mais o velho Harry Potter.
