Seven Sisters
Petit Ange
"(...) And all the fears you hold so dear
Will turn to wisper in your ear
And you know what they say might hurt you".
– Duvet (BoA).
Vigésima Quinta Noite: Minha Justiça a Você.
Por um momento, o mundo à sua volta pareceu desaparecer. Sobrou-lhe apenas a sensação de estar sendo carregado por alguma coisa, talvez o ar da "noite" (originalmente, até onde viu, ainda era de tarde. Devia haver o sol a pino no céu), e em seguida, estar caindo como se esse mesmo ar tivesse lhe soltado. Havia o olhar fixo de Elise nos seus olhos e aquilo o perturbou de alguma forma. Os cabelos dela sacudiam-se, pareciam querer engolfá-lo neles próprios, como num complexo labirinto.
Olhou para além dela e viu-se caindo. E só então lembrou-se, como se aquilo que aconteceu há poucos segundos fosse um sonho muito bizarro, que havia atirado-se com ela daquele lugar alto, daquela estaca congelante, e atualmente, descrevia uma queda livre até o chão. Ele sabia que aquela pessoa que estava segurando pelos ombros não era Elise. Sabia que aqueles olhos, mesmo sendo os mesmos castanhos da garota, não eram exatamente os dela.
Aquela pessoa que estava caindo com ele era Alice de York. Mas o corpo não era da lady remanescente. E naquele ínfimo momento, Archer lembrou-se da história dela; da criança que estava desenvolvendo-se ali. E aquele nó em sua garganta veio lembrar-lhe que, mesmo que fosse um inimigo, ainda lhe devia perdão, ainda devia muitas coisas para ela e aquela criança. Não podia deixá-la se machucar.
Sem pensar, o garoto abraçou-a e virou-se, deixando que suas costas atingissem o chão quando fosse a hora. Fechou os olhos com força, não querendo mais pensar em nada, mas pensando em tudo, muito mais do que em todos os outros momentos, porque sabia que não passaria dali. Espatifar-se-ia no chão e morreria. Talvez pudesse salvar Elise, e isso já o alegrava um pouco.
Mas lembrar-se de que Aileen ficaria sozinha com vários monstros e com aquela que ele queria salvar, repentinamente, o fez mudar o rumo dos pensamentos: não sabia como, mas não podia morrer ali.
'Segurai-vos naquele vão, depressa!', ouviu uma mulher lhe falar. Mas não era a voz de Elise, tampouco qualquer voz que conhecia. E quando virou a cabeça, viu que, seja lá quem fosse, havia de fato um vão numa das estacas próximas ao chão.
Segurou-se nela como se a mesma fosse sua última esperança, sentindo o peso do corpo da pseudo-punk querer arrastá-lo para junto dela em sua queda. Susteve-a em seu aperto e a mão pareceu adormecer ainda mais naquele frio que chegava a queimar-lhe a alma. Tentou, realmente tentou ficar ali, mas todo um conjunto de fatores impediram-no de suster-se; e ele apenas conseguiu, no fim, minimizar o impacto da queda inevitável.
Segundos depois, o garoto sentia o impacto das costas no chão fragmentado. Ouviu um som estranho acompanhado de uma dor lancinante e achou que algum de seus ossos havia quebrado. Elise caiu por cima dele, consciente e muito bem, e sorriu logo em seguida, ficando sobre o garoto.
"Parece que te encurralastes sozinha, Felicia." – havia em seu tom de voz um quê sádico que nunca havia mostrado antes. – "Tanto melhor... Regala-me, então, com a tua agonia."
Archer viu-a soerguer a mão e compreendeu de pronto; nada melhor que sufocar a vítima para aliviar seu ódio, afinal, o sufocamento por si só é um ataque que exige contato, como o esfaqueamento. Para um espírito vingativo (e para vivos também), não havia método melhor. Fechou os olhos, porque soube que não poderia se mexer. Até piscar parecia uma tarefa tortuosa. Ao fechá-los, entregou-se igualmente ao torpor que envolveu-o; acabou por desacordar.
Um som passou ricocheteando pelos ouvidos da lady no mesmo momento em que havia posto suas mãos no pescoço inerte dele, fazendo-a erguer a cabeça, descrente.
"Tsc, mais cinco balas..." – ouviu Aileen resmungar.
Os olhos vermelhos e os castanhos se encontraram, e em seguida, os lábios da que estava em cima do garoto abriram-se num esgar de riso.
"Parece que quanto mais intentais, mais torna-se denso este nosso prélio."
"Talvez eu deva falar numa língua que você entenda: esta noite, nossa peleja aqui se finda." – ela riu com ironia. – "Agora, saia de cima dele, que está impossibilitado, e venha terminar comigo."
"Montejas da minha inteligência, minha pálida boneca de olhos da cor do sangue?"
"Eu não ousaria, senhorita de York."
Alice baixou os olhos castanhos de sua descendente de novo para o garoto debaixo dela, mas no instante seguinte, ouviu mais um zunido. E dessa vez ele foi tão próximo de si que ela precisou respirar fundo para conter a sensação de susto antes de voltar seus olhos para a jovem.
"Mais quatro..." – falava para si num tom reprovador, e voltou-se logo em seguida para a outra. – "Mas eu também havia dito para você sair de perto dele, lembra?"
E, assim, os olhos das duas encontraram-se numa miríade de impressões que nenhuma das duas soube expressar em palavras.
O corpo da pseudo-punk moveu-se, enfim mostrando que iria erguer-se, deixando o corpo do menino ali caído, como mercadoria esquecida. Os olhos da albina esgueiraram-se discretamente para ele, como que conferindo se estava de fato bem. E, depois, voltaram a encarar-se; uma com a arma empunhada e pronta a desferir mais uma bala e a outra apenas olhando, escutando o som que vinha da calça de sua descendente, o barulho daquelas correntes chocando-se toda vez que dava um passo.
"Minha pequena intrometida..." – sorriu. – "Vais-te arrepender de terdes sido tão presunçosa, tu bem o sabes."
Por algum motivo, Aileen lembrou-se de uma frase de algum desenho infantil (talvez fosse aquele do cão covarde) que dizia 'coisas que faço por amor'. É, talvez aquela frase combinasse com a sua vontade que aquela pessoa se afastasse do garoto, mesmo sabendo que deixá-lo a própria sorte naquele inferno no estado físico em que ele estava era assinar sua morte.
A jovem abaixou-se e com uma força que não soube de onde tirou, pôs o corpo inerte dele apoiado em seus ombros, envolvendo-o para carregar. Deixou que a gravidade cuidasse do resto enquanto continuou-lhe apontando a arma.
"Este garoto é pesado demais para vós, pequenina." – a lady deu um passo. – "Deixa-me aliviar-te esta tensão."
"Minha pontaria é boa o suficiente para eu não errar desta vez, senhorita de York."
Ela parou no mesmo momento.
"Estás tão diferente daquela petiz que corria de medo destas criaturas quando chegastes em Seven Sisters." – comentou, com uma ponta de ironia, até.
"Princípio de Adaptação, Charles Darwin." – meneou a cabeça. – "Devia ler o livro 'Evolução das Espécies'. É bastante interessante, senhorita. Fala exatamente de situações de adaptação extrema, como nesta cidade. A Biologia, de fato, é deveras interessante..."
"Vou dar-vos três segundos para correres, querida." – e, como se estivesse olhando um relógio invisível, ergueu o pulso. – "Um..."
Correr sozinha, por si só, já era uma tarefa complicada graças ao tornozelo inutilizado pela mordida de algum monstro bizarro na mansão de York. Correr carregando mais 60 ou 70kg apoiados nela, então, parecia até impossível. Por um ínfimo segundo, amaldiçoou-se por ter ficado fazendo pose para a outra até irritá-la de verdade. Agora, mancar era a menor de suas dores.
Lá atrás, quando afastou-se um pouco, ouviu aquele mesmo som de tudo recomeçando: a lady havia iniciado de novo aquela penosa tarefa de erguer blocos ébanos do solo e moldá-los até os confins do céu, até onde seus olhos vermelhos podiam alcançar. Seja lá o que fosse aquilo, era a parte que realmente lhe dava mais medo na história toda. Contradizia todas as suas crenças científicas e materiais de até então. E para completar a valsa imaginária, havia em toda parte aquele som enjoado dos grunhidos dos cidadãos (ou será que, por acaso, ela estaria ficando louca e ouvindo coisas que não estão no cenário? Faria sentido, se considerar o lugar e até mesmo a situação onde ela estava).
"Vem roxa a estrela da alvorada, vem morta a estrela da alvorada... Oh, dor!"
Meneou a cabeça, tentando acalmar a si própria com aquele trecho de uma poesia qualquer que lhe veio à mente. Ouvir apenas a respiração baixinha de Archer, o som do chão cada vez mais partido e aqueles murmúrios mortos estavam enlouquecendo-a.
"Montanhas nuas sob a geada, hirtas, de bronze, sobre a geada... Oh, dor!"
Sinceramente, tinha vontade de jogar fora aquela arma que parecia só mais um peso extra para si. Mas, ao mesmo tempo, sabia que, se a soltasse, iria estar livrando-se da única coisa que de fato salvaria sua vida. Ajeitou o garoto inconsciente melhor em seus braços para continuar correndo, com um esforço sobre-humano graças ao latejar de sua perna.
"Torvo, inclinado sobre a enxada, rasga as montanhas com a enxada..."
Sua voz era sussurrada e arfante, e seu corpo fazia o possível para inspirar-se com aquelas palavras ao mesmo tempo que se inspira o ar (o trocadilho mental lhe valeu até um risinho rápido). Fazia, enfim, o possível para achar ali ou em qualquer lugar que fosse a vontade abrasadora de vencer todas aquelas coisas ou a forma de atravessar aquele labirinto angustiante sem estar freqüentemente queimando a pele com o frio das estacas ou a ponto de desistir.
"...Fantasma negro, o cavador."
Pronunciar aquelas últimas palavras fez uma nuvenzinha tênue de vapor escapar-lhe pela boca. A garota seguiu-a com os olhos até pô-los onde devia estar a lua. Não havia nenhum brilho argênteo iluminando seus passos; havia apenas a escuridão sem fim, o negro para onde quer que olhasse. Um breve substituto da luz da lua eram aqueles raios que caíam, agora, muito próximos de si, infindáveis como os de uma tempestade.
Sentia que o corpo de Archer lhe escorregava, e novamente foi ajeitá-lo melhor. Aquela arma e sua perna não contribuíam em nada e, por fim, aquele som nauseante do perigo chamado Alice de York que aproximava-se fazia-a temer olhar para trás, ao mesmo tempo que incitava-a a fazer isso. Parou de correr. Estava exausta.
Lembrou-se repentinamente do dia em que chegou à Seven Sisters. Fugiu como uma tolinha daquelas coisas, morreu de medo como nunca em sua vida e, graças ao garoto inconsciente, sobrevivera, diferente do pai. Comparada àquela Aileen vestida de negro e cheia de autoconfiança inexistente, esta versão atualizada, de camiseta e pernas desnudas que esqueciam-se até de tremer de frio (tinha certeza que tremiam de adrenalina, isso sim), era muito mais capaz de tudo. Então, porque tinha essa vontade hesitante de entregar-se de uma vez e acabar com tudo?
Outra parte de sua consciência demovia-a da idéia no mesmo segundo: ela tinha uma arma, três balas, alguém que amava sob seus cuidados e outra pessoa que igualmente prezava ainda presa em amarras que ninguém poderia compreender. Sob hipótese nenhuma se deixaria desistir naquelas circunstâncias. Archer disse que salvaria Elise. Na falta dele, quem devia fazer isso era ela.
"Que diabos!" – e, quando até mesmo recitar poesias falhou para motivá-la, um tabefe na cara foi tudo que restou. – "Você é ou não é a grande Aileen Dawson, hein?! Vai lá e mostra pra Alice de York e o resto do mundo quem você é!"
(Que Archer não estivesse ouvindo nada dessa cena deprimente e continuasse inconsciente por muitas horas ainda, por mais que doesse-lhe desejar isso.)
"Não é porque me falta músculos ou experiência de sobra, diferente desse Archer Crowell, que eu não possa vencer esta cidade maldita! Vou fazer todos tomarem nos dedos e mostrar que eu posso derrotá-la com o cérebro! É isso aí! Vou vencê-la com o poder da Física! Nem essa cidade escapa dela!"
O som de Alice procurando-a perfurando onde pudesse fazê-lo, bondosa em dar-lhe três segundos decisivos para sua vida, continuava sendo ouvido pela albina. E isso a fez, repentinamente, animar-se em ajudá-la de uma vez.
"Ok, vamos ver agora..."
Há muito tempo ela lera em algum lugar que, quando se verbaliza o que está se pensando, fixa-se muito mais facilmente e ajuda mais o raciocínio.
"Fios, estacas geladas e bizarras, um poltergeist maluco..."
Viu mais uma vez aquele substituto de luar. Um raio cheio de ramificações, num desenho quase que perfeito de algum sistema de veias humanas, desceu pelos céus, indo cair pouco distante, mas ela ouviu o som parecido com o de um chicote.
'Se o som propagou-se desse jeito, é porque estou próxima da onda de choque', e ao pensar nisso, ergueu os olhos. 'Deve ter caído numa dessas coisas, afinal, são o ponto mais alto dessa cidade no meio da tempestade de raios. Se ela é de origem natural ou vem de Alice, não me interessa... Têm de seguir os mesmos princípios naturais, da mesma forma que essas coisas no chão.'
Passou, então, a analisar as próprias estruturas.
'Os prédios são fáceis. Pára-raios e toda a proteção contra isso... Mas essas coisas negras que queimam de tão gelado... Elas têm uma certa inclinação, o que me faria supor que não suportam, de fato, o peso, inclinando-se em alguns graus... Como aquela torre italiana.', ficou encarando, assim, os próprios pés. 'Por mais que eu queira, creio só ter esses fenômenos da natureza ao meu favor. Então, vai ter que ser com isso.'
Aileen voltou a olhar aqueles raios que caíam mais afastados daquele ponto, precisamente, num que ela e o garoto inconsciente bem conheciam: a mansão de York. E com aquele fato, veio-lhe as palavras repentinas da outra, quando respondeu-lhes algumas questões: a casa era cheia de energia.
Se por um lado aquilo iria contribuir para aumentar a força dela e complicar para a albina, por outro, também podia ser provável que a própria pudesse cair na própria armadilha. Além disso, uma casa cheia de mofo tem umidade, que atrai muitos raios. O plano, basicamente, era detê-la com uma descarga (se bem que pensava que até podia matá-la, dependendo de alguns fatores), mas então vinha a grande questão que ela tentava solucionar: como?
Em primeiro lugar, tinha de atrair Alice para a mansão. Se a outra não caísse em armadilhas, ao menos, seria um lugar cheio de raios, e as estacas mais altas, como as que, geralmente, ela costumava ficar, são os lugares mais altos e, portanto, mais prováveis de serem atingidos.
"Desculpe, Archer." – ela sussurrou, deitando-o no chão para empunhar a arma na direção do céu. – "Prometo que será rápido."
Aileen Dawson disparou a terceira bala. Neste momento em que o som propagou-se até os confins que podia alcançar, como a garota previu, ouviu a movimentação da lady reencarnada.
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Os olhos castanhos perscrutavam cada recanto da cidade, cada pedaço de beco, cada escuridão dos corredores de casa. Podia ver tudo e nada ao mesmo tempo. Soerguida por sua própria criação feita do ébano de seus pensamentos, ela conduzia-se sem esforço pelas ruelas, procurando com um afinco fora de série aqueles dois pequenos ratinhos que se opuseram aos seus desejos.
Num repente, assomaram-lhe imagens desagradáveis de um tempo que nunca foi seu na cabeça, e ela obrigou-se a massagear as têmporas pela descendente. Tinha a ligeira impressão de que ela tentava, mesmo inconsciente e lacrada dentro daquele corpo, retomar o controle de si própria. E pensar que nem ali estaria realmente segura trouxe-lhe de volta a ironia com a qual sobreviveu pelos séculos; o fato de que o mundo não era e nunca seria um bom lugar.
Ela sequer pôde ir para o outro lado. Vagar a vida toda de corpo em corpo, remoendo as migalhas de seus anelos, buscando cada mínimo ensejo na esperança de enfim ver concretizadas as ambições... Perdeu toda sua pós-vida naquela jornada louca, esquecendo-se aos poucos do que realmente buscava; amor e ódio começavam a confundir-se naqueles olhos marcados pela sucessão de tristes fatos que levaram o corpo a perecer e a alma a acompanhar, inevitavelmente, aquele destino.
A verdade é que, muito lá no fundo de si, estava sinceramente começando a desbotar, a achar que toda aquela sua raiva era despropositada. Algo dentro de si tentava-se a cada segundo a perdoar o mundo e todos que traíram-na, trazendo-lhe tão martirizantes dores. E quando pensava nisso, imediatamente aquela réstia que nunca se apagaria bradava de novo, empurrava aquela idéia para algum recanto escuro do inconsciente e voltava a preocupar-se em dominar e conquistar.
Um dia, e essa era sua verdade, acharia Stephan, acharia seu marido ou até mesmo Felicia e faria todos eles desejarem com todas as forças a morte, assim como ela desejava o fim de toda aquela dor eternidade adentro.
"Não mo é dado ver um final pelas imperturbáveis Moiras." – murmurava, inconformada com aquele desfecho. – "Estender este prélio ainda faz-se necessário."
Inspirou profundamente o ar frio da noite, mas retesou-se instintivamente quando ouviu o som de um disparo. Logo em seguida, sorriu com verdadeiro prazer, pensando que aquela pequenina devia ser, no mínimo, muito tola para mostrar-se daquele jeito tão na cara para a lady. Bastou mover um pouco aquele enorme bloco que ia rasgando as estruturas da cidade para que, de fato, visse uma silhueta branca divisando-se no meio de um amontoado de espinhos.
"Ímproba petiz. Não escaparás outra vez."
Mas ela não esperou-lhe, como a mulher já previa. Animais acuados costumam ser mais problemáticos que sabiam-se ser, disso tinha certeza, mas também havia a certeza de que eles estavam na 'jaula do leão'; estavam mortos, afinal, e nem sabiam.
Aquela pequena, em especial, parecia-lhe um desafio muito maior do que qualquer outro. Fugia com toda a vontade, e tinha nos olhos a chama da esperança, aquela que lhe dizia a cada segundo que iria ganhar. Essa mesma chama queimava nos olhos de Alice. Ela também tinha essa certeza desde o início. Só não sabia quando iria ganhar. E saber que aquela garota tinha esse poder, que qualquer um tem noção ser forte, quando bem usado, dava-lhe uma crescente sensação que ela era a verdadeira ameaça, não Felicia nem Stephan, nem mais ninguém.
E, ao mesmo tempo, dava-lhe também uma estranha sensação que não sabia classificar. Tinha a ligeira impressão de já tê-la sentido antes, talvez quando viva, mas não sabia agora, muitíssimas décadas depois, o que exatamente era.
A senhora de York pôs os olhos para o lugar onde viu a menina que carregava o garoto inconsciente estava dirigindo-se com toda sua esperança: a própria mansão onde, há muito tempo, nascera e morrera. Talvez não tivesse sido ali que teve suas boas experiências (talvez a infância tenha sido boa, admitia) ou as ruins, mas ainda sim, foi lá que todo seu martírio começou. E saber-se indo para aquele lugar de novo, mesmo que ele fosse o cerne de sua força, trazia-lhe uma crescente onda de asco.
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Depois de ter recolhido o corpo do menino e a arma outra vez, ela pôs-se a continuar sua fuga desenfreada para onde queria atrair a outra. Desviando como podia, e ainda ouvindo lá longe o som de tudo e nada, dos cidadãos e da cidade ruindo aos poucos, continuava em frente. Era até estranho ter tido esse arroubo de coragem repentina nesse tipo de momento, mas repentinamente chegou a rir.
Lembrou-se de si mesma no segundo dia, quando foi resgatada por Archer, e enquanto ele lhe contava tudo que sabia, lá em seu apartamento, ela silenciosamente remoía seu desespero e tinha vontade de ser como ele, daquele jeito, firme e forte. Ironicamente, ela agora era a pessoa firme e forte dali. Mas lamentou que, da passagem de inexperiente para veterano, as pessoas tenham que passar por muitas coisas.
'A umidade provoca refração do ar... Logo, é possível criar ilusões', e contrário do que pensou que fosse fazer, que era continuar a ter momentos nostálgicos, ela voltou a pensar em seu plano. 'Mas não... Só com os choques de ar frio e quente repetidamente. Não, achei que fosse dar, mas... A mansão não tem esse nível de bolores, até onde lembro. Essa idéia terá de ser descartada.'
(Uma pena. Criar uma ilusão de si própria para distrair a lady era um bom plano.)
Ao chegar na frente da casa, teve uma breve sensação de frio, que no fim, transformou-se num arrepio em sua espinha. Firmou a arma em sua mão e seguiu, guiando-se até a porta. Ao ver que a outra ainda não podia enxergar-lhe daquele ângulo, correu para o lado esquerdo da casa e depositou o corpo do menino ali. Mas então, veio-lhe a idéia de que se o espírito visse-a sem o outro, iria saber que ela o deixou em algum lugar da casa e as estacas negras que poderiam muito bem nascer ali cuidariam do resto que era transformá-lo numa carne no espeto, literalmente.
Passou os olhos em revista pelo ambiente. Só via os raios caindo, ouvia o som proveniente deles, e a escuridão mais além, parcialmente recoberta com aqueles pedaços de espinhos gigantes de tamanhos irregulares.
Aileen notou que Alice e o corpo de Elise estava aproximando-se de novo, e amaldiçoou-se por ter perdido segundos valiosos olhando sem pensar em nada para os trovões ou aquelas coisas continuando a crescer. Respirando fundo, ela abaixou-se, ajoelhando-se no chão, e soerguendo o corpo do rapaz que estava com ela. Com delicadeza, tirou o casaco (sobretudo seria mais apropriado, entretanto) que ele estava usando e tomou-o para si, pondo-o em seu ombro.
"Volto logo, Archer. Toma cuidado, tá?" – sorriu, afastando um pouco da franja de sua testa. Queria poder fazer mais por ele, mas no momento, uma pressa a impelia a deixá-lo logo descansando finalmente parado.
A albina ergueu-se e correu até a direção onde crescia, mais uma vez, um pouco afastado da mansão, mais daquelas coisas negras. Viu que a que nascia era por demais grossa, e logo iria ceder como as outras. Logo, esperou para que uma, segundos depois, viesse até ela, e era muito mais fina se comparando-as. Agarrou-se na base, mas logo ela cresceu, erguendo-a para o alto. Por um momento, ela achou que fosse cair, e quando essa primeira impressão passou, veio as outras.
Suas mãos queriam desesperadamente soltar-se daquela superfície densa e gélida. Doíam, e não demorou para que deixasse de senti-las. Lembrou-se de que Archer também passou por isso, e achou melhor não reclamar; agora, esse papel era dela.
Aileen podia ver a silhueta de Elise e seus cabelos compridos e chamativos aproximando-se da mansão, e soube de imediato o que ela queria. Esperou, entretanto, que aquele bloco crescesse até onde pudesse (por sorte, ele não parava), e olhou temporariamente para cima, certificando-se de que estavam bem na área que ela calculou ser a de maior incidência elétrica. Uma lástima não haverem fios elétricos por ali, mas isso podia ser sublimado, sem problemas.
Ao voltar o olhar para a direção do garoto, viu que a lady pretendia esmagá-lo ou qualquer coisa do tipo. Podia ver dali seus olhos cheios do gozo de antever sua maldade. Num rápido movimento, segurando-se numa mão, esforçou-se por poder atirar. O tiro, como imaginou, passou longe, mas ao menos, chamou a atenção da outra.
"Ah... AH! Droga, droga, droga!..." – a menina exaltou-se ao ver que aquela coisa, agora, vinha na sua direção com velocidade. Assustou-se de tal forma que subir foi uma tarefa muito fácil para ela, naquele momento.
Houve um tremor quando os dois blocos ébano chocaram-se violentamente que obrigou-a a agarrar-se firmemente onde estava, fechando os olhos, deixando a espingarda inevitavelmente cair (pelo menos, ainda tinha o casaco nos ombros). Ouviu-a bater em alguma coisa e depois em outra e por fim o silêncio voltou. Aileen engoliu em seco, vendo que, agora, sua única arma caso as coisas dessem errado falhou.
"Faz-se mister uma recompensa por tua gentileza em encurralar-te dessa forma para mim, minha pequenina."
Os olhos castanhos de Elise, sem nenhum brilho, refletiam a imensa alegria de Alice por, enfim, ver acabada aquela guerra.
Por algum motivo, na cabeça da albina, só havia aquela aula onde ela aprendeu sobre correntes elétricas e o professor passou a falar de raios.
'Cargas elétricas opostas entre as nuvens e o chão', ela escrevia em seu caderno, maquinalmente, enquanto ouvia aquelas palavras intermináveis, aquelas coisas que ele enrolava, enrolava, abria e fechava parêntesis, mas no fim, só queriam dizer de verdade uma ou duas coisas. 'Os raios são mais fortes no solo.'
Aileen ouvia o som dos trovões, mas não via nenhum. Será que seu plano e o professor estariam errados? Pensava nisso quando foi acertada por alguma coisa (nunca saberia dizer o quê, exatamente), mas o grito surpreso e de dor foi inevitável; no segundo seguinte, sentia as costas quentes.
"A melodia de tua dor foi louçã. Deixa-me ouvir mais, sim?" – ria-se a outra.
'Descargas que ocorrem quando as cargas elétricas ficam fortes o bastante para superarem a rigidez dielétrica do ar', ela continuava pensando, mas sem armas, sem nada e apenas com uma mulher consumida pelo ciúmes e pelo ódio lhe atacando, a vida não parecia-lhe mais assim tão longa. 'Deve evitar ser o ponto mais alto de sua zona, evitar pontos altos e evitar áreas abertas.'
Estava ali. Tudo estava ali. Então, por que não funcionava? Seria sua impaciência ou seria o destino mesmo, aquele sádico, que não queria cooperar? Desde quando, aliás, o destino cooperava em algo?
"Acho que estou ficando maluca... E eu parecia tão inteligente até poucos minutos atrás..." – sussurrou irônica, por fim, querendo muito largar-se e acabar com aquele frio que entanguecia seus braços.
Ouviu Alice aproximar-se de si de novo. Já podia sentir aquele impacto tremendo que era os blocos imensos chocando-se. Mas tudo que ouviu foi o som de um chicote e um clarão. Olhou para cima e notou um foco luminoso descendo. E todo o resto foi tão rápido que ela não soube direito como aconteceu.
O casaco, enfim, teve sua utilidade, para descer com rapidez daquele lugar, como ela também previu outrora.
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Alice abriu os olhos lentamente, sentindo a dor que afligia o corpo da descendente. Massageou a cabeça, ainda confusa, e sentou-se no chão, ouvindo enquanto o fazia o som das correntes da calça dela soarem com delicadeza. Viu-se sentada no chão e, então, lembrou-se repentinamente o que aconteceu.
De alguma maneira, ela foi puxada do lugar de onde estava e, no instante seguinte, viu-se caindo. Teve a lembrança de ver um par de olhos vermelhos encarando-a e uma mão agarrando-a pela gola da blusa. Assustou-se, mas no fim, achou até que aquilo era alguma cena maluca, algum delírio real demais. Massagear a fronte trouxe-a a certeza de que tudo aquilo foi real. Que aquela menina, sentia, desde o início estava tentando matá-la eletrocutada.
Não, ela nunca mataria sua amiguinha, atual invólucro físico de Alice de York. Diferente do garoto, aquela albina não tinha este sangue-frio.
'Maldição... Deixei-me levar por sua aparência inofensiva. Que erro tolo...', censurava-se em pensamento, sentindo o corpo ainda dolorido demais para erguer-se e reagir devidamente. 'Pergunto-me onde está aquela pequena creti...'
"Procurando-me, tia Alice?"
E a lady sentiu contra as costas, precisamente na altura das costelas, o toque frio do cano da espingarda .12, aquela que vivia em posse dos garotos.
"...Tu vencestes, petiz dos olhos rubicundos." – um grande silêncio separou-a daquela frase. E doeu-lhe muito dizer aquilo, mas era a pura verdade. – "Mata esta Ashford e o bebê que nela desenvolve-se e sela de vez minha desgraça."
"Não há porque fazer essas coisas extremas." – Aileen suspirou. – "Não que eu vá exorcizar a Elise agora mesmo, tirar sua alma e guiá-la ao Paraíso... Mas não tem porque matá-la ou prejudicar você. Apenas pare com tudo isso. Apenas isso."
Ao ouvir isso, o espírito só pôde rir.
"Tu ainda és tão estreme, minha pequena. Acredita, desejo muito que tudo fosse simples como dize tu e tua loquaz sagacidade. Entretanto, o mundo é mais abjeto do que imaginas."
Aileen ficou quieta, apontando a arma para aquelas costas cobertas com a blusa de coloração negra, puída e um pouco rasgada devido à queda, e tinha a impressão que, mesmo ocupando o corpo de Elise, a própria Alice era muito mais frágil que aquilo.
"Quando você fala isso..." – começou. – "Você me lembra eu, senhorita. No passado, quando eu achava que o mundo era cruel, uma história qualquer que os pais contam para as crianças sentirem medo... O mundo me mostrou muitas histórias que eu aprendi a temer, e para me proteger, acabei renegando tudo que não fosse eu própria. Quando a olho assim, lembro-me de mim naquela época. Antes de conhecer Seven Sisters, mais precisamente..."
A garota dos cabelos lavanda baixou a cabeça, engolindo em seco.
"Talvez... Eu tenha sentido, no fundo de minha alma, empatia por tua pessoa também. Ou seria inveja, em verdade? Essa tua fleumática coragem... Tu eras uma néscia, e de repente, tornares-te esta pessoa que peleja com fé e força. Tantos anos me deram a oportunidade disso, e..." – calou-se. Sentia que um nó a impedia de continuar aquela confissão fisgada.
No fim de tudo, como pensou, a albina viu que aquela mulher não era assim tão perigosa. Não era tão diferente dela, afinal. Talvez, ela pudesse estar vendo seu próprio futuro; quem não lhe garantiria que ficaria, um dia, assim, vencida pela dor e pelas amarguras? Até mesmo espíritos que contaminam uma cidade e tentam te matar são humanos.
Nunca achou sentir empatia por aquela mulher tão frágil, tão pequenina. Nunca achou, aliás, que alguém assim pudesse causar tantos estragos. Mas, antigamente, tinha de admitir que a própria Aileen também era assim, um pedaço de nada.
"Eu sei, caríssima..." – ouviu-a sussurrar.
"Hã?" – aproximou-se mais, mas com cautela suficiente para continuar apontando-lhe a arma para atirar ao menor sinal de algo errado.
"Eu também faria o mesmo, se fosse tu."
E Alice de York virou-se, tocando na arma com as mãos pálidas de Elise. Os olhos castanhos encararam os vermelhos da albina e fecharam-se em seguida. Conduziu delicadamente a arma até o ventre dela.
"Solte essa espingarda, senhorita..." – por alguma razão, não tinha mais vontade de chamá-la de 'tia' e brincar. Aquela situação, de repente, adquiriu um tom sério.
"Minha pequena Elise e eu estamos em comum acordo em relação a estas nossas ações a partir de agora." – seu rosto não esboçou sentimento nessa hora. – "Folgo em saber que, ao menos, ela ainda poderá ser salva."
"Alice..." – sua voz era um alerta.
"Escusai-me, pequena dos olhos rubicundos. Mas é necessário, acredita-me."
Aileen Dawson tentou puxar a arma, porque soube instintivamente o que aquela mulher ia fazer. Mas as mãos dela tomaram o controle agora, subindo com vagar pelo cano gélido com um brilho metálico. Os trovões pareceram, repentinamente, diminuir de intensidade, quase que sumiram naquele instante singular. E os olhos daquela pessoa nunca demonstraram tanto brilho, mesmo que ali não houvesse nenhum ainda.
O grito surpreso da albina foi abafado pelo som da arma disparando. E ela sentiu os dedos gelados da garota nos seus, pressionando-os para puxarem o gatilho (coisa que acabara de acontecer). Ela pôde ver abundante sangue espirrando pelo chão, e nem o casaco do garoto, em farrapos, posto nos ombros da garota puderam conter aquele arrepio de frio interior que assomou-lhe, nem as lágrimas que pareceram brotar automaticamente de seus olhos.
Ouviu um chiar vindo do corpo de Elise, e os lábios dela encheram-se de sangue por entre aquele sorriso de alívio que a lady ou a própria pseudo-punk deram. O ventre da garota jorrava sangue, mas ele era escondido com maestria pelas roupas negras. Quando, entretanto, chegava ao chão, viscoso e escarlate como os olhos da que apenas podia ver a cena se estendendo, mostrava-se enfim.
O nome de Elise saiu como um grito sofrido da garganta da albina.
E, nesse instante, os cabelos lilases da jovem balançaram mais uma vez ao sabor do vendo, ouvindo o som longínquo de um trovão, sentindo nos olhos seu brilho fugaz. Fechou os olhos, cheia de dor e alívio ao mesmo tempo, e caiu ao chão.
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Seus membros locomotores inferiores doíam a cada passo que dava. Não só eles, mas torcera o tornozelo já outrora machucado pelas mordidas no meio da queda daquela estaca gigante, e agora, só de tocar o pé no chão, já sentia dores terríveis. Tinha nos ombros o peso de duas pessoas desacordadas e a roupa e o corpo inteiro, em geral, estavam em farrapos.
Deu mais um passo e quase achou que fosse morrer. Archer já era pesado sozinho, com uma Elise desmaiada e esvaindo-se em sangue agora, tornava-se ainda mais assustador. Ela tentara estancar o sangue, mas não conseguiu muita coisa; agora, rumava para a saída da cidade, tentar buscar ajuda em algum lugar. Gritar até algum carro parar, até alguém ouvir... Não sabia. Qualquer coisa.
Sentia vontade de chorar quando pensava que o bebê que Elise tinha na barriga fora sacrificado. Nenhum feto sobreviveria à toda aquela agitação e um tiro no estômago da mãe. E Archer tentara tanto protegê-lo! Se bem que, por outro lado, era fruto de estupro. Não seria bom, no futuro, para a mãe ou para ele próprio, se viesse a nascer. Sacudiu a cabeça, não querendo pensar naquilo. Sempre haveria os que diriam que ela fez errado, que devia ter deixado aquela vida desenvolver-se. Dane-se! Elise e Alice de York estavam em comum acordo, como dissera a mesma. Que resolvessem-se daquele jeito, se achassem que fosse o único.
Ela nunca foi daquelas de ficar dando corda para esses debates sem-graça como abortos, eutanásias e etc, nem sequer conhecia a cara daquela criança para amá-la. Só queria mesmo era achar alguém que tivesse carro ou primeiros socorros e ajudasse-os a sair dali. Só isso.
Aileen sentia seu sangue do ferimento das costas e o do tiro de Elise escorrendo-lhe pelas pernas, como se ela estivesse carregando uma cruz, como o dia da crucificação de Cristo. Quis rir da comparação tola, mas não havia outra melhor; o gelo das estacas que não desapareceram continuava, aquela atmosfera densa da cidade permanecia, os raios, a escuridão... Tudo da mesma forma, tirando a ausência de Alice. A albina esgueirava-se pelos espaços daquele labirinto complexo, mas não via nada a sua frente, além de negro e mais negro.
Continuou caminhando, e a cada passo, a cabeça enevoava mais. Lembrava-se vagamente de já ter sentido-se assim antes. Olhou de relance a arma, só porque, até então, nem parou para analisá-la. Estava um pouquinho avariada da queda, lógico, mas ela ainda podia atirar, afinal, a própria Alice atirou contra sua descendente. Respirou aliviada, ao menos, tinha de novo seu triunfo.
Dawson sentiu uma dor aguda espalhando-se pelo corpo todo quando ouviu um som. Retesou-se o máximo que pôde, e algo profundamente enraizado em seus instintos a fez erguer a arma, como se aquilo fosse um game de visão em primeira pessoa e fosse aparecer a qualquer minuto, um monstro para ela matar.
De fato, reconheceu de imediato aqueles grunhidos. O som arrastado de passos e aquelas silhuetas. Ela reconheceu-os de imediato.
"Oh, não..." – gemeu, em pânico. Tinha o corpo trêmulo e a mente enevoada, desejando apenas uma cama quente e alguém que viesse-lhe ajudar. – "Por favor, me deixem em paz, criaturas..."
Até então, elas nem haviam incomodado-a durante a batalha. E, agora, de repente, como um último chefão definitivo desse 'jogo imaginário', vinham querer a carne dos dois inconscientes em seus ombros e dela própria, nem metade do que era quando toda essa situação iniciou-se. Agora estava faminta, machucada, com vontade de morrer e sem um pingo de animação.
Atirou a primeira vez, mas ouviu o som de um corpo só caindo. E seus olhos cansados avistaram aquelas coisas pálidas e assustadoras, de bocas escancaradas e aos montes, vindo sem cessar. Haviam muitos mais para matar. Atirou de novo, e outro caiu, com um furo na testa.
E atirou. E nenhuma bala saiu, só o som do pente vazio. O pânico da garota exagerou-se de tal forma que ela achou que fosse vomitar.
"Não... Atira, droga... Atira!..." – apertava o gatilho, mas não saía nada (onde o casaco de Archer estava? Ainda estava com ela? Deixou-o lá longe ou o quê?!).
Nada. E eles pareciam mais próximos a cada segundo. Já os via até estendendo as mãos contorcidas, certos e lembrando-se do doce sabor que era o de uma carne jovem e da fonte em suas bocas.
Aileen sentiu um frio no estômago e as pernas bambearem. E soube, nesse momento, afinal, de onde já havia vivido esse momento.
O seu primeiro dia em Seven Sisters. Ela também havia tido essa sensação.
"Oh não... Dejà vu...?" – perguntou-se, esfregando os olhos.
Tal qual naquele dia, ela não suportou mais toda aquela pressão e cansaço esmagando-a aos poucos. Entregou-se ao sono reparados de um desmaio.
Continua...
Nota: Não me matem ainda! Falta o último capítulo pra fazerem isso. XDD
Próxima Noite: Epílogo.
