Gokudera
Durante 21 anos Gokudera Hayato acordou sozinho todas as manhãs. Quando seus grandes olhos verdes se abriam, nunca houve ninguém ao seu lado, fosse o direito ou o esquerdo. As noites que passou na cama de amantes nunca duravam até a manhã seguinte, e o Guardião da Tempestade sempre retornava para seu apartamento, deixando claro que aquele ato era apenas uma forma de aliviar seu corpo. Entretanto, como tudo na vida, aquele seu hábito chegou ao fim há cerca de três meses. Agora, todas às vezes que abria os olhos, o homem de cabelos prateados sabia que teria companhia; haveria alguém do seu lado direito da cama.
Porém, naquela manhã de sábado, quando seus olhos verdes se abriram, não havia nada.
Gokudera piscou longamente, esticando sua mão e percorrendo o colchão. Não existia calor naquela região, o que denunciava que a pessoa que deveria estar ali deixara aquele local há algum tempo. O Guardião da Tempestade virou-se na cama, encarando o teto e suspirando. Ele saiu cedo novamente, aquele idiota. O Braço Direito do Décimo Vongola espreguiçou-se antes de ficar em pé, repetindo a espreguiçada apenas para ter certeza de que ele estava realmente acordado. Seus olhos abaixaram-se e o homem de cabelos prateados revirou os olhos ao perceber que estava completamente nu. Uma boa olhada pelo quarto e ele ergueu as sobrancelhas, sentindo-se satisfeito. Ele limpou o quarto. Um leve rosado pintou as bochechas de Gokudera quando ele se lembrou o que havia acontecido na noite anterior. Banho. Eu preciso de um banho.
O apartamento estava fresco. O outono havia chegado e era fácil perceber que aquela estação seria mais fria do que quente. Nos últimos dias de verão a temperatura já havia começado a decair, e atualmente era impossível sair sem pelo menos carregar um casaco. O Guardião da Tempestade abriu seu guarda-roupa, pegando o primeiro conjunto de moletom que apareceu diante de seus olhos. Os passos que o levaram até o banheiro foram vagarosos, e assim que entrou no box o Braço Direito ligou o chuveiro com certa pressa. A água quente bateu em seu peitoral, esquentando-o aos poucos e afastando o frio que ele sentiu ao cruzar aquele pequenino espaço entre o quarto e o banheiro. O homem de cabelos prateados encheu a mão com água e lavou seu rosto, fechando os olhos e deixando que a água quente o tocasse como a mão gentil de um amante.
O banho foi levemente demorado. Gokudera aproveitou o máximo possível a água quente, deixando o banheiro apenas quando seus dedos estavam enrugados. De banho tomado e dentes escovados, o Guardião da Tempestade seguiu direto para a cozinha. Seu corpo implorava um pouco de nicotina, mas ele sabia que seu ritual matinal só seria completo se ao lado de seu cigarro houvesse também uma fumegante xícara de café. Eu preciso fazer compras. O homem de cabelos prateados ficou na ponta dos pés, encarando a despensa que ficava na parte de cima do armário. Café, arroz, macarrão... Eu precisarei de uma lista. A cafeteira foi ligada e, enquanto esperava, o Braço Direito abriu todas as portas da despensa, anotando mentalmente o que era preciso ser reposto. O apito da cafeteira coincidiu com o barulho da porta de entrada sendo aberta, e Gokudera sentiu seu estômago dar voltas. Você já deveria ter se acostumado a isso, Hayato, a vozinha dentro da cabeça do Guardião da Tempestade só tornou a situação pior. Os olhos verdes estavam fixos na cafeteira, tentando ao máximo ignorar o entorno.
Os passos não foram ouvidos, mas seria humanamente impossível ignorar alguém como Yamamoto Takeshi.
A voz do Guardião da Chuva soou alta e animada, e somente naquele momento o homem de cabelos prateados virou o rosto, encarando a entrada da cozinha. O moreno estava parado, um largo sorriso no rosto, mas as bochechas levemente coradas. Não seria preciso adivinhar para descobrir onde o idiota estivera. No momento em que acordou sozinho na cama, o Braço Direito já sabia que Yamamoto havia saído para correr. Aquela era uma atividade diária e que acompanhava aquele homem desde os tempos de colégio. Na maioria das vezes o Guardião da Chuva retornava quando ele estava acordando, de banho tomado e cheiroso, mas naquela manhã Gokudera acordou mais cedo e não teve a oportunidade de ser despertado por um pegajoso e insaciável moreno, que achava que não havia nada mais interessante para fazer após uma corrida do que sexo.
"Bom dia." O Guardião da Tempestade respondeu baixo, virando o rosto e pegando uma xícara. Aquele pensamento o fez corar e ele se sentiu tolo por ter ficado levemente frustrado por não ter tido nenhuma intimidade naquela manhã. Aquela rotina o agradava... e muito.
"Você acordou cedo esta manhã." O moreno cruzou a cozinha.
O homem de cabelos prateados deu de ombros e caminhou até a geladeira, abrindo-a e pegando uma bebida energética. Yamamoto agradeceu e sorriu, abrindo a garrafa e bebendo o conteúdo de uma vez. O Braço Direito serviu-se de café, recostando-se à pia e tentando manter os olhos baixos. Ainda não. Ainda está cedo para termos essa conversa. Gokudera apertou a alça de porcelana da xícara com um pouco mais de força, imaginando que após o almoço talvez fosse o melhor momento. Havia algo que ele precisava conversar com seu amante, mas a resposta e reação seriam tão negativas que o Guardião da Tempestade aguardava pelo momento certo para iniciar o diálogo. O único problema é que ele deveria ter tido aquela conversa há três dias. Amante... O homem de cabelos prateados sorriu de canto. Ainda parece impossível que Yamamoto seja realmente meu amante.
"Você parece feliz." Os olhos verdes se ergueram, encarando um belo par de olhos castanhos. O Guardião da Chuva estava em frente, mas ele não havia notado até aquele momento. "Algo bom aconteceu?"
"Vá tomar banho, Yamamoto." O Braço Direito juntou as sobrancelhas, tentando parecer bravo. Aquela missão era quase impossível.
"Hahahaha eu vou, eu vou." O moreno deu mais um passo à frente, tocando os cabelos prateados com a ponta de seus dedos. "Você deveria ter me esperado. Poderíamos ter tomado banho juntos."
Banho com você nunca é um banho, idiota! Gokudera sabia disso melhor do que ninguém. Ele poderia contar nos dedos às vezes que entrou debaixo do chuveiro com seu amante e ambos realmente tomaram banho. Os olhos verdes se ergueram e o Guardião da Tempestade sentiu-se tentado a aceitar aquela proposta. Yamamoto deu um terceiro passo à frente, retirando a xícara de seus dedos e pousando-a na pia. As mãos seguraram a cintura do homem de cabelos prateados e a próxima coisa que o Braço Direito do Décimo soube foi que havia uma ardilosa e tentadora língua invadindo sua boca, enquanto seus braços envolviam o pescoço do Guardião da Chuva. O beijo intensificou-se com o tempo, e em determinado momento Gokudera sentiu seu corpo ser prensado contra a pia. Um dos joelhos do moreno pressionava seu membro e seria impossível não se deixar levar naquela deliciosa situação. Porém, partiu do próprio Yamamoto a iniciativa para se afastar. O Guardião da Chuva abriu um largo sorriso, mas manteve os lábios próximos.
"Eu realmente preciso de um banho. Estou todo sujo e suado, desculpe."
"Foi o que eu disse, i-idiota." A voz do Guardião da Tempestade era apenas um fio. Seus lábios se encostavam aos de seu amante quando ele articulava as palavras. Eu realmente não me importaria de ficar sujo e suado com você...
"Tem certeza de que não quer ir comigo? Um segundo banho não faria mal."
O homem de cabelos prateados precisou de muito mais do que força de vontade para negar aquele perigoso convite. Seus lábios beijaram gentilmente os lábios do moreno, mas ele meneou a cabeça em negativo. Yamamoto esboçou um sorriso levemente desapontado, mas deixou a cozinha rindo. O Braço Direito do Décimo respirou fundo, fechando os olhos e tentando fazer com que seu corpo se acalmasse. Todas as vezes que estava perto do Guardião da Chuva era como se todo o resto simplesmente desaparecesse e só existissem os dois. Eu preciso falar com ele primeiro. Aquele pensamento foi tão deprimente que Gokudera sentiu seu corpo retornar ao normal quase instantaneamente. Sua mão voltou a segurar a xícara de café e o Guardião da Tempestade tentou ao máximo aproveitar aquela paz momentânea. Ele sabia que duraria pouco.
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O relógio marcava pouco mais de dez horas quando o homem de cabelos prateados decidiu que era hora de colocar as cartas na mesa. Após o banho, o moreno o ajudou com o preparo do café da manhã e depois os dois lavaram a louça juntos. A sala precisava de uma boa limpada, e Yamamoto não se incomodou em ajudar. Aliás, quando o assunto era tarefas domésticas, o Guardião da Chuva sempre se prontificava a dar uma mãozinha. "Eu sempre fiz isso. Como sempre fomos apenas eu e meu pai, alguém precisava cuidar das tarefas de casa." Era a resposta que o moreno deu na primeira vez que foi questionado sobre aquele peculiar hobby. A sala foi limpa e arrumada e, quando se sentou finalmente no sofá, o Braço Direito soube que precisava ter aquela conversa.
"Eu preciso falar com você."
A frase foi dita displicentemente e com o tom de voz normal, mas Yamamoto não pareceu compartilhar daquela sensação. O Guardião da Chuva estava em frente à janela arrumando a cortina quando aquelas palavras chegaram aos seus ouvidos. Sua cabeça virou-se e sua expressão estava tão séria e pesada que Gokudera inevitavelmente abaixou os olhos, sentindo-se intimidado. O moreno afastou-se da janela, sentando-se na outra ponta do sofá. Entre eles havia dois espaços vagos, porém, naquele momento aquilo não era um simples sofá, mas sim uma zona neutra de guerra.
"Estou ouvindo." O ex-capitão do time de baseball cruzou os braços. O Guardião da Tempestade engoliu seco. O idiota sabe impressionar quando quer. Eu queria ver essa seriedade toda para o trabalho!
"Não é nada demais. Não há necessidade para essa formalidade toda." O homem de cabelos prateados balançou a mão direita, como um sinal de que a conversa era rotineira. O assunto, porém, não.
"Quando eu perguntei esta manhã se algo estava acontecendo você negou. Eu não pressionei, mas sabia que havia alguma coisa errada. Há alguns dias você parece estar omitindo algo e eu não gosto disso, Hayato." A voz de Yamamoto soou normal, mas ele parecia levemente chateado.
"Eu não estou escondendo nada, idiota." O Braço Direito do Décimo juntou as sobrancelhas. De repente ele sentiu como se escondesse um segredo ultra secreto. "Apenas não vi oportunidade para tocar no assunto. Não é nada demais."
"Certo." A resposta do Guardião da Chuva contrastava totalmente com sua expressão. Gokudera ergueu os olhos e coçou a nuca. Seu coração bateu mais rápido. Era impossível não admirar a beleza do moreno mesmo quando ele estava bravo. Ele parece outra pessoa.
"O Jyuudaime pediu que eu procurasse o responsável legal pelo terreno ao lado do escritório." O Guardião da Tempestade começou. "Você sabe que ele quer ampliar a construção, principalmente depois dos últimos acontecimentos. O Jyuudaime está decidido a aumentar o tamanho do prédio e expandir a parte subterrânea."
"Eu soube. A ideia parece interessante." Yamamoto balançou levemente a cabeça, concordando.
"Bem, eu procurei e encontrei a pessoa responsável. O Jyuudaime me deu até hoje para entrar em contato com a outra parte, mas eu queria conversar primeiro com você."
"Comigo? Mas eu não entendo nada sobre essas coisas." As sobrancelhas do Guardião da Chuva se juntaram e uma expressão de dúvida cruzou sua face. Ele parecia um adolescente preocupado com alguma bobagem.
"Eu sei. Eu também não entendo. Quem vai cuidar disso será Reborn, mas de qualquer forma eu achei que deveria comunicá-lo." O homem de cabelos prateados respirou fundo. O pior ainda estava por vir. "O responsável legal e representante do dono do terreno é um conhecido meu."
A expressão do moreno tornou-se tão séria que o Braço Direito quase pôde tocar o clima pesado que se instaurou naquele exato momento. As sobrancelhas negras se juntaram e os olhos castanhos pareceram duros e levemente irritados. Os lábios que há dez minutos estiveram rindo agora exibiam uma fina e rígida linha. Nós não falamos sobre isso. Nós nunca falamos sobre esse assunto. Gokudera manteve o olhar fixo em seu amante, esperando alguns segundos para continuar. Eu não precisava dizer nada. Eu simplesmente poderia ter ligado e marcado de me encontrar com Masayoshi. É trabalho e Yamamoto sabe disso. Porém, no momento em que teve conhecimento de que seu ex-amante era responsável pelo contrato, o Guardião da Tempestade soube que precisaria ter aquela conversa. Eu não sou apenas "eu". Agora somos "nós".
"Obrigado por me avisar." O sarcasmo não combinava com o Guardião da Chuva, mas o homem de cabelos prateados decidiu não se deixar abater. Ele já esperava aquele tipo de reação.
"Eu vou entrar em contato com ele e marcaremos de nos encontrar. É trabalho, Yamamoto e você sabe disso. Eu estou apenas comunicando porque se fosse o contrário eu gostaria que você fizesse o mesmo."
A seriedade não desapareceu do rosto do moreno. Na verdade, ele parecia ficar mais aborrecido a cada segundo.
"Eu não sabia que ele era advogado. Muito capaz aquele seu amigo."
"Pelo menos você entendeu." O Braço Direito respondeu no mesmo tom irônico. Seu sangue começava a ferver. Ele detestava cinismo.
"Por que não marca de se encontrarem aqui? Podemos todos sentar ao redor da mesa e tomar uma xícara de café."
E lá vamos nós...
O Braço Direito revirou os olhos e ficou em pé. Ele havia se preparado para receber respostas atravessadas aqui e ali, mas não participaria do showzinho pessoal que o idiota pensava em dar. Seus passos o levaram até o corredor e Gokudera entrou no quarto sem saber o que fazer. Se eu ficasse naquela sala eu explodiria o idiota. O guarda-roupa foi aberto e o Guardião da Tempestade encarou seu conteúdo, mas sem procurar nada em especial. Suas roupas sociais estavam perfeitamente arrumadas, mas o que realmente chamou sua atenção foram as três camisas brancas que estavam penduradas ao fundo. Elas eram dois números maiores e até um ano atrás ele jamais imaginou que elas um dia estariam ali. Os olhos verdes encararam o outro lado. Havia três ternos diferentes dos seus, três calças, dois conjuntos esportivos e em uma das gavetas existia pelo menos meia dúzia de roupa de baixo que não lhe pertencia. O homem de cabelos prateados sentiu as bochechas corarem. Não havia um momento em que ele não abrisse o guarda-roupa que aquela sensação não se apoderasse de seu peito e o fizesse quase chorar. Ele nunca achou que viveria para experimentar aquele nível de felicidade.
A presença foi sentida antes de as grandes mãos envolverem sua cintura, porém, o Braço Direito do Décimo não se moveu. Ele sentiu os dedos longos e morenos correrem por aquela parte de seu abdômen e o calor daqueles braços quando eles o envolveram. Os olhos verdes se fecharam, permitindo-se aproveitar a presença de seu amante. Os lábios de Yamamoto tocaram seu pescoço, depositando um possessivo beijo na pele pálida.
"Desculpe, Hayato." A voz do Guardião da Chuva soou rouca e próxima ao seu ouvido direito. Aquele simples sussurro levou uma onda de eletricidade por seu corpo. "Eu agi como um idiota."
"Você é um idiota." Os lábios de Gokudera se moveram devagar. Sua voz também estava baixa.
"Hahaha eu devo ser." O moreno riu contido, apertando um pouco mais o abraço.
"É trabalho. Eu não vou encontrá-lo porque quero. Ele é passado."
"Eu sei. Mas eu não quero que você vá encontrá-lo." Yamamoto diminuiu ainda mais o tom de voz. O Guardião da Tempestade fez menção de se virar, mas os braços ao redor de sua cintura não permitiram. "Eu não posso encará-lo agora, Hayato. Eu não quero que você me veja nesse momento. Eu pareço patético."
"Eu já vi todos os seus lados, idiota." O homem de cabelos prateados forçou um pouco os próprios braços e virou-se. O Guardião da Chuva tinha o rosto inclinado para o lado, mas não foi preciso muito para que Gokudera conseguisse fazer com que ele o encarasse diretamente.
"Eu não gosto daquele homem, Hayato." Havia dor naqueles profundos olhos castanhos. "Eu não gostava da maneira como ele te olhava... como se você pertencesse a ele, como se você fosse dele. Ele te olhou dessa forma quando o vi pela primeira vez."
O Guardião da Tempestade conhecia aquele lado de seu amante, e, para ser bem sincero, foi um pouco surpreendente descobrir que o moreno era ciumento e levemente possessivo com relação a sua pessoa. Quando questionado sobre isso, Yamamoto apenas deu de ombros e disse que nunca havia se sentido daquela forma antes, mas que não era algo que conseguia evitar. Intimamente o homem de cabelos prateados não gostava de ter sua liberdade questionada, mas mentiria se dissesse que não se sentia querido e amado quando ouvia certas coisas. A ponta de seus dedos subiu pelo peitoral de seu amante, sentindo a pele quente e morena por baixo da camisa branca.
"Você pode ir comigo se quiser. Eu disse, é trabalho. Nós não vamos nos encontrar como melhores amigos. Nós nunca fomos amigos."
"Eu sei, mas não irei." O Guardião da Chuva sorriu sem graça. "Eu não acho que conseguiria ser muito civilizado na frente daquele homem. Eu me sentiria em segundo lugar novamente."
As sobrancelhas prateadas se juntaram. Ele não entendia.
"Deveria ter sido eu, entende?" O moreno corou levemente e era clara a maneira como ele não queria dizer tudo aquilo. "Todos esses anos, todos os outros... eu não gosto de lembrar que eles tiveram a chance de estar com você antes de mim. E-E eu não estou falando sobre sexo, mas sim em ter você, só você."
O Braço Direito precisou juntar toda a força de vontade que possuía para simplesmente não abraçar aquele homem. Yamamoto, quando queria, conseguia ser extremamente adorável e era em momentos como aquele que Gokudera não sentia sua liberdade ameaçada. Não era uma maneira de privá-lo. Aquelas palavras apenas deixavam claro o quanto o Guardião da Chuva se preocupava com ele. Eu demorei a acreditar nisso, e se existe alguém que acorda todos os dias com medo de ser deixado para trás, esse alguém sou eu. O corpo do Guardião da Tempestade se aproximou e ele podia sentir a maneira possessiva com que sua mão esquerda descia pelo ombro do moreno. Não havia um centímetro de seu ser que não desejasse aquele homem e, ao sentir as duas mãos de seu amante ao redor de sua cintura, o homem de cabelos prateados percebeu que não era o único.
O beijo foi acompanhado por um leve empurrão contra o guarda-roupa. O Braço Direito do Décimo sentiu quando suas costas encostaram-se aos ternos, mas, antes que ele simplesmente afundasse naquele local, Yamamoto o puxou e o ergueu um pouco, fazendo com que seus corpos se encontrassem. A ereção que cutucava seu baixo ventre o fez gemer, e Gokudera soube naquele exato momento que sua ligação teria de esperar. Os olhos verdes se abriram devagar e, ao ver que a cama estava logo atrás, o Guardião da Tempestade empurrou o ex-capitão do time de baseball. Dois brilhantes e possessivos olhos castanhos o encararam, e com um único movimento o homem de cabelos prateados se livrou da camiseta e blusa de moletom que vestia, antes de se ajoelhar na cama. Os braços do Guardião da Chuva o puxaram ainda no meio do caminho, fazendo-o deitar-se na cama. O segundo beijo foi mais eufórico e necessitado. A língua do Braço Direito percorria cada pedacinho do interior da boca do moreno, mas seus lábios gemeram ao sentir a mão que havia descido sorrateiramente para dentro de sua calça de moletom. Os dedos de Yamamoto desciam com pressa sobre sua ereção, e foi impossível para Gokudera permanecer imóvel. Seu corpo inclinou-se para o lado e sua própria mão direita encontrou fácil acesso dentro da calça de seu amante. O calor que percorreu seu corpo ao sentir a ereção do Guardião da Chuva entre seus dedos foi indescritível, e só perdia para o gemido rouco e sensual que escapou pelos lábios do moreno.
Os beijos cessaram por um momento, dando lugar a eufóricos gemidos que imploravam alívio. Os dois corpos estavam de frente, e o rosto de Gokudera escondido no pescoço de seu amante, enquanto as mãos de ambos faziam o serviço. A temperatura fresca do dia deu lugar ao calor quase insuportável do quarto, e em determinado momento o Guardião da Tempestade soube que precisaria de mais. Seus lábios depositaram um leve beijo na pele do pescoço do moreno, e seu corpo se projetou para baixo. Yamamoto abriu os olhos e não pareceu muito feliz, como se houvessem retirado um brinquedo de suas mãos.
"A segunda gaveta."
A voz do homem de cabelos prateados saiu baixa. Seu rosto estava vermelho e seu ser parecia em chamas. Seu corpo ajoelhou-se entre as pernas do Guardião da Chuva e suas mãos abaixaram a calça e a roupa de baixo negra sem nenhum aviso. O moreno ainda disse alguma coisa, mas o Braço Direito não ouviu nada. Seu rosto abaixou-se e no momento em que a ereção de Yamamoto entrou quase por completo em sua boca, nada mais importou. Um rouco gemido chegou aos seus ouvidos, e sua mão direita segurou a base do membro do ex-capitão do time de baseball apenas para mantê-lo naquela posição.
Por alguns segundos tudo o que Gokudera fez foi saborear aquele homem até o limite. Aquele era um prazer pessoal que ele sentiu desde a primeira vez que ofereceu aquele tipo de serviço a Yamamoto. O gosto, as reações, a maneira como aquele corpo respondia tão honestamente a um estímulo tão básico o excitava quase tanto quanto a ideia de ter o Guardião da Chuva entre suas pernas. O corpo do moreno sempre foi alvo das fantasias mais íntimas do Guardião da Tempestade, mas somente após a primeira vez entre eles foi que o homem de cabelos prateados entendeu realmente o poder que seu amante tinha sobra ele; pois fantasia alguma poderia se comparar a realidade, ao homem que gemia incansavelmente, pronunciando seu nome vez ou outra, apenas para provocá-lo... apenas para lembrá-lo do que estava acontecendo. A mão direita do Braço Direito do Décimo Vongola tocava sua própria ereção, e ele sabia que seu corpo provavelmente acabaria cedendo ao prazer primeiro.
Era impossível controlar suas vontades quando estava naquela posição. Seus movimentos tornaram-se mais vagarosos, tentando adiar o orgasmo. Seus lábios, porém, dedicaram um pouco mais de atenção a ereção de Yamamoto. Gokudera sabia melhor do que ninguém que não conseguiria colocá-la por inteiro em sua boca, mas havia certos truques que davam conta do recado; a pressão em sua mão direita aumentou e sua língua moveu-se com um pouco mais de empenho, sabendo que o Guardião da Chuva chegaria ao seu limite. O último gemido foi rouco e mais alto. Ele veio acompanhado pelo clímax do moreno, que desceu por completo pela garganta do Guardião da Tempestade. Seu próprio orgasmo aconteceu no segundo seguinte, fazendo-o tremer levemente de êxtase. O homem de cabelos prateados ergueu o rosto, recebendo um olhar embaçado por prazer e desejo. Seu corpo estava sensível e foi com grande esforço que ele esticou a mão pela cama, pegando o tubo de lubrificante. Sua calça e roupa de baixo foram retiradas e jogadas em algum lugar, e uma mão morena o puxou pela cintura, fazendo-o deitar-se sobre a cama.
Em momentos como aquele o Braço Direito notava a diferença física entre ele e seu amante. Yamamoto era alto, forte e atlético. Aqueles músculos foram construídos por horas de treinos, corridas e exercícios. O tom moreno da pele era natural e todo aquele conjunto criava um ser humano tão irresistível que, às vezes, Gokudera se pegava pensando como havia conseguido manter-se são por tantos anos. Em contrapartida ele mesmo era magro, mas não forte. Sua pele era pálida, um branco quase doentio. Seus cabelos prateados não ajudavam em nada, criando uma aparência mais frágil do que ele a realidade. Suas mãos subiram pelo peito moreno ao ver o Guardião da Chuva por cima. Ele amava aquele contraste entre as peles, o cheiro e gosto daquele homem. Ele adorava ver-se refletido naqueles olhos castanhos, fosse em momentos gentis, sentados no sofá e assistindo alguma bobagem na televisão; ou fosse em momentos como aquele, em que o ex-capitão do time de baseball o olhava com tanta fome que ele conseguia imaginar-se sendo possuído de diversas maneiras. Todos aqueles anos, todos os amantes que teve... nenhum deles o fez sentir daquela forma. Nenhum deles foi capaz de satisfazer seu coração e seu corpo.
Não haveria muito tempo para preparações e o homem de cabelos prateados soube disso assim que o primeiro dedo de Yamamoto o penetrou. Ele se moveu com pressa, enquanto os lábios de ambos estavam presos em um profundo beijo. Um segundo dedo pediu passagem, e então os gemidos de Gokudera começaram a ecoar pelo quarto. Em pouco tempo o Guardião da Chuva havia se tornado bom naquilo, como se durante toda a sua vida sexual ele tivesse tido aquele tipo de experiência. Eu não posso culpá-lo, o Guardião da Tempestade pensou após alguns instantes. Os dois dedos se moviam com facilidade dentro dele, mas não era possível esperar mais. Sua ereção havia retornado e ele tinha certeza de que o moreno também estava em seu limite, nós fazemos isso quase todos os dias. O homem de cabelos prateados virou-se assim que sentiu os dedos de Yamamoto deslizarem para fora de seu corpo.
"T-Tem certeza?"
O Braço Direito virou o rosto. Já era suficientemente embaraçoso estar naquela posição; ele não precisava dizer com todas as palavras certas coisas. Claro que não tenho certeza, mas eu não aguento mais esperar. Gokudera abriu a segunda gaveta da cômoda da esquerda, encheu a mão com preservativos e os colocou sobre a cama. O uso dependia do dia. Antes de Yamamoto, o Guardião da Tempestade nunca havia feito sexo sem utilizá-los. A opção com o Guardião da Chuva variava com o clima. Intimamente o homem de cabelos prateados sentia certa atração por ser possuído sem intermediários, pois ele sempre sentia o orgasmo do moreno dentro dele e não havia nada mais erótico do que aquilo. Entretanto, naquela manhã ele abriria mão daquele seu pequeno fetiche, pelo menos de imediato. O ex-capitão do time de baseball não voltou a questionar. O Braço Direito do Décimo Vongola afundou o rosto no travesseiro, sentindo seu corpo se arrepiar ao ouvir o barulho do preservativo ser aberto. Ele não via, mas imaginava nitidamente os movimentos, a maneira como Yamamoto arrancaria a embalagem com os dentes, a delicadeza de seus dedos ao deslizar o látex sobre seu membro... cada detalhe levava uma onda de arrepio por seu corpo, mas nada se comparou ao momento em que uma das mãos do Guardião da Chuva segurou seu quadril, e ele sentiu a ereção em sua entrada.
Gokudera não teria conseguido esconder sua reação mesmo que quisesse. Os minutos que seu amante passou preparando-o foram extremamente necessários, mas jamais teriam sido suficientes se comparados ao ato em si. O Guardião da Tempestade apertou o travesseiro com ambas as mãos, até que os nós de seus dedos estivessem brancos, tamanha a força que ele precisou empregar. Ele sentiu cada milímetro do membro do moreno penetrá-lo, encostando-se ao seu ponto especial e fazendo com que seus lábios cantassem. Seu corpo ainda não havia se acostumado ao tamanho de Yamamoto. Os amantes anteriores do homem de cabelos prateados sempre foram medianos, então ele precisou se ajustar a sua nova realidade. Geralmente os dois passavam algum tempo com preliminares, até que o corpo do Braço Direito estivesse pronto. Outras vezes, como aquela, não havia preliminar que os fizessem esperar, pois o desejo era muito maior do que o medo de sentir dor. O Guardião da Chuva colocou ambas as mãos ao redor da cintura de Gokudera, retirando sua ereção devagar, quase por completo, e penetrando-o novamente. A segunda estocada foi acompanhada pela terceira, e na quarta vez o Guardião da Tempestade já sentia seu quadril movendo-se para trás, esperando receber seu amante por completo. Aquilo pareceu agradar o moreno, pois a partir daquele momento as investidas se tornaram mais fortes e os lábios do homem de cabelos prateados formaram um meio sorriso, imaginando o prazer incrível que estava para receber.
Não havia palavras para descrever o que era fazer sexo com Yamamoto. O jeito com que aquele homem se movia, a maneira como suas mãos subiam e desciam pelas costas do Braço Direito... em poucos minutos não havia mais dor ou controle ou bom-senso. Gokudera havia desistido de omitir sua voz, e seus gemidos eram altos e roucos, rivalizando somente com a voz do Guardião da Chuva e o barulho das estocadas. O Guardião da Tempestade sentia o corpo quente e a maneira delirante como a cada penetrada ele premeditava seu segundo orgasmo. Sua mão direita desceu até seu baixo ventre, mas, antes que pudesse tocar sua própria ereção, o moreno retirou-se de dentro dele e o virou. O movimento foi rápido e quase humanamente impossível. O homem de cabelos prateados não teve tempo de reagir à mudança de posição, pois Yamamoto voltou a penetrá-lo com o dobro de força. As costas do Braço Direito do Décimo se arquearam do colchão e sua cabeça inclinou-se para trás. Ele podia sentir seus pés apoiarem-se na cama, ficando na ponta dos dedos. As grandes mãos morenas seguravam sua cintura com extrema possessividade, puxando seu corpo para baixo e garantindo que o corpo pálido recebesse o membro por inteiro. Gokudera entreabriu os olhos, tendo pequenos vislumbres do teto branco. Seus lábios estavam entreabertos e a única coisa que ele sabia era que gemia, gemia, e pedia para que Yamamoto fosse mais rápido, que Yamamoto o possuísse com mais força... que Yamamoto fizesse uma verdadeira bagunça com ele. O desejo foi atendido e, após mais duas estocadas, o Guardião da Tempestade puxou a colcha da cama com tanta força que seus dedos chegaram a estalar.
O clímax chegou forte e sem nenhum outro estímulo além daquele oferecido por seu amante. Os olhos verdes se fecharam e por um momento o homem de cabelos prateados achou que perderia a consciência, até sentir seu corpo ser puxado para cima. Seus olhos se abriram e ele precisou de alguns segundos para se dar conta de que estava sentado sobre o colo do Guardião da Chuva. Suas mãos automaticamente seguraram o rosto úmido de suor de seu amante, e seus lábios capturaram os lábios do moreno, beijando-o com intensidade, como se sua vida dependesse daquele gesto. Os joelhos apoiados na cama se moviam para cima e para baixo, mas o Braço Direito do Décimo não tinha consciência desse gesto. Ele não sabia que seu quadril se mexia com uma tortuosa rapidez. Tudo o que ele tinha consciência era que seu corpo parecia anestesiado, e que não havia melhor som do que os gemidos contidos que seu amante deixava escapar entre os beijos. Os olhos verdes se abriram e Gokudera esboçou um sensual meio sorriso ao ver-se refletido naqueles belos olhos castanhos. Yamamoto retribuiu aquele sorriso com uma baixa gargalhada, envolvendo a cintura do homem que estava por cima e a empurrando para baixo com mais força. O Braço Direito gemeu alto, arqueando as costas levemente e apertando os ombros do Guardião da Chuva.
Sua pele estava vermelha, tanto pelo prazer como pelas marcas de apertos e beijos. A cortina estava levemente aberta, e a claridade permitia que ambos pudessem ver basicamente todo o ato. Naquela manhã o homem de cabelos prateados perdeu a conta de quantas vezes precisou virar sua cabeça para trás ou arquear suas costas. Sua voz havia sumido após tantas horas gemendo e sua consciência havia se esvaído depois do quarto orgasmo. Entretanto, durante todo aquele tempo Gokudera se sentiu totalmente amado e desejado. O homem que o tocava, o possuía e o beijava era a única pessoa que conseguia ver aquele seu lado descomposto e não-profissional. O céu ainda estava claro do lado de fora da janela quando o Guardião da Tempestade teve seu último orgasmo, porém, antes de perder a consciência, o homem de cabelos prateados provou o delicioso gosto do beijo do moreno, sentindo-se seguro e certo de que experimentaria aquele beijo pelo resto de sua vida.
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Masayoshi estava pontualmente às 17hs no Café em que eles haviam marcado. A ligação foi feita na noite anterior, um pouco antes do jantar e depois do homem de cabelos prateados ter tomado um longo e necessário banho. A conversa durou menos de dois minutos, e ficou acertado que os dois se encontrariam no fim da tarde do dia seguinte. Não era preciso mencionar que Yamamoto passou o restante daquela noite e metade do outro dia ainda mais pegajoso. Entretanto, conforme as horas foram passando, o humor do Guardião da Chuva mudou e, antes de deixar o apartamento, o Braço Direito do Décimo recebeu um pesado olhar e um rápido beijo em sua testa.
"Cuide-se, está bem?" Foram as últimas palavras ditas pelo moreno antes da porta ser fechada.
Gokudera entrou em seu carro e dirigiu por cerca de dez minutos até chegar ao centro comercial. O Café escolhido por Masayoshi era um local tradicional da cidade, mas poucas pessoas o frequentavam naquele fim de tarde, provavelmente por causa do frio. O ex-amante vestia um belo conjunto social negro, e, ao vê-lo sentado, o Guardião da Tempestade sentiu como se eles não se vissem há anos. Masayoshi havia deixado o cabelo crescer um pouco, mas seu costumeiro par de óculos e expressão séria não haviam mudado. O moreno levantou-se ao vê-lo se aproximar e os dois se cumprimentaram com um amigável e cordial aperto de mão.
"Obrigado por ter encontrado tempo." O homem de cabelos prateados sentou-se na cadeira à frente, colocando o envelope branco sobre a mesa. Ele queria deixar claro que o assunto seria estritamente profissional.
"Meu cliente tem interesse em vender o terreno com urgência, então não vi necessidade em adiar nosso encontro." Masayoshi pegou o envelope e o abriu. Havia quatro cópias do mesmo documento, todas assinadas e carimbadas pelo Décimo Vongola.
"E meu Chefe tem interesse em adquirir a propriedade o quanto antes. O valor será depositado amanhã durante a manhã. Eu enviarei uma cópia do recebido por fax."
"Obrigado."
A velocidade com que aquele assunto havia sido travado não surpreendeu o Braço Direito. Ele sempre soube que, quando o assunto era trabalho, Masayoshi era um poço de profissionalismo. Ele se formou com honra em Harvard e é um dos advogados mais requisitados de Namimori, Gokudera escolheu uma xícara de café do cardápio, meneando a cabeça quando o jovem de cabelos castanhos claros veio anotar o pedido. O homem sentado à sua frente pediu o mesmo, mas acrescentou creme ao seu café. Quando o atendente se afastou, os olhos negros de Masayoshi pousaram sobre ele e o Guardião da Tempestade soube no exato momento que o que viria em seguida não seria profissional.
"Como você tem passado, Hayato?"
"Bem e você?" Ouvir seu primeiro nome ser chamado daquela forma o deixou levemente incomodado. Na verdade, ele não gostou. O único que o chamava daquela maneira nos últimos três meses era Yamamoto.
"Bem." Masayoshi havia acabado de guardar o envelope em sua maleta. "Você parece bem... bem até demais."
O homem de cabelos prateados sentiu as bochechas corarem. Seus olhos verdes se desviaram e ele encarou o caminho pelo qual o jovem atendente havia passado, esperando que o rapaz aparecesse e se intrometesse, assim não seria necessário dar uma resposta.
"Você está com aquele homem, não é?" As palavras roubaram totalmente a atenção do Braço Direito. "Eu posso ver isso nos seus olhos, Hayato."
Gokudera passou a mão na nuca, desconfortável. Ele tinha plena consciência de que seu rosto estava vermelho.
"Sim, estamos juntos."
"Fico feliz por você." O moreno sorriu sincero e naquele momento as sobrancelhas prateadas se suavizaram.
"O-Obrigado."
"Eu invejo aquele homem." Os olhos de Masayoshi se abaixaram. "Ele conseguiu o que eu nunca tive a oportunidade de ter."
"Você foi meu amante por anos." O Guardião da Tempestade inclinou-se na cadeira. "Até este momento você foi meu relacionamento mais longo ."
"Sim, mas eu nunca tive seu coração, Hayato. Não completamente." Um triste sorriso cruzou os lábios do advogado e seus olhos se ergueram.
"Eu nunca achei que você fosse do tipo romântico." O homem de cabelos prateados tentou manter a conversa, mas era difícil. Ele se sentia como uma garotinha apaixonada e tsundere, que precisava negar seus sentimentos na frente das amigas.
"Eu não sou, mas eu seria por você."
A conversa foi interrompida pela chegada do atendente. As xícaras foram pousadas e, embora houvesse oportunidade de continuar o assunto, nenhum dos dois homens fez menção de retomá-lo. O Braço Direito do Décimo degustou seu café com certa tranquilidade. O tempo estava levemente frio, mas ele achava extremamente agradável a maneira como a brisa tocava suas bochechas. Gokudera nunca achou que um dia estaria ali, sentado em uma mesa de Café, admirando a rua enquanto tomava uma deliciosa xícara cheia de cafeína. Ele nunca pensou que a pessoa sentada do outro lado da mesa seria Masayoshi, e que os dois estariam tento uma civilizada e profissional conversa que não envolvia sexo, suor e gemidos. E o mais surpreendente e inacreditável era saber que, quando voltasse para casa, Yamamoto o estaria esperando, provavelmente de cara fechada e mau-humor, porém, presente.
A vida era irônica. As coisas aconteciam de uma forma levemente engraçada, como uma estranha piada de mau-gosto. Sua própria vida havia mudado totalmente nos últimos meses e mesmo não sendo uma pessoa pró-mudança, Gokudera precisaria concordar que a felicidade que sentia no momento era muito mais do que ele jamais esperou sentir. O último gole do café desceu extremamente agradável por sua garganta e, ao pousar a xícara, o Guardião da Tempestade abriu um contido meio sorriso. Era hora de ir embora.
Masayoshi pareceu ter a mesma impressão, pois sua xícara foi pousada quase no instante seguinte. O homem de cabelos prateados fez menção de tirar a carteira de dentro do terno, mas sua companhia deixou claro que pagaria. O Braço Direito sabia melhor do que ninguém que de nada adiantaria discutir com o moreno, e então ambos ficaram em pé.
"Deixe-me acompanhá-lo até seu carro, Hayato."
"Não é necessário." Gokudera não entendeu o meio sorriso e aquela gentileza exagerada.
"Por favor, eu insisto."
O Guardião da Tempestade deu de ombros, deixando o Café e pisando na calçada. Seus pés caminharam pouco mais de cinco passos, até seus olhos verdes pousarem em seu carro. Naquele momento ele entendeu porque Masayoshi havia insistido em levá-lo até o veículo, e principalmente porque havia um largo sorriso em seus lábios. Ótimo...
Os dois ex-amantes caminharam lado a lado, mas, ao se aproximar do carro, o homem de cabelos prateados não conseguiu encarar Yamamoto direto nos olhos. O Guardião da Chuva estava recostado ao veículo, braços cruzados e uma expressão incrivelmente séria. O Braço Direito não o havia visto do Café, pois sua cadeira estava de costas àquela direção, o que fazia, automaticamente, com que Masayoshi soubesse daquilo desde o começo.
"Boa tarde." A voz do ex-amante soou cordial e ele sorria. "Acredito que ainda não fomos apresentados diretamente. Eu me chamo Masayoshi Hiroki"
"Yamamoto Takeshi." O moreno havia se desencostado do carro, oferecendo a mão para o homem.
"É um prazer finalmente conhecê-lo, ouvi muito a seu respeito."
"Eu imagino." O ex-capitão do time de baseball ainda mantinha o aperto de mão. Aliás, os dois homens não pareceram dispostos a largar o cumprimento e isso fez Gokudera revirar os olhos. "Pois eu não ouvi nada sobre você, desculpe."
"Não se desculpe. Não há muito que ser dito sobre mim, pelo menos não que possa ser falado em público."
O Guardião da Tempestade soube naquele momento que era hora de ir embora. Sua mão puxou o braço de Yamamoto antes que o Guardião da Chuva pudesse responder àquela provocação barata. Seus olhos verdes encararam Masayoshi, deixando claro que ele não havia gostado daquele comentário.
"Meu cliente talvez precise de mais algumas informações, então acredito que tenhamos de nos encontrar novamente. Se for o caso, espero que aceite almoçar comigo eventualmente, Hayato, como nos velhos tempos."
O homem de cabelos prateados fez uma polida reverência, não sentindo inclinação alguma em responder. O braço embaixo de sua mão estava tenso e ele quase precisou puxar seu amante para que ele fosse embora. Yamamoto encarou Masayoshi por alguns segundos antes de fazer uma reverência e abrir a porta do carro. O ex-amante acenou e se afastou, e somente ao entrar no carro e fechar a porta foi o Braço Direito pôde finalmente respirar aliviado.
"O que você faz aqui?" A chave foi girada e o veículo ligado. Gokudera ergueu os olhos, encarando o retrovisor. O carro do Guardião da Chuva não estava ali, então ele havia ido de táxi até o Café.
"Eu não gosto daquele homem, Gokudera." O moreno estava visivelmente chateado.
Eu já sei disso. O Guardião da Tempestade colocou as mãos no volante e deixou que o veículo deslizasse pela rua. Sua companhia virou o rosto para a outra direção e, pelos dez minutos que permaneceram dentro do carro, Yamamoto não abriu a boca uma única vez. O carro foi estacionado e os dois desceram e seguiram até o apartamento no quarto andar. A gravata foi solta de seu pescoço ao pisar dentro de sua casa e o homem de cabelos prateados respirou fundo. Porém, antes que seus pés pudessem trilhar o caminho através do curto corredor, sua mão foi segurada levemente e ele se virou.
"Eu não estou bravo." O Braço Direito respondeu assim que encarou os olhos castanhos. "Masayoshi foi gratuitamente rude e duvido que nos encontremos novamente. O contrato está impecável, o negócio foi feito, ele estava apenas te provocando, idiota."
"Eu sei." Yamamoto afrouxou o aperto. Seus dedos correram até a palma da mão de Gokudera. "Mas existe algo que eu preciso te falar e que está na minha mente há algum tempo."
O Guardião da Tempestade não pôde evitar um incômodo frio no estômago. Ele ainda tinha medo de perder aquela felicidade.
"Não é nada definitivo, mas eu gostaria que pensasse a respeito, está bem?" O Guardião da Chuva corou levemente. "E-Eu quero me mudar para cá. E eu sei que o apartamento é pequeno e dois homens morando juntos vai parecer estranho, mas eu não conseguirei esperar até termos nosso próprio apartamento. Isso deve levar anos, e a cada dia que eu preciso voltar para casa é uma noite que eu não fico ao seu lado e acho que já perdi muitas dessas noites durante todos esses anos. Eu sei que nunca teremos uma festa de casamento ou essas coisas, mas no final isso não é apenas uma comemoração para uma vida a dois? Q-Quero dizer, e-eu passo mais tempo aqui do que em casa, então por que não ficar de uma vez, não é? Hahahaha"
O homem de cabelos prateados não saberia dizer a expressão que havia em seu rosto, mas imaginou que deveria ser algo extremamente patético. Ele sentiu as bochechas quentes, quase em chamas. Seu coração batia rápido, tão rápido que chegava a doer, a ser difícil até mesmo respirar. A expressão séria no rosto do moreno havia se transformado em um charmoso e amável sorriso. Yamamoto deu um passo à frente, passando suas mãos ao redor da cintura do Braço Direito do Décimo e trazendo ambos os corpos para perto. Seus olhos castanhos se abaixaram, encarando diretamente os olhos verdes.
"Sim, eu estou pedindo para morarmos juntos, Gokudera Hayato." A voz tornou-se baixa, como se aquilo fosse um segredo que somente eles pudessem ouvir. "Eu quero construir uma vida ao seu lado. Eu quero morar naquele largo e luxuoso apartamento que vi no futuro. Eu quero acordar ao seu lado todas as manhãs e fazer amor com você todas as noites. Eu quero assediá-lo enquanto você cozinha e ouvir suas reclamações todos os anos na época do campeonato de baseball. Eu sei que estou pedindo demais, mas não é como se nos conhecêssemos há poucos meses, e, mesmo sabendo que esse é um grande passo, eu quero que pense a respeito, está bem? Não precisa responder hoje, amanhã ou ainda este ano. Apenas... pense sobre isso."
Foi difícil simplesmente não responder um direto e alto "sim". Gokudera manteve os olhos fixos em seu amante, mas, quando Yamamoto terminou, seu rosto estava tão corado e ele sentia tanta vergonha que foi impossível manter aquela posição. Seus pés deram um passo à frente e o Guardião da Tempestade abraçou o ex-capitão do time de baseball, passando os braços ao redor de seu pescoço. O Guardião da Chuva o envolveu pela cintura, apertando-o levemente e intensificando o gesto. O homem de cabelos prateados podia ouvir o som do sorriso de seu amante e naquele momento não existia nada que ele quisesse tanto do que viver tudo aquilo que o moreno havia acabado de dizer.
"Como se alguém quisesse morar com um idiota como você." A voz do Braço Direito saiu abafada. Seu rosto estava escondido no pescoço do homem que o abraçava. "Você só tem baseball na cabeça."
"Hahahaha não posso discordar." Yamamoto apertou um pouco mais seus braços. O barulho do sorriso tornou-se mais alto. "Mas só tenho você no meu coração, Hayato."
Gokudera fechou os olhos.
Seu rosto afundou-se um pouco mais no pescoço do Guardião da Chuva e ele permaneceria naquela posição durante o tempo que fosse necessário para seu coração se acalmar. Era certo, não? Era possível que alguém pudesse se sentir tão feliz daquela forma? Ele tinha o direito de se sentir tão querido daquele jeito?
O Guardião da Tempestade moveu levemente a cabeça, deixando que seus lábios se encostassem ao ouvido direito de seu amante. Uma única palavra deixou seus lábios e a próxima coisa que ele sentiu foi a mão do moreno em seu rosto e o beijo que sempre o fazia tremer por inteiro.
Eu amo Yamamoto. Ele sabe sobre os meus sentimentos... e ele me ama também.
Continua...
O último capítulo da fanfic será postado no próximo domingo (28/10/2012) :)
