Capítulo 25 - Caos em Manhattan

Um bando de semideuses amontoados em vans de vendas de morangos não era lá muito confortável.

Felizmente, eu tive que dirigir uma das vans porque não havia muitos semideuses com carteira de motorista, então eu tive um pouco mais de espaço pra me acomodar. Todos os outros estavam espremidos entre si no banco da frente e na parte de trás da van.

"Bela maneira de ir pra guerra." resmungou Travis de algum lugar de trás.

"Cale-se, Travis." replicou Silena.

"Já estamos chegando, gente." Annabeth, espremida entre Nico e o final do banco ao meu lado, tranquilizou. Então olhou pra mim. "Você dirige muito rápido."

Eu dei um sorrisinho. "Só quando tenho que salvar o mundo." dei-lhe uma piscadela.

Ela revirou os olhos, mas o sorriso no rosto lhe traía. "Engraçadinho."

Eu ri de leve, e virei na avenida, em choque com o que estava vendo. Parei a van, freando bruscamente, impossibilitado de andar mais por causa da horda de monstros destruindo as lojas e tudo no caminho.

"Filho de uma Fúria!" xingou Clarisse em algum lugar no banco de trás. "Por que diabos você freou desse jeito, Jackson?"

Eu não respondi. Ela ficou irada o suficiente para vir checar e ofegou com a visão que nós, no banco da frente, estávamos vendo.

"Que diabos..." ela resmungou.

"Não vai dar pra andar mais." sussurrou Nico. "E é uma questão de tempo até que eles nos notem aqui."

Minha mente estava a mil. Ainda estávamos relativamente longe do Empire State, e nós precisávamos ir para lá o mais rápido possível. Mas mortais inocentes estavam sendo afetados aqui, correndo para todos os lados com certeza sem saber o que estava acontecendo, mas sabendo o suficiente para fugirem.

Eu poderia acelerar e confiar nos meus reflexos para nos levar em segurança (ou quase) até o Empire State.

Mas eu não podia deixar que os monstros continuassem fazendo essa bagunça, machucando pobres e inocentes mortais que cruzassem seu caminho.

"Percy!" chamou Annabeth.

Eu suspirei.

"Precisamos sair da van e ajudar os mortais." eu disse.

"O quê?" foi o grito coletivo.

Levou um tempo até que eu conseguisse calar todo mundo e dizer o que eu tinha acabado de pensar.

"Não podemos deixá-los indefesos! Somos sua única esperança." eu terminei minha explicação.

Annabeth, ao meu lado, me olhou com atenção por alguns segundos insuportavelmente silenciosos. Então suspirou e virou-se para encarar os campistas na parte traseira.

"Percy está certo. Vamos nos dividir. Parte de nós fica e ajuda os mortais a fugirem enquanto destruímos os monstros. A outra parte avança até o Empire State, o mais rápido possível, também ajudando mortais e destruindo monstros no caminho." ela disse rapidamente.

Clarisse pegou sua lança e apertou seu elmo na cabeça.

"Vamos lá."

Annabeth ainda traçou um rápido plano de batalha. Clarisse ficaria aqui com metade dos campistas que estavam na nossa van. Imaginamos que as outras vans tinham pego um caminho alternativo. Eu pedi aos deuses que eles conseguissem chegar lá.

Assim que Clarisse e sua parte de campistas saiu da van, os monstros avançaram. Quando eu tive certeza que a porta estava fechada, eu acelerei, desviando de carros parados, monstros e outros obstáculos enquanto tentava me manter na estrada no caminho para o Empire State.

Conseguimos avançar uns seis quarteirões, comigo dirigindo de um jeito que provavelmente daria um ataque cardíaco a qualquer instrutor de trânsito, antes de algo bater com força na lateral da van e nos enviar num loop pelos ares, antes da van capotar duas vezes e parar.

Ouvi os gemidos ao meu redor, e pela primeira vez fiquei grato pelo meu banho no Estige. Eu não sentia absolutamente nada.

Olhei para Annabeth primeiro, e ela parecia bem. Tinha apenas alguns arranhões e resmungava em grego antigo enquanto se endireitava, puxando o cinto que a tinha prendido no lugar.

"Tá todo mundo bem?" perguntei alto.

Ouvi os resmungos e concordâncias, e fiquei mais tranquilo. Ouvi um rosnado e olhei pelo retrovisor meio quebrado para ver um monstro vindo em nossa direção.

"Saiam da van!" eu gritei. "Tem um monstro vindo pra cá."

Não precisei dizer mais nada antes de todos sairmos da van. O monstro, agora eu podia ver mais claramente, era um ciclope, acompanhado de dois cães infernais.

"Semideuses, ha ha ha" o ciclope ria. "Que sorte a minha."

"Azar, você quer dizer!" gritou um dos filhos de Apolo que estavam conosco, avançando na mesma hora.

Silena, perto dele, gritou para mim, Annabeth, Thalia e Nico. "Continuem para o Empire State, encontraremos vocês lá!"

Quando tive certeza que eles tinham tudo sobre controle, corri em direção ao Empire State com Annabeth, Nico, Thalia e outros semideuses no meu encalço.

Tivemos que destruir muitos monstros no caminho, mas graças à maldição de Aquiles, eu fui rápido em ver as ameaças e não tivemos problemas.

Chegamos ao Empire State ao mesmo tempo que o grupo de Clarisse, o que eu achei particularmente impressionante.

"Tem monstros por todo lugar, tivemos que desviar de alguns para reagrupar. Precisamos de uma nova estratégia!" ela disse a Annabeth.

Annabeth concordou e olhou para mim.

"Precisamos saber como está a situação." eu disse.

Ela balançou a cabeça. "Não há tempo. Precisamos de um plano de contingência." ela disse. "Não podemos deixar os monstros avançar até aqui."

Logo ela estava conversando com Clarisse enquanto eu dei uma volta pelo quarteirão do Empire State observando e tentando adivinhar o que estava acontecendo. Thalia veio comigo.

"Isso está uma bagunça. Como vamos proteger o Olimpo desse jeito?" ela reclamou.

"Temos que tentar." eu disse.

"Espere." disse Thalia de repente. "Aquilo são..."

Seus olhos arregalaram e ela saiu correndo de volta para o Empire State.

"Thalia!" eu a chamei. "O que foi?"

Ela não me respondeu, então não me restou alternativa a não ser segui-la. Quando cheguei na entrada do Empire State, ela estava conversando com uma garota de cabelo longo e preto que tinha uma tiara na cabeça. A garota tinha flechas numa aljava presa às costas e um arco numa mão. Conversava com Thalia e Annabeth com seriedade.

"Ei." eu as chamei. A garota com o arco franziu. "O que está acontecendo?"

Notei que muitas garotas parecidas com a recém-chegada povoavam nossa pequena base improvisada, arcos e flechas esticados, apontando para alvos invisíveis a mim.

"Quem é este?" perguntou a garota.

"Zoe, este é Percy Jackson." disse Thalia. "O filho de Poseidon."

Zoe arqueou as sobrancelhas, e eu não sabia se era uma expressão impressionada ou debochada.

"Percy, esta é Zoe Doce-Amarga," continuou Annabeth. "a tenente das Caçadoras de Ártemis."

Foi minha vez de arquear as sobrancelhas, mas eu estava impressionado. Meu pai tinha me contado que Ártemis era uma das deusas donzelas, ou seja, que tinha jurado nunca ter filhos. Ela, em vez disso, tinha Caçadoras. Garotas que juravam sua lealdade a ela e abdicavam de uma vida normal e de garotos. Elas recebiam a imortalidade, incapazes de morrer por causas naturais ou envelhecer. Só poderiam ser mortas em batalha. E nem todas as garotas eram semideusas, o que eu achava meio legal.

"Hm..." eu pigarreei, sem saber como proceder, porque também tinha ciência que as Caçadoras de Ártemis odiavam garotos. "É um prazer." eu disse, sinceramente.

Estendi minha mão, esperando que ela me deixasse no vácuo, mas Zoe estendeu sua mão e apertou a minha.

"Igualmente." ela disse. "Estava dizendo a suas amigas o que temos vindo em nossa direção."

"Elas conseguiram uma boa visão das hordas de monstros enquanto vinham pra cá." completou Annabeth. "Temos monstros vindo pela ponte do Brooklyn, alguns pela 5ª Avenida, e outros pelo meio do Central Park."

Ela suspirou.

"Minhas Caçadoras estão à sua disposição. Somos um time. Lady Ártemis está com os Olimpianos ajudando-os em suas batalhas contra alguns titãs rebeldes e nós estamos aqui para ajudar vocês, semideuses." disse Zoe.

"São muito bem-vindas." eu disse. Olhei para Annabeth. "Ideias?"

"Só uma." ela disse. "É meio louca."

"Qualquer coisa vale." eu respondi.

Ela assentiu e nos disse seu plano, que era um pouco louco, mas se funcionasse, teríamos uma vantagem muito boa.

Parte das Caçadoras foi para a ponte do Brooklyn com parte dos semideuses, cuidar dos monstros de lá. Outra parte foi para o Central Park.

Os da 5ª Avenida já estavam muito próximos, então nossa única chance era formar um perímetro e impedi-los de cruzar os portões do Empire State Building.

Pelo que eu podia ver, os mortais já tinham sumido. Eu esperava que estivessem em casa, seguros. Mas eu não podia pensar nisso agora.

Espalhamos o restante dos semideuses ao redor do quarteirão do Empire State, e eu pedi a todos cuidado redobrado.

Nico invocou alguns guerreiros esqueleto para ajudar, o que meio que me tranquilizou, por mais estranho que possa parecer.

Trovões ressoaram no céu e eu olhei para o horizonte para ver as águas agitadas. O céu escurecia enquanto os trovões espancavam as nuvens sem piedade. Parecia que os deuses estavam ocupados.

E nós também.

Se o exército vindo em nossa direção era qualquer indicação disso.

"Percy!" gritou Annabeth assim que eu comecei a fazer meu movimento em direção ao exército.

"O quê?" me virei para dar de cara com ela, que estava mais perto do que eu tinha notado.

Seus olhos eram sérios, concentrados. Meu ponto mortal estremeceu, e eu engoli seco.

Ela fechou a mão em punho na gola da minha camiseta e me puxou para ela, chocando a mim e todos ao nosso redor quando me beijou.

Foi apenas um segundo. Um leve roçar de lábios. Mas foi o suficiente para me deixar aéreo e completamente em choque.

"Tenha cuidado, Cabeça-de-Alga." ela pediu quando se afastou.

Eu olhei em seus olhos preocupados enquanto recuperava o bom senso.

"Ok." eu disse estupidamente.

Ela riu de leve e soltou minha camisa, apontando para os monstros.

"Vamos ou não?"

Eu ri e balancei a cabeça, atacando junto com ela e os outros campistas, já recuperados do show.

Avançamos, e eu gostaria de guardar os detalhes, mas meu TDAH e meus reflexos pós-mergulho-no-Estige não me deixaram concentrar nos detalhes.

O que eu sei é que cortei e destruí mais monstros do que eu tinha feito em toda a minha vida. A maldição de Aquiles ajudou e muito, já que eu era mais rápido e mais forte. Lâminas quebravam quando chocavam com minha pele, e como eu estava de armadura, não estava muito preocupado em ser acertado no meu ponto mortal.

Alguns semideuses do lado contrário também lutavam, e eu vi vagamente enquanto eles eram presos e, infelizmente, mortos, enquanto a batalha seguia seu curso.

Cortei a cabeça de uma dracanae e olhei para Annabeth, alguns passos ao meu lado.

"Onde está Luke?" eu gritei, enquanto destruía mais monstros e nocauteava semideuses inimigos.

"Não sei!" ela gritou de volta.

"Ali!" ouvi alguém gritar e me virei bem a tempo de evitar um ciclope e matá-lo ao mesmo tempo.

Nico apontava para o Empire State, guardado apenas por dois semideuses – que agora estavam no chão, inconscientes.

"Ah, droga! Ele entrou!" eu gritei, abrindo meu caminho até o Empire State.

"Te damos cobertura, vá!" gritou Nico.

"Estaremos logo atrás de você." completou Annabeth.

Eu assenti e sem um segundo pensamento corri, entrando no prédio.

Tudo estava uma bagunça no hall do Empire State. Armaduras gregas e semideuses jogados no chão, inconscientes ou mortos, eu realmente não sabia. Tinha poeira de monstro por todo o lado.

Olhei para a recepção, e vi um cara de cabelo preto e óculos escuros, lendo um livro como se o mundo não estivesse acabando lá fora. Cheguei até ele e pedi com a maior calma possível.

"Preciso de passagem até o Monte Olimpo." eu disse.

Ele olhou para mim, estreitou as sobrancelhas e voltou a ler.

"Desculpe, garoto, não sei do que está falando."

Suspirei. Chega de calma.

"Meu nome é Percy Jackson," ele voltou a olhar pra mim. "sou o filho de Poseidon."

Notei que o seu interesse pelo livro já tinha ido embora.

"E eu não sei se você sabe, mas eu preciso impedir o titã Cronos, que está possuindo o corpo de um semideus, de destruir o Olimpo e o mundo, que por acaso, está acabando lá fora." eu disse, minha voz tensa com o esforço que eu fazia para não gritar. Eu sabia que não seria uma boa ideia ficar muito nervoso aqui, no lobby. Precisava guardar minhas energias para Cronos.

O vigia olhou para mim e suspirou.

"Aqui, semideus." ele me estendeu um cartão especial, dourado. "Insira-o na fenda da chave de comando na parte de baixo do painel e depois aperte o andar correto."

"Obrigado."

Saí andando sem dizer mais nada, mas assim que entrei no elevador, juro que eu o ouvi dizer: "Boa sorte."

O elevador fechou assim que eu coloquei o cartão na abertura, apertando o número 600 não muito tempo depois.

Quando as portas se abriram, meus olhos se arregalaram e meu queixo quase caiu com a visão diante de mim.

O Monte Olimpo, que eu nunca tinha visto antes, mas sabia que era um local maravilhoso, estava completamente em chamas.


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