DOCE DEZEMBRO

Capítulo 25

- Hyoga...? Hyoga, consegue me ouvir?

Os olhos iam se abrindo lentamente. Aos poucos, ia conseguindo visualizar a figura que estava a sua frente.

- Ikki? – falou o escritor, que despertava enfim.

- Oi, Patinho... até que enfim você acordou... – falou o executivo, acariciando os cabelos de Hyoga.

- Onde... onde é que eu estou? – perguntou o rapaz russo, ainda se localizando.

- Estamos no hospital. – respondeu Ikki, que continuava brincando com as madeixas louras.

Hyoga começou a entender o que tinha acontecido. Se estavam lá, então... provavelmente... Ikki já deveria saber que...

- Ikki, você... conversou com os médicos a meu respeito?

O moreno parou então de mexer nos cabelos do escritor e mirou seus olhos. Era possível perceber que os belos olhos azuis escuros estavam um tanto vermelhos. Havia chorado muito. Hyoga o encarava de volta, tentando enxergar o que Ikki poderia estar sentindo.

- Conversei, sim. – e continuou a mirar os olhos celestiais sem dizer mais nada.

- E... eles falaram para você sobre...

- Falaram. – interrompeu-o Ikki – Está com sede? Quer beber um pouco d'água? – perguntou o executivo, afastando-se da cama e virando-se de costas para Hyoga, como se não quisesse que este enxergasse a dor que sentia.

- Ikki, eu... – Hyoga tinha seus olhos baixos – Eu sinto muito... Eu ia te contar... Eu queria falar, mas...

- Ei... – disse o executivo, voltando com um copo que acabava de encher com a água do jarro que ficava sobre uma mesa ali ao lado – Você não tem que se desculpar. Por nada. – falou, estendendo-lhe o copo.

Hyoga pôde perceber então que Ikki não estava magoado com ele. Estava triste... e isso era ainda mais doloroso para o escritor. Era terrível ver aquele homem que tanto amava sofrendo por sua causa. Era pior, muito pior que vê-lo com raiva dele.

De repente, batidas à porta. Ikki falou, com a voz um pouco fraca, que entrassem.

Eram Camus e Milo.

- Alexei? – disse Camus, aproximando-se de seu filho, com uma expressão de grande preocupação em seu rosto. – Que bom... Finalmente acordou.

Hyoga ficou um pouco surpreso ao ver seu pai. Não esperava que fosse reencontrá-lo justamente naquela situação.

- Eu... chamei seu pai, Hyoga. Achei que ele precisava estar aqui.

- E fez muito bem, Ikki. Obrigado. – agradeceu-lhe Camus.

Hyoga permanecia calado. Parecia ainda não ter compreendido tudo que se passava.

Milo, percebendo que aquele era um importante momento em que pai e filho precisavam conversar, chamou Ikki, discretamente, e ambos deixaram o quarto.

- Filho... Por que não me disse antes que estava tão doente?

- Não havia necessidade de dizer nada. – respondeu Hyoga, tentando aparentar uma força que estava longe de sentir naquele instante.

- Alexei, eu... – Camus fez uma pausa. Precisava escolher as palavras certas para não ferir o orgulho do rapaz louro – Eu entendo que ainda esteja magoado comigo. E tem todo o direito de sentir-se assim. Mas, diante de uma situação dessas, você precisava ter deixado nossas diferenças de lado e me procurado, meu filho.

- Eu posso me virar sozinho. – Hyoga, claramente, ainda guardava muitas mágoas de seu pai.

Camus sabia o quanto seu filho poderia ser orgulhoso. E sabia que não conseguiria se aproximar dele se começassem a discutir o que era certo e o que não era. Precisava fazer algo diferente.

- Sabe, meu filho... – começou a dizer Camus, puxando uma cadeira para sentar-se ao lado de Hyoga – Você ficou desacordado por algumas horas. Enquanto esperávamos que despertasse, Ikki e eu conversamos bastante. Rapaz interessante, esse Amamiya... Pelo que eu já tinha ouvido falar dele, imaginava uma pessoa completamente diferente.

- Diferente como? – o assunto pareceu chamar a atenção de Hyoga.

- Bem... sempre ouvi falar que o poderoso Ikki Amamiya era impiedoso, cruel, frio, calculista... um homem insensível, de maneira geral. E, curiosamente, ao conhecê-lo, descobri que ele, na verdade, não é esse ser egoísta de que me falavam.

Hyoga nada dizia. Olhava para o pai, esperando que ele continuasse o que tinha para dizer.

- Vi como ele cuidava de você... Como se preocupava. Essa, definitivamente, não era a imagem de um homem egoísta.

- É... – disse Hyoga, sorrindo para si mesmo – As pessoas às vezes se enganam.

- Na verdade, meu filho... – emendou Camus – Não creio que as pessoas se enganaram, deliberadamente. Acho que elas apenas enxergaram o que estava mais à vista em Ikki. Essa personalidade dura e hostil é o que ele deixava mais à mostra. Infelizmente, nem todos conseguem ver além do que está na superfície.

Hyoga olhou para o pai. Estranhava o modo como ele estava agindo. Camus não costumava ser assim...

- O que eu estou querendo dizer é que... conversei com Ikki e descobri que temos muito em comum. O trabalho nos aprisionava, mas... tivemos a sorte de encontrar alguém que pôde nos libertar.

Hyoga continuava a encarar o pai. Camus olhou para baixo e respirou fundo:

- Ele teve a sorte de conhecer você, Alexei. Assim como tive a sorte de encontrar Milo.

- É... Ainda bem que você conseguiu achar alguém capaz de te ajudar. – disse Hyoga, com uma ponta de ressentimento.

- Você não entendeu, filho. Milo apenas me fez entender que eu devia ter dado mais atenção a tudo o que você sempre me falou. Ele me ajudou a perceber que você sempre esteve certo...

Hyoga virou o rosto para a janela. Pôde ver que já era manhã.

- Alexei, eu sei que você já ajudou muitas pessoas... pessoas como eu e Ikki.

O escritor voltou o rosto para seu pai, surpreso. Ele sabia do projeto dos meses?

- Ikki me mostrou uma reportagem sobre você. Fiquei orgulhoso ao saber o que você fez, Alexei. Ajudou tantas pessoas...

- É... engraçado que você foi o único que não consegui ajudar. Justo você. – o tom de voz era sarcástico.

- Filho, não está ouvindo o que digo? Eu acabei de dizer que você me ajudou, pois finalmente compreendi que você estava certo...

- Sim, mas eu não fui capaz de fazê-lo enxergar isso. Foi preciso esse tal Milo aparecer...

- Ah, Alexei... – Camus soltou um suspiro – Naquela época, eu era incapaz mesmo de ouvi-lo. Mas a culpa não era sua e não havia nada que pudesse fazer... O problema era que você... Você se parecia demais com sua mãe...

Hyoga surpreendeu-se ao ouvir seu pai. Ele estava realmente falando de sua mãe? Finalmente?...

- A semelhança entre vocês não era apenas física. O jeito de encarar a vida também era igual. É uma pena que não tenha conhecido bem sua mãe, Alexei. Ela era uma mulher fantástica, capaz de encontrar a beleza nas pequenas coisas... Natássia adorava viver e estar ao lado dela era um sonho. – disse, sorrindo.

Hyoga sentiu-se bem. Há tempos esperava ouvir seu pai falar-lhe qualquer coisa sobre sua mãe.

- Então, meu filho... tente compreender seu pai. Sofri demais com a perda da sua mãe, especialmente por achar injusto que uma mulher como ela, tão cheia de vida, morresse tão jovem. Eu me fechei na minha dor e, de certa forma, não permiti que você se aproximasse de mim. Tudo em você me lembrava sua mãe e todas as lembranças que eu tinha dela machucavam demais...

O escritor percebeu uma lágrima solitária percorrer a face de seu pai. Era incrível... seu pai estava se permitindo... chorar?

- Eu fiz tudo errado, Alexei. Sei disso. Você só queria me ajudar, e estava certo. Mas era difícil você me ajudar a superar a morte de sua mãe quando você era a imagem viva dela. Por isso, Milo foi importante para mim. Com ele, consegui fazer com que a imagem de sua mãe se tornasse apenas uma boa recordação para mim. Quando consegui isso, tudo o que você sempre me disse, tudo o que sempre tentou me mostrar... Tudo passou a fazer sentido. Eu finalmente fui capaz de entender que não tinha de ficar tão triste pela sua mãe, porque... porque ela foi muito feliz. Porque ela pôde viver intensamente. E porque, certamente, ela gostaria de ser lembrada pela sua vida, e não pela sua morte. E assim, você me ajudou, filho.

O homem de longos cabelos azuis levantou-se e pousou sua mão sobre o ombro de Hyoga. E disse:

- Sei que deveria ter entrado em contato com você antes. Sempre achei que teríamos mais tempo para resolvermos nossos problemas... Sempre achei que um dia, o momento ideal para fazermos as pazes surgiria... E fiquei apenas esperando pelo momento oportuno que nunca chegou. Fui covarde... E agora, estou pagando por isso. Meu filho está doente e... eu tenho culpa por ter sido tão ausente.

- Eu discordo. – falou Hyoga.

- De quê?

- De que o momento oportuno nunca chegou. Acho que nós estamos vivendo esse momento agora. – e sorriu para seu pai, que lhe correspondeu com um bonito sorriso paternal.

Nesse momento, a porta do quarto se abriu e por ela entrou o médico responsável por Hyoga. Logo atrás dele, vieram Ikki e Milo. O médico cumprimentou Camus e Hyoga e, em seguida, disse:

- Senhor Alexei, - disse, consultando alguns papéis em sua prancheta – pelo que consta aqui, você não veio ao hospital nem uma única vez nessa última semana.

Hyoga não respondeu nada. O médico, com olhar de reprovação, prosseguiu:

- O senhor está muito doente e não pode mais se dar ao luxo de faltar ao seu tratamento. Aliás, vejo aqui que já lhe falaram a respeito do tratamento mais novo e recomendado para o seu caso. Aqui está em aberto se você dará início a ele ou não. Considerando o estado em que se encontra, é de suma importância que me informe de uma decisão a respeito o quanto antes.

Ikki, que já havia se informado a respeito de tudo o que estivesse relacionado à doença de Hyoga, aproveitou o momento para perguntar:

- Esse tratamento pode curá-lo, não é?

- Bem...existe uma chance, sim. De todo modo, é o mais indicado a se fazer agora, dadas as circunstâncias. – respondeu o médico.

- Então, nem há o que discutir. Ele fará esse tratamento. – falou Camus, de forma imponente.

- O senhor está ciente de que este é um tratamento caro, não? – perguntou o médico.

- Dinheiro não é problema. – argumentou Camus.

O médico então acenou com a cabeça e se retirou do quarto. Assim que ele saiu, Hyoga se manifestou:

- Eu não quero fazer esse tratamento.

- Alexei, não iremos discutir isso.

- Pai, eu não quero que...

Mas Hyoga foi interrompido por Ikki, que nesse instante, segurou sua mão. O moreno olhava firmemente para Hyoga. Ficaram alguns segundos em silêncio, olhando-se. Finalmente, Ikki disse:

- Hyoga, por favor. Faça o que seu pai está pedindo.

- Ikki, eu não...

- Hyoga, por favor. – a voz soava mais forte – Eu também estou pedindo. Por favor.

O escritor suspirou. Não poderia negar isso a Ikki. Acenou a cabeça em um sinal positivo. Faria o que lhe pediam.

- Ótimo. – disse Camus – Vou agora mesmo ligar para uns contatos que tenho na Europa.

- Europa? – perguntou Ikki – Por que Europa?

- Porque é lá que se encontram os maiores especialistas dessa área. Lá é onde Alexei fará o tratamento. – disse Milo.

- Ah... – Ikki tinha sido pego de surpresa. Mas respondeu logo – Tudo bem. Eu vou com vocês.

- Não! – Hyoga apressou-se em responder – Você vai ficar aqui!

- Nem em sonho, Pato... Tá achando que vai se livrar de mim fácil, é? – sorriu o executivo.

- Não é isso, Ikki. É que... Você tem uma vida aqui. Por sinal, uma vida que ainda precisa se reorganizar. Você não pode simplesmente abandonar tudo para ir comigo.

- É claro que posso! – falou o moreno, indignado – Não só posso, como vou!

- Não, Ikki. – a voz de Hyoga era firme – Eu só vou aceitar fazer esse tratamento se você prometer ficar e resolver suas coisas aqui.

- Hyoga... – Ikki parecia confuso – Você... Você não pode me pedir isso!

- Olhem... – Milo intrometeu-se tentando ajudar – A primeira fase desse tratamento é bastante rápida. Ele só terá de fazer alguns testes, o que levará umas duas, três semanas no máximo. Podemos ir nós três a princípio e, depois de passada essa fase, o senhor Amamiya poderá juntar-se a nós, o que acham?

- Milo, eu creio que não devemos nos intrometer nesse assunto. Deixemos que eles se resolvam. Alexei, se precisar de qualquer coisa, estarei aqui fora fazendo algumas ligações. Vamos, Milo.

Assim que os dois homens deixaram o quarto, Ikki sentou-se à beirada da cama de Hyoga e segurou sua mão. Olhava para ele quando disse:

- Eu não vou te deixar quando você mais precisa de mim, Hyoga. Pode esquecer.

- Eu não estou pedindo para você me deixar, Ikki. Só não quero que mude sua vida completamente por minha causa.

- Acho que quem decide isso sou eu. A vida é minha.

- Ikki, se você não resolver as questões que estão pendentes por aqui, então todo o trabalho que fiz com você não terá sido válido.

- Como não? Olha o que você fez comigo, Hyoga! Estou aqui, apaixonado, louco por você, disposto a ir até o fim do mundo contigo, se preciso... E você me diz que não foi válido?

- Eu preciso que você se resolva profissionalmente, Ikki. Isso é importante. Sempre que eu ajudava uma pessoa, buscava fazer com que ela melhorasse em sua vida pessoal e profissional.

- Ah, agora você quer me tratar como todos os seus outros casos?

- Não, porque nenhum deles foi tão importante para mim como você é. Por favor, Ikki... Naquela noite em que ficamos conversando, você estava justamente me contando que estava pensando em mudar o modo como encarava seu trabalho. Estava pensando em aceitar a proposta de Shiryu, estava até pensando em acatar as idéias de Seiya! Você nem imagina como eu fiquei feliz ao ouvir você falando assim. Essa mudança vai ser boa e importante para você...

- Certo. Eu resolvo isso quando voltarmos da Europa, então.

- Não, Ikki. Shiryu disse que precisavam ver isso o quanto antes, lembra? Você precisa resolver logo essas questões.

- Mas...

- Sem mas. Podemos fazer como Milo disse. Eu vou com meu pai e Milo, fazemos os testes e voltamos para cá. Depois, se tivermos que voltar para a Europa, você poderá vir conosco, se quiser. Mas antes, preciso que se estabeleça em sua nova função dentro das empresas Kido.

Hyoga deixava claro que não estava disposto a negociar. Ikki ficou olhando para ele para ver se conseguiria contra-argumentar, mas percebeu que seria uma tentativa em vão. Fez uma cara emburrada, e Hyoga sorriu ao vê-lo daquele jeito:

- Ei, não fica assim... serão somente duas, três semanas no máximo. Passa rapidinho, você vai ver... – falou, puxando o moreno que estava na beirada da cama para mais perto de si.

- Eu vou sentir saudades... Não sei se vou aguentar tanto tempo longe de você. – falou o executivo, com a voz baixa.

- Então, em vez de ficar aí resmungando, vem aqui... – falou Hyoga, antes de beijar carinhosamente o homem que já sentia novas lágrimas surgirem em seus olhos.


Durante o tempo em que ficaram separados, Ikki e Hyoga falaram-se por telefone sempre que puderam. O executivo havia feito o prometido a Hyoga: ficara no Japão e retornara às empresas Kido. Tinha percebido que, como Shiryu lhe falara, as mudanças implementadas por Seiya eram até interessantes. Sentiu-se bem em voltar a trabalhar. Ao menos isso conseguia fazê-lo esquecer-se da dor que lhe causava a ausência de Hyoga.

Finalmente, as três semanas passaram e Hyoga iria retornar. Ikki mal podia esperar; a saudade que sentia era imensa. Haviam combinado de que Ikki o pegaria no aeroporto. Assim, lá estava o moreno, com um sorriso estampado no rosto, esperando pelo avião de Hyoga. Chegara um pouco cedo devido a sua ansiedade, de modo que ficou observando o movimento das aeronaves que chegavam e partiam. O sol começava a se pôr. Ikki ficou então observando o céu ir mudando de tonalidade aos poucos e sentiu-se em paz. Hyoga realmente mudara o rapaz. Agora, ele era capaz de vivenciar cada pequeno momento da sua vida.

- Ikki?

Olhou para trás. Lá estava Hyoga. Ficara tão entretido apreciando o pôr-do-sol que nem percebera o outro chegando. Abriu um enorme sorriso ao ver o escritor. Ele estava mais pálido. Mas Ikki não queria se preocupar agora. Sentia saudades, saudades insanas daquele homem louro de olhos cintilantes. Aproximou-se dele e o abraçou com força.

- Pato... Você nem imagina como eu senti sua falta...

- Eu também, Ikki... Eu também... – respondeu o russo, abraçando-o de volta.

Depois de algum tempo em que permaneceram simplesmente abraçados, em silêncio, separaram-se. Ikki, sorridente, perguntou:

- Está com fome? Quer comer alguma coisa?

- Na verdade, estou um pouco cansado...

- Sem problemas. Vamos para o meu apartamento e eu cozinho algo para comermos...


A noite que passaram juntos foi bastante agradável. Jantaram, ouviram alguns CDs de Ikki, viram um pouco de TV, o executivo contara sobre como estava sendo seu novo trabalho, e procuraram, ambos, evitar ao máximo o assunto desagradável. Quando, finalmente, Ikki tocou no assunto, Hyoga beijou-o de forma que a conversa teve de ser interrompida na mesma hora. Foram então para o quarto de Ikki e amaram-se sem pressa, buscando usufruir daquele momento tanto quanto pudessem. Adormeceram quando a madrugada já ia alta.

Quando o sol começava a despontar, Hyoga despertou. Olhou para o homem que dormia serenamente a seu lado. Passou, delicadamente, os dedos pelos cabelos azuis escuros do outro. Em seguida, levantou-se e começou a se vestir. Toda essa movimentação de Hyoga acabou acordando o executivo:

- Hum... Pato? Por que está se vestindo assim? Ainda é cedo... volta pra cama... – falou um sonolento Ikki.

- Não posso. – respondeu Hyoga, que colocava um cachecol em seu pescoço. – Preciso ir.

Ao ouvir o que Hyoga acabara de dizer, Ikki abriu os olhos e sentou-se na cama:

- Como assim, precisa ir? Para onde?

- Eu preciso ir embora, Ikki. – respondeu o escritor, voltando um olhar triste para Ikki, que o observava confuso.

- Tá, já percebi que você vai sair, mas pra onde você está indo? – perguntou o moreno, algo nervoso.

- Eu estou indo embora.

- Pára de repetir isso, Pato! Eu quero saber pra onde! – falou Ikki, um pouco mais agitado. Não estava gostando dessa conversa.

- Não posso dizer. – Falou Hyoga, abrindo a porta do quarto e dirigindo-se para a sala. Ikki levantou-se da cama e correu atrás dele.

- Como assim, não pode dizer? – e segurou o rapaz louro pelo braço, forçando-o a ficar de frente para ele – Hyoga, quer fazer o favor de parar e falar direito comigo?

O escritor então encarou Ikki. Estava sério.

- Ikki, eu decidi que vou ficar na Europa com meu pai e Milo.

O executivo se assustou. Sabia que havia a possibilidade disso acontecer, mas não achava que falariam da Europa tão cedo. Afinal, Hyoga acabava de voltar...

- Ahn... Tudo bem, então. E... você está querendo ir agora?

- Sim.

- Certo. Eu arrumo minha mala em dois minutos.

- Arrumar sua mala? – perguntou Hyoga.

- Claro. Eu vou com você. – respondeu Ikki, voltando ao quarto para pegar suas coisas.

- Ikki, você não me entendeu. Eu vou morar na Europa com meu pai e Milo, e vim aqui para me... despedir. Porque você... Você vai ficar.

Ikki parou quando estava a meio caminho do seu quarto. Virou-se para Hyoga e disse:

- Espera um pouco... Isso não estava nos planos.

- Eu sei... Mas houve uma mudança de planos. – falou, com um suspiro.

- Não... Não! Você não pode decidir coisas por mim, desse jeito! Não! Você não sai daqui sem mim, ouviu? – falou Ikki, que já começava a caminhar de um lado para o outro, irritado.

- Ikki... – a voz de Hyoga era calma – Eu preciso que você entenda...Nesse tempo em que estivemos separados... eu pude pensar sobre algumas coisas...

- Eu sabia! Eu sabia que não devia ter deixado você ir sem mim nessa maldita viagem! Agora começou a pensar um monte de besteiras por conta disso! Mas tudo bem; não vou cometer o mesmo erro de novo. Sem mim, você não vai!

O escritor aproximou-se de Ikki e, gentilmente, segurou em sua mão. Percebeu que ele tremia. Acariciou a mão do executivo e disse, com a voz firme, mas ao mesmo tempo serena:

- Ikki... Os resultados dos exames apontaram que a minha situação não está nada boa. Não há nada que possa ser feito para reverter o meu quadro...

Ikki ouvia, mas não queria acreditar. Sacudia a cabeça:

- Grande coisa... esses médicos acham que sabem de tudo, mas vivem se enganando!

- Eles não se enganaram, Ikki.

- Como você pode saber? – havia angústia na voz do moreno.

- Eu simplesmente sei...

Silêncio. Ikki não sabia o que dizer. Sentiu-se tonto. Sentou-se no sofá com a cabeça entre as mãos.

- Então, - continuou Hyoga – pensei muito no que deveria fazer. Concluí que devo passar esse tempo que me resta com meu pai. Ele está muito mal; culpa-se por não ter ficado comigo todo esse tempo...

- Mas... e eu? E EU? Como eu fico se você me deixar, Hyoga?

- Você vai ficar bem. – falou o escritor, sentando-se ao lado de Ikki.

- Não, eu não vou... Eu não posso te perder Hyoga... Não posso... – o executivo sentia os olhos ficarem cada vez mais úmidos.

- Ikki, você não vai me perder. Você sempre me terá com você, não percebe? O que vivemos foi intenso demais... E eu quero que você sempre se lembre de como foi maravilhoso enquanto durou. – disse, enquanto lhe acariciava o rosto.

- Pára com essa conversa, Hyoga! Eu já lidei com perdas antes... quando meus pais morreram, a dor foi horrível! Eu quase não suportei! Quando quase perdi o Shun, senti a mesma dor! E não será diferente agora! Eu não vou conseguir suportar...

- Vai conseguir suportar, sim. Você precisa parar de se concentrar na dor e pensar no que ficou de bom, Ikki.

- Mas... então... me deixe, pelo menos, ficar com você até que... até... até acontecer. – Ikki apertou a mão de Hyoga com força.

- Não, Ikki. Eu não quero que me veja definhando aos poucos.

- Quem se importa com isso? Eu só quero estar com você, pouco me importa como!

- Ikki... aí é que está... Se você ficar comigo enquanto meu corpo estiver se consumindo, você sofrerá bem mais... Tudo ficará mais doloroso. Aí sim, será difícil esquecer-se dessa dor...

- Eu não me importo.

- Mas eu me importo! Ikki, eu... Eu vou morrer de todo o jeito. Se, ao menos, eu puder me separar de você enquanto ainda tenho forças suficientes para me manter em pé, poderemos ambos guardar apenas recordações agradáveis do que vivemos.

- Eu já falei que não me importam as recordações...

- Ikki, entenda! – Hyoga começava a se exasperar – Quando eu me for, as recordações serão tudo o que sobrará de nós dois! Eu serei apenas... uma lembrança na sua memória. E eu não me importo com isso... Saber que viverei nas suas lembranças me deixa feliz... Mas eu preciso que você se lembre de mim assim... como estou agora...

O moreno estava com os olhos cheios d'água. Não dizia nada.

Hyoga então passou as mãos pelos cabelos de Ikki. Sorriu. Aproximou-se dele e lhe deu um beijo suave no rosto. Depois, levantou-se, caminhou até a porta e, sem olhar para trás, partiu.

Ikki ficou ainda algum tempo imóvel. Ainda não acreditava no que estava acontecendo. Então, aquele era... o fim? Acabaria assim? Nunca mais o veria? Nunca... mais?

O desespero tomou conta de seus olhos. Num ímpeto, levantou-se do sofá e saiu correndo atrás de Hyoga.

Quando saiu de seu prédio, pôde avistar o escritor passando pela praça que ficava ali em frente. O vento frio da manhã fazia seus pulmões doerem. Mal conseguia respirar... devido ao frio e à angústia em seu coração.

- Hyoga! – gritou ele.

O escritor ouviu seu nome e virou-se para trás. Viu Ikki e parou onde estava. O executivo correu até ele.

- Ikki, você devia ter vestido um agasalho antes de sair. – disse Hyoga, com a voz preocupada, ao ver que o moreno vestia apenas uma calça e uma camiseta.

- Eu.. eu não... – Ikki tentava falar, mas estava sem fôlego – Eu não posso deixar você ir, Hyoga... Não posso... não posso ficar sem você...

Ikki já não falava com a mesma firmeza de antes. Havia entendido o que o escritor lhe dissera e até mesmo entendido o seu pedido. Mas o desespero não o deixava agir de outra forma... As lágrimas continuavam a escorrer por seu rosto.

- Eu estarei sempre com você... – disse Hyoga, aproximando-se mais dele.

- Eu não vou conseguir, Hyoga...! Não vou!... – Ikki começava a chorar compulsivamente.

- Vai sim. Você é mais forte do que pensa... Você pode até achar que não... pode até sentir que não... Mas você sempre consegue renascer. Você é como a ave fênix, Ikki... É capaz de renascer das próprias cinzas...

- Hyoga... eu...

- Shhh... – o escritor retirava o cachecol de seu pescoço – Não diga mais nada. Feche os olhos, Ikki...

O moreno apenas obedeceu. Seu corpo estava cansado e o frio não ajudava.

- Agora... – disse Hyoga, após vendar os olhos do executivo com o cachecol – Você não está me vendo, mas sabe que estou aqui.

- Claro, mas é porque você está falando comigo.

- Então, agora vou ficar calado.

- Sei que ainda está aí. – o moreno apressou-se em dizer.

- Como sabe?

- Eu... não sei, mas dá para saber... dá para sentir a sua presença.

- Exato... e você não precisa me ver ou tocar para me sentir...

- Mas eu só consigo perceber sua presença porque eu sei que você está aqui.

- Pois fique sabendo que eu sempre estarei aqui com você, Ikki. Sempre. Se acreditar mesmo que estou aqui, será capaz de sentir minha presença com você.

O rapaz louro aproximou-se mais do executivo e beijou-lhe os lábios. Depois, afastou-se e disse:

- Vamos fazer assim... fique com a venda por enquanto. Eu quero que se concentre na sensação em me ter por perto sem poder me ver ou tocar.

- Se eu ficar com a venda, você vai aproveitar e ir embora... – falou Ikki, em um tom quase infantil.

- Se você sentir que estou me afastando, poderá retirar a venda na mesma hora. – disse Hyoga, docemente – Agora, concentre-se... meu amor...

Ikki sorriu. Hyoga o chamara de amor... Como soara bem aos seus ouvidos! Então, fez o que Hyoga lhe pedia. Concentrou-se na acalentadora sensação que lhe passava a presença de rapaz russo. Sabia que ele estava bem ao seu lado. E como era bom sentir-se assim...

Percebeu que, de fato, mesmo sem tê-lo à vista e sem poder tocá-lo, a presença do escritor era forte. Tão forte que se tornava uma sensação quase palpável. Hyoga estava ali. Isso lhe fazia bem.

A sensação era acolhedora. Aos poucos, Ikki estava conseguindo se acalmar. O vento continuava frio, mas sua respiração voltara ao normal. E Hyoga estava ao seu lado, ele podia sentir. Sua presença era tão concreta...

- Eu te amo, Hyoga... disse o moreno, com a voz mais tranqüila.

Não obteve resposta.

- Hyoga...?

Silêncio.

Ikki rapidamente tratou de tirar o cachecol de seus olhos.

Hyoga já havia partido.

Olhou ao redor. Nada. Ninguém. A praça estava vazia.

Hyoga já tinha partido há algum tempo. E ele não percebera. "Eu podia jurar que ele estava aqui... eu conseguia senti-lo perfeitamente...".

De fato, Hyoga havia partido, mas Ikki ainda era capaz de sentir sua presença ali, tão forte quanto antes. Então, lembrou-se do que o jovem escritor lhe dissera: "Se acreditar mesmo que estou aqui, será capaz de sentir minha presença com você."

- Está bem, Hyoga... – suspirou o moreno, com o olhar envolto em lágrimas – Talvez você esteja mesmo comigo... Afinal, você já faz parte de mim...

Colocou o cachecol em volta de seu pescoço. Olhou para o céu. Começava a nevar...

Continua...


N/A: E esse foi o penúltimo capítulo... Escrito ao som de "Only Time", da Enya. Essa é a música-tema do filme Doce Novembro.

E só a título de informação: o inverno no Japão acontece no período de dezembro a fevereiro. Dependendo do local, a neve é mais comum no início da primavera que no inverno.

Beijos,

Lua Prateada.