Disclaimer: O anime/mangá "Naruto" não me pertence, ele é de propriedade exclusiva do Masashi Kishimoto.
Warning: Descreve a relação entre duas pessoas do mesmo sexo (MaleXMale).
"Apostar no outro, perdoar continuamente e dar sempre uma nova chance é fundamental para superar frustações e criar novos vínculos." - Augusto Cury.
Capítulo 25
Fugaku entrou em seu escritório, sendo prontamente seguido pelo garoto Uzumaki. O rapaz encarava o entorno com curiosidade, enquanto fechava a porta da sala. O cômodo estava claro, devido aos raios solares que se infiltravam pelo vidro da janela fechada. No entanto, apesar de o sol brilhar intensamente do lado de fora, não era suficiente para aquecer o clima que prenunciava a chegada do inverno.
O mais velho sentou em sua cadeira e afastou tudo que estava em sua frente na mesa de madeira. Ele lançou um breve olhar para o loiro e indicou a cadeira do lado oposto com a mão, sem dizer uma única palavra. Em sua cabeça, o Uchiha pensou que Minato ou Kushina seriam os primeiros a exigirem um embate presencial, mas percebeu que se enganara ao ver o filho do casal desafiá-lo para uma conversa. Ele admirou a ousadia, muito mais que gostaria de admitir.
- Então, aqui estamos... – o patriarca incentivou com calma.
As sobrancelhas claras se franziram perante seu tom tranquilo, demonstrando toda a desconfiança que o jovem sentia. Naruto ponderou um segundo, encarando profundamente os olhos negros, antes de puxar um envelope branco de dentro do bolso interno do seu paletó e entregá-lo para Fugaku. Nesse momento, ele percebeu que o menino estava vestido formalmente demais para ter uma conversa leviana.
- Eu recebi uma proposta de Sasuke há algumas semanas. – o rapaz começou, espalmando a mão em cima do papel, impedindo que o senhor o puxasse para si mesmo. – Seu filho nos ofereceu 5% das ações da Mangekyou para garantir que a empresa não falisse se perdêssemos nossos clientes mais significativos, devido às últimas notícias que saíram no jornal. A parceria nos garantiria parte dos lucros da sua empresa e credibilidade por parte dos investidores. – lambeu os lábios, não perdendo a forma como os orbes escuros se arregalaram com a informação. – Esse acordo impediria que o senhor continuasse com suas mentiras, uma vez que seria totalmente contraditório difamar um sócio que poderia lhe trazer lucros vantajosos em longo prazo.
Naruto sorriu, sentindo-se momentaneamente orgulhoso da esperteza do seu namorado. Ou ex-namorado. Ou sabe-se lá o que eles eram.
Ele faria questão de pedir desculpar para Sasuke, depois que essa confusão estivesse terminada. Ele foi precipitado, como Shion afirmara, e sua mãe tinha razão em afirmar que o contrato era vantajoso. No calor da ocasião, ele não pensou coerentemente. Na verdade, ele só havia pensado na falta de cumplicidade e confiança do outro homem, fazendo com que a mágoa o cegasse para o que realmente importava.
- Isso é impossível! – Fugaku começou, puxando o envelope sem qualquer delicadeza para ver com os próprios olhos. – Sasuke não tem pleno controle sobre as ações da empresa ainda! – rosnou com arrogância, certo de que o garoto estava blefando para convencê-lo. Ao puxar o documento, ele correu a vista pelas palavras, lendo-as com pressa. – Esse papel é uma cópia impressa, como posso saber se esse contrato não foi forjado?! – exclamou pronto para colocar aquele moleque para fora da sua casa. Era um desaforo que o Uzumaki falasse em nome do seu filho daquela maneira, quando este não estava presente para se defender.
As sobrancelhas claras voltaram a se franzir, dessa vez, em desgosto.
- O original está na minha casa, eu não seria tolo o suficiente para trazê-lo. – Naruto respondeu levemente ultrajado, como se o mais velho tivesse insultado a sua inteligência ao supor que ele traria o documento verdadeiro. – Eu não sei o que Sasuke fez para conseguir o que conseguiu. E se não está acreditando em mim, você terá que conversar com ele para saber a verdade. Eu só vim informá-lo sobre esse acordo e apresentá-lo uma nova contraproposta. – ele enfiou a mão dentro do paletó do terno grafite novamente e tirou outro envelope do bolso interno, dessa vez, azul marinho com o logo da Kyuubi Engenharia & Construção.
(***)
Mikoto andou de um lado para o outro no corredor onde ficava o escritório do seu marido. Ela torcia as mãos em nervosismo, enquanto era atentamente observada pela empregada. Mihara estava começando a ficar ansiosa com a preocupação evidente no rosto da sua senhora e, quando estava prestes a perguntar o que estava acontecendo, as duas se sobressaltaram com a voz alterada de Fugaki reverberando através da porta fechada.
Com um pulo afobado, a morena olhou para a garota, apontou para a direção que levava à sala de estar e pediu em desespero:
- O telefone! – começou a correr atrás da menina, que pegou o aparelho e lhe entregou sem maiores questionamentos. Ela começou a discar os números com pressa, rezando para que não tivesse errado um botão na sua avidez em falar com Sasuke. No mínimo, ele poderia explicar o que estava acontecendo e quem sabe evitar que um assassinato acontecesse em sua casa. Ela temia pela integridade do Uzumaki.
O toque de chamada sendo efetuada soou até cair na caixa postal. Ela xingou baixinho, assustando a mulher que estava do seu lado, para recomeçar tudo outra vez. Ela estava tão preocupada, que esqueceu totalmente que existia um botão específico para rediscar o último número de forma automática.
Mikoto mordeu o lábio inferior e esperou, encarando os olhos castanhos da empregada, antes de tomar uma decisão.
- Fique no corredor e me avise se ouvir algo suspeito. – pediu, vendo a ruiva concordar com a cabeça e correr de volta para o lugar onde estavam. Ela não precisava de maiores explicações para saber que algo grave estava acontecendo.
Quando a Uchiha estava quase derrubando a chamada para tentar novamente, ela ouviu a voz profunda e rouca do seu filho soar do outro lado, como se tivesse acabado de acordar:
- Mãe?
- Sasuke! Graças a Deus! – ela suspirou em alívio, colocando a mão no peito para acalmar as batidas frenéticas.
- O que aconteceu? – ele perguntou um pouco mais desperto. Ela ouviu o som de tecidos farfalhando e a movimentação do telefone, enquanto o rapaz parecia trocar o celular de uma orelha para a outra e andar pelo apartamento. – Naruto já foi embora?
Mikoto pôde ouvir a pergunta abafada e ela mordeu o lado interno da bochecha, esperando ele terminar de falar com a Karin. Os dois trocaram mais algumas palavras ininteligíveis e ela ouviu mais estalos na ligação, indicando que o filho voltou a ajeitar o telefone no rosto.
- Desculpe. – ele pediu educadamente. – Ontem o Naruto veio para cá, dormiu aqui em casa, mas já deve ter ido embora. – ele soltou um suspiro resignado. – No mínimo, ele deve estar chateado comigo ainda.
Mikoto ia dizer que o Uzumaki estava no escritório, conversando com Fugaku. No entanto, ao ouvir a confissão involuntária de Sasuke, ela percebeu que ele estava precisando conversar. A morena sabia que não era o momento certo, mas tinha uma sensação de que aquele pequeno fragmento de desabafo era a oportunidade que tinha de colher respostas. Ela se sentia tocada, quando ele a procurava indiretamente para conversar. Ao contrário do pai e do irmão mais velho, o caçulo sempre foi muito mais sensível e aberto a aceitar a sua opinião.
Como mulher em um clã onde os valores patriarcais eram fortes, ela se sentia valorizada com essa atitude do filho, porque a figura feminina não tinha poder para dizer o que pensava na maioria das vezes. Itachi a considerava muito, mas nunca pediu sua ajuda quando tinha problemas. Ele sempre se resolvia sozinho e, por mais que se orgulhasse dessa independência, Mikoto se frustrava, porque mal sabia o que acontecia na vida do seu primogênito.
- Vocês brigaram? – ela perguntou com preocupação. Fazia semanas que não conversavam direito. Principalmente depois que ele e Fugaku brigaram.
- Sempre, né, mãe?! - ele respondeu com diversão, embora houvesse um quê de cansaço em seu tom de voz. – Só que agora é diferente.
Mikoto suspirou e esfregou a testa com a ponta dos dedos, enquanto pensava profundamente sobre o significado das palavras vagas.
- Sasuke, o que você fez? – ela perguntou como fazia quando ele era criança e reconhecia pelo tom do menino que este havia aprontado alguma coisa. – Naruto está no escritório com o seu pai há algum tempo e eu estou começando a ficar preocupada com o que pode estar acontecendo. – soltou inconscientemente.
- Naruto está aonde?! – ele exclamou em desespero. – Por que você não me avisou antes?!
Pelo barulho, ela pôde perceber que ele começou a entrar em movimentação frenética. Mesmo a respiração tranquila estava se agitando aos poucos. Antes que ela pudesse responder as perguntas frenéticas, o rapaz continuou:
- Eu estou indo e tente evitar que os dois se matem enquanto eu não chego! – pediu num tom exigente e temeroso. Ele estava preocupado, o que a deixou ainda mais apreensiva.
(***)
Sasuke, ao invés de pisar no freio para diminuir a velocidade na curva, pisou ainda mais no acelerador. Um erro imprudente, mas necessário. Ele estava com pressa. O carro corria desenfreadamente pela rodovia, enquanto o moreno rezava para que nenhum policial o parasse no caminho, caso o contrário, iria se atrasar ainda mais. Contudo, ele tinha certeza que os radares eletrônicos não foram tão distraídos e registraram, no mínimo, três multas nas últimas duas horas.
Ele não sabia o que estava se passando na cabeça de Naruto, mas seja lá o que o mais novo estava fazendo, o Uchiha só conseguia esperar pelo pior. O rapaz tinha plena ciência que suas últimas brigas foram por falta de confiança de ambas as partes, mas ele não podia deixar de temer o que o Uzumaki estava fazendo. O loiro era sempre tão impulsivo; facilmente levado pelo calor do momento, ele raramente pensava direito nas consequências.
Aumentando a marcha, ele tornou a pisar no acelerador. Mais um pouco e ele chegaria na casa dos seus pais. Seu sangue bombeava em seus ouvidos e fazia a sua cabeça latejar ainda mais de dor, ele estava ficando estressado, pois seus pensamentos se misturavam; totalmente confusos. E a ressaca não estava ajudando muito também. Em sua mente, o mais novo decidira contar para Fugaku que ele havia roubado as ações da empresa da própria família. Só essa atitude lhe traria ainda mais problemas que antes e ele não sabia o que faria para melhorar a situação nesse caso.
Seu pai iria deserdá-lo e reduzir a Kyuubi Engenheria & Construção em poeira.
Por um momento, ele cogitou desmentir Naruto, mesmo que o loiro fosse incapaz de olhar para a sua cara depois. Sasuke não estava preocupado em perder sua parte da fortuna, ele estava apavorado com a ideia do seu velho destruir a família do homem que amava. E ele não iria suportar ver o Uzumaki infeliz.
Ele já estava com parte dos seus objetivos concluídos. O dinheiro era o menos importante. Quando Fugaku decidiu cortar a sua pensão e lhe deixar na mão há quase cinco anos atrás, ele decidiu que não iria depender da riqueza do seu clã para se manter. Foi difícil, mas ele conseguiu arcar com as suas despesas e pagar pelo estilo de vida que decidiu levar. Além disso, meses antes de conhecer Naruto, o Uchiha começou a pagar a sua pós-graduação na Suíça.
Se seu relacionamento com o Uzumaki prosperasse, ele contaria assim que ambos terminassem a faculdade. No entanto, pelo andar da carruagem, ele só poderia agradecer as decisões que fizera no passado, porque a viagem seria uma forma de deixar tudo para trás e seguir a sua vida. Ele recomeçaria tudo outra vez, como sempre fora acostumado a fazer. Longe da sua família e das pessoas que lhe eram importantes.
Os minutos se passaram, enquanto ele corria e pensava distraidamente sobre o que seria daqui para frente. Com um suspiro de alívio, ele virou a esquina da rua onde ficava a mansão da sua antiga casa e, quase agradeceu aos céus, quando viu o inconfundível Mustang vermelho parado na calçada. Como não havia comoção maior do lado de fora, ele percebeu que chegara a tempo, pois nada de trágico acontecera ainda.
Ele estacionou seu próprio carro atrás outro veículo e pulou para fora. Em sua ânsia, ele só bateu a porta sem acionar o alarme e correu até o portão aberto pelo porteiro. O homem se curvou em cumprimento, mas não recebeu nenhuma resposta em troca, porque o rapaz já estava correndo para dentro sem perceber nada a sua volta.
- Mãe?! – ele gritou, correndo para a sala de estar, a fim de encontrar a mulher para interceder qualquer discussão que Naruto e Fugaku pudessem estar tendo naquele momento.
Antes que Mikoto pudesse responder, os dois ouviram a porta do escritório se abrir e as vozes masculinas se sobressaltarem. A matriarca se levantou do sofá e Sasuke inconscientemente ajeitou a postura, tencionando os ombros e a coluna, enquanto esperava os homens aparecer pelo corredor.
Quando os dois se aproximaram, por incrível que pareça, Naruto estava sorrindo. E seu pai estava estranhamente relaxado. A suspeita aura de leveza, fazendo-o se sentir levemente desconfortável e desconfiado. Em seu interior, a curiosidade cutucou o seu peito e o moreno mais novo precisou morder o lábio inferior para não os bombardear de perguntas.
- Sasuke? – o loiro foi o primeiro a se pronunciar, completamente surpreso.
Ele e Mikoto revezaram o olhar nos homens adiante; receosos.
- Naruto... – ele soltou, demorando a atenção em seu pai. – Está tudo bem?
O Uzumaki lhe deu um grande sorriso sincero, daqueles que enrugavam os cantos externos dos olhos e fazia o seu coração correr como um louco dentro do peito. Ele soltou o fôlego que não sabia estar segurando. A sensação que aquecia o seu peito e fazia com que se sentisse ligado era familiar, mas parecia ser uma lembrança distante.
Naquele momento, ele percebeu que Naruto tinha razão quando afirmou que ambos estavam perdendo a conexão e a familiaridade que possuíam, quando se conheceram. Era como se ele tivesse vendo pela primeira vez aquele loiro bonito do festival de música, que era primo da sua melhor amiga e que o deixava louco para se aproximar e tocar na pele quente e bronzeada. Os dois se distanciaram tanto emocionalmente, que começaram a se esquecer daquela "coisa" que os incentivaram a começar o relacionamento em primeiro lugar.
- Preciso voltar para casa e conversar com os meus pais. – ele se aproximou e puxou uma mexa do seu cabelo preto, antes de empurrá-lo atrás da orelha. – Me liga mais tarde?
Os orbes azuis brilhavam carinhosos e felizes. E Sasuke estava com uma séria dificuldade em entender o que o Uzumaki estava dizendo. O rapaz estava tão próximo, que se inclinasse um pouco mais, poderia roubar um beijo dos lábios rosados. Uma sobrancelha dourada se ergueu, esperando uma resposta, e ele percebeu que deveria estar encarando como um pateta.
Ele pigarreou, voltando ao normal.
- Devo ficar preocupado com o que você aprontou? – perguntou num tom mais baixo, para evitar que seus pais escutassem o tópico da conversa.
- Depende. – ele murmurou, beijando a sua bochecha, antes de se afastar. – Até mais tarde, Mikoto e Fugaku-san! – exclamou, andando até a porta com passos rápidos. Sasuke estranhou a pressa.
Um silêncio desconfortável cresceu na sala de estar, depois que o Uzumaki saiu. Mikoto olhou de Sasuke para Fugaku com curiosidade, enquanto o patriarca não parava de encarar o seu filho mais novo. O rapaz, no entanto, não tirava a atenção da direção que o loiro tomara, enquanto refletia sobre o que estava acontecendo. Ele estava querendo se preparar de antemão para o que viria, mas ele não podia se organizar, sem saber o que houve dentro do escritório e o que Naruto fizera.
"Droga!", amaldiçoou, tentando pensar rapidamente em um plano.
- Sasuke? – a voz grave do seu pai o chamou, sobressaltando-o. – Podemos conversar um momento?
- Claro. – respondeu, agradecendo aos deuses por soar mais firme do que se sentia de fato.
- Querida, não deixe que ninguém nos interrompa, nós conversaremos mais tarde. – pediu, começando a se dirigir para o escritório. – Acho que teremos uma mudança na Mangekyou em breve. – anunciou, fazendo o sangue do mais novo gelar em suas veias. A mulher só concordou pacientemente.
Os dois caminharam para a sala particular de Fugaku em completo silêncio. Um milhão de possibilidades passavam na cabeça do mais jovem deles. As mãos se Sasuke estavam geladas e ele as enfiou no bolso da blusa moletom cinza e larga. Quando saiu de casa mais cedo, o rapaz só se dera tempo de colocar uma calça jeans, uma camiseta surrada e o casaco velho, fazendo-o se sentir pequeno perto do seu pai agora.
Quando fechou a porta, o patriarca se sentou em sua cadeira. O velho senhor se jogou no encosto, como se estivesse desgastado e voltou a encarar o filho como se esperasse uma explicação. Para o caçulo, o homem estava sendo autoexplicativo, mas ele fingiu que não entendeu a expectativa em sua postura curiosa. Ele apenas sentou no assento do lado oposto e esperou.
- Eu vou ser bem direto, então, quero que me responda diretamente também. – seu pai começou, entrelaçando os dedos diante do rosto. – Naruto veio me contar que você ofereceu 5% das suas ações para a Kyuubi Engenharia & Construção. – Sasuke quis xingar o Uzumaki e sua boca aberta naquele momento. – Como eu não estava acreditando nas palavras do seu namorado, eu decidi ligar para Kisame a fim de tirar as minhas dúvidas. – continuou, destruindo todas as suas esperanças de inventar uma mentira. – E adivinha a minha surpresa quando ele me confirmou que eu mesmo havia autorizado a transação para controle total das ações no seu nome.
O estudante controlou a vontade de se remexer desconfortavelmente no banco. Ele encarou os olhos do seu pai com a mesma força com que era encarado, tentando não demonstrar o quanto estava intimidado com a conversa. Ele não se arrependia de nada e faria tudo de novo se fosse possível. Se algo na conversa entre Naruto e mais velho tivesse dado errado, o loiro não teria lhe dado aquele sorriso tão grande. Fugaku estava jogando com as suas emoções.
- Quem te ajudou nisso? – o patriarca perguntou com um tom irritado. – Porque na segunda-feira, eu irei demitir todo mundo pela incompetência. Nem mesmo Itachi tem total controle sobre os próprios bens, por que é que você teria?
A pergunta, comparando-o indiretamente com o irmão, fez seu peito doer. Em sua raiva defensiva, ele queria acabar com a ilusão do homem sobre o filho perfeito e confessar que fora o próprio primogênito que lhe dera autonomia sobre sua própria parte da fortuna dos Uchiha, mas ele se controlou. O rapaz se recusava a ser ingrato com a pessoa que mais tinha lhe apoiado, desde que saíra de casa para fazer faculdade em outra cidade, sem o apoio dos pais.
- Você vai ter que descobrir isso sozinho, se quiser. – retrucou com petulância, dando de ombros para a fúria do patriarca. – Ou você pode tomar ações legais para me tirar qualquer benefício da Mangekyou, já que eu sou o "mandante do crime". – jorrou, desafiando-o. O plano original é que seu pai só descobrisse depois que tudo estivesse concluído, no entanto, como nada aconteceu como o planejado, ele precisava arcar com as consequências agora.
Os olhos de Fugaku se estreitaram e, por um momento, Sasuke pensou que o homem fosse explodir em sua revolta. No entanto, a postura do mais velho relaxou e ele tornou a se encostar na cadeira, ponderando o que iria dizer a seguir. O empresário abanou a cabeça negativamente, aceitando as circunstâncias com certa resignação. Por mais duro que ele fosse, ele jamais seria tão radical ao ponto de deixar seus filhos completamente desamparados.
Brigava, discutia e aplicava castigos, mas nunca seria tão extremista.
Mesmo quando ele cortou a pensão do caçulo há anos atrás, o homem sabia que se o garoto pedisse, ele cederia. No entanto, os irmãos eram orgulhosos demais para dar ao braço a torcer. Nessas horas, ele só desejava que os meninos tivessem puxado um pouco mais Mikoto, além da aparência aristocrática e o jeito ponderado em lidar com as situações que não envolviam seus egos.
- Você tem sorte em ter um namorado inteligente e bastante persuasivo quando quer. – comentou casualmente, fazendo o jovem arregalar os olhos de espanto. – Eu confesso que me precipitei em achar que ele não era bom para você, mas hoje ele provou ser totalmente distinto do que acreditei. Eu te devo desculpas. – assumiu, fazendo Sasuke arregalar ainda mais os olhos.
O coração do mais novo começou a correr como louco dentro do seu peito, e ele precisou olhar para fora da janela e conferir se o pedido de apologia não era um prelúdio dos finais dos tempos. "O que aconteceu nessa sala, enquanto eu não chegava?", perguntou-se em pensamento. No fundo, ele estava começando a ficar com medo do significado daquela conversa, porque Fugaku estava agindo diferente demais para ser considerado normal.
- Ele me entregou o contrato que você redigiu e entregou para Kushina. – abriu a primeira gaveta da mesa no lado direito e puxou o documento. – Ou melhor, apenas uma cópia do acordo original. – colocou o papel diante do filho, mas o mais novo nem se deu ao trabalho de olhar, pois já lera aquelas palavras vezes seguidas para se lembrar do que se tratava. – Sua estratégia foi inteligente, eu admito, mas completamente imprudente. O que você faria se eu entrasse com um recurso que cancelasse esse tratado?
O rapaz ergueu uma sobrancelha e deu de ombros. Seus olhos presos nos do patriarca, tentando demonstrar uma indiferença que não sentia.
- Você não entraria com um recurso. – afirmou com convicção, arriscando ser mais ousado que normalmente era, quando se tratava de Fugaku. – Depois de envolver a mídia em um dos seus jogos, você acha que a imprensa não estaria prestando atenção no caso, à espera de uma novidade? O quão ruim e contraditório seria, se descobrissem que seu filho caçula forjou documentos importantes, a fim de beneficiar a empresa que você estava tão empenhado em destruir? – jogou. – Você é mais orgulhoso que isso, tou-san.
O velho senhor estreitou os olhos sobre o jovem, sentindo raiva que Sasuke poderia o ler tão facilmente. No final, ambos se reconheciam, porque eram extremamente parecidos. Mikoto tinha razão, quando afirmava que suas personalidades se chocavam, justamente por terem a mesma personalidade difícil. Mas, apesar de tudo, ele se sentia orgulhoso com a demonstração de força e inteligência do caçulo. Se um dia ele pensou que a sexualidade do garoto fosse o tornar mole, ele se enganou profundamente.
- Eu não quero enaltecer as minhas atitudes e, confesso que não queria um tostão da fortuna do clã, mas eu tive que usar tudo o que tinha, para proteger o que achava ser correto. – o mais novo continuou. – Eu não acho justo que a família do Naruto sofra as consequências de um erro tão banal. Mas, acredito que você me entenda, porque você também não poupou recursos para defender o que achava ser certo. Infelizmente, para chegar até você, eu preciso usar dos mesmos meios sujos que os seus, porque você não me ouve, você não me vê... É tudo sobre Itachi e como ele é o garoto prodígio que você sempre quis ter, ou como ele é filho perfeito e gênio que está destinado a comandar a empresa que você ama mais que a sua própria família.
Ao ouvir aquelas palavras saindo de sua boca e a forma como os olhos do seu pai brilhavam em espanto e mágoa, ele percebeu que estava falando demais. Mas, ele não conseguia parar. Enfim, ele sentia que estava atingindo Fugaku de alguma maneira, e ele só esperava que as coisas melhorassem daqui para frente, porque ele estava farto de ter sua vida controlada por terceiros.
Um silêncio desconfortável cresceu entre eles, enquanto cada um ponderava o que foi dito e ouvido. O mais velho começou a mexer na ponta do contrato em cima da mesa distraidamente, remoendo o bolo acre na garganta que crescera ao saber como o filho caçula se sentia. Ele nunca desejou que Sasuke se sentisse desprestigiado por ser quem era. O patriarca só era mais rígido por acreditar que, dessa forma, tornaria o menino mais independente. Agora, ele via as consequências agridoces de suas atitudes. Embora, o menino tenha se tornado autossuficiente, ele também se tornara amargo e invejoso.
- E, mais uma vez, acho que Naruto tem razão. – ele comentou, dando um suspiro para diminuir a fadiga emocional daquela conversa. – Você não nasceu para estar à sombra do seu irmão mais velho. Você nasceu para estar no comando sozinho. – divagou em voz alta, fingindo não perceber o olhar de interesse do rapaz. – Depois que ele me mostrou a sua proposta, ele me mostrou outro contrato. Ele é ousado, eu gosto disso nele e acho que precisaríamos de alguém assim em nossa empresa.
Sasuke já estava pronto para negar. O sonho do Uzumaki sempre fora continuar o legado que seus pais construíram, ele não deixaria o loiro abdicar de tudo, simplesmente para trabalhar na Mangekyou. No entanto, antes que ele pudesse objetar, seu pai tirou outro papel de dentro da gaveta.
- Naruto propôs que, em troca dos 5% das ações da nossa empresa, você se tornasse o Diretor Executivo da Kyuubi Engenharia & Construção. – informou, assistindo com diversão os olhos do outro se arregalar numa pergunta muda. – Nós nos tornaríamos sócios, você ainda trabalharia para a Mangekyou, embora atuasse mais ativamente na empresa dos seus sogros, e trabalharia ao lado do Uzumaki como um braço direito, podendo tomar as decisões cruciais e direcionar o lado administrativo. Quando a empresa crescer, ambas as famílias lucram. – explicou resumidamente, entregando-lhe o acordo. – E, por fim...
- Naruto também trabalharia para os Uchiha. – Sasuke terminou com perplexidade, fazendo o mais velho concordar com a cabeça. O estudante de engenharia era muito mais ambicioso do que aparentava. – Por que ele faria algo desse tipo? – ele ainda não conseguia entender a linha de raciocínio do Uzumaki, de o porquê ele arriscaria tanto só por causa de um relacionamento. Não era certo.
- Porque ele te ama. – pontuou com uma suavidade que não lhe era característica. – No começo, eu achei que esse envolvimento que vocês tinham era só um caso de idade. Mas, depois que vi o que ele está disposto a arriscar por você e o que você estava disposto a arriscar por ele, Sasuke, percebi que me enganei. – suspirou, olhando para a janela.
E mais uma vez o silêncio desconfortável cresceu entre os dois, como o indicativo de palavras não ditas. Estava óbvio que o patriarca tinha mais a dizer, mas o orgulho o impedia de continuar. Já fora difícil o suficiente admitir que estivesse errado. O mais novo queria retrucar e apontar o que estava claro para ambos, mas ele decidiu ficar mudo, com medo que quaisquer palavras fosse fazer o outro homem mudar seus pensamentos. Ele sonhou a vida toda em escutar o seu pai admitir que ele não era só uma sombra de Itachi.
Fugaku tornou a encarar os dois contratos em cima da mesa e, depois, dirigiu sua atenção ao caçulo. Seu olhar parecia falar volumes, mesmo que sua boca não pronunciasse um som sequer. A intensidade das emoções transmitidas naquela breve troca de olhares foi o suficiente para fazê-lo engolir um bolo desconfortável preso na garganta, a fim de se impedir de dar vazão aos sentimentos que há tanto tempo o consumia.
- Se você concordar com os termos, nós podemos agendar uma reunião na segunda-feira para formalizar o contrato. – a voz profunda do velho senhor quebrou o silêncio de forma mais contida que o normal.
Sasuke meneou a cabeça afirmativamente, pegando o documento que Naruto entregara ao seu pai, procurando uma pasta ou envelope no meio da desordem da escrivaninha para levar o acordo para casa sem o danificar.
- Eu vou ler com mais calma e amanhã eu ligo para dizer o que penso a respeito, pode ser? – questionou, analisando as reações do seu pai para entender o que ele estava pensando, mas ele parecia totalmente em branco.
Ele se levantou, dando a conversa por encerrada. Com um último olhar receoso para o mais velho, que parecia querer ficar sozinho com seus pensamentos naquele momento, ele saiu da sala a passos firmes e completamente decididos sobre o que iria fazer a partir de agora. A mudança de rota repentina em seus planos só serviu para fomentar ainda mais alguns objetivos e criar outros novos. Ao mesmo tempo em que estava surpreso que o Uzumaki tenha jogado algo tão ousado em suas mãos, ele estava exultante com a nova prova de confiança que o loiro fizera questão de lhe mostrar, o que o fazia mais consciente dos erros que cometera. Ele nunca confiara plenamente em Naruto. No entanto, agora ele faria cada uma dessas demonstrações valerem a pena.
Quem diria que o surgimento do primo da sua melhor amiga em um simples festival de música significaria tantas mudanças em sua vida? Naruto não era quem esperava, mas era aquele que abriria os caminhos para que pudesse ser feliz plenamente. Naquele momento, ele agradeceu a traição de Suigetsu há meses atrás. Se nada disso tivesse acontecido, quem sabe o que seria dos seus dias no futuro?
