Kagome olhou fixamente para o teto, seus pensamentos num caos. Sesshomaru, Hakudoushi e Inuyasha estavam adormecidos. Eles pareciam desconfortáveis como no inferno, mas ela não queira fazer nada para despertá-los.

A culpa pesou uma tonelada em seu peito. Toda vez que fechava os olhos, via Inuyasha caindo novamente. Seu pior medo tinha sido o perigo que ela estava trazendo para os irmãos. Um medo que agora tinha sido justificado.

Estava na hora de tomar uma atitude para evitar que algo de mal acontecesse com Sesshomaru, Hakudoushi ou Inuyasha. Especialmente Inuyasha. Ela os amava a todos, tanto! A idéia de perder algum deles criava uma dor insuportável em seu coração.

Olhou para Sesshomaru só alguns pés longe. Seu telefone celular estava deitado na mesa próxima a sua cama. Observou-o fixamente por um momento longo então lentamente pegou o telefone.

Ela sabia que o número de Kikyou tinha sido o último e que devia estar armazenado. Kagome devagar abriu o telefone e apertou nos botões para parar no último telefonema recebido. Então ela fez a ligação.

Alguns segundos mais tarde, ouvia a voz filtrada de Kikyou pela linha.

-# Kikyou? Aqui é... é Kagome Bardwell — disse em uma voz mais forte.

Houve uma pausa longa.

-# O que eu posso fazer para você, Sra. Bardwell?

Kagome respirou fundo e verificou para ter certeza que não tinha acordado os homens.

-# Eu preciso de você para contatar o advogado de distrito do Município de São Francisco — pediu quase num sussurro.

Outra pausa longa.

-# Sesshomaru sabe que você está me ligando? — Kikyou perguntou.

-# Não, e eu quero manter isto deste modo — Kagome declarou com firmeza. — Olhe, Kikyou... Eu sei que você não gosta de mim, mas sei que gosta de Sesshomaru. O que vai fazer se acontecer a ele o mesmo que a Inuyasha? Eu tenho que fazer o que eu posso o manter seguro. Para manter todos seguros.

-# O que você quer que eu diga para o D. A.?

-# Diga a ele que eu tenho algumas informações sobre Kouga Bardwell que lhe interessariam muito. Diga-lhe onde me achar. Eu não vou discutir por telefone. Tem que ser pessoalmente.

-# Você tem certeza que isto é sábio? — Kikyou perguntou.

Se Kagome não conhecesse os fatos, juraria existia preocupação real na voz da outra mulher.

-# É minha única opção. Eu não posso deixar eles serem mortos por minha causa.

O silêncio desceu entre as duas mulheres. Finalmente Kikyou falou.

-# Certo, eu farei o telefonema.

-# Obrigado — Kikyou agradeceu suavemente.

Ela fechou o telefone e cuidadosamente o colocou no lugar. Então afundou nos travesseiros, esvaziaram de energia.

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Dois dias mais tarde, o D. A. chegou, dois oficiais de patrulha flanqueando-o. Eles caminharam para o quarto de Kagome, produzindo imediatas reações nos irmãos.

O medo apertou o tórax de Kagome, apertando-o até obrigá-la a lutar pela respiração. Ela sabia quem ele era e por que estava ali.

-# O que diabos está acontecendo? — Sesshomaru exigiu quando ele entrou no quarto, levantando-se em toda sua altura

Hakudoushi e Inuyasha também levantaram. A tensão pesada nublou o quarto, tão espessa que poderia ser colhida por uma colher.

-# Calma filho. Meu nome é David Masterson. Eu sou o advogado distrital do Município de São Francisco.

Sesshomaru cruzou os braços e parado, as pernas separadas, continuou olhando fixa e desafiadoramente para o D. A.

-# Isso não explica por que você está aqui.

-# Eu pedi para ele vir — Kagome disse devagar.

Todos os olhos viraram para ela. Inuyasha aproximou-se da cama, pairando protetoramente acima dela. Parecia cômico. O peito e os ombros cheios de bandagens, lembrava uma múmia.

-# Talvez eu possa ter um momento a sós com a Sra. Bardwell — o D. A. falou mais alto.

-# Como inferno você irá — Inuyasha protestou.

Kagome pôs a mão no braço de Inuyasha.

-# Eu ficarei bem, Inuyasha.

Sesshomaru a olhou fixamente, não desviando o olhar.

-# O que você fez, Kagome?

-# Por favor, entenda Sesshomaru. Eu não posso permitir que algum de vocês volte a ser prejudicado por minha causa.

Sesshomaru blasfemou longo e duro. Ela estremeceu com sua ferocidade.

David Masterson gesticulou aos dois policiais.

-# Se vocês não se importarem, escolte os cavalheiros para fora assim a Sra. Bardwell e eu podemos conversar reservadamente.

-# O inferno que você vai fazer! — Hakudoushi o desacatou.

-# Hakudoushi, por favor — Kagome pediu. — Deixe-me fazer do meu jeito. Eu estou pedindo para você sair. Por mim.

Os olhares que lhe lançaram mostravam mágoa misturada com raiva, mas os três finalmente viraram, e saíram.

O D. A. aproximou-se e lançou-lhe um olhar especulativo.

-# Se importa se eu me sentar? — perguntou.

Ela agitou a cabeça e assistiu quando ele sentou na cadeira que Inuyasha desocupou.

-# Meu escritório está procurando por você há algum tempo, Sra. Bardwell. Alguma razão particular para seu desaparecimento?

Ela fixou o olhar duro nele. Não permitiria que ele bancasse o superior.

Esta reunião seria nas suas condições e só nas suas condições.

-# Eu pedi que você viesse aqui, Sr. Masterson. Eu farei as perguntas.

Ele ergueu uma sobrancelha.

-# Muito bem. O que eu posso fazer para você?

-# Você não teria vindo e nem tão rápido se estivesse sutilmente interessado em Kouga Bardwell — ela começou.

Ele movimentou a cabeça.

-# Isto é verdade.

-# Eu o vi assassinar um homem na noite do nosso casamento — ela disse rapidamente.

O D. A. levantou e se inclinou para frente, a urgência iluminando seus olhos.

-# Você o viu? Tem certeza?

Ela estremeceu e fechou os olhos momentaneamente.

-# Não existe possibilidade de ter entendido errado o que vi, Sr. Masterson. Ele atirou em um homem.

-# Houve alguma outra testemunha? Pense bem sobre isto, Sra. Bardwell. É muito importante.

-# Por favor. Não me chame de Sra. Bardwell — disse devagar. — Meu nome é kagome. E sim, existia outra pessoa presente. Seu companheiro de negócios Jakotsu Goins.

David se sentou de volta, um cintilar de triunfo em seus olhos.

-# Você está disposta a testemunhar sobre o que viu?

-# Foi por isso que pedi que viesse até aqui — ela disse. — Mas tenho condições.

Novamente ele ergue a sobrancelha.

-# De que tipo de condições nós estamos falando?

-# Eu quero proteção. Ele é o culpado por eu estar neste hospital. Por culpa dele Inuyasha Taishi quase morreu. Ele não hesitará em me matar ou a eles.

-# Claro, nós tomaríamos todas as precauções necessárias — concordou depressa.

-# Eu quero Sesshomaru, Hakudoushi e Inuyasha protegidos também. Eles não gostarão nada disto. Eles não quererão isto. Mas eu não porei o pé no palácio da justiça a menos que você garanta que alguém estará tomando conta deles até isso terminar.

-# Kagome, se você me ajudar a colocar Kouga Bardwell no seu devido lugar, eu cuido pessoalmente deles não importando o que queiram. Nós estamos atrás dele há anos. Ele está até o pescoço envolvido com uma organização de crime na área da Baía de São Francisco. Até agora, nós não temos qualquer coisa contra ele. Quando a Xerife Kikyou me chamou e disse que você queria me ver, peguei o primeiro vôo até aqui, torcendo para você diria a mim o que você está dizendo.

Kagome ficou pálida.

-# Crime organizado?

David movimentou a cabeça. Ele a estudou por um momento.

-# Este provavelmente não é o melhor momento para dizer a você, entretanto eu não posso imaginar um momento ideal para contar uma coisa dessas, bem, nós temos fortes suspeitas de que ele esteve envolvido na morte de seus pais.

Ela abriu sua boca em choque.

-# Mas eles morreram em um acidente! Foi um acidente!

-# Realmente foi. Um acidente bastante suspeito. Ele estava envolvido em vários investimentos com eles. Os investimentos foram muito ruins. Uma semana antes do acidente, eles vieram para meu escritório dizendo que tinham evidências de que ele estava envolvido em fraude.

Kagome soltou a cabeça sobre seu travesseiro. Lágrimas encheram seus olhos e ela as enxugou furiosamente.

-# E você nunca fez qualquer coisa sobre isto?

Sua voz ficou mais suave.

-# Nós nunca tivemos evidências suficientes para fazer uma acusação. Acredite em mim se tivéssemos, teria feito tudo que fosse possível para condená-lo.

-# O que eu tenho que fazer? — ela perguntou. — Eu quero o bastardo na prisão por tudo que fez.

-# Bem, eu tomarei sua declaração. Então eu pedirei um mandado de prisão para o Sr. Bardwell. Nós a moveremos para um esconderijo, onde permanecerá até a audiência. Organizarei também a proteção da polícia para os Taisho.

-# Quanto tempo isso demorará? — suavemente perguntou.

-# Isso eu não sei. Eu não mentirei para você. Pode se prolongar por algum tempo, mas farei o melhor que posso para conseguir terminar rápido.

Ela engoliu o nó na garganta. Quanto tempo iria ficar separada de Sesshomaru, Hakudoushi e Inuyasha, e iriam eles querê-la de volta quando tudo terminasse? Apesar de odiar a idéia de ficar separada deles, sabia que tinha que fazê-lo. Pelos seus pais, pelos homens que amava, e mais importante, por ela mesma.

-# Vamos fazer isto — sussurrou. — Faça os acordos.

Ele se debruçou pegou sua mão.

-# Obrigado, Kagome. Você está fazendo uma coisa muito corajosa.

Corajosa? Ou estúpida? Ela não estava certa. Ela só sabia que teria que enfrentar três homens muito bravos. Os homens que ela amava mais que qualquer outra coisa em sua vida. E aqui ela estava fazendo o que menos queria fazer. Partindo.