Obrigada mesmo por cada review!
Os incentivos para escrever ou mesmo os comentários extensos (IsyPerolla) que também às vezes, me deixam saber se há alguma coisa que podia ter explicado melhor e que posso incluir no capítulo seguinte.
Saber também que há quem esteja a ler pela primeira vez uma fanfic deste casal em português (mesmo que seja na 'minha' variante de Portugal) também me deixa muito contente e claro, também ser consciente que apreciam o meu esforço para manter a postagem de capítulos com pouco tempo de espera.
Portanto, muito obrigada a todos: IsyPerolla, Taina-chan n.n, Nicole, Haa, Nanda, Vitoria, Ana, Cami, gyuoppa, Tsuki Taishou, munyaan, ChocoEater, Taniih, Mya, Carol,Mih, Lumi, Pudinham, Can Can, etc (a minha internet recusa-se a atualizar a página para poder ver o nome de todos e eu não posso dar-me ao luxo de demorar muito mais no computador porque tenho teste de alemão amanhã e estou em modo de pânico xD). Deixemos os dramas da minha vida de parte e vamos ao capítulo *
-X-
Inesperado
Pouco tempo depois da recuperação de Eren, este finalmente pôde começar a acompanhar Levi no processo de caça e de recolha de água. Viveram assim durante algumas semanas, até que o capitão decidiu que já era hora de deixar que o rapaz conhecesse a ilha que se encontrava a alguma distância. A embarcação que anos antes tinha sido utilizada por Levi encontrava-se parcialmente em boas condições. Isso pressupôs alguns arranjos antes que pudessem usá-la.
A ilha estava um pouco diferente. Havia mais pessoas e desta vez, tal como há três anos o soldado desconhecido para eles, tinha sugerido que começassem a servir-se da agricultura para tirar maior proveito da terra. Porém, o comércio continuava a ser desenvolvido de forma simples, através da troca. Fruta podia ser trocada por carne ou peixe, conforme a variedade e riqueza que estivesse disponível. Levi preferia esse sistema do que a existência de dinheiro que era uma ideia desconhecida ou até abominada pelos poucos habitantes daquela ilha perdida no mar, mas que possuía uma riqueza impressionante de recursos naturais.
O rapaz de olhos verdes ficou não só fascinado pela ausência de Titãs naquela área, como também a existência de um vulcão fez com que nos primeiros dias, insistisse com o capitão para ver o local de perto. Como se tratava de um vulcão ativo, não era seguro ficar nas suas redondezas, mas ainda assim Levi acabou por ceder ao pedido e levou-o até ao local para poder ver de perto, aquele lugar que para Eren era como se fosse mágico. Repetiu algumas vezes que era bem mais fascinante do que vinha escrito nos livros. Era fácil para Levi deduzir que desde do primeiro instante que colocaram os pés naquela ilha, Eren estava apaixonado pelo local. Queria explorar, interessava-se por aprender os nomes dos animais, frutas e peixes e os habitantes locais tal como tinham feito com o capitão na primeira vez que o viram, foram bem amistosos. Sobretudo quem tinha filhas, o que nessa parte não agradou tanto ao capitão, mas supôs que tal como ele, Eren também teria que dizer que não a certas sugestões.
Por algum motivo, embora aqueles habitantes nunca se tivessem cruzado com titãs, conheciam o conceito de soldados e exército, ainda que fosse no sentido de homens lutarem entre si por terras. No entanto, respeitavam bastante tanto o capitão como Eren que apenas sorria e pedia que o chamassem pelo primeiro nome sem qualquer reverência ou tratamento especial. Evidentemente era mais fácil para eles atenderem a esse pedido de um soldado. Porém, no caso de Levi, os habitantes continuavam a tratá-lo com respeito não só pelo título, mas também por consideração pelo que tinha feito quando o acolheram anos antes.
Flashback
- Estava muito mal tratado, coitadinho. Notava-se que tinha fome e estava cansado e todos aqui fizemos de tudo para pô-lo de pé e em condições. – Contava uma das senhoras da pequena vila a Eren que escutava com atenção enquanto lhe enchiam o prato pela segunda vez. – Tal como agora, não era muito conversador, mas mostrou-me muito atencioso connosco. Disse que era como agradecimento pelo que tínhamos feito, mas acho que nos deu muito mais do que aquilo que lhe oferecemos. Ajudou-nos a reparar algumas casas, a recolher comida…
- Por favor, não precisa de contar-lhe tanto. – Disse Levi. – Ele gosta de saber demais e não há necessidade de lhe dar mais motivos para olhar para mim como se eu fosse alguma espécie rara.
- Estás envergonhado, Levi? – Ironizou Eren e logo, o capitão pisou-lhe o pé por debaixo da mesa. – Ah!
- Estás bem, filhinho?
- Ele está ótimo. É um bocado desastrado, morde a língua enquanto come. Acontece várias vezes. – Explicou Levi, lançando mais um olhar que dizia em palavras silenciosas para Eren não se atrever a contestar aquela mentira.
Fim do Flashback
Desde da sua chegada à ilha, passaram-se dois anos e já não eram vistos como forasteiros e sim, como novos vizinhos para os restantes habitantes que até se sentiam mais seguros, pois se alguma ameaça chegasse à ilha já tinham pelo menos pessoas capazes de entrar em combate. Claro que na ideia de Levi, a ideia era um pouco absurda, pois se número elevado de pessoas descobrisse aquele local e quisesse entrar em conflito para ficar com a terra, a destreza podia não chegar para ultrapassar a quantidade de inimigos.
Contudo, nada disso parecia ir acontecer num futuro próximo dado que o local era demasiado remoto para ser descoberto por pessoas que ainda deviam estar atrás de muralhas e na melhor das hipóteses deviam estar a rumar no sentido oposto. Levi recordava-se dos mapas de Irvin sobre os terrenos que já tinham explorados e os melhores para dedicarem-se a atividades como agricultura, encontravam-se sobretudo no sentido oposto ao que eles tinham vindo. Do outro lado, já tinham encontrado pastagens, terrenos extensos próximos a rios que podiam ser aproveitados. Às vezes, o capitão dava por si a pensar que esperava que a Humanidade nunca avançasse o suficiente para os encontrarem ali. Era um pensamento que ia de encontro a tudo o que tinha jurado anteriormente, mas Levi sabia o que aconteceria se os encontrassem. Portanto era matar ou ser morto. Perante essas duas opções, ele não duvidaria.
Contudo, preferia não ter que chegar a essa situação e simplesmente, continuar a viver tranquilamente longe de todos esses problemas que pareciam até insignificantes, cada vez que acordava e a primeira coisa que via era Eren a dormir com uma expressão pacífica ao seu lado. As noites com pesadelos tinham passado a raridades dado que a vida que levavam, não lhes permitia ter maus pensamentos ou memórias macabras como anteriormente em que constantemente eram confrontados com a morte.
_*_Eren_* _
Tinha acabado de limpar, esperava eu de acordo com os padrões do Levi. Estávamos de regresso à casa na praia. Regressaríamos à ilha em poucos dias. Por vezes, passávamos alguns dias afastados daquele local paradisíaco para treinarmos um pouco, longe de olhares indiscretos. Até gostava disso pela maior privacidade, ainda que a ilha fosse bastante extensa e fossem precisos vários dias para poder percorrer toda a sua superfície.
Porém, ali naquela zona ninguém os podia incomodar ou aparecer repentinamente. Isso era importante, não só porque as suas conversas podiam desviar-se para as transformações de titã e consequentes regeneração, ou então o mais provável, acabarmos sem roupa em algum canto. Penso que inicialmente consideraram a nossa relação apenas de superior para subordinado. Porém, com o passar do tempo era evidente que havia mais qualquer coisa. Só que Levi nada dizia e eu não queria dizer a coisa errada. Aliás, não sabia bem como devia classificar o nosso relacionamento sem morrer de vergonha. Éramos… namorados? Morria de vergonha, apenas por pensar em dizer isso em voz alta. Talvez, companheiros soasse melhor. Seja como for, não iria dizer nada até o próprio Levi dar a entender que estava à vontade em dizer isso abertamente. Às vezes, perguntava-me se ele também teria vergonha ou se só achava que ninguém tinha nada a ver com isso. A segunda hipótese seria a mais correta se tivesse em consideração a personalidade de Levi, ainda que pensar nele tendo vergonha do que havia entre nós também me entristecia. Se bem que se eu próprio não me sentia à vontade em dizer isso à frente de outras pessoas, não podia julgá-lo nesse aspeto.
Sorri ao vê-lo sentado na falésia uns metros mais adiante. Estava concentrado na cana de pesca, embora já tivesse o balde ao seu lado com vários peixes. Aproximei-me com cuidado e ajoelhei-me atrás dele, abraçando-o.
- Espero que esteja tudo limpo. Tu incluído porque se deixares pó em mim, vou atirar-te para o meio do mar.
Ri-me um pouco.
- Está tudo conforme os teus padrões, pelo menos, acho que sim. – Disse, mantendo os meus braços sobre os seus ombros e beijei o seu rosto.
- Estou ocupado, Eren. Guarda as tuas hormonas para depois…
- Mas eu fiz um bom trabalho…
De soslaio, olhou para mim e antes que pudesse responder, vi-o desviar rapidamente o olhar em outra direção. Puxou a minha camisa para que me abaixasse. Confuso, perguntei-me o que se passava. A sua mão direita continuava a pressionar as minhas costas para manter-me no chão e também se abaixava, continuando a olhar para algo que parecia vir da direção do pântano ou do caminho ao lado deste. Se fosse algum titã, penso que teria notado pela vibração do solo ou outro tipo de ruído. Era alguém e eu lembrava-me do que teríamos que fazer, caso encontrássemos alguém.
- Tens alguma arma contigo? – Ouvi-o perguntar num tom baixo.
- Uma faca. – Respondi num sussurro.
- Vai ter que servir. Mantém-te abaixado, até que te dê ordens para fazeres o contrário.
- Levi? Onde…?
- Shh, não te aproximes até que eu te dê ordens. – Começou a afastar-se com passos rápidos. Queria obedecer-lhe, mas havia aquele outro lado em mim que dizia que devia estar perto dele. Se fosse mais do que uma pessoa. Um grupo de expedição ou até mesmo um titã.
Esses pensamentos fizeram com que tentando, manter-me tão abaixado quanto possível, seguisse atrás de Levi que me encarou com algum olhar sério e descontente, mas como não queria fazer barulho continuou a avançar agilmente. Pude ver quando se deteve e retirou um punhal da sua cintura. Era quase impossível ouvi-lo respirar e assim que se moveu novamente, foi tão rápido que demorei tempo a assimilar o que aconteceu.
Quando estava prestes a atingir o inimigo misterioso, pude ver como se deteve a milímetros de o fazer. A sua expressão tensa ou mesmo inexpressiva deu lugar a alguma surpresa ao ver de quem se tratava. A sua postura tardou alguns segundos em relaxar-se e guardando o punhal, disse:
- Definitivamente, tens um desejo de morte.
- Que receção amigável. Bem, não devia esperar outra coisa de ti, Levi. – A voz continuava exatamente a mesma. Sempre naquele tom alegre e divertido.
- Hanji? – Indaguei ao erguer-me, surpreendido por vê-la. Assim que pôs os olhos em mim, sorriu e correu na minha direção, abraçando-me com força. Ela continuava sem noção da força que fazia, mas estava tão surpreso e contente por vê-la que ignorei isso quando retribuí o abraço. Logo de seguida, empurrou-me um pouco e observou-me com aquele olhar um tanto assustador que parecia analisar cada pormenor à sua frente.
- Estás com um ótimo aspeto! Lindo! Ainda mais lindo que antes! – Abraçou-me mais uma vez enquanto corado, agradecia os elogios. – Queimadinho pelo sol, mais massa muscular, mas é bom ver que estás bem. Saudável, sorridente… estás vivo!
- Hanji o que estás aqui a fazer? – Perguntou Levi de braços cruzados. – Como chegaste até aqui?
- Segui as indicações que me deste há uns anos atrás. – Disse, continuando a observar-me. – Tens que contar-me mais sobre o que se passou com o Eren depois que vocês…
- Hanji estás em expedição? – Quis saber o Levi e posso dizer que até entendia a preocupação dele, mas agora que ela estava ali, queria ter a oportunidade de fazer-lhe perguntas. Principalmente, aquelas em que as respostas fossem sobre a Mikasa e os meus amigos.
- Estamos em expedição, mas para o lado oposto. Esta parte por causa dos pântanos e terras áridas, não está nos planos de reconquista. Temos rios e terras férteis do lado oposto. – Explicou Hanji.
- Então, o que estás aqui a fazer?
- Antes de mais, avisar-te que o teu esquadrão mantém-se forte e intacto e é graças a ele que fiz este desvio sem levantar suspeitas. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu naquela noite, mas eles continuam a fiéis ao capitão. – Disse sorridente. – Não faças essa cara, Levi. Achas mesmo que viria aqui se soubesse que vos colocava em perigo? Além disso, o Irvin anda a seguir sobretudo conselhos do Armin que nos tem levado longe e para terras com bastantes recursos. É bem inteligente.
Ouvir o nome do meu amigo significava que ele continuava vivo e pelos vistos, a ser bem-sucedido como sempre imaginei.
- Ele está bem? – Perguntei.
- Claro, está ótimo. Podes dizer que é quase o braço direito do Irvin e por isso, não há qualquer hipótese de ele dar indicações para explorarmos esta parte da região tão desinteressante. – Hanji retirou dois envelopes debaixo da sua capa. – Uma é para ti, Eren e outra é para ti, Levi.
Reconheci a letra do Armin no envelope e sorri enquanto a Hanji pedia-me que a deixasse um pouco a sós com o Levi, pois queria trocar algumas palavras com ele. Como estava tão curioso pelo conteúdo da carta, afastei-me sem tentar argumentar com aquele pedido. Acabei por sentar-me a meio do areal, abrindo o envelope e retirando do interior uma folha de papel escrita tanto na parte da frente, como no verso.
"Olá Eren
Sei que quando esta carta chegar às tuas mãos, estarás longe destas muralhas e bem de saúde e num sítio bem melhor do que este. Tenho a certeza de que o capitão Levi te levou para um lugar onde finalmente poderás desfrutar de tudo aquilo que ainda hoje, ainda procuro. É também o meu desejo que a Humanidade partilhe desse desejo de conhecer uma realidade diferente em que não vivamos encerrados atrás de muralhas.
A Mikasa está bem. Sei que devias estar preocupado. Ela passou meses num estado depressivo em que mal falava, mas penso que acabei por conseguir convencê-la de que não havia outra escolha. Nunca entrei em detalhes sobre a verdade da vossa fuga e por isso, acho que até hoje ela culpa o capitão Levi por tudo o que aconteceu. Não vale a pena argumentar, é como se alguém precisasse de ter a culpa. Enfim, mas ela está a recuperar embora continue até hoje sozinha, apesar dos relacionamentos assumidos entre o nosso grupo.
A Sasha e o Connie casaram há três meses atrás. Foi uma cerimónia no mínimo invulgar, mas penso que animou o romantismo entre o Reiner e o Bertholdt e também entre a Christa e a Ymir. Estas duas andaram a tentar que a Annie visse algum encanto na Mikasa, mas acho que é algo demasiado improvável. Acho que como está tudo em casais, sentem a necessidade de incluí-las embora nenhuma das duas mostre qualquer tipo de interesse em romance.
Devo dizer que apesar de ultimamente estar envolvido nas estratégias e planeamentos de expedições, não descuidei a minha vida amorosa e queria ter tido a oportunidade de contar-te pessoalmente. Sei que vais ter um choque e espero que não comeces a praguejar aos céus, mas a verdade é esta: eu e o Jean estamos juntos".
Nesse momento, acho que o meu cérebro parou por alguns segundos. Depois da antecipação, dado que estava a roer-me de curiosidade por saber quem seria essa pessoa misteriosa na vida amorosa do meu melhor amigo… aquela relevação era a última coisa que esperava dele.
- Ele enlouqueceu de vez! – Berrei com a carta nas mãos.
Jean! O Jean! De todas as pessoas à face da terra, logo ele?! Ainda inconformado com aquela revelação, continuei a ler:
"Espero que já tenhas gritado o suficiente sozinho, depois dessa revelação. Espero também que encontres em ti, a capacidade de aceitar isso porque mesmo que nunca mais nos vejamos, gostava ao menos de pensar que o meu melhor amigo aceita a pessoa que amo. Até porque sejamos sinceros, não me ouvias a criticar o Levi embora na minha modesta opinião, não consiga entender como te interessaste por ele. São gostos e esses não se discutem, por isso em vez de criticar que tal aceitarmos a escolha que cada um de nós fez? Assim, não precisarás de pensar no Jean como alguém insuportável e eu não terei que pensar no capitão Levi como um pervertido sádico.
Independentemente de tudo isto, quero que saibas que prefiro que estejas longe daqui porque isso significa provavelmente que conheceste o oceano. A Hanji disse-me que o capitão Levi encontrou o mar por mero acaso enquanto estava perdido e que era esse lugar para onde ele pensava ir contigo. Espero sinceramente que tenham conseguido e que sejas muito feliz, Eren.
Desfruta desse vida que te deram a oportunidade de viver.
Não te preocupes connosco. Cada um de nós está a dar o seu melhor e não temos arrependimentos, desde que saibamos que demos o nosso melhor todos os dias.
Não penses no que poderia ter sido ou no que poderia ter acontecido, vive o presente e ambiciona por um futuro sempre ao lado de quem te faz feliz.
Mesmo que os nossos caminhos nunca mais se cruzem, é só isso que te desejo: que sejas feliz.
Do amigo que nunca te vai esquecer
Armin".
_*_Levi_* _
Chamei-a para o interior da casa perdida no areal enquanto lia as palavras que tinham uma caligrafia conhecida. A Petra contava detalhadamente como estava a situação atual dos Recon Corps, os avanços e recuos, a capacidade do Irvin em manter todos unidos pelos mesmos objetivos. As perdas e as vitórias. Era bom saber que continuavam vivos e mais próximos de atingir os objetivos.
- Demorou muito para acordar? – Perguntou Hanji já sentada na mesa à minha frente.
Sabia que estava curiosa sobre a recuperação do Eren e por isso, acabei por contar-lhe o que tinha acontecido depois de fugirmos naquela noite. O período que demorou a acordar e também o tempo que tardou até estar totalmente recuperado. Ela estava a comentar o quanto tudo era fascinante quando ouvi o Eren elevar a voz no exterior e depois de trocar um olhar confuso com a Hanji, ela riu e disse:
- Ah, ele deve ter acabado de ler a parte em que o Armin admite que está com o Jean.
- Não sei porquê o espanto. – Comentei. – Já lhe tinha dito desde do início que o amigo dele também pertencia à outra equipa.
Hanji riu novamente e regressou ao seu assunto favorito do momento, o Eren.
- Conta-me mais sobre uma coisa. Depois de ele ter acordado, voltou a dormir durante tanto tempo?
- Não. Nem me lembres de quantas noites fiquei a pensar nessa hipótese. Acho que fiquei atormentado com essa ideia durante meses, até convencer-me de que estava tudo bem.
Quando me apercebi do que tinha acabado de dizer já era tarde, ela apenas sorria.
- O que o amor não fez contigo. Ficares assim tanto tempo preocupado. – Levantou-se da cadeira. – Vou chamá-lo.
- Hanji se lhe disseres uma só palavra disto. Vou decapitar-te aqui mesmo.
- Não te preocupes. Quero ouvir a versão dele, apenas isso. – Abriu a porta e chamou-o. Mal entrou dentro de casa, Hanji pediu que se sentasse e ele logo percebeu que iria ser torturado com dezenas de perguntas que procurou responder o melhor que podia.
- Duas vezes. – Respondeu pensativo. – Na primeira quis bloquear e destruir a gruta que dá acesso a esta zona. O Levi tinha falado disso, mas não queria que usasse a minha transformação para isso.
- E como te sentiste depois?
- Exausto. Fez-me lembrar a primeira vez que me transformei, embora não tenha perdido a consciência. – Olhou para mim. – A segunda vez … a culpa é dele. Eu tinha a situação controlada.
- Claro. – Disse num tom irónico. – Completamente controlado. Este idiota tentou atacar um urso com o dobro do tamanho dele sem qualquer arma nas mãos. O quão idiota alguém precisa de ser para se lembrar de uma coisa dessas?
Flashback
Há três dias que estavam a vaguear pela floresta. Levi já conseguia orientar-se bem pela ilha, mas podia ver como o mesmo não acontecia com o Eren que se distraía facilmente com alguma coisa e consequentemente, esquecia-se de tentar memorizar o caminho que estava a seguir.
Contudo, mais do que treinar o sentido de orientação, o objetivo do capitão era ver se o rapaz conseguia encontrar comida com facilidade. Ensinara-o a fazer isso nos tempos em que tinham estado na montanha, mas parece que mesmo o básico mostrava-se quase impossível para Eren que só conseguia recolher mais facilmente a fruta, mas à exceção de um pássaro ou outro, os coelhos por exemplo ficavam sempre fora do seu alcance. Levi estabeleceu a regra de que quem apanhasse primeiro o animal, era quem tinha direito de ficar com ele e por isso, o capitão acabava sempre por ser mais veloz e apanhar os coelhos mesmo que Eren os avistasse primeiro.
- Não é justo. Tens comido carne desde que chegámos.
- Eu avisei-te. – Respondeu o capitão, caminhando à frente do rapaz que passava a mão nos próprios cabelos desalinhando-os ainda mais.
- E por causa disso vou continuar a passar fome? Não estás a ser justo. Os dois últimos coelhos que apanhaste eram meus por direito.
- Ah sim? Não fui eu que tropecei nos próprios pés.
- Da última vez, fizeste-me uma rasteira. – Apontou Eren com um ar cada vez menos animado com aquele treino.
- E fui bem-sucedido, o que significa que não estás rápido ou atento o suficiente.
- Vou morrer à fome, Levi.
- Tens comido fruta. A mim, pareces-me bem.
- Tenho fome. Preciso de carne. Preciso de alimentar-me bem! – Disse cada vez mais irritado com a indiferença do homem que caminhava à sua frente sem sequer olhar para ele.
- Em vez de falares tant… - Viu Eren passar à sua frente a correr e decidiu não tentar impedi-lo ou atrapalhá-lo. Convenceu-se a si mesmo que seria melhor, deixá-lo caçar alguma coisa antes que caísse para o lado de tanta fome.
Porém, assim que ouviu um grunhido, percebeu que aquilo que o rapaz ia tentar capturar não era um coelho. Era um outro animal e de maiores dimensões a julgar pelo barulho que ouviu e repentinamente, ouviu a voz de Eren que o fez deixar cair o que levava nas mãos e empunhando apenas um punhal que levava, correu na direção de onde provinham os sons.
Assim que avistou o que se passava, viu um urso de grandes dimensões que tinha acabado de derrubar o rapaz de olhos verdes no chão que segurava as patas do animal. Aquela força fora do comum só podia significar uma coisa e isso tornou-se evidente, ao ver vapor escapar da boca de Eren à medida que forçava o animal a afastar-se.
"Quem no seu perfeito juízo se atiraria a um urso? Eu realmente estou acompanhado de um idi…", os pensamentos foram interrompidos quando uma imensa nuvem de vapor espalhou-se no local. A visibilidade ficou bem reduzida e antes que o capitão conseguisse ver onde estava o urso, viu este ser atirado para uma árvore mesmo ao seu lado. O animal caiu no chão imóvel, pois provavelmente o golpe e o impacto teriam destroçado alguns dos ossos do urso.
Fim do Flashback
- Comemos bem durante dias. – Disse Eren, cruzando os braços com um ar emburrado.
- Sim, tu é que não te aguentavas nas pernas nos dias que se seguiram, mas tirando isso esteve tudo bem. – Ironizou Levi.
- E desde então nunca mais tentaste outra vez? – Quis saber Hanji, mantendo um sorriso divertido ao ver a interação dos dois.
- Não, o Levi proibiu-me de voltar a transformar-me. Diz que nem que o mundo esteja a acabar. Já lhe disse que está a exagerar, mas não é possível argumentar com alguém que pensa que está sempre certo.
- Estou a exagerar? – Indagou o capitão. – Fala a pessoa que consegue escorregar de uma cascata, tentou apanhar uma cobra venenosa, quase comeu bagas podres, teve a brilhante ideia de escalar uma falésia quando mal conseguia andar, entre tantas outras… nem sei qual é a pior, mas acho que atacar um urso de mãos vazias foi sem dúvida a melhor. Não tens a mínima noção de perigo. Pensas que podes resolver tudo com força de vontade.
- Continuas a tratar-me como criança.
- Continuas a comportar-te como uma.
- E contem-me coisas sobre a ilha onde estão a viver. Eren, dás-me a tua mão?
Mesmo sem perceber a que propósito vinha aquele pedido, ele estendeu a mão e Hanji também pediu a de Levi, mas este ignorou completamente e limitou-se a falar um pouco do sítio onde viviam. Claro que embora a mulher parecesse satisfeita com essa conversa, continuava a acariciar a mão de Eren, sorrindo daquele modo que os dois podiam classificar de perturbador. A certa altura, deixando a mão do rapaz pegou num pequeno saquinho que trazia dentro de um dos bolsos. Entregou a Levi que espreitou desconfiado para o conteúdo e em seguida, atirou para o chão. O som de algo metálico a cair no chão soou e Eren curioso, levantou-se enquanto pedia desculpa a Hanji pela brusquidão do capitão, pois se bem tinha percebido, aquilo era um presente.
- O que te deu para trazeres uma coisa dessas? – Perguntou Levi.
- Ora, mas é o meu presente. Afinal, estão juntos e é normal que tenham um símbolo do vosso amor. – Disse Hanji que sentiu um golpe na sua canela. – O que vos devo chamar? Namorados? É pouco. Companheiros? Mari… - Recebeu outro golpe na mesma canela.
Levi notou a reação de Eren que parecia observar os objetos que entretanto tinha apanhado do chão. Podia ver o seu rosto corado e a certa altura, pressentindo que estava a ser observado, guardou os anéis dentro do saquinho e forçou um sorriso.
- Não era preciso, Hanji. – Disse o rapaz, coçando um pouco a sua nuca.
- Claro que não. Nunca na minha vida, usaria algo assim. Nem mesmo pelo, Eren.
O rapaz manteve o sorriso fraco e Hanji não insistiu mais no assunto, embora tenha pedido para que pelo menos guardassem o presente. A conversa entre os três passou sobretudo pela nostalgia de coisas que tinham acontecido e serviu para aliviar o clima incómodo que tinha ficado antes. A certa altura, a mulher ajeitou os óculos e levantou-se em seguida, dizendo que infelizmente já tinha ficado demasiado tempo e precisava regressar antes que dessem pela sua ausência.
- Achas que vais poder voltar, Hanji?
- É provável que não, até porque não há como saber quando vão estar aqui ou na ilha e eu não posso demorar assim tanto. – Passou a mão no rosto do rapaz. – Vou sentir a tua falta, Eren mas vou voltar muito mais feliz por ver que estás bem.
A despedida não demorou muito mais e Levi foi o único a não demonstrar muito interesse com a possibilidade de não ver a colega novamente. Também não se preocupou em abraçá-la ao contrário de Eren e no fim, apenas o rapaz parecia triste com a partida dela.
- Tch, se vais ficar assim, mais valia ela nem ter vindo cá. Ao menos não ficaste contente por receberes novidades dos teus amigos?
- Sim… tens razão. – Concordou, continuando a comer a refeição que tinha à sua frente.
À noite, já deitados na cama e ao contrário do que era o normal, Eren deitou-se para o lado oposto e até acabou por adormecer primeiro. Levi entendia que as saudades dos amigos deveriam ser em parte responsáveis por aquele ar mais triste, mas esperava sinceramente que nada daquilo tivesse alguma coisa a ver também com o presente da Hanji.
"Tch, aquela mulher só me traz problemas. Coisas em que tenho evitado pensar e não é que tenha vergonha de ter um relacionamento com este pirralho, mas usar um anel? Quem precisa de uma coisa dessas? Aliás, quem inventou uma coisa dessas? Quero enfiar essa pessoa e a Hanji num buraco e enterrá-los vivos. Tch, como se já não tivesse reparado que fica todo sem jeito quando nos perguntam que tipo de relação é que temos, mas como nunca deu uma resposta decente, também limitei-me a fazer o mesmo. Fi-lo para incentivá-lo a confrontar-me com o assunto, o que seria algo habitual, mas em vez disso, calou-se e ficou a deprimir-se sozinho por coisas sem sentido", Levi olhou para o rapaz que dormia profundamente, "Será que ainda tem algum tipo de dúvida? Será que preciso mesmo dizer-lhe que a partir do momento em que ele disse que me pertencia, isso significava também que eu também lhe pertencia? Argh… odiava esse tipo de conversa, mas se isso o deixasse feliz lá teria que lhe dizer e aproveitar para tentar convencê-lo a esquecer o presente da Hanji porque não precisava de qualquer tipo de objeto para comprovar o que sentia por ele".
Suspirou e estendeu a mão até tocar nos cabelos de Eren que se mexeu um pouco e acabou por virar-se para ele, ainda adormecido.
- Levi… - Murmurou durante o sono.
- Não consigo dormir contigo a dizer o meu nome dessa forma… - Sussurrou, aproximando a sua boca dos lábios Eren. Apesar do sono pesado do rapaz, este sentiu um arrepio pelo corpo assim que Levi encostou a sua boca à sua e por isso, entreabriu os olhos ligeiramente. Logo voltou a fechá-los, deixando que o capitão aprofundasse um pouco mais o beijo que nunca falhava em retirar o fôlego de ambos por ser sempre tão longo e intenso.
- Levi…
- Diz-me a verdade, Eren. – Disse, mantendo-se a pouca distância do rosto do rapaz que o encarava sem desviar o olhar. – Estás assim porque sentes saudades dos teus amigos ou há mais alguma coisa que eu deva saber?
- Bem… - Começou, procurando as palavras certas. – É sobretudo saudades, mas não tenho arrependimentos. O Armin apenas pediu que fosse feliz e espero que ele e todos os meus amigos também o sejam. Acho que fiquei a pensar demasiado no passado.
- É por isso que mal falaste comigo depois que a Hanji foi embora?
- Acho que é normal que sinta saudades, mas acima de tudo, sou muito feliz aqui contigo e tive… medo de dizer alguma coisa que pudesses interpretar mal e pensar que me arrependo de estar aqui. Não quero magoar-te com alguma estupidez que diga enquanto estou a pensar demasiado no passado.
Levi suspirou e acariciou o rosto de Eren em silêncio por alguns instantes, antes de dizer:
- Não é que também não sinta a falta de algumas pessoas, mas o que deixei para trás não é maior do que o que tenho aqui e é isso que me faz seguir em frente.
Viu uma expressão de surpresa no rosto do rapaz que agora que via que estavam naquela conversa, queria perguntar sobre outra coisa. Algo que a visita inesperada de Hanji fez com que cruzasse os seus pensamentos novamente. Algo que se recusou a pensar durante os últimos dois anos que passaram quase como um sonho que pensou nunca ser capaz de viver.
- Fiz com que deixasses toda a tua vida para trás. Cheguei a pensar se…? – O dedo indicador de Levi na sua boca, impediu que continuasse.
- Não tenho qualquer arrependimento, Eren. Não trocaria esta vida pela que vivia antes e também já me disseste o mesmo por isso, pára de pensar nestas coisas sem sentido. – O rapaz sorriu e Levi passou a mão nos seus cabelos. – Agora que estamos neste assunto da visita da Hanji… quero que esqueças aquele presente absurdo que ela nos deu. Não precisamos de nada daquilo para confirmar que… - O rapaz moveu-se rapidamente debaixo dele e acabou por levantar-se da cama.
- Não vou deitar o presente da Hanji fora! – Respondeu irritado.
- Eren não me faças perder a paciência. Dá cá isso e vem deitar-te.
- Obriga-me. – Respondeu Eren num tom desafiante que fez Levi arquear uma sobrancelha e observá-lo em silêncio durante alguns segundos, esperando que o efeito daquelas palavras finalmente alcançasse o cérebro do adolescente à sua frente. Isso aconteceu no momento em que o capitão começou a movimentar-se para sair da cama. Para surpresa deste, o tom e postura desafiadora deram lugar a uma corrida de Eren que percorreu a casa a correr e saiu antes que Levi colocasse o segundo pé no chão.
- Tch, o que o faz pensar que pode fugir de mim? – Deixou escapar um sorriso irónico. – Oh Eren, não imaginas o que acabaste de provocar. Vou caçar-te como um animal e castigar-te como um…
Apesar de estar consciente que perderia uma noite tranquila de sono, Levi sentia-se francamente energizado com a ideia de perseguir Eren durante a noite e claro, acabar por puni-lo por obrigá-lo a uma coisa daquelas. Se bem que tinha que admitir para si mesmo que por vezes, gostava que ele o desafiasse daquela forma. Nem que fosse apenas para ter o prazer de demonstrar mais uma vez quem estava no comando. Havia algo que o homem de cabelos negros nunca perderia e esse era o gosto de saber que se quisesse, podia facilmente dominar os outros. Claro que o alvo preferido era o Eren.
"Mas preciso mesmo de arrancar-lhe aqueles anéis e fazê-los desaparecer da face da Terra! Tch, o que se passa com este miúdo que não se contenta com as coisas embaraçosas que me faz dizer ou fazer? Que não venha outra vez com a conversa de que sou frio no que diz respeito, a coisas argh, românticas porque vou lembrá-lo de quantas vezes já fiz ou disse coisas que nada têm a ver comigo. Eu definitivamente, devo ter enlouquecido…sujeitar-me a coisas destas por causa de um miúdo".
-X-
Ainda não comecei a escrever o próximo capítulo por causa da minha falta de tempo :x
Tenho ideias por isso, a falta de inspiração não é um problema. Mesmo assim, tenho que avisar que a menos que me lembre de mais alguma coisa extraordinária para acrescentar, provavelmente estou finalmente a alcançar o final da história *
Até ao próximo capítulo **
P.S – Como estou perto do final desta fanfic, não queria terminar sem antes saber se alguém gostaria de ver alguma coisa em específico nesta história. Há alguma coisa que gostassem que o casal desta história fizesse? Ou mesmo sobre outra personagem, também poderia tentar escrever qualquer coisa.
