Disclaimer: Harry Potter não me pertence e tudo que vocês reconhecem pertence a J.K. Rowling.

Chapter Twenty Five – An issue of Trust

A porta do retrato se fechou atrás de Draco, o som ecoando pela sala. Damien observou assustado Harry virar para encará-los. Um olhar feroz dirigido a todos eles. Normalmente, os olhares do irmão não o afetavam, mas hoje lhe causou arrepios de medo.

- Harry, cara, eu… - começou Ron, mas foi cortado quando o moreno ergueu a mão para silenciá-lo.

- Vocês sabiam? – perguntou ele sem rodeios.

Damien estremeceu quando a raiva e a mágoa na voz fez seu cabelo ficar em pé.

- Nós... nós íamos te contar... – Hermione começou a explicar.

- Quando? Quando planejavam me contar? – perguntou Harry, as palavras saindo entre dentes cerrados. Hermione baixou a cabeça com vergonha. Com grande esforço, ela ergueu os olhos e o encarou, tentando explicar de novo.

- A gente sabia que você ia ficar com raiva, mas…

- Mas decidiram esconder de mim mesmo assim! – concluiu Harry por ela.

O rapaz deu um passo na direção deles, os punhos cerrados. Os quatros deram um inconsciente passo para trás, para longe dele. Todos os olhos fixos nele, prontos para se jogarem para fora do caminho se ele decidisse atacar.

Mas Harry só ficou diante deles, exigindo uma explicação. Hermione foi quem mais falou, com Ron entrando em alguns pontos. Damien e Ginny ficaram calados. Não proferiram uma só palavra. O menino não achava que seria capaz de falar, devido ao grande caroço que se formou na sua garganta. Seus olhos estavam fixos no irmão, ficando cada vez mais preocupado já que a explicação dos amigos estava deixando o rapaz mais zangado. Desejou que eles parassem de falar.

- ... então, pensamos que quando pegássemos o responsável, contaríamos tudo a você, para que pudesse lidar com ele – terminou Hermione sem fôlego.

Por um momento, Harry não falou, sequer se mexeu. Por um segundo fugaz, Damien achou que talvez o irmão fosse perdoá-los, que fosse entender o motivo. Não tinham escondido para machucá-lo. Só estavam tentando ajudar. Mas seus pensamentos e orações silenciosas foram destruídos quando o rapaz olhou para eles com nada além de fúria.

- Em que ponto, no meu entorpecimento, entreguei os direitos da minha vida a vocês?! – perguntou furioso, direcionando a pergunta a Hermione.

- Você... você não entregou. Eu... nós só estávamos tentando… ajudar… - começou a garota, com a voz trêmula.

- Ajudar? E qual a utilidade disso? Vocês mentiram para mim, esconderam que alguém estava tentando me prejudicar, sentaram aí e me assistiram sofrer e pensar que era eu quem estava realizando os ataques e, ainda por cima, tiveram a audácia de acusar Draco!

Hermione olhou incisivamente para Ron quando o sonserino foi mencionado, mas não disse nada.

- Eu sinto muito, Harry – disse ela.

- Me poupe! Suas desculpas são inúteis! – retrucou Harry.

- Vamos, Harry. Nós não somos seus inimigos. Somos seus amigos. Tudo que fizemos foi por você – disse Ron, falando quando Hermione desviou o olhar com lágrimas nos olhos.

- Não acho que amigos devam mentir uns para os outros – disse o rapaz venenosamente.

Seus olhos dispararam para Damien e Ginny, que estavam por trás de Ron. Ambos se encolheram com o olhar gélido. O menino esquecera o quanto aqueles olhares frios podiam machucar.

- E você! – vociferou para Damien. – Eu esperava que meu próprio irmão se importasse o bastante para me dizer a verdade!

O menino queria dizer que quis falar a verdade. Queria dizer o quanto odiou esconder isso dele. Mas sua voz faltou. As palavras ficaram presas na garganta. Sabia que não faria diferença para Harry. O fato era que ele, seu próprio irmão, mentira e escondera algo tão importante dele. Tinha ficado parado, observando-o se rasgar de culpa pelos ataques. Podia ter evitado isso se tivesse contado o que descobriram. Mas não contou. Não fez o que seu coração e sua mente mandaram. Em vez disso, seguiu o que os outros disseram, e agora era tão culpado quanto eles.

Harry olhou para Ginny, e, pela primeira vez desde que aquela conversa começou, sua expressão mudou de raiva para mágoa. Ele a encarou, a pessoa na qual ele tinha absoluta confiança. A pessoa que permitira ficar tão próxima dele. A pessoa que ficou parada e o assistiu sofrer.

Ele não disse nada a ela. Desviou os olhos, sua raiva voltando quase dez vezes pior. A ruiva sentiu o coração partir com a forma que ele a olhou.

- Eu queria te contar, Harry. Queria sim. Eu nunca quis compactuar com isso! – disse Ginny em voz baixa, desesperada para que ele entendesse.

Ele não reagiu. Ele sequer olhou para ela.

- Ela está certa, Harry. Ginny e Damien queriam te contar, mas eu pedi para não contarem – disse Hermione, sem querer que ele ficasse com raiva do irmão e da namorada. Era melhor que ela e Ron levassem toda a ira. Na verdade, a ideia foi deles.

- E desde quando eles precisam da sua permissão para falar a verdade? – vociferou Harry para ela.

- Harry! Eu sinto muito! Eu não sei mais o que dizer! – disse Hermione, lágrimas rolando por seu rosto.

- É, nós te dissemos, nunca quisemos que você se machucasse. Na verdade, estávamos tentando te proteger... – explicou Ron.

O ruivo parou de falar abruptamente quando os olhos de Harry escureceram um pouco. A temperatura na sala caiu. Damien podia sentir arrepios por todo corpo. Harry nunca olhara para eles com tanto ódio.

- Eu não preciso que ninguém me proteja! – sibilou para Ron, seus olhos escurecendo perigosamente. – Eu não preciso da ajuda ou proteção de ninguém! Eu não sou fraco! – bradou com raiva.

- Eu sei disso. Eu só quis... – começou o ruivo.

- Cala a boca, Ron! – interrompeu Harry. – Eu sei o que está fazendo. Está tentando inventar desculpas para encobrir o fato de que mentiu para mim e me manteve no escuro! – disse ele, sua voz aumentado a cada palavra.

- Não, isso não é verdade! – disse Hermione, seu rosto molhado de lágrimas agora.

- Vocês quatro, acima de todos, deveriam saber o quanto eu odeio ser enganado!

O rapaz estava com tanta raiva agora, que seus olhos estavam verde escuro e os dedos brancos, já que os punhos estavam cerrados com força. Andava na direção deles, os olhos prendendo os outros no chão.

- Harry! – disse Ginny com medo, mas ele não a ouviu.

- Eu nunca pensei que me tratariam assim! Esconder algo tão importante de mim, algo que podia ter me matado! Será que me odeiam tanto assim que queriam me ver morto?

- Não! Não, Harry! Não te odiamos de forma alguma…! – disse Hermione, balançando a cabeça.

- Então, por que fizeram isso?! Por que mentiram? – urrou ele de fúria.

- Harry, por favor... – Damien estava realmente com medo do irmão. O rapaz se virou para encará-lo, os olhos brilhando de raiva e, então, aconteceu.

Os olhos dele ficaram pretos.

O poço negro sem fundo no qual costumavam se transformar pouco antes de uma das Horcruxes de Voldemort ser destruída. Talvez tenha sido instinto, mas que qualquer coisa, que os salvou. Todos quatro viram seus olhos mudando e sabiam o que estava prestes a acontecer. Gritaram e se abaixaram quando as janelas atrás deles quebraram em uma poderosa explosão. Os cacos de vidro choveram sobre eles, cortando as mãos e os braços, que cobriam suas cabeças.

Tremendo dos pés à cabeça, Damien cautelosamente tirou as mãos da cabeça, fazendo careta ao sentir os cortes arderem. Viu os outros fazerem o mesmo. Não podia acreditar no que acabara de acontecer. Sua mão encontrou a varinha e estava a meio caminho de puxá-la do bolso quando percebeu o que estava fazendo. Levantou os olhos e viu Harry ainda em pé onde estivera.

Seus olhos tinham voltado à cor normal, mas o verde intenso não era mais reconfortante que o preto. O rapaz olhou friamente para eles, sem mostrar qualquer remorso pelo que fizera. Ainda havia cacos de vidros nos cabelos deles, e suas mãos e braços estavam sangrando por conta dos pequenos cortes.

O som dos vidros quebrando acordou toda a Grifinória. Os alunos do sexto e sétimo anos desceram correndo, segurando as varinhas, achando que tinha acontecido algum tipo de ataque. O que encontraram foi quatro grifinórios sentados no chão, cacos de vidro os rodeando, com Harry diante deles, sem lhes oferecer qualquer ajuda.

- Caramba! O que está acontecendo? – perguntou Dean ao parar ao pé da escada.

O garoto deu um involuntário passo para trás quando viu o olhar de Harry. De repente, a sala comunal foi preenchida por um silêncio mortal. Tornou-se muito claro o que acontecera. A forma que o rapaz olhava para os quatro tornou evidente quem fizera as janelas quebrarem.

Antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, o buraco do retrato se abriu e a Professora McGonagall entrou correndo, segurando a varinha. Ela deu uma olhada na cena à sua frente e seu rosto perdeu a cor de repente. Viu os quatro adolescentes no fundo da sala, as janelas quebradas e vidros para todo lado. Notou de imediato que Damien estava machucado, o sangue escorria de suas mãos e braços. Cacos de vidro brilhavam em seus cabelos. Ron, Hermione e Ginny estavam em estado semelhante. Havia alguns alunos nas escadas, observando tudo atentamente.

- O que... o que está acontecendo aqui!? – ela exigiu saber.

Ron ajudara Hermione e Ginny a se levantarem. Damien se colocou dolorosamente de pé também. Todos os olhos estavam em Harry, observando-o, esperando que oferecesse algum tipo de explicação. Mas ele não disse nada. Em vez disso, virou-se e caminhou em direção à porta. Antes que pudesse alcançá-la, a Professora McGonagall se colocou no caminho, bloqueando-o.

- Afaste-se – sibilou ele venenosamente.

A professora não era alguém que se assustava fácil, mas ao ouvir sua voz fria, ela visivelmente se arrepiou, recuperando-se quase que imediatamente.

- Sr. Potter, presumo que fez tudo isso? – indagou ela, erguendo a mão na direção das janelas quebradas.

O rapaz não respondeu. Damien rezava para que ele não fizesse nada com ela. Observou em um medo entorpecente quando a Professora McGonagall se recusou a sair do caminho. Os alunos assistiam à cena estranha e assustadora diante deles.

O moreno levantou a mão, sem dúvida para jogá-la para fora do caminho.

- Harry! Não! – gritou Damien.

O rapaz ignorou o grito. Seu silencioso feitiço sem varinha foi desviado por McGonagall. Ela sabia exatamente o que ele tinha intenção de fazer. Seus olhos verdes encararam a diretora da Casa em pura fúria. Ela o encarava com a mesma força, a varinha apontada para seu peito ameaçadoramente.

A Professora percebeu de repente o grande número de alunos nas escadas os observando.

- Todos vocês! Subam e voltem aos dormitórios imediatamente! – ordenou ela, a varinha ainda cuidadosamente apontada para o peito do rapaz.

Eles não precisaram ser mandados duas vezes, não por uma irada McGonagall brandindo a varinha. Os alunos subiram correndo.

- Professora McGonagall, não é como... – começou Ginny, mas foi cortada pela mulher.

- Acho que todos devem ir ao meu escritório. – Ela apontou a varinha tão perto do peito de Harry, que tocou as vestes que ele usava. – Você primeiro, Sr. Potter – disse friamente.

xxx

Os quarto grifinórios se encontravam sentados no escritório da Professora McGonagall. Eram duas horas da manhã. Ainda havia pequenos cacos de vidros cravados em suas mãos e braços. Ron e Hermione até tinham alguns na parte de trás dos ombros. Mas eles não pareciam incomodados com isso. Estavam sentados diante da diretora de sua Casa, tentando encontrar coragem para explicar o que acontecera. Harry estava em pé diante da Professora. Ela tentara fazê-lo se sentar em uma das cadeiras, mas o jovem recusou, mesmo com a varinha apontada para ele.

Antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, as portas do escritório se abriram e James e Lily entraram correndo, parecendo extremamente zangados.

- O que está acontecendo, Minerva? – perguntou o auror quando viu a cena.

- Estou prestes a fazer ao seu filho a mesma pergunta – respondeu ela.

James e Lily olharam para o rapaz, que agora estava com sua usual máscara de indiferença no lugar.

- Harry? – perguntou a mãe, indo em sua direção e parando ao ver os machucados nos outros quatro. – Merlin! O que aconteceu? Damien, você está ferido! O que está acontecendo? – indagou.

McGonagall calmamente explicou o que aconteceu quando entrou na sala comunal. Seu alarme disparara, alertando-a que algo acontecera no salão comunal da Grifinória. Sendo diretora da Casa, dirigiu-se imediatamente para ver o que o fizera disparar. Explicou o que encontrou e como Harry tentara usar um feitiço contra ela. James e Lily ficaram mudos, e olharam incrédulos para o rapaz.

Enquanto isso, os quatro grifinórios sentiram a situação sair do controle. Tinham que explicar o que realmente acontecera. Por que Harry fez o que fez. De maneira alguma iam deixar o rapaz ser culpado por isso.

Assim que a Professora terminou, Hermione se adiantou, antes que James e Lily pudessem começar a ralhar com o filho mais velho.

- Professora McGonagall, temos que explicar uma coisa à senhora – disse ela com a voz trêmula.

Todos voltaram a atenção para ela, exceto Harry. Ele se levantou de imediato e dirigiu-se à porta.

O pai o bloqueou, e estava prestes a agarrá-lo para impedi-lo de sair, mas parou subitamente. Encarou o rosto do rapaz antes de se afastar para deixá-lo sair. O jovem escancarou a porta e saiu.

- James?

Lily se virou para ele, perplexa porque o esposo o deixou sair. Algo na expressão dele a fez parar. Ele parecia abalado. Como se o que tivesse visto o afetara profundamente. O auror encarou Damien.

- O que aconteceu? – perguntou sem fôlego. – O que você fez? – indagou ao filho mais novo, com um olhar que mostrava que, de alguma forma, Harry conseguira lhe dizer com os olhos o que acontecera naquela noite.

Damien não sabia como explicar, então deixou Hermione fazê-lo. Com lágrimas escorrendo pelo rosto, a jovem os contou o que acontecera. Ela não escondeu nada. Contou sobre a Poção Calmante, o que fizeram quando descobriram. Como esconderam de Harry e de todo mundo. Os quatro explicaram o que aconteceu quando o rapaz descobriu.

A Professora McGonagall sentou-se em silêncio, atordoada. Seus lábios se apertaram quando ouviu sobre como alguém estava drogando Harry e como os quatro tinham lidado com a situação. Após as explicações terminarem, eles ficaram calados, esperando os gritos começarem. Damien não suportava olhar para os pais. Ao menos cinco minutos depois foi que a Professora de Transfiguração disse alguma coisa.

- De tudo que ouvi em todos esses anos em Hogwarts, nunca ouvi falar em ninguém agindo de forma tão idiota quanto vocês quatro!

Os adolescentes baixaram as cabeças em vergonha.

- Por que, em nome de Merlin, não avisaram a alguma autoridade que alguém estava ameaçando o Sr. Potter? Como puderam não alertar pelo menos os Professores Potter? Eles deviam ter sido informados assim que descobriram! – continuou ela.

Os quatro não tinham qualquer resposta para as perguntas. Ficaram em silêncio, as cabeças baixas, aceitando as palavras duras. Damien arriscou um olhar para os pais. Ambos estavam bastante pálidos, olhando para o chão, como que com medo de olhar para os adolescentes e perderem a calma. Sem dizer uma única palavra a eles, os dois deixaram a sala, evidentemente indo encontrar Harry.

O quartanista olhou miseravelmente para as mãos ensanguentadas. Não queria pensar em como seria encarar a família novamente. O que podia dizer para tornar as coisas melhores?

Após McGonagall terminar de repreendê-los, ela os enviou à ala hospitalar para tratar das pequenas feridas.

- Vocês têm sorte! Os ferimentos poderiam ter sido muito piores! – disse ela enquanto saíam.

"Não podia ser pior!" pensou Damien ao andar ao lado dos outros. Não estava pensando nos machucados físicos, mas no dano emocional causado a Harry.

xxx

Madame Pomfrey parecia perplexa ao receber quatro pacientes nas primeiras horas da manhã, mas não disse nada. Tratou dos ferimentos, arqueando as sobrancelhas ao avistar os cortes nas mãos e braços, mas não fez nenhuma pergunta. Damien ficou feliz. Não queria contar a ela o que fizeram.

- Nunca pensei que fosse vê-lo em minha enfermaria – disse ao menino, enquanto fechava os corte em suas mãos. O quartanista levantou a cabeça para olhá-la nos olhos.

- Quê? – perguntou, pego de surpresa.

- Pensei que nenhum aluno jamais ousaria machucá-lo, que teriam muito medo de Harry – disse ela, com um olhar que podia ser descrito como orgulho.

Damien sentiu uma turbilhão de lágrimas atacá-lo. Desviou os olhos da enfermeira, afastando as lágrimas. Ela estava certa. Seu irmão era muito protetor com ele, e todos sabiam. Ninguém jamais ousaria tentar machucá-lo. Sabiam que Harry não toleraria isso. O menino sentiu-se afundar em autoaversão e vergonha. Como pôde ter maltratado o irmão assim? Como pôde mentir e esconder as coisas dele? Como pôde deliberadamente machucá-lo, quando tudo que ele sempre fez foi cuidar dele e protegê-lo?

O quartanista estendeu a mão para a Layhoo Jisteen que ainda estava em seu pescoço. Puxou o pingente e olhou a pedra negra, observando a névoa verde girar em torno dela. A névoa verde que deveria tê-lo matado. A maldição da morte que Voldemort lançara nele tinha sido engolida pela pedra, por esse pingente. O pingente que o irmão arriscara a vida literalmente para lhe entregar. Damien jamais esqueceria a forma que o irmão fora torturado, a raiva que Voldemort mostrara com a revelação de que Harry conectara o pingente ao garoto.

Finalmente desabou e chorou. Deixando as lágrimas caírem rápido agora que as permitiu. Era um irmão horrível. Brincara com a confiança de Harry. Por que escutara os outros? Não devia ter feito o que eles queriam. Harry não escutara Voldemort. Se assim fosse, jamais teria dado o pingente a ele. Ele arriscara tudo para ajudá-lo e o que fez em troca? Ficou parado, deixando que fosse prejudicado.

Poppy encarava o garoto choroso com preocupação. O que aconteceu? Tentou confortá-lo da melhor forma possível, mas nada que dissesse ou fizesse fazia diferença. A mulher se afastou quando Hermione e Ginny, seguidas por Ron, se aproximaram e o abraçaram, sussurrando palavras em seus ouvidos. A enfermeira se perguntou o que estava acontecendo. Virou-se para pegar um tônico calmante quando percebeu a porta abrir e duas pessoas entrarem na ala.

Damien ergueu os olhos quando as portas da enfermaria se abriram. Os soluços ficaram presos na garganta quando viu a mãe e o pai. Ambos estavam lívidos.

Hermione e Ron se afastaram para permitir que os pais se aproximassem do garoto. Ginny continuou apertando firmemente sua mão, observando o casal se aproximar depressa deles. Assim que os dois se aproximaram da cama, suas expressões suavizaram. O rosto encharcado de lágrimas do filho derreteu sua raiva. O menino não conseguia encontrar o que dizer, olhando envergonhado para os pais. Lily não pôde mais aguentar e se adiantou, segurando-o em seus braços e o abraçando com força. Damien não conseguiu conter as lágrimas.

Sentiu James colocar uma mão em suas costas, confortando-o sem dizer nada. O adolescente olhou para eles.

- Eu sinto muito – conseguiu dizer entre os soluços.

- Shi, falaremos sobre isso depois. – Lily esfregou suas costas.

Embora suas palavras tenham sido ditas com suavidade, o menino pôde ouvir a raiva e decepção em sua voz. Tanto ela quanto seu pai estavam muito zangados com ele.

Damien se acalmou, desejando conter as lágrimas. Não sabia por que não conseguia pará-las. Sentiu-se muito infantil e idiota, sentando ali na cama, chorando nos braços da mãe. Era culpa sua. Tudo isso era culpa sua, então por que estava recebendo a compaixão dos pais? Afastou-se da mãe e esfregou as lágrimas.

- Vamos – disse Lily gentilmente, incitando o filho a se levantar.

Assim que ele estava de pé, James rumou em direção à porta. Viu os outros três em pé sem jeito, e teve que conter a raiva ao passar pelos adolescentes. Não queria dizer nada a eles. Sabia que se arrependeria se o fizesse.

Eles saíram da ala hospitalar, deixando os outros três com uma enfermeira confusa. Damien andou em silêncio, os pés parecendo estranhamente pesados, difíceis de mover. A mente cheia com tudo que acontecera. Resistindo à vontade de chorar, o menino conteve as lágrimas e continuou a andar pelos corredores desertos.

Ficou surpreso ao se ver diante do retrato da Mulher Gorda. Olhou para os pais. Achou que estava indo aos aposentos deles para uma longa e desconfortável conversa.

- Vá para a cama, Damy. Conversamos pela manhã – explicou Lily.

- Harry? Vocês... vocês o encontraram? – perguntou em voz baixa.

- Sim, encontramos. Agora vá para a cama – disse Lily também em voz baixa.

Ele entrou, sem ousar olhar para as janelas ainda quebradas em seu trajeto até as escadas.

xxx

Damien não conseguia dormir, se virando e se debatendo a noite toda. Os acontecimentos desastrosos da noite passando em sua cabeça repetidamente. Nunca pensara que isso acabaria tão mal. Sabia que Harry ficaria bravo, sabia que gritaria e berraria com eles. Mas nunca pensara que ficaria tão furioso. Tentou esquecer a forma que o irmão olhara para ele. A forma que seus olhos transmitiram fúria e mágoa. Olhara para todos com nada além de puro ódio. Aquilo talvez fosse a coisa mais difícil de aceitar: que, no momento, ele odiava todos eles.

Sua mãe e seu pai estavam furiosos também. Não tinham dito nada ainda. O escoltaram até o dormitório, dizendo-lhe que dormisse e que falariam com ele mais tarde. Recusaram-se a dizer mais alguma coisa. O menino sabia que só tiveram pena dele porque estava chorando, que se sentiriam culpados por repreendê-lo quando já estava aos prantos.

Finalmente desistiu de dormir e se levantou. Sabia que a manhã traria mais tormento. Todos os grifinórios mais velhos sabiam sobre as janelas quebradas e os quatro sentados em meio aos cacos de vidro, as mãos e braços cobertos de cortes. O que aconteceu entre Harry e a Professora McGonagall certamente estava se espalhando pelo castelo. Na manhã do dia seguinte, a escola inteira descobriria o que acontecera. Eles tinham estragado tudo completamente. Quem quer que fosse o traidor, descobriria que Harry sabia sobre a Poção Calmante. Tinham perdido. Agora não havia como descobrir quem era o traidor.

Damien entrou na sala comunal, envolvendo os braços ao redor do corpo para se impedir de tremer. Parou quando viu Ginny sentada ao lado da janela consertada, olhando para os terrenos. Então ele não era o único que não conseguia dormir. Sabia que Ron e Hermione deviam estar acordados também, deitados na cama, pensando nos eventos da noite.

O menino adentrou a sala comunal, tirando a ruiva do seu estupor. Ela olhou para ele, seu rosto completamente sem cor. Damien sentou-se ao lado dela, sem saber o que dizer. Sabia o que a amiga devia estar sentindo. Ela não queria esconder nada de Harry. Tinha reclamado desde o início, mas ninguém a escutara. Agora, ela o perdera. Ele estava tão zangado com ela, o quartanista estremeceu ao se lembrar do gélido olhar furioso que dirigiu a ela.

- Não posso acreditar que isso aconteceu.

Damien não a encarou, mas assentiu lentamente.

- Eu sei – sussurrou ele.

- Não vai ser a mesma coisa, não é? – perguntou ela em voz baixa.

O menino não respondeu. Não precisava, pelo som da voz de Ginny, ela sabia a resposta. Os dois sabiam. Tinham abusado da confiança de Harry. Ele jamais seria o mesmo com eles. As coisas jamais seriam iguais novamente.

xxx

Damien não conseguia se lembrar da última vez que se sentira tão terrível. Estava se esforçando para encontrar algo para dizer, para responder às perguntas irritadas de seus pais. Não conseguia pensar em nada que pudesse dizer para acalmá-los. Seu pai era quem mais falava.

- Você não vai dizer nada? – perguntou zangado.

- Eu não sei o que dizer? Só posso pedir desculpas – respondeu Damien melancolicamente.

- Isso não responde nossas perguntas! – disse James com firmeza.

Lily olhou impiedosamente para os dois. Não conseguia se lembrar de já ter sentido tanta raiva e vergonha do filho.

- O que você estava pensando? – indagou ela.

- Eu... a gente pensou... – Ele parou, percebendo que estava tentando formar as palavras para dizer o quão completamente idiota o plano deles era. – Eu sinto muito.

- Pare de se desculpar, Damien! Ao menos para nós, afinal. É a Harry que tem que se desculpar! – disse o pai, pensando o mesmo quanto a ele próprio. Já agira de forma terrível com o filho mais velho quanto à questão do vício. Seu temperamento subiu novamente ao pensar em alguém deliberadamente o envenenando.

Encontrara Harry e o levara aos seus aposentos na noite passada. Não o incomodaram com perguntas. O rapaz fora direto para a cama que James transfigurara. Ele tremia, se por raiva ou por exaustão, ninguém sabia ao certo. O jovem acordara antes deles pela manhã e deixara os aposentos antes que pudessem falar com ele. Provavelmente era melhor assim. Ele não estava pronto para falar com o irmão ainda.

- Eu nunca esperava isso de você! O que deu em você para esconder isso de nós? – questionou Lily.

- Eu não sei – respondeu Damien com sinceridade. Era a verdade.

- Eu te disse claramente que se descobrisse alguma coisa que afetasse a saúde dele, era para vir me dizer. Você se lembra disso? – indagou James.

O menino só conseguia concordar com a cabeça. Lembrava-se bem daquele dia. Foi depois do julgamento de Harry. A única coisa que pôde fazer foi se desculpar de novo.

- Eu te disse para parar de se desculpar – disse James novamente.

- Harry... Harry está bem agora? – perguntou o menino, hesitante.

James soltou um suspiro cansado e sentou ao seu lado.

- Eu não sei, para ser sincero. Ele não falou comigo.

Damien sentiu o rosto queimar de vergonha. Era tudo culpa sua. Nunca pensara que as coisas ficariam tão ruins. O auror viu a forma que o rosto do filho se entristeceu e não pôde deixar de se sentir penalizado por ele. Ainda estava com raiva do garoto, mas isso não o impedia de sentir compaixão. Passou um braço em torno dele e lhe deu um aperto.

- Ele vai ficar bem, dê tempo a ele. Não quero que você ou os outros se aproximem dele.

Seus olhos pousaram nas mãos do menino. Os ferimentos estavam curados e não havia praticamente nenhuma cicatriz, mas James sabia que tiveram sorte de escapar com ferimentos leves. Os vidros podiam ter feito mais estragos.

- Pai, Harry vai se encrencar por ontem à noite? – Aquela pergunta o importunou a noite inteira.

- Ele está conversando com Dumbledore no momento. Acho que haverá exceções, já que não acho que realmente queria fazer... o que fez – disse o auror desconfortavelmente. – Quanto ao comportamento com McGonagall, não acho que vá escapar disso. Ela vai se certificar disso.

Damien assentiu, conhecia muito bem a diretora da Casa. Ela definitivamente se certificaria que seu irmão fosse punido por atacá-la. Lily sentou do outro lado do filho, olhando com firmeza para ele.

- Isso nos leva à questão de sua punição. O diretor Dumbledore já escreveu aos pais de Ron e Hermione, que saberão exatamente o que eles fizeram.

O menino fez uma careta. Podiam esperar um berrador da Sr. Weasley a qualquer momento. Não sabia como os pais de Hermione reagiriam.

- Minerva falou comigo hoje mais cedo. Ela vai providenciar sua punição também. – Diante do olhar de indignação do filho, ela acrescentou. – Fique feliz por ela estar providenciando as detenções. Se coubesse a mim, você não se daria tão bem! – Damien acreditava nela.

- Quero que vá agora, e se avistar Harry, não fale com ele. Ele vai querer se acalmar por alguns dias – lembrou James.

Damien deixou os aposentos sentindo-se um pouco melhor. Ao menos tinha lidado com os pais. Estavam muito zangados com ele, mas pelo menos se livrara daquilo. Não precisava mais evitá-los. Não sabia como evitar falar com Harry. Ia ser estranho não falar ou ficar com ele. Lembrou-se que vivera por treze anos sem o irmão, mas desde que o conhecera, não conseguia pensar em viver sem ele em sua vida.

Ainda estava pensando nisso quando viu a gárgula de pedra que levava ao escritório do diretor se mexer. Congelou. Sabia quem estava descendo a escada e, ainda assim, não conseguiu sair do canto. Viu, com o coração batendo freneticamente, Harry aparecer, parecendo não ter dormido nada na noite anterior. Seus olhos se encontraram e, por uma fração de segundos, o menino pensou que o outro ia chamá-lo. Mas ele não o fez. Apenas lhe lançou um olhar de desgosto antes de se virar e ir embora, sem olhar para trás uma vez sequer.

Damien esperava esse tipo de comportamento, mas não se preparara. Ficou onde estava, vendo o irmão se afastar dele. Nada em sua vida tinha sido tão doloroso.

xxx

A vida não melhorou nada para Damien e os outros três. Receberam as detenções de McGonagall e se viram na companhia de Filch no mês seguinte. Cinco noites por semana o ajudavam com vários trabalhos revoltantes de limpeza do castelo. Mas não reclamavam. Mereciam muito mais, sabiam disso.

Ron e Ginny receberam um sermão do esperado berrador da Sra. Weasley, que fez os dois ficarem vermelhos. Ela lhes prometeu uma visita pessoal assim que pudesse. Isso definitivamente não era algo a se aguardar com ansiedade. Hermione recebeu uma carta dos pais mandando que enviasse uma resposta explicando exatamente o que acontecera.

Mas pior que tudo isso para os quatro era a forma que Harry os tratava. Ele os ignorava completamente. Recusou-se a ficar no mesmo dormitório que Ron, e, já que o traidor ainda era desconhecido, não era seguro ele se mudar para outro dormitório. O diretor concordou em deixá-lo usar os aposentos de James. Havia espaço o bastante e o sofá transfigurado em cama era confortável. O rapaz não ia dormir muito, de qualquer forma, então aquilo não o incomodou. Ficou na sala de estar enquanto o pai dormia no quarto. Sentava-se com os outros grifinórios nas refeições, e optava por nem sequer olhar na direção do irmão. Quando estava nas aulas, sentava-se com Dean ou Seamus, ao invés de Ron e Hermione.

A escola logo soube o que ocorreu na noite que Harry quebrou todas as janelas na sala comunal. Felizmente, ninguém sabia a razão, tudo que sabiam era que ele não estava falando com Damien, Ginny, Ron e Hermione. Ninguém tinha coragem de perguntar o motivo. Alegremente o aceitavam sentando com eles nas aulas e refeições. Quando alguém perguntava a Damien e aos outros porque o rapaz estava com raiva deles e por que os machucara, eles apenas diziam para "cuidarem das suas malditas vidas!", e era talvez a única coisa boa nessa bagunça toda. A verdade sobre as cervejas amanteigadas e a Poção Calmante era desconhecida.

James não teve tanta sorte com Harry quanto esperava. O pegou na primeira noite que foi dormir em seus aposentos, mas não importava o quanto insistisse, ele se fechou e estava determinado a não falar sobre o irmão e os outros. O auror teve que desistir por fim, mas estava lá com o filho, certificando-se de que se quisesse falar, ele estava logo ali.

James e Lily tiveram várias reuniões com Dumbledore e Minerva, tentando descobrir o que podiam fazer para pegar o responsável por drogar o garoto. Até então, não tinham nada. A própria ideia de que um aluno, quanto mais um grifinório, podia fazer algo assim era difícil de aceitar.

- Não há alguma forma de pegar o responsável? – perguntou Lily em uma das reuniões.

- Temo que não haja muitas maneiras de determinar quem é essa pessoa. Tudo que podemos fazer é esperar que cometa um erro e se revele – disse Minerva calmamente.

Enquanto a Professora tinha uma quedinha por James e Lily, ambos sendo seus ex-alunos e companheiros da Ordem, a mulher tinha pouca paciência com o filho deles, Harry. Em parte por conta de sua atitude com ela. Quando o encontrou após a noite na qual tentou atirá-la para longe, esperou que ele ao menos se desculpasse. Entendia que ele estava passando por um extremo abuso emocional no momento, mas, ainda assim, não era forma de lidar com um professor. Lily tentara fazê-lo se desculpar.

- Você não tem algo para dizer a Minerva? – incitou ela.

Harry olhou friamente para a Professora antes de falar.

- Da próxima vez que eu mandar se afastar, é melhor obedecer.

Não é preciso dizer que ele ganhou um mês de detenção, colhendo ervas da floresta proibida à noite, já que as plantas eram sensíveis à luz, sem falar nos perigos. O rapaz não demonstrou emoção alguma à punição e cumpriu sem reclamar.

Fazia duas semanas de detenção, e Harry estava sentado na sala de estar do pai, tentando aplicar pomada nos dedos ensanguentados. As malditas flores tinham dentes e ficavam mordendo enquanto tentava colhê-las. Era parte da detenção. Mas ele não se importava. Nada mais importava na verdade. Só aplicava a pomada para impedir que seus pais vissem os machucados e fizessem um escândalo sobre isso. Não aguentava mais aquilo. Não conseguia se importar. Já se convencera que não importava. Não ia fingir para si mesmo que alguém se importava. Estavam todos mentindo para ele. Assim como Ron e Hermione mentiram, assim como Ginny, como Damien, como Lucius, Bella e Voldemort. Não ia mais acreditar em ninguém de agora em diante. Estava sozinho, como sempre soube que estava. Seus pais iam estragar tudo em algum momento e machucá-lo. Era melhor ficar longe deles, de todos eles.

Teria deixado Hogwarts de vez se não soubesse que era inútil. Com o Príncipe Negro atacando e seu desaparecimento, seria só uma questão de tempo antes de o Ministério declará-lo como o assassino e mandar o mundo mágico atrás do seu sangue novamente. Sabia que podia se esconder, mas achava que não podia lidar com tudo aquilo de novo. Foi parcialmente por isso que se impediu de desaparatar da sala comunal, na frente de McGonagall e dos outros alunos. Não seria nada bom mostrar que podia resistir aos poderosos escudos ao redor da escola.

Estava perdido nos pensamentos e não ouviu a batida na porta. Levantou os olhos quando uma voz familiar chamou.

- Professor Potter, senhor?

Harry viu a ruiva abrir a porta e entrar, seus olhos castanhos procurando por James na mesa. Ela parecia um pouco desapontada, mas, então, parou abruptamente quando seus olhos percorreram o cômodo e pousaram sobre Harry.

- Oi – disse ela hesitante.

Ele não respondeu.

- Eu... eu estava procurando seu pai – continuou ela, adentrando o quarto.

Harry aproveitou a oportunidade para inspecioná-la. Perdera peso. Seus olhos tinham círculos escuros, provando que ele não era o único tendo noites de insônia. Ela parecia que acabara de se recuperar de uma doença.

Ele percebeu que a estava encarando e desviou o olhar depressa. Ginny deu mais alguns passos para dentro. Ela o estivera observando, percebendo quão cansado parecia.

- Sabe quando ele vai voltar? – perguntou ela, na verdade ela não se importava com isso.

Harry balançou um pouco a cabeça. Era a única resposta que daria. Ginny sentiu o coração saltar. Não ouvira a voz dele desde aquela noite, e fazia mais de duas semanas. Esperava que fosse ao menos falar com ela. Mas não era o que parecia. Ela se virou para sair.

- Tudo bem, se puder dizer a ele que eu passei aqui. Eu tinha que perguntar algo sobre a aula – disse ela, encarando-o. Ele não confirmou o pedido.

Assim que ela se virou para sair, avistou os dedos ensanguentados dele. Antes que pudesse se conter, atravessara o quarto, parando perto de onde ele estava sentado.

- Ah, Deus, Harry! O que houve? – indagou ela, ajoelhando-se ao lado dele.

Seus olhos assimilaram as pequenas mordidas dolorosas em seus dedos. Agiu por impulso e tomou a mão machucada na sua.

A ruiva só percebeu o que fizera quando o rapaz puxou a mão violentamente. Ela ergueu os olhos para ele, magoada ao ver a raiva em seus olhos verdes.

- Harry.

- Saia! – sibilou ele, desviando os olhos.

Ginny se levantou, os olhos fixos nele.

- Por quanto tempo está planejando ficar longe da gente? – questionou ela. Ele não respondeu. – Harry, por favor. Eu te disse o quanto estou arrependida. Os outros também estão. O que temos que fazer para te mostrar o quanto estamos arrependidos? – perguntou.

O rapaz olhou para ela. Sabia que ela estava realmente arrependida. Infelizmente, aquilo não fazia diferença para ele.

- Apenas saia daqui – disse ele claramente para que ela pudesse entendê-lo.

- Tudo bem, eu vou. Mas, Harry, não pode se esconder da gente para sempre. Vai ter que falar conosco mais cedo ou mais tarde – disse ela.

A ruiva se esforçava para se afastar, mas a obstinada determinação do rapaz em não falar com ela estava começando a incomodar.

- Estou perfeitamente feliz em não falar com vocês nunca mais! – disse Harry calmamente.

Ginny teria ignorado o comentário se não soubesse que ele estava falando sério. Um mau pressentimento tomou conta dela. Acreditava que talvez quando ele se acalmasse, falasse com ela novamente.

- Você não pode me ignorar para sempre – disse ela.

A garota dissera aquilo apenas como um comentário casual, não como uma afirmação a ser discutida.

- Não vejo porque não posso ignorar estranhos – respondeu ele friamente.

- O que está dizendo? – indagou ela, a voz mortalmente calma. Harry não precisava dizer em voz alta. Ginny o entendeu perfeitamente. – Você está... você está terminando comigo? – perguntou.

- Considerando que eu não consigo sequer olhar para você, acho que seria uma excelente ideia! – disse ele, mantendo os olhos fixos na parede à frente.

Ginny ficou onde estava. Não conseguia se mexer. As palavras dele atingindo-a como ondas se chocando em pedras. Harry estava terminando com ela. Sabia que ele estava com raiva, sabia que ficaria zangado com ela por um tempo. Admitia que seria difícil ganhar a confiança dele novamente, mas não percebera que ele poderia terminar com ela. Harry sempre estaria com ela.

A ruiva se virou e fugiu do quarto, não queria mais ficar no mesmo cômodo que ele. Não se virou para encará-lo. Bateu a porta e correu às cegas. Se tivesse olhado para trás, teria visto o rapaz esconder desesperadamente o rosto por trás das mãos ensanguentadas.