Capítulo 23 – Dois Para Tragédia

"Como eu posso ver através de seus olhos meu destino?

Eu caio aos pedaços. Você sangra por mim

Como eu posso ver através de seus olhos nossos mundos colidirem?

Abra seu coração, para selar nossa grande separação"

Our Great Divide – Tarja Turunen

Era a primeira vez que Hermione Granger encontrava-se sem qualquer possibilidade de agir. Não havia nada em absoluto que pudesse fazer. A situação fugia de completamente de seu controle. E ela detestava sentir-se impotente.

Apenas lhe restava observar paralisada os aparelhos do quarto mostrando o corpo de Harry sem vida.

O mundo foi virado ao avesso. Perdeu noção de tempo e espaço. Ela não sabia definir com exatidão o que sentia. Era um turbilhão de emoções e, ao mesmo tempo, uma tremenda sensação de vazio. Foi como se seu organismo houvesse entrado em pane.

Seus músculos tremiam, o coração batia aceleradamente. Fortes pontadas no peito e uma expressão de choque caracterizavam a dor brutal que lhe atingiu no momento em que ouviu o bipe contínuo.

Aquilo não poderia ser real. E só esse pensamento lhe dava arrepios incontáveis pela espinha. O medo, algo que fora muito pouco sentido em sua vida, veio em uma intensidade jamais vivenciada. Não, não era medo, era pânico em seu nível mais extremo.

Harry não podia ter falecido.

No entanto, a verdade estava ali bem a frente de seus olhos, esses que agora embaçavam sua visão, devido a lágrimas que retornaram e os inundavam e que chegaram sem que percebesse.

O mecanismo de autodefesa para evitar a agonia, que vinha funcionando nas últimas semanas, dessa vez não foi o suficiente e estilhaçou-se por inteiro. O torpor não veio e ela sentiu os impactos dos sentimentos em sua totalidade, tão fortes que chegavam a ser brutais, depois de tanto tempo sendo evitados.

Achou que iria morrer junto. E qual o problema? Não importava. Se partisse, pelo menos iria com ele.

Mas Harry não se foi!

Sim, ele se foi, uma voz agonizante disse em sua mente perturbada.

E então, ainda sem tomar conhecimento de seus atos, suas pernas tomaram impulso e ela jogou-se sobre o corpo dele. As lágrimas começaram a cair, muito mais impactantes do que nos minutos anteriores, e logo a engolfaram num choro compulsivo.

- Não, Harry, por favor... – balbuciava entre os soluços, a voz demonstrando toda sua dor. – Por favor... Volta! Volta, Harry! Não só para mim, eu não mereço, mas para o mundo. Você ainda tem tanto para mostrar. – trêmula, segurou o rosto dele com as mãos, cuja expressão pacífica contrastava com seu pânico. – Ouviu? Você não pode me deixar, Harry, não pode...

Ainda fora da realidade e acreditando que tudo era loucura, nem percebeu quando uma equipe médica entrou no local. Mãos a agarraram, forçando-a a soltar Harry.

- Precisa sair daqui agora, senhorita. – um enfermeiro lhe dizia. – Não pode ficar aqui.

Ela lutou contra as mãos, sabe-se lá de onde retirando forças. Não iria abandoná-lo quando ele mais precisava.

- Não! – urrou, cada vez mais gotas rolando por sua face.

O enfermeiro lhe deu um puxão mais brusco, imobilizando seus braços, e a arrastou para fora enquanto ela se debatia e continuava a gritar com todo o desespero em seu peito. Antes de ver a porta do quarto ser fechada, viu médicos usando o desfibrilador em Harry.

Hermione gritou mais um pouco e esmurrou a porta, ignorando o jeito irracional com que agia, mas nada adiantou. O rosto avermelhado e ainda cheio de lágrimas, ela deu três passos para longe do quarto, porém faltou-lhe equilíbrio e teve de buscar apoio na parede para não desabar.

Harry não podia... Não podia... Ainda mais depois de tudo de ruim que aconteceu entre eles! E era justamente isso que mais lhe incomodava. Por maiores tenham sido os atritos, jamais desejou algo trágico acontecendo com ele.

Ainda balbuciando incoerentemente, a dor só aumentava e agora lhe deu mais um golpe bruto na parte de baixo do abdome. O chão sumiu sob seus pés. Ela escorregou lentamente até o piso, onde caiu sentada. Sentiu algo escorrendo entre suas pernas e, tremendo, passou a mão para ver o que era. Ao erguer os dedos, viu-os sujos do mais rubro sangue.

Tonta, a pouca força enfim esvaiu-se, e ela foi vencida. Sem esperar por mais uma fração de segundo sequer, a escuridão engoliu-a e arrastou-a para uma queda livre interminável.


Os passos firmes que a cada segundo ficavam mais perto e mais rápido lhe acordaram. Pressentia o nervosismo e o desespero trazido por eles, o que lhe afetou com um baque. Ou talvez então só estava imaginando coisas devido a algum sexto sentido bizarro dentro de si.

A porta do alojamento foi aberta devagar, como se a pessoa do outro lado não quisesse acordá-la com o barulho. Essa parou de súbito, com uma expressão de susto, ao vê-la já desperta e jogando as pernas para fora da cama de armação. Reconheceu como um dos residentes.

- O que houve? – perguntou sem rodeios.

O residente balançou a cabeça bem de leve, quase imperceptivelmente. Então respirou fundo, adquirindo um novo porte, um deveras mais sério.

- Dra. Evans... – disse com cautela.

E aí Lily soube. Soube porque conhecia aquela postura, aquela expressão, aqueles olhos, o tom profundo e fingidamente distante. Ela mesma já havia usado algumas vezes. Levantou-se num salto, o mundo girou fora dos eixos por frações de segundo, e ela quase caiu de novo devido ao rápido batimento cardíaco de seu peito.

Sentiu como se houvessem arrancado parte de sua carne viva. Nem precisava ouvir as próximas palavras para desencadear um caos ainda maior dentro de si.

- Os médicos tentaram de tudo, doutora, mas seu filho, Harry, infelizmente acabou de falecer.


Flutuava no mais puro nada. Como isso era possível, encontrava-se além de sua lógica. O certo seria seu ímpeto naturalmente curioso entrar em ação para caçar respostas, porém algo a bloqueava e não lhe dava vontade, um torpor que curiosamente também era responsável por seu estado.

Se a ironia reinava ali, também não saberia responder. Sentia-se calma e relaxada naquele lugar vazio, tentada a não pensar em mais nada e apenas aproveitar.

Então, o silêncio profundo foi quebrado por um grito agonizante: Isso é tudo um pesadelo! Mas antes que pudesse reagir, outra voz veio, dessa vez bem mais suave e delicada: Meu anjo, acorde.

E bastou apenas o sussurro para mudar o cenário. A negritude foi substituída por uma cor branca tão forte que queimou seus olhos por um instante. Fechou-os com força, apenas para se dar conta de outras coisas ao redor. Sons baixos em bipes, seu corpo repousado numa cama, sua mão direita perfurada por agulhas. Era até capaz de sentir alguma substância entrando em seus vasos sanguíneos.

Num segundo, logo soube: aquilo sim era o verdadeiro pesadelo. Simplesmente porque era a realidade.

Tornou a abrir os olhos, uma vez acostumada com a claridade. Contemplou mais detalhes de onde estava: um quarto parecido com que estivera da última lembrança que tinha. E aí percebeu que não era uma mera lembrança, assim como nada do que cruzava sua mente no momento.

Por isso a realidade era estranha, porque não queria que aquelas imagens fossem verídicas.

De repente, percebeu a presença de alguém ao seu lado. Uma mulher mais velha com alguns traços parecidos com o seu.

- Mãe? – a voz saiu fraca e rouca, como se não a usasse há dias.

Jane Granger curvou o canto dos lábios num pequeno sorriso e aproximou-se, o jaleco branco combinando com o ambiente.

- Que bom que acordou, Hermione querida. – E então a paciente percebeu quem a chamava de anjo no sonho.

Sentia-se meio grogue e entorpecida. Deveriam ser os medicamentos que provavelmente foram-lhe aplicados. Por isso mesmo, pensamentos e cenas chegavam com mais lentidão a seu cérebro, e ela os processava com certa deficiência.

- O que... – Mas nem precisou concluir para que fosse compreendida.

- Você desmaiou no corredor do hospital, querida. – Jane disse num tom solidário. – E já se passaram dois dias desde então.

O retardo ocasionado pelos remédios passou, e Hermione tomou conhecimento de tudo que acontecera. Milhares de perguntas vieram em frações de segundo e pesaram sua cabeça.

- E o que aconteceu com...? – por instinto, uma de suas mãos foi parar no ventre.

Ao ver a expressão da mãe, nem precisou de respostas.

- Infelizmente você perdeu o bebê. – Jane falou com certa tristeza.

Hermione perdeu a fala. Caíra aos pedaços. Mais um golpe, mais uma grande coisa separada de si. A dor invadiu seu peito de novo, as lágrimas voltaram. Seu filho, seu bebezinho, uma parte dela...

Por mais que não o tivera em seus braços, ainda sim, naquelas semanas, sentiu-se mãe de verdade. E esse instinto materno tornava difícil suportar a perda de qualquer filho, fosse nascido ou não.

Jane percebeu o nervosismo da filha com o aumento dos batimentos cardíacos no aparelho e sentou-se na beirada da cama, segurando uma de suas mãos para confortá-la.

- Hey, meu anjo. Eu sei que é difícil, mas tente se acalmar, está bem? – dizia docemente.

A cantora abaixou a cabeça e apertou os olhos, algumas lágrimas escapando. Apertou a mão de Jane com força para tentar aliviar um pouco.

- Oh minha querida. – a mãe inclinou-se e enxugou as gotas que rolavam. – Não chore. Estou aqui por você.

- Eu sei, mas é só que... é só que... – ela engoliu em seco e ergueu a cabeça para fitar Jane. – É que essa gravidez não foi planejada, mas eu me afeiçoei tanto a esse bebê que agora saber que eu perdi... – o choro aumentou de intensidade. – É horrível. Me dá a sensação de que eu não cuidei dele direito, que foi apenas um objeto sem valor.

O rosto de Jane expressava a compaixão que sentia pela filha.

- Não diga isso. Até porque se fosse verdade, você não teria se afeiçoado ao bebê. E eu vi como você ficou feliz e radiante quando descobriu a gravidez. Não foi algo sem valor.

- E mesmo sendo um filho de Nicholas... – ela deu uma risadinha triste em meio às lágrimas. – Eu o amei muito. Ele não merecia ter esse fim.

- De forma alguma. – Jane concordou. – Mas sei que você vai superar.

- Eu espero. – Hermione suspirou.

As duas ficaram em silêncio, a mais nova tentando se recuperar quando o choro cessou.

- E por que isso aconteceu? – perguntou um momento depois.

- Bem... Você ficou muito tempo desacordada, o que aconteceu devido uma espécie de leve trauma psicológico. – Jane respirou fundo e entrou em seu modo médico. – Acontece que você estava passando por muita coisa ultimamente. Os problemas com os seus companheiros, com Nicholas, com a banda... Era tudo muito estressante, ainda mais na sua situação. Os primeiros meses de uma gravidez são cruciais, exigem o máximo de repouso possível e, querida... – A mulher pausou, demonstrando que não se sentia muito bem o que viria a seguir. – Não foi isso que fez.

Hermione entendeu as entrelinhas. Ficou pior com isso. Era como se houvesse se cortado e o bebê, sangrado por ela.

- Então eu poderia ter evitado se tivesse simplesmente sossegado. – disse num tom culposo.

- Não há como saber. No seu caso, houve fatores que contribuíram, de fato, mas essas coisas não deixam de acontecer acidentalmente.

- Agora não há mais nada o que fazer, não é?

- Por falta de sorte, é.

O silêncio a seguir serviu para Hermione aceitar a verdade. Com algumas perguntas de sua mente respondidas, sua mente ficou mais leve. Tratou de controlar as emoções de seu corpo, porém logo outra questão veio que acabou com seu esforço.

- E Harry? – perguntou de súbito para Jane, ansiosa pela resposta.

A médica manteve-se impassível, alimentando o mistério e acariciou novamente sua mão.

- Ele está vivo.

Um suspiro profundo de alívio escapou de seus lábios, anestesiando parte da dor trazida pela morte do bebê.

- Foi só um susto. – a mãe continuou a explicar. – Um susto enorme. Foi bem difícil reanimá-lo, tanto que por um momento todos lá pensaram que ele tinha de fato partido e até mesmo deram essa informação a Lily, mas logo depois conseguiram. O que aconteceu, na verdade, foi uma reação a todo o dano que o corpo dele sofreu com o acidente e a tudo que estava sendo feito para recuperá-lo. De um modo estranho, – ela franziu a testa. – essa parada cardíaca serviu para ajudá-lo, pois deu aos médicos uma noção maior do caso dele. Só nessas últimas horas, o quadro melhorou consideravelmente e, por que não, de um jeito até surpreendente.

- Então o caso dele foi sério. – o impulso de lógica desenfreado aos poucos voltava para Hermione.

- Bastante. Tanto é que assim que ele chegou aqui foi direto para a sala de cirurgia e, depois, encaminhado para a UTI. Ele continua lá, pois ainda a situação é um tanto delicada.

- Mas ele vai ficar bem, não é?

- Com certeza. Do jeito que as coisas vêm acontecendo, Harry vai se recuperar completamente. Ele é forte, sabe como é, desde os tempos de escola. – Jane sorriu.

Hermione não pôde deixar de rir, lembrando-se de como Harry volta e meia parava na enfermaria do colégio por causa de seu espírito aventureiro.

- Ele é teimoso, isso sim.

- Por isso mesmo. Vai ver essa surpresa na recuperação dele é devido a essa teimosia, a recusa em ficar parado numa cama. Ele não vai deixar ser vencido assim tão fácil. – Jane tornou a fitá-la. – Além disso, Harry é jovem, ainda tem muita saúde ali dentro. Isso contribui bastante. Daqui a pouco, ele ficará novinho em folha, nem parecerá que passou uma temporada internado.

- Assim espero.

- Todos esperamos. – Jane meneou e ficou de pé. – Bem, acho que não posso mais ficar aqui. Tenho trabalho a fazer. Você ainda deverá ficar um tempinho aqui só de observação, mas logo estará liberada. Qualquer coisa, tem uma campainha aí do lado. – ela apontou para sua esquerda. – É só apertar. Tchau, meu anjo. – e beijou-lhe no rosto antes de sair do quarto.

Hermione ainda mantinha um ligeiro sorriso no canto dos lábios. Continuava mal por ter perdido seu filho, mas por outro lado seu melhor amigo estava vivo.

Sob uma ótica positiva, uma tragédia aconteceu ali, porém não era algo impossível de dar a volta por cima. Iria se recuperar e, acima de tudo, não se encontrava sozinha para isso.


A porta abriu-se com força, sobressaltando-o na cama. Nem teve tempo de processar o que aconteceu antes que uma cascata de cabelos lisos entrasse em sue campo de visão, emoldurando os olhos castanho-esverdeados da advogada mais tempestuosa de Londres. Ela o envolveu num abraço tão forte que ele encontrou dificuldade para respirar.

- Delinda! – ofegou, tentando enxergar alguma coisa através das madeixas.

- Ai meu Deus, que bom que você acordou! – ela exclamou num tom esganiçado. – Quando soube, logo tive que vir para cá. Quase rastejei no chão para meu chefe me liberar. E você já está respirando sem aparelhos!

- Fico feliz com sua preocupação, mas acho que, se continuar a me esmagar assim, entrarei novamente em coma. – disse, agora driblando o cheiro de perfume que se desprendia dela.

A mulher automaticamente o soltou e afastou-se, ficando de frente para sua culpa. Ele a observou com um sorriso maroto, absorvendo a reação dela para gravá-la na memória. Nunca pensara um dia que veria sua irmã agindo daquele jeito preocupado com ele, suas demonstrações de carinho eram bem diferentes.

Delinda se recompôs, percebendo o "erro" cometido, e depois pigarreou.

- Pois deveria só pelo susto que me deu! – retorquiu com seu tom mais normal, começando a andar para lá e para cá incessantemente. – Harry James Potter, tem noção do que eu passei quando vi o acidente?! Quando estive aqui e esperava ansiosamente enquanto cuidavam de você? Eu fiquei roendo minhas unhas sentadas naquela sala de espera horrível. Eu nunca tinha roído as unhas na vida! E quando fui tentar me acalmar, tomei o pior café do mundo! Está vendo isso? Por sua causa posso parar de tomar café! Acho que vou te nocautear de novo para você pagar o que eu sofri durante esses dias.

Harry não pôde deixar de gargalhar com a tagarelice nervosa da irmã, tanto que algumas costelas doeram. E o médico que o visitara havia pouco disse que não poderia fazer tanto esforço assim, mas não era como se pudesse se segurar quando estava com aquela garota.

- Está rindo de quê, seu maluco? – Delinda continuava a resmungar a cem por hora. – Acha engraçado o sofrimento alheio? O que dizer de mim, não é? Eu fiquei uma noite toda sem dormir por sua causa! E quando ouvi da sua parada cardíaca? Quase que eu tive uma! Mas você tem alguma consideração por mim? Você não tem! É isso o que quer? Me matar? Quer dizer... O que diabos você estava pensando, seu babaca pretensioso?!

- Droga, Dels, pare com isso! Eu não posso rir! – ele ria e ofegava ao mesmo tempo, segurando o lado direito do tórax com a mão.

A advogada parou de andar e cruzou aos braços, calando-se. Harry demorou um tempo para se recuperar. Contudo, não era como se realmente fosse ruim. Uma sensação ótima o invadiu ao ver a irmã.

- Desculpa. – ela disse sem jeito e sem fitá-lo cara a cara.

- Tudo bem. – ele abriu um sorriso sincero. – É bom ver você e ouvi-la agindo do seu jeito... bem, normal até certo ponto. – ela o fuzilou com o olhar. – Estou falando a verdade, e você tem que tomar cuidado com o que fala por causa de meu estado.

- Eu sabia que iria se aproveitar de mim assim. Não é justo.

- Ah é? E o que vai fazer? Me processar? – Harry não conseguiu conter a língua provocadora que sempre usava ao lado dela. Mas era um bom sinal de que ele estava se recuperando.

E foi por isso que a mulher suspirou, engolindo as palavras dele e a vontade de rebatê-las como lhe era bem característico. No fundo, um grande alívio a percorria por vê-lo melhor.

- Você é impossível.

- E você me ama. – o guitarrista lançou mais um de seus sorrisinhos. – Não adianta negar, o jeito como você entrou aqui é a prova.

- É claro que eu te amo! – ela exclamou mexendo-se desconfortavelmente, como se a confissão lhe incomodasse de certo modo. – Quer dizer, sem você minha vida não teria tanta graça. Nossas brigas e discussões fazem parte da minha rotina. Por mais que me irritem, não tê-las seria... horrível. – concluiu num volume mais baixo e acanhado.

- Que graça. Acho que vou chorar. – Harry fingiu um suspiro emocionado, o que o fez receber mais um olhar severo. – Quem diria que era necessário eu ver o portão do céu para ouvir Delinda Potter em uma declaração de amor.

- Estou pensando não mais em te nocautear, e sim sufocar com o travesseiro. – a advogada murmurou perigosamente. – E como é que você viu o portão do céu? Você vai é para o inferno.

- Hey! Eu sou o Potter bonzinho, e você, a má.

- Nem nos seus sonhos. – ela abriu um sorriso malicioso.

Harry revirou os olhos, deixando a discussão se perder.

- Então, é você que vai contar essa história mais recente da minha saga de tragédia? – disse mudando de assunto.

- Você quer saber o que aconteceu depois que você sofreu a parada? – Delinda ergueu a sobrancelha.

- É. Quer dizer, não é como se eu pudesse. – ele deu de ombros.

O que não totalmente verdade. A memória mais recente que seu cérebro tinha registrado lhe dava a impressão de ser do exato momento em que tudo aconteceu, algo que não sabia explicar. Era uma vaga imagem, uma cena borrada de alguns segundos que o deixava confuso quanto sua veracidade, principalmente levando em consideração o que vinha acontecendo em sua vida nos últimos tempos.

- O que você quer saber? – a irmã questionou. – Eu não estava aqui quando aconteceu.

Ao ouvir aquilo, um levíssimo calafrio o atingiu.

- E havia alguém?

Delinda vacilou, o que o deixou intrigado. Ela pareceu refletir por uns segundos e respirou fundo antes de responder.

- Sim. Hermione.

Mais um calafrio e a confirmação. Então a imagem era verdadeira. Também pudera, aqueles olhos castanhos lhe eram reconhecíveis em qualquer lugar.

E no momento, naquele exato momento, por uma louca fração de segundo, achou que de fato fosse morrer e precisava pelo menos olhar fundo naqueles olhos para saber se realmente seu destino encontrava-se ali...

- Hermione? – repetiu para disfarçar as reações agitadas dentro de si.

- É. – Delinda jogou o peso do corpo de uma perna para outra. – Ron também apareceu, veio antes dela. Os outros membros do Paradise também vieram te ver. Ninguém acreditou no que aconteceu.

Ele não conseguiu esconder a surpresa. Seus ex-companheiros se preocupando com ele, após o caos passado?

- Mas foi Hermione quem estava aqui quando tudo aconteceu. Ela presenciou tudo.

O tom de voz profundo e um tanto triste que a irmã usava o fez engolir em seco.

- E como ela agiu?

- Disseram que ela se desesperou completamente. Gritava de pânico, gritava por você, chorava que nem uma louca. Ela realmente achou que você tivesse morrido. Tiveram que praticamente arrastá-la para fora do quarto antes de te salvarem.

Harry novamente engoliu em seco, perdendo a fala por instantes, apenas imaginando Hermione a partir da descrição. Sentiu o coração apertar. De repente, lembrou-se do estado em que a cantora se encontrava.

- E o que houve com ela?

- Ela passou mal, desmaiou bem no corredor. – Delinda dizia forçando tal seriedade que Harry se perguntava se ela não estava usando seu lado profissional para continuar com o relato. Isso também lhe deu o pressentimento de que a irmã lhe escondia algo.

- E ela está bem?

- Podemos dizer que sim. – a advogada rendeu-se a um suspiro antes de erguer o olhar para o rosto dele. – Mas, ainda no corredor, os médicos a encontraram sangrando. Ela perdeu o bebê.

Ele ficou calado pela segunda vez, chocado pela revelação. Tudo bem, não lhe agradara muito a gravidez da ex-amiga, ainda mais se tratando de McAllister, porém em momento algum desejou mal para a criança, afinal, essa não tinha culpa de nada.

O pior era saber que Hermione perdeu o bebê exatamente após tê-lo visto supostamente morto. Aquilo sim o incomodou de verdade, e Harry fechou os olhos com força.

- Hey, eu sei o que está pensando. – Delinda aproximou-se rapidamente dele. – E quero logo que tire isso da cabeça, está bem? Nem comece. – Mas não havia como apagar as ideias da mente dele.

Uma melodia de repente foi ouvida. Delinda franziu o cenho, percebendo que vinha de seu celular na bolsa. Ela pegou o objetou e praguejou baixinho ao olhar a tela.

- Tenho que ir. Infelizmente não consegui me afastar completamente do trabalho. Tenho algumas ligações para fazer, mas continuarei aqui no hospital. Até mais, irmãozinho.

E ela saiu, deixando-o vaguear livremente com seus pensamentos.


Era possível dizer que estava acostumada ao ambiente médico, embora ele não lhe agradasse muito. Soube ser paciente e por isso foi recompensada. No terceiro dia seguinte à primeira visita, Jane apareceu com um sorriso amável no rosto, anunciando que recebera alta. As duas conversaram um pouco por alguns minutos até que uma enfermeira apareceu com seus pertences.

Ainda não se recuperara do choque da perda do filho, nem tinha como, porém sentiu-se animada em sair dali. Seus pensamentos volta e meia voltavam para aquilo, perturbando-lhe, enquanto saía da cama e ia em direção à mesa onde estavam suas coisas, porém aprendeu a lidar com a dor naqueles dias de internação, visto que não tinha muito o que fazer a não ser abrir o coração e aceitar sua grande separação.

Arrumou-se depressa e saiu do quarto. Andava pelos corredores a passos largos, firmes, que a faziam parecer não ter passado os últimos dois dias internadas. Manteve a pose até quando fez uma curva e sua visão periférica captou a placa da UTI. Automaticamente sua mente vagueou para o que Jane disse de mais recente: "Ele está acordado".

Seus passos reduziram. Várias palavras incoerentes ressoavam em seus ouvidos. Uma pergunta simples incessantemente lhe pedia uma resposta em poucos segundos, transformando-a num leve incômodo.

Lembrou-se, então, do motivo que a fez ir lá em primeiro lugar. As imagens do incidente apareceram na frente de seus olhos, e ela sentiu um arrepio quando as emoções daqueles instantes cruciais lhe atingiram. Achou que tinha o perdido para sempre; inúmeras lágrimas escorriam ao pensar que ele partira com raiva dela, com tanta destruição e mágoa entre eles... Ele nunca deixou de ser uma das pessoas mais marcantes de sua vida. Iria se arrepender amargamente se não fosse vê-lo.

Mordendo o lábio inferior e um pouco nervosa, ela deu a volta e entrou na UTI. Nem precisava de informação, ainda se lembrava do número do quarto. Só esperava que não houvesse ninguém ao redor.

Parou em frente a porta e respirou fundo, contendo a ansiedade. Esperou mais alguns segundos antes de dar duas batidas e abri-la, colocando somente a cabeça para dentro.

- Dels, será que não tem como ameaçar alguém aí com algum processo só para eles me darem canais em alta definição para eu assistir ao Chelsea?

- Acho que não conheço muito de Direito para fazer isso.

Harry, que olhava para algo no alto, franziu o cenho com a voz diferente e virou-se para o lado, encontrando o rosto de Hermione. Ela deu um pequeno sorriso tímido.

- Ah... Olá. – ele disse sem esconder totalmente a surpresa.

- Oi. – pausou por uns dois segundos. – Posso entrar? – perguntou ainda acanhada.

- Sem problemas.

Ela abriu ainda mais a porta e entrou. Harry desligou a televisão e voltou a observá-la. Hermione se aproximou da cama, lançando um rápido olhar à cadeira ao lado.

- Pode usar, se quiser. Delinda, quando veio aqui, ficou andando para lá e para cá sem parar. Cansei de ver gente em pé. – o homem disse dando de ombros.

Ela riu e acomodou-se, colocando as mãos juntas sobre as pernas. Pôs o olhar sobre ele e viu que estava bem melhor do que da última vez que o vira, mais saudável, com mais cor. Também já estava usando seu tom descontraído e às vezes mexia alguma parte do corpo indiscretamente.

- Delinda é incansável, gosta de ficar sempre em movimento, odeia marasmo. Assim como você. Dá par ver que está cansado de ficar aqui. – disse apontando para a perna direita sobre o colchão, que ele mexia. Sentiu parte do nervosismo ir embora ao vê-lo mais vivo.

- Não posso negar isso totalmente. – Harry jogou a cabeça de um lado para outro. – Mas estou me esforçando para ser bonzinho. – concluiu em brincadeira.

- Dá para ver, ainda não vi nenhuma notícia sobre demolição.

Os dois riram de leve, e o silêncio se instalou logo depois. A mulher sentiu uma leve tensão começar a preencher o ar. Em mais uma análise, percebeu que Harry aparentava esconder algo e já sabia até o que era.

- Tem alguma previsão de alta? – recomeçou, o nervosismo tornando a escapulir de leve.

- Não exatamente. Quer dizer, meu quadro melhorou depois... depois do que aconteceu. Mas justamente por causa disso acho que minha temporada vai ser um pouco mais longa. Dizem que é para observação... Bem, considerando os fatos.

Hermione engoliu em seco, compreendendo o que ele falava.

- Então, já soube, não é?

Não precisou de outras palavras. O olhar que Harry lhe lançou mostrava que ele entendia.

- Já.

- O quanto você sabe? – perguntou, mesmo que seu corpo gritasse que sabia a resposta, tão claramente expressa nos outros olhos, mas ela ainda sim queria uma confirmação.

- Tudo. – Harry respondeu num tom profundo.

Hermione agitou as mãos e desviou o olhar dele por uns instantes. Ao voltar a fitá-lo, viu uma sombra no rosto do músico, como se algo lhe incomodasse. Uma leve tristeza passeava pelas íris verdes. Conhecendo Harry por tanto tempo, ainda mais a tendência mártir dele, logo soube do que se tratava.

- Você está se culpando. – afirmou em repreensão. – Não é sua culpa, Harry. De forma alguma é.

Ele abriu a boca para responder, mas fechou-a em seguida, cheio de frustração. Demorou a virar-se para ela e assim que o fez, seus olhos prenderam-se um no outro.

- Mesmo assim, ainda penso que se você não estivesse aqui na hora... – a voz dele falhou. – Você não teria perdido o bebê.

Ela fechou os olhos brevemente, sentindo uma pontada no peito e os olhos arderem. Tudo bem que ambos tinham noção do que falavam, mas ouvir a verdade com tanta clareza foi ruim.

Tornou a olhá-lo, retomando as forças para continuar a conversa.

- E como você poderia saber disso? – contrapôs forçando um tom firme. – Não há como. Vai ver eu teria pedido de um jeito ou de outro, mesmo se eu não tivesse vindo aqui. – ela quase perdeu o fio da meada, porém conseguiu sustentá-lo.

- Ainda sinto que o que aconteceu ajudou. – ele aumentou a intensidade do olhar. – E não adianta dizer que não, pois sei que deve ter ajudado pelo menos uma parcela minúscula. É inegável, Hermione.

- Talvez, muito talvez. – ela suspirou, rendendo-se àquele ponto. – Mas eu também estava sob muito estresse, com os problemas com a banda, Nicholas e tudo o mais. – algo se agitou dentro de si ao pronunciar o nome do ex. – Isso sim contribuiu para o aborto.

Harry não respondeu de imediato, porém Hermione ainda conseguia sentir a aura estranha ao redor dele, e não gostou nada de vê-lo daquele jeito.

- Pare com isso, Harry! – exclamou um pouco mais agitada. – Você não teve culpa de nada, não era como se você tivesse escolhido ter uma parada cardíaca. Foi tudo pior um acaso. Eu estar aqui foi um acaso, o seu incidente foi uma acaso. Pare de se culpar. Odeio quando faz isso. – e, sem que percebesse, ela pôs a mão direita sobre a dele na cama e segurou-a gentilmente.

E essa a situação era bem diferente de quando ele estava desacordado.

Porque agora ele não estava.

Aquele era um gesto natural da relação deles ao longo de anos. Contudo, os atritos recentes acabaram por neutralizar um pouco a facilidade com que agiam um com o outro. Por isso, bastaram frações de segundo para que notassem as mãos juntas. Harry franziu o cenho de leve e baixou o olhar para os dedos entrelaçados. Hermione percebeu em seguida e tratou de tirar sua mão. Os dois desviaram os olhares, um tanto acanhados, sentindo uma nova tensão se instalar.

- Se você realmente quiser culpar alguém, pode culpar a mim. – ela recomeçou a falar para se recompor. – Minha mãe falou que os primeiros meses numa gravidez são cruciais e que eu precisava de descanso, o que não era o que eu estava fazendo. E aí meu corpo colapsou. Se eu houvesse parado em primeiro lugar, talvez nada teria acontecido.

- 'Tá, desculpa. – Harry suspirou e ao ver a expressão de choque dela tratou de completar. – Pelo que disse agora, não pelo que aconteceu. E você também não é a culpada, não é como se tivesse pedido pelos problemas que a cercam.

- Verdade. – ela curvou o canto dos lábios minimamente, num levíssimo sorriso.

O clima pesado ia embora aos poucos. O silêncio que os cercou lembrava aqueles em que caíam quando eram adolescentes, de que não precisava preenchê-lo. Apenas sentiam-se bem com a presença um do outro.

- Além do mais, não é como se fosse o fim do mundo. – ela disse num tom mais calmo. – Abortos espontâneos são mais comuns do que pensamos. E eu só tenho vinte e cinco anos, ainda tenho muito tempo pela frente para ter um filho. Quem sabe com uns trinta.

- Tem razão. – Harry balançou a cabeça.

Ela baixou o olhar, novos pensamentos cruzando sua cabeça tirando-lhe ligeiramente da realidade.

- Sabe, acho que essa foi uma forma de eu pagar pelos meus pecados. – suspirou, sentindo lágrimas invadirem os olhos de novo. – Quer dizer, o bebê não tinha culpa de nada, ele chegou inocentemente a essa situação e acabou pagando um preço por erros de outros. – sua expressão se contorceu em uma dolorosa. – Ele não merecia de forma alguma o pai que teria.

- Assim como você não merecia o homem que teria. – Harry completou gentilmente. Ela ergueu o olhar para ele e viu uma centelha da antiga compreensão, leveza e carinho em seus olhos verdes. – Eu entendo, Mione.

Mas Harry dessa vez não pareceu notar o que disse. Ela abriu outro sorriso imperceptível ao ouvir seu apelido, e a vontade de chorar foi embora.

Que louco pensar que os dois precisariam de uma tragédia e uma quase tragédia para fazê-los agir de um jeito um tanto próximo da relação tão marcante que os caracterizava. Era como ela própria disse na primeira visita, que só estava tendo noção do que tinha ao ver-se tão perto de perder.

Ela deveria agradecer por ter seu eterno melhor amigo ali a sua frente e, silenciosamente, fazia lá no fundo.

Sentia uma falta imensa de Harry. Queria dizer o que pensava, porém poderia muito bem acabar com o clima bom que no momento os cercava.

Mas também era bom partilhar com ele, e somente com ele, outros pensamentos. Uma sensação de frescor lhe invadia de leve ao ver que não se sentia intimidada pela visita, mesmo com tanta destruição entre eles. Dava-lhe a impressão de que a ligação deles nunca foi extinta.

- Sabe, foi por pouco tempo, mas eu já tinha pensado várias coisas em relação ao bebê. – confessou.

- É mesmo? Como o quê? – Harry lhe lançava um olhar curioso e ao mesmo tempo divertido.

- Pensei que seria uma garotinha. E o nome dela seria Lyra. – abriu um sorrisinho tímido.

- Lyra... Lira... Como o instrumento? – ele franziu o cenho.

- É. Ela seria a minha pequena harpa. – seus olhos brilharam bobamente.

Harry sorriu.

- Música até mesmo no seu bebê. A prova de uma musicista tão apaixonada.

- Qual o problema? Ficaria estranho? – ela se assustou um pouco.

- Não. É um nome diferente e ao mesmo tempo bonito. Ficaria ótimo. – ele lhe reconfortou, e ela suspirou de alívio.

- Eu não pensei se fosse um menino. – disse mudando de assunto. – Acho que me empolguei demais com a ideia da Lyra.

- Ah, mas você terá outra oportunidade para pensar em tudo.

- Eu espero. E até lá eu terei encontrado que alguém realmente me ame e não queira me usar. – Hermione deu de ombros.

- Sei que vai. – Harry lhe observou profundamente.

Olhou para os olhos dele e viu o brilho típico de quando eram melhores amigos. Percebeu como sentia falta disso. Como as coisas acabaram desmoronando entre eles? Como seus mundos acabaram colidindo? Como foram se separar daquele jeito brutal aos mais de uma década de uma amizade tão pura e intensa? Uma leve tristeza lhe invadiu, mas não a demonstrou pelo mesmo motivo de antes, para não acabar com o momento.

A cada segundo que se passava, contudo, mais pensamentos invadiam a mente de Hermione numa intensidade tão grande que ela não conseguia suportar muito bem. Harry estava ali a sua frente, agindo tranquilamente... Quando menos percebeu, abandonou o orgulho e sua língua entrou em cena, trazendo a verdade lá do fundo da forma mais angustiada e sincera possível.

- Sinto sua falta.

Ele, por outro lado, não demonstrou surpresa. Apenas suspirou e abriu um sorriso triste.

- Eu também sinto a sua.

- Naquele momento, eu realmente pensei que tivesse te perdido para sempre. Só essa ideia... Me dá calafrios. – as confissões continuaram. – Nunca senti um pânico tão grande. E eu não poderia fazer nada. Não gosto de me sentir impotente, sem ter o controle de algo. Jamais me perdoaria, ainda mais com a ideia de você partindo com tanta coisa inacabada entre nós.

- Você acha que dá para consertar? – ele ergueu a sobrancelha.

- Não sei.

- Wow. É raro você dar essa resposta. – Harry comentou, mas, do contrário das últimas vezes que se viram, não houve sarcasmo algum, foi algo puramente amistoso e divertido.

Hermione riu.

- Acontece que ultimamente algumas de minhas prerrogativas vêm mudando. Descobri que não posso estar no controle de tudo, por mais que tente. Não tenho outra opção a não ser deixar as coisas acontecerem...

- E isso te frustra. – Harry concluiu.

- É.

Mais silêncio. Hermione baixou o olhar para o relógio e constatou que em breve o horário de visitas acabaria. Lembrou-se de repente de que Delinda estava ali – pelo menos foi a conclusão a que chegou depois de ouvir as primeiras palavras dele – e poderia voltar a qualquer instante. Sabe-se lá por que, não estava muito a fim de encarar a advogada.

Harry percebeu uma mudança em sua postura. Ela iria se despedir agora.

- Acho que está na hora de ir. – a mulher começou a levantar da cadeira.

- Mione?

- Sim?

- Prometo que um dia você vai ter a sua Lyra. – ele disse sorrindo de leve enquanto a observava em seus olhos.

Hermione devolveu o sorriso. Como agradecimento, inclinou-se na direção dele e pôs uma mão em seus cabelos, bagunçando-os de leve, como tantas outras vezes fez. Depois, segurou o rosto dele com delicadeza e deu um longo beijo carinhoso em sua testa.

- Fica bom logo, 'tá? – sussurrou bem próxima antes de ficar de pé.

Então, ela girou nos calcanhares e saiu dali, sem deixar de virar-se para trás e lançar um último olhar doce antes de sair dali.

Enquanto caminhava para fora dali, agora definitivamente para sua casa, Hermione mantinha um pequeno sorriso. Percebeu que a origem dele era uma sensação agradável e leve dentro do peito, como houvesse sido banhada pelas águas de um oceano azul profundo, que lhe apresentava um novo horizonte brilhante.

E ela simplesmente soube que era capaz de superar seus problemas, que sua coragem continuava dentro de si. Foram necessários dois para uma tragédia, para jogá-la até o fundo do poço e depois puxá-la de volta. Mas ela continuava ali, agora se sentindo mais firme e forte. Para aquele momento, foi o suficiente.


N/A: Posso dizer que esse capítulo foi praticamente finalizado. Creio que o único nesse tributo todo. E devo dizer que eu tenho uma tendência ao drama que beira ao exagero hahaha Mas eu gostei, no geral, só quis trocar o título, mas me segurei - até porque não saberia o que botar. Espero que tenham gostado! Até a próxima :)