Astoria jamais imaginou que passaria por um constrangimento daqueles dentro do que considerava sua própria casa.

Lucius não lhe dirigiu a palavra uma única vez durante o jantar. Sequer olhou em sua direção. Entretanto, não se furtou a falar dela e fazer toda a sorte de comentários pejorativos que conseguiu produzir. Falava da nora na terceira pessoa, como se ela não estivesse presente. Seus comentários deixavam bem claro o quanto estava incomodado com a presença dela naquela casa, o quanto lamentava a péssima escolha que o filho tinha feito ao se casar com quem ele considerava uma traidora do sangue, que ela nem para ter herdeiros e continuar o nome da família servia... Astoria pediu licença para se retirar, mas Draco a obrigou a permanecer ali, sendo insultada diante dele, sem direito a responder - porque, ela sabia, responder tornaria tudo ainda pior - e sem ouvir qualquer tentativa de defesa por parte do marido ou da sogra que, também constrangidos, não pronunciaram uma única palavra em sua defesa.

Ela não entendia aquela animosidade. Por que ele não demonstrou oposição quando Draco quis se casar? Pelo contrário, apoiou o casamento, esteve no noivado e na cerimônia, nunca deu o menor sinal de insatisfação. Ela já sabia que a perturbação que Draco e Narcisa disseram que ele tinha era uma inverdade. Por que então, de uma hora para outra, resolveu atacá-la? Não era possível que tudo tivesse sido ocasionado por causa de um mísero telefone.

Cerca de duas horas depois, quando enfim terminaram o jantar e Lucius se retirou da mesa acompanhado da esposa e cumprimentando o filho, ignorando a nora, Astoria subiu para o quarto furiosa, segurando as lágrimas de raiva. Quando Draco entrou no quarto ela cobrou satisfações, gritando o quanto o marido tinha sido apático, permitindo que ela fosse insultada. Draco argumentou que não poderia se indispor com o pai no primeiro dia dele em casa após anos de reclusão. Isto enfureceu ainda mais Astoria, que alegou que, para Draco, ela não passava de um enfeite dentro de casa. Discutiram por longo tempo aos gritos, trocando acusações - ela de que ele era covarde e apático, submisso ao pai, e ele de que ela era mimada e histérica, fazendo tempestade em copo d'água. Os ânimos se acirraram ao ponto de Narcisa invadir o quarto e intervir quando os dois estavam à beira de chegar às vias de fato. Astoria então saiu do quarto e foi dormir em outro, amaldiçoando a hora em que Lucius pusera os pés naquela casa outra vez.

Na manhã seguinte, pensou em tomar o café sozinha naquele quarto e passar o dia enfiada na ourivesaria, mas em vez disso, desceu mais cedo para tomar o seu café à mesa e evitar acusações de que afrontara a família Malfoy. Certamente, pensou ela, ninguém estaria lá ainda, e quando chegassem, poderia se retirar alegando que fizera a refeição mais cedo por ter ficado sem sono.

Porém, ao chegar ao salão de refeições, já havia uma pessoa à mesa.

O próprio.

Astoria pensou em voltar para o quarto, mas ele já a tinha visto, e ele tomaria esta atitude como uma afronta e sem dúvidas a usaria contra ela. Então, só lhe restou seguir adiante e sentar-se à mesa na companhia daquela pessoa desagradável.

"Bom dia", cumprimentou polidamente, sem encará-lo, enquanto se sentava.

Lucius a encarou sem responder. Ela não retribuiu o olhar frio e cheio de desprezo dele. Começou a se servir sem lhe dar atenção, embora estivesse se sentindo congelar por aquele olhar.

"Você não é bem-vinda aqui", disse Lucius, sem rodeios. "Não sei que estratégias usou para conseguir se casar com Draco, mas não pense que vai ficar aqui para sempre. Você não é uma Malfoy. Não criei meu filho com tanta dedicação para ele terminar preso a uma traidora do sangue".

Astoria quase abriu a boca para responder, mas acabou engolindo o insulto. A raiva começou a crescer em seu peito, sua respiração acelerou. Ela continuou se servindo, como se não tivesse ouvido nada. Sua mão começou a tremer devido à raiva contida, o que não passou despercebido por Lucius.

"Está surda? Estou falando com você. O nervosismo está a impedindo de pensar?"

Astoria respirou fundo e olhou para ele.

"Senhor Malfoy, o que eu lhe fiz para que tenha tanta raiva de mim? Não amarrei Draco e o obriguei a se casar comigo, aliás, foi o contrário. Por que não o impediu e incentivou a se casar com alguém de seu agrado? Tempo para agir o senhor teve, certamente."

Lucius estreitou o olhar:

"Não pense que me engana com seu jeitinho de boa moça. Estou de olho em você e nessa sua admiração pelos trouxas. Você não passa de uma traiçoeira dissimulada".

"Isso tudo é só porque uso um telefone celular?"

"Para uma bruxa de sangue-puro, você parece inteirada demais das novidades do mundo trouxa".

"Ora,faça-me o favor", ela disse, sendo imprudentemente irônica, "vocês têm um telefone em seu escritório! Qual é a diferença?"

A expressão no rosto de Lucius tornou-se raivosa. Astoria apontara a hipocrisia dele de modo certeiro.

"Não pense que suas artimanhas vão funcionar contra mim, garota. Não sou ingênuo como Draco parece ser. Eu estou atento a cada passo seu, e não vou lhe dar um minuto de sossego".

"Obrigada por me avisar. Não estou nem um pouco preocupada com o que quer que o senhor esteja fazendo ou pensando", ia dizendo ela de modo petulante, no instante em que Draco entrava no salão.

"Astoria, o que é isto?", ele indagou, ríspido.

"Pergunte ao seu santo pai", ela respondeu, zangada.

Draco olhou para o pai, buscando uma explicação. Lucius informou:

"Sua santa esposa está me faltando com o respeito!"

"Mas que inferno, Astoria!", Draco disse, aos gritos. "Custa alguma coisa você se esforçar para vivermos em paz?"

Astoria mal podia acreditar que Draco, sem sequer se dar o trabalho de procurar saber a verdade, estava tomando partido do pai.

"Não seja idiota, Draco! Não percebe que ele está te manipulando para jogá-lo contra mim?", ela gritou, furiosa, no instante em que Narcisa chegava à sala.

"Parem com esta gritaria!", ela disse rispidamente, e dirigiu-se a Astoria: "O que está pensando, para agir desta forma perante a família que a acolheu tão bem? Seus pais não lhe ensinaram o que significa respeito?"

Astoria, perplexa em ver todo o clã dos Malfoy contra ela,sacudiu a cabeça negativamente e disse: "Vão pro inferno,todos vocês!"

Saiu do salão pisando forte, transpirando raiva, e foi buscar uma bolsa, para sair e passar o maior tempo que pudesse longe de todos eles.

Entretanto, Draco a seguiu. Um minuto após ela pegar a bolsa e se dirigir até a porta, ele a abriu.

"Aonde você vai?", indagou,parado à porta, segurando-a e impedindo a passagem da esposa.

"Vou onde não me tratem como lixo", ela respondeu secamente, e dirigiu-se à porta, tentando forçar a passagem, já que Draco não saíra da frente.

Draco não permitiu que ela passasse. Ela insistiu, tentando passar por ele. Então, ele empurrou a esposa com força, fazendo com que ela fosse parar longe da porta, e fechou-a.

Astoria o encarou,estupefata:

"Usando a força física contra mim? Há tempos isso não acontecia, não é mesmo?" E com um sorriso extremamente sarcástico, completou: "Parabéns aos envolvidos".

Draco revirou os olhos, suspirou com força e disse: "Desse jeito não resolveremos nada. Vamos conversar como adultos."

Astoria foi sentar-se no banquinho de sua penteadeira. Draco sentou-se na cama olhando para ela.

"Querida", comentou ele, tentando manter a serenidade na voz, "tenha um pouco de paciência com meu pai. Sei que ele está sendo desagradável, mas por favor, tenha mais paciência."

"Paciência?", ela indagou, indignada. "Ele me insulta deliberadamente, me ataca gratuitamente, e eu tenho que ter mais paciência? Não sou um saco de pancadas, Draco!"

Uma expressão estranha passou pelo rosto de Draco. Astoria percebeu que ele estava com dificuldades para conduzir aquela conversa.

"Quando estávamos na Argentina", ela disse, "era esse o tipo de coisa pelo qual não queria voltar. Agora veja onde fomos parar. Insultos no jantar, insultos no café da manhã... Eu realmente não estou disposta a aturar isso, Draco".

"Vou conversar com meu pai", disse Draco,sem muita convicção. "Quero entender o porquê de ele estar tão contrariado com você".

"Ele me odeia porque me considera uma traidora do sangue", revelou ela. "Tudo porque tenho um telefone, coisa que aqui na casa vocês também têm".

"Não pode ser só isso", contestou Draco. Deve haver algo mais."

"Não me importa. Nunca fiz nada contra vocês, e tenho sido uma boa esposa. Não vou me submeter às humilhações gratuitas do seu pai."

Draco passou a mão pelos cabelos, sem saber o que dizer, e ciente de que Astoria estava certa. Então disse, mais para si mesmo do que para ela: "Não me obrigue a ter que escolher entre minha esposa e meus pais."

Sem dar atenção à angústia dele, ela respondeu: "Eu seria tola se fizesse isto. Já está bem claro para mim a quem pertence sua lealdade."

Terminou de dizer isto, pegou a bolsa e saiu.


Astoria foi encontrar-se com Charlotte. As duas foram almoçar juntas, levando Jullie,que agora tinha pouco mais de um aninho e estava com sua madrinha, dormindo tranquilamente em seu colo.

"Então", dizia Charlotte, "o nojento do Lucius resolveu persegui-la? Isso é mau. Aquele homem é uma raposa. Capaz de qualquer golpe baixo para se livrar de quem o incomode."

"Já percebi.", respondeu Astoria, resignada. "Eu só queria entender o porquê de ele ter ficado com tanto ódio de mim. O que eu fiz, afinal? Não e possível que seja só por eu ter comprado um telefone ou por gostar de televisão. Puxa vida! Sou uma boa esposa para o filho dele. Não deveria ser o suficiente?"

"Sim, se os Malfoys fossem pessoas normais. Porém, eles não são. Têm essas maluquices de sangue puro... Olha, eu até entendo, Theodore também valoriza isto, mas os Malfoys levam a obsessão ao nível do absurdo. Você é uma mulher bem melhor do que o filho deles merecem, e eles te tratam desse jeito? E vou te falar, Draco é um babaca por ficar quieto assistindo".

Astoria assentiu.

"O que mais me entristece é isto. Ele fica quieto ouvindo o pai me insultar. Sinceramente, não sei por quanto tempo vou aguentar. Maldita a hora em que esse homem voltou para casa".

Jullie começou a se mexer e abriu os olhinhos. Ao ver que estava no colo da madrinha, sorriu. Charlotte ofereceu uma mamadeira à filha, e a menina esticou a mãozinha. Astoria pegou o alimento e deu para a pequenina, que começou a mamar, bem quieta. Charlotte, então, perguntou sem rodeios:

"E o sexo?"

Astoria a encarou sem entender. "O que tem?"

"Não seja boba. Quero saber como vocês estão? Ele continua te procurando?"

Astoria riu, surpresa com a curiosidade da amiga.

"Estamos bem. Espero que não mude agora,depois dessa confusão".

"Isto é ótimo", aprovou Charlotte. "Por mais que briguem, se ele ainda quer te comer, é sinal de que nem tudo está perdido".

"Charlotte!"

"Ah, Astoria, para! Não vem posar de recatada, eu sei que você adora o esporte.

"Gosto, claro! Mas você fala de um jeito..."

Charlotte olhou para ela com um ar sério:

"Ouça bem, senhorita 'casei virgem': homem, quando começa a sumir da sua cama, é porque está comendo fora. Ainda mais homens como Draco, que sempre tiveram fama de não conseguir manter o pinto dentro da cueca."

Aquela conversa deixou Astoria insegura:

"Eu sei, Lottie, mas acho que ainda não chegamos a este ponto. Ele sempre me procura, e não percebi nenhuma mudança."

"E nada de frescuras, também. Sabe como os homens são".

"Não sou fresca.", Astoria respondeu, um tanto vaidosa. "Faço tudo o que ele gosta."

"Tudo mesmo?" Indagou Charlotte, maldosa.

"Tudo!", Astoria respondeu, com ar sapeca. "Ele já deu seus pulinhos fora do casamento, quando estava sozinho na Argentina, mas hoje em dia não tem motivo nenhum para procurar nada fora, porque em casa tem tudo o que quer".

Charlotte comentou, distraída, cutucando sua sobremesa com um garfo:

"Bom,se você acredita nisso, ótimo".

Astoria, que estivera observando Jullie, olhou rapidamente para Charlotte, assustada:

"Como é que é, Lottie? O que você está querendo dizer? Está sabendo de algo que eu não sei? Theodore comentou algo com você?" E olhou ansiosa para a amiga.

Charlotte olhou rapidamente para a amiga, depois olhou para a sobremesa, evitando os olhos de Astoria e parecendo desconcertada:

"Não, não é nada disso. Desculpe. Falei por falar."

Astoria ficou desconfiada, mas não insistiu. Charlotte aproveitou para mudar de assunto:

"Você já contou para ele sobre o lançamento de suas jóias?

"Não".

"Astoria! Falta apenas um mês!"

"Eu sei, senhora secretária." Disse Astoria, brincando, porém preocupada. O fato é que Astoria havia assinado um contrato polpudo para lançar uma coleção na loja mais famosa de Londres, a Harrods. Ela lançaria uma coleção exclusiva, e apesar de ser iniciante, teria seu nome e imagem promovidos, pois os executivos da loja acharam seus desenhos e as peças que ela criara realmente incríveis. Ela havia ganho muitas libras por este negócio, e estava muito feliz. Porém, lhe faltava coragem para dividir esta alegria com o marido. Não tinha certeza se ele iria gostar, mas não lhe passava pela cabeça desistir por causa dele.

Charlotte, além de amiga e comadre, tornou-se a secretária de Astoria, o que tornava as coisas difíceis, já que era preciso esconder tudo também de Theodore Nott, para evitar que ele comentasse algo com o amigo. Ele já tinha achado estranho o fato de as duas andarem se vendo o tempo todo, mas acabou atribuindo isso à proximidade com Jullie, para alívio de Astoria.

"Astoria, você precisa criar coragem. Daqui a um mês seu lindo rosto estará exposto na Harrords, e não vai ter como você arrumar uma desculpa quando o nome da sua coleção estiver lá,ao lado da sua foto."

"Eu sei! Eu vou falar com ele, vou contar tudo. Só estou preocupada, porque agora, com Lucius fazendo de tudo para jogá-lo contra mim, acho que vai ser mais difícil ele aceitar. Mas eu vou contar. Não tenho mesmo como esconder por muito mais tempo."

Charlotte concordou, e incentivou Astoria. Ela sabia que a amiga estava coberta de razão, e prometeu a si mesma que pensaria no assunto. Porém, não agora: Jullie estava desperta e queria comer doces, e sua madrinha foi alegremente com ela escolher alguns.


Um mês se passou, e Astoria não criou a tal coragem para conversar com Draco.

O fato é que não havia um único dia em que ela não fosse atacada por Lucius. Qualquer coisa era motivo para ele insultá-la. Com isto, Astoria e Draco discutiam quase todo dia, e nunca havia clima para a conversa. A casa estava em completa desarmonia. Narcisa apoiava o marido quando ele criticava Astoria e não admitia que ela o contestasse, porém, se voltava contra ele quando o alvo de críticas era Draco. Este, por sua vez, ouvia passivamente tanto o pai quanto a mãe, sofrendo com as críticas, mas sem coragem de enfrentá-los. Perdido, descontava na esposa sua frustração, e ela devolvia na mesma moeda. Assim, criou-se um círculo vicioso de ofensas, brigas e desarmonia. Eles acordavam fazendo sexo e alimentando a esperança de que aquele dia seria diferente, e terminavam o dia gritando um com o outro.

A gota d'água foi na véspera do lançamento das joias.

Astoria reuniu um pequeno grupo de amigas para conhecerem as joias em primeira mão. Como a família Malfoy não dava muita atenção ao que ela fazia na ourivesaria, Astoria garantiu que nenhuma das convidadas tivesse contato com a casa, e, para todos os efeitos, tinha chamado as amigas para um chá da tarde.

"Você é louca!", criticou Charlotte. "Draco não é burro! Claro que ele vai perceber que tem algo diferente acontecendo aqui! Por Merlin, você tinha que ter falado para ele!"

"Eu vou contar hoje. Quando todas forem embora, eu conto."

A tarde trancorreu tranquilamente, as amigas de Astoria amaram as joias e muitas diziam que logo iriam adquirir suas peças. Ela foi muito elogiada e estava envaidecida. Fez alguns desenhos na hora, a pedido das amigas, impressionadas com seu talento. Tudo ia bem, até que, quando já se despedia de algumas das amigas, Draco entrou no recinto. Com uma expressão horrível no rosto.

Astoria nem conseguiu disfarçar o susto e o medo que sentiu ao vê-lo. As amigas se dirigiram a ele,derretendo-se em elogios a ela. Charlotte, perspicaz, começou a se despedir das outras, de modo a fazer com que elas saíssem. Quando, por fim, só restava ela, puxou Astoria para um canto, apesar de Draco estar ali perto, parado e com uma expressão furiosa, e lhe disse baixinho: "Fique calma. Converse com tranquilidade. Se ele começar a gritar, deixe-o gritando e converse depois."

"Eu ia contar...", Astoria comentou em tom de lamento.

"Agora é tarde. Só lhe resta encarar, amiga. Boa sorte."

Astoria assentiu de leve. Charlotte dirigiu-se à porta, e ao passar por Draco ouviu-o perguntar: "Theodore estava sabendo de sua participação nisto?"

O tom foi tão assustador que Charlotte não respondeu com o sarcasmo que lhe caracterizava. Murmurou um "não" e saiu, não antes de lançar à amiga um olhar assustado.

Astoria olhou para o marido, e percebeu que ele estava com os punhos fechados com tanta força que seus dedos estavam avermelhados.

"Que nome se dá", começou ele, "a uma mulher que conspira contra seu próprio marido?"

"Eu ia te contar, Draco. Eu..."

"Se chama TRAIDORA!", ele gritou, assustando-a.

Ele se aproximou dela, olhando-a como se ela o enojasse, e disse:

"Como você pode ser tão dissimulada? Dorme ao meu lado, me beija, diz que me ama, transa comigo e me trai desta maneira!"

Ele estava tão raivoso que Astoria não conseguia organizar as ideias para se explicar.

"Eu ia te contar! Ia falar hoje! Eu..."

"Todos devem estar rindo da minha cara!", ele a cortou. "Uma Malfoy trabalhando, como se fosse uma trouxa! Como se eu não tivesse condições de dar uma vida decente para minha esposa! Você está precisando de dinheiro? Por que não me pediu mais? E pior, associando-se com trouxas! Você jogou o nome dos Malfoy na lama!"

"Não é verdade!", ela gritou. "Eu tenho um talento! E eu quis usar o meu talento! Que mal há nisso? Por que não posso fazer algo que me deixa feliz?"

"Seu maior talento é saber mentir!", Draco gritou, enquanto remexia dentro de seu blazer. Então, pegou algo e atirou com força em cima da esposa. O objeto a acertou e caiu no chão.

Ela soltou uma exclamação de surpresa e dor, mas abaixou-se para pegar o que Draco atirara nela, e entendeu o porquê da fúria dele: era o catálogo com as suas jóias, onde apareciam seu rosto, a assinatura "Astoria G." (ela usara o nome de solteira) e, na capa, uma linda foto de uma peça maravilhosa prateada e incrustada por pedras preciosas azuis: O Astoria's eyes.

"Draco", ela disse, tentando manter a calma, "eu errei em não contar a você. Errei sim. Desculpe-me. Eu tive medo! Era importante para mim, e eu tive medo que você fizesse algo para me impedir!"

"E eu faria mesmo! Onde já se viu? Uma Malfoy vendendo ouro, como uma trouxa qualquer. Eu jamais permitiria!"

Astoria percebeu que não adiantaria conversar com ele. Ficou quieta, seguindo o conselho de Charlotte.

Draco, ao vê-la calada e assustada, resolveu tripudiar.

"Sabe a quem você deve tudo isso aqui?", disse, gesticulando e abarcando toda a ourivesaria. "A mim! Se eu não tivesse lhe dado tudo isso, não teria nenhum brinquinho para você brincar de joalheira!"

Aquela fala dele, cheia de desprezo, fez acender uma pequena chama de coragem dentro dela.

"Não fale assim do meu trabalho. Você pode não gostar, mas muita gente dá valor."

Draco deu uma gargalhada sarcástica. Estava claro que ele queria humilhá-la.

"Trabalho? Chama isso de trabalho? Essa porcaria que você faz serve pra quê? É você que banca essa casa, onde vive como uma rainha?"

"Não fale do que não sabe! Eu tenho muito orgulho do que sou e do que faço! E tem mais, estou muito feliz por ter ganho meu próprio dinheiro sem precisar de você!", desabafou.

"Seu dinheiro não é nada! Você não é nada! Eu tirei você do lixo, sua vaca!"

Astoria levou as mãos à boca, numa expressão de espanto. Ela não acreditava no que estava ouvindo. Draco, saboreando o insulto, prosseguiu:

"Você era só uma vadiazinha em busca de um homem rico para te tirar da miséria! E eu te quis! Se não fosse por isso, você estaria chafurdando na lama com seus pais e a vagabunda da tua irmã até agora! Seu pai quase implorou para que eu me casasse com você! E você fica aí, cheia de empáfia, como se fosse alguma coisa! Você não trouxe nada pra esse casamento, e agora é milionária! Eu te tirei do lixo! Eu comprei você!"

Astoria não teve forças para reagir àquela ofensa. Simplesmente começou a soluçar e chorar. A alegria pelo seu grande dia estava arruinada. Ela estava envergonhada e ferida pelas palavras de Draco.

Ele, por sua vez, ao vê-la chorar, fez menção de consolá-la, mas não deu o braço a torcer. Ficou observando. Ela, após alguns instantes, saiu correndo em direção à casa. Entrou num quarto qualquer e chorou por horas, sentindo-se humilhada e destruída.

Enquanto isso, Draco olhava ao se acalmar, observava as joias que Astoria expusera. Olhou o catálogo e reconheceu várias peças cujos desenhos tinha a visto fazer. Ao ver a capa, lembrou-se dela explicando qual tinha sido a inspiração para aquela peça.

Ela desenhava tão bem... Tinha tanto talento...

Draco repassou mentalmente as palavras que tinha dito, e sem esforço percebeu que tinha sido extremamente cruel e injusto. Mais uma vez. Como já fizera tantas vezes, e sempre jurara que não faria mais.

E tudo porque ela tinha um talento incrível e tinha mostrado que sabia se virar sozinha.

A consciência da grande besteira que acabara de fazer recaiu sobre ele.

A certeza de que aquilo era imperdoável também.


"O que houve, filho? Astoria passou por aqui correndo, chorando, perguntei o que houve e ela não quis responder."

Draco explicou que usara palavras rudes contra a esposa, contando os pormenores da briga. Narcisa o olhou de forma condescendente, mas alertou:

"Você cometeu uma injustiça muito grande, Draco. Foi o trabalho de Astoria que me ajudou enquanto nossos bens estavam bloqueados. Ela me enviou dinheiro para manter a casa e pagar os empregados. Por isso não faltava para vocês na Argentina. O dinheiro que você mandava ela enviar, ela usava para vocês, e para mim enviava o que ela conseguia vendendo os desenhos salvou de passar vergonha diante dos nossos amigos. Você deveria ser muito grato a ela."

Draco ficou perplexo: "Como eu ia saber? Vocês não me contaram nada!"

"Ela pediu para que eu não contasse nada, porque queria poupar você de preocupações."

Ao ouvir aquilo, Draco sentiu-se ainda mais miserável.

Lucius, no entanto, ouviu tudo, e quando Narcisa se afastou, disse ao filho: "Você está certo. Astoria lhe deve obediência. Jamais poderia ter feito qualquer coisa pelas suas costas. Já estava na hora de você lembrá-la que é obrigação dela ser submissa a você."

Draco não respondeu. Estava confuso demais para saber o que pensar ou fazer.


O lançamento das joias foi um sucesso.

Todos os modelos foram vendidos e a loja recebeu pedidos para produzir muitos mais. Todos queriam conhecer a criadora daquelas peças maravilhosas.

Astoria estava ficando famosa, tanto entre os bruxos quanto entre os trouxas.

Draco não esteve ao lado dela no primeiro momento importante de sua carreira. E não teve coragem de conversar com ela e pedir desculpas. Os dois conviviam como se não vissem um ao outro. Lucius parecia muito feliz em ver a distancia entre eles. Narcisa conversava com um e com o outro, tentando fazer com que se reconciliassem. Sem sucesso.

Certa tarde, Astoria estava na ourivesaria com Charlotte, sentindo-se amargurada com os últimos acontecimentos.

"E agora, Astoria? O que você vai fazer?"

"Sei lá. Acho que vou embora. Vou alugar um apartamento em Londres, talvez, e viver sozinha por lá, longe desse inferno aqui."

"Vai abandonar sua casa? Sua ourivesaria?"

"Posso montar outra ourivesaria. E essa casa nunca foi minha. Lucius deixou bem claro que sou uma intrusa aqui, e o filhinho dele mostrou que pensa igual."

"Draco estava nervoso, Astoria. Não falou por mal."

"O que se fala na hora da raiva é o que se pensou nas horas normais."

Charlotte observou a amiga trabalhando. Seu humor sarcástico não tinha espaço naquela conversa: sabia que Astoria estava mal. Perguntou, então, desta vez a sério: "E o sexo?"

Astoria olhou para ela com uma expressão grave: "Acha mesmo que eu me rebaixaria a ir para a cama com um homem que diz que não sou nada? Que diz que me tirou do lixo? Que insulta a minha família, que está longe de ser perfeita, mas é minha família, e a mim? Que desmerece meu trabalho e me chama de vadia? Não, Lottie, não sou assim, tão passiva. Estamos dormindo em quartos separados enquanto decido o que fazer."

"Lucius deve estar dando pulos de felicidade."

"Está, sem dúvida."

"Eu não queria estar no seu lugar. Você e Draco se gostavam tanto... É triste ver um casamento se estragando assim."

"Eu gostava de Draco. Ele nunca gostou de mim de verdade, hoje enxergo. Sempre fui um objeto de adorno ao lado dele. Alguém que servia para ele posar de homem sério. Nunca tive valor na vida dele. Mas,ao contrário dele, eu o amava."

"Amava?"

Astoria desviou o olhar, parecendo perdida e pensamentos. Após alguns instantes, respondeu: "É. Amava."

Astoria pegou uma caixa cheia de aneis que ela deveria finalizar. Começou a alinhá-los na bancada, e enquanto fazia isto, uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Charlotte viu, mas não sabia o que dizer ou fazer. Olhou para outro lado, a fim de dar a Astoria a privacidade de chorar em paz. Ao fazer isto, olhou na direção da porta e soltou uma exclamação de susto, chamando a atenção da amiga. Ela olhou a tempo de ver Draco saindo apressadamente.

Levantou-se e foi até a janela. Draco estava entrando em casa. Astoria voltou à bancada. Charlotte pareceu preocupada.

"Será que ele ouviu alguma coisa?", indagou.

"Deve ter ouvido tudo. É bem típico dele, andar se esgueirando como um rato, para fofocar mesmo."

"E agora, Astoria? Ele vai querer brigar!"

"Que seja. O que tenho a perder, depois de tudo que já ouvi? Em todo caso, me poupou o trabalho de dar satisfações a ele."

Astoria seguiu trabalhando em seus aneis até a hora em que Charlotte precisou ir embora. Então, retornou para casa esperando por um conflito, mas, àquela altura, já não estava preocupada, pois, convencida da falta de amor por parte de Draco, não tinha nada a perder.


Astoria foi até o quarto buscar uma roupa, querendo se arrumar para jantar fora. Não estava disposta a sentar-se à mesa com a família Malfoy, fingindo que não ouvia insultos e aguentando o clima ruim que se instalara.

Ao entrar no quarto, viu que Draco estava deitado, vestido, mas sem os sapatos. Ela não lhe deu atenção. Começou a selecionar as roupas que usaria, e percebeu que ele estava se levantando e indo em sua direção.

Seu coração disparou, mas ela continuou agindo como se ele não estivesse ali.

"Astoria", ele chamou, com a voz rouca e um tom suave. Ela não deu atenção. Foi até a penteadeira buscar um par de brincos, e notou uma bela caixa de bombons finos, os seus preferidos. Então, percebeu que Draco tinha ido até a ourivesaria tentar uma reconciliação. Porém, isso não amenizou sua mágoa.

"Astoria", ele chamou outra vez. "Não me ignore assim. Vamos conversar?"

"Não temos nada para conversar, Draco."

"Quero pedir desculpas por toda a merda que falei para você."

Sem olhar para ele, ainda arrumando as coisas que usaria, ela respondeu:

"Não precisa pedir desculpas por ter sido sincero. Ao menos agora sei o que você realmente pensa a meu respeito".

"Eu estava com raiva. Você fez tudo pelas minhas costas, Astoria, como pensa que me senti ao descobrir?" Ele parecia ansioso.

Deixando transparecer toda a mágoa e rancor que estava sentindo, ela disse:

"Posso ter errado em não compartilhar com você algo que era importante para mim, mas não era justificativa para você dizer as coisas que disse. Mas tudo bem, não tem problema. Agora já sei como você me vê. Já sei que para você sou apenas uma vadia que se casou por dinheiro."

"Não é verdade."

"Todos sabem", ela prosseguiu, "as circunstâncias em que nos casamos. Não há inocentes nesta história. Porém, eu me iludi nestes anos todos. Achei que tínhamos construído uma relação. E o tempo todo, era isso: você bancando uma prostituta de luxo."

A expressão no rosto dele se tornou mais grave.

"Tenho capacidade para conquistar a mulher que eu quiser. Se estou com você, é porque gosto de você, e não por precisar comprar amor."

"Dispenso esse seu gostar. Se gosta de mim e diz as barbaridades que disse, imagino como seria se me odiasse."

"Seja razoável, Astoria", ele disse, e já se notava a impaciência em sua voz. "Você me escondeu algo importante, fez negócios pelas minhas costas, ainda tem meu pai me fazendo cobranças. Entenda que está sendo difícil para mim."

"Entendo. E vou facilitar sua vida: vou-me embora daqui. Talvez você vá precisar me aturar por mais uma ou duas semanas, mas depois disso, você será um homem livre outra vez."

"Você não vai a lugar nenhum.", disse Draco, autoritário. "Seu lugar é aqui, ao lado do seu marido e dentro da sua casa."

"Essa casa não é minha, nunca foi. Eu aqui dentro não passo de um estorvo! Vou embora, você querendo ou não!", ela exclamou, já alterando a voz.

"Não vai porra nenhuma!", Draco gritou, perdendo a paciência e dando um soco no guarda-roupas. "O que está pensando? Só porque tem uns trocados guardados está se achando poderosa? Você não vai a lugar nenhum! Vai ficar aqui comigo, querendo ou não!"

Respirando com força e com os olhos cheios de raiva, ela disse: "Vai, Draco! Repete o que você já disse! Me xinga outra vez, fala tudo o que você pensa! É tudo o que eu preciso para ir embora daqui agora mesmo!"

Draco perdeu explodiu de vez. Agarrou os braços dela, sacudindo-a enquanto gritava:

"Para! Para de me provocar, Astoria! Para de me irritar! O que é que você está querendo? Eu não vou deixar você ir embora! Você é minha! Coloca isso na sua cabeça de uma vez por todas! Você. É. Minha!"

Assustada e chocada, Astoria gritou: "Eu te odeio! Odeio você, odeio seu pai, odeio essa casa, odeio essa droga de vida!"

"Cale a boca!" Draco gritou e a empurrou, fazendo com que ela caísse na cama.

Amedrontada com a violência de Draco, Astoria se enroscou na cama e começou a chorar, soluçando com força. Um choro sentido, desesperado, de quem já perdera qualquer esperança de salvar aquela relação e queria simplesmente sair dali e viver em paz.

Draco a observou por alguns instantes, arrependido do que fez. Respirou fundo. De repente, exclamou: "Por Merlin, o que eu estou fazendo?"

Correu até Astoria, abraçou-a e começou a afagar seus cabelos e beijar sua cabeça: "Me perdoa, por favor, Astoria! Me perdoa! Eu sou um babaca, um fraco!"

"Me larga!", ela dizia, com um fio de voz, mas ele não conseguia.

"Por favor, me perdoa! Eu errei!Errei demais! Sei que não mereço o seu perdão, mas me dê uma chance de mostrar que posso ser melhor do que isso! Eu te suplico, Astoria, não me deixe!"

"De que adianta eu perdoar, Draco? Você vai fazer de novo, e de novo, e de novo!"

"Eu vou me esforçar! Eu juro!"

"Já estou farta de suas promessas. Eu quero ser feliz! Quero paz! E já percebi que será impossível conseguir isto estando ao seu lado!"

Draco a soltou. Com uma expressão derrotada, sentou se na beira da cama. Afundou o rosto nas mãos e chorou copiosamente.

"Me perdoa... Por favor, me perdoa!", ele pedia, visivelmente desesperado.

"Não dá mais, Draco. Vai ser melhor assim. Cada um para o seu lado."

Draco chorava compulsivamente.

"Eu faço tudo errado. Tudo! Magoei você tantas vezes que é impossível contar. Agora, meu pai aparece e age deste modo, e eu não tenho coragem de enfrentá-lo. Eu sou um covarde!"

Embora soubesse que nada justificava as últimas atitudes de Draco, ouvi-lo falando daquele modo a fez sentir pena dele. Ela se aproximou dele e o abraçou. Ele a abraçou também, e ficaram alguns minutos assim.

Então, ele a olhou nos olhos e perguntou: "Me perdoa?"

E ela respondeu: "Você não vai mudar."

"Me dá uma chance. Por favor! Deixa eu te provar que posso mudar."

Ela ficou encarando-o, com a certeza de que nada mudaria.

Ele disse: "Vamos viajar. Vamos para longe daqui, ficar um tempo fora, só nós dois. Sem avisar a ninguém. A gente precisa se afastar dessa merda toda e se entender. Vamos? Daqui a dois ou três dias a gente cai fora. Por favor, meu bem. Vamos salvar nosso casamento!"

"Eu não sei..."

"Me dá esta chance, por favor!"

Astoria desviou os olhos dos dele. Duvidava que seria tão simples que resolvessem seus problemas. Também não fazia ideia de como poderiam resolver. Tinha sérias dúvidas quanto a perdoar Draco e correr o risco de ser magoada outra vez.


DIAS DEPOIS

Lucius e Narcisa estavam à mesa, à espera do jantar.

"Onde estão aqueles dois, que não aparecem mais nem para comer?"

"Eles não estão em casa, Lucius."

"Onde foram?"

"Não sei."

"Falta de respeito", bufou Lucius. "Nem dão satisfações e deixam a família esperando. Isto é influência daquela desclassificada. Draco não foi educado desta forma."

"Na verdade", explicou Narcisa, "foi ideia do Draco não estarem aqui. Eles partiram em uma viagem, sem previsão de volta."

"Como é?" Indagou Lucius, perplexo.

"É isso mesmo. Estavam brigando demais, se desentendendo, e resolveram se distanciar e colocar os pingos nos is. Melhor assim. São muito jovens para viverem às turras."

Lucius não disse mais nada.

Enquanto a refeição era servida, pensava na atitude do filho. Draco jamais ousara desagradá-lo. Jamais desafiara sua autoridade. E agora praticava o que ele considerava um ato de rebeldia, sumindo com a esposa para livrá-la de sua presença.

Draco jamais o despontara, e agora fazia isto por causa dela.

Que poderes ela tinha para conseguir isso? Não era possível que Draco estivesse curvado às vontades dela apenas por seus atributos físicos e sexuais.

Mas, também, não importava. Este fato mostrava que ela era perigosa. E, a partir de agora, para Lucius, mais do que isso: era uma inimiga a ser destruída.


NOTA DA AUTORA:

Olá!

Perdoem por este capítulo enorme, mas eu precisava colocar todas as informações que aparecem aqui,senão,teria que escrever mais capítulos e a história ia se arrastar ainda mais!

Sobre Scorpius: aguardem só mais um pouquinho...rs

Bjs!