Capítulo 25 – Decisão dolorosa
Enquanto o dia amanhecia, os primos continuavam a descobrir, em carícias lentas, como eram os corpos um do outro. Vez por outra se beijavam, mas se concentravam mais em sentir o inigualável atrito dos corpos nus. Misha foi o primeiro a alcançar o membro rijo do parceiro, que afastou a mão do moreno. Era estranho, para o loiro, ser desleal com Jensen – apesar de ter sido expulso, não guardava mágoas –, com Jared, que sequer sabia se ficariam juntos ou não, e, sobretudo, com Collins, que quando se desse conta do que fazia certamente não conseguiria encarar o namorado e nem o primo.
– O que foi? – perguntou. – Não vou forçar você a fazer o que não quer... – Misha estava confuso.
– Olhe, eu não posso, me desculpe. E não é somente por mim, mas sim por você também. Pela vida que quer construir com o Sr. Ackles. Talvez nós pudéssemos curtir um tempo sem que ele soubesse, só que o peso na consciência seria demais pra suportar... Sacou?
– Sim, perfeitamente. É só que... Eu tô muito irritado com o Jen. Talvez não seja motivo... Só que é barra perder os pais e o irmão... Vim pra cá na tentativa de construir algo novo. Conheci Jensen e me encantei. Eu o amo, Alan. Mas não sei se ele vai querer me ver, por todas as circunstâncias chatas que eu disse antes. Quando mais precisava de mim, eu saí...
– Nós já falamos sobre isso, não foi? – o menor assentiu. – E então... O que há? – sem saber o que dizer, o mais velho começou a chorar.
O garoto o abraçou forte. Ajudá-lo o fazia se sentir melhor, o fazia esquecer quão ruins tinham sido os dias anteriores na companhia do violento Philipe.
– D-desculpe – balbuciou. – Eu tentei proteger você tantas vezes... E agora estou tão confuso quando você mais precisa de mim... Eu...
– Shhhh, ta tudo ok, Mi. Não precisa se justificar, eu entendo. Claro que passei por problemas, porém quero auxiliar você. Isso me faz ser mais resistente... Assim não saio pra rua pra usar nenhuma porcaria.
– T-tá, valeu – Collins não parava de chorar. Os soluços eram constantes, como se ele expressasse, enfim, toda tristeza por perder a família e por se sentir inseguro quanto ao futuro com o policial.
Aos poucos o moreno se acalmou. Ainda pediu desculpas, por várias vezes, para o garoto, que não abandonara a posição: continuava deitado com o primo.
– Ta tudo bem. Você só tava me tentando, mas isso é um mero detalhe sem importância – ironizou.
O menor riu com o comentário de Alan, que tinha um sorriso bobo nos lábios. Os dois se encararam, pouco antes do maior subir para a cama que estava deitado minutos atrás.
– Obrigado por me impedir, não sei onde eu estava com a cabeça – disse o moreno.
– Quer mesmo que eu responda onde você tava com a cabeça? – Collins deu um soco no braço do mais novo, que riu divertido.
– Não, valeu. E, olhe, se precisar falar algo sobre tudo que houve com você, conte comigo, viu? Porque passei por situações semelhantes... – o jovem assentiu.
– Sabe... Se o Jensen descobrir que nós dois estávamos juntos aí no colchão, ele vai querer me bater... E o Jared vai dar uns tapas em você.
– O quê? – perguntou, surpreso. – Hum... Deixe-me ver... Nós podemos dizer ao Jen que fazíamos exercícios práticos de como manter a forma – sugeriu, em uma brincadeira.
– Ah sim, essa é uma maneira polida de lhe informar que quase que você e eu transamos... Você não existe, Mi – Alan ria muito.
– Hum... Peraí... Eu não entendi uma coisa: o J-Jared? Mas por quê? O que o rapaz tem a ver com essa história?
– Bem, com isso assim, especificamente, eu não sei – brincou. – Mas o Jay e eu estamos conversando. Até agora nada sério, só que acho que gosto dele.
– Ei, você sabe que ele tem namorada? – o outro fez que sim com a cabeça. – E então, como vai lidar com isso?
– Eu não sei. Mas pra quem teve de segurar a onda com um homem gostoso me provocando, o resto é moleza... Não é, Mi? – sorriu ao encarar o primo.
– Não tenho idéia do que você ta falando – o moreno se fez de desentendido.
– Hum... Não me obrigue a ir aí pra mostrar – ameaçou, em um tom brincalhão. – Porque com essa cara sedutora você parece um demônio tentando uma virgem... Ou quem sabe uma criatura inocente... – o menor riu abertamente. – Não sei com quem aprendeu a ser tão danado... Só pode ser com o Sr. Ackles.
– Que eu saiba você não é nem uma coisa nem outra – retrucou. – E o Jen não me ensinou metade do que sinto que ele pode...
– Ah é? Agora fiquei curioso... Como o policial é com você? – quis saber. – Danado desse jeito?
– Não, longe disso. Ele me trata bem até demais. Teme ir rápido comigo, diz que não quer me machucar – contou.
– É, o cara ama você, mesmo. Graças a Deus você encontrou alguém que mereça – o outro concordou. O silêncio se fez notar. – Vamos dormir um pouco.
– Sim, até porque estou com sono – Misha se mexeu no colchão. Resolveu dormir sem roupa, tamanha era a excitação que ainda o dominava.
Quanto ao garoto, o olhava com os olhos entreabertos. Pensava quão cretino o primo era por ter dormido nu. E cogitou a possibilidade de que os policiais os vissem assim. Por isso achou melhor se vestir e cobrir o corpo do outro.
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Por volta das sete e meia da manhã, Jared e Jensen já circulavam pelas ruas de Dallas, atrás do paradeiro de Misha Collins. O que dificultava as investigações, porém, era que ninguém observara para qual lado o rapaz tinha ido durante à noite anterior. Mas o loiro não desistia. Queria encontrá-lo, lhe dizer que podia retornar para casa, para o emprego. E o moreno alto o ajudaria no que fosse possível para achá-lo.
Os dois conversavam sobre a situação na casa do mais velho, quando o celular do mais novo tocou. Surpreso por receber um telefonema tão cedo, tentou identificar o número no visor do aparelho, entretanto não o reconheceu. Resolveu, mesmo assim, atendê-lo. E a surpresa foi ainda maior:
– Oi Jay, sou eu, Alan. Como você ta, tudo ok? – perguntou.
– Garoto! – o tom soou reprovador. – Eu estou bem, obrigado – achou melhor amenizar o modo de falar. – E você, por que diabos fugiu do hospital?
– É uma longa história, cara. Posso contá-la pessoalmente, se quiser – propôs, antes de passar o endereço do local em que estava.
– Ta bem então – comentou, depois que parou o carro oficial e que anotou o endereço. – Estamos indo praí. O Jensen ta aqui comigo, ok?
– Claro! Posso trocar uma palavrinha com o Sr. Ackles? É coisa rápida! – pediu.
Padalecki se despediu do jovem e passou o celular ao colega. Contrariado, o loiro levou o aparelho ao ouvido.
– Alô. Quer falar comigo? – a questão era óbvia, mas como não tinha a mínima idéia de como iniciar a conversa, resolveu perguntar alguma coisa.
– Sim. Só pra avisar que o Misha ta aqui comigo – o policial suspirou pesadamente.
– Desde quando? Como ele achou você? E por que não contou isso para o Jared?
– Porque que eu saiba você é o namorado dele, senhor. E fui eu que o encontrei, ontem à noite, em uma rua do centro da cidade. Avisei você antes, porque meu primo ta muito abalado com o que aconteceu na sua casa...
– Ah! Então ele relatou tudo a você, não é? E pelo jeito que me conta a história, você deve ter consolado ele!
– Sim, senhor. Mas não como pensa. E, francamente, não é melhor se preocupar com a fragilidade emocional dele ao invés de querer brigar comigo? Reflita, por favor, Sr. Ackles... Sei que sente ciúmes, mas, acredite, eu não vou desrespeitar vocês dois. Sou um maldito viciado, não um desalmado. Misha é minha família, e me considera assim. Se ele ver você e eu brigando, não vai ser legal, até porque, sejamos sinceros, qual motivo temos para discutir?
Jensen ficou quieto. Nunca escutara palavras tão sensatas de um moleque tido como avoado e encrenqueiro. Aquilo foi tão inesperado, que o loiro resolveu dar um voto de confiança ao garoto.
– Ta bem, você ta certo. Jared e eu estamos indo pra sua casa – concluiu. – Até logo.
– Até, senhor – o policial desligou o telefone e o entregou ao colega, que voltou a dirigir minutos depois.
– Viu? Eu disse... Eles estão juntos! Se tivéssemos ido procurá-los ontem, talvez não precisássemos fazer isso agora, seu cabeça-dura.
– É, tem toda razão, Jay. E o jovem me surpreendeu. Não sabia que era tão maduro...
– Ah é? Por que diz isso? – Jensen lhe relatou todo o diálogo que tiveram, e o companheiro sorriu contente. – Que bom que, aos poucos, você ta entendendo que eles têm uma forte ligação, mas que é só isso.
– É, eu tenho ciúmes. Só que amo muito o Mish – concluiu. – Dirija mais rápido... E me diga uma coisa: que história é essa de ter uma foto do Alan no seu quarto?
Padalecki guiava o carro oficial na velocidade máxima permitida sem o uso do alarme. No caminho ele narrou, embora relutasse bastante, as conversas que o primo de Misha e ele tiveram durante o tempo de viagem até Boston. Era nítido que havia um interesse do moreno alto no garoto.
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No pequeno casebre, o jovem preparava um café – manualmente –, para o moreno. Com o pouco de dinheiro que tinha, comprou dois pães e manteiga, para que o primo se alimentasse. Arrumou tudo em uma bandeja velha e pensou:
– Tomara que ele não repare – caminhou lentamente até o pequeno cômodo. Como a moradia era minúscula, qualquer barulho poderia acordá-lo.
Misha despertou ao sentir os toques gentis do outro em seus cabelos. Espreguiçou-se e sentou. O garoto lhe entregou o café, ainda quente, para que bebesse.
– Bom dia. Não pude comprar nada melhor, apenas dois pães e manteiga – comentou. – Desculpe.
– Ta tudo ok, menino. Nem precisava se incomodar... Bom dia, obrigado – ele iniciou a refeição, enquanto o jovem magro foi verificar de onde vinha o barulho que escutava.
Deparou-se, assustado, com Paul – velho conhecido dos tempos de uso desenfreado de heroína –, a entrar pela janela do casebre. Foi até ele e, estendendo-lhe a mão, perguntou:
– Que diabos há com você? Será que bater à porta não é mais interessante e natural?
– Só vim avisar que o traficante ta uma fera... E ta atrás de você. Dê o fora dessa localidade, cara – o recém-chegado caminhava pela casinha. Apenas parou em frente à porta do cômodo no qual Collins tomava café. – Hum... Quem é a gracinha? – aproximou-se do moreno, mas foi parado por Alan, que lhe deu um violento soco no nariz.
– Cala boca, Paul. E some daqui – rosnou. – Porque senão vai ter uma desagradável surpresinha...
– Ta, não precisa ser agressivo... Droga! Acho que você quebrou o meu nariz! – a dor era insuportável.
– É, se ferra. Não mandei mexer com ele – apontou para o menor. – Cai fora! – gritou.
– Ta, nervosinho – o viciado resolveu sair pela porta da frente, o que chamou a atenção de Henry, que vislumbrou o garoto magro.
– Você é meu, queridinho – o traficante agarrou Alan pela gola da camisa e, ágil, o derrubou ao chão. – Eu vou fazer tanta coisa com você... O que o babaca do Philipe fez não foi nada... O que eu tenho se chama criatividade... Você vai experimentar e, depois, vai querer uma da boa – Henry se referia ao uso de drogas. – Um cliente como você... Eu não perco nunca! – comentava, ao mesmo tempo em que tirava a roupa do jovem.
Enquanto isso, outros viciados entravam no casebre para roubar tudo que fosse possível. Misha conseguia impedi-los, com socos e pontapés, de pegar a mala dele. Foi então que o auxílio chegou. O carro da polícia foi visto ao longe por Paul, que alertou os companheiros de roubo. Todos saíram correndo. Apenas o traficante permaneceu na salinha com o primo de Collins.
Ao perceber a gravidade da situação, Jensen entrou, de imediato, para tirar o namorado da casinha. Bem que o moreno quis ajudar Alan, mas o policial não deixou.
– O Jay ta vindo... E ta armado... Vamos! – carregou-o para fora, enquanto o tranqüilizava.
Ao mesmo tempo em que o menor resumia tudo que ocorreu, para pôr o loiro a par da história, Padalecki entrava, como um furacão, no lugar. Ao ver Henry beijar, lamber e chupar os mamilos do menino e, assim, submetendo-o de maneira grosseira a sentir aquilo tudo, o policial deu um tiro para cima. O traficante, então, saiu correndo. Mas não foi muito longe. O moreno alto o alcançou e lhe deu uma surra.
– Ir atrás de um cara que somente quer se ver livre das drogas e que ta fragilizado é fácil, não é? – batia, furioso, no criminoso. – Agora quero ver você me procurar... Faça se é homem! – derrubou-o ao chão e voltou ao carro.
Como Alan já estava dentro do veículo – pois Ackles o carregara para lá –, Jared saiu, a toda velocidade, da zona periférica de Dallas. Objetivavam, após tamanha agitação, levar os Collins para o apartamento de Padalecki. Lá poderiam conversar com calma.
