Capítulo 24
- Ordem no tribunal! Ordem no tribunal! – disse o juiz, a plenos pulmões. Kate gritava desesperada na cadeira das testemunhas, declarando-se inocente e querendo correr para os braços dele, que já saía do tribunal. Ela quase gritou novamente, dizendo seu nome, mas conteve-se. Giancarlo provavelmente pensava que ele estava morto, e era melhor continuar dessa maneira.
Para seu desespero, ele pareceu não ligar para seus gritos, e saiu do tribunal cabisbaixo. Uma dor profunda atingiu seu coração por vê-lo tão apático e tão profundamente triste. Ele parecia um fantasma do que outrora ele foi; o sorriso, tão característico, não estava mais em seu rosto. O brilho vivo de seus olhos parecia ter desaparecido, e ele aparentava estar cinco anos mais velho. Não parecia ser mais ele mesmo; era como se outra pessoa tivesse tomado conta de seu corpo. Uma pessoa derrotada, fraca e infeliz.
Depois de a ordem ter sido estabelecida, o júri entrou na sala especial para deliberar. Cada uma daquelas pessoas tinha plena consciência do veredicto que deveriam dar muito antes de entrar naquele tribunal, mas as conveniências foram mantidas. A grande maioria das pessoas sentadas naquela mesa, numa sala restrita, devia algo para Giancarlo, e as que não deviam eram seus amigos próximos. Philipo Mortatti, primo de Giancarlo, viera especialmente da Itália para participar do júri especial. Giancarlo uma vez salvara sua vida, e era hora de recompensar. Mas ele nunca pensara que seria assim tão simples.
Quando a deliberação acabou, Philipo, que era o representante oficial do júri, entregou ao juiz um envelope contendo o veredicto. Thomas Jackson, o juiz, também fazia parte de todo o esquema armado por Giancarlo para o julgamento, e também já sabia o veredicto. Na realidade, a única pessoa naquele julgamento que não estava consciente do esquema era a própria Kate. Ele abriu o envelope com esmero, notando que o público estava ansioso para ouvir o destino de Katherine, e se deliciou com isso. Ele seria bem incisivo no seu discurso para impressionar Giancarlo e a imprensa.
- Em unanimidade, o júri presente alega que Katherine Austen, ré, é culpada de todos os crimes a que fora acusada. Declaro que sua pena será morte por injeção letal. O mundo finalmente se verá livre deste demônio em forma de mulher, senhoras e senhores, em dois meses, a partir desta data. Sessão encerrada.
Os policiais tiraram Kate do banco dos réus, algemada, e contra o protocolo que dizia que ela deveria sair por uma porta específica pelos fundos do tribunal a fim de não encontrar os jornalistas, eles a levaram pela porta principal, onde uma multidão esperava ansiosa para ver o resultado do julgamento, e repórteres estavam em polvorosa na tentativa de conseguir uma entrevista exclusiva. Eles mal conseguiam andar; a multidão era uma massa opressora que os impedia de se movimentar normalmente. Gritos de "Assassina", "Prostituta do Inferno", e coisas piores, se confundiam com os apelos dos jornalistas na tentativa de perguntar alguma coisa para Kate.
- Senhorita Katherine, o que tem a dizer sobre sua
sentença?
- ... Morte? O que você tem a dizer? Por
favor, fale conosco!
- ... Acusada de Latrocínio...
Mortatti... Ford...
Com a confusão formada ao seu redor, ela só conseguia distinguir partes das frases. Mas uma ainda martelava em sua cabeça; sentença de morte, sentença de morte... Ela sabia agora, não queria mais morrer. Algo dentro dela reviveu de novo, algo bem dentro dela a empurrava para a luta, para a sobrevivência, algo que de início ela não sabia identificar, mas inconscientemente ela sabia o que era. Seu amor por Sawyer. A possibilidade de vê-lo novamente, de ouvir sua voz outra vez, nem que fosse a última, a fez viver novamente. Ela queria desesperadamente viver por este momento, nem que esse momento fosse apenas um instante.
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Três
dias após o julgamento, Kate tinha se tornado a atração
principal na Penitenciária. Uma espécie de celebridade,
sim, era isso que ela tinha se tornado. No almoço, que era
servido às 11 horas, todas queriam vê-la ou ao menos
trocar duas palavras com ela, porque afinal de contas aquela era Kate
Austen, a doida que ousara se meter com Giancarlo Mortatti. Mas ela
era uma doida muito bonita, o que aumentava ainda mais sua fama. Kate
estava detestando isso. Tentara por duas vezes não ir almoçar,
jantar ou fazer qualquer coisa fora da cela, mas eram as regras, e
ela tinha que cumprir. Ao menos, ela pensava, nada de abusivo tinha
sido tentado ainda, mas Josephine ainda a olhava com aqueles olhos
gulosos, e ela tinha arrepios de nojo toda vez que isso acontecia.
Mas o fato era que sua repentina popularidade dera a ela um tipo de
escudo; ninguém mexia com ela, ninguém tentava nada, e
então Kate agradecera esse parco momento de falsa paz que ela
tinha, porque tinha consciência que poderia ser muito pior do
que já estava.
Às três horas da tarde, uma sirene soou. Kate sabia que estava muito cedo para o jantar e muito tarde para o banho do sol, e estranhou a sirene tocando fora de hora. A negra careca estava acordada no outro catre, e pela primeira vez em mais de uma semana Kate tentou conversar com ela.
- O que é isso?
Ela não obteve resposta imediata.
-
Hey, o que é isso? Que sirene é essa?
- Você
está falando comigo?
- Creio que sim.
- Eu pensava que
você era muda.
- Não, eu não sou.
- Pirada
da cabeça, no mínimo. Você passou uma semana
sentada no mesmo lugar dessa cama aí em cima olhando pro mesmo
ponto do outro lado da parede, como alguém que vê um
fantasma... E por deus, acho que sem mexer um músculo!
-
Eu... eu não estava num momento muito bom.
- E quando não
se tem um momento muito bom aqui doçura?
Doçura. Doçura... As palavras trouxeram-lhe lembranças que ela achava que tinha eliminado da cabeça. O jeito que ele a tocava. O fogo em seus olhos. Suas mãos ágeis percorrendo todo seu corpo. Sua língua quente tocando cada parte sensível, seu membro viril a preenchendo com furor. O jeito que ele a abraçava durante a noite, como ficava brincando com os cachos de seu cabelo, os enrolando entre os dedos. Seus gemidos, sua voz rouca dizendo palavras indecentes, o cheiro que ele tinha, o sabor. Como tudo encaixava, como tudo funcionava de uma maneira avassaladora. Tudo. Ela se perdeu em seus devaneios, até ser tirada deles pela negra lhe chamando a atenção.
-
Eu estou falando com você, droga! Eu disse que você era
doida.
- Me desculpe, eu me distraí.
- Eu hein... bom,
eu estava falando que essa sirene é para avisar que hoje temos
visitas. Você não vai jogar uma água no corpo e
passar o pente nos cabelos?
- Para quê?
- Ora para
quê... você não tem nenhum macho pra te visitar? –
Kate a mirou com um olhar perdido e magoado.
- Eu acho ... eu
acho que não tenho mais.
- É uma pena. Visitas são
a única diversão de verdade que se pode ter aqui. Ou
pelo menos é a única diversão permitida.
-
Ninguém vai vir me visitar. Eu vou ficar aqui.
- Não,
você não pode. A não ser que você esteja
com a porcaria de uma doença ou quase morrendo, ninguém
fica aqui sozinha na cela. Calcinha de Ferro vai te tirar pelos
cabelos se você não quiser ir.
- Calcinha de Ferro?
-
Sim, a polaca azeda. Acho que você a conheceu, não
foi?
- Josephine?
- A própria. Demos esse apelido
carinhoso pra ela.
A negra se levantou e começou a se ajeitar em frente a pia. A mulher oriental e a latina já acordavam, e também se levantaram.
- A mudinha pirada
não é muda gente. Fale oi para as meninas doçura.
– disse a negra para Kate.
- Por supuesto! Eu sabia que
essa chica não era muda. Como é seu nome corazón?
-
Kate.
- Kate? Que nome diferente. Eu sou Lola, a japinha
preguiçosa é Kameko e você já deve ter
conhecido Enersttine.
- É, sim.
- Bueno chica... –
Lola a olhava de cima a baixo – acho que teremos tempo para nos
conhecermos melhor não é?
- Cale a boca, sapatão.
– berrou Enersttine. – Eu to cheia de você, mexicana
fedorenta.
- Do que você me chamou??
- Você ouviu,
sapata. Cale a boca.
Lola já ia partindo para cima de Enersttine, mas a inspetora de corredor chegou e disse que elas tinham cinco minutos para terminar de se arrumar. Elas se ajeitaram do jeito que podiam, enquanto Kate as observava. Kameko, a oriental, parecia demasiado tímida e inocente; seus traços delicados, a pele alva e o cabelo extremamente liso e preto não combinavam com a feiúra do lugar. Kate não conseguiu imaginar do que aquela pobre criatura fora acusada de fazer. Já as outras duas se encaixavam com os padrões; cicatrizes no rosto, porte masculinizado, fortes. Capazes com certeza que cometer um crime.
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Em um salão enorme, cheio de cadeiras e mesas impessoais, as presas recebiam as visitas. Elas sentavam lá, e esperavam ansiosas por alguém que lembrasse que elas tinham sido esquecidas naquele lugar. Mulheres de todos os tipos, cores e credos se sentavam naquelas cadeiras velhas e esperavam que o mundo lá fora entrasse por aquela porta enorme no final do salão e trouxesse um pouco de vida real para aquele lugar. Muitas não recebiam visitas de pessoas as quais esperavam. Muitas não recebiam nada além de um lugar vazio a sua frente. Mas uma vez por mês, freiras de um convento ali perto visitavam as presas a fim de lhes dar um pouco de afeto e atenção. A fim de lhes lembrar que a vida podia ser doce. Kate não sabia disso. Sentou na cadeira e ficou minutos inteiros olhando para o nada, ainda lembrando dele, ainda com ele em seus pensamentos. Uma mulher gorda, uma freira, sentou-se a sua frente, sem que ela percebesse.
- Olá,
milha filha. – Kate virou assustada e fitou aquela mulher simpática
a lhe encarar.
- Eu te conheço?
- Não, e nem eu
te conheço.
- Então porque está aqui?
-
Porque é isso que eu faço.
- Você visita
pessoas na prisão as quais nunca ouviu falar?
- Não,
eu faço caridade.
- Detesto caridade, e não preciso
da sua.
- Não seja assim. Eu só vim lhe trazer
palavras de conforto.
- Palavras de conforto?
- Sim, as
palavras de Deus, minha menina.
- Deus esqueceu esse lugar, minha
senhora, e me esqueceu também.
- Não diga isso. Ele
sempre está ao lado de todos nós.
- Então ele
tem sido um pouco ausente.
- Você não acredita em
Deus, menina?
- Eu não sei se acredito em coisa alguma.
Tudo que eu antes acreditava se mostrou ser uma grande mentira,
então, talvez eu não acredite mais nele. Talvez eu não
acredite mesmo em nada.
- Porque és tão descrente?
-
E porque você é tão inconveniente?
- Vejo que
você não quer mesmo minha companhia. Que Deus tenha
misericórdia de você, minha menina.
A freira se afastou de Kate, e a deixou com seus pensamentos. Ela não queria companhia alguma. Muito menos compaixão ou pena de alguém. Ela detestava sentir que alguém achava que ela era indefesa, uma pobre alma abandonada por Deus. Ela se sentia abandonada, mas não por Ele, e não era digna de pena também.
Minutos depois, alguém se aproximou dela novamente. Ela não se deu ao trabalho de virar para ver quem era, porque não estava querendo conversa com ninguém. Mesmo assim, a pessoa sentou-se a sua frente. Ela se manteve calada.
- Olá. – Era uma mulher, mas tinha uma voz
estranha.
- Se você também veio dizer as palavras de
Deus, eu já às ouvi e não as quero de novo,
muito obrigada. – ela continuava de costas.
- Não vim
trazer as palavras de Deus, minha cara.
A mulher agora tinha voz de homem, e Kate virou-se de repente. E não podia acreditar no que estava vendo: Um homem vestido de mulher sentado bem na sua frente.
Sawyer.
