Capítulo 24: Convalescência.
Naquela manhã, a despeito de continuar sentindo-se exausta, Minerva acordou bem mais cedo que de costume. Na noite anterior, mesmo depois de Albus deixar seu quarto (e talvez justamente por isso) tinha demorado a adormecer e quando o fizeram foi tão profundamente que não chegara sequer a sonhar. Sentia que poderia continuar a dormir por dias, mas acordou assustada ao dar de cara com um par de olhos escuros e muito curiosos.
Olhos esses que pertenciam a uma linda fênix, empoleirada na mesma cadeira em que seu dono estivera noite passada, inclinada para frente a observá-la com uma intensidade que não era de se admirar que tenha despertado a garota. Estranhamente, para Minerva a maneira como seu exótico visitante piscou pareceu como se a estavisse cumprimentando.
– Caramba, Fawkes, temos que parar de nos encontrar desse jeito – exclamou, ainda com o coração aos saltos.
A ave levantou vôo e foi se aninhar no colo dela, então cantou lindamente, porém baixo o suficiente para que só ela escutasse. Por sua vez, McGonagall sorriu e acariciou a cabeça da fênix, pensando que se essa era o jeito de seu namorado dizer que estava tudo bem, também estava de acordo.
– Eu sei, você não quis me assustar – disse, aceitando contente o pedido de desculpas implícito no cantar da ave. Só parou de alisar-lhe as penas quando o bicho lhe estendeu uma pata, mostrando assim o bilhetinho que nela fora amarrado com uma fina fita vermelha. – É do Albus?
Fawkes anuiu em confirmação, mas mesmo assim Minerva não conseguiu abri-lo imediatamente. Sua memória voltou alguns dias atrás, levando-a de volta para a orla do lago, mais precisamente sob o velho carvalho onde Dumbledore admitiu que teria de viajar em breve. Mas ele dissera no início do próximo mês... Assim como também dissera que a data não havia sido confirmada.
E o medo e o remorso a invadiram como uma náusea, só de pensar na possibilidade de estar segurando um bilhete de despedida. Não, ele não iria embora sem se despedir... Não é? Poderia não ter tido tempo, ou estar com receio de falar com ela depois da noite passada.
Deu-se um tapa na testa. Maldita hora que tinha discutido com ele!
E a garota passou tanto tempo chamando a si mesma de estúpida que Fawkes teve de bicá-la para forçá-la a abrir logo a carta. A letra fina e inclinada estava menos caprichada que de costume, como se tivesse sido escrita com pressa, e não havia nada ali de informal ou carinhoso capaz de delatá-los caso aquelas poucas linhas se extraviassem.
"Bom dia, minha querida.
Perdoe-me por te procurar tão cedo, mas preciso falar contigo. Por isso pedi a Fawkes que te trouxesse para mim.
Esperando-te ansioso,
Albus."
McGonagall estranhou a concisão do curto bilhete quase tanto quanto a urgência em buscá-la tão cedo em pleno domingo, mas tratou de ignorar seus temores e se aprontar o mais rápido que pôde para acompanhar a ave. O que lhe deixou apreensiva novamente: ter que ir desse jeito ao encontro do ruivo.
A garota já pesquisara o suficiente sobre fênixes, justamente por causa desta em particular, para saber a maneira bastante peculiar como elas se locomoviam sem precisar levantar vôo. E pode-se dizer que não se sentia muito tentada a explodir em chamas nesse momento.
Mas lembre-se também de que é de uma legítima grifinória que estamos falando. E acrescente aí além da sua determinação característica uma imensa curiosidade em descobrir o que Albus tinha a tratar consigo. Por isso ela se armou de coragem, estendeu o braço e fechou os olhos quando sentiu as garras da ave se fecharem quase que delicadamente em torno de seu pulso.
Entretanto, não foi desagradável como seria de se supor. Sem o aflitivo puxão no umbigo da aparatação ou os rodopios atordoantes da rede de flu, viajar com a fênix foi pouco mais que a cambalhota no estômago de quem pisa em falso na escada e acaba pulando um degrau. E também inesperadamente rápido. Mas, para sua surpresa, quando se permitiu abrir os olhos e constatar que felizmente o fogo que a envolvera não tinha durado o suficiente para sequer chamuscar um fio de seu cabelo, viu que não tinha ido parar no escritório de Dumbledore nem em sua sala de aula. Era uma das salas desativadas da ala norte do primeiro andar, com o escasso mobiliário todo empilhado no fundo da sala, o ar abafado por conta das janelas fechadas sabe-se lá desde quando e o quadro-negro que parecia não ver um apagador há décadas coberto de caricaturas, insultos e jogos da velha e de forca há muito concluídos.
Mesmo assim lá estava ele, aguardando-a de pé e com um sorriso afável no rosto, a barba e os cabelos vermelhos tornando-se mais acobreados sob o sol da manhã que escapava por uma fresta das venezianas cerradas, e um brilho insondável nos olhos cintilantes.
Sem saber exatamente o que dizer, ela simplesmente acenou e caminhou até ele, correspondendo timidamente ao seu sorriso. Sentiu uma onda de alívio vir junto com o arrepio quente da magia quando ele pegou a mão dela e a trouxe junto ao rosto para depositar um beijo longo em seu torso.
– Desculpe-me por interromper o seu tão merecido descanso, mas confio que Fawkes tenha sido gentil ao buscá-la.
– Um perfeito cavalheiro – ela respondeu, refreando a si mesma para parecer moderadamente interessada quando na verdade estava se roendo de curiosidade. – Você queria me ver?
– Desesperadamente – ele afirmou, a atenção perdida na mão dela ainda entre as suas. – Não gostei do jeito como nos despedimos ontem. Em nenhum momento eu quis...
– Nem eu – ela o interrompeu com ares de quem queria findar o assunto.
– Então você me perdoa?
Dumbledore levantou o olhar para encontrar com o dela, tão esperançoso e temeroso que beirava o infantil. Não importa a idade ou o comprimento da barba, quando a olhava ele ainda tinha olhos de criança. E ela amava isso nele tão completamente que até teria sido capaz de perdoá-lo, se sentisse que realmente havia algo a perdoar.
– Pelo quê?
– Por não ser o homem que você merece.
Minerva suspirou, tentando entender como um homem brilhante como ele poderia ser assim tão inseguro e dramático. Aparentemente, não importava o motivo da desavença, ele sempre voltava a julgar-se pouco pra ela. E parte da garota começava a desconfiar de que houvesse mais do que a diferença de idade entre eles e os problemas da escola por trás disso.
– Sabe o que te faria ser muito melhor? Parar de dizer essas bobagens – ela disse e deu-lhe um fraco tapinha de advertência no peito, que lhe valeu um novo sorriso. – Não me importa o que você acha que é melhor pra mim, é você que eu quero. Mesmo com todas as suas complicações e essa paranóia sobre o Riddle.
Apesar do momento bonitinho, a simples menção do nome do sonserino pareceu deixar o bruxo tenso. E a garota tomou o modo como ele tomou fôlego antes de começar a falar como o prenúncio de um de seus discursos inconsistentes contra o rapaz.
– Não é paranóia. Estou certo de que o Tom...
– Eu não quero discutir com você por conta disso – outra vez ela o interrompeu, falando tão suavemente como o seu dedo que pousou sobre os lábios do ruivo.
– Nem eu – o professor citou-a, segurou a mão dela onde estava e a beijou na ponta do indicador, depois repetindo o gesto em seus outros dedos antes de prosseguir. – Não preguei a o olho a noite toda pensando nisso. Sei que você está passando por muita coisa neste momento e pensei que talvez eu pudesse fazer algo para melhorar isso um pouco.
Dito isto ele se aproximou ainda mais e McGonagall ficou na ponta dos pés e fechou os olhos, esperando pelo beijo que não aconteceu. Mas uma sensação muito diferente a despertou de volta para a sala, algo como se lhe tivessem quebrado um ovo na cabeça. E ela sabia mais que o suficiente sobre feitiços para reconhecer que tinha sido desilusionada mesmo antes de olhar para baixo e ver, ou melhor, não ver a si mesma.
– O que você tem em mente?
– Me dê sua mão e já verá.
A garota obedeceu e sem mais uma palavra o seguiu porta afora, passando pelos corredores semi-desertos sem sequer despertar a atenção das pinturas mais atentas. Pensou em novamente perguntar-lhe o que estavam fazendo, mas não foi necessário. Pois quando chegaram à Ala Hospitalar compreendeu tudo.
Entraram o mais lenta e silenciosamente possível e atravessaram a porta que dava para o escritório de Madame Boyle nas pontas dos pés, ouvindo o som de caldeirões borbulhando e tilintar de vidros que vinha lá de dentro. Obviamente a enfermeira ocupava-se confeccionando alguma poção curativa, e eles só podiam torcer para que ela se demorasse nisso.
Algumas camas adiante, Desmond se encontrava terrivelmente pálido, e suas olheiras muito escuras confirmavam as suposições de Albus de que ele teria sido incapaz de dormir enquanto suportava a dor do crescimento de um novo membro. O professor não pode ver como estava se desenvolvendo o a massa alongada que acabava num curativo meio disforme do que viria a ser a mão destra do rapaz, porque todo o futuro braço se encontrava completamente enfaixado e exalando um cheiro bem característico de essência de ditamno. E agradeceu intimamente por isso. Já presenciara em combate o suficiente de ferimentos desse tipo para não desejar vê-los nunca mais, muito menos permitir que Minerva o fizesse.
Mesmo assim, quando se tornou novamente visível, o ruivo fez um sinal para que ela guardasse um pouco de distância enquanto ele ia conversar com o rapaz.
Sentado na cama com o tronco apoiado num monte de travesseiros, o menino fazia o melhor que podia para manusear a jarra d'água na mesinha de cabeceira e se servir de um copo usando apenas a mão esquerda. Fora isso, parecia bastante abatido, não só pelo cansaço como também por conta da medicação. Mas as ocasionais caretas que fazia delatavam um ou outro espasmo de dor que superavam até isso.
– Olá, Desmond – Dumbledore cumprimentou cordialmente, e mesmo assim o menino se sobressaltou ao vê-lo. Não era de se estranhar, afinal, até poucos segundo atrás não havia mais ninguém lá. – Deixe-me ajudá-lo com isso.
– Olá, professor – o lufo respondeu um tanto aturdido, e não objetou em nada quando o outro lhe estendeu o copo d'água. Então bebericou calmamente, apontou com a cabeça para o braço ferido e forçou um sorriso – Espero que eu esteja liberado da lição de casa, certo?
– Por enquanto. Como está se sentindo?
– Partido e remendado – o garoto brincou e lhe devolveu o copo metade cheio antes de deixar-se afundar um pouco na sua pilha de travesseiros.
– Bem, ao menos eu trouxe algo para alegrar o seu dia – Albus disse e apontou com a varinha na direção de Minerva, que imediatamente tornou-se visível novamente.
Isso a deixou se perguntando se ele tinha realmente conseguido enxergá-la ou estava apenas supondo sua posição. Nós sabemos que sim, mas vamos deixá-la com suas suspeitas, ao menos por enquanto.
– McGrela! – o setimanista exclamou alegremente, fazendo uso do mais antigo e famoso apelido que dera para sua ex-inimiga e atual paixão não correspondida vários anos antes.
Dumbledore foi obrigado a cobrir a boca com a mão para impedir-se de rir e ela, por usa vez, limitou-se a revirar os olhos em forjado aborrecimento e responder na mesma moeda.
– Como está, O'Mala?
– Me sentindo culpado pela cobra. Não soube? Estilhaçou as presas nos meus belos músculos – ele brincou com uma risada débil, mas parecia genuinamente contente. – Ao menos parece que recuperei meu cérebro, já que você está falando comigo de novo.
– Agradeça ao Professor Dumbledore por isso.
Albus corou sob o olhar curioso do rapaz, e Minerva teve de fazer muita força para impedir-se de beijá-lo naquele momento.
– Madame Boyle ainda não te liberou pra receber visitas, meu rapaz. Então eu tomei a liberdade de lhe contrabandear um pouco de companhia, sob a promessa da Srta. McGonagall de não deixá-lo muito agitado. Infelizmente não temos muito tempo, então conversem baixinho enquanto eu vigio a porta – o mais velho explicou, então aproveitou o momento para se afastar um pouco, tomando uma posição intermediária de modo a discretamente partilhar atenção entre a dupla de amigos e o escritório da enfermeira.
– Agora falando sério, como está o seu braço?
– Vai sarar, mas jamais vai ficar forte o bastante pra jogar quabribol outra vez. Justamente o direito! Sorte sua e daquele seu timinho mixuruca, a menos que encontrem um substituto pra mim bem rápido.
– Não finja que não está chateado. Sei que você estava cotado para os testes do Kenmare Kestrels ano que vem.
Saber era um eufemismo tão gentil que se devia apenas ao fato do garoto estar acamado. Desde que recebera a coruja com essa notícia, meses atrás, Desmond havia se gabado disso um número suficientemente irritante de vezes durante as aulas para ela tomar raiva do time todo.
– Tudo bem, ao menos meu pai vai ficar contente com isso. Ele sempre quis que eu fosse medibruxo como ele, sabe? Trabalhar juntos no mesmo consultório e tudo mais.
– Medibruxo, você?
McGonagall deixou escapar mais incredulidade do que queria, então forjou uma risada para que aquilo passasse por brincadeira e não como ofensa. Até porque não tinha a menor vontade de ofendê-lo mesmo. Apenas estava acostumada demais a ver Desmond como o tormento de sua vida para imaginá-lo emprenhado em salvar a vida de alguém.
– Por que a surpresa? Minhas notas podem não ser páreo pras suas, mas sou bom em feitiços curativos e poções. Além do mais, se você for minha cliente eu prometo que te dou um desconto.
– O que está tentando insinuar, garoto?
– Que adoraria te examinar qualquer dia desses.
A piscadela descarada que o rapaz deu fez Minerva literalmente bufar, sentindo uma imensa saudade do tempo em que ele se empenhava em fazê-la crer que a detestava. Bons tempos, muito mais simples.
– Ainda bem que você já está todo quebrado, senão eu juro que ia azará-lo até os ossos.
– Desculpe, me deram poções demais e isso me deixa um pouco estranho – ele se explicou, apontando ligeiramente com a cabeça para meia dúzia de vidros de poções de tamanhos, cores e aspectos diferentes que disputavam espaço com a jarra e o copo d'água na mesinha de cabeceira. – Madame Boyle disse que é capaz que eu nem me lembre de nada disso amanhã. Então se você quiser se aproveitar de mim, a hora é essa.
Nesse momento Dumbledore pigarreou baixinho, como que para lembrá-los de que ainda estava presente, e escutando muito bem o que diziam.
– São todos esses remédios falando por mim, eu juro – O'Malley voltou a se desculpar, dessa vez se dirigindo aos outros dois ali presentes. Tentou rir para melhorar um pouco o clima, mas estava tão fraco que acabou engasgando com a própria saliva e em seguida começou a tossir.
Minerva lhe estendeu o copo d'água , do qual ele voltou a beber, então esperou até que ele parasse de tossir.
– Desmond, como você foi mordido?
– Eu só estava dando uma volta. Não andava muito longe, nem mesmo fora da aldeia, e pelo que eu sei já está ficando meio frio para cobras saírem por aí e tentarem arrancar o meu braço. Então ela saltou do nada diretamente sobre mim e eu tentei afastá-la, mas acabei caindo. Bati a cabeça e aí desmaiei. Madame Boyle disse que foi porque tive uma concussão. Não me lembro de ser encontrado ou trazido pra cá. Quando acordei estavam cerrando meu...
Ele não conseguiu terminar a frase, e tampouco isso foi necessário. Ela ainda podia ver o pavor em seus olhos só de relembrar a cena, e pra bem da verdade mal podia imaginar o quão desesperado o amigo deve ter se sentido com tudo aquilo. Apenas deixou-o beber mais um pouco de água e tomar algum tempo para recompor a calma, torcendo para que ele não começasse a chorar. Merlin, ela própria estava com vontade de chorar!
Quando ela achou que não tinha como aquilo ficar pior, o braço enfaixado estremeceu e ele fez uma careta com que só poderia ter sido uma tremenda ferroada de dor.
– Está doendo muito? – ela perguntou aflita, incerta se deveria ir chamar a enfermeira ou pedir a Albus que o fizesse.
– Horrivelmente. Mas sabe o que me faria sentir bem melhor? Um beijo.
Minerva ficou momentaneamente sem ação, exceto por olhar para Dumbledore para ver o tamanho do estrago que o pedido de Desmond poderia ter causado. No entanto, muito ao contrário do que a garota poderia esperar do namorado ciumento, ele se mostrava absurdamente calmo quando assentiu lentamente e se virou de costas. O colega seguiu o olhar dela e sorriu para a atitude do professor, achando que com isso ele estava apenas lhes dando privacidade para agirem como bem entendessem.
Ela demorou ainda alguns instantes ponderando o que faria a seguir, então respirou fundo enquanto se aproximava mais da cama, apoiou uma mão sobre o monte de travesseiros em que o garoto estava encostado e se inclinou para beijá-lo.
Uhura: Guriaaa! Pois é, estou de volta ao trabalho. Sim, as coisas vão ficar mais felizes, inclusive já estou escrevendo o próximo capítulo e posso adiantar que estou planejando um belo amasso aqui. E valeu pelo review, pq parece q o resto do pessoal daqui me colocou de castigo por causa da minha demora :/
n/a: Olá, pessoas amadas. Comentem, pq eu tô com saudade de vcs!
Ah, e pra quem tá chegando agora: deixe de timidez de lado, dê sua opinião e faça uma autora muito feliz!
Ninguém disse nada sobre a capa da fic... Mas já que não perguntaram, eu mesma digo: é um desenho de Paul Gustave Doré retirado da 1ª edição da obra "Merlin e Vivien" datada de 1867. Meio difícil ver sendo uma imagem assim tão pequenininha, mas pra quiser jogar no google fique à vontade.
Um beijão e obrigada.
