25. Slytherin
"Those cunning folk use any meansto achieve their ends"
- Harry Potter and the Sorcerer's Stone
A amiga lhe dera uma solução. Não a melhor, talvez, mas uma solução que quebrava as regras e era carregada por perigos ("Tão diferente da Hermione que conhecemos um dia", resmungou Rony, ao vê-la ajudando Harry com Malfoy).
E ele a colocou em prática – na noite seguinte. Aproveitando que suas aulas de Oclumência não começariam até quarta-feira, Harry tomou de volta a capa emprestada pelos amigos e pôs-se a andar pelos corredores, em direção às masmorras.
Desde o segundo ano, sabia perfeitamente onde ficava o Salão Comunal da Sonserina. Bastava-lhe agora, encontrar um meio de entrar. Esperou não mais do que meia-hora para que um calouro saísse de lá, abrindo-lhe a passagem.
Foi recepcionado por uma risada quase sincera de Draco, que estava sentado à uma das principais mesas do Salão, junto com alguns colegas. Harry aproximou-se para ver o que faziam – e qual seria o motivo de tal expressão.
Apostavam em cartas, logo notou, e teve de impedir a si mesmo de expressar em palavras o quão irônico era aquilo: sonserinos que desprezavam trouxas jogando... pôquer, um jogo trouxa.
E Draco parecia ser muito bom no jogo, pois sorria com superioridade e acabara de elevar as apostas. Crabbe e Goyle se encararam, um talvez esperando que o outro conseguisse pensar sobre o que fazer. Blaise, todavia, também sorriu e, com uma piscadela para Pansy, jogou mais alguns galeões na mesa.
Se Draco se irritou com isso, não deixou transparecer. Sua única atitude foi puxar Pansy – que estava em seu colo – para mais perto de si e colocar as cartas na mesa.
– Royal straight flush – anunciou ele, com satisfação, recolhendo o dinheiro da mesa sem esperar para ver as mãos dos outros jogadores.
Isso fez Pansy soltar um gritinho e pular em seu pescoço, desconcertando-o a ponto de quase derrubar as moedas. Procurando não se irritar, virou os galeões nos bolsos e levantou-se.
– Mas eu tinha tirado a dama... – Goyle começou a revirar o baralho em busca da carta que largara.
– Foi um prazer, monsieurs, mas, se me derem licença, tenho negócios a tratar...
– Negócios, Dray? – com a voz chorosa, Pansy relutou em largá-lo.
– Venha, Blaise – convidou Draco, dando-lhes as costas e seguindo pelas escadas que levavam aos dormitórios.
Procurando não chamar atenção para si, Harry o seguiu. Com menos discrição do que isso, Pansy e Blaise também o fizeram.
O plano de Hermione era que ele surpreendesse Draco sozinho – de preferência, na privacidade dos dormitórios sonserinos – para que pudessem conversar. Tudo o que Harry teve de fazer foi cruzar a porta do quarto para perceber o quão equivocados estavam em achar que seria tão simples.
Não deveria estar ali, não quando Blaise e Pansy também estavam. Entrar junto com eles foi uma péssima idéia, pois, tão logo fechou a porta com a varinha, Draco se aproximou dos dois colegas.
Draco murmurou alguma coisa para Pansy, que deu uma risadinha irritadiça e, deixando Harry de boca aberta, virou-se para Blaise, tomando-o em um beijo de tirar o fôlego. O grifinório fechou os olhos e tateou às costas, em busca da maçaneta da porta.
Temendo que a própria respiração estivesse fazendo barulho demais e acabasse por denunciá-lo, Harry segurou o ar nos pulmões por alguns instantes, para depois expirar bem lentamente. Viu Draco se deixar envolver pelos outros dois sonserinos e ficar no meio, perdendo a camisa – mas não a gravata – em algum momento. Harry não pôde evitar que um resmungo escapasse de seus lábios.
– Dray... – Pansy murmurou ao ver o olhar do garoto fixo na parede.
Evitando ser rude, ele a afastou um pouco – e então fez o mesmo com Blaise. Sem desviar a atenção por um segundo, sorriu com satisfação, finalmente compreendendo.
– Potter... – Draco deixou que a palavra escapasse por seus lábios.
Harry puxou a capa e a soltou no chão, ainda irritado pelo apelido idiota que Pansy dera a Malfoy.
– O quê? Dray? – perguntou Blaise, tentando colocar as mãos novamente sobre o loiro.
– Saiam – determinou Malfoy peremptoriamente.
Depois de encarar Harry, Pansy fez uma expressão chorosa e ameaçou protestar, mas, sob influência de Blaise, cedeu.
"Não conhecia esse seu lado voyeur, Potter", aparentemente relaxado, Draco se aproximou. "Estava se divertindo?"
– Eu não queria... – Harry tentou responder, o fiapo de segurança que sentira ao ser descoberto desaparecendo.
– Não queria? – Draco levantou a sobrancelha, divertido. – Eu acho que é exatamente o que você queria.
Ao tomar absoluto controle da situação, o sonserino imediatamente empurrou Harry contra a parede, fazendo calar qualquer intenção de justificar-se. Agindo precisamente da mesma forma que poderia ter feito com Blaise, Draco não expressou sentimento algum que não a raiva e a luxúria.
Harry estava pressionado contra a parede, o corpo de Draco junto ao seu, contradizendo todos os propósitos daquela ida ao dormitório. Queria esclarecer as coisas, entender a indiferença, as atitudes de Draco. Não poderia deixar-se levar assim.
Revidando com a mesma força que era usada contra si, empurrou Draco. Estava lívido e, em vez de tomar ar algumas vezes para se recuperar, lançou as palavras contra Draco.
– Que merda você acha que está fazendo, Dray? – pôs na pronúncia daquele apelido ridículo todo o nojo que sentira por ter visto os sonserinos chamando-o assim.
– O que foi, Potter? – Draco perguntou levianamente. Havia se recomposto em poucos segundos, ao contrário de Harry. – Achei que você queria novamente o que tivemos no hotel, ou por que outro motivo você teria vindo até o meu quarto com a sua capa?
Os olhos de Harry fecharam-se novamente e, desta vez, ele lutou sim para se controlar. Se caísse na provocação de Draco, o máximo que conseguiriam seria uma boa discussão – o que não esclareceria absolutamente nada.
– Eu vim pedir desculpas – disse ele, por fim.
Nada, nada mesmo, na expressão de Draco demonstrou alguma surpresa, exceto o fato de ele ter parado por dois segundos antes de responder em tom complacente:
– Ah, que emocionante... me diz, Potter, foi difícil juntar toda a sua coragem grifinória para vir aqui pedir desculpas?
– Foi.
Ao responder de forma tão honesta, Harry extinguiu no mesmo instante a possibilidade de disputa entre egos, ou até mesmo de discussão. Draco, todavia, estava muito irritado, muito confuso, para recuar tão repentinamente.
– E por que não quis usar novamente esse seu lado grifinório para ficar assistindo a Pansy, Blaise e eu? – ele perguntou, as palavras queimando sua boca.
– Porque eu estou aqui por outro motivo que não inclui eles.
Com uma expressão de entendimento no rosto, Draco sorriu. Então... mesmo sem os amigos sonserinos ali, teria o que planejara para aquela noite. Interessante.
– Ótimo... – murmurou ele, prensando Harry mais uma vez contra a parede.
Dando um passo para o lado e resistindo com os braços, Harry se esquivou.
– Desculpe por ter atrapalhado sua... diversão com aqueles dois, mas não vim aqui só pra isso, Draco. Você ainda tem muita coisa pra me explicar.
– Se você acha que devo explicações, Potter-
– Tenho a mais absoluta certeza – respondeu Harry com raiva e, ao terminar, já apontava a varinha diretamente para o coração do sonserino.
O olhar que Draco lhe dispensou foi gélido e, em seguida, viu o loiro lhe dar as costas e sentar despreocupado na cama.
– Vá em frente, Potter. Pode começar a perder seu tempo.
Totalmente desprevenido, Harry o olhou mais uma vez antes de baixar a varinha em hesitação e disparar as perguntas:
– Por que você fez aquilo? Estava tentando me enganar? Como os Comensais souberam onde eu estava? Por que você não respondeu às minhas cartas? E quem deu a maldita autorização para que Pansy o chamasse de Dray?!
– Não que seja do seu interesse, Potter – Draco comentava como se falasse sobre o tempo –, mas Pansy, assim como Blaise e os outros sonserinos sangues-puros, me conhecem há anos. Antes de entrar em Hogwarts, para ser mais exato. E, claramente, há muito tempo eles acharam que seria divertido me dar esse... apelido.
– Seu pai viu minhas cartas? – Harry perguntou sem rodeios.
Um arrepio pareceu percorrer o corpo de Draco e ele se levantou imediatamente da cama em que acabara de sentar.
– Continue perdendo seu tempo, Potter. Mas, quer saber? Vou dar uma dica. Traga Veritaserum da próxima vez, se pretende arrancar alguma coisa de mim.
– Quer mesmo que eu use Artes das Trevas contra você, Draco? – Harry perguntou em tom grave. – Eu não esperaria menos, já que conhece todos os truques sujos de Voldemort. Me diz, já viu ele usar legilimência?
Tudo o que Harry notou foi que o sonserino ficou pálido.
– Você está blefando! – Draco vociferou, chispando os olhos acinzentados. – Quer mesmo que eu acredite que os poderes do Lord das Trevas se comparam aos de um grifinório do quinto ano?
– Quer descobrir? – perguntou Harry, empunhando novamente a varinha.
– Prefiro o Veritaserum, muito obrigado – respondeu Draco com extrema frieza.
– Por quê, Draco? – relaxando um pouco o braço, Harry usou a mesma seriedade do outro para perguntar.
– Por que o quê, Potter? Por que o entreguei pros Comensais? Por que o tratei como uma mulherzinha? O que você esperava? Eu já disse, nem tudo é rosas e champagne entre nós, eu não sou o Weasley.
– É, por que me entregou aos Comensais?
Draco bufou, irritado. Parecia ter a impressão de estar explicando um assunto extremamente complexo para uma criança de cinco anos, pela terceira vez.
– Simples lógica, Potter. Eles me propuseram mais do que a sua Ordenzinha conseguiu oferecer.
Engolindo em seco, Harry perguntou:
– O que eles ofereceram?
– A sua Ordem ofereceu asilo para a minha mãe, Potter. Asilo. Consegue acreditar? Como se minha mãe precisasse de algo assim. Meu pai sequer foi acusado de nada!
– Seu pai está do lado de Voldemort! – acusou Harry veementemente. – Desse jeito ele vai terminar em Azkaban!
– E seus pais terminaram onde mesmo?
Por um segundo, Harry desviou o olhar. Voltou, então, à única pergunta cuja resposta realmente importava:
– O que os Comensais ofereceram?
– O que acha, Potter? Toda a glória e influência que o Lord das Trevas pode oferecer a uma pessoa... mas você não entende isso, não é mesmo?
– Glória e influência? Por favor, Draco, nem você é tão idiota para se enganar assim – Harry andava pelo quarto como se estivesse preparando o território para atacá-lo. – Desde quando se tem glória em rastejar aos pés de um sangue-ruim? Talvez a questão não seja essa, não é mesmo? Não é o que o seu Lord ofereceu, mas o que seu pai colocou em jogo.
– E o que você pensa que sabe sobre o meu pai, Potter? – a expressão de Malfoy estava tensa quando perguntou.
– Eu sei que se ele não estivesse envolvido, nada disso teria acontecido. Nós estávamos bem, droga! Por que outra razão você mudaria tão repentinamente? Ele o ameaçou? – Sem dar oportunidade para Draco responder, Harry fez mais uma pergunta: – Quando ele descobriu?
– O quê? Você achou que ninguém saberia que estivemos juntos depois da nossa escapadinha?
– Foi depois, então? – supôs Harry. Ao ver a expressão do sonserino, então, parecendo até um pouco divertida, decidiu afirmar, colocando o máximo de certeza na voz: – Não, não foi. Foi antes, por isso você quis fugir.
– É claro que foi antes, não percebe? Nós estávamos faltando às mesmas refeições, chegando atrasados às mesmas aulas, mais cedo ou mais tarde, alguém descobriria.
– Eu sei... – admitiu Harry, baixando o olhar, mas permitindo-se um discreto sorriso. – McGonagall desconfiou que alguma coisa estava acontecendo e me fez algumas perguntas sobre garotas...
Olhando para o grifinório, Draco permitiu que suas feições relaxassem, apenas por um segundo. Ao contrário de Harry, ele não sorriu.
"Snape descobriu? Você acha que foi ele que contou pro seu pai?"
– Potter, meu pai-
– Seu pai sabia, não sabia? – ignorando toda cautela, Harry o interrompeu. – Foi por isso que você quis fugir. Ele nos seguiu, Draco? Ou mandou alguém nos vigiar naquele pub? Era por isso que você estava tão desconfortável? Foi por isso que você notou aquela mulher me observando?
– Ouça o que está dizendo, Harry, você está ficando paranóico – Draco falou, sem conseguir colocar sarcasmo suficiente na voz.
– Não, não estou. Por que você quis ir pro hotel, Draco? Achou que seria mais seguro? Por que disse que eu não deixei de vê-lo como um Comensal prestes a me trair? Você me traiu, Draco?
Pela primeira vez, o rosto do sonserino se vestiu de emoção. O sangue subira à face, tornando-a ruborizada de uma forma que Harry nunca tinha visto e sua voz ganhou selvageria:
– Eu já disse – ele disse entredentes –, você jamais deixou de me ver como um Comensal. Que diferença faz, Potter? Eu entreguei a eles o lugar onde estávamos, não foi? Eu fiz o feitiço para que o banco desaparecesse naquele beco trouxa...
– Você me traiu, Draco? – insistiu Harry, pela segunda vez.
