E o Corvo o seu ninho ali o faz

No mais espesso da sombra que lhe apraz.

- William Blake

O bebê não se mexia mais com tanta frequência devido ao espaço limitado, embora a barriga de Valkiria tivesse atingido um tamanho que ela considerava grotesco. Reiniger estava ocupado em uma reunião com os chefes de estado europeus para definirem suas posições em relação à guerra que se alastrava pelo Reino Unido. A loira, portanto, estava em paz, feliz pela relativa solidão, e naquele sábado acordara mais bem-disposta do que nos dias anteriores. Sem se importar que todas as suas verdadeiras marcas fossem vistas, ela permaneceu com uma longa e fresca bata condizente com o clima primaveril que já fazia; e sem se importar em ser observada caminhando daquela maneira débil e humilhante ela passeou pelo palacete livremente.

Comeu na mesa como há algumas semanas não fazia, assaltou a biblioteca apesar de não conseguir ficar muito tempo nela sem ter o nariz incomodado pela inevitável poeira, perto do fim do dia resolveu respirar ar puro e foi sentar-se na beira do lago pacificamente. Gastou seu tempo fazendo grindlows valsearem na superfície da água apenas para entretê-la; os homens faziam suas guerras, seus negócios e suas políticas enquanto ela odiosamente fazia um filho.

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O soturno homem encapuzado ofereceu mais uma caneca de whisky de fogo ao enorme e incauto guarda-caças quando este já estava completamente trôpego, achando graça servirem aquele tipo de bebida naquele recipiente. Era um bom lugar aquele que se dispôs a conhecer com o simpático estranho que parecia gostar tanto de dragões, acromântulas, hipogrifos e outros animais fantásticos quanto ele. Hagrid riu, sua voz retumbando pelo ambiente sombrio, incomodando todos os bruxos mal-encarados do local com suas prostitutas abortadas.

Macnair riu junto.

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- Deixe-me em paz, Mulciber! Eu não quero nada com você! – A grifinória empurrou o sonserino, que se deixou oscilar para trás perante a mão dela, rindo com ironia.

- Qual é, Macdonald? Aliás, eu posso te chamar de Mary, não posso? Depois do que fizemos no Natal... – ele falou canalha, despertando o riso de quase todos os colegas que o acompanhavam.

- Ela não fez porque quis, você a obrigou fazer! – A amiga ruiva da menina interveio, abraçando-a pelos ombros e tentando afastá-la do grupinho sórdido.

Lançou um olhar triste para o velho amigo de infância antes de se virar, era o único ali que não ria da situação, porém permanecia ao lado deles e não faria menção nenhuma de ajudá-la, ela sabia. Tinha certeza daquilo depois de tudo o que passaram no último ano, e desde então não sentia a menor vontade de falar nem "bom dia" a ele.

- Até parece que sangue-ruim tem que querer alguma coisa, Evans! – Damian insistiu em segui-las, enquanto elas subiam o caminho até Hogwarts. – Deviam se sentir honradas por querermos algo com vocês, suas imundas!

- Imundas? Duvido, são as duas meninas mais asseadas de Hogwarts! – Uma voz soou por trás e fez todo mundo parar e se voltar para o belo garoto de cabelos negros e olhos cinzentos que caminhava tranquilamente com as mãos nos bolsos. – Já você, Mulciber, parece que não toma um banho desde o último outono.

- Peça desculpa a elas! Agora! – Um rapaz de cabelos bagunçados tentou avançar contra o grupo de sonserinos com a varinha em mãos, sendo contido por um sinal do moreno que fez com que os outros dois garotos que os acompanhavam o segurassem.

- Calma, James, eu tenho certeza que o Sr. Meu-Sangue-É-Melhor-Que-O-Seu agirá como um cavalheiro sem precisar de nenhum... incentivo... correto? – Lançou um olhar cortante para o que até pouco tempo atrás ria debochado das meninas.

- Oras, seu...

Damian Mulciber murmurou entre os dentes e sacou a varinha, fazendo os amigos repetirem o gesto na mesma hora. No que pareceu ser menos de um segundo depois, Lily e Mary viram raios vermelhos cortarem o ar, no entanto, enquanto os amigos proferiam azarações relativamente inocentes, os sonserinos arriscavam maldições, algumas até proibidas. Somente dois recuavam de leve e pareciam ser poupados, esquecidos – Severus e Regulus. Os princípios do sangue e da dívida ainda falavam mais alto para eles, apesar do que estavam prestes a fazer.

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Acordou sob a árvore, uma pontada forte na barriga fazendo-a inclinar-se para frente de sobressalto. O sol começava a se pôr, o cheiro do sereno irritando seu nariz, mas o pior acontecia embaixo. Mais de uma vez sentira aquela dor incômoda, mas seu avô vivia lhe dizendo que uma hora seria a hora, que seu ventre estava baixo nos últimos dias, o filho estava pronto para sair. Tinha que ser justo quando ela bancava a criança adormecida na beira do lago? Respirou fundo e tentou manter a calma, talvez fosse um falso alarme novamente; no entanto, depois de poucos minutos, a dor retornou.

- Tyer! – Ela gritou o nome do elfo doméstico que apareceu em um estalo ao seu lado.

- Frau Rookwood. – Ele a reverenciou exageradamente, o nariz quase tocando o chão. Não era tão perfeitamente limpo quanto Ziggy e ela evitava ao máximo chamá-lo. – Tyer está aqui para servi-la como...

- Cale-se agora, ou direi a Reiniger que quer a liberdade! – O elfo olhou amedrontado para ela, que prosseguiu de maneira aflita, apesar da tentativa de conter-se: - Imagino que o seu senhor tenha lhe dado alguma instrução sobre quando eu... quando essa maldita criança estivesse nascendo. Bem, cumpra-as agora!

O servo chegou a abrir a boca, mas fechou-a imediatamente lembrando-se da ameaça e começou a se estapear antes de desaparecer com outro estalo.

E uma nova onda de dor tomou Valkiria.

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O cheiro da floresta pesava nos pulmões desacostumados de Augustus, a umidade incomodava-o tanto quanto a máscara sobre o rosto. Percorria a trilha com cerca de uma dezena de Comensais escoltados por Fenrir Greyback, que sabia se embrenhar em matas como ninguém. A excitação dos outros era expressa em pequenos burburinhos e comentários, volta e meia um riso cortava o ar, como a maioria sentia a nostalgia e o desafio a queimar nas veias.

Passaram sete anos ouvindo das proibições da floresta, como ela era terrível e eles deveriam se manter afastados. Sete anos obedecendo Dumbledore e os outros professores, que eram tão imponentes devido à primeira impressão que eles tiveram aos onze anos, quando, inocentes e deslumbrados, atravessaram o lago vendo as grandiosas torres de Hogwarts cortarem o céu noturno.

Estavam invadindo aquele solo sagrado a partir do terreno proibido, como profanos e infames Comensais da Morte para desafiarem aquele que era tido por eles como o maior mago de todos os tempos - até conhecerem Lord Voldemort, e era pelo poder dado por ele tão generosamente que cumpriam a tarefa animadamente.

Rookwood sentia-se no ápice, casado com a mulher que desejava, com um filho que nasceria tão em breve e gozando de todas as regalias que lhe foram tiradas quando era jovem. Sempre que entrava na mansão, sentia o poder aquecer seu peito assim como todos sentiam agora ao atravessar a mata fechada; nada poderia detê-los, nada poderia ir contra as suas vontades quando carregavam uma insígnia tão forte nos braços, e recebiam a tutoria de alguém tão onipotente.

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Lily Evans emitiu um suspiro de alívio quando viu Argus Filch se aproximar, ele poderia acabar com aquela briga patética, não poderia? No entanto, ela percebeu algo estranhíssimo: ele estava com uma varinha em mãos, e o zelador era um aborto, jamais tivera uma varinha. Antes que pudesse alertar os outros sobre a estranheza daquilo, sobre como deveriam deixar as diferenças de lado por um momento e saírem dali porque algo estava muito errado, um feitiço mudo a fez imobilizar, e ela viu sucessivamente seus amigos ficarem estáticos enquanto os sonserinos os dominavam e os empurravam em direção ao homem que estava mais esquisito do que nunca.

- Muito bem, fizeram um bom trabalho. – Filch falou, mas com uma voz que não era a sua.

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A alemã conseguira voltar até o interior do palacete sozinha. Fizera coisas em condições piores na sua vida, uma dor intermitente não era nada; o verdadeiro medo dela era o parto em si, botar uma criança no mundo, ter que acalentar aquele ser que lhe chutava as entranhas constantemente. Trêmula, alcançou uma poltrona para sentar-se, voltar a respirar fundo, manter o controle e imaginar o que deveria fazer se acaso permanecesse sozinha. Animais faziam aquilo, trouxas faziam aquilo, por que ela não seria capaz?

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O exterior abriu-se perante os olhos de Augustus repentinamente, trazendo um ar mais agradável por baixo da máscara ainda incômoda. A cabana já conhecida do estranho guarda-caças estava escura; o castelo que se avistava ao fundo ainda iluminando-se em aparente paz pelo sol poente. Era dia de visita a Hogsmeade e o incauto Hagrid possivelmente estava bêbado em algum bar escuso graças a um Comensal disfarçado que se encarregou de mantê-lo longe.

Mas aquele não era o único embusteiro que estava entre eles; por trás da cabana, apenas aguardando pelo resto do grupo, Antonin Dolohov disfarçado de Argus Filch - e o irlandês preferia não saber como as crianças conseguiram um fio de cabelo do zelador sinistro para a Poção Polissuco - mantinha um grupo de alunos como reféns, com uma ruiva especialmente bonita apertada contra o corpo dele, recebendo a varinha do Comensal direto contra o pescoço, fortemente. Todos os alunos que voltavam do passeio eram recebidos por outros Comensais que permaneceram em surdina nos portões.

Ao longe o corpo docente da escola já iniciava uma pequena comoção, percebendo a ameaça eminente e inesperada. Não demorou muito para que Minerva McGonagall se aproximasse com o verdadeiro Filch para tentar negociar, mas não haveria acordo que não envolvesse um passeio pelo castelo e uma reunião particular com Albus Dumbledore.

De repente Dolohov se exaltou e disparou um raio vermelho, devidamente desviado pela perícia da professora de transfiguração, o Comensal tentou usar a ruiva de escudo quando o próprio ataque voltou-se contra ele, porém um jovem impetuoso atacou-o pelas costas ao modo trouxa: com uma bela chave de braço. Imediatamente professores e mascarados se juntaram ao centro do gramado, os segundos com a vantagem de estarem com alunos em seu poder - os professores não fariam nada contra eles e, se por algum acaso infeliz fizessem, eles poderiam dar sua missão por cumprida.

Aos poucos eles avançaram, raios vermelhos eram disparados por todos os lados e volta e meia alguns caíam ao chão, estuporados. Rookwood manteve-se na retaguarda, era a melhor posição naquele caso, enquanto a linha de fogo permanecesse confusa como estava. Apesar de avançarem, o número de Comensais que eram derrubados era grande o bastante para aquilo não representar vantagem nenhuma.

Não tardou para que o diretor aparecesse e fizesse sua intervenção, cortando caminho por entre seus subalternos e fazendo os mascarados darem uma trégua para receberem-no, ainda que mantivessem, cada um dos mais próximos, um aluno na frente do próprio corpo, e até mesmo os sonserinos que os auxiliaram eram usados de escudo por Comensais.

- Soltem eles! É a mim que vocês querem, eu suponho. - O ancião disse com firmeza, ainda que mantivesse aquela estranha postura plácida.

- Só soltaremos se entrarmos no castelo, velhote, só nós, os alunos e você! - Respondeu uma bruxa de voz particularmente irritante.

- Por que me levar para o castelo se podem me levar para o mestre de vocês? - Ele não esperou mais réplicas, simplesmente pegou a própria varinha e estendeu-a para McGonagall ao lado dele, que tentou se opor àquilo, porém ele fez um gesto para que ela não dissesse nada.

Os Comensais à frente pareceram realmente considerar a possibilidade, e Rookwood pensou em como Valkiria bateria de frente e não permitiria tal acordo. O objetivo não era levar Dumbledore até Voldemort, e sim destruir a credibilidade do velho e da segurança do castelo.

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Não tardou tanto quanto ela imaginava que poderia tardar até um Reiniger aflito cruzar a sala e pegá-la no colo com presteza; poderia ser velho, mas ainda possuía forças para aquilo. Subiu as escadas rapidamente, deitando-a na cama do próprio quarto e oferecendo-se excessivamente para acomodá-la o melhor possível. Aquilo a cansava, ela gostaria que ele permanecesse quieto, apenas acompanhando a lenta evolução de seu sofrimento sem tocá-la, abraçá-la ou ampará-la.

Queria somente ficar encolhida sobre a cama, respirando fundo e se concentrando para tentar superar a dor de cada contração quando vinha, recusando-se a gritar, recusando-se a implorar por qualquer tipo de ajuda. Não tomaria nenhuma poção anestésica, Valkiria jamais precisou de uma antes, não o faria naquele momento. Se nada doeu e nada a desafiou por tantos meses além do inverno que ela tão caprichosamente confrontou, aquela noite valeria por cada segundo.

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Ele não estava com uma boa impressão daquilo. Dumbledore simplesmente se deixou levar, dizendo ter um ponto de aparatação logo além dos portões de Hogwarts, e mesmo com os alunos ainda dominados e carregados junto com o velho, aos olhos de Augustus aquilo tinha tudo para dar errado. Mas não conseguiria discutir com tantos Comensais excitados, hostilizando um rival tão poderoso que se entregara tão fácil.

Preferiu permanecer na retaguarda, assim que o bruxo revelasse seus reais motivos para ter feito aquilo ele poderia correr até algum ponto de aparatação real e dar o fora dali. Não que faltasse coragem ao irlandês, o que faltava era a burrice que os outros demonstravam ter de sobra, permitindo que o prisioneiro ditasse as regras sob a premissa da falsa vantagem. E agora ele estava prestes a ser pai, não podia ser descoberto, preso ou morto; viveria em liberdade pela criança.

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Ela se segurou fortemente na cabeceira da cama atrás de si, as contrações cada vez mais frequentes e dolorosas. O suor que escorria pelo seu rosto incomodava quando ela estava livre da dor, no entanto quando ela vinha, nada mais importava. Não chegava aos pés de receber uma maldição Cruciatus bem-dada, no entanto o feitiço era passageiro e ilusório, por mais terrível e enlouquecedor que pudesse ser, ela sabia sempre que não era real e cessaria com um simples menear de varinha. A dor do parto era concreta, verdadeira, o que seus nervos sofriam refletia exatamente o que acontecia em seu corpo. O baixo ventre parecia se dilacerar por dentro, a enorme barriga endurecia inteira e a bendita cria parecia estar sentada diretamente sobre a base de sua coluna. Valkiria choramingava, sem conseguir mais deter a expressão de dor.

Reiniger chamara a parteira e suas assistentes, Frau alguma-coisa e Fräulens de nomes menos importantes ainda - os nomes que importavam e a loira volta e meia exclamava eram muito mais ofensivos e menos agradáveis, e se o avô a mandasse ter calma, ela proferia-os mais alto ainda. As mulheres avaliavam seu estado de maneira humilhante de tempos em tempos, insistiam que deveria aguardar mais, que deveria ser forte. Em meio à dor Valkiria ria com a ironia. Ninguém dissera para ela ser forte na Floresta Negra, em meio a Trolls, Svartalfars e Jotuns [1]; aquela realidade tão distante que parecia agora a ela que não passara de um sonho inútil.

Nunca desejou tanto que o mundo explodisse e todos morressem, estava cansada. Há horas era obrigada a ficar deitada sobre a cama; há meses era obrigada a viver em função exclusiva daquela criança, e de repente todo o pensamento racional lhe traía e ela pensava que não haveria esperança alguma para ela, e em nada Augustus poderia lhe ajudar.

Aquele bebê sempre a faria sofrer daquela maneira.

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Um raio vermelho passou cortando há poucos milímetros do ombro dele, atingindo de raspão o Comensal à sua frente e fazendo-o cambalear, mas não cair. Imediatamente Rookwood se virou e deu de cara com Scrimgeour e um bando de aurores que já voltavam a agitar suas varinhas contra eles. Atacar pelas costas, belo exemplo de coragem grifinória. O grupo teve que se dispersar para conseguir revidar devidamente, o velho Dumbledore conseguia se defender mesmo sem a varinha, criando uma espécie de escudo protetor em sua volta e tentando resgatar os alunos que conseguiam se soltar ou eram largados a esmo quando Comensais caíam ao chão.

Augustus soltou uma espécie de rugido e encarou os aurores de frente; se antes fugiria somente para poder ver o filho nascer, alguma força o impelia agora a enfrentar aqueles paladinos odiosos, mantendo em mente que a própria esposa permaneceria ali, mesmo que estivesse em trabalho de parto. Seu alvo era Scrimgeour, e sabia que seria o alvo dele também se o loiro soubesse quem estava por trás da máscara.

Desviando-se com agilidade dos feitiços hostis, ele avançou temerariamente.

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Seus dedos estavam arroxeados devido à força com que ela se agarrava à cama, as Fraülens, ao tio, a qualquer coisa que se colocasse à sua disposição. Seu corpo trabalhava de maneira insana, angustiante e involuntária, e ela lutava para conseguir passar por aquilo com alguma dignidade; mas todo o orgulho que havia em si naquele momento esvaiu-se junto com o líquido estranho que molhou a cama onde ela estava. A Frau posicionou-se imediatamente entre suas pernas, falando algo sobre o bebê estar vindo, que ela deveria empurrar, deveria fazer força.

Mas o corpo dela não fazia força sozinho, se contorcendo por dentro daquela maneira? Que fizesse mais força então, não teria preguiça naquele momento, não pouparia nada para expelir de uma vez aquele ser de dentro de si. Tal qual o marido no Reino Unido, Valkiria soltou uma espécie de rugido e se inclinou para frente.

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Impetuosamente Augustus avançou, duelando somente com Scrimgeour, atacando-o diretamente e de forma incessante até que ele fosse levado a se afastar do grupo. O auror não se abateu, também temerariamente, correspondia aos ataques à altura. Nenhum dos dois se importava com os pequenos cortes e arranhões que sofriam quando não desviavam na hora. O irlandês sabia que o loiro estava comprando briga fácil, e não desperdiçaria uma oportunidade daquelas.

O auror tentava lhe infligir dor por meio do Cruciatus, e algo até conseguia, no entanto, era impossível torturar alguém sem conhecer seu rosto, sem saber quem estava por trás da máscara. De fato, talvez até mesmo se Augustus se ajoelhasse ao chão e pedisse clemência, afirmasse estar sendo usado por pessoas más, alegasse a mais pura inocência, o defensor da liberdade e da justiça deveria lhe dar o benefício da dúvida. Pois era naquilo que a justiça mais falhava: na humanidade de seus agentes perante muitas coisas, naquele caso, perante a compaixão daqueles que se pretendem amantes das pessoas muito além de seus defeitos; algo tipicamente grifinório. Algo tipicamente imbecil.

Mesmo que já tivesse Valkiria, a cada vez que Rookwood olhava para o homem imponente em sua farda e suas medalhas, achando que era o melhor para ela, superior em tudo a ele; e a lembrança de todas as vezes em que o vira beijando-a, abraçando-a, fazendo coisas até piores por mais que ela claramente não o quisesse, ah... expô-lo à vergonha pública era ínfimo. Parte de Augustus sempre guardava a verdadeira vingança para o melhor momento.

Não estavam mais nem nos terrenos de Hogwarts, nem no caminho para Hogsmeade, e sim numa área descampada e indefinida, onde apenas os raios avermelhados iluminavam uma vez que o sol já se ausentava e a noite pesava em breu no duelo dos dois.

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Em meio ao caos, Mary Macdonald, que se livrara do mascarado que a prendia quando este a abandonou para desviar os ataques dos aurores com mais agilidade, correu em disparada em direção à Hogsmeade, em vez de juntar-se a Dumbledore. Damian Mulciber correu atrás, tentando retê-la a todo custo. Lançou um feitiço petrificante, fazendo-a cair ao chão imediatamente.

- Aonde você pensa que vai, sangue-ruim? A diversão está só começando... - murmurou em seu ouvido, livre de ver a reação de asco que ela esboçaria se pudesse se mover minimamente.

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Havia algo de errado, Valkiria pensou, havia algo de muito errado. Não conseguia estimar há quanto tempo empurrava como a parteira lhe ordenava, só sabia que a noite deveria estar alta do lado de fora, e que volta e meia o avô observava aflito a falta de descanso dela. Incessantemente se inclinava, forçava, gritava, não pela dor, mas pelo impulso que aquilo lhe dava, e nada. A Frau não lhe dizia o que estava acontecendo, mas às vezes tocava com a varinha em sua barriga para analisar como estava o filho lá dentro; as Fraülens tentavam acalmá-la, falando que o primogênito sempre dava mais trabalho para nascer.

Primogênito e único, e poderia acontecer o que fosse, a alemã só queria que aquilo acabasse de uma vez.

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- Quem é você? – O auror perguntou ofegante e em alerta, após várias tentativas seguidas de desarmá-lo ou abatê-lo.

Augustus sorriu, era óbvio que não daria aquele prazer a ele, o de saber com quem estava lidando, o de poder ser preso, morto, ou sabe-se lá o que Scrimgeour faria, não... era mais fácil o aurorzinho morrer, por mais hábil que fosse ao se defender.

Perante o silêncio prosseguiram, nada além de manchas de sangue esparsas em suas vestes, nenhuma proximidade inferior a três metros de distância um do outro. Poderia levar a noite inteira, e eles permaneceriam de pé tentando acabar um com o outro, pois aquilo que era plenamente consciente para Rookwood, movia igualmente Rufus de maneira inconsciente.

De repente um feitiço errado saiu da varinha do irlandês, rápido demais, baixo demais, e acabou acertando precisamente o pé direito do auror, fazendo-o cambalear levemente, mas o suficiente para Augustus aproveitar a deixa e, sem tempo de erguer muito além a varinha, exclamar:

- Dectumsempra!

O auror ainda teve tempo de olhar para o adversário com curiosidade por reconhecer sua voz, apesar de não conseguir ligá-la ao seu dono, pois a dor que sentira na coxa fora lacerante, derrubando-o definitivamente ao chão como se o fêmur estivesse estilhaçado e ele não mais pudesse suportar seu peso sobre aquela perna. Não havia sangue, mas ele sentia como se a carne internamente também estivesse triturada pelo feitiço. Ofegou, a visão ficando turva aos poucos, mas quando o Comensal se aproximou, numa pose exultante sobre ele como se a batalha estivesse ganha, ganhou o mínimo de força necessário para apontar a varinha pra ele inesperadamente e falar o mais alto possível:

- Estupore!

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Valkiria gritou uma última vez, o mais alto que pôde, invocando o máximo de força que poderia fazer. Mais um pouco, a Frau ordenou, por isso ela deu o máximo de si para botar um ponto final naquilo de uma vez. Não sabia se aguentaria muito além, já estava exaurida, e ela sabia perfeitamente bem quando estava prestes a desmaiar, perder-se, desistir e sair de campo. A mão que apertava a de uma das Fraülens deixou de fazer pressão aos poucos, e a loira conseguiu perceber a parteira chamando seu tio e parecendo instrui-lo a fazer algo. Seria o enterro da criança? Seria o enterro dela? Não poderia saber naquele momento, pois as vozes ficaram confusas e as visões escurecidas antes que ela perdesse a consciência.

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Augustus podia ouvir claramente. A esposa gritava como jamais gritara antes, parecia sofrer de um mal terrível e, no entanto, segundos depois quem passava a berrar a plenos pulmões era o filho nas mãos de Reiniger, agredido somente pela luz, pelo ar, por tudo que lhe era absolutamente novo, pois acabara de sair do útero. Era lindo, era perfeito, e ele tinha vontade de estar lá para segurá-lo, para fazê-lo parar de chorar e mostrar-lhe que o mundo não poderia agredi-lo, pelo contrário, o mundo seria dele, um bruxo de sangue de ouro, dominaria todos os elementos a seu bel prazer.

E então ele percebeu que não estava de fato na cena, mas sonhava com ela. Se sonhava, estava inconsciente. E se estava inconsciente em campo de batalha, jamais poderia presenciar o nascimento do próprio filho de verdade.

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- Enervate! - A voz de Reiniger soou carinhosamente apesar de alta, e Valkiria despertou com lentidão.

A primeira coisa que sentiu foi um peso sobre seu peito e um cheiro que a priori achou estranho, e então aceitou que a estranheza provinha do fato de que ele era simplesmente... bom. Olhou para baixo e viu o bebê recém-nascido com sua minúscula mão perfeita a apertar o decote de sua bata, os olhos fechados, incomodados ainda com a claridade, e o nariz frêmito como se estivesse também a farejando. Era muito pequeno, avermelhado, não se parecia em nada com os bebês gordinhos que via sendo carregados por bruxas por aí. Imaginou se ele teria algum problema, e então a Frau finalmente sorriu para ela e segurou seu ombro, parecendo verdadeiramente feliz pelo rebento.

- Ele é perfeito, um menino muito forte. Estava enroscado no cordão umbilical, mas o Ministro e eu conseguimos livrá-lo.

- Por que ele está vermelho? Ele irá abrir os olhos, não irá? - Ela perguntou vagamente.

- Não há nada de errado com o seu filho, daqui algumas horas ele já estará mais acostumado com o mundo e até sorrirá para você. Já sabe o nome dele?

- Não. - Ela respondeu, com sinceridade.

Deixaria aquela missão para Augustus, ainda que o cheiro do bebê fosse bom, escolher um nome para ele estava fora de sua lista de prioridades. Tomar um banho e acender um cigarro ainda lhe apeteciam muito mais.

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Ele lutou para abrir os olhos, fez um esforço homérico para livrar-se do abismo escuro de seu subconsciente, que parecia insistir em prendê-lo em seus tentáculos invisíveis. Ele era senhor de sua mente, ele tinha o poder de ordenar seu cérebro, e ordenava que ele despertasse. Que ele despertasse. Que ele...

- Enervate! - A voz feminina soou como uma mão a puxá-lo daquelas profundezas estranhas.

A luz que invadiu seus olhos provinha de um candelabro no teto de uma sala, onde estava e qual a possível localidade daquele recinto fugiam da compreensão de Augustus ainda, e a primeira coisa que entrou em foco na sua visão foram os olhos pequenos e sagazes de Alecto Carrow ajoelhada a seu lado no chão, em meio a vários outros Comensais que permaneciam estuporados. Parecia que ele era o primeiro a ser despertado do feitiço.

- Você fez um bom trabalho com aquele auror, se sobreviver, sofrerá com aquela perna o resto da vida! - Ela sorria, parecia sinceramente admirada.

O homem fez algum esforço para sentar-se e tentar compreender melhor o que estava acontecendo. Não conseguiu. Voltou a encarar aqueles olhinhos levemente brilhantes, apesar das feições assustadoramente excitadas da mulher.

- Como eu vim parar aqui? - Perguntou de forma seca.

- Eu te resgatei. - Ela respondeu com simplicidade. - Quando você afastou Scrimgeour os aurores ficaram desnorteados, ele era o líder daquele grupo, era ele que estava ditando as ordens. Quando o encontraram no estado em que você o deixou levaram-no imediatamente junto com os outros feridos e os poucos que conseguiram prender. Dumbledore já havia conseguido levar as crianças para dentro dos limites do castelo, restou aos Comensais livres levar os que não haviam sido presos. Eu estava por perto, vi tudo o que você fez com o auror, achei algo... apaixonado, no mínimo.

Augustus meneou a cabeça por um momento, tentando ignorar o tom que ela usou na última sentença.

- Então tudo foi inútil? É isso que você está me dizendo?

- Bem... Mulciber fez valer a pena. Ele matou uma sangue-ruim imunda e fugiu conosco. Não é algo que deixou o pai dele de todo orgulhoso, mas deveria! O Lorde das Trevas irá recebê-lo muito bem, você também, creio, apesar de não ter dado um fim no auror.

- Só não dei porque... - Rookwood hesitou. Não deveria explicar nada a ela, não era seu dever dar justificativas a ninguém além de Voldemort. - Ele não irá falar conosco agora?

- Parece que está fora, Bellatrix disse que...

- Tenho que ir para a Alemanha! - Ele a interrompeu, levantando-se de impulso e, com isso, sentindo a cabeça pesar terrivelmente. A mulher levantou-se para ampará-lo, ainda assim ele insistiu: - Valkiria deve estar tendo o nosso filho agora, eu... eu devo ir para lá!

- Eu achei que essa história toda fosse um mito, que a cadela alemã estivesse morta e por algum motivo vocês estivessem cobrindo o fato com essa besteira de casamento e filho. Você, casado, Rookwood? Parece piada...

Ela falava meio debochada, meio maliciosa, tentando aproximar-se mais a todo custo. O irlandês demorou a reagir, ainda baqueado com tudo o que acontecera aquele dia e com o fato de estar ouvindo aquilo de uma mulher - por mais Comensal que fosse, ele não poderia agredi-la tanto quanto gostaria por uma questão de princípios. Limitou-se a empurrá-la para longe e sair pulando os desacordados que estavam pelo chão.

- Lave a sua boca pra falar da alemã, Alecto! É só o que eu te digo... - ele murmurou, mas volta e meia virando-se para ela e apontando de forma ameaçadora. - Lave sua boca.

Saiu daquele recinto o mais rápido que pôde e procurou uma lareira.

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A luz da varinha iluminava fracamente a loira adormecida. Augustus talvez jamais tivesse reparado antes, ou jamais tivesse a coragem de sentir o peito aquecer-se tanto perante tal visão. Queria acordá-la somente para falar que a amava, sim, pela primeira vez pensava naquela palavra com tanta naturalidade, admitia sentir amor pela esposa e sabia que nunca, nenhuma mulher se igualaria a ela. Valkiria havia dado um filho para ele, e o que explodia em seu ser era uma alegria que ele jamais experimentara antes.

Assim que vira o bebê todo enrolado em um manto, dormindo de modo tão expressivo, eventualmente remexendo-se e fazendo caras e bocas como se sonhasse com algo extraordinário, Augustus não coube mais em si. Tudo era pequeno aos pés do pequeno ser de ralos cabelos loiros iguais aos da mãe. O dia apagou-se de sua memória, a guerra, a morte, a dor que provocara em alguém... nada pesava, nada incomodava, sentia-se liberto e dono de uma merecida felicidade ao sentir a ínfima mão apertando seu dedo como se o reconhecesse. Amava-o, também. Nada jamais poderia tirar dele aquele momento.

- Augustus... - a loira abriu os olhos aos poucos, antes de espreguiçar-se morosamente. - Augustus, você está imundo, o que houve?

- Shhh... - ele selou os lábios dela num beijo manso. - Não diga nada, nada importa. Ele é perfeito, Valkiria...

Ela pareceu gastar um minuto inteiro em silêncio para entender, e então olhou o berço além. Nada daquilo havia sido um sonho, ela parira um filho e ele dormia profundamente há pouquíssimos metros.

- Qual nome você dará a ele? - Ela perguntou, sentando-se na cama e vendo-o buscar mais uma vez a visão do bebê, refletindo como se seu nome estivesse escrito em algum lugar de seu rosto.

- Caesar... Caesar Augustus Rookwood... - ele murmurou, com os olhos ainda fixos na criança.

Valkiria rolou os olhos em desagrado, mas preferiu não expressar alto sua opinião sobre aquilo para não ser convidada a escolher um nome melhor. O filho nascera para o pai, que carregasse seu nome e sua tradição familiar, ela não se importava.

- Obrigado, Valkiria... - ele sorriu sinceramente ao virar-se para ela, fazendo-a encolher ligeiramente.

- Tome um banho antes de se deitar e me conte tudo pela manhã, é a melhor forma de me agradecer. - Ela tentou dar de ombros, mas fez um gesto indefinido e voltou a deitar-se, enquanto o marido ainda perderia horas apenas observando o filho dormir.


[1] Trolls = Trasgos; Svartalfars = elfos negros, gênios do mal e do pesadelo, fazem parte da mitologia nórdica; Jotuns = gigantes.

Frau = Senhora; Fraülens = senhoritas.