A Substituta

Autora: Érika

"Saint Seiya" é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.

Capítulo 10 - Parte 2



Eleutherius, diferentemente do cavaleiro de ouro de Touro, nascera em uma família abastada e próspera. Tinha o amor de seus pais e o afeto de seus dois irmãos: Nikolaos, quatro anos mais velho do que ele, e Glafkos, que era dois anos mais novo. Mesmo assim, desde criança possuía uma personalidade egoísta e perversa, fazendo maldades com outras crianças, incluindo seus irmãos, obviamente. Era dissimulado, mentiroso e, com o passar dos anos, seu caráter foi piorando gradativamente.

Ao completar quinze anos, resolveu sair com alguns amigos para festejar. Seu círculo de amizades de modo geral era formado por pessoas mais velhas do que ele, pois ele considerava os "adultos" muito mais interessantes do que os meninos de sua idade. Além do que, "são os adultos que fazem o mundo funcionar", como ele mesmo costumava dizer. Obviamente, no princípio, os rapazes maiores o rejeitavam, considerando-o somente "um garotinho que mal havia tirado as fraldas". Todavia, com seu caráter amadurecido e audacioso, Eleutherius vencia essas barreiras facilmente. Como seu irmão Nikolaos também estava na mesma faixa etária de suas amizades, eles possuíam alguns amigos em comum. E justamente esses amigos resolveram comemorar o aniversário de Eleutherius com bebida alcoólica.

- Isso não. Meu irmão ainda é muito novo para beber - disse Nikolaos.

- Não seja tão conservador, Nikolaos - repreendeu-o um dos amigos.

- Não se trata disso. É que eu mesmo, por exemplo, nunca bebo. E vocês sabem. E já tenho dezenove anos - Nikolaos tentou se defender.

- Mas acontece que Eleutherius pode decidir por si próprio. Já está crescidinho - argumentou outro rapaz.

- Isso mesmo. Eu quero beber. Acho que já está em tempo - apressou-se em dizer Eleutherius.

- Mas... - começou o irmão, mas foi interrompido por outro dos amigos:

- Deixe-o fazer o que quiser. Não seja desmancha-prazeres.

Derrotado, Nikolaos concordou, mas prometeu a si mesmo que falaria com os pais a respeito. Efetivamente, foi o que ele fez. Quando descobriu, Eleutherius ficou furioso. Seus pais não foram particularmente severos. Apenas o aconselharam com carinho e muito tato. Além do que, Nikolaos não quisera prejudicá-lo. Ao contrário: só estava preocupado que Eleutherius sendo tão novo já começasse a beber. Todavia, tudo era inútil: Eleutherius considerava a atitude do irmão uma afronta e sobretudo uma ameaça à sua independência. Sempre tivera uma visão distorcida das pessoas, julgando-as erroneamente, muitas vezes de acordo com seu próprio caráter. Portanto, decidiu se vingar envenenando a comida do irmão. Mas acusou uma empregada da casa de tê-lo feito. A moça, mesmo proclamando sua inocência, foi presa. E com a influência que a família de Eleutherius possuía, evidentemente ela ficaria na prisão por muitos anos.

Nikolaos ficou doente por muitos dias, mas conseguiu se recuperar. Eleutherius não se preocupou muito, pois não pensara realmente em matar seu irmão. Mas sentiu um certo pesar por ele ter se recuperado. "Até parece que eu gostaria que ele tivesse morrido. Mas pensando bem, eu gostaria mesmo, não é? E por que não? Deve ser soberbo ter o poder de decidir quem vai viver ou quem vai morrer. Como um deus. Sim, deve ser algo maravilhoso, incomparável. Talvez mesmo não sendo um deus, algum dia eu possa..." , pensou Eleutherius consigo mesmo, enquanto em seus lábios desenhava-se um sorriso atroz.

Menos de um ano após este acontecimento, Eleutherius começou a envolver-se com drogas. Nikolaos descobriu e ficou horrorizado. Sem saber o que fazer, resolveu conversar com Eleutherius primeiro:

- Não quero causar uma dor tão grande aos nossos pais, mas também não posso permitir que você se destrua. Por favor, você não deve usar isso! O que você tem? Qual é o seu problema? Eu sou seu irmão mais velho, e se você me disser, posso te ajudar. Tudo nesta vida tem solução. Apenas deixe-me ajudá-lo.

- Por que você sempre insiste em se intromenter em minha vida? - perguntou Eleutherius contrariado.

- Não é essa a minha intenção. É que eu me importo com você. E me preocupo. Todos sabemos os males que as drogas provocam. Por que está fazendo isso? - perguntou Nikolaos em tom conciliador.

- Porque eu quero. Não sei, me deu vontade - disse Eleutherius em tom displiscente.

- O quê? Mas como pode dizer isso? Como um jovem que tem o amor de sua família, uma vida confortável e tranqüila, pode ter vontade de usar drogas? - perguntou Nikolaos escandalizado.

- Eu gosto de emoções fortes. Você é muito certinho, irmão. Por isso não me entende - disse Eleutherius alegremente.

- E não entendo mesmo. Não, isso não é possível. Tem que haver algum problema ; algo que nem nossos pais, nem nosso irmão e nem eu saibamos. O que é? Conte-me, por favor! Vamos te ajudar, eu prometo - disse Nikolaos súplice.

- Não há nada. Eu experimento porque gosto, nada mais. E não quero que você interfira - disse Eleutherius com ar de desafio.

- Mas então... acho que não me resta outra opção. Terei que falar sobre isso com nossos pais - disse Nikolaos com expressão contrita..

- Não se atreva! - disse Eleutherius entredentes.

- É para o seu próprio bem. Eles sofrerão, mas nós te amamos e vamos te ajudar - disse Nikolaos decidido.

Então Eleutherius soube que teria que matá-lo. Controlando-se, disse:

- Está bem. Prometo que não usarei mais. Só peço que não diga nada a eles. Não quero causar-lhes tamanho dissabor. Além do mais, seria um péssimo exemplo para nosso irmão. Não acha?

- Mas você promete que nunca mais usará essas porcarias? - perguntou Nikolaos em dúvida.

- Tem a minha palavra - mentiu Eleutherius.

- Então está certo. Eu acredito - concordou Nikolaos.

Dois dias mais tarde, Nikolaos estava perto de uma das janelas da sala do luxuoso apartamento de sua família, admirando o céu que estava estrelado naquela noite. Eleutherius estava saindo do banho e, ao olhar o irmão que parecia tão distraído, novamente a idéia de matá-lo aflorou em seu íntimo. Aproximou-se dele lentamente e o empurrou. Eles estavam no décimo andar. A morte de seu irmão foi instantânea. Eleutherius exultou: seu primeiro assassinato. Ainda que o tivesse cometido num impulso, de qualquer maneira já havia planejado matar o irmão. O importante era que tinha conseguido. Experimentou uma felicidade tão intensa, que pareceu-lhe quase física, pois todo o seu ser vibrava. Não se arrependeu depois, nem mesmo quando viu seus pais e seu irmão mais novo destroçados pensando que Nikolaos havia escorregado e por isso caíra. "Um acidente, é o que eles pensam. Tolos. Se soubessem..." , pensou Eleutherius, sorrindo intimamente. Na sua concepção, apenas se livrara de um estorvo, já que agora o irmão não poderia mais vigiá-lo. E os pais, perdidos em sua dor, sentir-se-iam prostrados por algum tempo. Portanto, ele teria maior liberdade. E principalmente: não precisaria mais abandonar as drogas. Gostava do efeito que elas lhe provocavam, sentia-se vivo e precisava delas. Ademais, a partir daquele momento seria ele o filho mais velho. E isto também lhe causava um grande prazer.

Meses depois, Eleutherius foi internado em uma clínica, vítima de overdose. Para os pais ele inventou que, desde que Nikolaos morrera, sentia-se tão infeliz que apenas conseguira aliviar seu sofrimento usando drogas. Sabia que era o meio errado, mas a dor que sentia dilacerava seu coração. Não conseguia viver sem o irmão. Seus pais ficaram penalizados e logicamente acreditaram em cada palavra. Eleutherius aceitou fazer um tratamento mas, ao cabo de um mês, implorou aos pais que o liberassem, pois ele já estava recuperado.

- Já perdemos um filho. Não queremos perder outro também - começou a dizer a mãe, mas o marido a interrompeu, mostrando-se mais benevolente:

- Precisamos confiar nele, querida. Afinal, é nosso filho.

- Eu sei, amor. E eu confio - disse ela.

- Então vamos liberá-lo. É um bom menino. E depois, se ele se envolveu com drogas, somos nós os culpados, pois nos afundamos na nossa dor com a morte de Nikolaos, esquecendo-nos de que Eleutherius também estava sofrendo por ter perdido o irmão - disse ele.

- Tem razão - ela aquiesceu.

Logo, Eleutherius deixou seu tratamento. Mas cauteloso, resolveu tentar manter-se afastado das drogas por algum tempo, muito embora às vezes a tentação fosse grande. Contudo, ele era incansável e queria experimentar novas emoções. Então começou a praticar pequenos furtos, ainda que não precisasse, por ser extremamente rico. Mas ele fazia isto apenas por prazer, porque gostava da sensação de viver perigosamente. E também sempre se divertia burlando a lei. No começo seus roubos realmente não eram significativos. Mas pouco a pouco foram crescendo, até que um dia ele foi descoberto. Mas calou a boca das autoridades subornando-as com uma grande quantia de dinheiro. Em pouco tempo começou a praticar latrocínios. Sempre se disfarçava mas, momentos antes de matar a vítima, revelava-se, pois queria que a pessoa que matava conhecesse seu rosto, para saber que morreria pelas mãos de "alguém muito importante".

Quando estava perto de completar dezessete anos, Eleutherius conheceu uma jovem de quinze anos de idade. A moça se chamava Melantha Polymeros e também pertencia a uma família bastante rica, embora não tanto quanto a sua. Ele começou a cobiçá-la no mesmo instante. Porém, a garota apaixonou-se por seu irmão Glafkos. Iniciaram um namoro. Eleutherius ficou revoltado. Todavia, resolveu ser cauteloso, posto que nenhuma mulher poderia rejeitá-lo. Além disso ele sempre obtinha o que queria. Por isso, começou fingindo que apoiava o relacionamento deles, e fez amizade com ela. Mas pensava consigo mesmo em como iria separá-los. E como desfrutaria ao fazê-lo.

Passaram-se os meses, mas nenhuma idéia parecia suficientemente boa. Durante esse tempo, discretamente Eleutherius tentou criar intrigas para afastá-los um do outro, mas fracassou todas as vezes. Então ocorreu-lhe que a única alternativa seria matar seu irmão. Como sempre, sentiu-se entusiasmado com a perspectiva de assassinar mais um ser humano, mesmo que fosse o próprio irmão. "E como eu já matei um irmão antes mesmo... e depois dele já matei várias pessoas. Então não haverá nenhum problema", pensou cinicamente.

À noite, entrou no quarto de Glafkos cuidadosamente, para não fazer nenhum ruído. Entretanto, gostaria que o irmão o visse no momento de sua morte. Nikolaos não o vira e isto sempre fora frustrante para Eleutherius, pois teria gostado imensamente que o irmão mais velho soubesse que havia sido assassinado por ele. "Bem, onde quer que ele esteja, imagino que ficou sabendo. Mas teria sido emocionante ver sua expressão se tivesse sabido antes", pensou Eleutherius zombeteiramente. Em seguida, assumindo uma postura rígida, aproximou-se de Glafkos e o acordou.

- O que foi? - perguntou Glafkos com voz sonolenta.

- Está vendo este cinto em minhas mãos? - perguntou Eleutherius.

- Sim. Mas por que você está usando luvas? - indagou Glafkos, ainda sonolento.

- Porque um assassino não pode deixar pistas. Sobretudo quando deseja que o homicídio pareça suicídio - respondeu Eleutherius altivo.

- Homicídio? O que é isso? Alguma brincadeira? - perguntou Glafkos perplexo.

- Além do mais, pensando bem, eu teria mesmo que acordá-lo, pois se você estivesse dormindo enquanto eu o matasse, se fizessem algum exame no seu cadáver, verificariam que você não estava acordado quando foi enforcado. Então evidentemente descobririam a farsa, ou seja, que você não se matou e sim foi assassinado - disse Eleutherius placidamente.

- Mas do que está falando? - perguntou Glafkos, agora completamente desperto, mas visivelmente confuso.

- E é óbvio que se uma pessoa pretende se matar, ela tem que estar acordada para praticar o ato - disse Eleutherius ironicamente, ignorando a pergunta do irmão.

- Mas por que está falando de morte? Por favor, explique-se, que brincadeira é essa? Está muito tarde, por que não vai dormir?

- É você quem vai dormir. Só que para sempre - respondeu Eleutherius.

Rapidamente, antes que Glafkos tivesse tempo para raciocinar e reagir, Eleutherius envolveu seu pescoço com o cinto que trazia nas mãos e começou a apertá-lo, enquanto observava a expressão de angústia e desespero no rosto do irmão. Este debatia-se inutilmente, tentando respirar, mas Eleutherius era mais forte e já tinha longa prática em assassinatos. Glafkos morreu, e depois Eleutherius pendurou o cadáver do irmão pelo pescoço em um dos banheiros do apartamento. Então dirigiu-se ao seu quarto para dormir tranqüila e despreocupadamente.

No dia seguinte, foi o último a se levantar e o fizera de propósito. Sem embargo, o corpo do irmão não foi o único com que ele teve de se deparar, afinal, como este ele mesmo matara, já estava preparado. O que não imaginava era que sua mãe também estava morta. Ela encontrara o corpo do filho e, desesperada, chamara o marido. Ao ver outro filho morto, e desta vez de uma maneira ainda mais traumatizante, isto, é, porque supostamente havia cometido suicídio, o pai ficara histérico. Abraçara-se às pernas do filho e começara a gritar numa aflição angustiante. Enquanto isso a esposa, com o rosto desfigurado pelas lágrimas, retirara-se indo até à biblioteca. Pegara um punhal e cortara os pulsos. Momentos depois, uma criada encontrara seu corpo. Quando o marido descobrira, quase ficara louco de tanta dor.

Eleutherius por seu turno pela primeira vez na vida ficou realmente abalado. Ele sabia que não sentia exatamente amor ou afeição pelos pais. Não obstante, a morte de sua mãe de alguma forma feria algum sentimento que porventura ele ainda pudesse ter em seu âmago.

Seu pai foi internado em uma clínica psiquiátrica. O mordomo da família resolveu chamar uma prima distante do pai de Eleutherius, que os visitava ocasionalmente, para que ela pudesse cuidar dele. Eleutherius então, apesar de sentir-se um pouco consternado pelo suicídio da mãe, e até mesmo pela internação do pai, posto que ele também não previra isso, percebeu que agora teria mais liberdade. E isto o reanimou. Em seguida, planejou aproximar-se completamente de Melantha. Já que matara Glafkos justamente para ficar com ela, não permitiria que a moça se afastasse "apenas porque perdera seu grande amor".

De fato, algum tempo depois, Eleutherius conseguiu conquistá-la. No entanto, nessa mesma época uma moça com quem Eleutherius mantinha um caso baseado apenas em sexo, como já fizera com muitas outras, ficou grávida. Ele tentou convencê-la a abortar. Ela se recusou terminantemente.

- Mas somos muito novos para nos casarmos. Eu ainda nem tenho dezoito anos. E você tem... quinze? - perguntou ele hesitante.

- Dezesseis - corrigiu ela.

- Bom, não importa. O que acontece é que não podemos ter esse filho - disse ele decidido.

- Mas eu não posso abortar. Isto seria um crime. Além disso, é um pecado - disse a moça nervosa.

- Quem disse isso?

- Deus não gostaria... - começou ela, mas ele a interrompeu:

- Se você é tão religiosa, então nem deveria ter ido para a cama comigo. Não antes do casamento. E como sempre soube que eu jamais me casaria com você (aliás, com ninguém), então sua falta é ainda maior.

- Eu sei, mas o que eu faço agora?

- Eu já apresentei a solução - disse ele inabalável.

- Mas eu não quero - disse ela teimosamente.

- Está bem. Será como você quiser - disse ele enquanto já planejava de que maneira iria matá-la.

Três dias mais tarde, Eleutherius foi à casa dela de madrugada. Entrou por uma das janelas de seu quarto e aproximou-se de sua cama. A jovem estava profundamente adormecida. Ele colocou a mão em sua boca, para impedir que gritasse. Ela despertou mas ao vê-lo, relaxou. Quando ele retirou a mão, ela perguntou:

- O que está fazendo aqui a esta hora?

- Vim me despedir de você - disse ele.

- Despedir-se? Por quê? Você vai embora? - ela perguntou alarmada.

- Não. Mas você vai - disse ele e, sacando um revólver que trazia consigo, disparou-o, matando-a. A arma estava com silenciador. Ele a observou por uns poucos segundos, enquanto murmurava:

- Uma boa companhia na cama. Mas nunca permitiria que uma prostitutazinha ordinária atrapalhasse minha vida. Meus irmãos tentaram e eu os eliminei. Você também não poderia escapar só porque estava grávida.

Logo depois, ele se retirou.

Assim, tirara mais um obstáculo de seu caminho e pôde prosseguir seu namoro com Melantha tranqüilamente. Este relacionamento, porém, começou a perturbá-lo, pois às vezes pensava sentir algum afeto por ela. Entretanto, em sua vida não havia lugar para sentimentos tolos e infantis. Só que a moça era cativante e, sem conseguir evitar, Eleutherius inesperadamente apaixonou-se por ela. Abandonou todas as outras garotas com as quais andava, já não freqüentava orgias e resolveu ser fiel, uma palavra da qual ele escarnecia sempre que possível. Contudo, agora efetivamente não se interessava mais por outras, Melantha bastava, era a única companheira que ele queria ter ao seu lado. Assim mesmo, se algum dia ela soubesse tudo que ele fizera, certamente ficaria horrorizada. Apesar disso, ele não se preocupava, pois tinha muito cuidado. Logo, ela nunca poderia descobrir nada que pudesse incriminá-lo. Como de costume, ele se sentia confiante e despreocupado. Mas seu afeto por ela não se mostrou muito duradouro.

Neste ínterim, o pai de Eleutherius recebeu alta e pôde sair da clínica. Mas o filho não o visitara uma única vez. E ao vê-lo de novo, o jovem percebeu como ele havia mudado. Agora era um homem calado e distante. Eleutherius imaginou que ele nunca se recuperaria de verdade. Mas não se sentiu mal com isso e resolveu ignorar a presença do pai.

Passaram-se dois meses. Um primo de Eleutherius, chamado Makarios, apareceu para visitá-lo. Perdera contato com ele desde que era criança, já que Makarios estava em outro lugar treinando para ser um cavaleiro. Na época Eleutherius não se importara com o fato nem pensara no assunto. Todavia, hoje ao ver o primo trajando uma bela armadura, mostrou-se interessado.

- Conte-me tudo o que você fez - pediu Eleutherius.

Então, Makarios pôs-se a relatar os detalhes dos anos de treinamento, suas dificuldades, todo seu aprendizado, não omitindo nenhum pormenor. Quando terminou de falar, ficou observando Eleutherius sorridente.

- Deveras interessante - comentou Eleutherius.

- Eu gostaria de ter um discípulo e começar a treiná-lo. Por isso vim. Pensei em você. Lembro-me de que, desde que éramos meninos, você sempre demonstrou ter muita força - disse Makarios.

- Sim. É verdade - disse Eleutherius enquanto pensava: "Eu sou muito forte. Matei várias pessoas até hoje e sempre escapei impune. Um dia sonhei ter em minhas mãos autoridade para decidir sobre a vida dos outros seres humanos. E consegui. Mas se eu me tornasse um cavaleiro, não teria apenas força, mas também possuiria poder."

- O que me diz da minha proposta? - perguntou Makarios em expectativa.

- Eu aceito - disse Eleutherius.

- Ótimo - disse o outro satisfeito.

- Quando partiremos? - perguntou Eleutherius.

- Depois de amanhã - respondeu Makarios.

No dia seguinte, após preparar as malas, Eleutherius foi conversar com Melantha.

- Você quer ser um cavaleiro? Mas como? - perguntou a jovem com expressão confusa.

Eleutherius explicou-lhe tudo.

- Deve ser uma vida fascinante - concluiu ele.

- Pode ser - disse ela em tom desinteressado.

- Por isso eu vou embora - disse ele.

- Mas e nós dois? - perguntou ela, triste.

- Não se preocupe. Quando eu terminar meu treinamento, voltarei para te buscar - disse ele distraidamente, já antevendo seu futuro como cavaleiro.

- Mas isso pode demorar muito tempo, segundo o que você acabou de me relatar - disse ela preocupada.

- Sim. É provável - disse ele, dando de ombros.

- Parece muito perigoso também - replicou ela.

- Isso é o que mais me agrada. A sensação de perigo iminente - disse ele sorrindo vagamente.

- Mas... eu não quero que você vá. Fique, por favor - pediu ela.

- Não. Eu irei - disse ele decidido. Em seguida acrescentou: - Entrarei em contato com você quando puder.

- Você promete?

- Mas é claro.

- E promete também que vai se cuidar?

- Eu prometo - disse ele.

Todavia, quando partiu com Makarios, Eleutherius esqueceu-se dessas promessas. Jamais a contactou. E não tornou a vê-la. Também esqueceu-se totalmente de seu pai ; em suma, de todos. Tudo que lhe importava, sua obsessão, era tornar-se um cavaleiro. E de ouro, evidentemente.

De fato, anos depois ele conseguiu. Derrotou Makarios em uma luta, matando-o desnecessariamente. Fizera de propósito, claro, mas fingiu o contrário, alegando que não pudera controlar por completo sua cosmo-energia. Aliás, até chorou copiosamente perante o corpo do primo. E todos acreditaram piamente nele. Eleutherius pensou que todos eram muito crédulos e idiotas e depois se esqueceu do assunto. Começou a matar pessoas indiscriminadamente como já fizera tantas vezes antes, mas agora era diferente porque era um cavaleiro. Por isso, sua força era muito maior. E foi assim que ele deixou seu nome completamente esquecido no tempo, tornando-se o temível Máscara da Morte, um homem que poderia ter tudo na vida. Mas enveredara por um caminho sem volta desde muito cedo. E a única coisa que lhe importava era matar, destruir. Como se fosse um desejo imperioso que ele tivesse que satisfazer de qualquer maneira, até aplacá-lo.

Mas com Athena no poder, ele sabia que precisaria de muita cautela e prudência. Ela vencera os adversários, então provara ser a mais forte. Logo, apesar de não ter a menor intenção de lutar pela justiça e pelos homens (pois se Máscara da Morte comprazia-se em exterminá-los, por que quereria lutar por eles agora?), o cavaleiro de ouro de Câncer estava decidido a servir Athena por enquanto. "Não é bom tê-la como inimiga, posto que no fim ela triunfou sobre os oponentes. Mas também não é bom me ter como inimigo. No final eu sempre consigo ludibriar todo mundo. Fiz isso durante toda a minha vida", ia pensando Máscara da Morte, quando um soldado apareceu para avisá-lo de que Athena precisava falar com ele. Alarmado, Máscara da Morte ficou se perguntando se havia acontecido algo.

Enquanto isso, Shiryu conversava com Saori.

- Então você encontrou Kiki? Que bom. Eu me alegro. Mas onde ele estava? O que houve? - perguntou ela.

- Desculpe-me, Saori, mas eu na verdade preciso falar sobre outra coisa - disse Shiryu.

- O quê? - perguntou a deusa intrigada.

- O assunto que quero abordar relaciona-se com um dos cavaleiros de ouro - disse o cavaleiro de Dragão, taciturno.

- É mesmo? Mas por quê? Aconteceu alguma coisa a algum deles? - perguntou Saori sobressaltada.

- Bem... não, não exatamente - disse Shiryu vagamente.

- Então...? - perguntou ela.

- Trata-se do cavaleiro de ouro de Câncer, Máscara da Morte. Eu não confio nele. Você resgatou todos os cavaleiros do khoma, com a convicção de que todos ficariam ao nosso lado, não é?

- Sim, claro. Mas qual é o problema com o cavaleiro de Câncer?

- Ele não é um bom homem, Saori. Estou convencido. Um homem que mata mulheres, crianças, homens inocentes com prazer, regozijando-se por isso... não pode ser uma boa pessoa. Ele mantinha em sua casa as cabeças de suas próprias vítimas. Nunca vou me esquecer do horror que Seiya sentiu quando entramos lá. A angústia na voz dele quando me disse que a Casa de Câncer estava incrustada de imagens de gente morta por toda parte. Inclusive imagens de crianças. Como eu estava cego naquele momento, apenas pude sentir algo bizarro quando chegamos àquela casa. Mas quando Seiya falou... senti meu sangue gelar. E Máscara da Morte ainda disse cinicamente que, quando precisou se livrar de algumas pessoas, acabou matando crianças também. E que em tempos de guerra, não se jogam bombas que poupem mulheres e crianças. Se soubesse como isso me mortificou... - disse Shiryu melancólico.

- Bom... mas agora ele prometeu lealdade a mim. E depois, ele também ajudou na luta contra Hades, não é? - disse Saori condescendente.

- Ele estava contra nós. E se agora jurou lealdade, deve ser porque julga o mais conveniente, pois derrotamos todos os nossos adversários. Mas eu não sinto que ele mereça confiança. Ele é um indivíduo traiçoeiro, Saori - disse Shiryu intrépido.

- Ainda assim, qualquer pessoa tem o direito de se arrepender e recomeçar. Não acha? - perguntou ela.

- Não acredito que alguém como ele possa se arrepender - disse Shiryu lentamente.

- Bom, eu vou mandar que digam a ele para vir até aqui. Então conversaremos os três - disse ela decidida.

Saori retirou-se um momento, pedindo a um soldado para chamar Máscara da Morte.

Algum tempo depois, os três estavam reunidos. Máscara da Morte observava Shiryu com uma ruga de preocupação, uma raiva mal-disfarçada no semblante. Shiryu por sua vez olhava Câncer com expressão contrariada. Mas quando Saori começou a falar, ambos fixaram sua atenção nela. A deusa expôs claramente a situação. Quando ela se calou, Máscara da Morte falou:

- Entendo como se sente o cavaleiro de Dragão. Mas eu já prometi que serei leal e lutarei pelos... seres humanos. O passado deve ficar enterrado.

Máscara da Morte fez uma pausa. Em seguida, dirigindo-se a Shiryu, tornou a falar:

- Se lutaremos por um mesmo objetivo, penso que as desavenças e rancores devem ser esquecidos. Não acha?

Ao olhá-lo nos olhos, Shiryu teve certeza absoluta de que não estava enganado: Máscara da Morte mentia. Entretanto, com um gesto de cabeça, concordou com ele.

Saori sorriu satisfeita e disse:

- Agora que tudo está esclarecido, espero que vocês se apóiem para que todos sempre possamos defender a paz e a justiça unidos.

- Assim será, Athena - murmurou Máscara da Morte, com expressão indefinível.

Por fim, Athena o dispensou. Antes de sair, Máscara da Morte lançou um último olhar em direção a Shiryu. Este julgou ver um sinal de advertência e uma ameaça velada nos olhos de Câncer.

Quando Máscara da Morte se retirou, Shiryu disse a Saori:

- Ele é dissimulado, perverso e perigoso.

- Mas Shiryu... - espantou-se Saori.

- Eu não tenho a menor dúvida. Ele não está arrependido - declarou Shiryu.

- Mas ele mesmo disse que... - ia dizendo Saori quando Shiryu a interrompeu:

- Não importam suas palavras. Ele não é sincero.

- Esqueça isso, Shiryu. Não se preocupe desnecessariamente. Dê tempo a ele - disse Saori um pouco impaciente.

- Como quiser - disse Shiryu.

Mas no íntimo, sabia que estava certo: Máscara da Morte não era o tipo de pessoa que se arrependeria de seus atos. E em tempo algum lutaria pela Humanidade. Talvez nem se nascesse de novo.