25. Estadia no inferno
Louise chorava copiosamente sobre o cadáver da única pessoa que lhe restara.
- Volta — ela implorava desesperadamente — por favor...
- Ela não vai voltar — desdenhou a voz grave às suas costas — agora você só tem a mim.
Virando-se, a menina viu o rosto malicioso do demônio que lhe levara a irmã e último membro de sua família. Sentiu vontade de atacá-lo e fazer vingança, mesmo que lhe custasse a vida, mas careceu de forças.
- Alastair — balbuciou — traga-a de volta.
- Você conhece o preço.
Dito isso, ele se aproximou da garota e a beijou nos lábios. Louise reviu o sonho que já parecia pertencer há séculos atrás. Ele se desenrolava perfeitamente à sua frente.
Dean sabia qual era aquele preço e o que significava aquele beijo. Ele via o filme de sua vida repetido naquelas garotas, como um déjà vu.
— NÃO, LOUISE! — ele gritou, desesperado por saber o que aguardava a garota no inferno — NÃO, MEU AMOR!
Louise apenas meneou a cabeça negativamente e lançou um olhar significativo para Alastair. Dean chorava e tentava articular algumas palavras.
— Louise, não faça isso — ele implorava — não faça o pacto, não vá para o inferno. Você não pode imaginar…
— Você fez, Dean, fez por seu irmão. Não me culpe de fazer o mesmo.
O rapaz, arrasado como nunca estivera, arrastou-se até Louise e segurou-a pelos ombros. Alastair assistia à cena com um sorriso enviesado.
— Louise, escute-me, por favor. Alastair não é o príncipe que você imagina, ele acabou de matar a sua irmã e condenar o seu filho à morte. Ele vai torturá-la no inferno, até que beire à loucura.
— Meu filho não vai morrer, Dean, são só algumas gotas de sangue. Não é verdade, Alastair? — e olhou para ele, implorando uma resposta positiva.
Mestre da dissimulação, o demônio apenas assentiu com o sorriso mais doce.
— É claro que sim, meu amor.
— Não acredite nele, Louise, eu sei o que…
— Eu sabia que iria para o inferno cedo ou tarde, Dean, e por que não fazer isso por uma boa causa? Por Samantha? Meu lugar não é aqui.
— O seu lugar é ao meu lado.
Novamente aquele lapso de sentimento por Dean invadiu o coração de Louise, mas se dissipou como fumaça quando Alastair tocou os seus ombros e sussurrou em seu ouvido que eles deveriam ir. A garota abriu a boca para articular alguma despedida, mas uma dor pungente em seu peito indicava que Alastair cravara ali uma faca, enquanto beijava delicadamente seu rosto, seu pescoço e seus ombros. Depois sorriu oblíqua e desdenhosamente para Dean e desapareceu.
Tudo o que o rapaz pôde fazer, foi apanhar o corpo sem vida e sem alma do que fora a sua namorada. Apertou-a contra o peito, chorando a ponto de convulsionar. Neste momento, Samantha sorveu uma grande lufada de ar e abriu os olhos. Ergueu-se de um ímpeto, e antes que Sam pudesse impedir, ela viu o corpo inerte da irmã.
— LOU!
Mas Sam a segurou, abraçando-a o mais delicadamente que pôde, embora ela se debatesse muito. Dean, que já estava transtornado, despejou uma torrente de palavrões sobre a garota, o que garantiu alguns segundos de silêncio, o suficiente para que ele pudesse falar.
— Louise morreu. Morreu e está no inferno agora. Ela fez o mesmo pacto que eu fiz para trazer Sam de volta à vida.
— EU NÃO ACEITO!
— DANE-SE SE ACEITA OU NÃO! ELA FEZ E ESTÁ FEITO!
— Pega leve, Dean.
— CALA A BOCA, SAMUEL! Não me peça calma agora!
— O que vamos fazer? — indagou Samantha às lágrimas.
— Enterrá-la — Dean tentou fazer a frase parecer fria, mas suas lágrimas e sua voz trêmula o denunciavam — que mais se faz com um cadáver?
— Deve haver um jeito — contestou Samantha — Castiel…
— Castiel — Dean deu uma risada nervosa — se sua alma está no inferno e não há meio de tirá-la de lá, ligue para Castiel. Dane-se Castiel! Ele não vai fazer nada!
— Não seja ingrato — ponderou Sam — ele tirou a sua alma do inferno, Dean.
— Metade — falou Dean voltando os olhos para Louise morta, sem se importar mais com as lágrimas — porque a outra metade foi levada agora.
Ele beijou os cabelos da moça e fechou os olhos, cobrando de si uma força e uma frieza que nem todo o tempo que passara no inferno lhe dera.
- x -
Louise olhou à sua volta. Aquele definitivamente não era o inferno que estudara no catecismo, com fogo e diabretes pulando de um lado para o outro. Era muito pior. Fogo havia, mas não com a predominância que ela imaginava. O lugar lembrava uma gigantesca e eterna gruta, com paredes toscas de pedra, que cheirava a enxofre. Aqui e ali havia almas atormentadas, pessoas de aparência horrível, cujos corpos se encontravam em decomposição, visto que era esse o modo de suas almas. Havia homens, mulheres, velhos e crianças. Nada de restrições, nada de limbos. Assim como as figuras horrendas, havia outras lindas. Belos homens e mulheres em trajes vitorianos, de expressões maliciosas em seus rostos. Uma menininha de rosto angelical fitou Louise demoradamente, o que a atormentou. Depois ela sorriu, mostrando dentes afiados, cobertos de sangue, e seus olhos viraram nas órbitas. Louise balançou a cabeça e segurou o braço de Alastair, que não a repeliu.
Louise, na camisola longa de seda branca que usara no momento de sua morte, caminhava em meio àquela sordidez como um verdadeiro anjo. Com efeito, ela não condizia com aquele lugar, uma vez que suas intenções por estar ali, eram as mais puras: Salvar a irmã e resgatar o filho. Talvez por seu coração bom e puro, aquela paisagem a atormentava tanto.
— Eu quero ver o meu filho — implorou — Alastair, por favor…
— Você o verá em breve — ele disse calmamente, enquanto caminhavam — tenha paciência, minha Lou.
Caminharam por mais um quarto de hora, quando um belo rapaz apareceu à frente do casal, como se surgisse do nada. Ele tinha um lindo rosto angelical e cabelos negros que lhe chegavam quase à cintura. Seu corpo certamente perfeito, parecia tremular de prazer sob as requintadas vestes de época, seguindo o mesmo ritmo de sua voz sussurrada, que lembrava, a todo o momento, um êxtase sexual. Estavam Louise e Alastair diante do demônio da luxúria, o mesmo que levara o pequeno Samael horas atrás. Louise o reconheceu.
— Onde está meu filho? — indagou em voz alterada.
O demônio riu.
— Onde está o seu filho? Ora, ele não poderia estar melhor. Agora venha, que quero lhe mostrar o inferno à minha maneira.
E, com uma piscadela, puxou Louise pelo braço.
— Não, Belial — Alastair falou calmamente — não vai torturar Louise. Nem você nem ninguém.
A risada de Belial ecoou alta entre os gritos de sofrimento das demais almas.
— Alastair apaixonado! — exclamou — Quem diria!
E ele abriu um sorriso tão desdenhoso quanto as palavras do demônio luxuriante, e ainda assim Louise acreditou em sua sinceridade e se sentiu protegida.
De fato, Alastair pouparia Louise de torturas, não que estivesse apaixonado ou qualquer coisa do tipo, mas porque atormentá-la não era necessário ou prazeroso no momento. Não faria mal que ela ficasse quieta no canto que ele lhe arrumara, um vão modesto na imensa gruta.
— Vou lhe trazer Samael, mas prometa-me que ficará aqui. De outra forma, eu não a encontrarei.
Louise assentiu e beijou o dorso das mãos do demônio, agradecida. E em questão de uma hora ele estava de volta, com o pequeno nos braços. Fazia aquilo não por compaixão, mas pelo prazer sádico que sentiria ao ver o momento em que Louise se separaria do filho para sempre.
— Aqui está — entregou nos braços de Louise o menino intacto — o nosso bebê.
Ela sorriu e ao mesmo tempo chorou. Estreitou o menino ao peito e repetiu várias palavras de amor, que, de certa forma incomodaram Alastair, como uma luz inesperada incomoda os olhos, após uma noite inteira de escuridão. Samael sorria para sua mãe, provavelmente sem se dar conta do lugar em que se encontrava. E foi exatamente ver o filho em semelhante ambiente que chamou a atenção de Louise.
— Alastair — ela indagou — se Samael está vivo, como ele pode estar no inferno?
— Ele é um demônio, querida — respondeu calmamente, como se falasse de uma coisa natural, como a cor dos olhos ou o formato dos lábios da criança — não precisa morrer para estar aqui.
E ela aquiesceu, visto que entendera. Não se importava que o delicado ser em seus braços fosse perverso. Era seu filho, e ela o amaria mesmo que ele crescesse no inferno e se tornasse uma criatura maligna. Ela o amaria incondicionalmente, assim como amava Alastair, e supunha que juntos, os três, naquele vão do inferno, poderiam formar uma família quase feliz.
— O inferno não é um mau lugar para se estar — ela suspirou, deixando a cabeça cair sobre o ombro de Alastair — definitivamente.
Na Terra, porém, a atmosfera era de tristeza e lágrimas no modesto funeral de Louise. Fora o próprio Dean quem a enterrara, e desde então adquirira uma expressão impassível, que não se dissipou quando ele chegou em casa e abriu os armários em busca de garrafas de bebida, que tomou como água, sem ao menos franzir o rosto para umas de gosto mais amargo.
— Ele está se acabando — comentou Sammy.
— Deixe — falou Sam, beijando os cabelos da garota — é o melhor que ele pode fazer agora.
E puxou a garota para o quarto. Dean, que estava no sofá da sala, parecia ausente a todas as vozes e movimentos.
— Eu imagino a sua dor, Sammy — disse Sam pesarosamente, quando a garota se largou à cama — não, eu não imagino, eu estou certo dela. Você lembra como me senti quando Dean…
— Eu perdi os meus pais — ela interrompeu — perdi o meu namorado, mas nada é tão terrível quanto perder Louise. É mais do que eu posso suportar.
Sam não sabia o que dizer, apenas beijou a namorada no rosto e acomodou-a do modo mais confortável que pôde. Samantha foi vencida pelo cansaço e adormeceu em um sono intranquilo. Depertou pouco depois, e não havia ninguém á sua volta, a porta do quarto estava fechada. Imaginou que Sam estivesse com o irmão na sala e, por carecer de forças, decidiu deitar-se novamente e esquecê-lo por um momento. Ao fechar os olhos, sentiu as lágrimas mornas e teimosas lhe escaparem dos olhos e castigarem-lhe o rosto. Todavia, mais do que isso, ela sentiu um toque delicado de seda no lugar "ferido", que causou um alívio imediato. Ao abrir os olhos, deu com o rosto de Castiel bem perto do seu, mas não afastou, não sentia força de vontade.
— Traga Louise de volta — sussurrou.
— Não sou eu quem a trará — Castiel falou, com sua voz, que era toda impregnada de paz, afagando delicadamente os cabelos da garota — mas ela vai voltar logo.
Samantha se ergueu, estudando Castiel com curiosidade.
— Ela vai voltar? — indagou — Mas como?
— Espere o tempo certo, Samantha.
— Não quero esperar, quero a minha irmã de volta.
— Terá de esperar. Não é melhor do que saber que ela nunca voltará?
— Você disse logo…
— Dois ou três meses, no máximo.
— É muito.
— Confie em mim, Samantha, sua irmã voltará, e voltará salva. Por favor, confie em mim.
— Eu confio — a garota balbuciou, e abraçou o anjo, roubando dele um pouco de uma paz que somente Castiel lhe era capaz de oferecer.
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Samael adormecera nos braços da mãe, e respirava com suavidade, enquanto o peitinho subia e descia placidamente. Louise afastou os cabelos louros de sua fronte e afagou-lhe o rosto, amando e admirando cada detalhe.
— Louise — Alastair chamou suavemente, com sua voz persuasiva — Samael precisa ir agora.
— Para onde? — e estreitou o menino em seus braços, em forma de proteção.
— Servir a Lúcifer.
— Não vai demorar, não é? Não quero ficar longe do meu Samael.
— Ele não vai voltar, minha Lou.
Se a cor de seu rosto se pudesse alterar, Louise teria empalidecido.
— Como assim? — sua voz beirava o desespero — Alastair, você disse…
— Eu menti — confessou, como quem sentisse muito — menti por necessidade. Lúcifer precisa de nosso filho em sacrifício. Seus amigos estavam certos.
A garota recurou, apertando o filho contra seu peito, tão forte que ele acordou e protestou com o início de um choro.
— Você não pode me trair dessa maneira, Alastair…
— Eu não queria, Louise.
— Você disse que me amava.
— Eu a amo, e amo também o nosso Samael, mas tenho ordens superiores…
— Nós podemos fugir…
— Fugir do inferno? Fugir de Lúcifer?
Samael agora chorava muito alto, assustado com as vozes alteradas. Alastair virou os olhos, entediado, mas Louise não percebeu.
— Eu não vou entregar meu filho, Alastair, não vou!
— Louise, seja razoável…
— Não! Você não vai levar o meu filho para sempre! Eu não vou deixar que ele morra!
— Chega, Louise! Está começando a me irritar. Dê-me o menino.
— NUNCA!
Louise principiou a correr, o que foi inútil, porque Alastair a agarrou sem nenhuma dificuldade.
— Não faça isso — ela implorou — se é para romper um selo, pode ter um filho com outra mulher. Qualquer coisa, mas não tire Samael de mim.
Como era de se imaginar, não foi difícil para Alastair tirar o menino de Louise, mas ela se debateu e tentou atacar, e o demônio a repeliu, lançando-a longe.
— Devolva-me, Alastair! — gritou desesperada, sentindo a voz arranhar-lhe a garganta — Devolva o meu filho!
E ele lançou um olhar de pena à garota, um lapso de compaixão que não durou mais de um segundo. Louise vislumbrou pela última vez a sombra dos cabelos louros e da roupinha azul clara de Samael, e então a realidade começou a lhe pesar qual um fardo, como se ela acabasse de acordar para todo aquele terror. Viu-se sozinha e totalmente desprotegida em um lugar que não era nada menos que o inferno. Sabia que estava morta, que o seu corpo humano estava morto, mas seu coração sangrava como se ainda tivesse vida. Ela gritava inutilmente por Alastair, mesmo sabendo que ele não voltaria, ao menos não com seu filho.
Passaram-se semanas, que a Louise, equivaleram anos. Anos no inferno. Embora, sob ordens de Alastair ninguém a torturasse, ela sentia sua sanidade ameaçada. Pensava em Dean, no que ele passara naquele lugar, e pensava no rapaz com mais frequência do que o seu amor hipnótico por Alastair deveria permitir. Lembrava-se da voz agradável, da risada exagerada e dos olhos verdes de Dean Winchester, e algo misterioso lhe fazia suportar o inferno. Ao menos até Alastair decidir aparecer, e trazer consigo a sombra do rosto do filho que ela perdera, já que eram tão parecidos.
— O que você quer? — ela indagou, recuando.
— Estava com saudades — respondeu o demônio, com seu olhar oblíquo e dissimulado — mas pensei que talvez você não quisesse me ver novamente.
— E pensou certo — ela falou, recuando ainda mais — o seu rosto me lembra o de Samael, e você o levou de mim.
— O meu coração está tão partido quanto o seu, Louise.
— Não pense que pode me enganar.
— E para que haveria de querer enganá-la, se já consegui tudo quanto queria, ou antes, tudo o quanto precisava? Se estou aqui, é porque a amo.
Louise viu lógica naquela afirmação e se atirou nos braços de Alastair, abraçando-o com toda a força que possuía. E tal afirmação não deixava de ser verídica, Alastair não possuía nenhum outro interesse na garota, ela não lhe servia para mais nada. Mas ele não a repelia. Não por amor ou compaixão, mas por um desejo mórbido de enganar, de ter na garota uma marionete. E Louise via-se cada vez mais suscetível, entregue e apaixonada, embora a cada dia, uma pequena luz se fizesse notar na escuridão, na forma esverdeada de certo par de olhos. Mas Louise não se agarrava a ela, porque sabia que toda a sua eternidade estava condenada ao inferno e a Alastair. Mal sabia ela que tudo aquilo poderia mudar, e era só questão de tempo.
