"O pôr do sol não é como lá em Angola."

Albus sentou-se ao lado de Marley quando a viu sozinha e mais afastada. O acampamento no norte da Escócia, na mesma região em que se encontrava Hogwarts e Hogsmade estava estranhamente quieto, como se as pessoas ali estivessem vivenciando a bonança antes da tempestade. Era aquilo mesmo, uma vez que o plano havia sido traçado para o presumido último capítulo daquela guerra. Albus via pais dizendo conselhos preciosos aos filhos. Irmãos e amigos se abraçavam e trocavam palavras de afago, casais se preparavam para se amarem no interior reservado de suas tendas.

Marley, no entanto, sentada sozinha e isolada até Albus chegar. Ele próprio teve conversas particulares com os primos que lá estavam. Por isso mesmo sentia que ninguém deveria ficar sozinho na véspera do plano. Especialmente alguém como Marley, que aos 18 anos já tinha amadurecido mais do que muita gente em uma vida inteira.

"Parece que eu não consigo mais me acostumar com o clima daqui." Marley balançou a cabeça.

"Ficamos mais de dois anos sem precisar usar casacos de frio tão pesados, não é verdade?"

"É isso, mas não é isso ao mesmo tempo." Marley conversava ainda sem olhar para o amigo.

"O que é então?"

"Eu não sei o que é exatamente." Finalmente encarou o amigo. "Nós tínhamos uma vida boa lá, não era? Quer dizer, era difícil, de muito trabalho, mas éramos uma família. Eu, Hugo, você e Lysander. Mesmo Lily e Santana, que chegaram depois. Nós tínhamos uma unidade e formávamos uma família. Agora, Hugo está morto. Nós estamos aqui reunidos e até Rachel está aqui. E Quinn, e seus primos e seus tios... todos prontos para a luta final e parece que nunca ficamos tão separados."

Albus entendeu a tristeza de Marley. Ela era uma órfã. A mãe tinha morrido em decorrência a obesidade mórbida antes mesmo de Marley ir para Angola. Era natural que ela tenha adotado uma nova família entre o grupo que administrava o campo de refugiados. O sentimento era recíproco. Marley tornou-se família também. Por outro lado, a reunião de alguns dos exilados com familiares e amigos que passaram tanto tempo se comunicando por mensagens na maior parte do tempo mostrou que a distância afetou muitas das relações. Isso foi doloroso e, talvez, por isso mesmo que havia tanto esforço em se reconectar com os que estiveram longe antes da batalha final. Marley não tinha ninguém distante para se reconectar. Não mais. Era doloroso perceber que, em meio as diversas reuniões que aconteciam, ela não era prioridade de ninguém mais.

Albus segurou na mão da amiga e apertou um pouco, tentando passar confiança.

"Ainda somos uma família, Marley. Você é da família e acho que você deveria parar de apreciar esse pôr do sol acinzentado e apreciar um belo jantar comigo e com todo resto."

Marley relutou por um momento, mas acabou aceitando a oferta. Levantou-se e se dirigiu a uma tenda com duas mesas grandes, usadas como salas de refeição. Encontrou por lá Finn ao lado de Rachel, Scorpius conversando alguma coisa com Rose, além de mais algumas outras pessoas com rostos conhecidos ou não. Todos estavam juntos e ao mesmo tempo separados. Era como se o ar pudesse ser fatiado tamanha a tensão, e isso a deixou incomodada. Albus segurou firme a mão de Marley. Queria provar um ponto, de que apesar de tudo, ela era importante. Não podia evitar tal preocupação: gostava muito de Marley para deixa-la de lado. Albus a admirava: ela era a caçula do grupo, sempre foi considerada a ajudante de todos, e sempre desempenhou cada tarefa com abnegação e destreza. Também a achava bonita por dentro e por fora, algo que nunca se permitiu verbalizar de maneira incisiva em respeito ao primo morto, para não passar a ideia errada. A verdade é que ele e Marley tinham coisas em comuns e, talvez, depois da guerra, eles poderiam explorar esses pontos.

"Pão?" Albus ofereceu a amiga um pedaço do delicioso pão doce confeccionado a perfeição pelos elfos domésticos que serviam no acampamento.

"Vamos dividir."

Albus sorriu, pegou um pão fresco do cesto. Foi quando o clarão aconteceu.

...

Finn fazia movimentos de vai e vem de forma acelerada. Enquanto isso, Rachel estava um pouco desconcentrada, preocupada também com o fato que as fortes estocadas estavam fazendo o corpo dela escorregar para fora do estreito colchão de acampamento.

"Ohhh, Rachel..." Finn acelerou ainda mais os movimentos que faziam os pequenos seios de Rachel balançarem como geleia. Então ele grunhiu e deu estocadas fortes enquanto gozava dentro da esposa. Suspirou aliviado pelo orgasmo e rolou para o lado, retirando o pênis no movimento.

Não foi um sexo suave e gentil. Foi um impulso causado pela eminente batalha final, a necessidade da foda como forma de extravasar um pouco da tensão. Tão logo entraram em uma das cabanas, tiraram as calças, a penetração foi quase instantânea e tudo se transformou em sexo puro e simples. Nada de experimentações. Rachel deitou-se e Finn veio logo por cima em posição papai-mamãe sem nenhum senso estético. Finn fazia movimentos acelerados dentro da vagina não idealmente lubrificada de Rachel. O gozo dele foi como o esperado, ao passo que Rachel ficou com a sensação dúbia de que havia cometido um erro, ao mesmo tempo em que ela de fato procurava algum tipo de alívio sexual. Esse parecia ser o resumo do que foi o casamento dos dois: a transa casual, a conversa desconecta, sem a devida intimidade e nem sempre satisfatória.

"Foi bom para você?"

"Foi ótimo." Rachel sorriu.

"Você gozou?"

"Caro que sim."

Finn acreditou ou fingiu acreditar. Tanto fazia àquela altura. Ele sorriu discretamente e beijou Rachel na boca antes de levantar-se do colchão. Rachel observou o marido (ou seria ex-marido?) procurar as roupas e vesti-las.

"Para onde vai?"

"Preciso checar algumas coisas. Podemos conversar depois do jantar."

"Claro."

Rachel observou Finn sair da pequena tenda e olhou para o teto. Aquela não era uma tenda mágica chique: era bem próxima a uma normal de acampamento, sem luxos e de estrutura básica. Estava nua da cintura para baixo, o sutiã fora dos seios, a camiseta retorcida, as pernas levemente afastadas, deitada de costas e olhando para o teto. Passou a mão nos próprios seios. Estavam sensíveis. Massageou-os um pouco, circulou a ponta do indicador no mamilo e desceu a mão direita até o clitóris. Começou a massageá-lo em movimentos circulares rápidos e gemeu. Ela se sentia suja em ter tais pensamentos, mas imaginava como deveria ser o sexo entre outras pessoas. Será que seria tão interessante quando nos vídeos pornôs da internet? Enquanto estimulava o clitóris, imaginava como seria bom se recebesse sexo oral. Como seria bom ser chupada, beijada e penetrada com a língua como se estivesse recebendo um beijo apaixonado. Penetrou-se com dois dedos enquanto continuava a pressionar um dos seios. Fechou os olhos, mordeu os lábios e gozou sozinha.

Abriu os olhos e permaneceu com a mão ainda no próprio sexo, com a ponta dos dedos na entrada da vagina. Massageou rapidamente o sexo, passando a mão molhada de fluidos por toda buceta e pelos pubianos aparados. Respirou fundo. Estava calma e satisfeita com a performance solo. Veja pelo lado bom: ela era uma solista nata, certo?

Rachel alcançou uma toalha e se enxugou antes de levantar-se e vestir-se. Saiu da pequena tenda e encontrou o movimento de bruxos de várias etnias e nacionalidades circulando, sem mencionar a enorme quantidade de mestiços e nascidos muggles.

Era um grupo e tanto que havia se reunido em torno de Santana Lopez: fugitivos de Azkaban, aliados próximos, pessoas que resistiram em silêncio durante os anos de regime supremacista, alguns estrangeiros que lutavam atraídos pelo ideal. Entre eles, ela se lembrou do sujeito que esbarrou num bar em Salem. Qual era mesmo o nome do irlandês? Rory alguma coisa. Sim, ele estava circulando ali, vivenciando o sonho idealista juvenil da suposta revolução socialista do mundo bruxo contra a opressão. Rachel ficou com pena do coitado. Se ele soubesse que não havia pessoa com mais alergia à política do que Santana, talvez ele não estaria ali arriscando a própria pele.

Rachel gostava da mistura, mas detestava a situação. Finn, por outro lado, estava muito à vontade, como se realmente tivesse encontrado o lugar no mundo. Via o marido conversar com as pessoas como se fosse um comandante. Ele parecia feliz.

Viu Santana e Quinn conversando num lugar mais isolado do acampamento. Aproximou-se até o ponto em que percebeu que as duas estavam discutindo sobre algo. Não quis interromper. Mas o que diria para a irmã naquele momento? Tinha a impressão de que tudo que poderia dizer a Santana soaria como uma despedida. Gostaria de evitar tal situação. Não queria perder mais ninguém. Os custos daquela guerra tornaram-se inestimáveis.

Voltou a atenção para o resto do acampamento em terras escocesas. Viu muitos rostos conhecidos, mas os três anos em que passou longe de tudo fez com que ela se desconectasse com muitas daquelas pessoas. Ela ficou feliz em saber que Kurt estava vivo, mas eles não tinham mais conexão. Kurt era apenas uma sombra do antes garoto arrogante e esperto que disputava com ela os holofotes do coral de música muggle. Muitos dos amigos que tinha em Hogwarts não estavam mais ali. Eles estavam mortos. Hugo, o primeiro namorado, estava morto. Brittany, que não cantava muito bem, mas dançava como uma deusa e tinha um ótimo astral, foi assassinada. Mercedes morreu em Azkaban porque não teve a coragem de pular de um trem em movimento.

Do coral em que ela montou na escola, considerando os membros mais longevos, apenas Rachel, Marley, Kurt e Finn estavam vivos. Quer dizer, ela sabia que integrantes como Artie Abrams e Ryder Lynn e Wade Adams também estavam vivos. Os dois últimos estavam naquele mesmíssimo acampamento se preparando para o dia "D", mas eram pessoas que não se envolveram e que ela realmente não tinha notícias.

Quem eram os amigos de Rachel ali? Quem ela poderia contar além daqueles que, de alguma forma, eram conectados intimamente com a família dela? E por família entendia-se Santana.

Rachel viu Rose andar de mãos dadas com Scorpius. Eles dois só não estavam formalmente casados porque não queriam oficializar nada mediante a uma guerra. Rachel os invejava por terem escolhido viver juntos primeiro. Rachel, que ainda era formalmente casada com Finn Hudson, que tinha acabado de transar com o marido, e que mal podia esperar para tudo acabar, só conseguia pensar no grande erro que cometeu. Aliás, divórcio entre bruxos era algo que sempre virava notícia dado a raridade do ato dentro de uma comunidade que era muito pequena.

O último divórcio que se tinha notícias na Inglaterra aconteceu há 18 anos quando Laura Madlay se separou de Roger Malone. Ela descobriu que o então marido estava tendo um caso com uma muggle. Laura Madlay, aliás, tornou-se uma apoiadora dos supremacistas. O filho dela, Breno Malone, estudou no mesmo ano que Rachel em Hogwarts, na casa de Hufflepuff, tal como os pais, e sofria bullying de colegas por ser o único filho de divorciados da escola, além de ser obeso. Rachel não tinha notícias de Breno, nunca sequer foi amiga dele, nem procurou ser. Mas se ele não estava ali, deduziu que estivesse do outro lado, ou não se envolveu.

Admirou-se por pensar em Breno Malone. Qual era o sentido daquilo?

"Rachel?"

A garota olhou para o lado em direção da dona da voz que conhecia muito bem.

"O que foi Santana? Que cara essa?"

"Nada..." Não parecia que era nada. Santana estava zangada e Rachel apostava que a conversa com Quinn foi a razão. "Você também não está com uma cara muito boa, sem mencionar que parece perdida. O que houve?"

"Não sei se seria algo que a gente pudesse conversar em cinco minutos às vésperas do mundo acabar."

"O mundo não vai acabar!" Santana disse com a habitual postura descrente, sem entender por um instante a ironia. E quando a ficha caiu, pisou em cima dela, a ignorando por completo. "De qualquer forma, parece que as pessoas aqui estão dando um jeito de desabafar todas as frustrações num fôlego só. Por que você não poderia?"

"Sua discussão com Quinn foi tão ruim assim?"

Santana respirou fundo, colocou a mão na cintura e olhou para o céu por um segundo antes de voltar a atenção para a irmã.

"A gente não pode esperar que as pessoas não mudem depois de três anos. Além disso... Quinn passou por maus bocados. Tenho que dar desconto. Muitos descontos."

"Você quer chamar ela de mesquinha, não é?"

"É tentador. Só que não tenho esse direito." Santana cutucou de leve o ombro de Rachel. "E você?"

"Eu só estou um pouco tensa. Sinto falta da nossa mãe." Rachel ainda estava com o coração de luto, era verdade. Mas seus problemas naquele momento eram outros e, mais uma vez, ela não queria importunar ainda mais Santana, que parecia ter as mãos cheias de coisas para resolver.

"Somos duas... na verdade é difícil parar de pensar a respeito."

"Acho que nós duas vamos ter de fazer terapia quando tudo isso acabar."

Santana gargalhou alto. Foi a primeira vez que havia feito isso desde quando recebeu a cabeça do próprio pai de "presente". Infelizmente não havia humor algum naquele riso. Era uma reação nervosa que logo causou olhos marejados e uma expressão de tristeza. Será que as pessoas não viam no quanto Santana estava destruída por dentro? Ela própria também estava. Rachel não tardou e abraçou a irmã. Permitiu-se demorar um pouco, apesar de alguns olhares ocasionais que passavam ali por perto e testemunhavam o gesto. Que os outros explodissem. Rachel abriu os olhos e viu Draco Malfoy se aproximar com um bilhete em mãos.

"Estou interrompendo algo?"

"Só uma sessão de piedade fraternal." Rachel brincou, dando tempo para que Santana se recompusesse.

"Está tudo bem?" O medibruxo não se importava com a interação das irmãs. Só estava sendo educado ao mostrar atenção.

"Dentro do possível." Santana respondeu finalmente encarando o aliado. "Alguma novidade?"

"Eles estão em posição. Agora é só aguardar."

"Ótimo!" Santana acenou.

"Ollivander pediu que você fosse a oficina dele. Parece que ele conseguiu algum resultado."

"Claro!"

Rachel não quis acompanhar Draco e Santana. Observou os dois se afastarem por um tempo, e voltou a sentir-se terrivelmente só e sem um lugar no mundo. Ela não era da "turma dos refugiados", como eram chamados os que ficaram na África administrando o campo, e nem da "turma dos fronties" como eram chamados todos aqueles que atuaram de alguma forma na Europa, como foi o caso de Quinn, Rose, Scorpius, Lorcan e Mike. Ela ficou afastada de tudo, sem turmas, sem amigos. Ainda tinha angustiante sensação de não querer voltar para os Estados Unidos. Que momento para se ter crise de identidade.

Cruzou com Finn num acampamento em que difícil era não esbarrar em alguém. O marido sorriu suavemente e a convidou a comer alguma coisa no refeitório. Rachel concordou porque não tinha nada melhor a fazer. Sentou-se em uma das mesas, cumprimentou Rose e Scorpius que estavam por ali, e também de outros mais.

Não quis comer. Não dispensou um pouco de suco, no entanto. Estava com sede e não achava que fosse sentir tanta falta das deliciosas misturas inventadas pelos elfos domésticos. Viu Albus chegar no refeitório juntamente com Marley. Cumprimentou os dois com um aceno leve e depois fingiu prestar atenção na bobagem que Finn estava a dizer. Foi quando o clarão aconteceu.

...

Quinn passou a ponta do dedo na cicatriz no braço, fruto da tortura que sofreu em Azkaban. Não sabia dizer o que era pior: se foi ter sido sistematicamente estuprada por um tempo que lhe pareceu uma eternidade por um moleque das trevas que era obcecado por ela, ou se foram as torturas intermináveis em Azkaban. A carne não lhe doía mais. A não ser pelas cicatrizes feitas por navalhas e a perda parcial da extensão total do movimento de pronação do cotovelo direito, não havia mais sinais dos maus-tratos sofridos. Mas a dor psicológica estava ali, quase que por inteiro. A dor da violação, da tortura via crúcio ou simplesmente por golpes. Até o provável aborto que sofrera em Azkaban. Quanto a isso, em meio a tantos pensamentos conflituosos, ela pensou que foi uma bênção. Como poderia criar um filho gerado pelo ódio?

Mesmo com toda assistência, ainda tinha problemas para dormir. Era difícil para ela estar num campo de batalha. Por mais que estivesse com sede de vingança, o turbilhão da vida pessoal dela não a deixava em paz. Ainda precisava lidar com o paradoxo que de também não pensava e nem queria estar em qualquer outro lugar, apesar das constantes ofertas de Santana para que ela se afastasse da guerra. Apesar de estar num acampamento cheio de aliados, Quinn preferia o isolamento porque não conseguia confiar mais nas pessoas, e por vezes perdia o fôlego como se estivesse prestes a ter um ataque de pânico. Ela só não se permitiu quebrar por completo porque a ideia de vingança lhe era muito mais forte. Santana podia ser a escolhida, mas ela é que tinha o desejo genuíno de matar, não interessando se isso poderia marcar a alma a ponto de fragmentá-la. A alma de todos ali estava marcada de alguma forma.

"Quinn?" Ouviu a voz de Mike fora da barraca. "Está aí? Posso entrar? Eu trouxe um rango."

O amigo entrou mesmo assim. Doeu-lhe o coração encontrar a amiga sentada numa cadeira no cantinho da tenda, abraçando as próprias pernas. Quinn deveria ser um falcão e voar pelos céus a uma velocidade incrível que faz jus a ave da rapina mais leve e veloz do reino animal. Ser um animago era como invocar o patrono que ela nunca foi capaz de fazer por completo. Mas depois da captura dela, nem isso a atraía mais.

"Fritas." Mike ofereceu. "Você adora batata frita com mostarda."

Quinn acenou e sentou-se normalmente. Pegou dois palitos de batata frita feita a perfeição pelos elfos domésticos que estavam no acampamento. Estavam maravilhosas, crocantes no ponto certo e quentinhas. Uma pena que ela não estava com fome. Quinn tinha pouca fome e havia emagrecido muito.

"Elas estão boas."

"Elas são mágicas." Mike gesticulou espanando os dedos de forma dramática.

Quinn sorriu brevemente. Era o máximo que poderia dar.

"Não quer dar uma volta? Aproveitar o resto da luz do sol que ainda resta? Relaxar um pouco?"

"Mike, sinceramente eu não vou entrar nesse clima de todo mundo se despedir de todo mundo para o massacre amanhã. Eu prefiro ficar aqui me concentrado."

"Não se concentre tanto, Fabray." Os dois foram surpreendidos com a entrada de Santana, que em vez de batatas fritas, tinha uma garrafa de cerveja amanteigada em mãos. "O que precisamos é de um pouco de conversa mole, e tudo fica mais fácil com cerveja."

Santana pegou algumas folhas de papel que, com um toque de suas mãos começaram a tomar forma de copos com a estrutura tão endurecida que parecia ser de vidro. Ela colocou os três copos transfigurados sobre a mesinha, ao lado das batatas, e também a garrafa de cerveja.

"Impressionante." Mike disse enquanto examinada os copos recém-formados.

"Pequeno truque que criei enquanto viajava com Lily. Esses improvisos são bastante úteis quando se tem poucos recursos em meio ao nada. A falta de um simples copo de plástico com estampa do Mickey te ensina a ser criativo." Santana explicou enquanto Mike abria a garrafa para servir os três.

"Dizem que você também aprendeu a voar." Mike comentou enquanto Quinn permanecia em silêncio. "Essa eu queria ver para crer."

"Está mais para pular bem alto em linha reta do que voar." Santana bebeu um gole. "Não se equipara a um hipogrifo."

"Ou a um falcão." Quinn resmungou ainda sem beber a cerveja.

"Você é um animago, eu não. Isso é uma vantagem injusta nessa questão."

Quinn não respondeu e não conseguiu disfarçar o desgosto.

"Recebeu alguma notícia sobre Lily?" Mike mudou de assunto ao perceber a tensão no ambiente.

"Recebi um bilhete ontem. Ela está bem. Está quase entrando no nono mês de gestação. O importante é que ela está segura junto com a mãe e a tia dela."

"Não é assustador? Digo, saber que está prestes a ser mãe?" Mike conversava de bom grado e ignorava o rosto de desgosto de Quinn, que acompanhava a conversa em silêncio.

"É mais que assustador! Eu não sei se serei uma boa mãe, se vou conseguir passar por isso sem cometer erros graves." Santana tentava abstrair o fato de estar numa guerra e a possibilidade de perder o duelo. Era melhor ter um pouco de otimismo, mesmo que mínimo, e pensar no futuro ajudava.

"É mesmo, San. O nascimento de uma criança é algo assustador." Quinn disse com desdém.

Santana deixou o copo de cerveja sobre a mesinha e franziu a testa para a amiga, surpresa com o tom jocoso. Pensou em retrucar, mas isso estragaria por completo o propósito da ida dela ali: jogar conversa fora e tentar aliviar um pouco a tensão tanto para ela própria quanto para Quinn. Era uma tática que tentava fazer antes de entrar num assunto sério que precisava discutir com a amiga. Decidiu ignorar e voltou a tomar um gole de cerveja.

"Acho que você e Lily vão ficar bem. Veja o exemplo da minha irmã mais velha... ela era a pessoa menos indicada para reproduzir, mas não é que ela revelou ser uma boa mãe?"

"Kyla está na China, certo?" Santana perguntou.

"Para a alegria dos meus pais." Mike tomou um pouco da cerveja ao passo que Quinn continuava apenas bebendo.

"É engraçado te ver como a ovelha negra da família."

"Não é à toa que eles cortaram contato comigo."

Santana sorriu e acenou. Quinn continuou imóvel, aumentando progressivamente a tensão do ambiente. Isso fez com que o silencio desconfortável recaísse entre os três.

"Quinn, posso falar contigo um minuto às sós?" Santana perguntou, fazendo Quinn hesitar por um momento.

"Eu tenho algumas coisas a fazer... Vocês fiquem à vontade." Mike disse sem-jeito.

"Não, Mike, fique e termine a cerveja. Eu converso com Santana lá fora. Vai ser bom pegar um ar fresco."

Quinn deixou o copo de papel sobre a mesinha e caminhou para fora da tenda, acompanhada de perto da melhor amiga. Quinn cruzou os braços. Antes era uma posição que demonstrava o individualismo e uma certa prepotência da parte dela. Mas depois de todo trauma, o cruzar de braços virou um gesto de autoproteção e de distanciamento.

"Sobre amanhã, Fabray, acho que você deve ficar para trás. Fique com Rachel." Santana queria que soasse como uma sugestão, mas o tom dela foi quase impositivo.

"Negativo. Eu quero estar lá." Quinn disse sem encarar a amiga.

"Você não está em condições. Você está fora de balanço."

"E você está, Lopez?" Quinn a desafiou. "Você ficou órfã em menos de um mês. Sua mulher está prestes a dar a luz. Tem um monte de gente querendo a sua cabeça. Você não consegue mais dar forma ao seu patronus depois que a sua mãe morreu, e vai me dizer que eu estou desequilibrada?"

"A questão é que eu não tenho escolha. Você tem! Você deveria ficar para trás para o seu bem e para o resto da equipe."

"Exatamente, Lopez, eu tenho uma escolha. A grande líder dessa merda está dizendo isso diretamente a mim. Então respeite minha decisão."

"Quinn." Santana suspirou frustrada. "Por favor, não queira dar uma de mártir. Esse é o meu papel. Você sempre foi uma sobrevivente. Você foi capaz de me trair porque foi o mais conveniente pra você. Não seja estúpida e sobreviva mais uma vez. Fique para trás. Você já se doou mais do que precisava nesta guerra e pagou um preço muito alto."

"Vá se despedir da sua irmã. Era o que faria se fosse você."

Quinn virou as costas e deixou Santana plantada no meio da conversa, atônita com a atitude da Slytherin. Voltou a tenda e encontrou Mike que havia pacientemente esperado.

"Você ouviu?" Quinn perguntou seca.

"Não... mas sei do que se trata. Santana não está escondendo o que pensa nesses últimos dias."

"Você concorda com ela."

"Eu a entendo e até concordo. Você e Santana tem essa forte ligação, essa tensão sexual, que se não fosse por Lily... Eu sei que você quer lutar e acabar com a raça dele, Fabray, mas você está realmente fora de forma." Mike suspirou e balançou a cabeça. "Só que nós passamos três anos juntos, fomos mais do que uma mera equipe de informantes. Eu, você, Rose, Scorpius, Teddy, Lorcan, Athena... a gente não comeu pão que o diabo amassou para chegar na reta final desta guerra e deixar todas as glórias para os refugiados protegidos. Eu sei o que você quer fazer e vou te dar cobertura."

"Você sempre me deu cobertura, Mike. Obrigada."

Mike sorriu e brindou com o resto da cerveja. Bebeu tudo num gole, deixou o copo improvisado e deixou Quinn em paz, como ela desejava ficar em primeiro lugar. Quinn voltou a sentar-se abraçando as pernas, mas desta vez a mente dela voltou-se a alimentar uma certa raiva do mundo. Era melhor do que sentir pena de si mesma.

Raiva e rancor eram alimentos que ela precisava naquele momento. Quinn fechou os olhos para descansar. Foi quando o clarão aconteceu.

...

Henry Ollivander amava desafios. A melhor parte em se fabricar varinhas, além de dar continuidade a uma arte milenar, era o desafio em se fazer novas combinações, em se conseguir combinar elementos sem explodir a metade do vilarejo. Havia uma associação de pesquisadores e fabricantes de varinhas, em que faziam parte estudiosos de diversas partes do mundo. Costumavam se reunir em congresso a cada três anos, mas a guerra na Europa cancelou o evento que aconteceria em Berlin. Foi uma pena para Henry, que ficou praticamente confinado em Hogsmeade por mais de três anos.

Ollivander ainda se lembra com certo pavor quando, pouco mais de um ano após a queda de Hogwarts (e de ele ter escondido Santana, Quinn e Neville no porão da casa), certo dia, Samuel Evans em pessoa bate à porta dele. Estava acompanhado de Zabini, vestido em roupas muito fechadas, podia-se ver as cicatrizes ainda frescas na lateral do pescoço. A missão de Henry àquela noite era muito simples: polir a madeira da varinha construída por Samuel Evans em pessoa. Henry ainda se lembrava que aquele foi o trabalho mais vigiado que fez em toda sua vida. Ele, como um artesão da madeira, trabalhou durante uma semana inteira no polimento da varinha e no esculpir. Sempre que terminava uma etapa, Samuel pegava a varinha e a levava. Trazia de volta no dia seguinte, sentava na cadeira ao lado e não tirava os olhos do especialista. Mas o que Henry mais se lembrava era da energia que a varinha emanava: era diferente, pesada, das trevas.

Henry também sentiu algo diferente no fragmento de varinha que Santana havia trazido dos arredores de Hogwarts. Essencialmente, a varinha, que havia sido uma autêntica relíquia da morte, estava arruinada. Mas Santana havia lhe dado a incumbência de tentar reaproveitar qualquer coisa que fosse do pequeno fragmento sobrevivente em uma nova varinha. Ele não teria não mais que uma semana para cumprir tal tarefa. Foi só no que Henry Ollivander pensou desde que recebeu a incumbência.

O fragmento era surpreendente poderoso. A madeira era definitivamente de carvalho, mas de uma árvore tão velha, que Henry tinha receio de estimar a idade e chegar a conclusões absurdas. Ele foi a oficina do porão, selecionou um pedaço de madeira de carvalho bem encorpado, e envolveu os fragmentos da madeira, de modo que elas passassem a estarem mais próximas do núcleo. Quanto ao miolo, Henry não trabalhava com pelo de thestrall. Era um elemento raro que ninguém gostava de manipular porque a força mágica motriz era ativada pela própria morte. Em outras palavras, tinha de ser combinado com algo já morto. Animais geralmente não precisavam ser mortos para se fazer varinhas. Henry consultou a biblioteca particular de pesquisas dos Ollivanders para encontrar uma solução, uma vez que o pelo de thestrall anulava os efeitos dos tipos de núcleo mais comuns: dragão e unicórnio.

Algumas experimentações e ele percebeu que o pelo de thestrall reagiu com o pó de osso do famoso basilisco morto por Harry Potter na Câmara Secreta. Assim foi feita a nova varinha.

"Foi o melhor que pude fazer." Ollivander mostrou a varinha a Santana. "É óbvio que não é uma varinha tão poderosa quanto a original, mas, ainda assim, é certamente a varinha mais poderosa que eu já construí. O acabamento está rudimentar. Esteticamente é um trabalho ruim, mas não tive tempo."

Santana observou a varinha ainda em estado bruto e hesitou por um momento.

"Tem certeza que é seguro?"

"Se você quer combater Evans com o mesmo poder de fogo, essa é a única saída."

Santana segurou o objeto mágico. A energia era mesmo forte, considerando que o contato da varinha com a pele sela causava uma suave sensação de formigamento.

"Vamos! Experimente!" Ollivander disse ansioso para ver o resultado.

Quando Santana manejou a varinha para um pequeno teste, tudo explodiu.