Capítulo 24
Isabella
Acordei no dia seguinte sentindo o peso da noite anterior. Meu corpo estava levemente dolorido, e impregnado com o aroma de hortelã dele. Eu espreguicei sentindo todos os meus músculos se contraírem, para depois relaxarem e darem a sensação gostosa que as pessoas tanto buscavam pela manhã.
Abri os olhos, Jasper não estava no meu quarto. Sua mala não estava no lugar que ele havia colocado. Eu suspirei, passando a mão no cabelo e jogando-o para trás. Onde Jasper havia ido? Lembrei-me dos olhos vermelhos escuros do vampiro. Tinha muito tempo que Jasper não caçava, e eu sabia que ele precisava sair de Forks para se alimentar.
Eu saí da cama rapidamente, decidida a ir embora de Forks no mesmo dia. Coloquei uma roupa mais confortável e desci as escadas para tomar meu café-da-manhã. A casa não estava completamente vazia, Sue estava na sala com o meu pai, que assistia televisão com calma, apoiando uma tigela de cereais na perna enquanto via o noticiário tedioso da cidade.
- Bom dia!
Desejei aos dois e Sue sorriu para mim. Charlie virou a cabeça e acenou.
- Bom dia, Bells.
Eu permaneci calada. Charlie estava bem melhor, isso era visível mesmo para olhos sonolentos. Sua perna estava pousada em uma almofada e eu conseguia ver os frascos dos remédios colocados organizadamente em cima das prateleiras da sala. Caminhei em direção a cozinha e peguei uma barra de granola, enquanto voltava para a sala. Sentei-me no sofá e respirei fundo.
- Pai, eu preciso ir embora hoje.
Menti. Eu não precisava ir embora. Eu tinha cerca de um mês sem aula graças a um atestado médico absurdo e sem sentido. Mas eu queria ir embora. Minha missão em Forks já havia sido cumprida, e eu não queria continuar em um local que poderia me dar mais dores de cabeça. Charlie colocou a tigela para o lado, fazendo uma careta. Eu sabia que meu pai odiava cereais, mas o médico tinha recomendado algo mais leve enquanto ele estivesse tomando remédios. Mas a careta do meu pai era por outro motivo.
- Tem certeza?
Ele me olhou com olhos tristes e eu assenti com a cabeça. Charlie se levantou do sofá e Sue o olhou em alerta. Ele pegou as muletas e caminhou até mim, me dando um abraço. Eu correspondi, sentia falta do meu pai, e para dizer a verdade, não sabia quando iria vê-lo novamente.
- Faça uma boa viagem. E dê notícias quando chegar em casa.
Eu sorri, dando duas palminhas em seu ombro.
- E você faça o favor de não me dar mais sustos assim!
Charlie abaixou a cabeça e pegou a mão de Sue. O rosto da mulher ficou vermelho, e eu pude sentir a batalha que ela estava travando consigo mesma, decidindo se seria melhor continuar de mão dada e fingir que nada aconteceu, ou sair do local. Eu sorri, porém não disse nada. Sabia que para meu pai era difícil contar sobre sua vida pessoal, e apenas o gesto já havia me dito tudo o que eu precisava saber.
Coloquei a mala no carro com dificuldade. Jasper não estava ao meu lado para me ajudar dessa vez. Eu acenei para Sue e Charlie e bati a porta, girando a chave e ligando o veículo. Não demorou muito para eu entrar na estrada fria e vazia que iria me levar até em casa. Eu senti meu celular vibrar no bolso e desacelerei, pegando o aparelho e abrindo-o. Era uma mensagem de texto.
"Vou demorar cerca de dois dias para chegar ao Alasca. Depois te explico. Jasper"
Li em voz baixa, tentando ignorar a sensação ruim que percorreu meu corpo. Eu não queria viajar sozinha, mas eu sabia que não tinha o direito de não gostar da decisão de Jasper. Eu não era nada do vampiro. Sabia que sem a presença dele, a viagem demoraria mais do que o normal, afinal, eu era humana demais para dirigir por horas a fio sem comer e parar para descansar em algum lugar. Respirei fundo, colocando meu CD preferido. Seria uma longa e tediosa viagem.
Jasper
Entrei em um hotel de cabeça baixa. Eu sabia que depois de ter me alimentado por horas meus olhos estariam mais vermelhos do que o normal. O recepcionista me desejou uma boa noite e me entregou a chave, já me reconhecendo. Eu agradeci o humano e subi as escadas em passos leves e lentos, até chegar à porta que eu via sempre; a porta de um hotel, a prova de que eu não possuía um lugar fixo para morar.
Até ontem.
Meu sorriso se alargou. Seria a última vez que eu passaria por aquela porta. Eu entraria no quarto apenas para pegar o resto das minhas roupas e voltar ao Alasca. Voltar para Isabella.
Minha mão estava prestes a girar a maçaneta prateada da porta, quando eu senti algo estranho. Uma sensação horrível percorreu todo meu corpo e meu sorriso morreu, dando lugar a uma preocupação que eu não sabia de onde vinha.
Algo estava errado, eu só não sabia o que era, mas meu instinto gritava para mim que o lugar onde eu estava não era o certo. Virei-me, a preocupação com as roupas sumindo da minha mente em um segundo. Desci as escadas do hotel correndo, mas de forma que os humanos ainda me achassem normal. Joguei a chave no balcão da recepção junto com notas altas de dinheiro e saí do hotel.
Comecei a correr mais rápido no exato instante que não estava mais à vista de humanos. Meu cérebro veloz já fazia cálculos de quanto tempo eu demoraria a chegar ao local mais rápido, de carro ou correndo. Eu ainda não sabia o que eu faria, mas eu sabia para onde deveria ir.
Isabella
Plantei os pés em casa e joguei a mala na entrada do apartamento, sorrindo. Lar doce lar, o único local que eu poderia ficar confortável e à vontade completamente. Fechei a porta com cautela, jogando-me no sofá e fechando os olhos. Eu poderia ficar um mês em casa, apenas cuidando de assuntos pendentes, curtindo meu apartamento. O atestado médico que Jasper proporcionara era errado, mas havia sido útil.
Meu estômago roncou, dizendo-me que eu não tinha o alimentado. Suspirei, levantando-me do sofá e caminhando em direção a geladeira. Não havia nada, estava quase vazia. Eu tinha saído com tanta pressa a fim de ir para Forks que havia me esquecido completamente de passar em um supermercado e comprar comida.
Fechei a geladeira e passei a mão no rosto. Meus olhos pousaram no relógio da cozinha. Onze horas da noite. Estava tarde, mas se eu não comprasse nada, não teria comida para a semana. E eu não queria sanduíches e pizzas. Odiava alimentos gordurosos depois de viagens longas.
Não pensei duas vezes antes de colocar meu casaco pesado e pegar a chave da caminhonete que eu havia acabado de jogar no potinho perto da porta. Tranquei o apartamento e desci até a garagem. O vento gelado do Alasca me saudou, me lembrando de que eu estava em um lugar mais frio do que Forks. Minhas mãos começaram a ficar geladas e eu entrei rapidamente no carro, ligando o aquecedor. O supermercado vinte e quatro horas mais perto ficava cerca de vinte minutos de onde eu morava, e eu não queria passar nem cinco sentindo frio.
Peguei a avenida principal, o acesso mais rápido ao meu objetivo. Eu só queria comer e dormir na minha cama, e isso dependeria de quanto tempo eu faria minhas compras.
As sacolas estavam pesadas, o supermercado estava vazio, e consequentemente o estacionamento também. Eu podia ver minha caminhonete estacionada por perto, mesmo que o local estivesse escuro. A neve caía e eu já estava sentindo meu corpo protestar devido à temperatura. Merda, eu havia me desacostumado com o Alasca em apenas alguns dias.
Eu escutei um barulho estranho e estaquei, olhando em volta com cuidado, mesmo que os flocos não me deixassem ver muito além de cinco metros. As sacolas estavam apertadas contra meu corpo e eu pude sentir uma presença por perto.
- Jasper?
Chamei o vampiro com esperança, mesmo que eu soubesse que seria inútil. No meu íntimo eu sabia que não era ele, e fiquei um pouco nervosa quando um grupo de aproximadamente quatro homens começou a se aproximar, ficando mais visível.
Uma sensação horrível de déjàvupercorreu meu corpo e eu engoli em seco, me virando de costas e acelerando os passos. Eu podia sentir minhas mãos tremendo e eu sabia que não era por causa do frio. Respirei fundo, apertando ainda mais as sacolas no meu corpo, tentando ficar mais calma.
- Aonde vai, delícia?
Uma voz masculina e grossa perguntou, mas eu não me virei. Sabia que se desse alguns segundos da minha atenção, eles poderiam concluir algo errado. Estava quase chegando à minha caminhonete quando senti uma mão me segurar fortemente pelo ombro.
Assustei-me e deixei as sacolas caírem no chão. Escutei risadas maldosas atrás de mim, mas eu não me virei, apenas me abaixei lentamente e comecei a recolher os pacotes que havia comprado minutos atrás. Levantei-me e respirei fundo, virando-me para eles. O grupo me olhava, diversão percorrendo os pares de olhos, eu não me mexi, apenas ergui uma sobrancelha em uma tentativa tola de parecer indiferente e corajosa.
O homem mais alto do grupo pegou bruscamente minha sacola e o papelão fino rasgou-se, espalhando novamente no chão o que era pra ser minha comida da semana. Eu o olhei agora com um pouco mais de raiva. Ele sorriu para mim. Sem pensar duas vezes, eu plantei minhas mãos em seu peito e o empurrei com força.
- O que pensa que está fazendo, cretino?
O homem se assustou com minha reação, mas logo se recuperou. Trancou o maxilar e me pegou pelo braço com raiva.
- Cretino?
Ele se aproximou, os olhos negros estavam em fúria, os outros não riam mais. Eu não precisava de um dom igual ao de Jasper, eu podia sentir a raiva e a vontade de fazer mal a alguém fluindo de cada corpo presente, inebriando o ambiente.
- Me solta.
Tentei me desvencilhar, mas o homem apenas me puxou e eu bati meu corpo no seu, sentindo no mesmo momento um asco incomum, como se meu corpo não fosse compatível com mais nenhum corpo masculino.
- Só vou te soltar se você implorar.
Não pensei duas vezes, cuspi no rosto do homem e logo percebi que foi a atitude mais tola que eu poderia tomar; ele aumentou o aperto no braço e me jogou no chão. Meu rosto bateu na neve fofa, ficando gelado e molhado no mesmo momento.
- A vadia não consegue controlar os nervos.
Ele disse voltando-se para os amigos e eu escutei os passos dos homens na neve. Aproximaram-se e eu fiquei em silêncio, quieta, apenas esperando o que poderia acontecer. Não consegui pensar em nenhuma atitude inteligente para tomar no momento. De repente eu senti um chute forte no meu abdômen, um gosto metálico subiu pela minha garganta e eu abri a boca, para cuspir o sangue quente. Tentei não olhar para a neve rosada, o cheiro já me enjoava, olhar não adiantaria muito.
Não consegui me mover, a dor era forte e meu pulmão chiava. Minha vontade era de abrir a boca e pedir para que eles me deixassem em paz, mas eu sabia que isso não estava no plano deles. Agarrei um pouco de neve, minha mão ficou gelada e eu fechei os olhos, focando minha atenção na sensação, quando senti mais um chute, dessa vez mais forte, no mesmo lugar.
Mais uma cuspida de sangue. Um pé enterrou-se do lado do meu corpo me virando, e pela primeira vez eu vi nos olhos do homem o que ele pretendia.
Não, de novo não. Eu já havia visto o olhar de desejo descontrolado, o olhar ruim, o olhar monstruoso que era o de um homem excitado. Reuni todas as forças que me restaram e tentei me desvencilhar, no mesmo momento que ele se agachava e começava a abrir o cinto da calça. Seu membro já estava visível e ele começava a fazer o trabalho chato com a minha calça jeans, ignorando meus chutes.
Minha luta só estava o excitando mais, e a cada tentativa patética de sair debaixo do corpo pesado do homem, ele sorria, como se me mostrasse que seria impossível sair de onde eu estava. Até eu ouvir algo que fez meu coração se acelerar, de alívio e de medo.
Um rosnado severo e alto chegou aos meus ouvidos, e eu senti o peso do homem me deixar no mesmo momento que um vulto rápido demais para um ser humano passou na minha frente, indicando-me que eu estava a salvo. Jasper estava agachado na minha frente, em uma posição superprotetora.
Jasper
Corri o mais rápido que pude, a neve do Alasca não me impedia de enxergar por onde eu andava. Estranhamente eu sabia exatamente onde eu precisaria estar, como se uma força sobrenatural igual a mim estivesse me puxando para o local.
Não demorei muito a achar o supermercado. Meus olhos negros correram rapidamente pelo estacionamento praticamente vazio, e eu a achei.
Estava deitada, consegui ver quatros humanos por perto. Três permaneciam atrás da cena, apenas rindo e entretidos com o que o quarto estava tentando fazer. Esse permanecia em cima da minha Isabella, prestes a fazer algo que apenas eu tinha o direito de fazer.
De onde saiu essa possessividade toda?
Não tive tempo de procurar uma resposta coerente na minha mente. Isabella estava sangrando, eu podia sentir o cheiro delicioso e adocicado de seu sangue mesmo estando em uma distância de aproximadamente cem metros.
Meu monstro começou a rosnar perigosamente dentro de mim quando eu vi o homem desabotoando a calça de Isabella. Corri em uma velocidade anormal até para mim e sem pensar duas vezes, o peguei pelo pescoço, quebrando-o com apenas um movimento de mão.
Foi rápido, e quando terminei, senti uma onda de alívio vir de Isabella, e ondas de medo e dúvida saindo dos humanos. Não sabiam como eu havia chegado, e como seu amigo agora estava morto e grotescamente com a cabeça virada em um ângulo doentio.
Não disseram nada, apenas viraram-se e correram. Eu estava agachado em frente a Isabella, e não queria deixá-la, mas sabia que se eu não os matasse, meu monstro nunca iria me perdoar.
Alcancei-os facilmente. Consegui quebrar o pescoço de um enquanto os outros tentavam correr com mais velocidade. Tolos, não vêem que é inútil tentar fugir de um predador como eu?
Joguei o corpo mole do homem no chão e corri em direção aos dois restantes. Minha mão forte envolveu o pescoço fraco de um e eu apertei, não para quebrar, mas para sentir seu coração bater com força, tentando inutilmente bombear o sangue para seu cérebro. Não demorou muito e ele amoleceu, ficando com uma cor estranha, o coração parou, e eu o joguei para o lado, dedicando minha atenção total ao quarto e último.
Ah! Sinto muito... mas a sede estava alta devido à excitação de matar...
Foi com um sorriso que o peguei, enterrando meus dentes afiados em seu pescoço apetitoso. O sangue esguichou para dentro da boca, atingindo a garganta, deixando meu monstro satisfeito. Não era o meu preferido, mas eu tinha consciência da minha sede no momento. Deixar de ajudar Isabella para caçar não estava no meu plano.
Abri os olhos ao meu lembrar da humana e olhei em sua direção. Joguei o corpo já seco do homem no chão e corri até ela. Isabella estava neutra, a mão estava fechada com força, como se ela estivesse segurando uma jóia preciosa. A calça estava desabotoada e seus cabelos bagunçados.
O aspecto era horrível. Havia sangue na neve, deixando-a rosa. Algo estava machucando-a. Eu sabia que não teria tempo.
Peguei-a facilmente no colo e ela saiu da sua sensação de transe e me fitou.
- Minha barriga... dói... sangue...
Eu senti a dor física dela e quase caí de joelhos. Merda, Isabella tinha uma tendência muito forte em passar por situações estranhas.
Com pensamentos rápidos, aninhei-a ainda mais ao meu colo, focando-me em sua dor em vez do aroma do sangue que saiu de sua boca quando ela falou. Eu a olhei, mas Isabella já estava inconsciente.
Ela não podia ficar assim, e isso estava além do meu alcance.
Ou não.
