Vermelho e negro
Pela lente de sua câmera, Harry via um pequeno grupo de pessoas conversando atiradas na grama do parque. Ele encontrou o ângulo perfeito, ajeitou o foco e disparou. Aquele momento simples, de uma conversa em uma tarde de verão, havia sido capturado para sempre. Ele ficou satisfeito com o resultado. Enquanto cruzava o parque, cheio de pessoas conversando e tomando sol, pensou que o calor devia inspirá-lo, porque estava fazendo ótimas fotos naquele verão. Tinha capturado imagens típicas de Londres, de sua população, dos parques de grama verde, pontos turísticos e pubs. Era bom ter tempo para bater perna e fotografar por aí. Não queria que suas férias chegassem ao fim nunca! Queria que julho fosse eterno.
Foi com esse pensamento que ele, imitando os outros ao seu redor, sentou na grama. Porém não antes de tirar mais uma foto.
- Não entendo essa sua obsessão em me fotografar. Eu sei que sou linda, mas você já tem imagens suficientes de mim. Eu devia cobrar direito autoral.
- Gina, o direito autoral é meu, porque a foto é minha. O máximo que você pode exigir é o direito de imagem.
- Vê, Harry? Até você concorda que eu devo cobrar algo por essas fotos. Então faça um favor: compre um cachorro quente e uma coca pra mim. Estou faminta.
Gina, sentada ao lado de Harry, colocou os óculos de sol que tinha roubado dele havia alguns dias e deitou na grama. Ele observou o corpo quase nu dela, que só usava um micro short e a parte de cima de um biquíni, com desejo. Três meses sem transar com ela estava deixando-o louco.
Para se distrair ele foi comprar as coisas que ela tinha pedido. Pelo menos assim saía de perto daquela mulher. Às vezes era muito difícil resistir a Gina Weasley.
Quando ele voltou com os refrigerantes e cachorros quentes, a ruiva estava conversando com um homem. Era um cara forte, sem camisa, com pose de atleta. Estava claramente se exibindo para ela. Otário.
- Trouxe tudo, Gina - ele voltou a se sentar do lado dela.
- Ok, valeu. Mas Andrew...
Foi com impaciência que suportou Gina e o tal Andrew marcando um encontro. Na verdade, a palavra "encontro" era inapropriada se tratando daquela mulher. Ele sabia bem que o que Gina havia acabado de marcar era uma trepada.
Quando o otário com quem a ruiva flertava foi embora, Harry já tinha devorado todo seu cachorro quente. Estava tão furioso que o lanche desceu mal.
- Nossa, olha só! – Gina observava Andrew ir embora – Dá uma espiada naquela bunda, Harry. Que gato!
- Se você falar mais alguma coisa sobre qualquer parte do corpo de um homem, eu vou ser obrigado a colocar meu cachorro quente para fora, então pare, por favor.
Gina riu e começou a comer o próprio lanche. Eventualmente ela fazia ou dizia coisas apenas para irritar Harry, ele tinha certeza. Caso contrário, por que ela ficaria comentando sobre os homens sem camisa do parque? Ele já havia dito que não queria ouvir! Estava puto.
- Não aguento mais – ela ofereceu a Harry o cachorro quente que comia.
- Não quero.
- Mas você só comeu um.
- Mas não quero mais, Gina!
- Por que você está gritando comigo?
- EU NÃO 'TO!
Algumas pessoas que estavam por perto lançaram um olhar a Harry e Gina, mas logo voltaram a prestar atenção em suas próprias vidas.
- Eu não entendo! - Gina saiu chutando a grama de raiva. Depois de jogar o resto do sanduíche e do refrigerante no lixo, ela se atirou novamente ao lado de Harry – Às vezes eu não te entendo, Harry! Do nada você fica todo putinho, como se estivesse de TPM. O que está acontecendo?
Como se ela não soubesse, como se não me irritasse de propósito. Apesar de pensar, ele não disse nada. Se limitou a deitar na grama.
Ouviu Gina bufar ao lado dele. Pouco depois ela continuou:
- Você devia ter comido o cachorro quente, está muito magro. Quantos quilos você perdeu desde que a gente se conheceu?
- Onze.
- Você está magrelo.
- Cala a boca, Gina.
Ele a ouviu rir. Definitivamente aquela mulher gostava de contrariá-lo.
Pouco depois ela deitou ao lado de Harry e colocou a cabeça sobre seu peito. O braço dela ao redor do corpo dele lembrava-o dos dias longínquos em que os dois ficavam na cama conversando amenidades depois de uma boa transa. Ah, como sentia falta daqueles dias!
- Você está feliz, Harry?
- O quê?
- Perguntei se está feliz.
Ele pensou bastante no assunto antes de responder a pergunta.
- No momento, sim. Mas não completamente feliz.
- Por quê? - ela tirou os óculos e o encarou.
- Não sei se isso não existe, felicidade absoluta.
- Está feliz por não estar trabalhando?
- Definitivamente!
- E está conseguindo dormir melhor?
Às vezes, apenas eventualmente, Harry conseguia dormir bem, o que já era um avanço. Contudo, na maioria das noites a insônia o pegava de jeito.
- Mais ou menos.
- Sabe o que eu acho que te faria dormir bem?
- O quê?
- Ser feliz. As pessoas felizes sempre dormem bem. Olha só o meu exemplo!
Ele sorriu e acariciou o rosto de Gina. Os pensamentos delam era tão simplórios de vez em quando.
- Também acho que as pessoas felizes devem dormir bem. Mas como ser feliz, Gina? Não existe uma receita para isso.
- Faça as coisas que ama e vai ser feliz.
- Ah, é? - ela já havia dito aquelas coisas para ele antes.
- É claro que sim! Aproveite o dia, fotografe no tempo livre, se divirta com os amigos, transe com as mulheres bonitas. Isso é felicidade.
- E o trabalho, onde entra?
- Você não gosta do seu trabalho, Harry, pode pedir demissão.
- E vou viver se quê?
- Você tem dinheiro, não precisa trabalhar.
- Não, meus pais têm dinheiro. Eu não tenho grana como eles.
- Você pode viver do que tem e, quando o dinheiro acabar, virar fotógrafo.
- Não sou bom o suficiente para ser fotógrafo.
- Você é ótimo tirando fotos!
- Quem disse?
- Eu digo!
Harry riu.
- Gina, você não entende nada de fotografia! Essa é uma arte...
Nesse momento o celular dele tocou. Quando pegou o aparelho, viu o nome "Luna" escrito na tela. Ele podia jurar que era Cho que estava ligando.
- Oi, Luna, tudo bem?
- É a Luna? Deixa eu falar com ela – Gina tentou pegar o telefone de Harry, mas ele não deixou.
- Tudo bem... A Gina? É, ela está comigo sim, nós estamos no Finsbury Park... Sei... Um minuto – ele ofereceu o celular a Gina – É para você.
Enquanto Gina falava no telefone, Harry começou a juntar as coisas para ir embora. Pegou a máquina, os óculos de sol no chão, calçou os tênis. Logo a luz cairia e queria tirar mais algumas fotografias. Além disso, em breve Gina teria de ir trabalhar.
- Toma – a ruiva devolveu o aparelho a Harry.
- O que a Luna queria?
- Saber onde eu estava. A gente tinha combinado de comprar umas coisas, mas esqueci. Ela está brava.
- Percebi. Vamos embora?
- É, vamos. Preciso ir para o clube. Você vai passar lá hoje?
- Não. Combinei de ir ao cinema com Cho.
- Qual filme vão ver?
- Ah, sei lá. Qualquer um...
Eles continuaram a conversar enquanto saíam do parque. Quem os observava caminhar rumo ao metrô poderia pensar que eram apenas mais um casal comum. Mas essa era uma doce ilusão.
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- HARRY!
- O quê...?
- É a terceira vez que te chamo.
- Desculpe, Cho, eu... 'Tava pensando.
- Em quê?
Eles estavam no apartamento de Harry. Ele estava distraído pensando em uma certa ruiva, é claro. Seu próprio comportamento em relação a ela incomodava-o. Quando havia se tornado um covarde com Gina? Antes era fácil chegar nela, falar que queria transar e então passavam a noite juntos, mas agora andava cheio de dedos. Temia até mesmo dizer que gostava da companhia dela. Vai sabe se isso não os afastaria? Gina era estranha, era impossível dizer o que pensava. Ele tinha a impressão que ela não gostava que as pessoas a amasse. Não que ele a amasse. É claro que não!
- Em nada específico.
- Que seja. Você não ouviu nada mesmo.
- Ouvi sim.
- Ah, é? Sobre o que eu estava falando?
- Sobre... seu trabalho.
Ouviu Cho bufar e voltar para a cozinha do apartamento dele, onde preparava o jantar. Harry ignorou a irritação dela, apagou o cigarro no batente da janela e continuou observando a rua lá embaixo, porém sem realmente enxergar. Três meses. Mais de três meses havia passado desde que ele e Gina voltaram a se relacionar. Se tornaram amigos, apesar de tudo. Mas algo o incomodava. De certa forma, media as palavras que dizia a Gina. Tinha a impressão seus movimentos perto dela eram controlados, artificiais.
Por quê?
Ele sabia a resposta. Porque agia para parecer que não se importava. Se ele se importasse demais, ela o mandaria pastar. Se começasse a perguntar demais, questionar detalhes da vida dela e se preocupar, aconselhando que fizesse isso ou aquilo para viver melhor – ou seja, se dissesse a Gina como viver a própria vida -, ela faria como antes. Lhe daria um pé na bunda em um piscar de olhos. E o pior: se admitisse o que sentia, ela o acharia tolo e estúpido e também o afastaria de sua vida.
Se apaixonar por Gina Weasley foi um erro. Sim, ele estava apaixonada por ela – precisava admitir isso para si próprio, mesmo que nunca dissesse para ninguém. Não sabia como tinha acontecido, mas havia acontecido. Os dias foram passando, as coisas acontecendo e em algum momento depois da Páscoa – após ela o aceitar novamente em sua vida -, ele percebeu. Estava apaixonado por ela. Não a amava, mas estava apaixonado. Isso era um erro, um grande erro, porém o que ele podia fazer? Já era tarde demais.
Se dar conta do quanto ela importava o incomodou. As coisas fluíam muito fáceis quando não eram importantes. Todavia, a partir do momento em que Gina se transformou em mais do que uma boa transa, ele soube que estava perdido. Não havia como ganhar aquela batalha. Tê-la era impossível. Eles nem estavam transando mais. Há meses eram "apenas amigos", e ser amigo dela era duro.
Obviamente não havia dito nada a Gina sobre seus sentimentos - não faria o papel do adolescente apaixonado, há muito não tinha idade para isso -, por isso a vida seguia o rumo normal. A ruiva ainda com seus casos e transas de uma noite. Ele com Cho. Mas eventualmente – na verdade, mais do que eventualmente – eles marcavam um encontro amigável, principalmente quando Cho estava de plantão.
Harry havia parado de ir ao clube. Vê-la se expor no Red Cabaret para homens que podiam tê-la, e ele mesmo não podendo, era difícil. Antes gostava que os outros desejassem o que ele tinha, porém agora – com todos aqueles sentimentos de merda! - ficava louco quando os homens lançavam olhares gulosos em direção a Gina. O que significava que ficava com ciúmes o tempo todo. Bastava ela surgir na rua e os olhares lascivos começavam – pelo menos assim ele achava. Todavia, Harry entendia os homens: era impossível resistir àquela pele branca, às sardas, ao sorriso desconcertante, ao jeito espevitado, aos olhares sedutores. Ela era linda, mas a beleza dela ia além da aparência: o modo Gina Weasley de ser atraía tanto quanto o corpo perfeito. Como não desejar? Como não querê-la? Como não se apaixonar, cedo ou tarde?
Ele até havia demorado para cair de quatro por ela – ao menos demorou para perceber -, mas agora que tinha se dado conta do que sentia, precisava ser cauteloso. Não ai ao clube, porém ainda tinha vontade de partir para cima de quem cantasse Gina. Quando saíam juntos precisava se controlar o tempo todo. Arranjar briga para defender a honra da ruiva era uma batalha perdida. Ela não queria ser salva - gostava da perdição.
Por isso era difícil sair com ela. Haviam saído um bocado nos últimos meses. Bares, boates, passeios pela cidade. Ele tinha passado a apreciar o tempo que dividia com Gina. Antes gostava mesmo era de tê-la em sua cama, mas então passou a gostar também de simplesmente estar perto dela. Claro que ela sempre foi uma boa companhia, sempre alguém interessante de se estar, porém apenas recentemente ele havia descoberto o prazer de uma verdadeira conversa com Gina.
Não seria justo dizer que a conhecia bem. Ela só havia lhe contato uma ou outra coisa sobre si, e essas revelações serviam apenas para aumentar a curiosidade de Harry. Cada resposta levantava três perguntas.
Em uma manhã de sábado semanas atrás, quando eles estavam em um café, um desses diálogos questionadores surgiu. Harry havia levantado tinha pouco tempo e se encontrado com Gina, que havia acabado de sair do clube e devorava uma torta de chocolate. Ele bateu apenas uma foto dela antes que a garota tirasse a câmera da mão dele e o mandasse sossegar.
- É irritante mal poder te ver porque está escondido atrás de uma máquina – ela disse então.
- Que culpa eu tenho se você é fotogênica?
- Não vai me ganhar com elogios, Harry. Ei – ela mudou de assunto de repente -, como vão as coisas com a sua namorada?
- Indo.
- Devia terminar com ela – Gina adorava lhe dar conselhos.
- Por quê? Eu gosto dela.
- Não, você está acostumado com ela. De qualquer forma, não é da minha conta – ela afastou a torta e Harry puxou o prato para si. Gina nunca terminava de comer o que quer que fosse.
- Você nunca tentou, Gina?
- Tentei o quê?
- Namorar. Você nunca teve um relacionamento sério?
- Claro que tive. Quando era adolescente namorei uns cinco, sete caras, mas percebi logo que essa coisa de relacionamento sério não é para mim. Dá muito trabalho.
- Talvez não tenha dado certo porque você não encontrou a pessoa certa.
Talvez, ele pensou, essa pessoa esteja literalmente na sua frente.
- Ah, Harry, por favor! Você não acredita nessa merda de pessoa certa, príncipe encantado e blá blá blá... É uma baboseira!
- Mas você já acreditou nisso?
- Até os 14 anos.
- O que aconteceu aos 14?
- Encontrei o primeiro de centenas de príncipes encantados. Eu perdi a virgindade.
- Com quem?
- Um rapaz – ela estalou os dedos para o garçom. - Por favor, a conta.
Eles saíram e caminharam até um ponto de ônibus enquanto dividiam um cigarro. O dia já estava claro, mas não havia muita gente nas ruas.
- Quem era o rapaz?
- Que rapaz?
- O primeiro que você transou – Harry sentia uma pontada de inveja e ciúme dessa figura desconhecida.
- Ele trabalhava em um armazém. O conheci quando fui fazer compras com a minha mãe. Três dias depois de o ver pela primeira vez, me enfiei com ele no quarto em cima do mercadinho, onde ele dormia. Durou uns dez dias, no máximo. Ele tinha 17 anos, mas transava muito! As melhores transas da minha adolescência, sem dúvida alguma.
Naquela altura, eles já estavam dentro do ônibus, sentados ao lado um do outro.
- Por que durou tão pouco?
- Porque, Harry, ele foi embora da cidade tão subitamente quanto chegou. Um dia estava lá e no outro não estava. Fiquei triste por uma semana, então segui em frente. Dos 14 anos 16 eu transei com todos os caras atraentes do meu colégio. Confesso que também trepei com alguns caras que já tinham deixado a escola há muito tempo. Ah, mas me diverti, como me diverti! Mas as coisas acabaram dando errado.
- O que aconteceu?
- A próxima parada é a nossa? Não podemos perder o ponto.
- Não se importe com isso. O que aconteceu depois dos 16?
- Eu vivi a minha vida. Ah, estou com tanto sono!
Ela bocejou e fechou os olhos, encostando no braço de Harry. Ele percebeu que ela não queria e não iria contar mais nada, portanto o que acabou dando errado na vida de Gina ele não descobriu. E na falta de respostas, ele só podia imaginar. E imaginava muito! Não apenas sobre o passado dela, porém também sobre o futuro. Onde ela estaria em dez anos? Ainda fazendo striptease? Gina mantinha contato com a família? Uma vez ela tinha falado em irmãos... Quantos ela tinha? Será que um dia a ruiva mudaria de ideia e decidiria ter uma casa e uma família? Ele duvidava muito!
Era assim que as coisas seguiam com Gina. Uma resposta que desencadeava várias perguntas. Faltavam detalhes, mas no geral ele tinha conseguido pintar uma ideia da vida dela. Gina cresceu em Ottery St. Mary com os pais e irmãos. Saiu de casa cedo, viajou por aí, morou inclusive na França e lá aconteceu alguma coisa. Então ela voltou a Londres e conseguiu um emprego no Red Cabaret. No começo não era a melhor na profissão, mas se tornou muito boa. Sabia chamar a atenção dos homens. Conheceu Luna, que já trabalhava no clube. Foi dividir um apartamento com a amiga. As duas moraram juntas por vários meses, quase um ano, no sobrado onde Gina ainda vivia. Então Gina conheceu Rolf, apresentou-o a Luna e de alguma forma os dois – que não se davam muito bem no início – ficaram juntos. E ali estava Gina, sozinha.
Não havia detalhes, mas o quadro geral era esse. Harry suspirou e acendeu outro cigarro. Lá fora, a rua escurecia devido à noite que caía.
Ele fitou o céu pensando que talvez conseguisse, um dia, obter as várias informações que faltava no quebra-cabeça Gina Weasley. Mas, por hora, se contentava em apenas tê-la por perto.
Quando o cigarro acabou, ele saiu da janela e foi até a cozinha. Pegou os cogumelos que estavam sobre a pia e começou a cortá-los.
- Lave as mãos antes – Cho repreendeu-o.
- Desculpe – com mãos limpas, ele voltou a picar o alimento. - Você estava falando do seu trabalho mais cedo. De um menino que deu entrada no hospital.
- E o que mais?
- Bem, que ele estava doente... Tem algo mais?
Cho suspirou.
- Você realmente não presta atenção no que digo. Era um dia calmo no setor de cirurgia, então eu estava no plantão do atendimento, como costumo fazer. E apareceu esse menino com parte do rosto e as costas toda queimada.
- O que aconteceu com ele?
- Derramou uma panela de água fervendo sobre si.
- Como isso aconteceu?
Cho tirou a faca da mão de Harry e cortou um dos cogumelos.
- Corte assim, grande, para não sumir em meio ao molho.
- Ok.
- Bem, voltando ao menino. Ele puxou uma panela de água fervendo de cima do fogão. Quando vejo coisas dessas tipo chocada com o descuido de alguns pais.
- Às vezes eles não têm culpa. Crianças fazem arte.
- Sei disso. Como sei! A cada dia atendo casos mais bizarros, mas tantos acidentes seriam reduzidos com mais atenção! Não entendendo como...
- O que isso tem a ver com a gente? - Harry interrompeu-a bruscamente. Tão bruscamente que Cho ficou sem reação por um momento.
- Nada, eu só... Coloquei água para cozinhar o macarrão e lembrei do caso. Estou comentando com você. Por quê?
- Porque não quero falar de trabalho agora – Harry pegou uma garrafa e se serviu de uma taça de vinho.
- Bem, de que você quer falar então? - subitamente ela estava irritada - Ou talvez você não queira falar, porque tudo que faz é andar amuado e calado pelos cantos!
O volume da voz de Cho foi aumentando a cada palavra, e no final ela estava gritando. Harry não queria brigar, não tinha forças para isso, e foi isso que disse a ela. Cho deixou o macarrão de lado e escondeu o rosto com as mãos.
- Não chore – Harry pediu. - Sinto muito. Não chore.
- Não estou chorando, só estou perdida! Não sei o que fazer para agradar você!
Ele a abraçou desejando não precisar fazer aquilo.
- Sinto muito – repetiu, mas as palavras eram vaziam. Na verdade ele não sentia muito.
Fingir que se importava era tão difícil tanto fingir que não se importava.
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Deitado em sua cama, Harry fitava o teto do quarto. Uma semana. Faltava exatamente uma semana para ele voltar a trabalhar. A ideia o perturbava.
- Que saco – resmungou.
- O que é um saco? - Cho, que se vestia para trabalhar, perguntou.
- Vou ter que voltar a trabalhar em uma semana.
- Bem, é quando suas férias acabam, não?
- Infelizmente. Não estou a fim de voltar para aquele lugar.
Ele tinha pensado sobre o que Gina havia lhe dito no parque há mais de uma semana - sobre deixar o emprego. A ruiva já havia aconselhado ele a fazer aquilo mais de uma vez, mas ele nunca tinha realmente considerado a possibilidade antes. Seria bom ter tempo apenas para si, para colocar a cabeça no lugar e se encontrar. Tinha algumas coisas a avaliar. Observou a namorada abotoar a blusa e pensou que ela era uma daquelas coisas. Ficar com Cho era melhor do que ficar sozinho, mas às vezes dava muito trabalho.
- O que você acha? - ele indagou.
- O que acho do quê, Harry?
- De eu não voltar a trabalhar? De largar o emprego?
- Você está pensando em pedir demissão? - pelo tom dela, Harry notou que Cho não aprovou a ideia.
- Talvez. O que acha?
- O que você faria? Tiraria fotos por aí?
- Posso trabalhar com isso.
Cho, que secava o cabelo, o encarou com descrença.
- Você está brincando, né?
- Não, estou falando sério. O que acha?
- Acho que não vai dar certo. Que é uma ideia idiota. Fotografia é uma arte muito refinada, não é para qualquer um.
- Eu sou qualquer um? Não sou bom o suficiente?
- Não precisa ficar irritado! Só acho que você tem talento para o que faz. Se quer achar algo em que é bom não precisa mudar de profissão. Só quero seu bem, Harry.
Ele não respondeu. Pensou que se fosse Gina ali em vez de Cho ela o apoiaria. Mesmo que ele sugerisse algo bizarro, como largar o emprego e ir morar na Tailândia, ela diria para ele ir se fosse isso que quisesse.
- Quer que te leve? - Harry perguntou à namorada deixando o assunto do emprego de lado.
- Não precisa, vou para o trabalho metrô. Pode voltar a dormir.
- Como se eu fosse conseguir.
- Pensei que sua insônia tivesse melhorado nessas férias.
- Melhorou um pouco, mas está longe de ter acabado. Essa noite dormi tão mal quanto há alguns meses atrás.
- Outro motivo para você ficar e descansar. A gente se vê a...
Ding-dong.
A campainha tocou. Harry e Cho se encararam com o mesmo olhar indagador. Quem estaria batendo na porta deles antes das sete da manhã?
- Eu atendo – Harry se pôs de pé -, pode acabar de se arrumar.
O único motivo justo para alguém perturbar sua paz tão cedo era uma notícia trágica. Era melhor que alguém tivesse morrido e o telegrama estivesse chegando, caso contrário a visita inesperada se veria com Harry!
Ele nem se importou em vestir algo melhor para atender a porta, indo vestido como estava: apenas de cueca. Quem mandou baterem na porta dele quase de madrugada?
Olhando pelo olho mágico, Harry não conseguiu ver nada; quem quer que tivesse ali fora estava tampando-o.
Ding-dong. A campainha voltou a tocar no momento exato que ele destrancava a porta.
- O que é? - perguntou mal humorado ao visitante que...
- SURPRESA!
O coração de Harry parou e voltou a bater. Ali, parada em frente à entrada do apartamento dele, estava Gina.
E Cho estava lá dentro se preparando para sair. Puta que pariu!
- Oi – a ruiva cumprimentou. - Seu porteiro me deixou subir. Só precisei sorrir para ele, nem tive que...
- Quem está na porta, meu bem? - a voz de Cho, dentro do apartamento, se sobrepôs à de Gina.
Cacete. A casa ia cair.
Notas:
Ufa! Enfim postei! Demorei mas estou de volta. Dei uma breve sumida porque me apaixonei perdidamente por outra saga literária - As Crônicas de Gelo e Fogo, que deram origem à série Game of Thrones. Li todos os livros, estou esperando pelo próximo e não perco um episódio da série. Até fan fic já li! Enfim... Tenho pouco tempo livre, e a parte dele que dedico à escrita/leitura eu usei para devorar e saber mais e mais da Guerra dos Tronos, mas cá estou.
Gostei desse capítulo. Sei que não é nem de longe o melhor que já escrevi, mas gostei do Harry conhecer um pouco mais de Gina, deles estarem até mais próximos do que quando transavam e dele começar pensar em coisas que tem de reavaliar. E prometo postar o próximo capítulo ainda este mês!
Para quem não entendeu o nome do capítulo, "vermelho e negro" faz referência às duas mulheres da vida de Harry.
Beijos e até a próxima!
Lanni.
Respostas aos comentários do capítulo anterior:
ooo thegiovana: claro que Harry e Gina podem dar certo! Certamente não do modo tradicional e talvez não por um longo tempo, mas eles podem dar certo. E claro que também não vou esquecer dos meus leitores! Beijo!
ooo Kiss Potter: ah, com certeza. Acredito que esse capítulo e alguns dos que vierão serão mais leves, mas logo as coisas esquentam de novo!
Harry continua miserável e depressivo, e agora também está apaixonado. Por isso ele de fato se "sente mais livre e aliviado com a Gina ao seu lado". Beijo!
ooo YukiYuri: o Harry realmente não é o melhor dos namorados, mas algo que diz que a Cho está com os dias contados. Beijo!
ooo Gabi G. W. Potter: ahh, também fico feliz por escrever! E é claro que eles vão voltar a ficar juntos, afinal essa é uma fic Harry e Gina, não? Beijos!
ooo pedro . freitas 08: Cho é louca pelo Harry. Realmente ela já deveria ter metido o pé na bunda dele, mas é muito bobinha para isso. O ama loucamente, ou pelo menos acredita nisso.
Acho que "entrar na cabeça da Gina" é um desafio muito grande, tanto que eu não ouso narrar a história do ponto de vista dela. A bem da verdade, ela é impulsiva e hoje pode ser fervorasamente contra algo que foi a favor ontem. Vai entender o que se passa naquela cabeça!
Hahaha... Às vezes a Gina provoca o Harry, mas outras ela realmente não faz ideia que está sendo provocante, apesar de ser. Terrível essa garota, não?
Mais sobre Romilda? Talvez... Beijos, Pedro!
ooo Michael Rodrigues: Nossa, obrigada! Nem sei se mereço palavras tão gentis. Mas tenho que dizer algo: também amo meus personagens. Acho essencial fazê-los com falhas, porque isso os torna humanos. Pessoas perfeitas não existem.
Desejo que a espera por esse novo capítulo tenha valido a pena. Seu que não foi o capítulo mais revelador, mas era importante mostrar um pouco mais da Gina e abrir caminho para o Harry questionar algumas coisas.
Fico feliz que tenha apreciado "Entre 4 Paredes", que é uma fic muito especial para mim. Beijos!
ooo Nina Fang: Espero que a espera pelo novo capítulo tenha valido a pena e que tenha gostado dele tanto quanto gostou do anterior. Beijos!
ooo Patty Carvalho: ahh, eu também estava morrendo de saudades da fic! Escrever PnR é uma delícia apesar da falta de tempo.
Harry é um bobão porque está de quatro, totalmente apaixonado. Será que isso vai terminar bem? Beijos!
ooo Ingrid Albuquerque: Rsrs... Poxa, obrigada! Apesar das palavras tão gentis, sei que meu texto não é perfeito, mas vou lutar para chegar lá. Espero nunca parar de escrever, porque adoro fazer isso. E escrever PnR é uma delícia, apesar de estar cada vez mais sem tempo.
Também acho que o Harry tem que terminar com a Cho, e desconfio que ele começa a pensar sobre isso também. Vamos ver onde isso vai dar! Beijos!
