O SENHOR DOS DRAGÕES

By Dama 9

Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, pertencem a Masami Kuramada e a Toei Animation. Personagens como Aishi, Eraen, as valkirias, Amélia, Aaron, Cadmo e Alana são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.

O

OO

O

Importante!

Dama 9 e amigos incentivam a criatividade e liberdade de expressão, mas não gostamos de COPY CATS. Então, participe dessa causa. Ao ver alguma história ou qualquer outra coisa feita por fã, ser plagiada ou utilizada de forma indevida sem os devidos créditos, Denuncie!

Boa Leitura!

O

OO

O

CAPITULO 25: Dragão Negro.

.I.

Avançavam com cautela naquela terra estranha, embora detestasse admitir que a simples idéia de entrar naquele lugar sozinha lhe apavorava, sentir a presença forte do cavaleiro desconhecido a suas costas também não melhorava em nada seu humor sombrio.

Ouviu o relinchar do cavaleiro negro e remexeu-se inquieta sob a garupa do animal, outra coisa que não lhe agradava em nada era ter perdido Storm no caminho e ter de ficar dependendo de Emmus, mesmo que soubesse que Storm voltaria sozinho para Asgard, não queria que os amigos ficassem preocupados por não lhe verem junto.

Segurou as rédeas do cavalo com força e ouviu-o imediatamente reclamar, agitando-se, tão ou mais inquieto quanto a jovem a sua frente. Embora a passagem da cachoeira dourada houvesse fechado assim que a cruzaram, nada lhe tirava da cabeça que estavam sendo guiados para uma armadilha.

Nenhuma energia diferente se manifestara no ambiente, mas seu sexto sentido era bem mais insistente em alertar que algo iria acontecer.

-Pelas coordenadas que Flasshilde nos deu, não estamos longe do castelo; Amélia falou contrariada sentindo o braço dele apertar em sua cintura, mantendo-a presa contra seu peito, de forma que ela não corresse risco de cair.

Respirou fundo, tentando não corar, embora soubesse que aquilo era impossível. Sentir o braço forte do cavaleiro em torno de sua cintura e os músculos bem delineados do abdômen e peitoral a suas costas era muito, mas muito perturbador.

Quando decidiu partir de Asgard e ir atrás das ninfas do Reno que Ayres lhe indicara, jamais pesou que fosse encontrar aquele estranho tão sedutor no caminho. Alias, com um beijo tão intenso que era capaz de lhe fazer esquecer o próprio nome.

Os longos cabelos negros esvoaçavam com o vento e o perfume intenso e inebriante turvava-lhe os pensamentos. Desistindo de lutar contra o que estava acontecendo, recostou-se nele e observou o caminho à frente.

A ninfa dissera que antes de chegarem ao castelo, pelo menos, o que sobrara dele, teriam de passar pelas ruínas da cidade, mas que se quisessem respostas, o percurso demorado valeria a pena.

Atravessaram um arco em ruínas. Até onde sabia Ehnoryen não fora sempre coberta por neve e gelo como agora, mas a todos que perguntara pelo caminho, ninguém soube dizer ao certo como a guerra entre os dragões havia começado.

-Ouvi dizer que era um lugar muito bonito; Amélia comentou.

-É o que parece; Emmus murmurou distraído.

Deixou os orbes correrem por toda à parte, sentindo uma estranha sensação de reconhecimento. Desmontou e ajudou-a a descer, logo a frente havia as ruínas do que um dia fora uma ponte sobre um lago, dali podia ver as ruínas do castelo dos dragões.

-Tome cuidado, podemos não ser os únicos aqui; Emmus falou seguindo em frente.

Sentia um cosmo diferente, embora não soubesse identificar de onde vinha. Deu um leve tapinha nas costas de Argos, ouviu-o relinchar baixinho e roçar o nariz em sua mão.

Observou-o atentamente, vendo o momento que um fino sorriso formou-se em seus lábios e ele murmurou algo baixinho em tom carinho para o animal e o mesmo partiu num rápido galope para longe dali.

-Vamos; Emmus falou atravessando o que antes fora uma rua e começando a caminhada pela vila em ruínas.

-Será que alguém ainda se arriscaria a viver aqui? –Amélia indagou cautelosa, olhando pelas janelas das casas, inquieta. Aquela era a típica cena de um filme de terror, onde a qualquer momento um monstro pularia da janela para lhe atacar.

Embora sua mente houvesse calculado todas as possibilidades, seu sub consciente, não conseguiu evitar, manter um arrepio de alerta para o resto do corpo, temendo que aquilo realmente acontecesse; ela pensou, engolindo em seco.

-Não estamos longe; Emmus falou vendo um enorme lago a frente, sendo divido por uma ponte de pedra e no fim do caminho, o castelo dos dragões.

-Porque o lago não está congelado? –a valkiria indagou aproximando-se mais dele, quando começaram a atravessar a ponte.

As águas estavam tão escuras quanto a noite, porém nem uma placa de gelo boiava em sua superfície. O que não era normal, principalmente se levasse em consideração a temperatura daquele lugar.

Atravessaram toda a extensão da ponte, indo parar num caminho de seixos que os levaria as portas do castelo, foi quando parou bruscamente, colocando-se em frente a Amélia.

-Quem são vocês e o que querem aqui? –uma voz indagou vinda de todos os lados.

-Viemos em paz; Emmus falou mantendo o tom de voz controlado.

-Não há nada em Ehnoryen para vocês; a voz rebateu.

-Porque não nos deixa decidir isso; o cavaleiro falou elevando seu cosmo lentamente, não querendo assustar.

Embora sentisse uma certa relutância partindo do desconhecido, não era hostil, não como o cosmo de quem quase matara Amélia no Reno. Sentiu a tensão da jovem atrás de si, mas não podia fazer nada alem de esperar.

-Ehnoryen já não existe há muitos anos. Em breve nada mais restara aqui; Ares falou surgindo a poucos passos do casal.

-Quem é você? –Amélia perguntou sentindo seu acompanhante ficar ainda mais tenso.

-Sou eu quem deveria fazer essa pergunta, não? –Ares indagou.

-Emmus Considini; o jovem de melenas negras falou, estendendo-lhe a mão um pouco relutante.

Desconfiado, Ares respondeu ao cumprimento, engoliu em seco imediatamente ao deparar-se com a intensidade dos orbes vermelhos do rapaz, tinha a impressão de já tê-lo visto antes, mas aonde?

-Ares de Altar; ele respondeu.

-Amélia Fazolt; a valkiria adiantou-se.

-O que trouxe vocês aqui? - Ares indagou.

-Uma nova guerra vai começar na Terra Média; Amélia começou.

-Eu ouvi dizer, tenho notado que o tempo esta mudando; ele comentou acenando para que eles o seguissem para dentro do castelo. –Venham comigo, aqui não é muito seguro. Embora só restem ruínas em Ehnoryen, não é bom arriscar;

-Você vive há muito tempo aqui; Amélia indagou curiosa.

Será que era possível que àquele Ares fosse o mesmo Ares, irmão do Grande Mestre? - Mia pensou chocada, a semelhança era incrível, embora nesse momento aquele cavaleiro lhe lembrasse mais uma outra pessoa.

-Pouco mais de quatro anos; Ares respondeu vagamente. –Mas até onde sei, faz treze anos que Ehnoryen caiu; ele falou com pesar.

-O que aconteceu? –Emmus indagou enquanto estudava tudo a sua volta.

-Uma rebelião, alguns dragões antigos não aceitaram Eraen como senhora e se rebelaram. Houve uma guerra, poucos sobreviveram e Ehnoryen sofreu muitas baixas; ele resumiu.

-Já ouvi parte dessa história, mas ainda existem muitas lacunas; Amélia comentou. –Como por exemplo, o que aconteceu a Eraen?

-É difícil saber; Ares desconversou.

-Ainda existe uma biblioteca entre as ruínas? –Emmus perguntou casualmente.

-Sim, porque? –o cavaleiro perguntou desconfiado.

-Talvez exista algo lá, que lhe ajude; ele comentou voltando-se para Amélia, que assentiu.

-A princesa pediu que viesse aqui, ela disse que poderia haver algum registro da última Guerra dos Deuses que pudesse ajudar;

-Talvez tenha alguma coisa, mas em runas ou elfico arcaico; Ares comentou gesticulando. –Mas o idioma é muito, muito antigo. É possível que você não consiga ler;

-Se eu puder ver, quem sabe; ela falou dando de ombros. Não iria perder a viagem agora que estava ali.

Seguiram am frente, deixou os orbes correrem por toda à parte, sentia-se inquieto, não apenas com a presença inesperada do cavaleiro ali, mas algo estava lhe deixando em alerta.

Observou as colunas tombadas e os mosaicos partidos no chão, poucas imagens conseguiam ser divisadas do que restaram. Os pequenos ladrilhos coloridos estavam embaralhados em alguns pontos, como um quebra-cabeça desmontado.

Tocou distraidamente uma coluna de pedra no caminho, mas no minuto seguinte, sentiu sua mente ser tragada para um outro tempo, onde aquelas colunas não estavam mais caídas, as luzes eram intensas, as cortinas nas janelas eram de tecidos finos, quase translúcidos quando banhadas pela luz do sol da manhã.

-Mamãe não me pega; a voz infantil ecoou em sua mente.

Virou-se para trás a tempo de ver um flash de imagem, onde aquelas colunas estavam. Um garotinho corria entre elas animado e rindo.

-Emmus espere; uma outra voz se manifestou. A criança de provavelmente quatro anos riu quando virou uma das colunas e sem querer chocou-se contra alguém.

-Desculpe moça; ele murmurou, passando a mão pela testa.

-Tubo bem, mas tome cuidado para não se machucar; a mulher de melenas douradas falou.

Os lábios rublos curvaram-se em um falso sorriso doce, enquanto de maneira desajeitada, afagava os cabelos do pequeno.

-Algum problema, Christine? –Eraen perguntou desconfiada.

-Não senhora, estava apenas procurando Kari; ela falou casualmente.

-Kari não esta no castelo; Eraen respondeu, não acreditando nela.

-Então vou indo, com licença; ela falou fazendo uma breve mesura.

-Mamãe; o pequeno chamou, puxando a barra de sua túnica.

-O que foi querido? –ela perguntou pegando-o no colo.

-Abraço; ele resmungou agarrando-se ao pescoço dela.

Um fino sorriso formou-se em seus lábios, enquanto envolvia a criança entre seus braços. Nesses momentos ele parecia tão frágil, uma criança comum que necessitava de atenção e carinho.

Às vezes ficava com medo ao vê-lo tão serio, queria que o filho tivesse uma infância normal, mas ele sempre se mantinha afastado de outros dragões.

Alexandra dizia que talvez fosse melhor se ele crescesse com a presença do pai e de crianças mortais, mas duvidava seriamente disso. Alem do mais, mesmo que fosse verdade, não queria dividir seu pequeno tesouro com quem não merecia; ela pensou salpicando-o de beijos.

-Emmus; Amélia chamou-lhe a atenção.

-Sim? –ele falou piscando levemente antes de voltar-se para ela.

-Perguntei se você esta apenas acompanhando a senhorita, ou procura algo também? –Ares perguntou casualmente.

-Apenas acompanhando; ele falou continuando a andar. Não iria dizer porque estava ali para ele, principalmente quando não era dado a confiar em qualquer um.

-Como você consegue viver aqui? –Amélia perguntou curiosa.

-Já me acostumei com o frio. Embora nos últimos dias, as coisas tenham ficando um pouco complicadas;

-Alguma coisa se salvou da destruição? –Emmus perguntou mudando de assunto.

-Poucas salas e parte da biblioteca, mas antes de eu chegar, muitas coisas já haviam sido saqueadas; ele explicou.

Seguiram pelos corredores, desviando de buracos e elevações, até chegarem a biblioteca.

-Pode ver a vontade, eu estava arrumando umas coisas aqui quando vocês chegaram; Ares explicou indicando vários lampiões espalhados pelo cômodo.

-Como posso saber a classificação dos livros? - ela perguntou abismada com a quantidade de livros que cobriam as prateleiras que chegavam até o topo das paredes.

-Estão por ordem alfabética, porque existem volumes de vários idiomas; Ares explicou.

Assentindo ela foi até as prateleiras, enquanto voltava-se para o rapaz a seu lado com um olhar perscrutador.

-Acaso já nos vimos antes? –Ares perguntou casualmente.

-Creio que não; Emmus desconversou.

-Estranho, você me lembra alguém; o cavaleiro insistiu. –Você é de Asgard também?

-Não, Escócia; ele limitou-se a responder.

-Uhn! Talvez seu nome seja familiar então, porque nunca estive na Escócia; Ares falou dando de ombros.

-Quantos volumes ainda têm aqui? –Amélia perguntou.

-Até onde consegui contar, cinco mil, mas acho que antes da guerra tinha mais, porque Eraen vivia dizendo que a biblioteca de Ehnoryen superava e muito a de Alexandria e com relação a isso, eu nunca duvidei; ele falou sabendo perfeitamente que a valkiria poderia ter conhecido a primeira.

-Tem nomes aqui que eu nem sei pronunciar; Amélia falou desanimada.

–O que você quer saber? –Emmus perguntou aproximando-se.

-Esse, olha! Herks-... Alguma coisa; ela falou aborrecida, tentando entender o que aquilo significava.

-Herskquel; ele falou diante do olhar espantado dela. Puxou o livro com cuidado e folheou algumas páginas. –Esse fala sobre a primeira invasão viking no novo mundo, antes do 'descobrimento'; ele explicou.

-Como você-...; ela balbuciou confusa.

Aquele livro deveria ter mais de quinhentos anos e não era em inglês.

-É uma mistura de idiomas, russo com alemão; Emmus falou devolvendo o livro a prateleira.

–Aqui você vai encontrar vários livros em italiano com grego ou inglês com francês também; Ares comentou. –Alem de todos esses idiomas em sua forma arcaica;

-Como isso é possível? –Amélia indagou.

-O povo de Ehnoryen descende de uma linhagem muito antiga, quando o primeiro senhor reinou sobre essa terra, muitos dragões foram autorizados a viver em outros lugares, mas deveriam retornar quando necessários. Assim, quando voltavam eles traziam todo o conhecimento adquirido guardado em livros.

-Isso há quantos anos atrás, só por curiosidade? –Emmus perguntou.

-Séculos, eu diria, porque só Eraen quando nos conhecemos tinha dezessete mil anos e era considerada ainda muito jovem. Porque o pai dela havia falecido com cinqüenta; ele explicou, diante do olhar chocado dos dois.

-Cinqüenta mil anos; Amélia falou pasma.

-O tempo de vida de um dragão é muito diferente do nosso, é mais longo. Alem do mais, naquela época ninguém sabia ao certo qual o tempo de vida de um dragão negro, já que o pai de Eraen era o primeiro e não existia uma base de comparação. Ela dizia que seu pai deveria ter vivido pelo menos mais trinta mil;

-Interessante; Emmus murmurou pensativo.

-Mas e o senhor-...;

-Só Ares, por favor; ele a deteve.

-Certo; ela murmurou. –Porque vive aqui?

-É uma longa história; o cavaleiro desconversou antes de voltar-se para o rapaz e notar o olhar curioso sobre si.

Era estranho, mas pela primeira vez sentia-se impelido a falar, não gostava de estranhos, muito menos daqueles que faziam perguntas demais, como aqueles dois, mas algo estava diferente e isso não era bom; ele pensou tentando não deixar transparecer suas preocupações.

-Em breve você terá de deixar Ehnoryen, as coisas estão ficando perigosas por aqui e não é mais seguro; Emmus falou mudando de assunto.

-Eu sei, mas não pretendo ir embora; Ares respondeu aliviado por isso.

-São muitos livros, não consigo nem imaginar por onde começar; Amélia falou.

-Tente os da letra T, como Terra Média; Ares aconselhou.

-Ah sim; ela balbuciou afastando-se para ir até a prateleira que ele indicara.

-Ahn! Faz muito tempo que vocês se conheceram? –Ares indagou casualmente, depois do que ouvira a jovem comentar, eles buscavam coisas diferentes, embora o que o rapaz queria, era uma incógnita ainda.

-Não muito; Emmus desconversou. –Quantos dragões já estiveram aqui desde a última guerra? –ele perguntou assim que teve certeza de que Amélia não lhe ouviria.

-Até onde eu sei, existiam quatro dragões que zelavam pelo equilíbrio, mas deixaram a Terra Média, depois que Ehnoryen foi destruída; ele explicou.

-E você sabe quem foi o responsável por isso? –o cavaleiro perguntou voltando-se com um olhar tão intenso para ele, que Ares recuou um passo por precaução.

-Não, eu até procurei nos livros, mas os relatos param na última guerra antiga. Parece que alguns dragões que formavam o conselho queriam obrigar as Terras de Eldar e Sindar a se unirem permanentemente a Ehnoryen e isso já era discutido a séculos. Até onde sei, esse foi um dos motivos, mas provavelmente haviam mais coisas por trás. Uma vez Eraen me contou que o conselho a pressionava para se casar com um membro do clã, mas ela jamais aceitaria isso. Acho que alguém queria usar isso para subjugar o clã, mas como ela não aceitou, acabaram se rebelando;

-Entendo; Emmus murmurou pensativo.

-Ele não pode mais ficar aqui; Alexandra falou aflito.

-Não posso afastá-lo; Eraen respondeu.

-É para o bem dele Eraen, agora mais do que nunca, ele precisa do pai, ele é o único que pode protegê-lo;

-Não! - Eraen gritou furiosa. –Existe outra pessoa; ela completou com um olhar sofrido. –Não quero me afastar dele, mas não posso deixá-lo correr o risco de ficar aqui com tantos traidores infiltrados na ordem;

-Será por pouco tempo Eraen e ele estará mais seguro longe de Ehnoryen; ela completou.

-...; Eraen assentiu, mas assustou-se ao ver uma frestinha na porta que não estava ali antes. –Venha querido, sei que está ai; ela falou calmamente.

A porta abriu-se para o garotinho de quase seis anos entrar. Os orbes perscrutadores recaíram sobre a madrinha, transmitindo seriedade e compreensão.

-Não quero deixar a senhora mamãe; o pequeno falou para a aflição de Alexandra. –Mas vou se essa é a melhor escolha a fazer; ele completou.

-Infelizmente é; Eraen falou abraçando-o fortemente. –Alexandra, prepare tudo para partirmos;

Se alguém tinha de tirá-lo dali seria ela, necessitava com todas as forças prolongar o tempo que ainda lhe restava com o filho, não sabia o que aconteceria quando a guerra estourasse de vez.

Alexandra assentiu, se afastando para deixá-los sozinhos.

-Mamãe, quando tudo acabar, você vai me buscar? –ele perguntou aconchegando-se entre os braços dela.

-Claro querido, assim que for seguro, ficaremos juntos de novo;

Balançou a cabeça levemente para os lados, tentando expulsar novamente aquelas perturbadoras lembranças de sua mente. De nada adiantava ficar pensando naquilo agora, precisava se concentrar em outras coisas; ele recriminou-se.

-Quanto tempo demorou a última guerra? –Emmus perguntou.

-Seis anos mais ou menos. Eraen conseguiu retornar o controle de Ehnoryen e banir os traidores, mas depois Durval assumiu o poder de Asgard e ordenou um ataque a Ehnoryen, nessa época os dragões haviam partido e as valkirias não estavam mais aqui; Ares explicou. –A rumores de que Durval conseguiu aliados com os gigantes de Juntahein e Trolls das montanhas sombrias. Por isso conseguiu causar tanto estrago e os poucos guerreiros que sobraram tentaram o possível; ele explicou com pesar. –Mas Durval saiu vencendo;

-E não havia nenhum sucessor que pudesse lutar por Ehnoryen? –Emmus perguntou casualmente.

-Não; Ares respondeu em tom seco e ferino. –Eraen não tinha filhos tão pouco irmãos;

-Entendo; ele murmurou.

-Vou levar um século para achar esse livro; Amélia resmungou.

-É melhor eu ajudá-la, se não isso realmente pode acontecer; Ares falou afastando-se e indo até a jovem.

.II.

-Você está muito pensativo, irmão; o elfo de longos cabelos royal comentou, enquanto levava aos lábios uma xícara fumegante de chá.

-Sinto a presença de dragões; Eldar respondeu parando em frente a janela de sua casa.

Dali podia ver as ruas normalmente movimentadas, agora quase vazias. Embora a Terra dos Elfos da Luz fosse quase um mundo à parte de Asgard e Muspell, o ambiente ali também estava sendo prejudicado como nas outras partes do mundo.

Antes o que era um clima ameno e primaveril, estava dando ares outonais e isso não era um bom sinal, ainda mais agora que sentira a manifestação de quatro energias conhecidas.

-Acha que os dragões decidiram voltar? –Sindar perguntou, arqueando levemente a sobrancelha fina.

-Bastante conveniente! – o irmão responder com ironia. –Quando as Terras Livres mais precisaram deles, eles simplesmente nos viraram as costas, não sei porque estão aqui agora;

-Eraen jamais nos virou as costas, irmão; Sindar o corrigiu. –Mas ela ainda era jovem e inexperiente para lidar com aquelas serpentes que viviam em Ehnoryen; ele completou.

-Se Emmus estivesse aqui, isso não iria acontecer; Eldar o lembrou. –Ele sempre respeitou nosso povo e jamais deixou que um dragão tentasse nos subjugar;

-Eraen lutou por nós enquanto pode, alem do mais, não é só isso que esta lhe deixando irritado, não? –Sindar indagou, notando a forma como os ombros do irmão estão empertigados.

Eldar era o gêmeo que evocava tranqüilidade e paciência, enquanto ele era a síntese da paixão e impulsividade. Entretanto, vê-lo agir como um leão enjaulado e faminto agora, era preocupante.

-Lembra-se de Kari? – ele indagou voltando-se para o irmão.

-Aquele fedelho impertinente, filho de Fallon? –Sindar indagou, vendo-o assentir. –O que tem ele?

-Recebi uma mensagem vinda de Asgard, Sennar o mago enviado por Alazar, contou que socorreu a pouco mais de duas semanas um Guerreiro Deus de ter sido morto por Kari; Eldar explicou.

-Mas pensei que Eraen houvesse acabado com Kari na última guerra; o gêmeo falou preocupado.

-Todos nós pensamos, mas parece que ele conseguiu escapar; Eldar falou em tom frio.

-O que isso quer dizer?

-Que essa não é uma guerra comum, é uma guerra entre dragões; Eldar falou. –E nós sabemos o quanto o mundo todo sofre, quando eles resolvem entrar em guerra; ele completou em tom sombrio.

-Então devo supor que, se Kari esta vivo, pode ter sido aquele bastardo a entregar o caminho de Ehnoryen para Durval, anos atrás; Sindar falou quase derrubando a xícara das mãos.

-Provavelmente, e foi ele também que soube reconhecer Alexandra e contou a Durval, quem ela era; o gêmeo completou.

-E agora? –ele perguntou.

-Só teríamos alguma chance de proteger o nossos dessa guerra se Emmus estivesse aqui; Eldar respondeu com pesar. –Se Fallon despertar, como parece ser as verdadeiras intenções de Kari, ele pode nos liquidar com facilidade;

-Mas...;

-Tenham um pouco mais de fé, meus amigos; uma voz serena soou atrás deles.

Os gêmeos voltaram-se em alerta e depararam-se com um senhor de idade sentado na poltrona que Eldar ocupara inicialmente, os braços longos estavam cruzados sobre o corpo franzino e os orbes castanhos pareciam tão vivos que desmentiam a imagem frágil que o senhor transparecia.

-Ydashi! – os dois exclamaram.

-Depois de muitas luas, a profecia de Ojezed vai ser cumprida e o Senhor dos Dragões, novamente irá reinar sob esta terra, trazendo os tempos de paz; ele falou sorrindo complacente.

-Como isso é possível? –Eldar perguntou surpreso.

-Apenas tenha fé, meu amigo elfo... Porque graças a ela, muitos destinos já foram mudados; ele completou de maneira enigmática.

.III.

Observou atentamente as lombadas dos livros. Existiam títulos muito antigos ali, mas o mais estranho era que o idioma não lhe era estranho.

Ler aquilo parecia tão natural quanto respirar. Desde cedo tivera facilidade em aprender a falar e escrever em vários idiomas, alias, apenas de olhar conseguia se adaptar a um novo estilo, mas não pensou que isso se aplicasse a idiomas praticamente línguas mortas como a maioria daquelas.

Quando pretendia puxar um dos livros para ver mais detalhadamente, ouviu o som de pedras explodindo e as paredes tremeram.

-O que foi isso? –Amélia perguntou deixando um livro cair de suas mãos.

-Sinto um cosmo hostil vindo lá de fora; Ares falou preocupado.

-Fiquem aqui; Emmus mandou.

-Mas...;

-É mais seguro; ele respondeu desaparecendo antes que os dois pudessem dizer mais alguma coisa.

-o-o-o-o-o-

Agora sim os planos de seu mestre iriam se concretizar. Quem iria imaginar que aquele fedelho estava vivo o tempo todo e ainda havia se tornado tudo aquilo de homem; ela pensou com um sorriso malicioso nos lábios.

Atravessou a neve com passos delicados, quase flutuantes, iria acabar com ele logo, antes que ele se tornasse novamente um problema para seus planos. Entretanto, surpreendeu-se quando o viu surgir de repente a sua frente.

Os orbes vermelhos intensos e frios como o gelo que cobria Ehnoryen, os longos cabelos negros esvoaçavam com o vento gelado e cortante, mas mesmo assim ele parecia imperturbável, como uma calma enervante.

-Ora! Ora! Mas que recepção; Christine falou com ar manhoso.

Observou atentamente o rapaz diante de si, não deveria ter mais de trinta anos, o que conferia com as datas que tinha. Não era nenhuma coincidência sua presença ali. Aquela garota abelhuda que vira se dirigir a nascente do Reno poderia ser a fonte de todo o poder que Kari sentiu, mas não conseguira acabar com ela por precaução.

Aquele fedelho aparecera antes e estragara seus planos. Agora ele estava ali, tão facilmente acessível, que não iria lhe dar trabalho algum para eliminá-lo. Sim, iria acabar com ele e Kari não teria mais com o que se preocupar; ela pensou sorrindo.

-Parece que faz séculos desde a última vez que o vi, Senhor dos Dragões; ela falou alongando as unhas delicadamente, até que se tornassem garras.

-Quem é você? –ele repetiu friamente, embora não quisesse, lembranças e mais lembranças surgiam de maneira perturbadora em sua mente. Tentou bloqueá-las para manter a concentração, mas era simplesmente impossível.

-Sou Christine, talvez você não se lembre de mim, mas eu sei quem você é; ela falou com os orbes azuis levemente avermelhados.

-Pelo contrario, sei bem quem você é; Emmus falou em tom glacial depois de alguns segundos de silêncio absoluto. –Por isso, é melhor começar a fazer suas preces; ele avisou elevando seu cosmo de maneira perigosa.

Recuou um passo instintivamente, sentia o poder emanado dele. Era impossível! Dragões com menos de dezoito mil anos não podiam possuir tanto poder assim, ou podiam? –ela pensou.

-Certo! Vamos acabar com isso então; ela debochou. –Se bem me lembro, você não passa de um fedelho fracote;

Os dois cosmos se expandiram, quando o cavaleiro avançou contra ela. Christine esquivou-se e com as garras em riste, atingiu-o no peito.

-E Eraen ainda enchia a boca para falar que você seria o próximo senhor; ela falou cuspindo no chão ao vê-lo recuar.

-Vai se arrepender por isso; Emmus rosnou, tocando instintivamente o corte que começara a sangrar.

-Estou morrendo de medo; ela provocou.

Era hora de deixar de brincar; Christine pensou evocando todos os seus poderes e para a surpresa do cavaleiro, uma luz intensa a rodeou e em seguida asas longas e douradas ergueram-se no céu, o pescoço alongado moveu-se com suavidade. A respiração quente provocava nuvens de fumaça. O dragão dourado impulsionou os pés no chão e alçou vôo.

-Um dragão do céu; ele falou.

Tudo estava claro agora, as lembranças voltaram numa torrente furiosa em sua mente, as mesmas tentaram se manifestar no passado, mas foram reprimidas pelo lacre de Pandora.

Se ao menos elas houvessem voltado antes, muitas coisas poderiam ser diferentes, mas como Ojezed lhe dissera certa vez, não se pode mudar o passado, mas ninguém poderia lhe impedir de reescrever a sua própria história.

.IV.

Rodopiou pelo quarto com o pesado vestido entre as mãos, aquele fora um presente de todas as meninas; ela pensou animada, antes de parar em frente ao espelho e observar com atenção o tecido bordô adquirir algumas nuances negras e outras mais claras conforme a luz.

A festa de aniversario de Hilda começaria dali a alguns minutos, embora estivesse quase pronta, ainda temia colocar o vestido e danificá-lo; ela pensou alisando distraidamente os bordados dourados que adornavam a vestimenta.

Suspirou resignada, era melhor deixar essas besteiras de lado e se vestir logo, Alberich avisara que passaria para lhe acompanhar até o salão, então, não queira deixá-lo esperando; ela concluiu arrumando-se rapidamente.

Deixou os longos e cacheados cabelos castanhos caírem pelas costas e corou furiosamente ao notar a profundidade nada discreta do decote. Estranho, isso lhe lembrava um vestido que já vira antes, mas onde?

Dois toques na porta lhe chamaram a atenção, desesperada, precisou de alguns movimentos que fariam inveja a qualquer contorcionista para fechar o zíper nas costas e mandar Alberich entrar.

-Espero não ter-...; Alberich estancou observando-a com uma expressão estarrecida. –Nossa!

-Então? Como ficou? –Aldrey perguntou sorrindo, enquanto rodopiava no mesmo lugar, fazendo a barra do longo vestido erguer-se levemente.

-Perfeito; ele falou hesitando em se aproximar.

-Que bom... Estou quase pronta; ela avisou, enquanto sentava-se na beira da cama para colocar os sapatos.

-Espere; ele falou aproximando-se dela.

-O que foi? –Aldrey perguntou confusa, mas sentiu a face esquentar quando viu-o abaixar-se, apoiando um dos joelhos no chão, de forma que seus olhos ficassem quase na mesma altura.

Apenas sentiu o momento que as mãos frias do cavaleiro tocaram seu pé, enviando ondas do mais puro calor para todo seu corpo. Estremeceu, desviando o olhar perturbada. Era inquietante a forma como seu corpo reagia sempre que ele lhe tocava, mesmo que fosse algo inocente e breve.

-Eu ajudo; ele respondeu num sussurro rouco, enquanto pegava um dos sapatos de salto e deslizava-o pelo pé delicado.

-Obrigada; ela murmurou.

Observou-a atentamente, sentindo uma súbita onda de "de já vu", não entendia o porque dessa sensação, como se já houvesse vivido um momento parecido, ou que algo ali era igual a alguma lembrança sua, mas de onde?

-Pronto; Aldrey o ouviu murmurar, voltou-se para ele, vendo-o lhe estender a mão para que pudesse colocar-se em pé e não pode deixar de estremecer diante da forma com que os intensos orbes verdes fitaram-lhe dos pés a cabeça, para em seguia, simplesmente assentir em tom de satisfação.

–Podemos ir? –ela indagou timidamente.

-Ainda não; Alberich falou tomando-lhe uma das mãos e guiando-a até o espelho do outro lado do cômodo.

-Algum problema? –a jovem perguntou confusa.

Estava acostumada com o Alberich atencioso e carinhosos, sempre por perto para lhe proteger e lhe abraçar, mas esse Alberich, ou melhor, aquele Alberich que passara a conhecer desde o dia do Conselho lhe deixava inquieta.

Era um Alberich mais intenso com uma presença tão forte que a deixava irrequieta, um Alberich que lhe despertava sentimentos e anseios perturbadores.

-Só esta faltando uma coisa; o cavaleiro falou colocando-se as costas dela.

-Uhn? –Aldrey murmurou, mas estremeceu quando sentiu o toque delicado dos dedos dele em seus ombros parcialmente despidos e no momento seguinte foi o ouro frio do imenso colar que ele colocou em seu colo que lhe fez estremecer.

-Assim esta melhor; ele completou observando o caimento do colar sobre o colo alvo.

As correntes eram simples, mas ao se entrelaçarem pareciam cristais de gelo, não havia pedras no colar, apenas tonalidades diferentes de ouro dourado e branco. Mas o brilho intenso da jóia era capaz de ofuscar-lhes a visão.

-Alberich; ela murmurou, tocando hesitante a jóia com a ponta dos dedos.

-Quero que fique com ele; o cavaleiro falou apoiando o queixo sobre seu ombro. –Ficou muito bom em você;

-Obrigada; a jovem murmurou.

-Vamos? –Alberich perguntou suavemente, mas franziu o cenho no momento que viu um brilho violeta cobrir rapidamente os orbes castanhos. Balançou a cabeça levemente para os lados. Deveria ser só impressão a sua; ele concluiu.

-...; Aldrey assentiu, seguindo com ele para fora do cômodo, ainda surpresa com todas as facetas que conhecia do cavaleiro. Era como se todo o tempo que estavam convivendo juntos, não fosse o suficiente para saber tudo sobre ele, alias, tempo algum parecia o suficiente agora...

-o-o-o-o-o-o-

A luz da lanterna a gás já havia se apagado a um bom tempo, o quanto, não fazia a mínima idéia. Entretanto, desde aquele momento ela fora se entocar num canto da adega e de lá não saíra, tão pouco abrira a boca, nem que fosse para lhe xingar.

-Então, quanto tempo acha que vai agüentar ficar imóvel ai? –Aaron perguntou em tom de provocação. Entretanto, não obteve resposta. –Podemos simplesmente colocar as cartas na mesa, ou passar o resto de nossas vidas nos odiando, o que você prefere?

-Idiota; ela resmungou, encolhendo-se um pouco por causa do frio. Aquele lugar alem de úmido, era incrivelmente frio. Não era para menos que era uma adega, agora estava explicado como eles conseguiam conservar as coisas ali dentro.

-Como disse? –o aquariano indagou casualmente.

-Você não passa de um idiota! –Alanis exasperou.,

-Vamos combinar que a parte das ofensas já foi lá atrás; Aaron comentou sem se abalar. –Então?

-Grrrrrrrrrrrr;

-Pense pelo lado positivo Alanis, você não tem nada a perder, então, não faz diferença o que você tem a dizer; ele falou ignorando os rosnados dela.

-Você não entenderia; a amazona murmurou.

Nem mesmo ela conseguia entender como sua vida virara de ponta cabeças de uma hora para outra; ela pensou lembrando-se de todo o inferno que viera nos últimos anos, antes de Yuuri ser sagrada amazona e retornar ao santuário, para simplesmente encontrá-lo com outra.

-Não vou perder mais tempo e paciência explicando para você que Aishi estava no santuário para ver o Kamus, porque nem mesmo tendo os dois desfilando por ai juntos, você acredita. Então, vamos pular essa parte e você me conta de uma vez o que aconteceu durante os seis anos de treinamento de Yuuri na França; ele falou em tom pratico.

-Depois que meu pai morreu, minha mãe voltou para Rússia, onde conheceu o pai de Leda e eles se casaram; ela começou hesitante. –Quando ela se casou, ela sabia que ele era um dos membros de famílias antigas de Asgard, mas não sabia que ele já havia sido um Guerreiro Deus;

-O que tem isso? –Aaron perguntou confuso.

-Ela surtou; Alanis respondeu. –Ela teria o abandonado, se não estivesse grávida de Leda;

-Não entendo, porque isso?

-Quando vivamos na Grécia, mamãe sempre reclamava das viagens que meu pai fazia como cavaleiro no santuário. Ele chegava a ficar meses fora e ela se aborrecida com isso. Dizia que ser esposa de cavaleiro era pior que viver no inferno; ela explicou.

-Colocação interessante, visto que ela não se casou obrigada como nós bem sabemos. Alem do mais, ela sabia em que buraco estava se metendo; ele lembrou recebendo como resposta um olhar envenenado.

-Papai voltava pra casa poucas vezes durante o ano e eles sempre discutiam. Mamãe pedia que ele desse baixa no santuário e procurasse outra coisa para fazer, mas ele sempre se recusou, dizendo que não podia simplesmente virar as costas para o santuário, não quando estava treinando um pupilo para tomar o seu lugar;

-Mas...;

-As coisas começaram a ficar insuportáveis em casa, foi quando eu decidi me mudar para o vilarejo das amazonas e começar a treinar; Alanis explicou.

-E seu pai?

-Seis meses depois recebemos a noticia de que ele havia morrido numa missão e que em seu lugar, iria ficar o-...; ela falou, sentindo a voz tremer e os orbes marejarem. –Filho e sucessor a armadura;

Voltou-se surpreso para ela, mas não teve coragem de dizer nada, apenas esperou-a continuar.

-Quando perguntei a minha mãe o que ela sabia sobre isso, ela respondeu apenas que isso era o mínimo que se podia esperar de um cavaleiro; Alanis falou em tom frio. –Ela sempre soube que papai tinha uma outra família longe da Grécia, era o filho que ele sempre visitava nas supostas missões, e a mulher que o concebera;

-Porque sua mãe permaneceu com ele, mesmo sabendo disso?

-Porque não passava de uma fraca; a amazona exasperou. –Ela sempre soube que aquela mulher não era a primeira tão pouco a última a atravessar o caminho do meu pai. Ele sempre teve casos espalhados por todos os lugares onde passava, mas aceitava isso da boca para fora, porque chegava a ser insuportável conviver com ela depois que ele ia embora, porque ela sempre sabia que era para outra que ele voltava e descontava em todos a sua volta;

-E o que isso tinha a ver conosco naquela época? – Aaron perguntou, ponderando.

-Faltava pouco para acabar o treinamento de Yuuri quando minha mãe foi até a França me visitar, Leda ainda era muito pequena. Aparentemente o casamento dela estava indo bem, mas ela jamais deixaria de carregar todo aquele ódio e amargura do meu pai; Alanis contou. –Eu, bem... Cai na besteira de comentar com ela sobre você;

-E? –ele indagou com os punhos serrados. Lembrava-se muito bem da mãe de Alanis, chegara a conhecer aquela víbora, antes que ela se mudasse do santuário e algo lhe dizia que ela não era daquele jeito apenas pelas traições do marido e sim, porque era uma pessoa amargurada por natureza, o pior era saber que muitas coisas poderiam ter sido evitadas se uma praga daqueles simplesmente houvesse deixado de existir.

-Ela me disse que lembrava-se bem de você e que o havia visto em Asgard com uma mulher; Alanis falou serrando os punhos nervosamente. –Disse que vocês pareciam estar muito bem juntos, alias, um casal perfeito;

-E suponho que sua mãe tenha dito também que ela era loira? –Aaron perguntou tentando conter a fúria.

Como ela poderia ter dado ouvidos a mãe quando sabia que ela não passava de uma mal amada desprezível? Doroti era como uma boa parte de mulheres que já vira espalhadas pelo mundo, que não eram capazes de amar e faziam questão de destruir com veneno a vida de outras pessoas. Era de estranhar que Alanis fosse uma menina tão doce quando haviam se conhecido e que Leda apesar de seus desvios, era bastante carismática.

-...; Alanis assentiu. –Na época eu optei por ignorar o que ela havia dito, sabia que minha mãe poderia estar querendo só destilar veneno, mas quando voltou a Grécia e vi, bem... Você sabe... Então;

-Então achou que eu era igualzinho seu pai e sua mãe estava certa; ele exasperou furioso, levantando-se bruscamente.

-Queria que eu pensasse o que, quando vi aquela loira falando com você? –ela gritou.

-Digo e repito pela última vez Alanis. A primeira vez que me perguntou eu falei que Aishi estava no santuário para ver o Kamus. QUE INFERNO! Sua mãe é uma louca destrambelhada e você colocou tudo a perder por isso; ele falou sentindo sangue ferver.

-Não fale assim dela; a amazona falou irritada.

-Falo como quiser, sua mãe não merece um pingo de consideração e acredite, se ela não tivesse morrido eu a esganaria agora; o aquariano vociferou dando um soco tão forte na parede que as prateleiras da adega tremeram. –A verdade sempre esteve debaixo do seu nariz, sabendo como ela era, porque decidiu que valia mais escutar o que ela tinha a dizer do que confiar em mim?

-Eu não te conhecia o suficiente, como acha que posso confiar assim? –ela indagou quase num sussurro.

-O que eu acho não importa mais Alanis, mesmo porque, em momento algum quando nos conhecemos eu lhe dei algum motivo para duvidar de minha dignidade e honra; Aaron falou em tom glacial. –Você escolheu tratar o que tínhamos como um caso trivial, que não valia a pena insistir; ele completou afastando-se rumo as escadas.

-Aaron;

-Um último conselho Alanis, é melhor não tentar fazer com a vida do Cadmo o que sua mãe fez com a sua, tão pouco com a do pai de Leda. Porque eu não vou permitir; ele avisou antes de chegar ao topo da escada e com um chute na porta, estourou o ferrolho do outro lado, para sair num rompante em seguida, como se Cérberos estivesse em seu encalço.

-AARON ! – Alanis gritou chamando-o, mas ao chegar ao fim da escada ele já havia desaparecido.

-Alanis; Leda falou se aproximando correndo ao ver o estado da irmã.

-Aaron; ela chamou num sussurro fraco novamente, mas deixou-se apenas cair nos braços da irmã, enquanto as lágrimas caiam furiosamente por sua face.

-Imagino que agora você acredite nele; Aishi falou aproximando-se calmamente.

-Vá embora; Alanis falou abraçando fortemente a irmã, enquanto soluços cada vez mais altos ecoavam pela cozinha.

-Não estou julgando você Alanis; a amazona falou sem perder a serenidade. –Mesmo porque, eu sei bem o que é ter uma mãe que pode ser o pior inimigo de alguém. Só que a diferença, é que eu sabia disso desde que nasci. Você levou mais tempo para descobrir por si mesma a verdade;

-Não quero falar sobre isso com você;

-Ótimo, pois não quero ouvir você abrir a boca. Quem vai falar sou eu; a amazona falou num tom frio. –Você já esta grandinha demais pra correr pedindo colo quando quer fugir dos problemas. Até agora você só mostrou aos outros o seu lado da história, mas em momento algum pensou que o Aaron poderia ter sofrido com a separação tanto quanto você, ou que ele teve duvidas iguais, se não piores que as suas. Ou você nunca pensou que, poderia ter se apaixonado por outro homem naqueles seis anos que ele estivasse na Sibéria? Ou que ele sofreria as mesmas agonias que você?

-Aishi, por favor; Leda pediu desesperada, diante da dor da irmã.

-Esta na hora de parar de fugir Alanis, pessoas demais foram magoadas por causa de tanto veneno; Aishi lembrou. –Ou você acha que usar Cadmo como "noivo" fictício não poderia, não apenas magoá-lo, como destruir a amizade que ele tinha com Aaron? Não, imagino que você não tinha pensando nas conseqüências, mesmo que a idéia não tenha sido sua; ela completou voltando um olhar enviesado a Leda.

-Mon Age; Kamus falou aproximando-se, mas franziu o cenho quando viu Alanis agarrada a irmã e a noiva com um olhar nada amigável.

-O melhor que você pode fazer agora, é pensar em tudo que vem acontecendo e decidir o que você quer da sua vida. Porque sempre que tomamos uma decisão, mesmo que sozinha, ela interfere com muitas outras vidas; a amazona a lembrou, antes de lhe dar as costas e afastar-se com Kamus.

-Acho que ela entendeu o recado; Kamus murmurou massageando-lhe os ombros, sentindo a tensão correr por cada celular de seu corpo.

-Eu espero; Aishi murmurou relaxando pouco a pouco, antes de suspirar e abraçá-lo. –Uhn! Se um dia você não quiser mais ser cavaleiro, poderia ganhar a vida como massagista; ela brincou.

-Tem certeza? –ele indagou com um sorriso que estava longe de ser inocente.

Parou de andar, voltando-se para o noivo com a sobrancelha arqueada, antes de balançar a cabeça levemente para os lados.

-Melhor não; Aishi falou prontamente.

-Ciumenta; Kamus brincou, pousando um rápido beijo em seus lábios.

-Oras, eu apenas tenho noção do perigo. Não quero essas suas mãozinhas em outro corpo que não seja o meu; ela completou dando de ombros.

-Uhn! Podemos dar um jeito nisso se você quiser; ele sugeriu enlaçando-a pela cintura.

-Kamus! Aishi! Eles já estão chegando; Dohko gritou do hall de entrada;

-Mais tarde; a amazona respondeu antes de fazê-lo andar mais rápido para atravessarem os corredores.

.V.

Sentiu seu corpo se chocar contra uma enorme parede de pedra, na lateral do castelo. Ouviu ao longe da voz de Christine debochando de suas fraquezas como Kari fizera um dia, antes do golpe final.

Todos as lembranças estavam lá e demoraram tanto tempo esperando para voltar. Kari e seu séqüito de traidores destruíram Ehnoryen, haviam crianças e mulheres indefesas vivendo ali, humanos que queriam evoluir e buscavam com humildade a casa dos dragões.

A destruição tomou proporções irreparáveis, tantas vidas se perderam, se ao menos pudesse ter feito algo em vez de partir. Alexandra se fora, também podia sentir isso, enquanto sua mente mergulhava na escuridão.

Pouco a pouco seu corpo foi caindo em direção às águas escuras e frias do lago, sentiu o gelo queimar sua pele.

Vozes, gritos, risos, palavras de afeto e amor ecoavam no que restava de sua consciência.

Tantas e tantas vidas...

-o-o-o-o-

Alongou as garras e avançou contra a mulher na beira do lago, o choque de poderes foi eminente.

-Que doce surpresa; Christine falou provocante, esquivando-se do golpe de Amélia. –Quem diria que eu teria a chance de matar dois fedelhos com uma garra só; ela debochou.

-Você é patética; Amélia vociferou.

Queria que Emmus saísse logo daquele lago, ele não podia estar morto, era forte demais para isso. Sentira seu poder chocando-se contra o da mulher a sua frente.

-Acha mesmo que você representa algum desafio para nós? - a jovem provocou.

-Dobre a língua para falar comigo garota, sou Christine Deon, a futura Senhora dos Dragões; ela falou, mas no momento seguinte sentiu uma dor dilacerante atingir-lhe o braço.

O som de flechas cortando o ar, fê-la recuar rapidamente, mas não o suficiente para impedir que novas flechas perfurassem sua pele.

-A Terra Média só possui uma senhora e definitivamente você não chega aos pés de Eraen; Ares falou, puxando mais uma flecha prateada da aljava que trazia consigo.

Uma aura azulada envolvia cada uma das flechas, fazendo-a soltar guinchos de dor.

-São flechas criadas pelos elfos das sombras, letais para um dragão do céu; ele respondeu a sua indagação silenciosa.

-Vou acabar com vocês, como fiz com aquele bastardo; Christine urrou.

Uma nuvem esverdeada ergueu-se no céu, sendo expelida pelos lábios da jovem. Deixando o ar carregado e espesso.

-Veneno! – Amélia falou chocada, tentando não respirar aquele ar pesado.

Christine avançou contra si, instintivamente puxou a espada que trazia consigo e deteve suas garras a tempo. Os olhos vermelhos brilharam ao avistar o diamante negro brilhando no peito da jovem.

-Tigre Branco; ela rosnou, expelindo uma nova porção de veneno, que fez Amélia cambalear e ser jogada para longe, por um golpe da mulher.

-Você esta bem? –Ares perguntou correndo até ela.

-Acho que sim; ela murmurou.

-Seus inúteis! Vão pagar caro por isso; Christine gritou.

Elevou seu cosmo novamente, tentando evocar sua verdadeira forma, mas seus poderes foram contidos por uma força maior que se manifestou. O gelo que se formara sob o lago negro começou a quebrar e a água esquentou, causando imensas bolhas na superfície.

Christine deteve-se no momento que viu um par de asas negras emergir da água. Seu corpo estancou e pela primeira vez sentiu medo de um dragão que não fosse Kari, muito medo.

O pescoço longo e esguio ergueu-se da água, deslocando as placas de gelo que ainda restavam, as presas salientes arreganharam-se e os olhos vermelhos pareciam às chamas incandescentes das forjas de Muspell.

-Zeus todo poderoso; Ares falou abismado.

O dragão negro saiu completamente da água, as escamas negras cintilavam um brilho esmeralda, o bater das asas deslocou uma intensa corrente de ar que os obrigou a recuar, com dificuldade em manter-se de pé.

-Resolveu se revelar, lagartinho; Christine provocou, mas no momento seguinte sentiu as garras longas e afiadas cravarem-se no gelo a poucos passos de seus pés.

-VAI PAGAR CARO POR TUDO QUE FEZ! - a voz do dragão ecoou por todo o local, reverberando numa vibração intensa por seu corpo. –E SEU JULGAMENTO COMEÇA AGORA! -ele rosnou segurando-a com uma das patas antes de alçar vôo e a longa calda bifurcada estalou no gelo causando fendas na terra.

-Piedade meu lorde; Christine implorou, mas era tarde demais para ela e tarde de mais para qualquer outro que ousasse desafiar os desígnios do Caos, que um dia, quando a Terra ainda era jovem, havia escolhido um dragão, apenas um e aquele para governar aquela terra e levá-la a uma nova Era.

Continua...