Fraqueza
Ela abriu os olhos, sentindo sua cabeça pesada. A sensação era estranha, como se tivesse voltado a ser humana novamente. Não gostou nem um pouco de sentir aquilo, de se sentir fraca. Esperou sua visão entrar em foco, observando atentamente pela primeira vez onde estava.
Era uma sala. Uma sala escura e pelo que Bella conseguia enxergar, circular. Era ampla. Muito ampla. Nem mesmo seus olhos poderosos conseguiam enxergar o outro lado. Ela só não sabia se era por causa da largura da sala, ou se era porque uma sonolência estranha ainda estava presente em seu corpo.
A sonolência. Piscou algumas vezes, lembrando-se da última vez em que estivera acordada. Saltou em um instinto, arqueando seu corpo em posição de ataque e percebendo pela primeira vez que não estava só naquele lugar lúgubre. Havia vampiros ao seu redor. Muitos deles. Tentou contá-los, e logo depois viu que era inútil. Porém, mataria todos se fosse preciso. Mas eram tantos...
Ela deu um passo para frente, tentando captar algo com o seu escudo. Mas nada conseguiu. Eles estavam bem afastados dela, como se soubessem do seu poder. Olhou em volta e percebeu o vampiro ruivo de cabelos longos ao seu lado, mais próximo do que os outros, mas não o suficiente. Sua mão direita estava estendida em direção a ela, e quando ela tentou andar na direção dele, sentiu a sonolência voltar com mais força em seu corpo. Cambaleou.
- Não tente nada, Bella Swan.
Uma voz aveludada e calma soou pela sala. Bella fechou os olhos fortemente, para depois abri-los. Esforçou-se para focá-los na direção onde a voz estava vindo. E depois percebeu uma silhueta alta e magra perto da porta.
Era ele. Sem que ninguém dissesse a ela, Bella sabia que aquele vampiro era Aro Volturi. Havia uma áurea em torno dele, uma áurea de perigo e superioridade. Ele parecia calmo, como se tivesse todo o controle da situação. E tinha.
Todos os vampiros ali o olhavam com respeito, e até mesmo ela ficou sem palavras quando o fitou. Estava vestido com um terno escuro, seguindo o padrão de todos os vampiros que ela já havia visto daquele lugar. Usava o mesmo colar dos Volturi. Os cabelos longos e negros estavam impecavelmente jogados para trás de seus ombros largos.
Havia uma vampira ao lado dele. Pequena. Quase do tamanho de Alice. Os cabelos eram loiros e estavam apertados em um coque no alto da cabeça. Os olhos eram vermelhos como os olhos de qualquer um ali, mas Bella percebeu algo que a deixou inquieta. De longe eram os olhos mais maldosos que ela já havia conhecido. Nem mesmo Victoria em sua sede de vingança tinha olhos daquela maneira quando estava prestes a matar Bella.
Mas incrivelmente, a pequena vampira parecia calma. E era a mais próxima do líder dos Volturi. O corpo dela era de uma menina de aproximadamente quinze anos, mesmo que Bella soubesse que ela estava longe de ser infantil em sua mentalidade.
Aro tomou a palavra.
- Meu nome é Aro Volturi. Por favor, fique calma. Caso tente algo, Arsene está atento para desacordá-la novamente.
Ela olhou para o vampiro ruivo, que sorriu para ela como se a conhecesse de longa data. Bella odiou aquele vampiro ainda mais. Tentou captar o dom dele, mas ele estava longe. Percebeu o porquê dos vampiros estarem longe. Sabiam que ela era um escudo. Mas se ela era um escudo, como aquele ruivo...
- Como ele consegue transpor meu escudo?
Ela perguntou, escutando sua voz sair em um tom estranho. Como se tivesse acabado de acordar. Aro sorriu para ela, juntando as duas mãos. Os olhos do mestre foram de Arsene para Bella.
- Bom, Carlisle e Jasper tinham razão quanto ao seu escudo. Aparentemente seu escudo é menos eficaz a poderes que mexem com suas emoções e sentidos.
Aquela informação era nova para Bella. Achou que apenas Demetri conseguiria ultrapassar seu escudo. Aro pigarreou, tomando a atenção dela novamente.
- Fique grata por Demetri ter solicitado Arsene. Eu teria enviado Jane.
Bella olhou para a pequena vampira, que deu um sorriso milimétrico de satisfação. Aquilo quase a arrepiou. Aquela garota tinha algo estranho nela. Algo que Bella não gostaria de descobrir.
O que mais não haviam falado com ela?
Pensou em Carlisle. O Cullen poderia ter avisado sobre a falha no escudo dela. E agradeceu mentalmente Demetri pela sua escolha. Ainda não sabia sobre o poder da loira, mas algo lhe dizia que ela não iria gostar do que sentiria.
Seus olhos vermelhos automaticamente buscaram seu companheiro, e quando ela o viu na parte direita da sala circular, mostrou os dentes e correu em direção a ele, mas logo sentiu a sonolência se aprofundar. Cambaleou, ainda lutando para alcançá-lo. Queria matá-lo. Mas já não tinha mais forças. Caiu de joelhos, respirando com raiva.
A risada de Aro soou pela sala, fazendo o ambiente ficar ainda mais estranho. As paredes proporcionavam ecos terríveis com aquele som. Ele estava adorando o modo como aquela vampira se mostrava ser. Impetuosa, teimosa, raivosa. Demetri teria trabalho com aquilo.
- Me tirem daqui. Não quero ficar em Volterra!
Ela praticamente gritou, ainda de joelhos. Suas roupas de frio haviam sido retiradas do seu corpo, e ela estava apenas com uma calça e uma blusa de manga comprida. Mas ainda sentia o chão frio de encontro à sua pele. A risada de Aro parou e ele a olhou com um pouco de atenção.
- Você sabe que Volterra será o único lugar em que sentirá em casa agora?
Ele se aproximou dois passos.
- Aqui nos alimentamos melhor do que em qualquer lugar. Sem necessidade daquela caça absurda, sempre tomando o cuidado de não chamar a atenção de humanos próximos. Depois de um tempo, todos que você conhece estarão mortos... todos!
Ela apenas continuou o ouvindo. Cada palavra dele parecia ser uma verdade jogada na cara dela. E doía, de certa forma. Pensou em seus amigos de La Push e em sua família... por mais que tivesse mandado uma carta para Renée e uma carta para Charlie explicando a sua ausência e dizendo que havia ganhado uma bolsa de última hora para um lugar distante, se sentia na obrigação de um dia voltar e explicar devidamente seu sumiço.
Não queria ficar em Volterra.
- Você não poderá reencontrar seus amigos, nem mesmo sua família. Você terá sempre a sede de uma recém-criada, Bella Swan. O poder que você tem trás com ele consequências e responsabilidades. Você não conseguirá reencontrar conhecidos sem sentir o cheiro doce do sangue deles e querer matá-los.
Aro acabou com todas as esperanças que Bella tinha de um dia reencontrar Jacob e os Quileutes, de reencontrar Charlie e Renée, de reencontrar os amigos da escola. Ela fitou Demetri, implorando com os olhos carmins que ele parasse o seu mestre, que ele impedisse Aro de falar mais. Seu corpo começou a tremer e seus olhos arderam, como se ela fosse chorar. Mas ela sabia que não conseguiria chorar. Então se encolheu no chão.
- Ser vampira tem suas consequências, Bella. – a voz dele estava mais suave agora. – E não é uma diversão e uma brincadeira igual você inocentemente achou que era. Temos deveres e regras como toda espécie tem.
Ela escutou passos em sua direção e levantou o rosto. Aro havia se aproximado mais, ficando visível totalmente pela primeira vez. Ele parecia flutuar, seu rosto era quase transparente, como se ao leve toque ele fosse se desmanchar. Os olhos eram da mesma cor dos olhos de qualquer vampiro, mas eram leitosos. A postura era perfeita.
Ela tentou atacá-lo. Sentiu cada vampiro ali prender a respiração desnecessariamente quando ela o fez, mas antes que ela pudesse alcançar o líder dos Volturi, foi barrada por uma força invisível, caindo no chão. A vampira de nome Jane se aproximou, olhando-a com fúria, mas Aro levantou a mão calmamente, impedindo a pequena de fazer o que ela planejava fazer.
- Conhece Renata, Bella?
Ele apontou para uma vampira de aparência estranha. Era loira igual a Jane, mas seus cabelos eram de um tom mais escuros e batiam na altura dos ombros. Eram enrolados e belos. Assim como ela. Todos ali eram belos.
- Renata possui um escudo muito parecido com o seu. Mas o escudo dela serve para ataques físicos.
Renata sorriu para Bella. Um sorriso tranquilo. Ela sentiu que aquela vampira parecia ser a única ali que não queria realmente lhe fazer mal ou feri-la de alguma forma. Aro voltou a falar.
- Então você nunca conseguirá se aproximar de mim. Não conseguirá pegar o meu dom. Mas creio que isso não será mais necessário depois de algum tempo. Afinal, seremos amigos.
Ele sorriu. Um sorriso maldoso e ao mesmo tempo doentio. Bella rosnou em resposta, sentindo seu corpo em chamas e o instinto assassino aflorar. Não queria ficar ali, nem servir àquele vampiro.
Aro olhou para todos os presentes na sala.
- Saiam todos. Arsene, Jane, Demetri e Renata, fiquem.
Ele era cuidadoso. Jane estava sempre ao lado do seu mestre. Demetri se aproximou de Aro também e Bella odiou aquilo. Queria matá-lo, aí seria livre de tudo. Parecia que seu companheiro estava dando prioridade ao seu mestre. Arsene continuava atento, com a mão direita erguida.
- Fique calma, Bella. Sei que um dia você irá aceitar o seu destino. E ah, pense com carinho. Apesar dos deveres e das consequências, ser vampiro tem o seu lado positivo, no caso dos vampiros de Volterra, muitos.
Ele sorriu, gesticulando com a mão.
- Essas paredes aqui possuem metros de aço e concreto puro. Nem mesmo um vampiro conseguiria fugir. Colocarei Arsene na portaria principal, e Jane virá caso necessário. Caso tenhamos mais trabalho com você, colocarei o escudo físico de Renata por toda Volterra. Vamos. Todos vocês.
Ele se virou, caminhando em direção à porta da sala circular. Jane saiu da sala, junto com Arsene. Renata foi logo depois, ficando a postos do lado de fora para seu mestre. Demetri seguiu Aro até a saída.
Quando Aro percebeu que Demetri estava o seguindo, virou-se e fitou o vampiro com curiosidade.
- O que pensa que esta fazendo, Demetri?
Demetri ficou confuso.
- Estou seguindo ordens. Você pediu para que todos saíssem.
Aro deu um sorriso fraco para Demetri.
- Nem pense nisso. Bella Swan é sua companheira e sua cria. Você terá a responsabilidade primária de acalmar essa vampira e convencê-la do que é melhor para ela!
Com isso, seu mestre saiu, fechando a porta pesada e trancando-a. Demetri escutou os passos se distanciarem daquele local.
Ele estava trancado ali. Trancado com ela. Ele respirou fundo, olhando com relutância para trás. Ela estava respirando ruidosamente, rosnados baixos saindo de sua garganta em intervalos curtos de tempo. Bella sorriu maliciosamente para ele ao perceber que o vampiro não tinha saída.
Demetri engoliu em seco.
Nota da Autora: Eu sei que há um (a) Volturi que estreita e cria laços entre os vampiros de Volterra para que Aro consiga recrutar vampiros com dons diversos, mas não quis inseri-lo (a) na fanfic.
