Flores Escuras

Autoria: Niphrehdil

Publicada originalmente em:

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Tradução autorizada: Inna Puchkin Ievitich


Capítulo 25

Por um bom tempo, Erik não sabia quem era, onde estava ou porquê.

Ele não tinha nenhuma noção de tempo, espaço ou realidade.

Ele era como uma tabula rasa, uma pintura vazia cujas cores e formas ele teve que voltar a desenhar dentro de si, lentamente.

Depois do que pareceu ser uma pequena eternidade, ele começou a recuperar algumas sensações. Vagamente, num primeiro momento – e, então, com mais firmeza. Ele lembrou que tinha um corpo. E uma mente. E memórias. Gradualmente, começaram a rastejar ao seu lugar de origem. A consciência de Erik despertou e se moveu, como se ele fosse de cera volátil tentando recuperar a forma original.

A primeira percepção sólida de Erik e o seu primeiro pensamento coerente foram de que ele estava em uma cama.

Ele se sentia aquecido, porém havia um pensamento persistente no fundo de sua mente como se ele devesse se lembrar de algo que simplesmente não conseguia. A sensação de seus braços e pernas voltou, embora vagarosamente, e Erik começou a se lembrar do que tinha acontecido. Sua própria vida e memórias tornaram-se fluídas, e logo ele foi atingido por uma imagem de si mesmo e de Charles em meio a névoa do seu doping, e do modo que suas mentes colidiram.

Erik abriu as pálpebras agitadas, sem enxergar nada por um longo tempo.

Ele sentiu como se fosse atingido por uma bomba atômica, disparada dentro da sua cabeça. Mas, ao mesmo tempo, seu corpo estava preenchido com alguma estranha sensação de euforia. Era o mais interessante de todos os contrastes.

Quando, devagar, Erik voltou a divisar o quarto, percebeu que já estavam no meio da noite. Estava escuro, e apenas uma pequena lâmpada de cabeceira iluminava. Chovia novamente.

Ele se sentia completamente relaxado de uma forma satisfatória. Era como se toda a tensão de seus músculos tivesse sido drenada e ele fosse deixado em um estado de paz.

Foi só então quando Erik percebeu que seus braços e pernas estavam entrelaçados com os de outra pessoa, e ele piscou em maçante surpresa ao encontrar-se abraçado a Charles. A cabeça de Charles estava descansando em seu ombro, braços atraídos de encontro ao próprio peito. Erik não lembrava de ter se movido para essa posição - nem mesmo de terem trocado de lado na cama. Ele engoliu em seco quando sentiu o fantasma de um toque em seus pulsos e braços - como se sua pele recordasse algo que a consciência não. Por alguma razão inexplicável, seus lábios também latejavam um pouco.

Erik se perguntou brevemente se deveria se afastar, mas percebeu que seus membros estavam pesados demais para fazê-lo. Ele estava quase segurando Charles em um abraço, e sentia-se, ao mesmo tempo, extremamente estranho e estranhamente... certo. Charles ainda estava dormindo - ou desmaiou depois de tudo o que acontecera na fusão de suas mentes - e Erik não se atrevia a acordá-lo. A calorosa presença de Charles ainda se estabelecia na parte de trás da cabeça de Erik, mas parecia diferente de como fora antes. Como se, de alguma forma, fosse mais permanente.

Erik deu um longo suspiro.

Ele, sinceramente, não sabia o que pensar. Lembrou-se de suas mentes misturando-se uma na outra sem nenhum dos escudos ou controle de Charles, e as inibições de seu próprio cérebro simplesmente derretendo como nunca houvessem existido. Erik odiava admitir, mas ele se sentia satisfeito de uma forma muito primitiva. A fusão tinha sido tão completa, tão absolutamente impecável que ele estava atônito com o fato de ambos sairem dela como seres individualizados. Ele mal podia acreditar que algo assim poderia sequer existir - quando tentou relembrar era como se fosse tão infinito quanto tentar imaginar todo o espaço sideral em um só pensamento. Havia apenas flashes muito vagos e breves aqui e acolá – Erik poderia lembrar da pele, calor e ritmo, e de ter segurado o cabelo de Charles, mas era tudo.

Era como se seu corpo se lembrasse, mas sua mente não.

Erik decidiu confiar que ele nada fizera para machucar Charles – uma pequena e profunda voz em sua mente sussurrava-lhe que fora todo o contrário - e parar de se perguntar sobre isso. Ele nunca gostou de perder o controle, mas simplesmente não podia negar a completa satisfação que agora ecoava em seu corpo.

Ele passou um longo tempo apenas olhando para o teto, ouvindo a chuva, e sentindo mais e mais seu próprio cérebro voltando à ação.

Charles estava respirando lentamente, porém cadenciadamente, por isso Erik concluiu que ele estava apenas adormecido.

Erik, de repente, tinha tempo para refletir sobre a situação.

Por um momento, ele não quis se preocupar com a Chimera. Ou a Irmandade. Porque, de algum modo, ele se sentia como se quisesse afastar essas coisas da sua mente e da sua vida. Mesmo que apenas por um curto período. Era estranho, mas esse simples momento lhe parecia mais precioso que muitas vitórias que experimentara com a Irmandade ao longo de sua jornada. Isso não fazia qualquer sentido em absoluto, porém... nesse instante, Erik não se definia como alguém. Ele não era Magneto. Ele não era líder. Ou sobrevivente do Holocausto. Ele também não era um inimigo público. Ou mesmo um mutante.

Ele só... era.

Era libertador o fato de apenas estar lá, inspirando e expirando e ser Erik Lehnsherr. Sem barreiras ou limitações.

Erik não tinha olhares judiciosos ou curiosos apontados para ele. Ninguém estava observando-o ou vasculhando seus pensamentos, e a privacidade era quase intoxicante. Ele memorizou o sentimento do travesseiro sob si, e o teto sujo, o peso exato da perna esquerda Charles parcialmente esparramada sobre a dele. A forma com que o ar empoeirado se parecia, como fluia para dentro e para fora.

Como suas costelas ainda estavam remotamente doídas, e a sensação dos nós dos dedos quebrados.

A forma como a chuva soava ao bater na janela em um ângulo ligeiramente inclinado.

Erik moveu cautelosamente o braço livre e puxou mais o edredom sobre ambos. Charles foi vagamente alertado pelo movimento brusco, e soltou um suave som, aconchegando-se um pouco mais contra Erik. No entanto, ele notou que as pernas de Charles sequer se mexeram. Parecia que elas estavam paralisadas novamente, embora fosse encorajador saber que o efeito do soro tinha claramente desaparecido.

Erik ficou parado, esperando Charles despertar. Contudo, por alguma razão, alguma coisa parecia puxa-lo de seu sono e ele piscou, a visão desfocada. O pulso de Erik acelerou e ele prendeu a respiração quando Charles levou um momento para ajustar sua visão. Então, ele virou um pouco a cabeça, olhando para Erik, os olhos turvos de sono, mas Erik registrou com satisfação que suas pupilas tinham quase voltado ao normal. Charles enviou uma pergunta não verbalizada na sua direção sobre ele estar bem. Erik apenas meneou a cabeça e Charles parecia estar satisfeito ao saber.

Em seguida, simplesmente voltou a apoiar a cabeça no ombro de Erik, como se não se importasse com o quão perto estavam um do outro, e fechou os olhos.

Erik esperou Charles se mexer e perceber o quão intimamente próximos estavam, ou surtar por causa do fato óbvio de que o elo mental tinha sido mais profundo que nunca, mas Charles não voltou a abrir os olhos ou se mover. É claro que todos os tipos de limites tinham sido cruzados durante seu tempo juntos depois dos laboratórios, mas isso... isso era outra coisa.

Erik passou a língua pelos lábios. A pele sobre eles parecia estranhamente doce.

Demorou muito tempo até que seu pulso normalizasse.

Bem antes de Erik voltar a cair no sono mais uma vez, ele mexeu o braço um pouco rígido e os dedos de Charles enrolaram sonolentamente no edredom. Ele parecia aquecido contra Erik, e Erik sentiu-se inundado por um forte sentimento de proteção. A única coisa que ele sabia com certeza é que estaria pronto para fazer qualquer coisa a fim de manter Charles em segurança. Era quase assombroso o quão facilmente o pensamento vinha até ele. Erik não tinha recebido muitas coisas boas em sua vida, mas conhecer Charles Xavier tinha sido uma clara exceção.

Erik olhou para a bochecha de Charles ainda machucada e seu cabelo escuro bagunçado.

Ele estava prestes a se virar quando, inesperadamente, Charles mexeu sua cabeça durante o sono, quase como se estivesse sentindo os pensamentos distraídos de Erik - e moveu a cabeça um pouco para cima, pressionando-a quase contra o rosto dele. Erik congelou, surpreso com a proximidade súbita - sua mandíbula estava tocando de leve uma das sobrancelhas de Charles, e quando ele respirou seus lábios roçaram a testa de Charles. Ele sentiu sua própria respiração rebotando, quente e entrecortada.

Erik tivera sua cota de momentos íntimos em sua vida, mas ninguém ficara sob sua pele. Tinha sido apenas satisfação biológica e impulsiva. Fora agradável, porém nenhuma daquelas pessoas deixaram sua marca em Erik. Não havia ninguém no passado com o qual ele desejasse se reunir novamente. Nem mesmo Raven – não nesse sentido.

Esse tipo de confiança - como a que Charles estava demonstrando apenas por dormir ali, onde Erik poderia facilmente esmagá-lo ou feri-lo ou matá-lo, se quisesse – era única. E ninguém antes em sua vida fizera um gesto tão simples, tal proximidade fazendo sua respiração prender na garganta.

Não fazia sentido, não havia nenhuma lógica.

Erik esteve longe de desenvolver sentimentos por alguém.

Ele sempre pensou que sentimento era um falso conceito - uma fantasia humana ingênua sobre estar preso a alguém de tal modo a ser tomado por completo.

Mas alguns deles pareciam fazer um imenso sentido agora.

Erik sempre se orgulhara de que, embora pudessem lesar ou abusar de seu corpo, nunca entrariam em sua cabeça. Porque ele era Magneto e ele era intocável, e ninguém poderia força-lo a fazer qualquer coisa. Despedaça-lo estava bem – Erik já tinha se acostumado com a dor desde os campos. Não importava que muitos interrogadores e inimigos tentaram arrancar de Erik uma reação emocional, descobrir seus medos ou sentimentos para que pudessem usá-los contra ele – todos tinham falhado. Porque não havia nada. Magneto sempre foi o melhor monstro de Frankenstein - Shaw certificou-se disso. Você não pode quebrar algo que já foi quebrado.

Mas agora, o estômago de Erik apertava em um nó. Horrível e persistente medo esapalhando-se, porque ele não podia negar que havia algo em si que fora curado nos últimos meses. Algo pequeno, e talvez não tão significativo, mas estava lá. Erik percebeu, com relutância, que ele agora tinha um ponto fraco, um ponto de ruptura, uma rachadura em sua armadura anteriormente invencível.

E nesse momento em particular, Erik podia admitir que estava com medo.

Não por causa da existência da Chimera, não por causa de seus poderes atualmente em falta. Era muito mais simples e destrutivo que isso. De alguma forma, Charles conseguira exercer domínio sobre Erik, mais forte que qualquer outra pessoa, sem forçar ou procurar por ele. Charles o havia tratado com imenso carinho e respeito, como se Erik fosse realmente a melhor pessoa que ele acreditava que era - mesmo que Erik não merecesse isso. Ele não merecia nada disso – nem o perdão de Charles, ou sua esperança, ou sua empatia. Mas ele tivera de qualquer maneira, e agora ele tinha Charles bem ali, e Charles tinha se fundido com a sua mente e corpo. Erik sentiu ter uma granada dentro de seu peito e dera o pino a Charles de bom grado. Talvez fosse auto-destrutivo e perigoso, e ainda assim Erik tinha toda confiança do mundo em que Charles jamais usaria isso contra ele. Esse era apenas o jeito dele. Amável e altruísta Charles, com sua paixão pela humanidade e pontos de vista irritantes.

Mas tão frágil, tão facilmente eliminável...

E foi exatamente isso que fez o interior de Erik escurecer as custas do medo - o fato de que qualquer um poderia usar isso contra ele. Que tinham influência sobre ele. Que seus inimigos agora tinham um caminho para o seu coração – o coração que ele dissera muitas vezes não ter.

Magneto tinha se dirigido para uma armadilha.

"Eu não acho que se importar seja uma fraqueza", Charles certa vez lhe dissera.

Era, Erik pensou consigo mesmo. Era. Ele nunca tivera problema algum com isso. De fato, não. Mas agora olhe para ele. E o problema não era a falta de vontade de se importar. Erik se preocupava com Leap – o jovem teletransportador era um mutante decente, um tanto suportável, e Erik lutaria por ele se preciso. Mas se Leap se tornasse uma vítima nessa guerra, Erik não choraria por ele.

Como chamam isso, então... que Erik estaria pronto para destruir cidades inteiras por Charles? Que ele tinha sentido como se estivesse sendo feito em pedaços quando, por um breve momento, pensou que Charles tinha morrido?

Era... insano.

O nível absoluto disso. O volume disso - parecia quase tão imenso quanto o ódio reprimido dentro de Erik. E nada, simplesmente nada na vida de Erik tinha se comparado ao seu ódio. Como poderia até mesmo ser mais forte que ele? O que poderia competir com isso?

Ele fechou os olhos por um momento, perdido na forma que seus lábios, ainda hipersensíveis, pulsavam contra a pele quente da testa de Charles.

No mundo horrível e sedento de sangue em torno deles, este foi o maior erro que Erik já cometera – tornando-se tão envolvido com Charles que o simples pensamento de o perder dava-lhe ânsia de vômito.

Porque não obstante quantas vezes Erik prometera a si mesmo que não iriam chegar em Charles – só por cima do meu cadáver -, ele não podia acreditar plenamente em suas próprias palavras.

A Chimera era muito poderosa, muito perigosa.

Erik sentiu que queria encontrar um lugar seguro para ambos e se esconder lá, e sentiu-se um covarde por isso, mesmo contabilizando a idéia.

Ele era um hipócrita.

Erik se amaldiçoou por ter permitido isso acontecer, por se permitir consertar todas as coisas não reparadas entre ele e Charles. Por se permitir sentir-se bem novamente. Quase... feliz. As coisas tinham sido mais fácil quando havia somente ódio e amargura, e uma culpa tão forte que fazia Erik sentir-se mal às vezes. Magneto não existia para ter coisas boas. Magneto era para, supostamente, ser a máquina mais perfeita de Erik, lindamente impecável – construída sobre mágoas e decepções. A raiva tinha sido seu combustível, onde seus poderes funcionavam melhor.

Mas, em vez disso, Erik sentiu que tinha começado a orbitar em torno de Charles, como se estivesse preso à atração magnética de um planeta. A ironia era tão dolorosa que Erik repuxou o rosto em uma careta de dor - o que resultou nos seus lábios acidentalmente pressionando contra a testa de Charles.

A mente adormecida de Charles enviou um flash inconsciente do calor sentido, e as pálpebras de Erik se fecharam, acompanhadas de um grito desesperado.

Ele estava tão condenado...


Muitas horas depois, Erik acordou com uma sensação estranha no estômago de que algo não estava bem.

Era simples intuição, mas agitou-o em seu sono e Erik se apressou a sentar-se, olhando para o espaço em seu entorno. Charles tinha se virado para o outro lado, e ainda estava dormindo de encontro aos lençóis, mechas de cabelo desordenado espalhadas no travesseiro. Erik podia ouvir claramente o zumbido do link agora, e a telepatia de Charles chocalhando à distância- parecia ter se restabelecido totalmente. Erik tentou ouvi-la para o caso de pegar algo suspeito. Mas ele não era um telepata e não podia navegar através do ruído, então desistiu de tentar.

Em vez disso, ele se levantou e rapidamente buscou verificar se seus poderes estavam funcionando, dirigindo um comando para um relógio metálico pendurado na parede.

Para seu alívio total, o relógio respondeu ao seu chamado e caiu no chão com um barulho alto de estilhaço, e um assustado Charles acordou instantaneamente.

Está tudo bem, Erik enviou distraidamente enquanto corria para as janelas. Ele olhou para a rua, mas não conseguiu detectar qualquer coisa fora do normal.

Havia, porém, um sentimento inquieto na boca do estômago, e Erik olhou cautelosamente para a porta obstruída.

Charles forçou-se a sentar, sua menta em pronto alerta quando sentiu o desconforto de Erik.

O que foi?, enviou para Erik.

Erik virou-se para ele, hesitante.

- Por favor, verifique o corredor – ele disse em uma voz calma.

Charles apenas se virou para olhar para a porta, estreitando os olhos. Ele passou alguns segundos apenas olhando fixamente, inclinando a cabeça como se estivesse ouvindo atentamente.

- Não... não há nada – Charles respondeu finalmente. – Só estática, não há pensamentos ou memórias visuais de qualquer coisa remotamente suspeita que poderia indicar a presença da Chimera.

Erik sentiu sua rigidez de volta.

- Você está certo? Absolutamente certo? – ele perguntou, porque havia um sentimento ruim rastejando em seu instestino.

Charles deu-lhe um olhar estranho, mas virou-se para verificar o corredor novamente. Ele ficou em silêncio um longo tempo, mas então apenas cedeu um pouco.

- Não, Erik. Não há nada de suspeito na casa, ou nas ruas em torno dela. Eu não posso sequer detectar a estática dos capacetes. Estamos sozinhos aqui.

Erik assentiu, porém não convencido ainda.

E seus poderes estão funcionando novamente, não?, perguntou Charles.

Sim, Erik respondeu, e teria se sentido mais grato se não houvesse um temor venenoso brotando em algum lugar dentro dele.

- Eu acho que deveríamos... - Erik disse, mas, em seguida, sua voz se desvaneceu quando detectou um tipo de metal torcer em algum lugar na parede. Erik franziu as sobrancelhas e se virou para olhar para o teto e procurou tudo o que pudesse ter causado isso. Há pouco mal havia qualquer som – Erik tinha sentido principalmente com seus poderes. Ele examinou a parede e o teto com os olhos, mas não havia nada de antinatural ali...

Charles seguiu seu olhar.

O que é?

Erik não respondeu, apenas continuou tentando dar algum sentido ao som. Poderia ter sido nada, apenas o encanamento fazendo um barulho ou algo assim.

Erik olhou para um dos filtros de ventilação de ar quando sentiu uma pancadinha, como um interruptor. Talvez o hotel tinha acabado de ligar a ventilação. Provalmente, era algo bem simples e normal. O estado alarmado de Erik relaxou significativamente quando ele concluiu que esse deveria ser o caso.

Não havia nada de errado na sala, Erik disse a si mesmo - apenas um cheiro empoeirado estranho que, provavelmente, tinha sido causado pelo fato de não ter havido muito arejamento nela por um longo tempo.

Erik deu um passo em direção à porta quando, de repente, o equilíbrio vacilou um pouco. Ele estancou e não achou nada demais, então continuou andando.

Mas, então, o estranho cheiro do ar de alguma forma mudou, o que chamou sua atenção. Erik ergueu sua cabeaça e inspirou o ar. Havia algo muito vago, mas cheirava doce. Doentiamente doce, como algum tipo de produto químico.

Erik ficou ali, erguendo as sobrancelhas, e sentiu o equilíbrio falhar novamente, e a sensação horrível retornou instantaneamente.

Então, de repente entendeu.

Erik virou-se e jogou um olhar indignado para a parede.

- Eles estão... na ventilação de ar. Eles estão... estão colocando algo através dela – disse e tossiu com raiva, ao passo em que sua visão embaçava perigosamente. Qualquer que fosse aquela coisa, estava trabalhando muito rápido.

- Prenda a respiração! – Erik gritou e correu na direção de Charles. Charles parecia também ter notado o cheiro estranho e a acelerada evolução dos sintomas, e fechou sua boca. Erik desejou tanto que Charles conseguisse andar nesse instante, porque ambos teriam fugido do quarto muito mais rapidamente. O melhor palpite e a esperança de Erik eram que apenas o seu quarto fora atacado, e não o edifício todo. Ele realmente esperava que sim, caso contrário nunca chegariam à rua.

Erik tentou freneticamente usar seu poder para fechar a ventilização de ar, mas o gás invisível estava deixando o seu senso de direção desorientado. Ele quase caiu na cama, mas continuou mesmo assim e segurou Charles, tentando puxa-lo para cima. Porém, qualquer que fosse o gás, ele agia muito rápido. O aperto de Erik vacilou e ele acabou caindo no chão, levando Charles consigo, seu senso de direção enlouquecido, as formas ganhando formatos estranhos e parecendo névoa.

Me deixe aqui, a voz forte de Charles tocou a mente de Erik, demandante. Faça.

Não, Erik respondeu, rangendo os dentes, tentando rebater.

Eu estou atrasando você, Charles disse, irritado.

Erik tentou reagir à desorientação enquanto tentava desesperadamente puxar Charles, apenas percebendo que não havia forma alguma de chegar até a porta a tempo. Sua consciência rapidamente se tornava vacilante e embotada.

Erik, saia!, a voz irritada de Charles rangeu dentro de sua cabeça.

NÃO. Cale-se. Eu não vou deixar você!, Erik grunhiu em resposta e xingou em alemão dentro de sua cabeça. Ele começou a se arrastar um pouco, mas seus pés eram mais que instáveis. Erik divisou o breve olhar de Charles e, normalmente, teria ignorado – mas Charles parecia tão impressionantemente suave... Erik esqueceu tudo o que estava fazendo. Ele soube, de antemão, que alguma coisa estava errada, que havia algo de conclusivo na forma como Charles olhava para ele.

Adeus, Erik, Charles sussurrou dentro da sua mente. Erik só teve tempo de arregalar os olhos em horror antes de perceber que seus próprios membros estavam se movendo por si mesmos. Erik só conseguia ver suas próprias mãos soltando Charles, e seus pés começando a percorrer o caminho até a porta.

Não, não. NÃO. Não! Charles! Não!, Erik gritou dentro da sua cabeça, tentando resistir, mas Charles tinha assumido seus movimentos e não havia nada que pudesse fazer.

Erik sentiu pânico queimar dentro de si quando se aproximou da porta obstruída. Ele ainda estava prendendo a respiração, os pulmões parecendo muito apertados e vazios, e Erik sentiu-se como um estranho em seu próprio corpo quando seus braços retiraram a cadeira e ele, desajeitadamente, avançou para a porta aberta.

Solte-me! Charles!, Erik gritou mais alto do que ele já o fizera. Não faça isso!

Não há nenhuma razão para que eles tenham nós dois, Charles disse, a voz perturbadoramente calma.

O corpo de Erik empurrou-se para fora da porta, e ele caiu no tapete sujo do corredor. Ele respirou fundo, ar correndo para os pulmões depois de uma longa pausa. Mas Erik não sentiu nenhum prazer em respirar, toda a sua atenção estava concentrada em Charles, o qual ele sequer podia ver.

Assim que você me soltar, eu voltarei para pega-lo. Você me ouviu? Não se atreva a se sacrificar, pelo amor de Deus!

Mas por mais que Erik odiasse, seus próprios membros arrastavam-no para perto da segurança, mais longe do quarto. Seu pânico intensificava a cada segundo.

Me SOLTE!, Erik gritou, tentando resistir tão poderosamente quanto podia. Porém, a pressão de Charles em torno dele permanecia, e Erik não podia fazer nada - mesmo que fosse um telepata, provavelmente não teria sido páreo para Charles.

Charles!, Erik quase implorou.

Mas não obteve resposta, e o silêncio o aterrorizava mais. Erik tinha, então, chegado a vários metros de distância da porta, e deslizado contra uma parede, caindo sentado. Ele respirava avidamente e estava ansioso para retornar ao quarto e arrastar Charles de lá. Erik começou a tossir incontrolavelmente.

Charles!, ele urrava desesperadamente dentro de sua mente mais uma vez, os olhos ardendo.

Charles não tinha partido – ainda não – Erik podia sentia sua ligação na parte de trás da sua cabeça.

Mas, então, algou chamou sua atenção, e ele voltou-se em direção à escada bem a tempo de ver quatro homens vestidos com as roupas escuras da Chimera aproximarem-se dele.

Os olhos de Erik se estreitaram em fúria, e ele fuzilou os homens sem emoção vindo na sua direção. Erik deu um grito irritado, fazendo todo o encanamento de metal explodir as paredes ao lado dos soldados, urrando de pura raiva e medo. Água arrebentou as paredes, inundando o chão e rapidamente transformando o corredor numa bagunça. Erik poderia estar desorientado, mas seu poder ainda era forte.

Porém, a parte mais horrível era o fato de ele poder sentir o controle de Charles se desvanecer, pouco a pouco, como se estivesse desaparecendo na escuridão.

Charles?

Erik respirou fundo e jogou o que tinha em cima dos soldados, erguendo os estilhaços de chumbo e tentando usa-los para perfurar. Mas havia muitos deles, mais deles vindo de algum lugar, e Erik não podia, sobretudo, ver o que estava fazendo e o que estava procurando.

Erik soltou um rosnado enquanto tentava atacar os soldados de novo e de novo, ou levantar-se, mas seu corpo era inútil.

Ele não podia impedi-los, porque continuavam vindo. Como, na Terra, eles ainda os encontraram? Parecia impossível. Não fazia sentido.

Erik lutou, mas a substância química que havia respirado tinha feito o seu trabalho muito bem. Ele estava preso ao chão.

Então, finalmente, um dos soldados da Chimera chegou até ele, parou para ficar ao seu lado e tirou uma arma similar a que haviam utilizado no dia anterior. Era branca e brutal – contendo uma seringa com agulha. Erik tentou torcer instantaneamente as pequenas peças de metal dentro dela - a agulha -, mas descobriu que não havia nada a dobrar. Os bastardos tinham feito as agulhas com algum outro material, e, do chão, Erik olhou para o homem sem rosto na frente dele.

- Tenha a decência de me matar aqui e agora, ao menos – ele cuspiu, raiva brilhando em seus olhos. – Faça, seu covarde! – Erik gritou tão alto que a gartanta doía, mas nada se contraiu no rosto do soldado, parcialmente enterrado sob o capacete. Antes que ele pudesse fazer outra coisa, o soldado havia pressionado a arma contra seu pescoço e a agulha perfurou sua pele de novo.

Erik gritou de raiva, sentindo o soro começar a se espalhar sob sua pele.

- Por que se importa em me drogar? Eu não tenho medo de você! – disse Erik em um tom maníaco. – Se você acha que pode me atingir, ou torturar, está errado. Não adianta. Então, me mate agora e se faça um favor, quem quer que esteja controlando esse jogo doentio. Você pode me ouvir agora, seu traidor! – gritou e tentou olhar através dos olhos do soldado, chegando mais fundo, e alcançar o telepata que estava usando esses mutantes como fantonches.

O rosto de Erik retorceu em desgosto, e ele cuspiu nas pernas do soldado.

- Seus bastardos! – ele respirava profundamente, e já sentia a dormência se espalhando por seus membros. Ele estava agindo como um animal ferido e preso, tentando intimidar os inimigos sem emoção diante de si, mas Erik não se importava. Ele não ia se acalmar. Mesmo que não pudesse mais usar seus poderes – eles foram instantaneamente bloqueados.

- Eu vou fazer vocês em pedaços! – Erik chiou e tentou chutar o soldado que o pajeava, mas seus membros estavam esquecidos demais para isso.

Alguns dos soldados tinham entrado no quarto com máscaras de gás, e a rebeldia de Erik vacilou quando ele os viu arrastando Charles para o corredor. Charles estava imóvel e flácido em suas mãos, e caiu no chão com os olhos fechados como foi deixado. Erik sentiu a bile subindo até a garganta enquanto observava os soldados pressionando também outra seringa no pescoço de Charles. Ele tentou achar freneticamente um sinal de vida de Charles, para garantir que ainda estava vivo. Ele tinha que estar, certo? Ele tinha que estar. Caso contrário, não teria sido drogado.

Erik tentou alcançar Charles, porém só conseguiu mover a mão trêmula apenas algumas polegadas da superfície do chão.

Ele engoliu em seco, ouvindo o link em pânico crescente.

Ele teve que esperar e aguçar sua audição, porém, felizmente, pegou um eco da sua ligação. Charles estava vivo. Charles ainda estava vivo. Erik sentiu uma centelha de esperança louca tomar conta de si. Charles não tinha partido. Prontamente, Erik concentrou toda a sua força restante em agarrar-se ao link, forçando Charles a ficar.

Sua visão ficou granulada e o volume das vozes tornou-se demasiado baixo e lento. Ele piscou os olhos desfocados na direção dos soldados. Ele olhou para eles, sabendo que em algum lugar um telepata estava segurando todas as cordas. Que quem quer que fossem, estavam à espera, observando. E, considerando que os soldados em questão não os tinham matado, Erik presumiu que estavam sendo capturados.

O pensamento o fez querer se jogar, gritar, porque ele imaginou que enfiariam agulhas no cérebro de Charles novamente, tranforma-lo em rastreador, e torturar a ambos.

E... a idéia era quase doentia demais para sequer se pensar, porém Erik sabia que usariam Charles contra ele, que a Chimera poderia conseguir qualquer coisa que quisesse dele se a vida de Charles estivesse em risco.

Era o pior pesadelo de Erik tornado realidade.

A Chimera tinha chegado até eles.

Eles foram capturados, e não havia escapatória.

Erik podia sentir a escuridão passando a assumir o controle, e, distantemente, sentiu os soldados começarem a arrastá-los.

Charles..., Erik chamou como uma oração sem fôlego.

E em seguida, sucumbiu dentro da escuridão.