Capítulo XXV: Na sombra do inimigo

Wilma abriu os olhos devagar. O ambiente da cabine ainda estava turvo e por isso esfregou os olhos enquanto se espreguiçava.

- Até que enfim! – Ben exclamou aos pés da cama.

- Não me digas que passaste a noite toda de bábá? – Wilma perguntou, sentando-se na cama.

- Não. Mas ontem à noite estavas estranha. Não quiseste comer e essa tua preocupação pelo James tira-te forças.

- Ah Ben, qual é? – Wilma levantou-se com a roupa do dia anterior e avançou por cima de Shiva que dormia ao lado da pequena cama. – Sabes que como pouco e tenho todo o direito de estar preocupada com o James. Andamos há duas semanas atrás deles e ainda não os alcançamos.

- O navio é lento. Melhor seria utilizarmos só o Pérola. – Ben disse.

- E deixar o navio do meu irmão pelo caminho? – Wilma olhou para este brava, enquanto colocava a espada à cintura. – Anda Shiva. – Wilma abriu a porta da cabine, sendo seguida por Shiva que fez Ben encostar-se à parede.

Wilma subiu até ao timão enquanto Jeff tomava conta do leme. Esticou o binóculo e olhou o navio da frente. Depois perscrutou o horizonte na busca de uma silhueta que indicasse os navios da EITC.

- Os navios do Swann desapareceram à dois dias. Achas que continuamos na rota certa? – Jeff perguntou.

Wilma nada disse e olhou para o mapa de Sao Feng e para um mapa normal. – Estamos na rota dos Açores.

- Sim. O Barbossa mandou uma mensagem. Acha que os navios irão fazer uma paragem numa das ilhas. – Jeff comunicou.

- Pelo jeito teremos nove à escolha. – Wilma olhou a bússola.

- Porque não pede a bússola emprestada ao Jack Sparrow? – Ben perguntou, enquanto subia as escadas. – Há quem diga que ela aponta para o que mais se deseja.

Wilma fechou a bússola e arrumou o mapa que tudo mostra, sem dizer palavra.

- Nem tudo o que se diz sobre o Sparrow é verdade, Ben. – Wilma disse enquanto descia para o tombadilho.

- Ela não parece gostar muito do sujeito. – Ben disse. – Sempre evitou falar nele.

- É cada um tem a sua história. Se ela não gosta dele, fazer o quê? – Jeff encolheu os ombros, embora soubesse muito bem o passado de Wilma. Ou pelo menos aquele que quase todos sabiam.


Num dos navios da EITC…

Elizabeth olhava o céu através das janelas do navio, enquanto arranhava o chão com as unhas. Tinha desistido de gritar e por causa do seu "bom comportamento", Lord Swann tinha autorizado que lhe tirassem as amarras. No entanto, era tratada como um animal enjaulado. A única diferença entre a sua situação e a de James era o facto de se encontrar num quarto, tendo acesso a comida mais do que uma vez por dia e alguma água. Olhava o horizonte milhares de vezes durante o dia e até noite, na esperança de ver alguma silhueta. Mas nada. Apenas mar, céu e o outro navio da Companhia.

Suspirou e encostou a cabeça à parede. Um coro de vozes fez-se escutar do outro lado. Elizabeth sabia que era ali que ficava o aposento do tio, mas este falava quase sempre baixo e Elizabeth acabava por não saber nada. Mas desta vez era diferente. Podia-se perfeitamente ouvir a voz de Lord Swann e de outros dois homens. Lizzie rastejou até à parede e encostou o ouvido.

- Teremos de fazer uma escala. Os mantimentos estão a acabar e o mau tempo fez estragos no outro navio. – A voz de um dos homens fez-se ouvir. Elizabeth sentiu uma náusea quando ouviu sobre os estragos. "Será que James se encontra bem?", pensou enquanto se concentrava por ouvir tudo.

- É verdade. Houve uma inundação na parte do porão que prejudicou as celas dos prisioneiros. – O outro homem explicou.

- E o rapaz? – Elizabeth ouviu claramente a voz grave do tio.

- Encontra-se bem. Ajudou até a escoar a água. Pode ser que se arrependa de ter enveredado pela pirataria. – O segundo homem falou.

- Esses cães não se arrependem da vida que levam. Não se deixe enganar Imediato, eles são como cobras sussurrando no ouvido. – Elizabeth sentiu vontade de dar um tiro naquele homem asqueroso, mas conteve-se. James estava bem e isso era o que interessava.

- Devemos atracar numa das ilhas dos Açores. O Reino Português tem boas relações com Inglaterra. Não haverá problema. – O primeiro homem aconselhou.

- Façam o que entenderem em questões dessas. Peço apenas para que não respondam a muitas perguntas e principalmente ai de quem der com a língua nos dentes sobre quem transportamos. – Lord Swann disse. – Aqueles navios que nos seguiam, algum sinal deles?

- Não senhor. Não lhe pomos a vista em cima há mais de dois dias. Se calhar desistiram.

- Não se convença disso. Eles irão tentar achar-nos. Já agora, se algum deles aparecer, tentem não destruir o navio mais pequeno. Vamos precisar da mulher que viaja a bordo. – Lord Swann disse.

Elizabeth ficou confusa. Ele já a tinha a si e James tinha sido arrastado em conjunto. Qual era a utilidade da Wilma agora? Não era apenas e só vingança que desejavam? Antes de ouvir a porta a bater Elizabeth escutou algo. Ao princípio não percebeu mas depois os seus olhos arregalaram-se. Tinha tido uma ideia.

- Onde está o papel quando precisamos dele? – Elizabeth falou enquanto despejava o conteúdo de uma garrafa dentro de uma jarra. Rasgou um bocado do seu vestido. Tinha tudo, só faltava mesmo algo com que escrever. Olhou para o seu próprio braço e para a janela. Nunca lhe tinha passado pela cabeça. Para enviar aquela mensagem teria de partir a janela. Tentaria apenas fazer um buraco, mas o grande problema era o barulho. Respirou fundo e cerrou o punho. Bateu várias vezes numa das partes laterais da janela, mas esta não se partia. Num último gesto carregado de fúria o vidro rachou. Aos poucos começou a ganhar fissuras até um dos bocados cair dentro do quarto, deixando um buraco suficiente para a garrafa passar. O seu punho tinha ficado magoado mas não era o suficiente. Elizabeth agarrou no bocado de vidro afiado e cortou a palma da mão. Com a ponta da colher que lhe forneciam para comer, começou a rabiscar algo no pedaço de tecido. Quando acabou, fitou por um tempo as palavras vermelhas.

- É a minha última esperança. – Sussurrou. O Pérola e o Lua não podiam perder o rasto aos navios.

Dobrou o pano e enfiou-o dentro da garrafa. Depois lançou-a através do buraco na janela e rezou para que a corrente a levasse na direcção certa.


No Pérola Negra…

- Os navios evaporaram-se no ar. – Jeff disse quebrando o ar pesado da sala.

Dentro da cabina Barbossa olhava fixo os dois mapas de Sao Feng concluindo que estes eram idênticos a tudo. Wilma estava estática olhando a escuridão da noite pela janela. Jeff e Ben estavam a um canto e Jack brincava com uma das queridas maçãs de Barbossa.

- Não devem ter desviado de rota. O melhor é continuarmos a segui-los. – Ben defendeu.

- Pelos mapas não existe nada que nos aponte para a tal ilha grega que Calipso falou. E eles irão ter de parar pelo caminho para abastecer. – Barbossa acrescentou.

- A capitã acha que eles vão ancorar algures numa das ilhas açorianas. – Ben disse.

- Oh sim? E como saberemos em qual será? – Jack perguntou, fazendo Wilma desviar os olhos da janela.

- A tua bússola. – Wilma disse.

- O que é que tem? – Jack fez-se desentendido.

- Ela mostra mais do que aparenta, certo? – Wilma perguntou em tom irónico.

Jack pensou um pouco antes de responder. – Digamos que ela é especial.

- Ora Jack, deixa-te de segredos. Todos sabem que essa bússola mostra o que mais desejamos. – Barbossa disparou irritando Jack.

- Mostra? – Ben e Jeff perguntaram ao mesmo tempo com ar de palermas.

- Ben, Jeff podem sair por momentos? – Wilma perguntou. – Eu preciso de conversar pessoalmente com alguém.

- Então para isso o zombie tem de dar uma volta, certo? – Jack perguntou com uma animação fora do normal.

- Eu não disse com quem iria falar Jack. – Wilma disse deixando Jack com cara de cachorro abandonado. – Pode ser mais fácil encontrar o James e a… como é que ela se chama mesmo?

- Mrs. Turner. – Barbossa disse.

- Elizabeth. – Jack defendeu fazendo Barbossa rolar os olhos, saindo da sala.

- Pois bem. A tua bússola é a chave, Jack. – Wilma disse.

- Mas o que eu mais desejo não é encontrar a Lizzie ou o seu irmãozinho armado em conquistador! – Jack exclamou.

- Eu sei. Essa maldita Fonte da Juventude está dando cabo da ganância de todos os piratas. – Wilma disse olhando de novo a escuridão por detrás das janelas.

- Sendo assim não nos resta ninguém a quem recorrer. Andamos todos atrás do mesmo. – Jack disse.

- Dá-me a bússola Jack. – Wilma pediu.

- Porquê? – Jack olhou de lado com ar interrogativo.

- Porque eu costumo ter sempre razão no que digo. – Wilma aproximou-se de Jack ficando ambos a centímetros da boca um do outro.

- A sério? – Jack sorriu de maneira cafageste pronto a beijar os lábios desta mas num movimento rápido Wilma sacou a bússola deste.

- Ora bem… - Wilma disse enquanto via a agulha girar nas suas mãos. - … óptimo um bocadinho para estibordo e vamos no caminho certo.

- Como é que sabes? Desejas essa Fonte tanto como eu. – Jack disse ao ouvido de Wilma, fazendo esta cerrar um dos punhos.

- Porque o que eu mais desejo neste momento é encontrar o meu irmão, Jack. – Wilma virou-se e olhou duramente para este. – Mas isso, tu não sabes o que é. Nunca tiveste nenhum sentimento real por ninguém.

- Piratas não amam mais nada a não ser o mar e o seu próprio navio, love.

- Eu sei. A liberdade é tudo para mim, mas ainda sei o que é família. – Wilma entregou a bússola e saiu do convés.

- Sempre fugindo das respostas. – Jack disse, sorrindo de canto. Ao chegar ao convés porém, encontrou toda a tripulação do Pérola reunida à volta de um pequeno objecto nas mãos de Barbossa. – O que se passa? Encontraram algo de valioso?

- É uma garrafa, com algo lá dentro. Raguetti encontrou-a a boiar na água. – Wilma explicou.

- Algum bêbado largado numa ilha que num acto de desespero escreveu com o seu próprio sangue um pedido de ajuda. – Jack sorriu irónico mostrando os seus dentes de ouro, mas desfazendo-o em seguida quando olhou para as caras soturnas dos presentes. – Credo, o vosso sentido de humor está péssimo!

- Não Jack. Mas imaginar alguém fazendo isso não tem piada nenhuma. – Wilma disse.

- Além do mais o único aqui que ficou nessa situação, foste tu. Não me digas que chegaste a esse ponto de desespero? – Barbossa arregalou os olhos esperançado.

- Mãe de Deus! – Gibbs exclamou quando Wilma retirou o pedaço de pano de dentro da garrafa. – Isso é… sangue?

Toda a tripulação se empoleirou para ver o que estava escrito a letras vermelhas escuras.

- "Graciousa" – Jack soletrou. – Mas que raio quer dizer isso?

- A bússola tinha razão. – Wilma sussurrou sorrindo levemente. – Mantenham a rota que eu indiquei. Tenho a leve impressão de que quem escreveu isto está a bordo de um dos navios da EITC.

- Como sabes? – Ben perguntou.

- Porque uma das ilhas dos Açores chama-se Graciosa. – Wilma explicou. – É lógico que ninguém iria escrever o nome de uma ilha ainda para mais mal escrito, enfiá-lo numa garrafa e atirá-lo ao mar na esperança que alguém o visse.

- Faz sentido. – Barbossa disse coçando a barba.

- Por Zeus, vocês homens são tão lentos! – Wilma exclamou dirigindo-se a um dos botes.


Dois dias depois…

O Pérola Negra e o Lua Brilhante tinham ancorado ao largo da Ilha de São Jorge, donde se podia avistar a Ilha Graciosa.

- Quanto tempo achas que irão ficar? – Wilma perguntou, enquanto Jack mirava os navios da EITC pelo binóculo.

- O necessário para abastecerem e rumarem até à Grécia. – Jack disse. – E já agora ainda não sabemos para onde eles vão concretamente.

- Calipso nunca mais apareceu. – Wilma disse. – Mas isso não será problema. Tenho conhecidos lá. Podem nos ajudar.

- Conhecidos? – Jack levantou o olhar do binóculo e franziu o sobrolho. – Que tipo de conhecidos?

- Ora Jack, gente que eu conheço. Piratas como nós, alguns bastante amigáveis. – Wilma disse tirando o binóculo das mãos deste e mirando a ilha contrária. – Algum problema?

- Não. – Jack disse, fechando a cara.

- Muito bem. Contentemo-nos em ficar na sombra do inimigo. – Wilma disse, sorrindo disfarçadamente.

Continua…


Oi Leitoras e Leitores! Para quem pensou que tinha abandonado esta fic, relaxe porque pretendo continuar até acabar. Só não tenho tempo para escrever com regularidade e para mais tenho outra fic em continuação.

Este capítulo vai como sempre para Olg'Austen que me tem dado bastante apoio para continuar esta história e para todos que acompanham a aventura, sim porque eu sei que há gente que lê mas por alguma razão não comenta! ;)

Espero que gostem! Saudações Piratas! :D

JODIVISE