Capítulo 24
Arthur notou os olhares assim que entrou em sua sala. A telefonista arregalou os olhos ao vê-lo e, quando Arthur cumprimentou-a, pareceu ainda mais chocada, gaguejando, corando e desviando os olhos, como se tivesse sido surpreendida numa situação comprometedora. Arthur franziu as sobrancelhas, mas passou direto por ela, cumprimentando algumas pessoas ao passar por elas, recebendo reações semelhantes. Até mesmo Gwen parecia surpresa demais para responder ao seu "bom dia".
Pelo canto do olho, Arthur reparou que alguém vinha em sua direção e levantou os olhos para ver Sophia Feix se aproximando com uma expressão determinada. Ela abriu a boca para dizer algo, mas Gwaine escolheu aquele exato momento para se levantar, bloqueando o caminho dela.
"Princesa, que bom que você..."
"Ouch!" Sophia murmurou, tendo se chocado contra as costas de Gwaine. "Seu idiota, por que você não..."
"Feix! Sinto muito, não vi você aí!" Gwaine levou a mão ao peito numa reação tão falsa que Arthur girou os olhos, dando as costas aos dois e rumando para sua sala.
Mal tinha acabado de se acomodar em sua cadeira quando Gwaine entrou sem esperar ser convidado, com um sorriso convencido, jogando os cabelos para trás. Arthur resignou-se ao seu destino, ligando o computador.
"Ora, ora, se não é o assunto das fofocas mais quentes do dia!" Gwaine falou, jogando-se na cadeira em frente a Arthur, que suspirou.
"Gwaine, eu realmente não estou com tempo..." Arthur começou, mas Gwaine continuou falando, como se não tivesse sido interrompido.
"Confesso que fiquei surpreso por não ter saído uma manchete no jornal a respeito. 'Solteirão mais cobiçado de Londres está oficialmente fora do mercado'."
Arthur elevou as sobrancelhas como quem faz pouco-caso, desviando os olhos para o computador enquanto fazia login em sua estação de trabalho. Bem, aquilo explicava a reação da Srta. Wust.
Na verdade, estava lhe custando um esforço tremendo para parecer minimamente mal-humorado àquela manhã, ciente de que as pessoas esperavam aquilo dele. Arthur não poderia simplesmente chegar ao trabalho distribuindo sorrisos, poderia? Mesmo que tivesse recebido uma mensagem de Merlin às seis e cinquenta e cinco da manhã, desejando-lhe uma boa corrida. Mesmo que tivesse ouvido à playlist de Merlin enquanto se exercitava. Mesmo que tivesse suspirado satisfeito ao se masturbar no chuveiro, imaginando Merlin ajoelhado entre suas pernas.
"Ou talvez não 'oficialmente', já que as garotas não parecem se sentir intimidadas nem por uma aliança de casamento, quanto menos por um simples 'relacionamento sério'" Gwaine prosseguiu com seu monólogo. "Aliás, não precisa me agradecer por ter salvado você da Feix, agora há pouco."
"Hm" Arthur limitou-se a dizer, optando por ignorar Gwaine até que ele se cansasse.
"Ainda não tenho certeza se fazer a barba foi uma boa opção, pra dizer a verdade. Pessoalmente, eu gostava mais daquele visual relaxado, mas talvez Merlin prefira assim. Tem suas vantagens, imagino. Como, por exemplo, o fato de você não ter que se preocupar com as marcas no pescoço dele caso vocês deem uma escapada no horário do almoço..."
"Onde está Leon?" Arthur perguntou, ainda evitando encará-lo.
"Mas, se vocês realmente esperavam ser discretos, não deviam ter mudado o status no Facebook simultaneamente. Quero dizer, a maioria do pessoal segue vocês dois, sabe? E com toda essa história de vocês não se falarem durante a semana, de repente você aparece de barba feita, cumprimentando todo mundo... Daqui a pouco Merlin aparece com um sorriso deslumbrante, vocês dois se comem com os olhos e..."
"Gwaine" Arthur levantou os olhos para encará-lo, apoiando os cotovelos na mesa e unindo as pontas dos dedos.
"Sim, Princesa?" Gwaine piscou nada inocentemente.
"Nós não estávamos tentando ser discretos."
"Oh!" Gwaine assentiu, seu cabelo balançando alegremente. "Nesse caso, fizeram um ótimo trabalho! Gwen está bastante curiosa, apesar de ser educada demais para fazer alguma alusão direta. Elyan, por outro lado, não sofre do mesmo mal que a irmã. Ele me perguntou com todas as letras se eu sabia de algo. É claro que eu disse a ele que, se eu soubesse, já teria cobrado aquela aposta há eras..."
"Não se preocupe, Gwaine. Você vai poder cobrar sua aposta até o final do dia."
"Yessss!" Gwaine deu um pulo, jogando o punho para o alto e Arthur teve que realmente se esforçar para não sorrir, desviando os olhos para o computador novamente.
"Agora suma da minha frente."
"Imediatamente, Princesa!" Gwaine fez uma reverência. "A propósito, Leon está fazendo uma visita, mas mandou dizer não se importa em emprestar roupas limpas para você desde que você não esqueça a roupa suja na sala dele. Alguma ideia do que ele quis dizer com isso?"
"Nenhuma" Arthur meneou a cabeça.
"Foi o que imaginei" Gwaine sorriu, levantando os polegares em aprovação e daquela vez Arthur não conseguiu conter o sorriso. "Estou de saída, mas você sabe o meu número" ele piscou e saiu, jogando os cabelos para trás.
.M.
Merlin cumprimentou todos por quem passou e rumou direto para a sala de Arthur, batendo no vidro ao entrar. Arthur levantou os olhos do computador e sorriu, relaxando na cadeira.
"Trouxe algo para você" Merlin falou, adiantando-se para colocar o pacote da Starbucks sobre a mesa de Arthur.
"Ei, não precisava..." Arthur disse, já enfiando a mão na sacola para retirar seu chá.
"Sei que não precisava" Merlin encolheu os ombros. "Mas já fazia tempo que não passava por lá. A propósito, Mary mandou um olá."
"Não me diga!" Arthur arqueou uma sobrancelha, virando o copo para que Merlin visse o 'Olá, Arthur, namorado do Merlin!' que Mary escrevera.
Merlin sorriu e Arthur tomou um gole do seu chá mantendo os olhos fixos em Merlin antes de colocá-lo sobre a mesa.
"Hmm... Isso está ótimo" Arthur falou. "Mas não vá pensando que vou deixar você a toa só por causa disso."
Merlin rolou os olhos.
"Deixe-me adivinhar, você bagunçou todo o seu armário de novo."
"Eu não baguncei nada" Arthur defendeu-se, carrancudo. "Acontece que não tenho tido muito tempo para organizar minhas coisas..."
"Você não precisaria organizar se não tivesse bagunçado, em primeiro lugar... Ah, tanto faz" Merlin suspirou. "Quer que eu comece agora?"
"Ora, já que você está se oferecendo tão prestativamente" Arthur disse num tom jocoso, mas Merlin optou por ignorá-lo. "Depois, preciso que você arrume a sala de reunião e coloque os equipamentos no meu carro. Você não trouxe almoço, certo?" ele perguntou, ao que Merlin negou. "Ótimo. Vamos para as visitas direto do restaurante, então. Mas, respondendo sua pergunta, sim, você pode começar agora."
"Deus, você consegue se superar a cada dia" Merlin exclamou ao abrir o armário. "Se eu não conhecesse sua casa, acharia que você vive num chiqueiro. Se bem que Johanna tem mais mérito nisso do que você..."
"Ei, ela só limpa três vezes na semana" Arthur indignou-se. "O resto do tempo, sou eu quem mantém as coisas em ordem e você sabe muito bem disso. As únicas cuecas sujas que Johanna teve que recolher pela casa foram as suas. Eu nunca..."
"Foi você quem jogou minhas roupas para debaixo do armário!" foi a vez de Merlin soar afrontado. Quando voltou-se para Arthur, entretanto, percebeu vários rostos voltados em sua direção do outro lado do vidro, alguns espiando discretamente, outros esticando o pescoço por cima das suas baias para enxergar melhor, outros cochichando entre si... "Ah, meu Deus..."
"O que foi?" Arthur seguiu seu olhar, mas a maioria das pessoas já tinha voltado ao trabalho no momento em que Merlin as surpreendera.
"Eles estavam encarando" Merlin sussurrou, ainda que soubesse que ninguém conseguia ouvi-los com a porta fechada. "Todos eles."
"E daí?" Arthur encarou-o com uma sobrancelha arqueada. "Eles provavelmente sentiram falta disso. Cristo, eu certamente senti falta disso."
Merlin não pôde evitar um sorriso enternecido, mas voltou-se para o armário rapidamente.
"Eu certamente não senti falta disso" Merlin apontou para a bagunça de pastas e materiais de expediente.
O telefone de Arthur tocou e Merlin trabalhou em silêncio por um momento enquanto Arthur conversava com um cliente.
"Você conversou com Alator?" Merlin perguntou quando Arthur desligou, permanecendo de costas para ele.
"Ainda não" Arthur suspirou. "Ligo para ele até o final do dia. Mas já avisei Morgana que estou cuidando disso."
"Como estão as coisas entre vocês? Morgana e Leon, quero dizer."
"Ah, estamos bem" Arthur soou despreocupado. "Já tivemos desentendimentos muito piores."
"Eles ainda não descobriram sobre os filmes pornôs, descobriram?"
"Não" Arthur soou satisfeito e Merlin meneou a cabeça, sorrindo consigo mesmo. "Ei, você não veio de mochila" ele pareceu ter acabado de perceber aquilo. "Achei que tínhamos combinado que você passaria o fim de semana comigo!"
"Ah, bem" Merlin encarou-o por cima do ombro enquanto equilibrava algumas pastas numa pilha para levar para o arquivo. "Sobre isso... Eu tinha prometido para minha mãe que ia montar uma prateleira para ela esse final de semana e ela disse que você vai ter que passar lá para me pegar, se quiser que ela me libere do compromisso" Merlin desviou os olhos, mordendo o lábio inferior.
"Oh..." Arthur soou surpreso. "Bem... Parece justo."
Merlin respirou aliviado. Por um momento, pensou que Arthur pudesse querer evitar sua mãe, por algum motivo.
"Eu levo você, então" Arthur continuou. "Depois vamos direto para o pub. Ah, e por falar nisso, se alguém perguntar, diga que você vai levar seu namorado hoje à noite."
Merlin quase deixou tudo cair, mas apoiou as pastas com o cotovelo a tempo.
"O quê?" ele voltou-se para Arthur sem ter certeza se havia compreendido direito, mas Arthur encolheu os ombros.
"Gwaine disse que eles já estão desconfiados, de qualquer maneira."
"Ah... Tudo bem, então" Merlin tentou soar indiferente, mas sorriu ao voltar-se para o armário novamente.
Quando passou em sua mesa antes de descer para o quinto andar, Merlin surpreendeu o olhar de Gwen, que desviou os olhos, disfarçando um sorriso.
"Que foi?" Merlin perguntou.
"O quê?" Gwen fez-se de desentendida, ao que Merlin estreitou os olhos para a amiga. "Está um ótimo dia, não está?"
"É, eu acho..." Merlin concordou, desconfiado.
"Todo mundo está feliz..." Gwen cantarolou.
"Deve ser porque é sexta-feira" Merlin desconversou.
"Ei, Merlin!" Merlin pulou ao ouvir o chamado de Elyan, que espalmou as mãos na sua mesa inclinando-se sobre ele, os olhos perscrutando-o atentamente. "Tem algo que você queira contar pra gente?"
"Elyan!" Gwen repreendeu e Merlin arregalou os olhos.
"Ahm... não?" Merlin respondeu, incerto. "Ah, bem, na verdade, tem sim. Hoje é meu último dia de férias, então a partir de segunda-feira eu volto a fazer só meio período."
Elyan, cujos olhos haviam brilhado de antecipação, bufou e endireitou-se.
"Realmente?" ele cruzou os braços. "Isso é tudo que você tem a dizer?"
"Elyan..." Gwen avisou e Elyan jogou as mãos para o alto.
"Ele colocou no Facebook!" Elyan argumentou com a irmã. "Se não quisesse que ninguém perguntasse, devia ter guardado para si mesmo."
"Se ele quisesse que todo mundo soubesse, teria colocado quem é" Gwen devolveu.
"Ei, estou bem aqui!" Merlin acenou, chamando a atenção dos amigos. "Se vocês estão falando do meu namorado, posso apresentá-lo hoje à noite."
"O quê?" Elyan guinchou e Gwen arregalou os olhos.
"Vocês vão para o pub hoje, certo?" Merlin perguntou e Elyan assentiu vigorosamente.
"É claro que nós vamos para o pub hoje! Não perderíamos por nada!"
"Merlin!" os três viraram-se ao ouvir a chamado de Arthur. "Você já acabou de fazer tudo que pedi? Porque se já acabou, tenho uma lista..."
"Indo!" Merlin falou, levantando-se e acenando para os amigos enquanto se afastava. "A gente conversa mais tarde!"
.M.
Arthur estaria mentindo se dissesse que não estava nervoso. Ele fez de tudo para que Merlin não percebesse, mas suas palmas das mãos estavam suando conforme ele subia as escadas do prédio de Merlin.
"... deixei minha mochila pronta" Merlin tagarelava ao seu lado. "Não vou demorar nem meio minuto, prometo. Talvez um pouco mais. Na verdade, já que estou aqui, eu poderia fazer bom uso de um banho. Mas prometo que não demoro. Honestamente, não sei por que minha mãe fez isso. Não é como se ela pudesse me impedir de passar o fim de semana fora de casa, não é? Eu poderia muito bem ter sumido sem dar satisfação, mas quis fazer a coisa certa e agora veja só no que deu..."
"Você lembrou de colocar uma sunga na mochila, certo?" Arthur perguntou, quando chegaram ao hall do apartamento.
"Arthur, eu não tenho uma sunga!" Merlin resmungou, pescando a chave no bolso e enfiando-a na fechadura. "Por que eu precisaria de uma sunga? Posso usar um dos seus shorts, como da outra vez" ele abriu a porta e gesticulou para que Arthur entrasse, mas quase bateu no nariz de Will no processo.
"Ei!" Will indignou-se, inclinando o corpo para trás bem a tempo. "Cuidado!"
"Will!" Merlin exclamou e Arthur grunhiu. Ótimo. Enfrentar Will agora era tudo que ele precisava. "O que você está fazendo aqui?"
"Oh, sinto muito se apareci sem avisar" Will disse, sarcástico, desviando o olhar de Merlin apenas para encarar Arthur com visível desprezo. "Talvez, se eu tivesse ligado, não teria que ficar sabendo pela sua mãe que você voltou com esse aí."
"Will..." Merlin pressionou a ponte sobre o nariz, mas Will continuou, inabalado.
"Quero dizer, tudo bem eu ter que juntar os seus cacos depois dele trair você..."
"Ei...!" Arthur não se conteve, dando um passo para frente enquanto Merlin guinchava um "Ele não me traiu!" indignado, porém Will estava longe de se sentir intimidado.
"... mas você não se dar ao trabalho de me avisar que vocês estão juntos de novo?"
"Will, por que você não checa as suas mensagens?" Merlin falou, passando por ele direto pelo corredor, lançando um olhar para Arthur por cima do ombro. "Já volto!"
Arthur achou ter ouvido a voz de Hunith do lado de dentro, mas o grito de Will encobriu o que quer que ela tivesse dito.
"Ei, não dê as costas para mim, Merlin! Essa conversa ainda não acabou!" Will voltou-se para Arthur, os olhos se estreitando. "E quanto a você... Da outra vez, não tive oportunidade de dizer isso, mas fique avisado. Se você magoá-lo novamente, vai se arrepender."
Arthur abriu a boca para dizer que jamais magoaria Merlin, mas então pensou melhor e acabou soltando o ar dos pulmões.
"Tudo bem, eu mereci isso" Arthur concedeu relutantemente.
"É claro que mereceu" Will concordou, enfiando a mão no bolso e retirando o celular. "Saiba que estou de olho em você" ele avisou e baixou os olhos para o celular, dando as costas para Arthur em seguida, conforme rumava para dentro. "Como assim, você me mandou mensagem às treze e vinte da tarde, Merlin? É claro que eu não vi, estava trabalhando...!"
"Arthur! Entre!" Arthur ouviu a voz de Hunith e respirou fundo antes de entrar, fechando a porta atrás de si. "Aqui na cozinha!" ela chamou e Arthur seguiu o som da voz dela. Encontrou Hunith na beirada do fogão, despejando algo numa frigideira, com um avental sobre o uniforme do supermercado e um pano de prato jogado sobre o ombro. Ela olhou por cima do ombro e sorriu ao vê-lo. "Aí está você. Já estou acabando aqui. Sente-se" ela indicou a mesa da cozinha e Arthur sentou-se.
"O cheiro está muito bom" ele comentou, limpando as mãos na calça discretamente. Podia ouvir Will e Merlin discutindo, ao longe, mas não conseguia entender o que diziam.
"Estou fazendo panquecas" Hunith soou satisfeita. "Merlin sempre chega faminto, a essa hora."
"É, eu sei..." Arthur assentiu e então desviou os olhos quando ela encarou-o com um sorriso terno.
"Não ligue para o que Will disse" Hunith falou, voltando a testar a panqueca com a espátula antes de virá-la com uma sacudida na frigideira. "Ele age como o irmão mais velho de Merlin, apesar de eles terem apenas dois meses de diferença. Will não está acostumado a ter que dividi-lo com ninguém. Foi sempre só os dois, desde pequenos..."
"Eu entendo" Arthur falou, encarando as próprias mãos, recriminando-se internamente por sentir ciúmes. "Fico feliz que ele tenha alguém como Will."
Eles ouviram uma porta se abrir e as vozes ficaram mais altas.
"... falta de consideração!"
"Will, dá um tempo..."
"E não pense que vou devolver o Macbook!"
"Pode enfiar o Macbook onde quiser, Will, agora me deixa!"
"Quando você ia me contar que vai passar o fim de semana inteiro fora...? Ei, não se atreva...!"
Eles ouviram uma porta bater com força e Will praguejou, batendo e ameaçando derrubá-la.
"Will, eu agradeceria se você não derrubasse minha porta!" Hunith gritou por sobre o ombro.
"Sinto muito, tia Hunith!" Will gritou de volta e aquietou-se.
Arthur viu quando Hunith olhou ao redor, procurando por algo.
"Precisa de ajuda?" Arthur ofereceu num impulso.
"Ah, bem..." ela olhou ao redor. "Você pode pegar mais um prato aqui embaixo, na segunda porta, por favor?"
Arthur fez aquilo e então ofereceu-se para montar as panquecas enquanto ela terminava de preparar a massa.
"Merlin disse que vocês vão para Newbury" Hunith comentou depois de instruí-lo a montar as pilhas de panquecas regadas com melado.
"Ele disse?" Arthur estranhou, mantendo-se concentrado em sua tarefa. Não tinha mencionado seus planos para Merlin, mas imaginava que ele tivesse tirado aquela conclusão depois que Arthur pedira que ele levasse uma sunga. "Na verdade, pretendo levá-lo para a praia."
"Ah, é mesmo?" Hunith exclamou, surpresa.
"Meu pai tem um apartamento em Bournemouth que ele costuma alugar nas temporadas, mas a pessoa que tinha reservado para este fim de semana cancelou, então pensei em levá-lo. Isso se estiver tudo bem com você, é claro" ele acrescentou, lançando um olhar preocupado para Hunith.
"Ah, é claro que está tudo bem!" Hunith assegurou, mas então franziu o cenho enquanto despejava mais uma porção de massa na frigideira. "Apesar de que eu ficaria grata se você tomasse cuidado com ele na água. Quero dizer, ele sabe nadar, mas não está acostumado com o mar..."
"Não se preocupe. Vou ficar de olho nele."
"Sei que vai" Hunith sorriu para ele novamente e Arthur voltou-se para admirar seu trabalho. As pilhas de panquecas não estavam exatamente retas, mas ele deu-se por satisfeito pelo fato de ter conseguido não estragar tudo.
"Acho que já está bom de massa" Arthur avisou e Hunith desligou o fogo.
Ela então terminou de decorar os pratos com morangos e colocou-os na mesa bem no momento em que a porta do banheiro se abria. Will voltou a reclamar no mesmo instante.
"Meninos, venham comer!" Hunith chamou e então gesticulou para que Arthur se sentasse. "Imagino que este seja o de Merlin" ela soou divertida ao apontar para a pilha maior, com uma porção generosa de melado escorrendo para o prato.
Merlin e Will apareceram na cozinha e Arthur agradeceu a interrupção, sentindo o rosto corar.
"Hmmm isso tá delixiovo" Will murmurou com a boca cheia e Arthur viu-se obrigado a concordar com ele, pela primeira vez na vida.
Hunith e Arthur continuaram a conversar sobre amenidades enquanto os outros dois devoravam suas panquecas em silêncio, Will lançando olhares traídos ao amigo, que o ignorava persistentemente. Assim que terminaram, Hunith declinou a ajuda com a louça e enxotou-os prontamente para fora, insistindo para que se divertissem.
Hunith abraçou Merlin e um relutante Will, que desceu as escadas rapidamente, uma expressão magoada no rosto. Ela então lançou um olhar ameaçador ao filho, que reclamou e resmungou, mas seguiu o amigo com a clara intenção de fazer as pazes. Arthur então viu-se sozinho com Hunith novamente, porém descobriu que já não estava mais tão nervoso quanto antes.
"Venha aqui, querido" ela falou e Arthur viu-se, pela segunda vez, nos braços daquela mulher admirável. "Fico sinceramente feliz que vocês dois tenham se resolvido."
"Obrigado, Hunith" Arthur retornou o abraço, inexplicavelmente aliviado. "Você não faz ideia do quanto seu apoio significa para mim..."
Ela afastou-se para encará-lo com os olhos brilhantes e sinceros, ainda segurando seus braços. Porém havia uma determinação neles que não parecia estar lá antes.
"Sei que você se importa com ele, Arthur. Mas sei também que essa provavelmente não vai ser a última vez que vocês se desentendem. Merlin é muito novo e não tem nenhuma experiência prévia com relacionamentos. Da próxima vez, eu espero que você seja o adulto."
"Ah" Arthur exclamou, espantado. "C-claro..." ele engoliu em seco, esperando mais uma reprimenda em seguida, porém os olhos de Hunith se suavizaram novamente.
"Mas quero que você saiba que tem uma amiga em mim. Independente de como as coisas estiverem entre vocês. Você pode me ligar ou aparecer sempre que quiser. Minhas portas estarão sempre abertas."
Arthur assentiu, aliviado e agradecido, temendo que sua voz vacilasse caso tentasse dizer algo. Hunith sorriu e acariciou seu rosto maternalmente antes de dar um passo para trás.
"Divirtam-se!" ela acenou em despedida.
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A notícia não foi recebida com tanta surpresa pelos seus amigos quanto Arthur esperava. Eles chegaram ao pub de mãos dadas e aquilo foi suficiente para arrancar os mais diversos tipos de reação.
"Finalmente!" Gwaine exclamou, esvaziando uma das travessas de fritas e passando ao redor da mesa. "Vamos lá, pagando, pagando... E não adianta fazer essa cara, Elyan."
"Ah, cara!" Elyan gemeu, alcançando a carteira e abanando uma nota na frente do nariz de Arthur. "Eu apostei cinquenta pratas na sua heterossexualidade, Arthur! Cinquenta pratas! E é assim que você me retribui!" ele largou a nota na travessa de Gwaine, mas não tirou os olhos dela enquanto ele passava ao redor.
Lance deixou uma nota de dez sem nenhum protesto e acenou para Arthur, sorrindo enquanto trazia Gwen mais para perto. Estranhamente, Mordred tinha um sorriso no rosto ao dar sua contribuição, mas Arthur imaginou que aquilo tinha mais a ver com o fato de Kara estar ao lado dele do que com a aposta perdida.
"Ei, eu já paguei!" Leon falou quando Gwaine segurou a bandeja à sua frente.
"Nada impede que você pague de novo" Gwaine encolheu os ombros. "Assim você pode demonstrar o quanto está feliz pelo seu melhor amigo."
"Não, obrigado" Leon declinou prontamente.
"Ei, você sabia?" Elyan indignou-se e então olhou ao redor. "Você também, Percy? Morgana, você também não parece nada surpresa... Mas que diabos! Todo mundo sabia menos eu?"
"Eu não sabia" Mordred interveio, voltando-se para a namorada. "Você sabia, Kara?"
Kara limitou-se a encolher os ombros, indiferente.
"Não olhe para mim" Lance espalmou as mãos.
"Ora, deixe de se fazer de vítima, Ely" Gwen repreendeu o irmão. "Eu também não sabia, apesar de ter minhas desconfianças..." ela sorriu para Merlin, cujo rosto se abriu num sorriso tão amplo que parecia doloroso.
"Ah, eles não são fofos?" Morgana falou, sorrindo, ao que Gwen assentiu.
"Sim, eles são."
"Merlin, largue o meu irmão por um momento e venha aqui, sim?" Morgana chamou, estendendo as mãos. "Venha, ele não vai a lugar algum sem você!"
Merlin lançou um olhar questionador para Arthur, que apertou sua mão antes de soltá-la.
"Vá em frente" Arthur incentivou e Merlin mostrou seus dentes perfeitos ao sorrir, dando um beijo na bochecha de Arthur – Elyan e Leon protestaram e Gwaine aplaudiu e pediu mais – antes de se juntar às meninas.
"Conte-nos tudo!" Gwen falou e os três juntaram as cabeças, cochichando e dando risadinhas.
Gwaine lançava olhares maliciosos em direção a Arthur, como se estivesse orgulhoso das ações do amigo. Ignorando-o, Arthur observou Merlin por um momento, sentindo-se satisfeito consigo mesmo e ao mesmo tempo recriminando-se por ter esperado tanto para fazer aquilo. Só pela felicidade que transparecia em seu rosto e em seus gestos agora, Arthur fazia uma ideia do quanto ele devia ter sofrido por ter que manter segredo durante todo aquele tempo.
Leon ofereceu-se para pagar uma rodada de bebidas e Arthur acompanhou-o até o balcão para ajudá-lo. Quando voltaram para a mesa, os rapazes falavam sobre futebol e as meninas – e Merlin – continuavam engajados em seus segredos e risadinhas. Arthur enfiou-se na conversa, ciente de que não poderia ter amigos melhores.
"Ei, vocês estão livres este fim de semana?" Arthur perguntou, algum momento depois da terceira cerveja, passando uma travessa de fritas para Merlin.
"Você quer dizer o fim de semana todo?" Elyan perguntou. "Tenho que ir ao casamento de um dos meus colegas de faculdade no sábado, mas estou livre pelo resto do tempo."
"Percy e eu vamos para a Islândia" Gwaine falou, franzindo o cenho. "Por que a pergunta?"
"E quanto a vocês?" Arthur perguntou para os outros, ignorando-o.
Mordred encolheu os ombros e assentiu, apesar de Kara não parecer muito feliz com aquilo – ela nunca parecia feliz com nada, então era difícil dizer.
"Estamos livres, não estamos?" Lance perguntou para Gwen, que teve que ser inteirada sobre a pergunta.
"Temos que fazer compras" Gwen falou e Lance fez uma careta de dor. "Lance, você prometeu que iriamos esse fim de semana, lembra?"
Lance assegurou a namorada que não tinha nenhuma intenção de quebrar sua promessa. Leon disse que ele e Morgana estavam planejando visitar a irmã dele, mas que poderiam adiar a viagem, dependendo do caso.
"Vou levar Merlin para Bournemouth amanhã" Arthur anunciou, ao que Merlin arregalou os olhos, surpreso.
"Ei, achei que nós íamos..." Merlin começou, mas suas palavras foram abafadas pela algazarra dos outros.
"Não acredito que você fez isso comigo!" Gwaine protestava. "Eu esperei até o último minuto para marcar essa viagem! E agora você... Porra!" ele deu um chute na mesa e Percy pôs uma mão em seu ombro, tentando acalmá-lo.
"O que vocês vão fazer na Islândia?" Elyan desdenhou. "Não tem nada lá além de gelo!"
"O que você tem com isso?" Gwaine respondeu, carrancudo. "Você nem vai poder ir!"
"É claro que vou! Dane-se o casamento! Não somos tão próximos assim. Posso ir no próximo."
"É assim que se fala" Arthur aprovou. "Leon?"
"Estamos dentro!" Morgana respondeu pelo namorado.
Mordred também confirmou sua presença e Arthur voltou-se então para Lance.
"Gwen...?" Lance lançou um olhar pidonho a Gwen, que rolou os olhos.
"Está bem, vamos para Bournemouth" ela concedeu, como se estivesse concordando em fazer um sacrifício de sangue, mas o efeito foi prejudicado quando ela e Morgana uniram as mãos em comemoração.
"Isso não é justo!" Gwaine reclamou novamente. "Por que logo este fim de semana?"
"Porque o apartamento está vago" Arthur falou, mas Gwaine meneou a cabeça.
"Quem precisa do apartamento? Podemos muito bem dormir no iate! Já fizemos isso antes, lembra? Vamos, Arthur, por favor..."
"Sinto muito, Gwaine. Esse é o último fim de semana das férias do Merlin. É pegar ou largar."
Gwaine soltou um lamento, mas Percy se levantou, segurando o celular na mão.
"Aonde você vai?" Gwaine perguntou, alarmado.
"Vou para fora, ver se conseguimos remarcar o voo..." Percy começou, mas foi interrompido por um abraço de Gwaine.
"Deus, eu amo você!" Gwaine beijou-o em cheio na boca e Percy estava ligeiramente corado ao sair.
Arthur sentiu uma mão em seu ombro e levantou os olhos para ver Merlin ao seu lado.
"Espero que você não se importe" Arthur perguntou, experimentando um breve momento de insegurança. E se Merlin tivesse mudado de ideia sobre irem todos juntos? E se ele não gostasse da perspectiva de ficar em alto-mar? O pai dele não tinha morrido num acidente de avião em alto-mar? E se...
"Tá de brincadeira?" Merlin sorriu, excitado. "Isso é o máximo!"
Arthur puxou-o para seu colo e beijou-o, ao que se seguiu outra algazarra.
"Ei, se alguém tiver algum problema com isso, é melhor desistir dessa viagem enquanto ainda há tempo" Arthur falou, segurando no lugar a mão de Merlin que envolvia seu pescoço. "Porque não vou pensar duas vezes antes de fazer isso na frente de vocês."
Quando Arthur puxou Merlin pela nuca para outro beijo, ninguém ousou reclamar.
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Arthur mal entrou no apartamento e já imprensou Merlin contra a parede do hall, empurrando a porta com o pé para fechá-la.
"Enfim, sós" Merlin falou e riu da própria piada.
Arthur beijou aquele sorriso perfeito até Merlin gemer, o divertimento substituído por desejo conforme Arthur se esfregava nele despudoradamente, continuando o que haviam começado no táxi.
"Você sabe que não teremos nenhuma privacidade durante o resto do fim de semana, não sabe?" Arthur falou quando eles se separaram para recuperar o fôlego.
"Eu sei..." as mãos de Merlin deslizaram pelas suas costas até a base da coluna de Arthur, trazendo-o para mais perto. "Melhor aproveitar hoje ao máximo, então."
Arthur assistiu conforme ele umedecia os lábios e então atacou-os mais uma vez com volúpia antes de se afastar novamente para encará-lo nos olhos.
"Merlin..." Arthur ofegou, unindo suas testas, enfiando os polegares nos passadores da calça dele. "Você pode fazer o que quiser comigo hoje."
"O quê?" Merlin perguntou, parecendo distraído pelo movimento dos quadris de Arthur.
"Quero que você faça qualquer coisa que quiser comigo" Arthur repetiu, alcançando uma das mãos de Merlin atrás de si e guiando-a até seu traseiro. "Sem restrições."
"Oh" os olhos de Merlin pareceram se focar de repente e ele congelou por um momento, ofegante.
Arthur devolveu o seu olhar com uma confiança que estava longe de sentir. Só de pensar no que estava propondo, sentia-se apreensivo. Mas sabia que não era justo negar aquela experiência a Merlin. Gwaine podia ser completamente sem noção a maior parte do tempo, mas ele tinha razão quanto aquilo. Depois de quase ter perdido Merlin uma vez, Arthur não queria correr o risco de perdê-lo novamente para alguém disposto a se entregar a Merlin daquele jeito. E se aquilo significava que teria que engolir sua própria relutância, então que assim fosse. Ele seria capaz de fazer qualquer coisa por Merlin.
"Qualquer coisa, você disse?" Merlin mordeu o lábio inferior e deslizou a outra mão para as nádegas de Arthur, apertando-as.
Arthur sentiu-se retesar involuntariamente e tentou disfarçar mudando o peso de um pé para o outro. Não era como se Merlin nunca o tivesse tocado ali, mas o contexto era totalmente diferente.
"Sim. Qualquer coisa" Arthur confirmou, engolindo em seco, contentando-se por sua voz ter saído razoavelmente firme, embora no fundo estivesse torcendo para que Merlin enxergasse através da sua bravata e visse o quão relutante ele realmente estava.
"Nesse caso..." Merlin inclinou-se para um último beijo antes de se desvencilhar dele com um sorriso maroto. "Eu já volto. Não saia daí" ele disse em tom de aviso, virando-se e correndo escadaria acima.
Arthur franziu o cenho, perguntando-se o que Merlin estaria tramando. Imaginava que Merlin não perderia tempo antes de levá-lo para a cama, mas aparentemente se enganara. De qualquer forma, Arthur aproveitou a pausa para respirar profundamente, passando uma mão pelos cabelos para se recuperar. Ele retirou a carteira do bolso e colocou-a sobre o balcão da pia, olhando ao redor sem saber exatamente o que procurava. Já estava ponderando anunciar que estava subindo quando Merlin apareceu no alto da escada, as mãos atrás do próprio corpo e uma expressão travessa no rosto.
"Ei, pensei em fazermos um tipo de jogo" Merlin anunciou enquanto descia e Arthur piscou, confuso.
"Um... jogo?"
"Sim, um jogo!" os olhos de Merlin brilharam de excitação conforme ele parava em frente a Arthur, balançando-se na ponta dos pés.
"Posso saber que tipo de jogo é esse?"
"Não" Merlin negou prontamente. "Tudo que você tem que saber é que vai ter que fazer exatamente o que eu digo. Sem questionar."
Arthur encarou-o por um instante, como se procurasse ler suas intenções em seu rosto, mas soltou o ar dos pulmões, derrotado, quando isso se mostrou inútil.
"Está bem" Arthur espalmou as mãos em rendição. "Diga o que devo fazer."
Merlin exibiu quase todos os dentes num sorriso satisfeito e tirou uma das mãos das costas, revelando algo preto pendurado em um dos dedos.
"Comece colocando isso aqui."
O olhar de Arthur alternou entre a venda, a mão que permanecia escondida às costas de Merlin e o rosto dele por um momento antes de estender a mão.
"Ok, eu acho..." Arthur manteve os olhos fixos nos de Merlin enquanto vestia a venda na cabeça, até finalmente ajustá-la ao rosto.
Então, tudo ficou absolutamente escuro.
"Pronto" Arthur anunciou inutilmente, mudando o peso de um pé para o outro e tentando não pensar muito no quão vulnerável se sentia sem sua visão.
"Tem certeza que não está vendo nada?" Merlin questionou e Arthur assentiu.
"Certeza absoluta."
"Muito bem" Merlin pareceu satisfeito. "Primeira regra do jogo, você não pode retirar a venda ou mesmo espiar até que eu autorize expressamente."
"Ok" Arthur assentiu com gravidade.
Ele ouviu passos, sussurro de roupas e um arrastar suave. Quando Merlin voltou a falar, ele parecia ter se deslocado mais para a direita e Arthur encarou a direção do som da voz dele.
"Ótimo. Agora tire suas roupas" Merlin instruiu e Arthur obedeceu após uma breve hesitação, sentindo-se um tanto bobo enquanto se despia, ficando apenas de cuecas e meias. "Todas elas" Merlin repreendeu e Arthur resmungou, mas retirou o restante das roupas.
Se fosse qualquer outra pessoa fazendo aquilo, Arthur se sentiria humilhado. Mas era Merlin, então, por mais que estivesse apreensivo, Arthur sentia também um pouco de excitação. Ele achou ter ouvido mais sussurros de roupas além dos seus e logo percebeu o motivo, quando Merlin pegou-o desprevenido, empurrando-o até imprensá-lo contra o pilar da cozinha. Merlin estava descalço e com o peito nu, porém ainda vestia suas calças. Aquilo fez com que Arthur se sentisse em desvantagem, mas suspeitava que aquela era exatamente a intenção de Merlin.
"Bom garoto" Merlin sussurrou contra a boca de Arthur, mas afastou o rosto quando Arthur tentou beijá-lo. "Calma, calma" ele repreendeu e Arthur achou ter ouvido o sorriso na voz dele antes que ele beijasse o pescoço de Arthur.
"Você está gostando disso, não está?" Arthur falou, apertando a cintura de Merlin e inclinando o pescoço para dar melhor acesso para ele.
"Shhh" Merlin sussurrou. "Sou eu quem faz as perguntas hoje."
Merlin parecia mais confiante do que nunca e, longe de se sentir incomodado, Arthur descobriu que gostava daquele lado dominante de Merlin. Sentiu seu membro responder rapidamente aos estímulos, tanto físicos quanto psicológicos, enchendo-se quase totalmente.
"A parede está gelada" Arthur comentou, apenas para ter o que falar.
"Engraçado, você não parece estar com frio aqui" Merlin falou, segurando seu pênis e estimulando-o enquanto beijava-lhe os lábios.
Arthur soltou um som de aprovação quando suas línguas se encontraram, enroscando e deslizando de modo provocativo. Ele deixou as mãos deslizarem pela base da coluna de Merlin, esperando por uma reprimenda que não veio. Encorajado pela receptividade de Merlin, Arthur enfiou as mãos por dentro da calça e da cueca de Merlin, apertando suas nádegas, ao que recebeu um gemido como resposta.
"Você quer me foder?" Merlin perguntou junto ao seu ouvido, empurrando-se contra o quadril de Arthur, sua ereção firmemente perceptível, mesmo através dos jeans.
"Sim" a voz de Arthur saiu rouca e necessitada.
"Então você vai ter que me pegar" Merlin cantarolou e soltou-se rapidamente, afastando-se antes que Arthur tivesse tempo de reagir apropriadamente. "E essa é a segunda regra!"
"Porra" Arthur xingou, sentindo-se descoberto e vulnerável novamente, embora aquilo não fosse suficiente para diminuir sua excitação. "Isso não é nada engraçado, Merlin."
"Parece bastante divertido para mim!" Merlin falou, sua voz vindo de algum lugar da sala e Arthur logo descobriu ser próximo ao aparelho de som, uma vez que ele ligou-o em seguida, a música preenchendo os sentidos de Arthur quase invasivamente.¹
"Ei, isso não é justo!" Arthur reclamou. "Como é que vou ouvir você agora?"
"Com os ouvidos" Merlin provocou, aparentemente tendo se deslocado para outro canto da sala. "Vamos, Arthur! Não estou vendo você se mexer!"
Arthur xingou e praguejou, mas começou a se mover, mantendo os braços esticados para se guiar e testando o chão antes de pisar, procurando pelo desnível da sala a qualquer momento. Ele desceu o degrau sem problemas, mas acabou batendo o joelho no sofá.
"Ouch!"
"Vamos, pare de reclamar," Merlin zombou, parecendo ter se deslocado novamente e Arthur teve que alterar seu percurso, contornando o sofá. Apenas para bater na mesinha de centro e quase cair por cima dela.
"Ouch!" ele ouviu Merlin rir. "Ei! Quer parar de rir?"
"Já parei!"
"Que cheiro é esse?" Arthur perguntou, parando para inspirar profundamente o perfume adocicado e familiar.
"Ah, você não vai descobrir se não se mover."
"Idiota" Arthur resmungou, voltando a andar.
"Sei que você me ama."
"Não consigo me lembrar do motivo agora."
Merlin estalou a língua reprovadoramente.
"Sua boca está dizendo uma coisa, mas seu corpo está dizendo outra totalmente diferente..."
Arthur praguejou em voz alta. Não tinha como se defender daquela acusação.
"Continue falando, sim?" Arthur falou.
Não era como se Arthur não conhecesse sua casa, mas sentia-se desorientado com relação às distâncias e a espaços. O fato de Merlin continuar se movimentando também não ajudava em nada, porém Arthur logo foi ganhando mais confiança, deslocando-se com mais ousadia e quase encurralou Merlin perto da janela uma vez. Chegou a alcançá-lo uma vez, mas sua mão deslizou pela pele escorregadia de Merlin e ele escapou facilmente, rindo.
"Mas que diabos?" Arthur testou a viscosidade que permaneceu em seus dedos depois do contato e levou-os até o nariz, sentindo o mesmo perfume adocicado de antes. Então lembrou-se do que se tratava e seu membro se contraiu diante da perspectiva. "Merlin, você passou óleo no corpo!"
"Muito perceptivo, como sempre, majestade!" a voz de Merlin veio de algum lugar próximo à lareira e Arthur rumou para aquela direção decididamente.
Arthur quase pegou-o outras duas vezes, numa delas, chegou a segurá-lo por tempo suficiente para saber que, sim, ele estava completamente nu e besuntado em óleo corporal. A substância grudou em sua pele e Arthur sabia que estava deixando marcas engorduradas em todo o apartamento, mas não poderia se importar menos com aquilo. Tudo que queria era encurralar Merlin em uma superfície – qualquer superfície serviria – e confirmar se Merlin tinha se lubrificado internamente também.
Quando finalmente pressionou-o contra a mesa da cozinha, costas contra peito, bastou uma rápida checagem para saber que suas suspeitas estavam corretas.
"Cristo, Merlin" Arthur arfou, mantendo um dos braços ao redor da cintura dele, para que ele não escapasse novamente enquanto escorregava dois dedos para dentro dele com facilidade. Podia sentir a respiração ofegante dele pela maneira como seu abdômen se expandia e comprimia rapidamente. "Se você fugir agora, juro que vou acabar com isso sozinho."
"Não vou fugir" Merlin falou, afastando mais as pernas e inclinando o corpo sobre a mesa, projetando o quadril contra Arthur. "Você me pegou" ele guiou a mão de Arthur até sua ereção e Arthur percebeu que ele tinha aparado os pelos novamente.
Arthur alcançou a venda com intenção de retirá-la – queria beber da visão de Merlin debruçado em sua mesa de jantar, o corpo brilhando por causa do óleo, sua pele deixando marcas sobre o tampo que Johanna demoraria a limpar no dia seguinte –, mas Merlin segurou sua mão antes que o fizesse.
"Ainda não" Merlin ordenou e Arthur grunhiu, mas aquiesceu.
Arthur já ia usar os dedos para terminar de prepará-lo, mas Merlin afastou sua mão novamente.
"Quero você agora, Arthur."
"Mas já faz algum tempo..."
"Agora, Arthur!"
Arthur xingou. Ele abaixou-se para beijar os ombros de Merlin enquanto segurava seu próprio membro e esfregava-o entre as nádegas de Merlin, lubrificando-o com o óleo que se acumulava ali, então guiou-o para dentro da cavidade quente e apertada. Merlin não estava nem de longe preparado o suficiente e Arthur sentiu-se ser espremido pelos músculos internos de Merlin.
"Continue" Merlin incentivou antes que Arthur protestasse.
Arthur empurrou-se lentamente até estar inteiramente dentro, então encostou a testa entre as omoplatas de Merlin, respirando pesadamente. Sentia a pulsação de Merlin em seu membro, que se contraía voluntariamente.
"Você está tão apertado, Merlin..."
"Como você mesmo disse... Já faz algum tempo..." Merlin murmurou.
Fazia quase duas semanas. Duas intermináveis semanas. Arthur desejou poder ver o rosto de Merlin para se certificar de que ele não estava sentindo dor.
"Vamos, Arthur" Merlin mexeu o quadril um tanto impacientemente. "Mexa-se."
Arthur não esperou ser mandado duas vezes. Ele começou com movimentos curtos até os músculos de Merlin cederem um pouco mais, então deixou-se levar pelo que seu próprio corpo pedia, aumentando o ritmo conforme a tensão crescia em suas entranhas.
"Isso" Merlin gemeu e a música ao fundo fazia com que ele soltasse a voz. "Ahhh... Tão gostoso, Arthur... Isso..."
Ciente de que seu orgasmo estava próximo, Arthur alcançou o pênis de Merlin para estimulá-lo, mas descobriu que ele já tivera a mesma ideia. Arthur rosnou, mas não impediu-o de se tocar, contentando-se em segurar o quadril de Merlin com as duas mãos, as pontas dos dedos escorregando em sua carne, o barulho dos seus corpos se chocando quase obsceno no silêncio entre uma música e outra.
"Ahhh!" Merlin gritou, seus músculos se contraindo em espasmos ao redor de Arthur conforme ele gozava. "Ahh... Hmmm..."
Arthur diminuiu o ritmo até que ele relaxasse novamente e então correu atrás do seu próprio alívio.
"Goza pra mim, Arthur" Merlin falou. "Me enche de porra."
"Maldição, Merlin..." Arthur praguejou sob a respiração, empurrando-se mais algumas vezes até o orgasmo atingi-lo como um trem. "Isso! Isso, baby..."
Arthur moveu-se mais algumas vezes, sentindo seu próprio sêmen escorrer de dentro de Merlin conforme se retirava. Ele então retirou a venda e afastou-se para encará-lo, admirando seu trabalho.
"Cristo, Merlin, você fica lindo desse jeito..."
"Obrigado, eu acho" Merlin murmurou, levantando a mão num aceno vago antes de voltar a desmoronar sobre a mesa, completamente relaxado.
Arthur aproximou-se para beijá-lo lentamente.
"Lembre-me de deixar você no controle mais vezes" ele falou no ouvido de Merlin.
"Pode contar com isso" Merlin garantiu, sorrindo. Então ficou sério de repente, endireitando-se. "Ei, não me lembro de ter deixado você tirar a venda!"
"Não se lembra, hã?" Arthur fez-se de desentendido. "Tem certeza?"
"Eu devia fazer você me carregar no colo lá para cima, depois dessa" Merlin falou, dando um soco no seu braço. "Você acabou de violar a terceira regra."
"Ah é?" Arthur cruzou os braços. "E qual é a terceira regra? Não me lembro de você ter mencionado uma terceira regra."
"Terceira regra, o jogo não termina até eu dizer que terminou. O que significa que ainda não terminou. O que significa que ainda posso mandar você me carregar, se eu quiser."
"Uh, quem é o mandão agora?" Arthur falou e pegou Merlin desprevenido ao levantá-lo, jogando-o por cima do ombro como um saco de batatas.
"Ei, eu disse que poderia mandar! Arthur! Você vai me derrubar!"
"Ninguém mandou você passar tanto óleo!" Arthur repreendeu, ignorando seus protestos enquanto o carregava escadaria acima. "Agora vou ter que esfregar você inteirinho..."
E foi exatamente o que Arthur fez.
Algum tempo depois, quando os dois estavam embolados na cama, debaixo dos lençóis – Merlin estava ligeiramente avermelhado onde Arthur o esfregara – Arthur suspirou, aspirando o perfume dos cabelos de Merlin, sentido o cheiro do seu próprio xampu.
"De onde você tirou essa ideia?" Arthur perguntou, curioso, ao que Merlin encolheu os ombros.
"Sei lá... Will e eu costumávamos brincar de Marco Polo quando éramos crianças. Não que a brincadeira fosse remotamente parecida com isso, mas..." ele emendou rapidamente, ao que Arthur se sentiu relaxar novamente, só então percebendo o quanto havia se retesado àquela perspectiva. "Sei lá. Eu só... pensei que poderia ser divertido."
"Você pensou certo" Arthur beijou o topo da cabeça de Merlin. "Não era exatamente isso que eu tinha em mente quando fiz a proposta, mas confesso que gostei mais da sua ideia."
"Arthur" Merlin afastou-se para encará-lo nos olhos. "Eu já disse que estou satisfeito em ser apenas passivo. Mais que satisfeito, na verdade. Você não precisa ficar preocupado com o que Gwaine disse..."
"Não estou preocupado com o que Gwaine disse" Arthur indignou-se, mas então suspirou diante do olhar cético de Merlin, desviando o rosto. "Tudo bem, talvez eu esteja, um pouco. Mas só queria que você soubesse que nós podemos tentar fazer diferente. Quando você quiser. Não precisa ser sempre assim..."
Arthur evitou encará-lo o quanto pôde, mas acabou cedendo à curiosidade quando o silêncio se estendeu mais do que deveria. Porém o sorriso carinhoso no rosto de Merlin levou sua apreensão embora.
"Obrigado, Arthur" Merlin falou, apertando seu bíceps. "Vou me lembrar disso, no futuro. Se eu mudar de ideia. Quando nós dois estivermos prontos para isso, talvez. Mas estou feliz do jeito que as coisas estão. De verdade."
"Que bom" Arthur sentiu-se ainda mais aliviado, acomodando melhor a cabeça no travesseiro e trazendo Merlin para mais perto novamente. "Agora nós devíamos dormir um pouco. Vamos sair bem cedo amanhã."
Merlin respondeu com um bocejo e um resmungo que Arthur não tinha certeza se fazia algum sentido mesmo para ele.
"Ei, Merlin?"
"Hum?"
"É tão bom ter você de volta."
A resposta demorou um pouco, mas veio.
"É bom estar de volta."
Arthur sorriu e fechou os olhos, sentindo-se mais relaxado do que se sentira desde a última vez em que Merlin dormira com ele naquela cama, quase duas semanas atrás. Era como se Merlin pertencesse exatamente ali, nos seus braços.
.Merlin.
¹ Zayn Malik - Pillowtalk
