Capítulo 24 – Elfos, Curupiras e Sacis (EdD 71)
O trio descia pelas cavernas sem problemas. Leah ia à frente, seguida de Hermione, que puxava Harry pela mão, ainda um pouco confuso na volta ao templo, dessa vez, sem a visão. Mas alguns minutos depois, ele vagarosamente ia lembrando o caminho, tropeçando e andando com mais segurança.
- Leah, o que acha que teremos na Câmara final? – perguntou Harry – Digo... na do Boitatá?
- Não sei. – suspirou – Mas tenho certeza de que o Templo continua lá para baixo. Só espero que a gente não precise se separar de novo.
- Certo.
Os três continuavam a descida, sem maiores problemas. Até chegarem á câmara onde a última feroz luta havia acontecido. Hermione gemeu, e Harry desconfiou o que era. Leah suspirou:
- Chegamos. Olha o bicho aí. Ou o que restou dele.
O "bicho" era a grande carcaça do basilisco, ainda no centro da câmara. A casca, duras escamas, eram agora vermelho escuro, e não brilhavam mais. E sua ossada estava caprichosamente limpa.
- Ele... sumiu rápido, não? – comentou Hermione, reparando que, de fato, só restara as escamas e a ossada.
- Elfos, provavelmente. – disse Leah, olhando ao redor, vendo os sinas da batalha: buracos e rochas derretidas pelo ácido e pelas magias.
- Elfos?
- Sim. Nas florestas que cercam o Templo existem inúmeras vilas de Elfos, aqueles que trabalham no Castelo, inclusive. Provavelmente vieram aqui limpar o Boitatá.
Harry e Hermione se entreolharam; Harry manteve o rosto voltado para a amiga, apesar do olhar cego fitar o chão:
-... Limpar o Boitatá?
- Dizem que a carne é saborosa. – sorriu Leah. – Mas sabem melhor que ninguém que não é uma carne muito fácil de se achar. Eu mesma nunca ouvi falar que experimentaram.
- Bom, se foram os elfos. – cortou Hermione, querendo se poupar de imaginar alguém comendo a carne daquele monstro – Eles provavelmente têm passe livre de entrada e saída desse Templo, não?
- Se pensarmos bem, os coitados provavelmente serviam de petisco pro basilisco há tempos. – comentou Harry, divertido, levando um cutucão da amiga, ofendida com a diversão dele - Ai, Hermione. Ora, faz um certo sentido, não faz? Se os dois bichos mágicos vivem tão próximos...
- Harry tem razão. – disse Leah – O basilisco era o predador natural deles, e nós o eliminamos. Enfim... os pequenos terão carne fresca por meses. – sorriu, simpática – Muito bem, vamos descendo.
Os três se dirigiram para o fim do lugar, onde um grandioso portal surgira. O boitatá tinha vindo dele, mas, no meio da frenética batalha e de seu final quase trágico, não tiveram tempo de sequer prestar atenção na continuação do caminho. Os primeiros passos foram cuidadosos. A escuridão completa reinava passos à frente.
- Escuro, aqui. – murmurou Leah – Eu dou um jeito.
Leah, com um rápido movimento, aponto a varinha para a escuridão e uma grande esfera de luz disparou escadaria abaixo, iluminando tudo, e sumindo assim que chegava ao fim da escadaria.
- Lá embaixo fica plano de novo. – disse. - ...Que barulho é esse?
Imediatamente uma revoada de centenas de morcegos vinha da escadaria, apavorada com a súbita iluminação, passando por eles, que se encolheram.
- ...Só eu mesma! – gargalhou Leah, se reerguendo.
- Ah meu Deus... – gemeu Hermione, passando a mão no cabelo – Nenhum deles grudou em mim não, né?
Harry não deixou de rir da preocupação exagerada da amiga.
- Ainda bem que foram só morcegos. – suspirou Harry – Odeio armadilhas.
- Certo, podemos continuar. – Chamou Leah, voltando a descer as escadas, curvada, com a varinha no alto da cabeça – Lumus! Devagar e sempre.
Harry e Hermione fizeram o mesmo. Quando já haviam chegado ao final da longa escadaria, Hermione olhou Harry por detrás do ombro, levemente irritada:
- Harry, eu sei que você não enxerga, mas, por Deus, se você me encoxar de novo eu juro que te dou um tapa.
- Mas foi sem querer! – riu nervoso, erguendo as mãos – Essa escada escorrega demais!
Leah agarrou Harry pela gola da capa e o puxou para entre as duas, ficando na frente de Hermione e atrás dela:
- Pronto, Harry, fique atrás de mim. – disse, simpática – Eu não ligo se você passar a mão na minha bunda.
- Mas quem disse que eu quero passar a mão na sua bunda?
- Ora, não faça pouco caso, sou gostosa pra cacete.
Hermione, levemente incomodada com o bom humor dos dois, resmungou:
- ...Vocês parecem bem mais á vontade que eu, heim?
- Preocupação por antecipação só faz a gente gastar energia à toa. – justificou Leah – Guarde sua ansiedade para quando estivermos realmente encrencados.
Caminharam mais alguns minutos, até saírem por uma luz, ao fim do longo corredor negro:
- ...Uma floresta. – espantou-se Leah – Aliás, uma, não, a mesma. Saímos do Templo.
De fato, haviam saído da caverna. Estavam do lado de fora, numa fresca e úmida floresta de Mata Atlântica. Atrás, um gigantesco paredão de pedras e vegetação, á frente, a fechada floresta. Leah murmurou e caminhou até as primeiras árvores. Dois passos depois, a floresta simplesmente se moveu, abrindo caminho para um longo caminho à frente deles, cercado por um gigantesco muro de pedra, até próximo da copa das arvores.
- Um corredor sem fim – disse Leah, olhando o corredor enevoado, sem sinal de saída – Se quer começar a se preocupar, Hermione, chegou a hora.
- Que bom. – comentou, apática.
- Nada nem ninguém nele. – afirmou Harry, seguro – Silêncio absoluto. Presença nenhuma.
- Dos males, o menor. – aliviou-se Leah – Vamos em frente.
E, assim, os três, cautelosos, começam a caminhar por aquele nada amistoso corredor, entre suas silenciosas paredes de pedra e musgos, e sua fria neblina.
Perderam a noção do tempo. Mas já começavam a se cansar de caminhar.
- Meio do caminho. – disse Leah, olhando para o chão – Só pode ser. Pra que teríamos isso aqui?
No chão, uma pedra saltada para fora exibia o rosto de um dragão desenhado.
- Ainda bem. – aliviou-se Hermione.
Leah pisou na pedra, e ela afundou.
- ...Alguma coisa me diz... – comentou Hermione entre os dentes – Que você não devia ter feito isso!
Imediatamente o corredor inteiro começou a chacoalhar. Hermione agarrou-se ao braço de Harry, enquanto Leah realmente se tocava da mancada. Ela saltou de costas, encostando-se na parede, quando uma linha surgiu exatamente no meio do corredor, cortando-o do inicio ao fim. E começou a recuar, abrindo um fosso aparentemente sem fundo.
- Cuidado! – exclamou Hermione, puxando Harry para a parede oposta à de Leah.
O chão se afastava sacudindo o corredor inteiro, Leah, encolhida na parede, olhava dos lados:
- Tem que haver uma chave pra parar isso!
- Jura? – gritou Hermione, visivelmente emputecida com a curiosidade da professora – Então ACHE-A!
- Ache você, Harry! – Exclamou Leah.
- Por que eu? – defendeu-se.
Harry não esperou a resposta, e respirou fundo, tentando se concentrar. Aquela armadilha era fruto de mágica. E, sendo daquele tamanho, não seria difícil achar o gatilho do feitiço.
- ...Parede oposta... – murmurou – É como se o fundo de uma das pedras brilhasse... e...
Hermione espremia-se contra Harry, de costas, empurrando-o contra a parede. O chão se afastava cada vez mais, recuando para debaixo do muro. Ela girou o corpo, para ficar ao lado do amigo, para se apoiar onde ainda literalmente havia chão. Ao pisar numa pedra da borda, ela cedeu, e Hermione escorregou tão rápido que nem foi capaz de gritar.
Com um solavanco, Harry agarrou seus pulsos com força. O peso da amiga o puxou para baixo, e ele teve de se agarrar a um grosso cipó que saída dentre as pedras do muro.
- Segure-se! – gritou Harry para Hermione – Leah... dois passos para o lado... e você fica de frente para a pedra!
Leah se apressou, deslizando pela parede.
- Não tem nada na minha frente, além de visgo e pedra crua!
- Está na fenda das pedras! Não duvide!
Leah olhou fixamente e viu a fenda. Fechou sua mão direita e se concentrou. Sua energia rapidamente começou a fluir. A mão de Harry escapuliu, e ele despencou junto de Hermione, e agarram-se às bordas do chão.
- Harry! – chamou Hermione, vendo Harry contorcer o rosto.
- Minha... cicatriz... – gemeu, com dor.
- Prepare-se, menino... – gemeu Leah, sua energia fluindo como círculos de chama vermelha percorrendo seu corpo - Ela vai doer mais ainda.
Ela respirou fundo, Harry contorceu-se de dor. A professora fez toda a aura mágica correr para se punho fechado, e o disparou contra a parede oposta. A explosão da parede fez Harry e Hermione balançarem na borda, Leah ser espremida contra a parede e varias pedras e folhas voarem. Hermione agarrou-se a duas grossas raízes amarelas que saiam da borda do penhasco, voltando a se apoiar no amigo, e escondeu o rosto no ombro de Harry, que também se encolheu.
O corredor parou de estremecer. Leah, com metade da bota pendurada no vazio, suspirou profundamente. Hermione piscou, olhando dos lados. Imediatamente o chão voltou a tremer, voltando ao lugar original. Leah se adiantou, agarrando os dois pelo ombro, ajudando-os a subir. Com um forte solavanco final, o chão voltava a ser como era.
Harry, sentado e recostado na parede, suspirou. Hermione, de joelhos, também parecia ofegar.
- Perdoem o susto. – sorriu Leah.
- ...perdoar? – murmurou Hermione.
Harry passava a mão na testa.
- Melhor, Harry? Desculpe o mal jeito. – disse Leah, o ajudando a levantar.
- Podemos continuar sem fica futucando em mais nada? – pediu Hermione.
- Podíamos continuar correndo. – sugeriu Leah, sorridente.
- Boa idéia. – animou-se Harry.
Hermione pareceu não gostar da idéia, mas não teve coragem de cortar o barato dos outros dois de novo. Lá iam eles, usarem seus poderes para se exibir.
- Pronto, Harry? – perguntou Leah, se inclinando.
- Já é. – sorriu, também se inclinando.
Hermione suspirou. E os dois desapareceram, fazendo o deslocamento de ar balançar os cabelos da que tinha ficado.
- ...Cretinos. – murmurou Hermione, chateada.
Lá na frente os dois corriam velozes, deixando um rastro brilhante por onde passavam. Seus pés pareciam deslizar pelo chão, tamanha leveza. Corriam usando alguma mágica sobre humana. Fantástica.
- Você não vai me passar! – riu Leah, percebendo que Harry estava na sua cola.
- Vou sim.
- Nem tente, moleque!
O fim do corredor se aproximava, finalmente, também veloz, como um burrão. Leah se preparou para uma última arrancada:
- Atenção para... MAS O QUE...
Pelos dois alguma coisa passou veloz. Leah, com um tranco, se equilibrou, freando na ponta do fim do corredor, que terminava numa escadaria de cinco degraus, para um pátio gramado. Harry não teve a mesma sorte, freou, escorregou, e chegou de costas, no gramado, se ralando.
- Isso foi INCRÍVEL! – exclamou Harry, se sentando.
- Os últimos sempre serão os primeiros. – sorriu Hermione, orgulhosa.
- Última é a puta que pariu! – xingou Leah – Você tem 55 por cento da minha velocidade. Culpa do... ahm, deixa pra lá. – murmurou, quase dizendo "culpa do pacto", mas lembrando que Harry estava ali na última hora.
- Mas é incrível o volume de poder de um bruxo... da elite, não? Auror Supremo, Cavaleiro do Apocalipse... quantos bruxos conseguem correr assim?
- Poucos, claro. – murmurou – E nós não corremos. É só uma técnica. Mágica pura. Usar a arte da magia e nosso talento nato não nos torna superpoderosos ou sobre humanos, como tantos acham.
Hermione olhou a própria mão, e, sem dificuldade, fez várias estrelas saírem dela, flutuando e se desfazendo no ar:
- Mas mesmo assim, confesso que estão achando formidável ser um bruxo assim... é como se não tivéssemos mais anda dentro do nosso corpo, a não ser energia mágica, veja só Harry...
Leah suspirou, balançando a cabeça:
- Quem dera se fossemos tudo o que julgam que somos. Ainda somos mortais. Frágeis. – e, sem medo de "jogar um balde de água fria" até mesmo em Hermione, bateu as pontas dos dedos no peito dela, rosnando – De que adianta correr rápido como vento, se você vai morrer no momento em que fincarem alguma coisa aí?
- Leah... – murmurou Harry, sem graça – estamos só satisfeitos... porque hoje podemos ajudar mais que antes... não estamos nos superestimando...
- Só lembrem sempre de ter medo. – avisou Leah – Só isso. É difícil atingi-los, mas não impossível. E a única forma de matar bruxos da nossa qualidade, ou é atingindo nosso coração de uma vez... ou cortando nossa cabeça fora. – disse, fazendo Harry e Hermione fazerem caretas – Lembrem-se, porque, seja lá quem for enfrentar vocês, sempre vai tentar atingir estes pontos fracos. E aí... adiós.
Terminado o aviso, os três continuaram a caminhar. A clareira cheia de gramas e árvores isoladas parecia ser o que restou de ruínas antigas, de alguma civilização.
- Parecem ruínas de um templo maia. – comentou Hermione.
- ...Templo maia? – murmurou Leah – Desde quando tinha civilização maia no Brasil, sua anta?
- Aposto que ela estudou achando que sim. – riu Harry.
- Eles eram um povo mágico muito interessante. – rebateu, ofendida.
- Ah, confesse, você errou na localização geográfica.
- Não errei não!
- Vocês dois querem parar? – xingou Leah, já metros á frente.
Os dois amigos se olharam.
- Ela mudou de humor ou foi impressão? – murmurou Hermione, entre os dentes.
O motivo da mudança de humor foi revelada metros à frente: de um lado, o templo parecia continuar, com uma escadaria de rochas entre as ruínas, descendo para dentro da serra novamente. Por outro lado, uma límpida trilha de terra e rochas continuava, mata adentro.
- Era a última coisa que eu queria. – gemeu Leah – Ter de nos dividir de novo.
- É só seguirmos juntos. – sugeriu Hermione.
Leah respirou fundo, e os olhou:
- Não. Melhor não. Façam o seguinte... – ela pensou, olhando para as opções, e concluiu – Vocês dois, sigam a trilha. Eu vou por dentro. Se precisarem de ajuda, sabem como me chamar.
- Certo. – concordou Hermione – E se VOCÊ precisar de ajuda?
- Harry, – continuou Leah, ignorando o comentário de Hermione – tome cuidado no caminho. Essa floresta é traiçoeira. Andem juntos. Não se separem. Certo?
- Leah... Leah!
Mas a professora não deu ouvidos à aluna, e entrou novamente no que deveria ser a continuação do templo. Harry segurou Hermione pelo braço, antes que ela descesse atrás da professora:
- Deixe ela, Mione. Vamos nos encontrar mais pra frente, tenho certeza.
- Às vezes ela gosta de dramatizar, né...? – murmurou, meio irritada.
- Talvez seja o jeito dela de nos proteger. – suspirou Harry – Agora vamos em frente.
E, assim, se separaram. Harry e Hermione desciam por uma sinuosa trilha na floresta. Andavam tranqüilos, o único som vinha dos inúmeros pássaros, e às vezes Hermione via uma pequena família de macacos saltarem pelas copas das árvores. De repente, ela parou, encantada com um bicho pendurado em uma das árvores, sonolento.
- Uma preguiça!
- Hum?
- ...Uma preguiça, Harry!
Hermione saltou pelos arbustos, saindo da trilha, até aparentemente muito feliz de ver o bicho.
- ...E daí que é uma preguiça, pomba? – murmurou Harry.
- Ora... eu as acho muito fofas... e nunca tinha visto uma ao vivo! Olha que linda... nem se incomoda conosco.
- Claro, Hermione! É uma preguiça! Levaria semanas para ela se assustar e fugir.
A preguiça molemente ergueu uma das mãos para escalar o tronco, enquanto Hermione, receosa, aproximava os dedos do seu grosso pêlo.
-... Ela nem se incomoda de saber que eu estou passando a mão nela...
- E qual a real utilidade de saber se ela se incomoda ou não em receber cafuné? – resmungou Harry – Mione, por favor, temos de...
Foi quando Harry percebeu que tinha algo de errado: silêncio. Todos os passarinhos e bichos das redondezas haviam fugido.
-...Hermione... Hermione!
- ..Que é?
- Tem alguma coisa de errado aqui.
Harry imediatamente curvou-se para trás, e uma afiada e pequena flecha zuniu e atingiu um tronco ao seu lado.
- Ah, meu Deus! – exclamou Hermione, voltando a saltar entre o mato, retornando para a trilha.
- FIQUE AÍ! – gritou Harry.
Não deu tempo. Do chão e das árvores, vários cipós verdes entrelaçaram-se aos braços e pernas de Hermione, puxando-a de volta para a árvore da preguiça com violência, prendendo-a com força.
- Hermio... – Harry também não terminou, porque alguma coisa pequena saltou sobre ele. Harry agarrou a criatura e a jogou com força no chão, mas sentiu que algo muito afiado havia se fincado em seu pescoço: outra flechinha, igual a que ele desviara segundos atrás. Arrancou ela com facilidade, mas em segundos sentiu-se zonzo, e tombou ao chão, paralisado, desacordado.
- Harry! Harry! – gritou Hermione, se debatendo. Foi quando uma afiada e pequena lança de pedra encostou-se em seu queixo. – Mas...!
A criatura que lhe apontava a arma não estava só. Estavam cercados. Eram homenzinhos pequenos, ferozes, selvagens, os cabelos arrepiados, embaraçados, muito vermelhos. Unhas e dentes afiados, grossos de sujeira e marrons. Usavam roupas de couro e penas... e tinha os pés tortos para trás. Hermione piscou algumas vezes, lembrando das aulas do castelo. Aquelas criaturas eram um tipo de elfos nativos das florestas do país, popularmente chamados de "curupiras". Elfos que costumavam atacar quem entrasse em seu território. Tinham a fama de serem carnívoros.
Os curupiras estavam em toda a parte, agitados. Com Harry desacordado, Hermione não seria capaz de reagir. Mas afinal, o que aquelas criaturas queriam com eles?
- Ei – disse Hermione – Não viemos lhes fazer mal, nós só... ok, eu fico quieta. – finalizou, assim que outras várias lanças lhe foram apontadas.
Foi quando um dos curupiras apareceu tropeçando nos pezinhos, gritando, desesperado. Os outros imediatamente se juntaram, olhando o outro lado da floresta. Hermione percebeu que o ar era invadido por um forte cheiro: fumo.
Dos arbustos do outro lado da trilha, saltando de um barranco, das árvores, vários outros elfos apareciam, tinha a pele escura e eram bem mais parecidos com humanos. Vinham saltando em uma perna só, agitados. Outro tipo de elfo, famoso no folclore e muito conhecido na fauna mágica: os sacis. Os sacis eram elfos também selvagens, e inimigos naturais dos curupiras. Viviam brigando por território.
Hermione aproveitou a confusão instalada no local para tentar escapulir. O cabo de sua espada estava livre, mas seu braço estava preso para cima, ao lado do seu rosto, preso por um cipó atado ao seu pescoço. Olhou para cima tentando achar uma saída, e percebeu que a preguiça estava a centímetros de sua cabeça, no mesmo tronco de árvore. Aparentemente, o bicho estava alheio à confusão, e muito interessado no verde cipó que prendia Hermione.
- Ah, quer comer o cipó? Ótima idéia! – gemeu Hermione, aliviada – Fique à vontade... vamos!
Mas a preguiça não parecia com coragem de ter de fazer o grande esforço de esticar a mão e alcançar o cipó. Apesar de naturalmente mole, os dedos em forma de garra de uma preguiça eram fortes o suficiente para, num aperto de mão, decepar o dedo de alguém.
- Droga... vamos, preguiça! Seja gentil! – gemia Hermione, se esforçando para empurrar o cipó para cima, e assim incentivar o bicho a parti-lo – Parta esse cipó pra mim, vamos logo!
A batalha entre os elfos continuava, e eles se atacavam com mordidas ferozes, unhadas, usavam suas armas primitivas, toda a forma possível de ataque. A preguiça piscou molemente e, com um suspiro, esticou o braço. Hermione gemeu, forçando o cipó. A preguiça passou as longas garras pela planta e a puxou para a boca. Com um som seco, o cipó se partiu. Hermione imediatamente sacou a espada do lado do corpo e, com rapidez, cortou todas as suas amarras. Vendo-se livre, ela caiu de joelhos, chutando para o lado os restos que prendiam seus pés. Guardou a espada e se ergueu.
Antes de sair correndo, voltou até o pé da árvore, pegou alguns nacos do cipó e os esticou para a preguiça, que parecia desapontada de ter de descer para buscá-los. Aproveitando o braço esticado, Hermione pendurou os cipós nele, agradecendo:
- Obrigada, amigão. Seja feliz.
Em seguida saltou de volta para Harry, caído de lado.
- Harry! Harry!
Harry parecia dormir profundamente. Hermione verificou que ele ainda tinha pulso. Um grupo de sacis os cercou, mostrando seus afiados dentes.
- ...Vocês não estão querendo... devorar a gente, né? – murmurou Hermione, sabendo qual seria a resposta.
Nisso um curupira saltou sobre o bando de sacis, na direção de Hermione, que, com um rápido reflexo, sacou a varinha e atingiu o elfo:
- Flippendo!
O curupira voou para longe. Os sacis se assustaram. Hermione se ergueu, e percebeu que, infelizmente, tinha atraído a atenção de todos os elfos, sem exceção.
Com um gemido de dor, Hermione levou a mão ao ombro, arrancando uma flecha igual a que tinha atingido Harry. Olhou para ela, sentindo a vista se encher de estrelas. Caiu de joelhos, tombando, também perdendo os sentidos, paralisada. Sua vista desfocou, já mirando a trilha de terra vermelha, e antes que entrasse em profundo sono profundo, viu um pequeno par de pés esverdeados e cascudos escondidos atrás da barra de um pequeno e branco avental.
Leah descia pela escadaria do Templo sentindo um cheiro muito familiar, que, infelizmente, ainda fazia seu antigo espírito assassino se excitar: cheiro de sangue.
Ao chegar a uma imensa sala, ela descobriu a fonte do odor: pelo chão do lugar que parecia um altar de adoração a algum deus, os corpos de vários bruxos de capa preta e máscaras estavam espalhados, retalhados.
Ver tantos comensais ali, mortos, não lhe deixava dúvidas: Voldemort estava ali mesmo. Mas o que havia matado seus seguidores?
Leah, devagar, examinava os comensais. Percebeu que, próximo ao altar ao fundo, os comensais estavam de olhos abertos, e apesar de terem sido retalhados, para sua surpresa, não sangraram. Agachou-se ao lado de um deles, para ver seu ferimento. Parou, inclusive de respirar. Olhava para frente, sem piscar ou se mover. Parecia paralisada.
No instante seguinte Leah sacou a espada, e, ainda agachada, girou o corpo para trás, batendo sua espada contra outra no ar, jogando alguém de costas na parede, com violência. Ergueu-se e pousou a ponta da lâmina no queixo da pessoa que fora desarmada; e sorriu, simpática:
- Olá, Bellatrix. Que prazer vê-la aqui.
Bellatrix, do chão, sobre alguns corpos, tentou se mover. Mas Leah pressionou a ponta da espada no seu nariz:
- Ei, ei, ei. Não se mova, querida. Não me importaria em espetar você, sabia?
-... Sua maldita b...
- E cale a boca. Quem fala aqui sou eu. – rosnou – Foi você quem matou estes comensais? Duvido, você segura uma espada com a graça e leveza de um macaco com uma metralhadora. Onde está Voldemort?
Bellatrix sorriu. Leah continuou:
- "O jumento e o cavalinho, eles nunca andam só. Quando saem pra passear, levam a égua pocotó." – e, desmanchando o sorriso, agarrou Bellatrix pelo colarinho, erguendo-a na parede, ainda lhe apontando a espada – Vamos, cretina, você anda atrás dele como um fiel cachorrinho.
- Pelo menos eu faço um serviço melhor do que o que deveria ser feito por você, não é? – sorriu – É uma honra servir ao Lorde das Trevas como se fosse uma filha.
Leah deu um sorrisinho torto:
- Você se orgulha de coisas que não têm o mínimo valor. Mas deve ser meio ruim pra você, tentar, tentar, e tentar... e sempre saber que você nunca vai ser tudo o que eu já fui pra ele no passado, né?
Bellatrix pareceu se ofender. Leah a soltou no chão, e a bruxa bateu a mão numa alavanca de pedra, ao lado do corpo de um comensal. Imediatamente o chão cedeu e as duas despencaram por um túnel, até caírem em outro, por onde corria velozmente um córrego, como num aqueduto de pedra. Leah caiu de costas, descendo arrastada pela água, deitada. Bellatrix caiu exatamente sobre o estômago de Leah.
- O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA, SUA ESTÚPIDA? – gritou Leah, se afogando no canal, agarrando a gola da roupa de Bellatrix, tentando tirar a cabeça da água.
-... Esse é o fim da linha pra você, querida. – sorriu Bellatrix, agarrando o pescoço de Leah, forçando a cabeça dela contra a enxurrada, aproveitando a posição de extrema desvantagem da rival – Você caiu como uma patinha...
Leah empurrou Bellatrix, tentando se livrar dela e se equilibrar, mas elas desciam numa velocidade espantosa, sem sinal de saírem. O canal de pedras era estreito, escuro, e a água gelada descia com uma força incrível. Bellatrix sacou a varinha e fez um estranho feitiço nos pulsos, que revelou ser um tipo de gancho com correntes, que ela usaria para se segurar. Fincou os ganchos no teto do canal, e, segundos depois, com um tranco, ela ficou presa, segura, entre as paredes do canal:
- Eu fico aqui! – sorriu Bellatrix, que se agarrava às correntes assim que avistou a luz no fim do túnel – Até nunca mais, fracassada!
Bellatrix, ao ficar presa, puxou com força bainha da espada de Leah, e, com um tranco, arrancou a arma da cinta vermelha da farda de general de Leah, para "guardá-la de recordação".
Leah olhou apara trás, tentando se equilibrar, mas a velocidade da água era grande, e a única coisa que ela percebeu foi a luz do sol se aproximando velozmente. A força da enxurrada a lançou para longe, já fora do canal.
Ao sair, Leah viu-se em pleno ar. Acima, o céu azul. Ao seu lado, cercando-a, gigantescos paredões de pedra cinza, e, centenas de metros abaixo, uma enorme floresta. O vento sobrava forte e gelado, naquele imenso vazio.
- Hum... – raciocinou Leah, enquanto, lentamente e em pleno ar, seu corpo perdia o impulso da saída, e iniciava a queda no vazio – Cânion do Itaimbezinho, Rio Grande do Sul. Puxa vida, esse templo é mágico mesmo.
Em seguida ela cruzou os braços, caindo de costas, olhando o céu, as paredes do cânion borradas tamanha velocidade da sua queda:
- É... dessa vez eu acho que estou encrencada.
E desapareceu entre a neblina que subia da floresta do gigantesco e silencioso cânion.
Hermione acordou sentindo-se um pouco dolorida na altura do ombro. Abriu os olhos e viu-se deitada numa cama de penas espalhada no chão, coberta por um edredom, e tanto ele quanto o travesseiro que usava era branco, novo em folha, com o brasão do Castelo dos Bandeirantes bordado. Foi quando ela reparou que não estava sozinha na floresta. Ao ser redor, no chão, nos troncos e nas copas das árvores uma cidade feita de madeira e palha estava erguida e muito bem organizada. E, por ela, vários elfos andavam tranqüilamente, uns trabalhando, outros passeando, filhotes brincando correndo atrás de uma bola de cipó.
-... Que lugar é esse? – foi a óbvia pergunta que se fez. Olhou para o lado e viu no canto da minúscula cidade uma grande casa com uma chaminé fumegando. No canto detrás da casa, vários ossos recém descarnados estavam empilhados. Procurou ao redor e não viu Harry.
E, de repente, sentiu-se apavorada com isso. Da casa um elfo amarelo saía, carregando um bandeja com um coco tampado, possivelmente usado como vasilha. Ele se aproximou, colocou a bandeja ao seu lado e voltou apressado para dentro da casa. Em seguida outro osso branco muito parecido com um fêmur era jogado de dentro da casa para a pilha de ossos.
O queixo de Hermione caiu, e ela olhou para aquele pequeno coco tampado horrorizada. Não teria coragem de abri-lo e ver o conteúdo.
- Pode tirar a tampa e comer. As chances de você abrir a vasilha e ver dois olhinhos verdes boiarem serão remotas. Te garanto.
Hermione olhou pra trás e viu um sorridente Harry agachando-se ao seu lado. O primeiro impulso foi, claro, pular em seus braços, desequilibrando-o.
- Francamente! – riu – Você achou MESMO que eles tinham me transformado no jantar, Mione?
-... Bom... – comentou, aliviada – Aquelas outras duas espécies lá na floresta queriam.
- Achei que tinha estudado mais sobre os elfos brasileiros. Estamos numa das aldeias deles.
-... Eles nos salvaram e nos trouxeram pra cá?... Essas roupas de cama... são do castelo.
- Pois é. – sorriu Harry, mostrando que a cama dele era do lado da de Hermione, as duas feitas como sendo uma só, no improviso – Boa parte destes elfos são aqueles do castelo dos Bandeirantes. Por isso as roupas. Por isso conheciam a gente.
- Jura? Então...
Nessa hora um conhecido elfo chegava, com o avental da escola e o corriqueiro mau humor:
- Já acordou, inglesa? Que bom.
-... Severino!
-... Bertoleza, também. – gemeu Harry, baixinho, dolorido – Ela acabou insistindo pra cuidar de mim. Foi horrível.
- Tome esta sopa antes que esfrie. – avisou Severino – Precisa recobrar as forças.
- Ah, sim, sim. – disse, pegando o coco nas mãos e o abrindo – Obrigada por salvarem a gente.
- Não foi nada. – respondeu, dando as costas e saindo de perto.
Hermione se recostou no grosso tronco de árvore onde suas camas eram encostadas, e olhou a sopa, vendo que ela era um grosso caldo branco, com uma massa fina que lembrava fubá. Gotas alaranjadas de óleo boiavam pela sopa, enquanto pedaços redondos de carne branca e tiras de um vegetal verde escuro se misturavam naquilo.
- Ahm... – perguntou Hermione, olhando Harry, receosa, apesar do cheiro bom – O que é?
- Um tipo de... sopa, ué. – deu de ombros – Severino disse que é um caldo de fubá, leite de coco, azeite de dendê. E tem também esses frutos do mar aí, acho que é camarão, e uns finos brotos de samambaia... tem gosto de couve. É bom. Pode tomar.
Ela olhou o coco, desconfiada, mas pegou a colherinha de madeira, mexeu a sopa e experimentou:
- Hum... é bom.
- Sustenta. – sorriu, sentando-se ao seu lado, encostando-se ao travesseiro – Ele disse que os elfos nos envenenaram. Resumindo o rolo todo... éramos a caça deles.
- Puxa. – comentou Hermione, espetando um carnudo camarão da sopa e comendo.
- Eles disseram que, de início, o alvo deles era só aquela preguiça, até acharem carne melhor...
Hermione engasgou, Harry riu:
- Brincadeira…
Ela ainda tossia enquanto Harry cumprimentava outra conhecida criatura, que chegava acanhada:
- Oi, Harry... que bom que estão bem.
- Oi, Bertoleza.
Bertoleza era a elfo mais famosa do castelo, vinha vestindo um vestidinho chita roxo com bolinhas amarelas e rosas. Como sempre, grandes brincos em suas longas e largas orelhas, e muita maquiagem, deixando ela mais assustadora do que naturalmente já era. Olhou Hermione, que estava com a colher na boca, e disse, abaixando as orelhonas:
-... Que bom que ela já acordou.
- É, né?
- Bem... vou indo. Tchau.
O elfo saiu, Hermione tirou a colher da boca e olhou Harry:
- Ela se referiu a mim como "ela"?
Harry riu:
- A pequena deve ter ficado com ciúmes... bons motivos, ela deve ter...
Hermione pensou, e comentou, levemente irritada:
-... A culpa não é minha se André vivia dando corda pra ela, antes de me namorar. E se agora ela resolveu mudar de alvo e escolher você, a culpa também não é minha!
Harry riu:
- Você é a pedra no sapato dela.
Ela foi continuar a argumentar, mas reparou que, entre as copas das árvores, já anoitecia:
- Meu Deus! Há quanto tempo estamos aqui?
- Algumas horas.
- Algumas horas! E o templo! E Leah?
- Acalme-se, Hermione... já procurei saber... os elfos tem acesso ao templo. Como Leah disse, eles limparam o boitatá... sabem de quase tudo o que acontece. Disseram que os bruxos de preto, obviamente comensais, ou outros comparsas do Voldemort, sumiram horas antes da gente chegar... não viram Leah, mas também não viram ninguém de estranho. Tenho certeza que ela está bem.
- Como "tem certeza"?
- Eu aprendi a sentir a presença dela, Mione, e sei que ela está bem. Mas esse lugar é mágico demais... cada vez que a gente avança, tudo fica meio confuso. Não sei dizer onde Leah está, ou que lado é, mas ela estava bem.
- Meu Deus, precisamos voltar pra lá.
- Não de noite. – avisou – Vamos ter de passar a noite aqui com os elfos.
- Ficou louco!
-... Uma vez na vida, mulher... escute o que eu digo! – murmurou, bravo – Leah não quer que nós nos arrisquemos, não nos arriscaremos. Você fica aqui comigo nem que eu tenha que te amarrar nessa árvore.
Hermione juntou as sobrancelhas, olhando Harry:
-... É tão ESTRANHO ver você mandando eu fazer as coisas mais sensatas e seguras!
-... É estranho VOCÊ de repente parar de usar o brilhante cérebro e querer sair correndo de braços abertos e pelada, descontrolada, de encontro a um fosso de jacarés.
Hermione de repente parou, desconfiando que, era verdade, ela estava querendo agir por impulso, coisa que nunca fazia. E não era a primeira vez. Ergueu as sobrancelhas, e resolveu concordar com Harry, mesmo achando toda aquela inversão de papéis extremamente estranha:
- Sim, senhor.
- Bom. – murmurou, sem graça – Só quero evitar de jogar a gente em confusão.
Harry mais, uma vez, se recostou na árvore, e abraçou os joelhos:
- Espero que os elfos não entrem em nenhuma fria por terem trazido essas coisas do castelo pra cuidar da gente.
- Acho que não, eles que cuidam dessa parte toda. – disse Hermione, deixando o coco vazio de lado - Puxa, muito boa essa sopa... cada camarão graúdo...
- Ahm... – começou Harry, querendo rir – Agora é a parte legal... aquilo não era camarão.
- Não?
- Não. Eram bolinhas de carne tiradas do basilisco.
Hermione arregalou os olhos:
-... Carne de basilisco? ...De Boitatá?
- É.
A garota respirou fundo, olhando ao redor, passando a mão na boca:
-... Gostoso, né? Exótico.
Harry começou a gargalhar, divertindo-se:
- Não fique sem jeito, eu também achei uma delícia! Podemos falar pra Leah que, de fato, Boitatá é gostoso. Afinal, comemos.
Hermione se levantou:
- Já andou pela cidade? Ou aldeia... seja lá o que seja essa vila de elfo...
- Pouco. Estava meio zonzo por causa do veneno das flechas. Mas podemos passear agora, que acordou. Vamos?
Ela deu de ombros, e puxou Harry pela mão, erguendo-o. Encontraram Severino pelo caminho, com uma varinha mágica toda torta nas mãos, que usava para acender as luzes da cidade, que ficavam no topo de pequenos postes de bambus, e penduradas nas árvores, dando um ar muito mágico à floresta.
- Podemos dar uma volta? – perguntou Harry.
Severino olhou-os com má vontade, mas lhes esticou um grande rádio comunicador que carregava na cintura:
- Não se afastem da cidade, andem pelas trilhas que têm os bambus acesos. E tomem isso. Sigam a trilha leste, subam até uma enorme pedra, com uma grande vista da região. Vocês verão alguns cristais azuis fincados em bambus também. A gente os usa pra comunicar-se com algum lugar longe daqui. Usem o rádio para falar com seus amigos.
- Jura? – espantou-se Hermione – Muito obrigada!
E assim os dois saíram pela aldeia, que se estendia por uma grande área na floresta.
Os dois caminharam alguns minutos subindo a trilha leste e chegaram ao alto do lugar. Uma grande pedra lisa dava vista a um espetacular horizonte de serras, florestas e campos. A lua cheia iluminava a noite, e o céu estava espetacularmente estrelado e limpo.
Os dois sentaram-se na borda da pedra. Hermione não parava de olhar a vista, maravilhada. Harry preocupava-se em fazer o tal rádio funcionar.
- A vista deve ser linda. – comentou, esticando a antena e ligando o rádio, já que Hermione estava em completo silêncio.
Hermione olhou-o, parecendo acordar:
- É maravilhosa. Pena que você...
- Deixe disso. Já cansei de lhe pedir.
-... Desculpe.
- E você, Bertoleza, pode se juntar a nós e sair do meio do mato. – chamou Harry.
A elfa parecia meio constrangida, mas se aproximou, carregando uma pequena bandeja de prata.
- O que trouxe? - perguntou Hermione.
- Doces. – disse.
- Ótima idéia. – sorriu Harry – Quais são?
- Bom, doces típicos. – disse, mostrando as opções – o branco é cocada, o amarelado é marrom glacê. E esses quadradinhos são doces de leite.
- Parecem ótimos. – animou-se Hermione.
- Não tem que parecer, tem que ser bons. – riu Harry.
Enquanto comiam e tentavam sintonizar o rádio, Bertoleza sentou-se entre os dois, e comentou, sem deixar de olhar Harry:
-... Vão na Fonte de Lágrimas.
- Hum? – perguntou Harry, chupando os dedos.
-... Você enxergava. Eu sei.
- Ah, sim, enxergava. – disse, despreocupado.
- Seja lá o que tenha acontecido... – disse, olhando Hermione de esguio, que parecia incomodada – Vocês deveriam ir à Fonte de Lágrimas, já que estão no templo atrás da Espada dos Deuses.
-... Fonte de Lágrimas? Ela existe? – perguntou Hermione, receosa.
- Claro, está no Templo, mais para baixo. – disse, como se apontasse a floresta – Uma fonte capaz de curar qualquer ferimento, qualquer doença.
- Lamento. – suspirou Harry – Meus olhos já se curaram. Mas não voltarei a enxergar.
- A fonte lhe devolverá a visão, tenho certeza! São bons de coração. – disse, convicta.
- Jura? – animou-se Hermione – Podemos então curar você, Harry!
-... Não preciso ser curado. – murmurou Harry.
Hermione ficou quieta. Por mais que não acreditasse nessas lendas, de repente escutar que a Fonte era real, lhe deu esperança de consertar aquilo que ela achou que tinha estragado.
-... Mas amanhã a gente vê. – completou Harry, obviamente, percebendo que Hermione não tinha gostado do comentário dele sobre "não precisar ser curado".
Bertoleza continuava debruçada em Harry, enquanto Hermione olhava as estrelas, perdida em pensamentos. O rádio chiava e Harry tentava chamar os amigos.
Um moderno rádio transmissor atado à mochila de Carlão chiou, e dele a voz de Harry saiu:
- Alô? Pessoal? Alguém escuta a gente? Alô?
Mário se jogou na mochila, e pegou o rádio. Antes que levantasse, André pulava nele, e os dois saíram rolando, brigando pra ver quem pegava o rádio.
- Eu!
- Não! EU!
- Oxe, sai de mim, seu paulista do inferno!
- Pô, larga aê, mano!
Foi a vez de Tia Lu saltar nas costas dos dois e arrancar o rádio das mãos deles, que ficaram muito chateados.
- Ah, Tia Lu, VAZA! – xingou André, empurrando a menina.
- Ei, Harry! – chamou Tia Lu, tentando responder – Pode falar! Sou eu, Tia Lu!
- Booooooooooooooooa noite, minha gente! – riu Harry, escutando e sendo ouvido com perfeição.
- São eles! – riu Sandrinha, agora a turma toda se juntando para falar com eles.
- Onde vocês estão? – perguntou Tia Lu, pelo rádio.
- Pra falar a verdade, não sei. – disse Harry, coçando a cabeça – Viemos parar numa aldeia dos elfos do Castelo. Eles tiraram a gente duma encrenca e tanto.
-... Que ótimo que estão bem! Já acharam a espada? E a Leah, onde está?
- Bom... por questão de segurança, ficaremos aqui hoje, e amanhã continuaremos. Se tudo correr bem, reencontraremos a Leah e a Espada.
- Tudo vai correr bem, Harry. – gemeu Hermione, baixinho.
- Leah se separou da gente... – disse – Mas por questão de segurança. Amanhã mesmo a gente se vê.
- Ah, certo... se precisarem de ajuda, podemos usar o mapa...
- Não, não, fiquem aí. Amanhã estaremos de volta.
A voz baixa de André foi ouvida, sem parar, atrás de Tia Lu, dizendo "pergunta da Hermione, pergunta da Hermione, cadê a Hermione, tá lá também?"
- Ah, certo... – disse Tia Lu, que às vezes se afastava do rádio pra bater em André – Sai de cima de mim, André, que saco. Então... e Hermione, está aí?
- "Se eu souber que ela se machucou eu enfio a mão nele de novo. Ai, Tia Lu! Cacete!" – disse André, distante. Harry fechou a cara, enquanto Hermione riu, e se aproximou do rádio:
- Oi, Tia Lu, estou aqui também, diga ao André que estou bem, sim.
- Ah, sim, Hermione – disse Tia Lu, exasperada, tentando parar André, que ficava ao longe murmurando que queria falar e escutar também – Eu digo. Agora podem ir descansar. Estaremos aqui, qualquer coisa.
- Ok, boa noite. – despediu-se Harry.
Em seguida os dois desligaram o rádio.
- Bom, uma preocupação a menos. – suspirou Harry – Agora é melhor irmos pra cidade.
- Quanto antes, melhor. – concordou Hermione.
E, assim, o casal voltou para a aldeia, pra descansar para o próximo dia.
Deitaram-se debaixo da grande árvore, na cama improvisada. Harry puxou as cobertas, fechando os olhos, encolhendo-se. Hermione, ao seu lado, fez o mesmo. Olhou Harry alguns instantes, até dizer:
-... Ei, nós dois vamos dormir juntos?
Harry, de olhos fechados, deu de ombros, sério:
- Não venha reclamar, eu cheguei tão inconsciente quanto você.
Hermione ainda pensou, e comentou, sorrindo torto:
-... Se André ficar sabendo, ele vai querer bater em você.
Harry deu de ombros de novo, sem se abalar, cochilando:
-... Deixa ele vir, ué.
Hermione riu, e deu as costas, também dormindo.
Era bom ter um fim de noite mais despreocupado. O dia seguinte podia não ter o mesmo final feliz.
N.A 1: Estejam todos vocês preparados para o próximo capítulo. Mesmo. Pra valer.
N.A2 : Podem perguntar pra Inna e pra Gabi, que não me deixam mentir. Só isso. Até lá. X-O
