No último capítulo…
Decker trama com sua prima Dorothy seu próximo passo na empreitada de conquistar o Reino de Sanc. Decide obedecer Relena e ir pedí-la em casamento pessoalmente. Ante a firme recusa dela, ameaça-a de modo vago, prometendo que ela iria se arrepender da decisão tomada. Odiando a ela e sua resolução, volta para suas tendas e declara sua decisão de que a iria sequestrar. Relena se sente preocupada e assustada com as intenções de Decker e decide ir conversar com seu irmão. Zechs a apoia em sua decisão e pede que ela não se preocupe, que ele cuidaria de tudo. Não deseja tomar decisões preciptadas, não tem com o que acusar Decker, e decide aguardar seu próximo passo. Inqueita, Relena pede a Noin que chame Akane para que possam conversar um pouco.
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Capítulo 25 – Tensão
Akane estava dormindo pesadamente, aproveitando do descanso, alheia do que acontecia a sua volta. Não ouvia nada, sorria simplesmente bem aninhada nos travesseiros. Se a tenda pegasse fogo, com certeza morreria.
_Hey, garotona, acorde! –ela escutou de repente, ao ser chacoalhada, interrompendo seu sono.
_Hã? O que é? –perguntou com a voz rouca, erguendo-se um pouco. Viu Howard na sua frente com seu sorriso malandro e brilhante olhando-a.
_É melhor se levantar, você tem um compromisso.
_Ah é? Qual? –ela sentou-se e espreguiçou, manhosa, parecendo uma menininha.
_Tem um soldado aqui te esperando com uma carruagem, parece que Relena quer falar com você. –Howard explicou, saindo de perto dela e apanhando as roupas do chão. Akane ficou observando-o por um tempo, processando a mensagem. De repente, foi surpreendida por um vestido jogado em cima dela, e Howard veio para perto e atirou a capa:
_Vamos, se apresse! Já passa da hora do café, daqui a pouco começarão os torneios e você ainda está aí, tentando lembrar que carruagem te atropelou! –Howard a provocou espertalhão, e tirando as roupas de cima, ela fez uma careta de desagrado.
_Ai, tá bom. Não sei por que a Relena não vem aqui… –e Akane ainda estava afetada pelo mau-humor de quem desperta.
Howard riu do jeito dela, e Akane saiu da cama e foi para trás do biombo, levando as roupas que ele lhe atirara.
Ele ficou extremamente tentado a perguntar sobre a noite passada para ela, só para ver qual seria a resposta, mas resistiu. Ficou sorrindo sozinho, malandro, esperando ela se trocar. Enquanto isso, Alaric distraía o soldado, na tenda que servia como hall.
_Vamos logo, mocinha! –Howard apressou do lado de fora do biombo e achou que a ouviu rir travessa. –Não temos tempo para superproduções…
Akane logo depois saiu usando o vestido preto e a capa com o capuz erguido.
_Quanto tempo acha que irá ficar lá?
_Não sei. Você pode levar tudo para a baia que eu me troco lá para a justa.
_Está certo. Cuide-se. –ele disse, e ela o beijou no rosto em seguida.
Akane entrou no hall, e olhou Alaric e o soldado.
_Bom dia. –cumprimentou ambos. –Perdoe a minha demora, senhor. –disse depois para o soldado com uma leve mesura.
_Não há problema, milady. –e ele abriu a tenda para ela passar. Akane acenou em despedida por cima do ombro e entrou no cupê.
Faltavam poucos minutos para as nove horas da manhã. Os rapazes estavam sentados na mesa, terminando o café. Já fazia mais de uma hora que estavam ali, alguns momentos em silêncio, e depois conversando temas banais. Vez por outra riam, não pareciam muito ansiosos para o início da fase final, talvez por que estavam tão acostumados que nada os impressionava mais.
_Quando é que realmente começaremos a nos enfrentar? –Duo perguntou, intrigado.
Em poucas vezes durante o torneio "Formidável" tinha enfrentado "Formidável", e agora na fase final era uma situação inescapável. Secretamente, todos estavam ansiosos pelo fato.
Heero olhou Duo de canto com um ar altivo e murmurou:
_É só calcular as probabilidades…
_Deveras: a tabela nos dá a base. –Trowa concordou adicionando.
_Mais importante é preocupar-se para que as probabilidades deem certo. –Wu Fei fez lembrar o principal e Quatre assentiu em seguida.
Quando eles começassem a se enfrentar os torneios se tornariam mais que interessantes. Era difícil imaginar como seriam estes duelos, as habilidades exímias proporcionariam embates intensos e emocionantes que iam colocar à prova tudo o que sabiam, já que como os melhores, atravessaram todas as fases de apuração, e, agora, tinham de se enfrentar para escolher o melhor entre os melhores.
Aquele que prevalecesse podia então ser julgado o mais habilidoso? Eles se entreolhavam e não sabiam responder. Eles mesmos reconheciam que cada um dos sentados ali tinha uma habilidade como cavaleiro muito distinta e aperfeiçoada, e assim não sabiam taxar-se melhor um sobre o outro; apesar de tudo, havia certo respeito, um secreto, pelas habilidades mútuas. Por isso, com desgosto, eles teriam de dizer que o vencedor era julgado o mais afortunado.
_Alguém ouviu alguma notícia de Arcus? –Quatre perguntou, lembrando-se do companheiro e de sua terrível queda.
_Arcus? E alguém por acaso sabe alguma coisa sobre aquele cara? –Wu Fei logo respondeu com seu jeito irritado e desdenhoso. Trowa levantou as sobrancelhas e depois disse profundamente:
_Ele realmente é um cavaleiro muito discreto e recluso… Ele deve ter algum motivo para isto…
Heero parecia não escutar a conversa, e assim, não falava nada.
_Ele deve estar bem, afinal, ele também têm justas hoje. Se ele quiser continuar e se classificar, terá de duelar. –Duo comentou inocentemente, a voz tranquila não expressava tudo o que ele sabia.
_Akane não comentou nada com você, Heero? –Quatre perguntou em seguida, olhando o rapaz, sossegado, aguardando a resposta.
A verdade era que Heero ouvia tudo atento e interessado, e voltou-se para Quatre primeiro com um ar de ultrajo e depois se fez feroz:
_O que está pensando? Por que ela falaria comigo? –não gostou nada do que a pergunta subentendeu –a amizade, a preocupação que existia entre os dois, mas que Heero negava. Quatre apenas abriu um sorriso suave e pediu:
_Sendo assim, me desculpe.
Heero estalou os lábios, arqueando as sobrancelhas, bravo, e permaneceu em silêncio após isto. Ele faria de tudo, mas não ia aceitar que existia proximidade entre ele e Akane, não ia assumir que de repente desenvolvera um laço com ela. Ele estava se enganando, mas não por que era cruel, mas por que ainda não entendia, existia um conflito dentro dele maior do que qualquer justa.
Ele estava confundido e assustado, precisava fazer cessar estas inquietações internas para finalmente afirmar que uma grande mudança operara nele – a transição estava sendo difícil, ele não conseguia permitir que esta mudança se operasse embora esta não respeitasse a sua vontade. A rocha incorruptível já não o era, o mar a estava moldando, desgastando toda sua dureza impermeável.
Não havia escapatória, finalmente havia chegado o dia, Heero não mais sabia resistir ao que o rodeava e ia ser modificado. Estava convencido a contragosto de que aquilo era inevitável, apenas intrigava-o se a escolha fora dele ou aquilo não passava de um imprevisto.
E todos esses pensamentos, como rodamoinhos em uma tempestade, uma que ninguém via, uma que só ele sentia, trouxeram também Relena a sua mente. Não bastava a vigília de um só anjo, mesmo que travesso, teve que ser vitimado pelo zelo de uma entidade maior, pura e gentil, com a qual ele não sabia lidar. Franziu o rosto e tomou um gole de leite. Nada o distraia de suas inquietações, entretanto. Era atormentado por elas noite e dia desde que chegara a Sanc.
Akane estava pensando nos rapazes durante o trajeto até o castelo. Estava pensando em cada um deles. Tinha a afeição por cada um, gostava de estar com eles, sabia que eles também gostavam e precisavam dela, e era o fato de não aceitarem isto que os fazia mais amados por Akane. Ela não tinha dúvidas disto, por mais severos e duros que aparentassem, especialmente com ela. E agora, com a fase final, ficava ainda ansiosa, porque poderia observar todos lutarem da forma mais perita, já que adversários de estirpe provocam o cavaleiro a dar o seu melhor, e apenas um "Formidável" é adversário á altura de outro "Formidável".
Encostada no estofado da carruagem, sentia o corpo dolorido, mas nada que a incomodasse ou impedisse de prosseguir no torneio. Ela era teimosa e nada a tiraria da disputa. Tinha de saber reconhecer quando estava fora de condições de justar, mas desta vez, mesmo que com costelas quebradas, teria de prosseguir, era uma questão de honra. Seu brio não permitiria dar a Decker o gosto de tirá-la da competição. Por qualquer outro motivo abandonaria o torneio, mas não diante do desafio de defender seu nome diante de um Romefeller miserável como Decker Evangeline.
E depois de pensar na sua última justa, veio no imediato as inevitáveis lembranças do que se passou naquela madrugada. Agora não só Heero sabia a verdadeira identidade de Arcus, mas Duo também. Divertia-se em imaginar o que eles sentiam quando olhavam para ela agora, ter de lembrar que ela era um deles, cavaleiro de honra igual a eles. Os mesmos olhos de antes não serviam mais para eles contemplá-la.
Não gostava da situação, entretanto. Preferia poder justar livremente apesar de ser uma mulher. Preferia poder tirar o capacete no meio da arena e receber seus aplausos dignamente, não viver debaixo de um segredo, de certa forma enganando a todos que lhe rendiam respeito. Gostaria de poder fazer as coisas certas neste sentido, mas sabia que não podia. Não era permitida. Seus conceitos visionários não eram compartilhados com o resto da sociedade. Se tentasse atuar com sua verdadeira identidade perderia tudo o que conquistara e seria presa, humilhada, e tudo pelo que ela sempre zelara seria traído por ela, e tudo o que ela sempre prezara ela ia perder. Mas nunca se arrependeu de ter entrado na vida de cavaleiro mesmo que as consequências pudessem ser desastrosas. Não havia algo que quisesse fazer além das justas.
Noin acenou para ela, esperando-a no lugar costumeiro, e Akane desceu da carruagem envolta na capa preta, sorrindo para Noin de dentro do capuz.
_Você sabe por que Relena me chamou tão de repente? –perguntou curiosa, enquanto caminhavam por um corredor.
_Não posso lhe dar uma resposta certa. Eu sei que ela quer conversar com você, mas sabe, tudo o que ela diz para você ela não conta para mim… –e Noin piscou com um dos olhos, sorrindo travessa, e Akane riu.
_Oh, então está bem. Eu vou descobrir, aí eu te conto… –Akane brincou em seguida e Noin terminou com uma provocação:
_Você vai ser espiã dupla, é? Como vou confiar em você?
Akane riu e Noin meneou a cabeça sorrindo.
_Vejo que temos uma visita! –ouviram uma voz bonita, amigável e forte soar diante delas, que distraídas, não viam Zechs vindo de encontro. Ele usava uma veste verde muito escuro, e seus cabelos quase prateados recebiam destaque enquanto os olhos pareciam embaçados e turvos.
Noin o olhou e abriu um pequeno sorriso sereno, e Akane o olhou com seu sorriso picante, fazendo uma mesura generosa, imprimindo admiração em seu gesto perante ele.
_Bom dia, Alteza magnífica. –ela cumprimentou e ele parou diante delas.
_'Dia, jovem Akane. –ele disse em resposta, e ela lhe mostrou um sorriso que Noin achou estranho.
Ela apenas observava a cena, divertida, curiosa no que ia acontecer.
_O senhor já sabe meu nome? Relena tem falado mal de mim… –Akane pilheriou, e depois soltou um desconsolado suspiro jocoso. Zechs riu e meneou a cabeça.
_É minha obrigação saber quem são as más influências desviando minha irmã. Vou ter de juntar você a minha lista… –ele brincou também, fingindo-se sério.
_E posso saber quem mais está nesta lista, Alteza? –Noin resolveu entrar no jogo, e perguntou felina. Ele a olhou diretamente:
_É você quem encabeça o rol.
Akane olhou os dois ainda a sustentar um sorriso astuto, mas manteve-se em sagrado silêncio. Noin revirou olhos altaneiros diante dele, fingiu-se afetada, mas não disse nada. Ele riu, e olhou Akane outra vez:
_Como vai seu mestre Sir Arcus?
_Está bem, recuperado o suficiente para os duelos de hoje à tarde. –Akane respondeu solícita.
_Sei como estas quedas são difíceis, quero que seja portadora de meus votos de melhoras para ele. –Zechs não escondia sua admiração pelos "Formidáveis". Apreciava a técnica e a resistência daqueles jovens cavaleiros.
_Pode ter certeza de que ele se sentirá muito honrado e agradecido. –ela disse de modo lisonjeado, fazendo outra mesura, e Zechs lhe sorriu bondosamente. Ele agradava-se do jeito vivo, mas respeitoso dela, mesmo que burlesco.
Depois disto, olhou Noin por um momento, comunicando algo com ela, que lhe devolveu o olhar e apenas prosseguiu sorrindo serena e elegante. Por fim, Zechs mesurou só com a cabeça para as duas moças e afastou-se. Teria algumas reuniões, havia assuntos sérios a serem tratados. E sabia que as moças também tinham e não queria atrapalhar.
Akane observou Zechs se afastar e depois olhou para Noin com algo sugestivo.
_O que foi? –Noin indagou aborrecida, e depois sorriu timidamente. Akane riu espevitada do jeito da moça, e continuou a ir até o quarto de Relena.
_Pode deixar, Noin, eu já sei o caminho… –e exclamou depois sem olhar para trás, caminhando tranquilamente, e agitou uma mão. Noin meneou a cabeça, sorridente, sem saber o que pensar sobre aquela garota.
Relena estava sentada numa poltrona feita de peles de lobos que seus antepassados caçaram, e ela olhava pela porta da sacada, tranquila, mas pensativa. Avistava o horizonte azul tão distante de seus problemas, de suas ansiedades. Talvez houvesse outro lugar para ela viver, onde não houvesse nada para preocupá-la, algum lugar onde ela pudesse usufruir a paz tão querida por ela. O mundo parecia tão vasto, mas ela não sabia enxergar tão longe. Perguntava-se se por acaso havia um lugar com uma vida realmente tranquila. Suspirou, abaixando os olhos por um momento. Talvez não houvesse necessidade para tanta melancolia, mas não havia outro jeito que ela pudesse se sentir.
Quando Akane entrou, sem bater, sem fazer ruído, logo notou que Relena estava triste. Mas sabia que era uma tristeza empática, por algo muito mais nobre que ela. Estranhamente, Akane gostou da atmosfera que tomava o quarto, parecia tão calmante.
_O que há? –indagou quando chegou um pouco perto, e Relena virou-se rapidamente, com seus olhos sérios expressando determinação. Mas ao perceber que era Akane, abriu um sorriso sereno.
_Akane? Não ouvi você entrar… A Noin não estava te esperando?
_Sim, estava, mas eu vim até aqui sozinha. Que foi? –não perdia tempo.
_Não foi nada… –Relena respondeu e olhou de volta para a porta por um momento. –Quer se sentar? –e mostrou uma cadeira estofada ali. Akane sorriu e assentiu.
_Bonita esta poltrona… –Akane alisou a pele de lobo da poltrona de Relena, e a princesa lhe sorriu.
_Sim, ela estava na sala de troféus, mas pedi para trazerem aqui para mim. É bastante confortável. –Relena explicou. Aquela era a poltrona favorita de Zechs, mas Relena estava com ela no quarto desde que almoçara com Dorothy.
Akane ficou olhando fixamente Relena depois disto, esperando alguma explicação para sua presença ter sido requisitada.
_Aconteceu alguma coisa? Por que você me chamou? –e acabou voltando a perguntar, olhando para Relena fixamente.
_Não, não aconteceu nada. –Relena insistiu, sorrindo. Olhou Akane, e pensou por um instante para continuar. –Achei que precisávamos conversar um pouco, não sei…
_Muito suspeita para meu gosto esta tua explicação, mas vou deixar como está… –Akane disse com as sobrancelhas arqueadas e Relena riu.
_Não seja desconfiada. Bem, eu vou ter de admitir que você estava certa quanto à confiabilidade em Decker ser nula. Eu já tinha meus receios com ele, mas agora estou certa de que ele é muito perigoso.
_O que ele fez para você? –Akane não impediu seus olhos de brilharem ao finalmente ouvir a confissão de Relena.
Relena não costumava fazer aquelas coisas – desabafar suas tensões ou sentimentos, mostrar que não é inatingível ou inabalável. Ela sempre preferiu lidar com aquelas coisas sozinha, tomar todas as decisões sem comentar com ninguém seu problema. Sabia ser forte o suficiente para isto. Olhou Akane e suspirou, não sabia bem por que, mas queria fazê-la avisada.
_Não é novidade que ele é louco para conquistar o reino, mas eu fiquei muito insultada com o fato de ele querer me usar para conquistá-lo… Ele está planejando coisas, Akane, ele vai armar uma guerra se preciso.
_Do que você está falando?
_Ele veio me pedir em casamento.
_Ah, isso? Bem é uma estratégia comum de conquista, por agregação… –Akane comentou, mais esclarecida. Aquilo já fora o suficiente.
_Ai, não trate isto tão friamente! –Relena não gostou do modo tão impessoal de Akane referir-se ao assunto, e suspirou em seguida.
_Mas já imaginava que ele iria fazer isto… Ele arrasta uma asa por você, nem que seja só por interesse… –Akane comentou depois, maliciosa, e Relena riu nervosamente incomodada.
_Como descobriu? –perguntou um pouco surpresa. Akane soltou uma gargalhada elegante e alta, e começou:
_Você vai gostar da história… –pausou por um instante para curtir a sensação. –Nós estávamos na taverna e Decker começou a importunar Heero. E provocação vai, provocação vem, ele acabou falando de você.
Relena ouvia tudo séria e atenta, enquanto Akane parecia exultante contando a história. Ela olhava Relena com seus enormes olhos verdes refulgindo de contentamento e malícia, e Relena não sabia bem o que esperar.
_Heero não gostou nada do jeito que Decker falou de você, sabe? Ele ficou bem encrespado, e te defendeu.
_Ele fez o quê? –Relena indagou surpresa, arrebatada. Não conseguiu sorrir, nem conseguia acreditar, e ficou esperando Akane terminar, espantada.
_Por isso, Decker perdeu as estribeiras totalmente e voou em cima de Heero, estourando uma bela briga na taverna… E foi isso… –Akane narrava tudo trivial e divertidamente, e depois ficou calada por um pouco, parecendo recordar com prazer daquela vivência.
Relena usou este tempo de silêncio para recuperar-se do choque e aproveitar a descoberta. Heero a tinha defendido… Aquilo podia significar alguma coisa, ela pensou, e muito discretamente abriu um sorriso sereno e agradado. De repente passou em sua mente algo que a fez rir.
_O que foi? –Akane indagou ansiosa e interessada.
_Então é por isso que Decker estava com o olho roxo. –Relena disse depois, ainda sorrindo espevitada.
_Olho roxo? –Akane espantou-se escandalosa e zombeteira, e riu também, malvada. Nada alegraria mais seu dia do que isto, a não ser ver Decker com o olho roxo. Ele devia estar furioso! Akane riu a bom rir, e depois respirou fundo, relaxada. Relena também se sentia da mesma forma agora. Fora mesmo para isto que chamara Akane: pare desanuviar os pensamentos e descansar. Ali, agora, tudo parecia mais firme e fácil embora Relena não soubesse por que, embora soubesse que já tinha sentido algo parecido antes.
_Estou sentindo o peso de minha responsabilidade. –Relena retornou depois a confessar, e Akane a fitou por um tempo. –Sinto que se não casar com ele, estarei provocando uma guerra, e eu não quero criar nenhuma situação que nos leve a guerra.
_Eu sei, você está certa, embora você não seja obrigada a se casar com ele. E é exatamente isto que ele quer que você pense. Ele quer que você se sinta culpada, que você sinta que tem a obrigação de se casar… Mas é tudo mentira. Obrigar-se a casar é um preço muito alto para se pagar por qualquer coisa.
_Mas é o exigido!
_Não, não é! Não volte atrás, Lena…
Relena olhou-a pensativa e triste por um instante. Aceitava que Akane estava certa, mas ao mesmo tempo sentia-se culpada por tornar-se responsável justamente por aquilo que mais odiava no mundo, uma guerra.
Era um conflito dentro dela, um bem intenso. Embora achasse que Decker não tinha nenhuma intenção boa, com ou sem casamento, achava também que a única forma de impedir a guerra fosse fazendo a vontade dele.
_A sua decisão foi acertada, seja assim, Lena… Você parou para pensar que mesmo casando ele ainda pode entrar em guerra? Só porque será seu marido, Decker não pode assumir o governo daqui, o golpe de estado poderá envolver sérias batalhas. Você é só uma porta para ele, o principal não é você. Não importa o que você fizer, ele vai levar a diante seus planos de conquistas e batalhas! Por isso, levando em conta todos estes fatores, é melhor decidir não se casar com ele de jeito nenhum!
_Está certo… –Relena disse depois de ouvi-la. Ela já sabia de tudo isto, mas queria alguém confirmando estas coisas. Relena apenas buscava a paz, e se fosse necessário, ela se sacrificaria por ela. Sabia que a paz era mais necessária do que seu próprio bem-estar. Entretanto, casar-se com Decker às vezes lhe soava muito mais do que um sacrifício, mas uma tortura, muito mais do que ela podia dar. E por isso ela sentia-se perdida e infeliz.
_Esquece isto, Lena… vamos ver o que acontece e então damos mais um passo a frente. Não adianta passar por cima de toda a sua honra só para garantir a paz. Não é justo com você. E também, não vá contra seu coração se ele deseja algo melhor para você.
_O quê? –Relena não entendeu bem a última frase e olhou Akane suspeitosa. Akane sorriu e meneou a cabeça, mas não explicou nada. Relena a ficou encarando por um instante e notou que Akane ficou distraída de repente. –E como está seu mestre, Sir Arcus? –Relena mudou de assunto então.
_Está bem, você irá vê-lo justar e vencer hoje! –Akane respondeu alegre. Relena assentiu e depois guardou silêncio por um longo intervalo, onde as duas ficaram olhando pela porta. Viam o horizonte e não sabiam o que esperar.
_Só faltam mais dois dias para o final do torneio. –Akane depois lembrou, olhando Relena.
_Sim, é verdade, e até que passou bem rápido. No começo eu estava muito desgostosa com este torneio, mas agora eu realmente o aprecio. Consegui compreender os duelos e vim a admirar os cavaleiros. Não todos, é claro.
_Só os merecedores, não é? –Akane perguntou depois com um sorriso carinhoso e Relena sorriu e ficou se perguntando o motivo daquele sorriso. Mas elas estavam pensando nas mesmas pessoas e por isso, Relena confirmou:
_Isto mesmo, só os merecedores.
E por mais um longo período de tempo passaram caladas, recostadas próximas da porta, olhando o céu. Foi como se estivessem ali por horas. As nuvens caminhavam lentamente como ovelhas sobre uma pastagem vasta. E de volta aos pensamentos Relena trouxe o relato que Akane lhe fizera.
Heero a tinha defendido, ela não parava de pensar nisto e de relacionar aquele detalhe com a lealdade cavalheiresca. Ela respirava aos poucos, refletindo naquilo um pouco confusa. Heero a fazia sofrer tanto, mas ela nada podia fazer para esquecê-lo. Havia algo nela que se ligou a ele no instante em que o encontrou, como se seus destinos estivessem cruzados. Algo nela se afeiçoou completamente pelo olhar feroz e misterioso, intenso, que a acertava de um modo que ela não sabia resistir. Todo ele era um mistério, e todo mistério é terrivelmente atraente. Ela não se importava com as ameaças dele, com a rudeza dele, era completamente diferente de Decker. Ela não temia nada quando estava com Heero, mas com Decker tudo parecia ser mortífero. E então compreendeu o que Akane tinha querido dizer, era tão simples, não sabia por que tinha se intrigado tanto. O seu coração queria algo melhor para ela, queria Heero, não Decker, e ela não seria capaz de forçar-se a aceitar nada além do que seu coração escolhera. Existia algo mais atrapalhando sua consciência: o amor. Sua mente e seu coração queriam coisas diferentes agora, e pela primeira vez, ela tinha certeza de que seu coração queria a coisa certa. Nunca pensara que ia passar por isto em sua vida.
_Você quer ficar para o almoço? –Relena olhou Akane e convidou.
_Almoço? Sim, em vista de que nem tomei o desjejum… –Akane aceitou de bom grado o convite e confidenciou depois com uma piscadela.
_O que foi que aconteceu?
_Acordei com seu soldado me esperando, princesa, e vim para cá. Tive uma noite bem difícil… –ela disse depois, e suspirou. Relena notou algo que nunca antes vira em Akane – havia algo tenso e ferido nela, assim como ela já vira em Heero, não era algo que lhe drenava a força de vida, mas algo que deixava uma marca que permaneceria por um bom tempo, um trauma, uma ferida aberta ainda a se cauterizar.
_Quer me falar sobre isto?
_Não, não se preocupe. Estou acostumada… –Akane assegurou com um sorriso vibrante que contradizia tudo o que Relena pensava.
_Vou pedir para Noin providenciar seu lugar na mesa.
_Eu vou almoçar com Zechs também?! –Akane pareceu entusiasmada. Relena riu e assentiu com a cabeça. –Ah! Estou até me sentindo importante…
_Que nada, Ane… Decker e Dorothy tomaram refeições conosco também… –Relena provocou pilhérica, escondendo um riso mais travesso.
_Ai, Lena, agora você me humilhou! –Akane fingiu-se insultada, mas riu depois. –Obrigada… –e depois agradeceu gentil, e voltou a olhar o céu.
Com o fim do café, Heero foi fazer seus preparativos para o torneio. Sua justa seria a terceira do dia, contra o cavaleiro da casa, Sir Victorious. Heero saiu cavalgar com Wing pela praia para que o animal relaxasse um pouco para mais um dia esforço. Ele reconhecia que o trabalho do cavalo era tão árduo quanto o dele, e por isso queria Wing o mais preparado e tranquilo possível, mas Wing também recebera um treinamento intensivo, assim como ele. Ambos formavam uma dupla perfeita que se fundia na hora da batalha, tornando-se invencíveis.
E ao se aproximar da hora do almoço, Heero foi instalar Wing na baia dos bastidores da arena. Já havia levado tudo o que precisava para lá, e deixando Wing, foi e tomou a sua refeição sozinho, em total solidão, e seu olhar mantinha qualquer um afastado. Não viu nenhum outro "Formidável". Tampouco viu Akane a manhã inteira. Mas não estava pensando em nenhum deles, entretanto. Agora era o momento de se concentrar para executar sua missão que não ousaria falhar.
Mas a paz que ele teve no almoço não durou muito. Ele ia caminhando, de volta para a baia, com seu olhar altivo enxergando longe, indo até o final do corredor. E para seu azar, no final do corredor despontou Decker, que ao vê-lo a frente, logo abriu um enorme sorriso convencido. O primeiro duelo era dele, Decker já estava todo blindado, e todas as peças da panóplia brilhavam do jeito que ele exigia, e assim se explicava por que o chamavam de Senhor Brilhante.
_Boa-tarde, Sir Heero! Quanto tempo! –ele logo saudou sarcástico e parou a uma distância considerável.
Heero logo parou também, e não disse nada. Estavam a quase dois metros de distância um do outro, e Decker sorria arrogantemente ao passo que Heero o encarava com uma ferocidade latente no olhar que Decker sentia atravessá-lo.
_Como tem passado? –ele continuou em seguida com sua falsa cortesia.
Mas por nada se abria a boca de Heero, e ele prosseguia cravando o olhar em Decker, impetuoso.
_Hoje será um ótimo dia de duelos. Está preparado, Sir Heero? Ah, eu acredito que está, pois afinal, você é um "Formidável", não é mesmo?
Heero estreitou os olhos e bufou:
_O que você quer?
_Eu? Mas que maldade, duvidando de mim! Não quero nada, amigo, de você não me interessa nada. –Decker deu alguns passos para frente, garboso.
_Mas está parecendo o contrário. –Por que você não me deixa em paz?, Heero pensava isto fulminando Decker com o olhar que era a única coisa que parecia viva no seu rosto álgido e inexpressivo.
Decker riu-se, petulante, seus olhos quentes brilhavam, pareciam amigáveis, mas só Heero enxergava a sanha cruel que ardia junto das chamas de falsa cordialidade nos olhos de Decker.
_Eu tenho outras coisas em que pensar, não estou dando a mínima para você, Heero! A única coisa que pode me interessar em você é sua derrota. Um dia nosso caminho vai se cruzar e será meu prazer conceder a você um belo tombo! Não há aquele que se mantém de pé diante de minha majestade, eu me ergo mais alto que as estrelas do céu! –o conde foi discursando entusiástico e caminhando para mais perto de Heero, e falava arrogante com olhos a cintilar.
_Cuidado, Decker… Talvez você encontre outro Zechs em seu caminho. –Heero replicou com um sorriso luxento, dando um passo a frente. Ele e Decker agora estavam cara a cara.
_Onde? Em você? Quanta pretensão! Não seja tolo, Heero, porque logo nem Zechs conseguirá se manter diante de mim! Você não perde por esperar… –Decker balançou a cabeça soberbo, fazendo a franja sedosa de cabelo castanho se agitar, e seus olhos pequenos e polidos sorriam. E ele foi falando e caminhando, passando por Heero.
_O peixe morre pela boca. –Heero olhou sobre o ombro e lembrou como ameaça. Decker não olhou para trás, mas suas sobrancelhas curvaram-se irritadas. Só podia sentir isto diante de Heero.
Heero, com a expressão sempre apática, continuou seu caminho até a baia, e esqueceu quem acabara de encontrar.
_Devia ter mandado matar Wing quando tive chance… –Decker praguejou num murmúrio incompreensível, saindo das baias. Havia o fogo da vingança perpassando sua alma de tal forma que o incomodava. Ninguém era tão insolente com ele como Heero e ele não aceitava ser tratado assim.
Faltavam dez minutos para o primeiro duelo. Os irmãos reais já tinham se instalado no seu camarote elevado, as arquibancadas estavam praticamente cheias, as pessoas já faziam festa, as baias estavam movimentadas. Heero tinha vestido toda a armadura e estava checando a sela de Wing quando alguém apareceu falando:
_Hey, Heero… Você quer ver o duelo do Decker conosco?
Heero olhou apunhalando por sobre o ombro e viu Duo, e junto dele estavam Quatre e Trowa também. Voltou os olhos para a sela, e pareceu demorar uma eternidade para responder:
_Não.
_Por que não? –Quatre perguntou sossegado, olhando Heero como se este não fosse rude.
Heero não respondeu nada, e prosseguiu verificando se a sela estava bem presa, olhando as fivelas. Duo olhou Quatre com um ar atônito e Trowa não expressava nada, apenas observando a cena.
_Não estou interessado em ver Decker derrubar mais um idiota e continuar neste maldito torneio. –Heero encarou os três depois indo até eles, limpando as mãos.
_Decker desgraça o título de cavaleiro. –Quatre depois concordou, meneando a cabeça tristemente. Os quatro rapazes ficaram parados na entrada da baia, pensativos. Estavam todos com uma aparência austera então, talvez por causa da concentração. Wing virou o focinho para eles, observou-os e depois voltou a olhar para frente, com um relincho.
_Está quase na hora… –Duo comentou sério, ouvindo a agitação na arena. Além do mais, o concorrente de Decker acabara de passar, indo até sua baia do outro lado da arena. Ele suspirou depois e olhando o chão, ficou mexendo num pouco de palha com o pé.
E então veio Decker, pronto para entrar na arena, e um verdadeiro exército de servos vinha seguindo-o. outrolado da arena abara de passar, indo para o outro lado da arena com seu cavaloolhou Quatre com um ar abisamdoLucifer estava no final da fila, caminhando numa marcha ampla, suavemente, sem olhar os lados, e parecia mais agradável que o dono. E ao passar pelos cavaleiros parados em frente da baia, Decker os olhou com esnobismo, abrindo um sorriso de desafio, e foi caminhando garboso com o capacete debaixo do braço.
Heero seguiu Decker com um olhar predador, feroz, vivendo uma ânsia de ir espancar aquele rapaz até deixar a face inteira dele roxa, não só um olho. Quatre sentia esta inclinação em Heero e ficava desconfortável, e sorria para abrandar a situação. Todos imitaram Heero, e perto da entrada da arena viram surgir Akane. Ela vinha numa pressa danada, usando um vestido e uma capa, ambos da cor negra. A expressão no seu rosto era centrada e ela nem percebia que ia de encontro a Decker e a comitiva pomposa dele. E ao cruzarem-se Decker a olhou por um mísero instante e a segurou pelo braço.
Com o solavanco, o capuz dela cedeu, e os seus olhos encontraram os deles com uma força intimidadora. Ele não sorriu, apenas olhou dentro dos olhos verdes mais vibrantes que os dele, por um instante admirado, e depois reconheceu aquele olhar de outro lugar. Voltou e olhou para Heero por um segundo, abriu um sorriso, e olhou Akane outra vez. Agora já sabia onde vira aquela petulância e ferocidade para olhar. Era como se algo estivesse vivo dentro daqueles olhos que tanto Heero quanto Akane sustentavam, feito uma força que compartilhavam.
Akane puxou o braço da mão dele, e o encarou fixamente, sem expressar nem fúria nem medo, esperando algo, mas ela não sabia o quê. Apenas mantinha o porte diante do rapaz, mantinha sua honra, tudo com brio, o que talvez não combinava muito com o fato de ela ser uma dama.
_Você é a moça da taverna… –Decker logo lembrou e disse com um timbre de voz sorridente e gentil.
_Sim. –ela respondeu fria.
Ele sorriu-lhe maliciosamente diante do modo frígido dela. Sabia que ela o queria afastar, que ela estava ostentando sua pose e mostrando-se insensível propositalmente. Gostou disto sem saber por que motivo exatamente e estudou cada detalhe da face dela por um longo tempo, apresentando um sorriso vulgar.
_Me intriga o que faz aqui, no bastidor da arena. –por fim especulou com seu rosto feito numa expressão doce, mas assaz suspeita e marota. Tudo parecia iluminado em seu rosto enquanto ele a encarava.
_Eu estou indo até a baia de meu mestre, Sir Arcus de Est…
_Ah, sim, aquele parvo que eu derrotei ontem! –ele nem deixou terminar de dizer o nome, e comentou com displicência, já se exibindo importuno, mas ela não se alterou nem um momento. Olhava-o com frieza e inexpressão. De longe, Heero e os outros os observavam. –Por que você serve aquele fraco incapaz?
_Não acho que preciso me explicar ao senhor, conde. –ela de repente sorriu astuciosa, para o espanto geral, como uma pequena raposa. Mesurou e anunciou sua retirada –Passar bem.
Decker gargalhou impressionado diante da irreverência e estava quase a ponto de deixá-la ir quando se virou outra vez e perguntou alto:
_Espera um pouco… Você não é prima do kaiser?
Ela não parou nem olhou para trás, e com pressa, foi caminhando pelo corredor, sentindo-se incomodada com Decker, e ele olhava-a intrigado a distância.
_Eu me lembro de você… é prima do kaiser, tenho certeza. –ele clamou outra vez, divagando enquanto rebuscava suas memórias.
_Me desculpe, senhor, mas acho que o senhor esqueceu que tem um duelo preste a começar. –ela voltou-se, e caminhando de costas, avisou com um sorriso maroto, e em seguida a trombeta tocou.
Ele a olhou afrontado e ao mesmo tempo confuso, e quando deu por conta, ela já tinha entrado no outro corredor. Ele tinha certeza de que já a tinha visto, apesar de há muito tempo atrás, na corte do kaiser, num festejo do dia de maio. Lembrava-se dela dançando com as fitas em volta do mastro, mas não tinha certeza… Talvez estivesse confundindo…
Os "Formidáveis" ali olhavam Decker com insistência, como um grupo de lobos discretos e vorazes, e Decker os olhou depois, incomodado, e indagou com a cabeça qual era o problema. Deu as costas e enfim entrou na arena.
_O que aconteceu? –Quatre perguntou, achando tudo muito estranho. Era intrigante a cena que assistiu, o que levou Decker a pensar aquilo sobre Akane? Era Arcus o primo do kaiser, não ela.
_Vocês vão perder o duelo. –Heero avisou, ouvindo a voz longínqua do pregador na arena, iniciando o duelo.
_De fato. Vamos. –Trowa falou e saiu na frente. Quatre foi em seguida, mas Duo trocou um olhar com Heero antes de sair. Mas Heero fingiu que não havia acontecido nada, que não tinha visto nada e entrou na baia, voltando para os cuidados de Wing.
Teve de admitir que Akane sabia lidar bem com a situação na qual se metera. Por aquela informação era fácil concluir a verdadeira identidade de Arcus, mas ela manteve a frieza e agiu impessoal, mantendo o porte, pois era uma moça e não permitiria ser injuriada por um cavaleiro atrevido. Heero aceitava que ela era competente naquilo que se propôs e entendia como ela jamais tinha entregado seu disfarce, e tinha de admirá-la por causa daquilo mesmo a contragosto.
Duo não gostou nada do jeito que Decker tratou Akane, independente de ele pôr em risco a identidade de Arcus ou não. Não suportava a arrogância do rapaz, achava o modo de ele tratar os outros algo execrável. Como aquele cara é insuportável, pensava ele, irritado, olhando soturnamente a armadura reluzente dele enquanto duelava com um cavaleiro pobre coitado que logo se veria no chão. Decker tinha uma forma ofensiva de justar que assustava, não aos "Formidáveis" é lógico, mas aos espectadores e os cavaleiros menos preparados.
O cavaleiro concorrente de Decker, sobre uma égua baia, era Sir Hugo, um "Esplêndido" que não teria a força necessária para se sustentar diante das estocadas furiosas de Decker. Ele resistiu até o final, pelo menos, deixando-se cair de cansaço na terceira bandeira. Hugo foi o primeiro cavaleiro eliminado da final. Para Decker, foi como se tivesse chegado mais perto de ser o dono do mundo. Comemorou como sempre, empinando Lucifer, exibindo-se enquanto brilhava com a luz do Sol que acertava as placas da armadura.
_Pobre Hugo. –disse Quatre calmamente, presenciando a cena.
_Pobre por quê? Ele sabia que a derrota era um risco. –Trowa logo atacou com o que era fato, só para fazer sua frase irrevogável.
_Perder para o Decker é uma desgraça. Ninguém merece isto. –Duo replicou revoltado, mas sério.
_Ao contrário, Duo, é Decker que não merece vencer. Ele não é um legítimo cavaleiro. –Quatre o olhou e disse numa forma de consolo.
_Ele não tem as qualidades apropriadas. –Quatre e Duo ouviram alguém dizer, mas não era Trowa. Heero tinha se juntado a eles, sem que notassem. Estavam assistindo a justa de trás da bancada que separava a arquibancada nobre da arena, pois não tinham tempo para sentar-se. Outros cavaleiros estavam com eles.
Heero olhava a arena e via Decker outra vez ostentando sua vitória.
_Ele não vai durar muito tempo. –alegou depois, e nada parecia poder contrariar a veracidade daquela afirmação.
Relena, sentada em seu trono, assistiu o duelo com desgosto. Não havia motivos para sorrir ao ver Decker derrubando seu adversário. Quando viu os duelos de Decker antes de toda esta tensão, eles não lhe significavam nada. Era apenas um "Impressionante" derrubando outro cavaleiro e escalando pela tabela, nada mais. Nem lembrava que ele era da família dos opositores de seu reino, nem se dava ao trabalho de lembrar. Mas agora, era impossível deixar tudo isto de lado. Agora ficava o tempo inteiro martelando em sua mente que aquele era Decker Evangeline, seu opositor, que estava tramando contra seu reino, talvez contra sua vida, ameaçando e ambicionando, e que ele era um imprestável mimado e ganancioso, que só sabia se exibir, uma escória entre a classe cavalheiresca. Nenhuma destas impressões a abandonava, e especialmente a deixava tensa quando ele empinava em comemoração dirigindo-se a bancada real e ela lembrava com amargura que ele prometera todas as vitórias para ela, embora ela não as aceitasse. Era difícil descobrir o que dava mais prazer a Decker – a sensação da vitória ou a sensação de derrotar.
Boa-noite!
Prometido e cumprido, voltei com mais um capítulo!
Espero que estejam gostando! Agradeço demais o carinho, o tempo, a atenção que todos têm me dado!
Deixem seus comentários e reviews!
Quem quiser me visitar no meu spin-off / backstory de Tentando a Sorte, pode ir até o FictionPress e procurar por "Segundas Chances", para conhecer melhor a história de Dante!
Me visitem também aqui mesmo na minha fic "Pássaro de Fogo"!
Beijos e abraços!
25.03.2017
