A HERANÇA DO CÁRCERE - OS FILHOS DO INQUISIDOR
XXV
Ao ouvir o que ouvira, Violante primeiro estacou; não sabia como reagir, pois a informação a si era algo que seu intelecto não queria aceitar. Então simplesmente riu. Riu, riu de nervoso. Após isto, apenas disse:
- Mas isto não é possível! Veja, ele estava acá ontem mesmo de manhã, eu me despedi dele!
- Pela tarde o mataram.
- Não! Não é possível, ele tem de estar em algum lugar, eu rezei o dia inteiro para que ele voltasse bem para casa!
- Eu reconheci o corpo dele; está na igreja a ser preparado para o funeral.
- Não! Não, Timóteo, ele não pode estar morto!
Então seu riso incrédulo se transformou num choro agudo e nervoso, pungente, de um animal ferido e abandonado para morrer. Violante então se prostrou de joelhos no chão, a chorar como uma condenada.
- Não! Ele não pode estar morto, não!
As criadas nada faziam além de fazer o sinal-da-cruz e suspirarem "credo". Mas Violante, essa estava em frangalhos. Quanto a Teodora, se espantara mas assim como Timóteo se surpreendera ao se perceber sem amor ou mesmo compaixão pelo pai. Julinho, o qual ainda estava junto de si, começou a falar:
- Vovó tá tisti? Vovó tá solanu...
Saída do primeiro choque, a moça tomou o filho nos braços e decidiu ir ao quarto; não era bom que uma criança pequena tivesse de lidar com mais tensão ainda do que lidara durante o dia.
- Vamos com a mamãe até o quarto, Julinho. Pedro, por favor, fique com eles acá e depois me comunique o que ocorreu.
O fidalgo assentiu. Mas Violante não ficaria somente nisto; havia ainda nela muito da mulher geniosa a qual quando solteira dera o que falar no Arraial do Tijuco. Logo se levantou, foi até uma das barras de ferro que havia em uma janela e passou a brandi-la no ar.
- Eu vou me vingar! Quem o matou terá de conhecer a minha fúria!
E abriu ela a porta da frente, brandindo a tal barra de ferro nas mãos; gritava e vociferava palavras de vingança, sem sequer se preocupar em ser discreta. Foi necessário que Pedro e Timóteo, ambos, a desarmassem e a arrastassem para dentro de casa outra vez. E mesmo assim ela não parava de gritar e espernear. O escândalo foi tanto, que todos às ruas olharam àquela mulher que todos sabiam ser bem guardada dentro de casa; até a roupa branca do vestido se lhe via, de tanto que ela se agitava.
Mas eles entendiam a razão; afinal, a notícia da morte do inquisidor já se alastrara. Muitos ainda evitavam as ruas, mesmo já sendo manhã, pois temiam o barulho recente. E no entanto as ruas sossegaram, a confusão arrefecera, tudo estava mais tranquilo afinal de contas. O Marquês de Pombal apenas fizera a confusão para marcar o acontecimento e depredar o prédio do Santo Ofício, mas não para fazer mal de fato à população.
E no meio do rescaldo de toda aquela bagunça, apenas Violante chorava a morte do inquisidor; apenas Violante se sentia de fato sem chão, sem propósito de continuar a viver.
Já contida e desarmada em casa, tomou um copo de água com açúcar o qual lhe trouxera Mariana; Teodora tentava distrair o filho, o qual ficava a perguntar "Por que vovó tá nervosa?", e ela mesma se controlava para manter a calma.
Após ter se acalmado no canapé da sala, a fidalga se sentia quase morta por dentro; sentia-se como se não estivesse ali de fato. Sua mente ainda se negava a aceitar a realidade. Após algum tempo, ela enfim disse:
- Quem foi, Timóteo...? Quem foi?
- Não se sabe quem foi. Havia muitos homens lá, eles mataram a Expedito na tortura e depois se mataram. Não se sabe quem eram.
- Com certeza alguém o mandou matar! Mas eu ainda vou me vingar!
E ficou ela assim por um tempo, entre falar e gritar com raiva e chorar feito uma criança ferida. Timóteo também tinha uma ideia de que o assassinato tinha um mandante, o qual obviamente não se mostrava, mas Pedro tinha quase certeza de que era o Marquês de Pombal. E não errava ele em suas hipóteses.
Violante, vez por outra dentre seu martírio, dizia frases que demonstravam o quão mal ela se sentia:
- Timóteo, quando teu avô morreu - o meu pai, tu não o conheceste - eu era nova ainda; tinha forças para me reerguer. Mas agora...! Estou velha! Que farei eu, Timóteo?
- Acalme-se, nós estamos aqui.
- Mas ele era a razão do meu viver, Timóteo! Como vivo sem ele após tanto tempo? Eu não sei mais viver sem ele, Timóteo...! Não é possível que ele esteja morto! Eu preciso vê-lo! Eu preciso vê-lo, Timóteo!
Então Violante fez menção de ir à porta outra vez, a fim de ir ao Santo Ofício, mas o filho a reteve em casa outra vez.
- Esta noite será o velório dele. Em breve já sairemos para ir à igreja com este fim.
Ao ouvir falar do sepultamento de Expedito, ela chorou ainda mais intensamente.
- Uma vez eu disse que jamais amaria alguém como amei a meu pai. Mas...! Na realidade, só houve uma pessoa que amei como a meu pai! E este foi Expedito! Ah meu Deus, que desgraçada eu sou! Que desditosa é a minha vida!
Não adiantava dizer coisa alguma; apenas a deixaram a chorar, enquanto Pedro discretamente ia até o quarto onde Teodora se encontrava. Ela abriu a porta e enfim o interpelou:
- Pedro, que é isso que está acontecendo? Ele morreu de fato?
- Pelo que Timóteo diz, sim. E teremos de nos trajar de luto, pois em breve será o velório dele.
- Sei. E minha mãe pelo visto está arrasada...
- Sim, ela está. E parece que só ela... tanto Timóteo quanto tu aparentam uma calma quase inabalável!
- Decerto... é muito estranho não me sentir culpada com o fato de que meu pai morreu! E pelo que ouvi, morreu na tortura!
- Sim, é verdade. Mas enfim, temos de nos aprontar.
Com muito esforço, Timóteo conseguiu convencer a mãe a se levantar do canapé na sala e ser auxiliada a se vestir de preto por Mariana. Então mais uma vez ela chorou, pois geralmente era Expedito quem escolhia as roupas e a vestia pessoalmente - isso há muitos anos.
Ao sair do quarto, além do vestido e da mantilha, escolheu apenas um único paramento: o crucifixo de ouro, o qual o inquisidor lhe dera de presente quando ela descobrira estar grávida de Teodora. Mal conseguindo se apoiar nas pernas, ao tomar o braço do filho mais velho, ela enfim conseguiu se dirigir à saída de casa e enfim à diligência que levaria todos ao velório.
As criadas foram rapidamente até suas casas a fim de vestirem roupa negra e de lá rumaram para a igreja a pé. A mesma já estava lotada; a notícia se espalhara como fogo. Toda a corte já se encontrava lá em peso, bem como os bispos e cardeais superiores de Expedito. O próprio rei fora àquele funeral junto com a família real; porém, o clima era tenso. Todos temiam um novo ataque, mas ninguém ousaria se furtar a comparecer ao funeral do inquisidor-mor.
Apenas o Marquês de Pombal, bem como alguns de seus asseclas, já sabiam que não haveria represália. A não ser que retaliassem.
Assim que Violante e Timóteo, bem como Teodora, Pedro e Júlio, todos os olhares se voltaram a eles. Apesar do clima fúnebre, na verdade a única que chorava de fato era Violante. Seu corpo tremia de tanto chorar; ao passo que os demais, até mesmo os cardeais, se mostravam frios; eles que sentiriam falta da eficiência de Expedito na inquisição.
No mesmo momento em que viu o corpo de Expedito, Violante se ajoelhou ao lado dele; tomou sua mão e a beijou mil vezes. Não temia o escândalo, ela que em toda a relação que tivera com ele sempre prezara pela discrição - e ele também. Reparou que as mãos dele, além de frias e mortas, estavam sem as unhas; e seu choro então se tornou ainda mais pungente.
O corpo dele estava composto; lavaram-no e colocaram nele o hábito que usualmente os dominicanos costumavam envergar. Mas não conseguiram fechar seus olhos; ele morrera com os olhos abertos e os mesmos secaram por terem ficado assim por muitas horas; então ele seria enterrado desta forma.
Durante todo o velório, Violante ficara ali, postada ao lado do corpo de Expedito. Sentia sua mente num mundo totalmente diferente, como se aquilo fosse um pesadelo distante e ela fosse acordar a qualquer momento. E de fato ela sentia que isso ia acontecer, afinal de contas em outras ocasiões ela sonhara que estava sem ele, e quando acordara se vira com ele na cama. Sua mente começou a tentar lhe ludibriar, a dizer que logo acordaria e estaria com ele; que era só um pesadelo. Mas enquanto não acordava, a dor permanecia, e cada vez mais forte se instalava em seu peito.
Algumas vezes durante a noite, até mesmo beijara o cadáver na boca; nunca mais o veria, por isso precisava se despedir. E como doía, como doía perceber que ele nunca mais acordaria! Que seus lábios estavam frios! Que ele estava a si perdido para sempre!
Os clérigos, em outras ocasiões, certamente repreenderiam a uma mulher que fizesse o que ela estava a fazer com Expedito; mas a angústia dela era tão grande, que eles sequer se animaram a fazê-lo. Um dos cardeais até mesmo disse, à meia-voz:
- Pois vejam como faríamos mal se houvéssemos denunciado a ele por ter tido mulher! A mulher é doida por ele, nunca se viu num velório uma viúva se comportar de maneira tão pungente ante o corpo morto do marido!
Alguns até mesmo se animaram a tentar dar a Violante algumas mensagens de alento; tais como: ele morreu como um mártir. Certamente está no céu a olhar por si! Pois Pedro de Verona, um dos inquisidores mais influentes da Idade Média, fora até mesmo canonizado por ter tido a uma morte como aquela! Quem sabe se não canonizavam a Expedito também?
Ela, soluçante, pouco ou nada conseguia responder. E quando o fazia, era somente para emitir gemidos de dor e tristeza profundas.
Teodora, com Julinho, tivera uma noite difícil; já não dormira na noite anterior, e naquela ainda tinha aquilo de velório. Com muito custo mantinha-se de pé, a cuidar do filho. Mas todos se surpreendiam ao ver que nem os filhos choravam pelo inquisidor-mor; apenas Violante derramara lágrimas por ele.
Enfim, após os devidos sacramentos, chegara a hora de levar o corpo dele para ser sepultado. Dele e dos demais frades do Santo Ofício mortos naquela noite, porém o dele era o que recebia mais destaque. Nessa hora, Violante teve de se levantar do chão, onde estava ajoelhada ainda a beijar as mãos dele, mas não conseguia; suas pernas não se firmavam. Enfim Timóteo se ofereceu para ajudá-la. Ela tentou, mas ao ver que levavam o corpo embora, aferrou-se às mãos dele e as beijou mais uma vez. E então, quando o corpo foi retirado de si, ela se agarrou à barra do hábito dele e implorou por si - ato que certamente agradaria muito a Expedito em vida.
- Não... não! Deixem-no aqui! Deixem-no aqui, não!
Enfim Timóteo conseguiu fazer com que ela se desvencilhasse dele; e ela, desesperada, o abraçou e deixou cair, com seus meneios, a mantilha com a qual fora à igreja.
- Ah, Timóteo...! Eu não quero que ele se vá, eu não quero!
E ainda a abraçar a mãe, Timóteo proferiu afinal:
- Finalmente, minha mãe, a senhora pode vir a me abraçar sem que meu pai nos impeça!
Mas ela nada ouviu, a soluçar de dor e de uma tristeza que poucas vezes se vira antes em Portugal pela perda de alguém.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Gente, tá difícil de escrever esses caps assim tensos! Parece ainda mais difícil do que fazer capítulo com violência explícita!
Mas enfim, saiu! No próximo, enfim, o sepultamento e o começo do período de luto. E também: Pedro e Timóteo sendo interpelados pelo Marquês de Pombal. Ih, será que vai dar treta?!
Abraços a todos e todas que estão lendo!
