Capitulo 25 - Esperança
"Pai, porquê que nós morremos?"
Ele olhou-a achando estranha uma pergunta daquelas para uma menina daquela idade... "Bem... É o ciclo da vida... Nós nascemos, vivemos e morremos..."
A menina ficou olhou para o pai com tristeza no olhar: "E tu, também vais morrer?"
"Um dia sim..." - ele olhou melancólico a natureza a sua volta sem saber do efeito devastador que o conhecimento da regras da natureza humana estava a ter na sua filha...
"Mas sabes Kaoru, o que importa não é o dia em que morremos, porque todos vamos morrer um dia... O que realmente importa é o que fazemos em vida."
"O que queres dizer pai?" - os olhos daquela pequena criança brilharam como se aquela frase tornasse a ideia da morte menos feia.
"O que eu quero dizer é que, enquanto vivemos, devemos dar o nosso máximo ás pessoas a quem amamos, devemos dar tudo por tudo para as fazer felizes... Assim quando chegar a nossa hora, deixaremos para trás só boas recordações."
"Tu fazes-me feliz papa!" - a menina sorriu e abraçou o pai.
Era um cenário muito bonito... os dois no meio da relva, com as flores, e as borboletas a voarem a sua volta. "Nunca desistas de lutar pela tua felicidade Kaoru... Nunca."
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"Nunca..."
"Pai!" - a Kaoru estendeu a mão na busca do personagem dos seus sonhos... "Pai..."
"Oh não, era só um sonho..." - a sua mão voltou lentamente para trás... "Porquê que foste embora?" nos seus olhos começaram a formar-se lágrimas...
Ela não ia aguentar aquilo por muito mais tempo...
Deitou-se novamente para trás... "O que se passou comigo?"
Aos poucos e poucos apercebeu-se que não estava no seu quarto do restaurante.
"O meu cabelo cheira a fumo..." - Recordou a noite anterior - "Ah? o Restaurante!"
Eu lembro-me de tudo estar em chamas, mas, a partir daí...
Olhou á sua volta... Era um quarto pequeno, havia uma pequena mesa baixa á sua frente e os seus chinelos estavam ao fundo dos seus pés.
Fechou os olhos tentando concentrar-se na noite anterior... Talvez conseguisse chegar á pessoa que a trouxe até ali.
Nos seus pensamentos havia uma mistura de felicidade e pânico...
O medo de morrer daquela forma contrastava com a felicidade de ouvir o nome dela ser pronunciado por ele...
"Kenshin."
Ouviu a porta lateral deslizar, mas não olhou pois as lembranças apesar de dolorosas traziam-lhe uma esperança... Embora que falsa, sempre era uma esperança...
Sentiu uma aragem... alguém estava perto dela... Era a altura de acordar dos sonhos e viver a realidade, ele nunca voltaria até tudo estar esclarecido...
"Obrigada por me ter salvo." - ela disse sem olhar para a pessoa...
Do outro lado houve silencio.
"Há uma coisa que ainda tenho que fazer antes de morrer... Obrigada por me salvar..."
Quando voltou o seu rosto para a pessoa que tinha entrado estremeceu.
Sentado apenas a trinta centímetros de distância dela, estava ele... A única pessoa que ela não contava ver naquele momento... Aquele que horas antes lhe tinha virado as costas sem sequer olhar para trás... A pessoa que fazia com que ela sentisse tudo aquilo que não deveria sentir...
"Ken...shin..." - ela deixou escapar...
Ouvi-la a murmurar o seu nome era algo delicioso... Quase irresistível após tudo o que se tinha passado na noite anterior... Após a salvar, decidiu trazê-la para aquele lugar... Não sabia bem porquê, simplesmente seguiu o seu instinto.
Quando a trouxe ela murmurava coisas sem sentido, o seu nome era uma delas, mas repetidamente sorria e agradecia por algo que ele não conseguia compreender... Quando a pousou no colchão verificou se os sinais vitais dela estavam bem e após isso, começou a limpar-lhe a cara que estava com cinzas e pó, que a faziam tossir... Teve de se controlar várias vezes para não a abraçar ou beijar cada vez que ela chamava inconscientemente por ele...Mas agora a Kaoru estava consciente, por isso, o murmurar do seu nome era real.
"O que precisas de fazer antes de morrer?" - ele perguntou friamente
Ela ainda estava perplexa. Tinha sido mesmo ele a salvá-la... E ela a pensar que tinha sido imaginação...
Recordou a pergunta dele... Ela sabia o que precisava de fazer, e sabia que a Tomoe era uma das chaves para a resolução daquele problema... Mas não podia dar-lhe aquelas informações assim. Ele nunca iria entender.
"Preciso de provar que estou inocente daquilo que me acusas."
"E depois disso, já podes morrer?" - ele perguntou
"O que importa é aquilo que fazemos na nossa vida. Quando morrer quero ter a consciência tranquila de que provei que não fiz nada de mal, aí poderás ter uma ideia diferente da que tens agora acerca de mim."
" Aí sim! E planeias fazer isso aliando-te aos meus inimigos?" - Apesar de manter uma calma aparente o Kenshin estava insatisfeito com aquela situação. Para ele, vê-la ao lado do Saito era muito confuso.
"Os teus verdadeiros inimigos estão mais perto de ti do que aquilo que imaginas..." - a Kaoru disse arrependendo-se de imediato.
"Tu falas como se soubesses de quem se trata... Se sabes porque não e dizes?" - era óbvio que ele não acreditava naquilo que ela tinha dito, mas estava a testá-la com o intuito de a apanhar a mentir.
"Se te dissesse tu nunca acreditarias em mim..." - A Kaoru levantou-se do futon - "Por isso é que te tenho que provar."
"Onde pensas que vais?" - ele tentou manter a frieza.
"Saber se estão todos bem." - Ele calçou os chinelos e preparava-se para abrir a porta do quarto quando as palavras dele a fizer parar:
"E tu? Serás que estás bem? Será que não andas metida em problemas? Ou será que te sentes ameaçada?"
Ela voltou-se para trás: "O quÊ? o que é que queres dizer com isso?"
Por mais que quisesse fazer de conta que não era nada com ele, não conseguia.
"Porquê razão é que te deves manter calada?" - ele perguntou caminhando na direcção dela.
"Eu não estou a entender." - Será que ele sabe? Como é que ele sabe?
"Estou a falar deste bilhete!" - ele retirou de dentro da sua roupa um pedaço de papel que ela conhecia bem. "Diz me Kaoru! Diz me a verdade! Chega de mentiras, Chega de jogos! Diz me a verdade!" - ele berrou. Apesar de tudo o que tinha acontecido, e apesar de ele acreditar que ela o tinha conhecido com o propósito de o enfraquecer, não conseguia deixar de se preocupar, de sentir que ela de uma forma ou de outra lhe pertencia.
Ela suspirou."Kenshin, eu na realidade não sei quem me enviou esse bilhete, aquilo que tenho, são apenas desconfianças."
"Isto é o que acontece com quem se mete com pessoas da laia das com quem tu andas metida!" - Ele guardou o bilhete novamente
"O que queres dizer com isso?"
"Será que é dificil de entender? Primeiro Shinomori Aoshi, um homem misterioso que guarda o castelo de Edo e que vive no submundo deste país, Haijime Saito, Lider da 3ª patrulha das forças de Shinsen, um homem frio e calculista capaz de tudo para atingir os seus objectivos sujos... Queres que continue?" - ele andava em circulos furiosamente.
"O Aoshi salvou a minha vida, tratou de mim quado tu não estavas lá para o fazer! E quanto ao Saito, isso são negócios..."
"Sim pois, sem contar que agora tens um novo trabalho não é?"
"Eu não sou nenhuma gueixa se é isso que estás a querer dizer!" - ela irritou-se, não tinha nada contra as gueixas pelo contrario, apreciava-as muito, mas ela não era uma delas. - "os meus negócios com o Saito são outros! Mas... Eu não tenho que te dar explicações... Tu puseste-me na rua num dia e no seguinte casas-te com outra!"
"Casei? Acho que não fui informado!" - ele exclamou
"Sim, com a prima do ... Iizuka."
Ele reparou na forma como ela pronunciou o nome do seu colega... Era como se tivesse nojo dele.
"A Tomoe, ela não tem nada a ver com esta situação..."
"O maior cego é aquele que não quer ver..." - ela murmurou
"O quÊ?"
"Nada!" - Ela suspirou - Mas porquê que não conseguimos falar como duas pessoas normais? "Onde estamos?"
"Num sitio seguro. Quando te tirei do restaurante em chamas, só me lembrei de te trazer para aqui... " - ele massajou as têmporas tentando pensar no que fazer a seguir.
"Eu preciso de voltar.."
"Para onde? O restaurante ardeu todo! Não tens sitio para onde ir. Será mais seguro para ti se ficares aqui!"
"Eu não posso ficar aqui!"
Ele enervou-se: "PorquÊ?"
Estou á espera de que o Saito me traga novidades acerca do Iizuka... talvez ele consiga provar que ele é o traidor... Se eu desaparecer agora não vou saber se ele conseguiu ou não."Eu não posso ficar aqui sozinha..."
"Eu estou aqui." - ele respondeu
"Ai é? E vais deixar a tua mulher, o teu trabalho de protector do Katsura para ficares aqui comigo? Depois de dizeres que não acreditas em mim?"
Da parte dele houve silencio. Ela tinha razão.
"Isso não faz sentido Kenshin..." - ela caminhou até perto dele e tocou-o no ombro - "Só se uma parte de ti sabe que eu nunca te menti, que eu nunca te quis fazer mal..." - sentiu um laivo de esperança a crescer no peito - "É isso Kenshin?"
Ele agarrou-a pelos braços e olhou-a nos olhos. Safira contra dourado... era um contraste muito grande. A forma como ele a olhava era estranha... Era como se estivesse numa batalha interior...
Porquê que eu não consigo pô-la de lado? Porquê é que me sinto atraído a ela? Porquê é que eu a quero proteger? "Eu vou levar-te para casa do Katsura!"
