Tendo feito sua última entrega do dia, Andreas vai ao encontro de Regina nas dependências da prefeitura. Estava acostumando-se com a ambientação naqueles prédios e suas modernidades ainda o confundiam. Felizmente, sempre havia alguma jovem bondosa disposta a auxiliá-lo.

Sorridente e muito elegante, a prefeita o recebe com um discreto abraço e um beijo no rosto. Algo comum entre os dois, em seus contatos.

- Sente-se, Andreas. O que tenho a dizer será objetivo, porém delicado.

Preocupado, o rapaz obedece à fala da mulher e mantém seus belos olhos fixos no rosto dela.

- Eu não sou uma mulher de rodeios ou romantismo. – ela se senta ao lado dele e segura suas mãos. – Adorei cada um dos minutos em que convivemos e que pude proteger e ensinar você. Foi um imenso prazer e confesso que me entristeci quando você foi morar nas colinas.

- Eu serei eternamente grato pelo...- Andreas é calado pelos dedos da mulher em seus lábios.

- Não estou cobrando nada. Sei que não seria de bom tom, manter um homem solteiro e belíssimo sob meu teto, sem vínculo algum com ele. – Regina mantém um sorriso suave em seus lábios pintados. – Confesso que me apaixonei por você.

Um sobressalto toma a alma do rapaz e ele se empertiga. A notícia provoca um leve choque.

- Sou uma pessoa muito forte e controlo muito bem os meus sentimentos, mas não fico isenta deles. – Regina beija a mão de Andreas. Sorri ao vê-lo enrubescer. – Serei direta porque tenho muitos compromissos no dia de hoje.

Ela espera alguma resposta que não vem.

- Andreas, eu quero fazer amor com você.

Nenhum sobressalto ou resposta. Regina entende.

- Eu gostaria de ser sua primeira mulher. – ela sorri ao perceber que agora as suas palavras estavam sendo compreendidas.

- Mas este convite deveria ter sido feito por mim.

- Você não tomou a iniciativa. Sempre deixei clara a minha intenção e o meu desejo por você. Percebi que não iria se manifestar, então decidi fazer a declaração. Quero você em minha cama, por uma noite inteira, como meu homem ou o que você quiser ser. O que me diz?

- Digo que a senhora é ousada, Majestade.

Regina levanta-se do sofá e retorna para sua mesa. Começa a folhear alguns papéis. Percebe quando Andreas levanta-se também e ouve sua respiração profunda. Ela levanta os olhos e o encara, esperando uma resposta.

- Fico encantado com o seu convite, Majestade, mas não serei o seu consorte. Tenho de declinar.

A prefeita emite um som risonho, rouco e assustador ao mesmo tempo. Volta sua atenção aos seus papéis.

- Não é convite, Andreas Verbenas. – uma expressão feroz surge no rosto bonito da mulher. – Ou devo pensar que sua companhia é exclusividade do pirata Gladius?

Andreas abre e fecha a boca, mas não consegue responder.

- Estarei esperando você às oito da noite em minha casa. Teremos um jantar. – ela sai de perto da mesa e caminha para a porta do gabinete. Gesticula para que o rapaz saia. – Aproveite este tempo e mude o corte de seus cabelos, além de comprar roupas mais modernas. Eu sei que você irá ao meu encontro.

Andreas sai da sala sem dizer nada. Apenas sai. Uma hora depois, Gladius entrega uma caneca com cerveja para seu visitante.

- Faça o que ela pede. Regina é uma mulher lindíssima e poderosa como prefeita e como conhecedora da magia. Caso ela se voltasse com um convite desses para mim, não hesitaria. Sabe que ela apenas comunicou para ser elegante. – o homem gigante dá de ombros. – Ela poderia simplesmente gesticular e pegar você. Dê o que ela quer!

- Não sei nem por onde começar. Já presenciei um casal na floresta, certa vez, mas já estavam no meio do ato.

Gladius acha graça na frase do rapaz.

- Não viu os preliminares? Mas isso é algo instintivo, meu amigo.

- Não mesmo. Instintivos, se fossemos animais irracionais. Precisamos de informações para o ato, como para qualquer outra coisa que vamos fazer. Como aprendeu a conduzir um navio como o seu?

- Observei e fui orientado. Leio muito e fiz cursos.

Andreas arqueia as sobrancelhas escuras e espreme os lábios.

- Como aprendeu a ler as coordenadas marítimas para conduzir seu navio? Como aprendeu a cozinhar? Como aprendeu a fazer suas próprias roupas? Como...

- Certo, Verbenas! Eu fui ensinado! – ele se rende. – Caso queira, posso dar algumas dicas para lidar com uma mulher.

- Regina disse que me queria como homem dela ou como o que eu quisesse ser. Há opções além de ser homem?

Gladius gargalha. Bebe um gole generoso de cerveja.

- A criatividade humana parece não ter fim, menino! Mas não creio que para sua primeira noite, seja prudente tentar inventar alguma bizarrice. Seja natural e não tenha vergonha de pedir orientações para ela. Pergunte o que gosta ou que não gosta...numa próxima vez, você terá mais tempo para pesquisar algo em livros ou na internet.

Andreas maneia afirmativamente com a cabeça. Estava acostumando-se com a presença da internet na vida das pessoas e já havia arriscado alguns momentos de navegação.

- Ela também exigiu que eu me modernize...roupas e cabelos...

O pirata alarga um sorriso e acentua sua expressão feroz.

- Então, vamos à luta!

Regina dá mais uma olhada em sua imagem refletida no espelho e gosta do que vê. Sorri ainda mais quando ouve o som da campainha. Aquela noite não seria tão entediante como as demais. Ao abrir a porta para seu convidado, ela simplesmente se esquece de respirar. Mas para que serve mesmo a respiração? Quem se importaria naquele momento?

- Boa noite, Majestade! – Andreas sorri e estende um buquê de flores brancas para a anfitriã.

Letárgica, Regina segura as flores e mantém os olhos fixos naquela figura parada em pé em sua varanda.

- Vamos jantar aqui em pé?

- Oh! Desculpe-me! – ela se afasta e gesticula para que ele entre na casa. – Você é...pontual!

Andreas mantém sua postura altiva e majestosa. Volta-se para a prefeita e estreita os olhos num sorriso mudo.

- Você está...divinamente lindo!

Sem modificar sua reação, Andreas continua encarando a mulher como se a sua vontade, fosse hipnotizá-la com a força daqueles olhos celestes e perversos.

- Apenas atendi à sua ordem, Majestade.

Estava difícil desviar os olhos daquela figura elegante e esguia, protegida por roupas escuras em corte modero. Sem preocupar-se com etiquetas, Regina olha-o de cima em baixo e admira cada detalhe daquela produção. Volta seus olhos para os cabelos escuros, outrora revoltosos, e os encontra mais curtos e cuidadosamente escovados.

- Você está incrível!

Andreas gesticula apontando a direção da sala de jantar e faz um convite mudo para que saíssem dali. Não poderiam ficar a noite toda, sendo observado como se fosse uma mera obra de arte.