Capítulo XXV

Harry olhava atentamente para a namorada, não gostava da idéia de ter que enfrentar Severo Snape, e menos ainda, a de que ele seria seu pai. Evitava, a muito custo, que essa revelação lhe causasse qualquer problema, guardava-a no fundo de sua mente, e por isso mesmo, deliberadamente, escondera do Ministério que Snape o ajudara a liquidar Voldemort. Não havia mais ninguém que pudesse dizer que ele estava ao seu lado naquela noite, só uma pessoa o vira agir daquele modo, só uma pessoa era testemunha do ocorrido, e por uma bravata do destino, ela estava ao lado de Snape e era sua amiga.

― Droga! - xingou, fazendo com que Gina se sobressaltasse, e depois o fitasse longamente sem dizer nada. Verdade seja dita: se não fosse a interferência de Snape, muito que provavelmente ele não estaria ali. Não queria lembrar-se disso, não queria admitir para si mesmo que devia sua vida àquele homem, e que talvez todas suas suposições sobre ele fossem erradas. Não, isso não! – sua alma esbravejava. Queria apenas sentir o ódio; ódio por ele ser quem era e ter deixado sua mãe morrer; ódio pelo que ele fizera a Dumbledore; ódio por tratá-lo da forma fria e irascível que sempre fazia; ódio por que quem deveria ostentar a famosa "Honra por Bravura" tinha que ser Severo Snape! Não que se importasse com a medalha, achava aquilo tudo uma mediocridade, mas era mais um motivo para odiá-lo. Bufou. Ele sabia, sentia que estava errado, mas o maldito ódio chegara primeiro e o cegara. Seus olhos verdes cintilaram, teve vontade de chorar e chutar tudo o que via a sua frente, e novamente sua mente gritou: Babaca! Pensou em Luna, e viu o rosto da amiga surgir a sua frente sorridente. Ela sim fora leal e verdadeira, acreditara no homem por trás da máscara, enxergara o que somente Dumbledore sempre estivera disposto a ver, e encontrara mais do que qualquer um buscava.

Os flashes daquela noite no cemitério surgiram em sua mente, Harry recuou até o momento em que viu Snape cair a seus pés. Era estranho perceber o quanto aquilo o afetara naquele instante, o desespero com que largou a varinha tentando conter o baque do corpo do ex-professor sobre o chão. O medo que sentiu ao vê-lo desacordado e coberto de sangue; queria fingir que nada do que estava acontecendo era real, mas Luna abaixou-se ao seu lado e como um anjo em meio às trevas anunciou tristemente o fim das suas ilusões. Ele foi atirado de encontro a tudo o que acreditava, e seu mundo mais uma vez ruiu. Aquele pequeno fragmento de sua vida ao qual se apegara ferozmente caíra por terra. Teve ódio da amiga, do Snape e de tudo que aquela maldita guerra representava. Enterrou Snape junto com a medalha em algum lugar de "Godric Hollows".

Harry começou a andar agitadamente de um lado para o outro do cômodo. Gina apenas o acompanhava com os olhos, esperando o momento em que ele tomaria sua decisão. Snape! – rosnava em seu interior – Maldito seja Snape! Parou fitando o céu através das vidraças a sua frente. Pensando bem, era incrível como ele estava sempre presente em sua vida. O defendera da azaração do professor Quirrel no primeiro ano de escola. Quando Harry e seus amigos foram até a Casa dos Gritos, no terceiro ano, ele também estava presente, e defendeu os três do ataque de Lupin. E ainda havia o dia em que vira as memórias de Snape na Penseira, e se confrontou com seu pai dentro delas, fazendo sua visão de Tiago mudar. "Seu pai", o termo lhe parecia tão estranho e vazio agora. Tiago não era mais seu pai. Foi até o armário próximo à cama onde Gina estava sentada, e abrindo a porta do meio, olhou-se no espelho. Harry fitou sua imagem refletida, sua figura esguia mudara um pouco aos dezessete anos, os cabelos já não estavam rebeldes, mas crescidos e lisos. Bufou. Talvez parecesse mais com Snape do que poderia perceber, ou até mesmo, do que estava disposto a aceitar. Fechou os olhos e se lembrou do Chapéu Seletor que quase o colocara na Sonserina, obviamente pelo seu sangue, pela necessidade de se provar, como ele mesmo dissera para Harry. Agora isso fazia sentido. Herdara do Snape, também, a habilidade com Feitiços e a Arte das Trevas, era engraçado pensar que na realidade esse dom não estava relacionado a sua ligação com Voldemort, era nato. Então sorriu, um sorriso contido e incerto. Gina não entendeu, apenas aceitou, sorrindo de volta. Harry não viu, estava entregue às novas emoções que borbulhavam em sua mente. O ódio por Snape começava a dar lugar a apreensão e a ansiedade de encontrá-lo. Tinha perguntas, queria respostas, e talvez, quem sabe, perceber que cometera um grande erro... Foi assim que se viu dizendo para Gina, o olhar ainda preso a sua imagem refletida no espelho:

― Está certo, Gina. Eu me encontrarei com o Snape.

Ela o encarou sorridente pelo reflexo, antes de se levantar e abraçá-lo.

Harry olhou a casa que se erguia a sua frente, parecia acolhedora, assim como o jardim envolto a ela. Ele atravessou o caminho sem pressa, ainda receoso. Gina havia se prontificado a vir com ele, mas Harry se negara a levá-la. A conversa que teria com Snape pertencia apenas aos dois. Foi imerso nesses pensamentos que chegou à porta de madeira entalhada e a viu abrir num convite para que entrasse. Pé ante pé, deslizou para o seu interior, a chama crepitante da lareira emprestava contornos lúgubres à figura de preto que estava erguida a sua frente. Harry não se intimidou, a atmosfera agradável do lugar contrastava com Severo Snape. O rapaz se adiantou até o meio da sala e se colocou ao lado do sofá esperando que ele lhe falasse.

Snape se virou calmamente encarando Harry em pretos intensos. O jovem a sua frente era bonito como a mãe, nisso não puxara a ele. Os cabelos pretos, esses sim semelhantes ao dele, e os olhos verdes que lembravam os de Lílian. Cada vez que os percebia angustiados era como se uma faca cortasse seu coração em pequenas partes. Como podiam achar que seu filho se parecia com Potter? As pessoas definitivamente enxergavam o que queriam ver, quando induzidas a isto. Snape deu um passo em direção ao rapaz e disse:

― Não esperava que aceitasse tão facilmente esse embate psicológico, Potter. Entretanto, devo admitir que estou feliz em vê-lo aqui. Mesmo que seja pela simples curiosidade de saber se sou seu pai...

Harry tentava imaginar o que dizer. Queira atacá-lo, queria entendê-lo, não sabia por onde começar. Snape, no entanto, foi mais rápido.

― Creia-me, gostaria de ter eu mesmo lhe revelado a verdade antes, mas não tive oportunidade – disse tentando parecer calmo, seus pensamentos borbulhavam. Não sabia o que o rapaz esperava dele, ou o que estava disposto a fazer. As conversas com o filho sempre terminavam em ataque mútuos e acusações.

― Não espera que eu aceite isso facilmente, não é? – rebateu Harry. – Você teve tempo suficiente para se revelar a mim, e agora resolve ser meu pai do dia para a noite! Por que nunca tentou, ao menos, se aproximar, ao invés de se manter frio e distante?

― Não seja tolo, Potter – disse ríspido. – Não vê que se o Lorde soubesse de quem você era realmente filho, ambos estaríamos sentenciados à morte? – os olhos verdes de Harry brilharam, mas Snape prosseguiu: - E ele teria acesso facilmente a essas informações, já que você foi incapaz de aprender a fechar sua mente – rebateu frio. - Como eu iria continuar a protegê-lo? Como iria manter a confiança do Lorde em mim, e assim, manter brilhantemente o meu papel?

― Devia ter protegido ela primeiro! – retrucou irritado, com os olhos cintilantes, o sangue em suas veias aquecendo. Ele também queria suas respostas. - Não acha que é tarde demais para recuperar esses anos todos ausente?

― Acha mesmo que eu deixaria Lílian morrer? – seu tom era mordaz, e Snape explodiu: - Acha que eu queria ter estado longe todo esse tempo, fingindo ser o que não era? Inventando uma máscara que colocasse qualquer um a distância?

― Acho que você era um Comensal... mentir e matar eram as coisas que fazia melhor – disse Harry, o olhar frio sobre ele – Você sempre teve acesso a certas informações, já que era um fiel seguidor de Voldemort – atacou. - Por que não tentou salvá-la? Sua ambição era mais importante do que ela? Do que eu?

― Cale-se, Potter – rosnou. – Isso já está passando dos limites, não vou tolerar que um pirralho como você conteste o que fiz.

― Pare de me chamar de Potter! – a raiva era latente.

Por breves segundos se encaram, os corpos arfando, e os olhos de ambos cintilando de raiva. A conversa estava cada vez mais difícil, o rapaz teimava em querer agredi-lo, e apesar da raiva que sentia ao ouvi-lo dizer cada palavra, naquele momento, não conseguia culpá-lo. Controlou-se, tinha que evitar entrar em confronto se quisesse ter o filho de volta, e retomou a conversa num tom mais suave.

― Sente-se, Harry – o menino encarou-o por mais alguns segundos, hesitando, e então, Snape ordenou: - Eu disse para sentar ou vai querer tirar suas próprias conclusões e ventilá-las por aí?

À contragosto, ele escorregou até o sofá, sentou-se desleixadamente e fixou o olhar no ex-professor.

― Eu vou lhe contar exatamente o que aconteceu entre sua mãe e eu – disse com voz um tom abaixo do normal, dolorida -, e espero que preste atenção a cada palavra, sem me interromper, entendeu?

Harry não respondeu, apenas percebeu que Snape estava muito pálido, e de certa forma teve pena do homem a sua frente. Atentamente ele ouviu Snape contar a história da sua vida, o início do romance que resultaria em seu nascimento, e um turbilhão de emoções se ergueram na sua mente. Primeiro, uma brisa aqueceu seu coração vendo como Snape se referia a sua mãe, o carinho não disfarçado atrás de cada palavra. Depois sentiu desprezo por ele ter escolhido o caminho das Trevas, deixando-a sozinha, e por último, sentiu a dor dele não ter conseguido evitar que ela morresse, mesmo tendo se arriscado, mesmo ainda não sabendo da existência de Harry. Apesar de querer odiá-lo ainda por tudo que lhe sobreviera, imaginava a dor que Snape sentira quando soube que o filho era seu, e que não poderia desfrutar disso durante longos anos. O querer tocar e não poder, o querer dizer e calar, o estar, mas não poder ser. Guardar isso dos olhos do mundo, se embrenhar em trevas, esquecendo de tudo. Ele viu Snape retirar um envelope amarelado de dentro das vestes e estendê-lo até suas mãos. Harry pegou-o e abriu, correndo seus olhos verdes sobre as linhas bem escritas do pergaminho. Era a carta onde sua mãe contava a Snape sobre sua paternidade.

― Por que ela lhe escondeu isso? – perguntou Harry surpreso. – Por que não lhe disse antes que era meu pai?. Afinal de contas, ela ainda o amava, não é mesmo?

― Eu acho que lhe dei motivos o suficiente para fazer o que fez... – olhos de Snape desviaram do dele, e continuou num tom mais baixo e cansado: – Ela estava casada com o estúpido do Potter, e isso a manteria mais segura do que ao meu lado... Talvez Lílian estivesse certa ao fazer de Tiago seu pai.

― Ela não lhe deixou escolha – retrucou Harry. Um pensamento cruzou sua mente e ele acrescentou: - Talvez você não quisesse um filho...

― Não vou admitir que você a julgue! – encarou o rapaz em pretos fuzilantes. – Lílian está morta e fez o que fez para protegê-lo! – esbravejou. – E sem tem alguma dúvida de como me sinto em relação ao seu nascimento, eu espero que os anos servindo como espião, tentando impedir que nada de mal lhe acontecesse, tenham ao menos o efeito de fazê-lo refletir mais atentamente sobre o que está dizendo.

Harry o encarou desafiante, não era a resposta que esperava. Snape percebeu, mas não cedeu aos caprichos do rapaz.

― Você não sabe o que é servir ao Lorde. Não sabe o que é, dia após dia, ver pessoas morrerem por coisas que direta ou indiretamente você fez – a voz de Snape era sóbria e ecoava pelo aposento. – Não sabe o que é carregar a culpa pela morte dessas pessoas, ou simplesmente, de alguém a quem amava. Você se torna frio e implacável, esquece que é humano. Você é apenas uma peça no tabuleiro, e que de uma hora para outra pode ser dispensada, destruída. – Seus ombros encurvaram enquanto ele continuava: – Não há nada do outro lado, nada que possa lhe trazer conforto ou refúgio, apenas dor e escuridão. Lílian estava certa em escondê-lo de mim, eu não seria um bom pai... eu abri mão de tudo que me era caro, me vendi. E ela sabia tão bem quanto eu que não haveria volta. Quando se opta pelas Trevas, ela se torna parte de você e nunca mais o deixa. É difícil voltar a amar...

― E Luna? – perguntou o rapaz. – Você não a ama?

― Luna... – seus olhos pretos brilharam. – Ela me fez lembrar sua mãe, o mesmo olhar doce, a mesma sinceridade nas palavras. – A voz tornou-se fria quando ele acrescentou: - E, maldição, o mesmo problema! Eu a deixei se expor, fui suficientemente idiota para permitir que tudo se repetisse... Só que dessa vez eu não vou me afastar, não vou me omitir. Eu arranco Luna daquele Ministério com meu filho, e sou capaz de matar quem tentar me impedir.

― Um filho? – Harry se espantou.

― Parece que é minha sina – crispou os lábios. Intimamente, gostara de saber que Luna carregava um filho seu, apesar de sua única experiência nesse terreno estar com 17 anos e bufando na sua frente. Com sarcasmo, acrescentou: – Mulheres, filhos e encrencas.

― O que exatamente você fez? – perguntou o rapaz. Snape viu a si mesmo quando Harry adotou uma posição impassível ao fazer aquela pergunta, mas esperou que ele completasse seu discurso. – Não bastava um filho distante? Agora são dois? – Os olhos verdes faiscaram. Era impressão sua ou havia uma ligeira nota de ciúmes por trás daquelas palavras? – pensou Snape, e interiormente sorriu, antes de responder calmamente, evitando qualquer reação tempestuosa da parte de Harry.

― Tecnicamente, uma tolice – disse calmo -, sentimentalmente, acho que posso denominar como amor.

Viu o semblante de Harry torna-se sereno, mas o rapaz nada disse, e então, acrescentou sério:

― Preciso de sua ajuda, Harry - Harry o encarou durante segundos que pareciam infinitos. Aquela era, positivamente, uma frase que nunca pensara ouvir de Snape, e o pegou de surpresa, desarmando-o.

― Sabe - hesitou antes de prosseguir, não sabia como exatamente se dirigir aquele homem -, Snape - talvez devesse ter dito pai, eles se entreolharam, mas o Mestre de Poções não pareceu se importar com o fato dele lhe chamar daquela forma. Harry tomou coragem de prosseguir –, eu não concordo com a posição do Scrimgeour. E, como você, também temo pela vida de Luna. Ela é minha amiga, apesar de... – ia completar com a frase: "dela está esperando um filho seu", mas as palavras morreram. Sentia-se perturbado pelo fato da amiga ser sua futura madrasta, e ainda havia o pirralho que iria chegar. Bufou. Esse também não era o sentimento que queria ter, afastou-os. Tinha que se concentrar em mantê-los a salvo, e finalmente completou: - termos nos afastado um pouco nos últimos meses.

― Você terá que admitir em público que omitiu, deliberadamente, a informação de que o ajudei naquela noite – disse Snape com voz de seda. – No entanto, ouso crer que a carta de sua mãe e minha postura fria e inflexível servirão de desculpa para tal reação de sua parte.

― Está sugerindo que eu procure a imprensa? – inquiriu Harry, e concluiu: - Não podemos fazer isso através do Pasquim, precisamos do Profeta...

― E da Skeeter – acrescentou Snape. – É a ela que deve procurar e prometer exclusividade. Vamos desmascarar Rufo com a ajuda dela.

― O que tem em mente? – Harry perguntou curioso.

― Algo arriscado, mas que se der certo, nos dá xeque-mate – respondeu Snape com pretos brilhantes. – Eu quero que ofereça minha cabeça num bandeja de prata para o Ministro, quero que troque as cartas por Luna.

Harry o fitou surpreso, mas depois sorriu, começava a entender o plano de Snape.

― Você quer que eu o traga para uma armadilha e arranque a confissão de todos seus pecados – completou o rapaz. – E Skeeter estará à espreita para lançar tudo na imprensa. Correto?

― Perfeito – assentiu Snape. – Não é o modo pelo qual eu agiria normalmente, mas é o que menos expõe Luna ao perigo. Se eu decidisse colocar uma poção letal no suco de abóbora matinal dele, iria terminar com as coisas mais rapidamente, mas arriscaria demais a vida dela. Scrimgeour não é tolo, ao contrário do que o Sr. Lovegood pensa, eu não acredito que Luna ainda esteja no Ministério. Ele a levou para algum lugar seguro, e se morrer, perdemos o rastro dela. Entretanto, esse plano nos dá a vantagem de não sujar nossas mãos e acabarmos com a brilhante carreira deste canalha – crispou os lábios formando uma linha fina de sorriso. – Não será difícil convencê-lo de sua antipatia por mim, afinal não nos toleramos, não é?

Snape o fitou, o rapaz pareceu terrivelmente afetado por aquelas palavras, e se colocou de pé, a sua frente.

― Eu não diria isso – balbuciou -, não mais... Acho que posso tolerar a convivência com você, e quem sabe – seus olhos verdes viram pretos reluzir, e acrescentou meio sem jeito -, eu ainda o chame de pai... talvez, algum dia..

― Eu não estou pedindo nem um rompante amoroso, Harry – rebateu Snape seco.

― Sei que não – disse Harry sem se importar pela primeira vez, com o tom adotado por ele -, mas eu gostaria de saber que tenho uma família... – a voz dele embargou.

Agora era Snape que se sentia atingido. Uma sensação desconfortável de impotência diante das palavras de Harry, o fez recuar. Não esperava que ele aceitasse tão facilmente o fato de ser seu filho, mas sabia como tinha sido dura a vida do garoto e sentia-se culpado por isso. Os olhos verdes turvaram, e as lágrimas desceram, era tão estranho ter vontade de abraçá-lo ao invés de ser rude com ele. Snape o olhava, a sobrancelha se levantou em sinal de surpresa, e num gesto rápido, envolveu-o num abraço. Harry se retesou, mas aos poucos deixou ser acarinhado pelo pai, sentindo-se seguro, em casa.

A noite já havia se aprofundado, quando Harry devolveu o copo de vinho à mesa e levantou-se para sair. Não se lembrava de se sentir tão feliz desde que Sirius dissera ser seu padrinho e o chamara para morar com ele. Sim, estava feliz, talvez pelo efeito do álcool, ou talvez pelo fato de ter um pai vivo. Harry se despediu, mas Snape o interpelou antes de sair.

― Quero lhe mostrar uma coisa antes que você vá – disse estendendo-lhe um envelope. – Esta foi a carta que Dumbledore me deixou, quero que a leia.

Ele tomou a carta nas mãos e correu os olhos pelo pergaminho. Reconheceu imediatamente a caligrafia do diretor, e sentiu um alívio incrivelmente maravilhoso. Snape era realmente leal a Dumbledore. Devolveu a carta ao dono, dizendo:

― Vou colocar o plano em prática e assim que tiver tudo pronto, o aviso – e antes que Snape tentasse se arriscar, querendo ajudá-lo, acrescentou: - Não haja como Sirius, se arriscando irresponsavelmente, apenas aguarde. Pense que tem dois filhos para cuidar agora...

Deixou Snape sozinho envolto em seus pensamentos e saiu para a noite fria. Um sorriso aflorou em seus lábios, estava feliz, e porque não dizer, orgulhoso do pai que ganhara. Quando começou a sentir-se assim? Bom, talvez no instante em que Snape, enfim, baixara suas defesas. Quando sentiu que era amado, à maneira de Snape, mas ainda assim, amado...