CAPÍTULO 25
Continuei observando-o enquanto ele dormia tranquilamente, até que Gina me fez voltar à realidade me lembrando que ainda havia uma mãe curiosa me esperando do lado de fora.
- Já que você viu o nível de estresse dela, – falei assim que saímos para o corredor – qual é a probabilidade de ela aceitar pagar a conta do hospital sem reclamar?
- Conta? Esse hospital não é público? – Gina perguntou me parando antes que atravessássemos a porta dupla que dava para a sala de espera.
- Também pensei isso, mas descobri que é semi-privado.
- Ah – ela falou e então sorriu – Não se preocupe com isso. Deixa que eu pago tudo.
Ela voltou a andar, mas eu a segurei pelo braço.
- De jeito nenhum – me recusei prontamente.
- É o mínimo que eu posso fazer Suze.
- Você não tem porque fazer isso.
- Claro que tenho. Jesse é meu amigo também.
- Eu sei, mas...
- Nada de "mas". Você já fez a sua parte fazendo-o voltar à vida. Até Paul que mal o conhece também está ajudando com a documentação. E você aceitou a ajuda dele. Porque não aceita a minha?
Falando dessa forma...
- Tem certeza?
- Claro. – ela sorriu e nós entramos na sala onde minha mãe e o resto da família aguardava. – Agora vai lá. Boa sorte com a sua mãe. Eu vou resolver logo isso na recepção.
Me aproximei de onde todos estavam sentados e dessa vez ninguém se levantou. Minha mãe porque Andy a segurou na cadeira, e Jake e Brad porque os dois estavam quase dormindo sentados. Eu disse "quase".
- Até que enfim – Brad exclamou com a voz rouca de sono, mudando de posição na cadeira – Pensei que tinha esquecido que estávamos te esperando.
- Ninguém pediu para você vir, Brad – Andy falou embora também parecesse cansado pela espera. Ou pelo horário.
Olhei por uma das janelas e vi que o sol já estava nascendo. Me senti um pouco mal por ter feito com que eles viessem até aqui, embora eu só tenha pedido mesmo para a minha mãe. Brad veio porque... Porque tinha sido mesmo?
- E perder de ver a Suzinha levando uma bronca? – Brad perguntou com um sorriso perverso no rosto – Nunca!
Estava explicado. Idiota!
Sentei na cadeira vaga ao lado da minha mãe e notei as manchas escuras que apareciam debaixo dos seus olhos.
- Mãe, e o seu trabalho? – eu perguntei preocupada com o fato dela ter dormido tão pouco aquela noite e ainda ter que trabalhar daqui a pouco. Aliás, não só ela – O seu também Andy. Vocês devem estar cansados e é minha culpa.
- Não se preocupe com isso, querida – Andy respondeu. Pelo menos ele não parecia chateado comigo – Nós não vamos trabalhar hoje.
- Por que não? – não que eu estivesse reclamando, mas eu nunca vi nenhum dos dois deixando de ir trabalhar por motivo algum.
- Nós já não íamos trabalhar na parte da tarde porque vamos pegar David na rodoviária – com tanta confusão acabei esquecendo que Dave voltava hoje do acampamento. – Então resolvemos tirar o dia todo de folga.
- E agora que está tudo esclarecido da nossa parte – minha mãe começou – chegou a sua vez de nos dar explicações, mocinha.
- O que foi que Gina falou para vocês? – perguntei inocentemente.
- O que importa é o que você vai nos dizer. – minha mãe falou.
Ela provavelmente devia estar pensando que eu estou com medo de contradizer alguma história. E o pior é que eu estava.
- Eu só não quero ficar repetindo o que vocês já ouviram. – tentei me safar.
Não deu certo.
- Não me importo de ouvir de novo. – ela respondeu como se me desafiasse.
Minha mãe de besta não tinha nada. Ela podia até acreditar quando eu contava umas mentirinhas para ela, mas tudo tinha seu limite.
Ok. Vamos lá. Respira fundo. Se concentra. Gina tinha dito que iria contar a mesma história que eu tinha contado aos policiais. Então eu comecei do mesmo jeito.
- Bem, eu estava andando na rua quando...
- Do começo Suzannah – minha mãe me interrompeu – O que você estava fazendo fora da cama à uma hora dessas?
- Certo. Do começo. – respirei fundo mais uma vez – Eu não estava me sentindo muito bem, precisava espairecer um pouco.
- E precisou vir até aqui para isso? – ela perguntou com a sobrancelha arqueada.
Vamos lá, Suze, você pode fazer melhor do que isso!
- Na verdade eu fui para a praia, mas eu comecei a ficar com frio então resolvi andar um pouco para me aquecer.
- Não era mais fácil se aquecer em casa?
- Não. – eu respondi séria – Eu precisava de um pouco de paz. Já estava começando a me sentir sufocada com vocês me olhando como se eu fosse uma louca que estivesse prestes a surtar. – e isso não era de todo uma mentira. Eu realmente estava me sentindo assim nos últimos dias – Eu queria chorar um pouco sem que ninguém viesse me abraçar e dizer que tudo ia ficar bem.
Todos agora me encaravam de olhos arregalados e completamente mudos. Fiquei com um baita peso na consciência por estar falando aquelas coisas. Era como eu me sentia, mas não tinha sido por isso que eu tinha saído. Embora eu achasse que mais cedo ou mais tarde isso iria acabar acontecendo mesmo.
- Então eu comecei a andar – eu continuei ignorando suas expressões chocadas –, mas eu estava distraída e acabei não vendo por onde ia. Quando vi que já estava muito longe eu resolvi voltar. Foi quando aquele homem me encurralou numa rua escura. Ele queria dinheiro, mas como eu não tinha nada, ele tentou me agarrar. – cheguei à parte que me traria mais perguntas e problemas – Foi quando Jesse apareceu.
- Jesse?
Começou.
- Isso.
- E você conhece esse Jesse? – ela perguntou com uma sobrancelha arqueada.
Não tinha mais porque mentir sobre isso. Não queria mais mentir.
- Sim.
- Gina disse que vocês não se conheciam. – ela falou como se me pegasse na mentira.
Eu já imaginei que isso aconteceria.
- Eu pedi para ela não contar nada. – expliquei calmamente – Eu mesma queria falar com a senhora sobre isso.
Pela sua expressão eu pude notar que ela ficou satisfeita em ouvir aquilo. Saber que eu não queria que outra pessoa contasse para ela algo tão importante quanto isso. Não que ela soubesse o quanto aquilo era importante para mim, mas mesmo assim...
- De onde vocês se conhecem? – ela perguntou já não tão desconfiada quanto antes.
Ok. Lá vai a bomba. Respirei fundo mais uma vez e olhei diretamente nos seus olhos.
- Jesse é... meu namorado. – pronto. Falei.
Sua expressão começou a oscilar entre espanto, confusão e incredulidade. Pareceu que ela iria falar alguma coisa, mas desistiu na última hora. Depois tentou falar de novo e acabou se engasgando. Com o quê? Ar? Saliva?
Os outros ficaram em silêncio embora eu pudesse perceber que Brad estava se contorcendo na cadeira com vontade de soltar uma de suas piadinhas sem graça. Ele que tentasse! Jake também não parecia muito confortável com a situação, mas parecia menos propício a falar besteira.
- Seu... o quê? – Andy perguntou quando minha mãe não conseguiu formular nenhuma frase coerente.
- Namorado. – falei com calma. – Jesse é meu namorado.
Gina chegou nessa hora, mas hesitou quando viu em que parte da história nós estávamos. Eu a encarei fazendo um sinal de que ela deveria sentar. Ela foi para perto de Jake e sentou ao seu lado e ele passou um braço pelos seus ombros, puxando-a para mais perto.
Minha mãe pareceu despertar do surto e me encarou séria.
- Desde quando? – ela perguntou num esgar.
Resolvi ser o mais sincera possível com ela nessa parte.
- Eu o conheci assim que cheguei a Carmel. Nós começamos a namorar algum tempo depois.
- Vocês... estavam – ela pigarreou para tentar melhorar o tom de voz que ainda saía estranho – Vocês estavam juntos todo esse tempo?
- Até algumas semanas atrás.
Então ela pareceu compreender alguma coisa que estava por trás das minhas palavras.
- Até o dia do seu aniversário. – não foi uma pergunta. Eu apenas confirmei com a cabeça – Foi por causa dele que você ficou daquele jeito?
- Sim.
- Porque um carinha qualquer te deu o fora você acabou com a sua festa de aniversário e ficou feito uma morta-viva pela casa por todas essas semanas?
Eu me empertiguei com suas palavras e tive que me controlar para não responder de forma grosseira.
- Jesse não é um carinha qualquer mãe. – eu falei por entre os dentes, tentando ficar calma – Ele é meu namorado.
- Que tipo de namorado é esse que te deixa arrasada daquele jeito? – ela perguntou me desafiando. Preferi nem responder. – Porque ele terminou com você?
Como é que eu falo para a minha mãe que meu namorado me deixou porque ele estava morto e não queria estragar minha juventude? Não fala, certo? Olhei para Gina tentando buscar alguma inspiração, ou melhor, uma ajudinha qualquer, mas a super amiga estava de cabeça baixa como se não quisesse se envolver na situação.
Certo. Já percebi que estou sozinha nessa. Vamos lá. Eu consigo.
- Ele... precisou viajar. – improvisei.
- Viajar? – pela cara dela o meu improviso não tinha sido muito bom. – E você ficou naquela depressão porque ele viajou?
- Ele não ia voltar, mãe. – expliquei pacientemente – E ele terminou tudo por que... não achava saudável me deixar... presa a um relacionamento que não teria futuro – pelo menos essa parte era verdade. – Sabe como é. Esses namoros à distância nunca dão certo. Sempre rola insegurança e ele não queria que o que a gente tinha terminasse desse jeito.
Epa. Agora eu fui bem. Até Gina ergueu a cabeça e me encarou com um leve sorriso no rosto.
- E agora ele voltou? – Andy perguntou desconfiado.
- Sim.
- Para ficar ou só está de passagem? – ainda desconfiado. Já vi que não seria muito fácil para ele aceitar Jesse.
- Para ficar.
- Porque ele voltou? – foi a vez da minha mãe perguntar com o cenho franzido.
Essa era fácil.
- Por que ele não conseguiu ficar longe de mim. – ela me encarou séria – Assim com eu não estava conseguindo viver longe dele.
Ela ficou em silêncio por algum tempo e pareceu ter acreditado em tudo que eu falei. Ponto para mim. Acho que a carreira de atriz é a minha vocação. Já tenho tanta experiência.
- Suzannah – ela falou em um tom baixo como se só quisesse que eu ouvisse, mas o silêncio naquela sala era tão grande que essa era uma missão perdida. – Isso não é meio... – ela fez uma pausa como se tentasse achar a palavra certa – doentio?
- Como assim, mãe?
- Essa... – mais uma pausa em busca da palavra ideal – dependência não é boa pra ninguém.
- O que não é bom para mim é ficar longe dele. – eu respondi e ela viu a seriedade das minhas palavras – A senhora viu como eu fiquei quando ele foi embora. Eu posso lhe garantir que ele não ficou melhor.
- Você o ama? – Andy perguntou já menos desconfiado.
Isso estava meio óbvio, não estava?
- Muito. – respondi fitando-o intensamente.
Essa resposta pareceu ser o suficiente e ele se recostou na cadeira, deixando que minha mãe conduzisse o resto do interrogatório.
- O encontro de hoje à noite – ela começou – foi proposital?
- Não. Eu não sabia que ele estava na cidade. Ele tinha acabado de chegar.
- Ele é algum aluno da escola?
- Não. – outra parte complicada – Ele já terminou os estudos.
- Quantos anos ele tem? – foi a vez dela de ficar desconfiada e franziu o cenho me encarando cheia de suspeitas.
- Vinte. – então eu olhei para Gina com medo de que ela não tivesse passado essa informação precisa para Paul. E se os documentos dele viessem com outra idade?
Mas ela apenas acenou com a cabeça de leve confirmando a minha informação.
- Onde ele mora?
- No momento em lugar nenhum – sinceridade mais uma vez, ou parte dela – Ele tinha acabado de chegar de viagem e estava hospedado em um hotel.
- Ele não tem família aqui? – ela perguntou com o cenho franzido de novo. Alguém já falou para ela que essa expressão só faz com que as rugas apareçam mais rápido?
Ai mãe! Não faz pergunta complicada. Eu acho que já esgotei minha capacidade de inventar histórias por hoje.
Eu suspirei pesadamente e me recostei na cadeira assim como Andy tinha feito, mas eu só fiz isso porque queria ganhar tempo para pensar em uma resposta.
- Suze – Gina chamou inclinando-se um pouco na minha direção. Mesmo se ela tentasse me passar alguma desculpa, não haveria a mínima possibilidade da minha mãe não ouvir. – Você parece cansada. Quer que eu continue? Afinal eu já conheço essa história de trás para frente. – Eu lhe direcionei um olhar suplicante e ela sorriu um pouco olhando de mim para a minha mãe. – Isso é, se a senhora não se importar. – ela falou com uma cara de amiga super prestativa.
Minha mãe se virou para me olhar e eu tratei de colocar a máscara do cansaço no meu rosto. Não que eu não estivesse cansada, mas também não era para tanto. E para Gina se oferecer para falar naquele momento era porque ela já tinha alguma coisa traçada em mente. Minha mãe assentiu com a cabeça dando sinal verde para que Gina falasse e mudou de posição de forma a ficar de frente para Gina e de costas para mim.
- Ok. Respondendo à sua pergunta sobre Jesse ter família aqui: ele tinha. Um irmão. – lembrei de controlar a minha expressão para não demonstrar que eu estava achando a história interessante – Os dois moravam juntos aqui em Carmel desde a morte dos pais.
- Os pais deles morreram de quê? – minha mãe perguntou curiosa.
- Assalto. A polícia acredita que eles reagiram, mas hoje em dia nunca se sabe – Gina respondeu como se aquilo fosse um assunto muito antigo – Já faz mais de um ano. Eles moravam em New York, mas depois do que aconteceu, ele e o irmão, Diego – Diego? Ela tinha mesmo que usar esse nome? –, resolveram se mudar para um lugar mais tranqüilo.
- Minha nossa. Que coisa terrível – minha mãe exclamou chocada – Perderem os pais assim de forma tão brutal.
Pelo menos ela estava caindo na mentira. Boa, Gina!
Ok. Peso na consciência de novo. Mentir para a mãe é um baita pecado, mas como é que eu iria contar a verdade para ela? Ela no mínimo mandaria me internar e me deixar sob o efeito de remédios pelo resto da minha vida.
- Pois é. – Gina falou em um tom baixo e eu pude notar pela sua expressão que ela estava orgulhosa pelo feito. – Diego sempre foi muito apegado ao irmão e ele viu o quanto Jesse ficou abalado pelo que tinha acontecido, então ele pediu que Jesse tirasse esse ano que passou para se divertir um pouco antes de começar a estudar para alguma faculdade. E foi o que Jesse fez. – ela suspirou como se tivesse lembrado uma coisa muito triste e sua expressão se alterou para um profundo pesar – No final do ano passado eles voltaram para New York para visitar o túmulo dos pais e resolveram passar o Natal e Ano Novo por lá. Jesse voltou logo em seguida por que não agüentava mais de saudades dela – ela falou apontando na minha direção com a cabeça –, mas Diego ficou. Ele queria rever alguns amigos. Uma semana antes do aniversário de Suze, Jesse recebeu uma ligação da polícia de New York dizendo que seu irmão tinha se envolvido em um acidente de carro.
- Meu Deus! – minha mãe exclamou levando uma mão à boca. – Ele...?
- Sim. – Gina respondeu num suspiro. – Ele ainda foi levado ao hospital, mas morreu logo depois. – mais um suspiro – Jesse ficou arrasado.
- Natural. Ele tinha acabado de perder o único parente próximo.
- Ele foi para New York velar o corpo do irmão e foi lá que ele resolveu que estava na hora de começar a tocar a vida dele. Os pais dele sempre sonharam que um dos filhos, ou os dois, um dia iriam entrar para Harvard. Diego foi o primeiro a desconsiderar essa hipótese. Ele nunca fora muito de estudar. Mas Jesse não. Ele queria realizar o sonho dos pais mesmo que esse não fosse o sonho dele. – eu estava completamente chocada com a capacidade de Gina para criar uma história tão bem elaborada. Minha mãe não teria como não acreditar. Eu acreditaria se não soubesse a verdade. – Ele voltou para Carmel e contou a sua decisão para Suze. Eu acho que eles até pensaram em manter um relacionamento à distância, mas Jesse não achou justo fazer isso com ela. Então ele terminou o namoro. Ele quis deixá-la livre para seguir a vida dela. No mesmo dia do aniversário de Suze ele partiu para Massachusetts para começar a estudar. Mas, como todo mundo pôde ver, isso não deu muito certo para nenhum dos dois.
- Mas ele não poderia ter ficado estudando aqui mesmo? – Andy perguntou depois de muito tempo apenas ouvindo – Ele não precisava ter ido embora tão rápido assim.
- Eu também achei isso – Gina respondeu de pronto – Mas parece que lá em Massachusetts tem um pessoal que se reúne quase todos os dias para estudar para o SAT ou algo do tipo. Ficaria mais fácil para ele entrar na Universidade de Harvard.
- E ele não vai estudar mais? – minha mãe perguntou me olhando finalmente.
- Er... – agora a bomba voltou para mim – Eu só sei que ele desistiu de estudar longe de mim. Mas eu não sei os planos dele para o futuro. Não sei se ele vai querer estudar em Harvard. – Gina tinha mesmo que escolher essa Universidade? Não dava para ela inventar algo menos pomposo?
- Ele vai desistir de um sonho assim tão rápido? – ela comentou como se não aprovasse a atitude.
- Não era um sonho dele, mãe. – eu a lembrei.
- E qual é o sonho dele então?
Boa pergunta.
- Só o que eu sei é que nós não vamos mais nos separar.
- Lá vem você com essa dependência de novo.
- Não é dependência mãe. A gente se ama. – eu falei com calma – Eu não consigo ficar longe dele e ele não consegue ficar longe de mim. Simples assim.
E finalmente as perguntas pareciam ter acabado. Pelo menos por enquanto. Minha mãe se recostou na cadeira também e encarou Andy talvez esperando que ele fizesse mais alguma pergunta, mas ele parecia satisfeito com a história. Então ela voltou à atenção para mim novamente.
- Por que você não quis que eu soubesse de vocês?
- Hum – pensa, pensa... – No começo porque eu não sabia no que ia dar, e depois... bem, eu gostava das coisas como estavam. Só eu e ele, sem pressão ou cobranças.
- Eu jamais iria interferir na relação de vocês, minha filha.
- A senhora fala isso agora, mas a senhora não reagiu muito bem quando eu falei agora a pouco que Jesse era o meu namorado. Parecia que ia ter um treco.
Ela corou e desviou o olhar.
- Eu só fiquei surpresa. Mas eu não faria nada para atrapalhar o namoro de vocês.
- Pelo sim ou pelo não, eu escolhi ficar na dúvida. – falei dando de ombros.
- E você vai nos apresentar agora?
- Vou. Quer dizer... não agora. Ele está descansando. Depois vocês se conhecem.
E eu ainda tinha que dar um jeito de contar para ele toda essa história antes que minha família caísse em cima dele.
- Você também precisa descansar, Suze. – Andy lembrou – E tomar um banho. – ele falou apontando para as minhas roupas.
Só então eu percebi as manchas no meu casaco. Eu não tinha notado antes porque o casaco era preto, mas dava para perceber o brilho levemente avermelhado que se espalhava pelo tecido. Sangue. Sangue de Jesse que passara para a minha roupa quando eu o trouxe para cá.
- Vai pra casa, Suze. – Gina falou se levantando – Eu fico aqui até você voltar.
Ela foi logo me empurrando para a saída do hospital. Minha família veio logo atrás. Andy foi pegar o carro no estacionamento e nós ficamos esperando na entrada. Eu aproveitei que minha mãe estava reclamando com Brad por ele estar cantando uma enfermeira que passava por ali e puxei Gina para um canto.
- Gina, você dormiu tanto quanto eu. – eu reclamei.
- Dormi bem mais que você. – em parte era verdade. Eu não dormi – E eu fiquei na minha cama boa parte da noite enquanto esperava por notícias. Até cochilei algumas vezes. E – ela deu um sorriso vitorioso – alguém tem que contar a história da vida dele quando ele acordar. Quem melhor para fazer isso do que a mente brilhante que a inventou?
Eu não pude deixar de rir.
- Foi mesmo brilhante – eu a puxei desajeitada e a abracei – Obrigada, Gina. Você é uma amiga e tanto.
- Eu sei. E pode dizer que eu sou genial também.
- E modesta.
- Eu sei disso também.
Gina era realmente incrível. Nem parecia que nós só nos conhecíamos há alguns meses. Parecia mais que nos conhecíamos por toda uma vida. Eu nunca pensei que poderia ficar tão amiga de alguém assim. Ela era a irmã que eu nunca tive.
O que me fez lembrar de outra irmã. Stephanie.
Assim que pensei em seu nome, ela se materializou a nossa frente.
- Que susto, Steph. – Gina exclamou levando uma mão ao peito. – Não dá pra avisar quando for aparecer assim?
- Da próxima vez eu toco a campainha. – então ela me olhou com muita raiva – Eu só não te bato, dona Suzannah, porque tem testemunhas, mas da próxima vez que você fizer uma coisa desse tipo...
- Me poupa do sermão, Steph. – eu a interrompi sem deixar de sorrir – Posso te pedir um favor?
- É né? É só para o que eu sirvo mesmo. O que é?
Eu ignorei a hostilidade dela e retirei o retrato do bolso do casaco.
- Você pode devolver isso ao museu para mim? – eu pedi e a informei o local exato onde ela deveria colocar.
- Deixa comigo.
- Steph, você pode vir para cá depois? – Gina perguntou observando o Land Hover de Andy que se aproximava.
- Pra quê?
- Como pra quê? Pra me fazer companhia.
- Agora você quer minha companhia, não é, sua ingrata. Mas na hora que você saiu de casa pediu para eu não vir junto.
- Você queria vir para assombrar o hospital!
- Você anda muito sem graça ultimamente. Senso de humor zero.
- Gina – eu as interrompi rindo – Eu vou ter que ir agora e vai ficar parecendo que você está falando sozinha então...
- Tá, tá. – Stephanie respondeu – Eu vou resolver logo isso – ela falou mostrando a miniatura – e depois eu volto pra fazer companhia para minha querida irmã.
O sarcasmo era óbvio na sua voz. Ela desapareceu em seguida e eu abracei Gina.
- Qualquer coisa me liga, ok? – pedi enquanto me afastava em direção ao carro.
- Pode deixar.
Todo o percurso até a minha casa foi feito em silêncio. Não sei se por falta do que falar ou se pelo sono, mas eu achei ótimo. O sol já tinha nascido completamente apesar de ser muito cedo. Era isso o que eu gostava de Carmel. O dia clareava cedo e escurecia tarde dando a impressão de que os dias eram mais longos. Embora eu não apreciasse muito isso nos dias de aula já que parecia que as torturas dos professores nunca acabariam, mas durante as férias era tudo que eu precisava.
Assim que chegamos em casa minha mãe me arrastou para a cozinha e me forçou a comer alguma coisa. Andy insistiu em fazer um café da manhã incrementado e obrigou os filhos a comerem também.
- Vocês já comem cereais todas as manhãs. É bom comer algo saudável de vez em quando.
- Cereal é saudável. – Jake retrucou sentando à mesa a contragosto.
Essas foram as únicas palavras trocadas à mesa. Eu comi pouco e rápido porque queria tomar logo um banho e descansar para poder voltar o quanto antes ao hospital. Minha mãe não reclamou da minha pressa para comer, e também não gritou comigo quando eu subi as escadas correndo para o meu quarto. Acho que ela ainda estava tão chocada com tudo que tinha acontecido que demoraria um pouco para ela voltar ao normal.
Depois que tomei um banho e sequei os cabelos de qualquer jeito, vesti um pijama e me joguei na cama. De início eu pensei que não conseguiria dormir. Eu ainda estava agitada depois de tudo que eu passei e minha mente estava a mil. Mas foi só eu encostar a cabeça no travesseiro e me acomodar na cama que eu senti o cansaço me atingindo. Meus olhos logo ficaram pesados e antes que eu precisasse contar carneirinhos eu já estava dormindo.
Foi um sono sem sonhos, para a minha felicidade. Quando acordei o sol já estava alto e eu dei um pulo da cama com medo de ter dormido demais. Olhei para o relógio ao lado da cama que marcava uma e meia da tarde. Fui direto para o banheiro, escovei os dentes e penteei os cabelos de qualquer forma. Troquei o pijama por uma calça jeans e blusa de alça preta. Calcei um tênis da mesma cor e desci as escadas correndo. Jake estava na sala com Brad jogando videogame e me encarou por sobre o ombro.
- Acordou a bela adormecida.
- Cadê mamãe? – perguntei ignorando o comentário.
- Foi com papai pegar David na rodoviária. Saíram quase agora.
O que significava que eles demorariam a voltar. Droga.
- Jake? – chamei quando ele voltou a atenção ao jogo – Me faz um favor?
- Vai começar a exploração! – ele respondeu dando pausa no jogo – O que é?
- Você pode me levar ao hospital?
- Você não está achando que eu vou ficar de motorista para você, está?
E eu não estava com a mínima vontade de insistir.
- Deixa pra lá. Eu vou de bicicleta. – retruquei e voltei a subir as escadas para pegar minha carteira e meu celular.
Demorei um pouco para achar o bendito aparelho e acabei encontrando-o no meio dos lençóis da minha cama. Joguei tudo dentro de uma bolsa e desci correndo.
Nem Jake nem Brad estavam mais na sala, mas assim que saí de casa eu dei de cara com os dois. Jake já estava no volante do carro e Brad estava do lado de fora segurando a porta para que eu entrasse.
- Entra logo antes que eu desista. – Jake reclamou de dentro do carro.
Ele nem precisou falar uma segunda vez. Pulei para o banco traseiro e Brad entrou em seguida fechando a porta.
- Posso saber o que fez você mudar de idéia? – perguntei olhando-o pelo retrovisor.
Mas foi Brad quem respondeu.
- Você não acha que nós iríamos perder a oportunidade de conhecer nosso cunhadinho, acha? – ele falou olhando para trás com um sorriso perverso no rosto.
Eu quase tinha esquecido que Brad sabia muito mais do que todos os outros. Ou melhor, tinha ouvido mais do que todos os outros. Não consegui evitar corar ante essa lembrança e tive que me controlar para não apertar aquele pescoço de troglodita.
Durante o percurso eu liguei para a minha mãe para avisar que nós estávamos indo para o hospital e ela disse que passaria lá na volta para conhecer Jesse. Liguei também para Gina para avisar que estávamos a caminho. Eu queria que ela avisasse a Jesse que meus irmãos estavam indo comigo, mas ela disse que estava na sala de espera enquanto uma enfermeira trocava os curativos dele. Então só me restou torcer para que nenhum dos meus irmãos, Brad principalmente, pegasse muito pesado com ele.
Eu pedi para Jake me deixar na entrada do hospital enquanto ele estacionava, mas ele me ignorou e seguiu direto para o estacionamento.
- Sem pressa, Suze. – ele falou rindo – Seu namorado não vai a lugar nenhum.
Me contentei em permanecer calada, esperando pacientemente enquanto Jake estacionava o carro em uma velocidade muito abaixo do normal. Eu sabia que ele só estava fazendo isso para me irritar. Assim que Brad desceu, eu pulei para fora do carro, mas ele me segurou pelo pulso para evitar que eu saísse correndo.
- Isso aqui é um hospital, Suzinha. Não pode correr.
Minha mão ficou comichando para não acertar aquela cara estúpida.
Entramos no hospital e eu logo vi Gina sentada na sala de espera folheando uma revista. Steph estava ao seu lado lendo a revista por sobre seu ombro e acenou para mim assim que me viu. Eu dei um sorriso discreto e andei até elas.
- Oi meu lindo – claro que não foi para mim que Gina falou isso.
Jake se adiantou e sentou ao lado dela – por sorte não do lado que Stephanie estava.
- Como ele está? – eu perguntei ainda de pé.
- Melhor. – ela informou depois que se livrou dos lábios de Jake – O médico disse que ele será transferido para o quarto no começo da noite. – ela se levantou e me levou para perto do balcão da recepção que agora estava com outra recepcionista que parecia genuinamente simpática – Eu já contei toda a história que nós criamos – ela sussurrou embora a televisão abafasse um pouco a conversa.
- Como ele reagiu?
- Ele achou estranho e não gostou nem um pouco de ter que mentir para a sua família, mas depois ele viu que era a única forma para justificar tudo. – do jeito que eu conhecia Jesse eu já imaginava que ele não iria se sentir bem com tantas mentiras. Ele era íntegro demais. Mas era o único meio. Contar a verdade para a minha família estava fora de cogitação. – Ah, e tem uma surpresa pra você.
- Uma surpresa? O que é?
- Não conto. Vou deixar que você descubra sozinha. – ela riu e voltou para a sala de espera e se aconchegou nos braços de Jake mais uma vez.
- Como assim? Vai me deixar na curiosidade? – perguntei, seguindo-a e sentando na cadeira que Stephanie deixara vaga.
- Vou. – ela respondeu simplesmente e voltou a beijar Jake.
Eca. Eu realmente não preciso ver isso.
Brad estava sentado a algumas cadeiras de distância e assistia a um jogo de basquete que passava na televisão, mas assim que uma enfermeira atravessou as portas duplas ele se levantou e arrumou os cabelos. Então eu vi que era a mesma enfermeira que ele tinha paquerado aquela manhã quando saíamos do hospital.
Ela se aproximou de nós e se dirigiu a Gina que ainda estava entretida com Jake.
- Gina, você já pode voltar agora. – ela informou com um sorriso envergonhado nos lábios. Seu rosto estava corado.
- Ah, obrigada. – ela falou se levantando – Suze, essa é Alicia, enfermeira de Jesse. – ela me informou – Alicia, essa é Suzannah.
- Ah, oi Suzannah – ela falou se adiantando na minha direção com uma mão estendida. – É um prazer te conhecer.
Ela parecia simpática então eu apertei a mão dela de volta. Ainda assim eu não gostei nem um pouco de Jesse ter uma enfermeira tão bonita. Não que eu estivesse com ciúmes. Longe disso. Mas eu preferia que a enfermeira dele fosse alguém mais velho. De preferência homem. Mas ela era muito jovem. Deveria ter cerca de vinte anos e os cabelos presos em um coque comportado eram loiros. Seus olhos eram azuis e dava para ver que ela tinha um corpo bonito. Jesse com certeza também notou isso.
Brad estava quase babando e Gina deu um encontrão nele para fazê-lo voltar a si.
- Eu vou para casa agora. – Gina informou pegando sua bolsa que estava em uma das cadeiras. – Depois a gente se fala Suze. Diz a Jesse que eu deixei um beijo.
- Ok. Obrigada por tudo, Gina.
- Disponha. – ela respondeu com um sorriso e deu um último beijo em Jake antes de ir embora.
Depois que ela saiu, eu segui Alicia até a sala de recuperação onde Jesse ainda estava. Jake e Brad vieram comigo.
- Eu estava doida para te conhecer. – Alicia falou sorridente assim que passamos pelas portas duplas – Gina me contou o que aconteceu com vocês. Seu namorado foi muito corajoso.
Que bom que ela sabia que ele era meu namorado.
- Ele é sim. – eu falei com orgulho.
Ela abriu a porta e abriu caminho para que eu entrasse primeiro. Meu coração bateu mais rápido só de vê-lo novamente. E o sorriso que ele deu quando me viu fez meu dia ficar muito melhor. Eu andei até ele pegando sua mão na minha. Seus olhos estavam brilhantes e ele ergueu uma mão para tocar meu rosto.
- Senti sua falta – ele sussurrou olhando dentro dos meus olhos.
Meu corpo ficou mole e eu senti borboletas no meu estômago. Era muito fácil esquecer de respirar quando ele estava perto de mim.
- Eu também.
Sua mão deslizou para a minha nuca e ele me puxou delicadamente até que meus lábios encostassem nos seus. Foi um beijo suave, mas que continha todo o amor que sentíamos um pelo outro.
Ouvi um barulho estranho e depois de um tempo eu percebi que alguém estava pigarreando. Ergui o rosto, confusa e olhei ao redor. Brad e Jake estavam nos observando com a sobrancelha arqueada e um sorriso irônico no rosto.
- Se você quiser, nós podemos sair para te dar um pouco mais de privacidade. – quem mais poderia ter feito um comentário desse tipo?
- Não enche, Brad!
Me afastei um pouco de Jesse e respirei fundo para recuperar o fôlego. Percebi que ele estava fazendo o mesmo e não consegui conter um sorriso. Agora nós estávamos em pé de igualdade.
Alicia pediu que a chamássemos pelo comunicador caso houvesse algum problema e se retirou em seguida.
- Não vai nos apresentar? – Jake perguntou se aproximando.
- Claro – era normal ficar nervosa, certo? – Jesse esse é Jake, meu irmão mais velho.
É claro que Jesse já conhecia os dois, mas agiu como se não conhecesse.
- É um prazer conhecê-lo, Jake – ele falou enquanto apertava a mão de Jake.
- E esse é Brad, meu outro irmão.
- Como vai, Brad? – Jesse o cumprimentou também apertando sua mão. Esse aperto foi mais demorado que o outro e eu percebi que os dois estavam fazendo mais força que o normal.
- Finalmente eu conheço o famoso Jesse. – Brad falou, ainda sem soltar a sua mão.
Eu já via os dedos de Brad ficando branco. Era óbvio que Jesse tinha mais força do que ele, mesmo ainda estando em recuperação.
- Ok. Chega de cumprimentos – eu interrompi antes que um quebrasse a mão do outro – Vocês já se conheceram, agora podem ir.
- De jeito nenhum. – Brad falou, massageando a mão discretamente. – Ainda queremos conhecer nosso cunhadinho.
- É isso aí – Jake apoiou – Então, Jesse, quais as suas intenções com a nossa irmã?
Ele pode até ter perguntado isso sorrindo, mas eu percebi que essa era uma pergunta genuína. E Jesse também percebeu isso. Ele pegou minha mão na sua e me olhou com ternura, então voltou a atenção para Jake.
- Eu só quero o bem dela. – ele falou com a voz firme – Quero que ela seja feliz.
- Eu estou feliz. – eu afirmei com convicção. – Agora eu sou feliz.
- Eu também, meu amor. – ele voltou a me olhar com aqueles olhos negros brilhantes – Mais que nunca.
Eu ouvi um ruído e me virei para me deparar com Brad fingindo ter ânsias de vômito.
- Isso foi um tanto meloso demais para mim – Jake murmurou indo em direção à porta – Eu vou pegar um refrigerante, alguém quer?
- Eu vou junto. – Brad respondeu de pronto – Se ficar muito tempo aqui vou acabar pegando essa doença.
Os dois saíram sem mais palavras e nos deixaram a sós.
- Seus irmãos são ótimos. – Jesse murmurou com um sorriso nos lábios perfeitos.
Como é?
- Você tem certeza que está falando das mesmas pessoas que saíram daqui agora? – eu perguntei com uma sobrancelha arqueada.
- Claro que sim. Eles podem até brincar de vez em quando, mas se preocupam com você.
- Talvez – eu concordei – Mas só quando não estão tentando me chatear.
- Mas isso é normal, hermosa. Irmãos sempre brigam. E além do mais – ele tinha um sorriso enorme no rosto – finalmente eu pude falar quais as minhas intenções com você.
Eu sorri lembrando o quanto Jesse se sentiu mal no dia que Brad entrou no meu quarto querendo conhecê-lo e saber se ele era bom para mim.
- Vai se preparando porque daqui a pouco minha mãe e Andy vão chegar e te encher de perguntas.
- Mal posso esperar!
Céus, como ele era fofo! Que homem em sã consciência ficaria empolgado por ter que encarar a família da namorada? Só Jesse mesmo. Continuei observando aquele rosto perfeito por não sei quanto tempo. Eu sentira tanta falta dele. Só de lembrar o tempo que eu passei sem ele, uma dor apertava meu peito.
- O que foi? – ele perguntou quando eu fiquei em silêncio de repente.
- Eu senti tanto a sua falta – respondi num sussurro, externando meus pensamentos.
A expressão que apareceu em seu rosto era dolorida.
- Me perdoa hermosa. – ele murmurou me puxando de encontro ao seu corpo e me abraçou – Me perdoa por ter te abandonado daquela forma. Eu fui um idiota por pensar que nós poderíamos ficar separados. – ele me afastou um pouco para me olhar nos olhos, segurando meu rosto entre suas mãos – Eu prometo que nunca mais vou me afastar de você novamente. Por favor, me perdoa.
- Eu não tenho porque te perdoar, Jesse. Você fez aquilo pensando ser o melhor para mim. E eu sei que você sofreu tanto quanto eu com a separação.
- O que mais doeu em mim foi ver a dor que eu estava te causando e não poder fazer nada.
Eu o encarei sem entender exatamente o que ele queria dizer.
- Eu preciso te confessar uma coisa. – ele falou um tanto constrangido e eu me afastei mais apara observar sua expressão – Eu... eu não consegui ficar afastado de você. Eu te via todos os dias por que eu não fui forte o suficiente para me manter afastado. Então eu te observava de longe e me permitia me aproximar mais quando você estava dormindo.
- Jesse...
- Eu não consegui ficar longe de você. E cada dia era pior que o outro. A forma como você estava se comportando... aquela não era você. Doía demais te ver naquele estado. Não havia mais espontaneidade nos seus atos, seu sorriso não era o meu sorriso. – seus olhos estavam marejados, assim como os meus – E a noite, quando eu te via dormindo... eu queria tanto te abraçar como eu sempre fazia. Tudo o que eu queria era te ter em meus braços novamente, sentir seu calor, seu cheiro. E, para piorar, você tinha aqueles sonhos que não te deixavam dormir.
- Esquece isso, Jesse. – eu pedi acariciando seus cabelos. Eu deveria ficar chateada com ele por ele ter estado tão perto de mim todo esse tempo, mas eu não estava. Não devia ter sido nada fácil para ele presenciar tudo pelo que eu passei – Você está aqui agora. Nós estamos juntos.
- Eu te amo demais hermosa. Mais do que tudo.
- Eu também te amo Jesse. – eu enxuguei suas lágrimas, enquanto ele enxugava as minhas.
Aos poucos os batimentos cardíacos dele foram voltando ao normal, de acordo com aquele aparelhinho.
- Esse ruído já está me chateando. – ele murmurou olhando para o mesmo lugar que eu olhava.
- Ah, eu gosto. – eu sorri para ele satisfeita – Escutar seu coração batendo é só mais uma prova de que você está vivo.
- Eu posso te dar outras provas de que estou vivo. – ele falou me puxando para mais um beijo.
E esse foi tudo, menos calmo.
Ele me beijava com sofreguidão e eu mal ouvi quando o aparelho disparou novamente. Sua mão deslizou pelas minhas costas, acariciando a pele que estava exposta pela camiseta, enquanto a outra continuava presa a minha nuca para não permitir que eu me afastasse. Não que eu quisesse. Tudo que eu menos queria agora era me afastar dele.
Eu notei que alguém falava alguma coisa, mas era apenas um zumbido longínquo. Talvez alguém conversando no corredor. E não entendi porque Jesse parou de me beijar e me afastou delicadamente.
- Sem querer interromper, mas já interrompendo, sua mãe acabou de chegar ao hospital. – olhei em volta e vi Stephanie parada perto da porta com um sorriso brincalhão no rosto – Eu achei melhor avisar para que ela não presenciasse nada constrangedor.
- Obrigado.
Mas não fui eu que falei aquilo. Até por que eu falaria "obrigada".
Olhei para Jesse que tentava recuperar o fôlego respirando fundo várias vezes.
- Você... você... – falta de ar depois de beijar Jesse, misturado com o choque de uma possível descoberta – Você pode vê-la?
Ele apenas acenou com a cabeça, ainda se recuperando.
- Pensei que Gina tinha te contado. – Steph comentou se aproximando pelo outro lado da cama.
- Não, ela não comentou nada, ela... – então eu lembrei que Gina tinha dito que haveria uma surpresa para mim. – Você é igual a mim agora?
- Não exatamente igual – novamente foi Steph quem respondeu e passou a mão no braço dele causando um arrepio involuntário – Ele é um mediador.
Jesse apenas deu de ombros como se achasse aquilo sem importância. Mas tinha importância. E muita. Eu demorei um pouco para absorver essa informação. Além de estar vivo, ele agora também via fantasmas assim como eu. Jesse era um mediador agora.
Eu ajudei Jesse a sentar na cama e ajeitei os travesseiros às suas costas para que ele ficasse mais confortável.
- Ainda dói muito? – perguntei apontando para o seu peito que estava coberto por um daqueles pijamas de hospital.
- Não agora. Alicia me deu alguns remédios para dor.
Alicia. Humpf.
No mesmo instante que Stephanie desapareceu, eu ouvi uma batida à porta.
- Pode entrar – eu falei alto o suficiente para que a pessoa ouvisse.
Minha mãe entrou em seguida, acompanhada por Andy, David, Brad e Jake. Não sei mesmo porque esses dois últimos tiveram que voltar.
- Oi Suze. – David murmurou.
- Oi Dave. Como foi o acampamento?
Ele estava parcialmente escondido atrás do pai e seu rosto estava corado.
- Foi bom.
Só isso? "Bom"? Ele estava mesmo com vergonha ou teria vindo com um discurso interminável sobre como tinha sido uma experiência única e blá, blá, blá.
Agora era a hora da verdade. Minha mãe já me encarava esperando que eu apresentasse Jesse à família. Eu pigarreei de leve e respirei fundo.
- Er... mãe, esse é Jesse, ou melhor, Hector de Silva. – me corrigi rapidamente. Não que eu precisasse ser formal, mas era minha mãe conhecendo o meu namorado.
- É um prazer conhecê-la, Sra. Ackerman. – Jesse a cumprimentou quando ela se aproximou da cama pelo lado oposto ao que eu estava.
- É um prazer conhecê-lo também, Hector. – minha mãe apertou sua mão estendida.
- Jesse, por favor. – ele pediu com um sorriso no rosto.
- Jesse. – ela sorriu de volta. – Como você está se sentindo?
- Melhor agora, obrigado.
- Esse é Andy, meu marido. – minha mãe o apresentou e eles apertaram as mãos rapidamente – E esse rapazinho escondido aí atrás é David, o caçula da família. – David corou ainda mais depois desse comentário. – Brad e Jake você já conheceu.
- Sim. – ele olhou rapidamente para os dois que estavam parados perto da porta como se quisessem fugir e depois voltou a atenção para a minha mãe. – Fico muito feliz de conhecer todos vocês.
Passadas as formalidades, Andy se aproximou e envolveu a cintura da minha mãe com um braço.
- Eu gostaria de te agradecer, Jesse. – ele falou de forma paternal – Se não fosse por você, sabe-se lá o que teria acontecido com nossa Suze.
Jesse ficou um tanto constrangido com aquelas palavras, porque ele sabia que a história que Andy conhecia não era a real.
- Nós dois nos ajudamos, Sr. Ackerman. Se Suzannah não tivesse me trazido para cá eu não estaria vivo. – Jesse olhou para mim com o olhar profundo – Eu devo minha vida a ela.
- Minha Suzinha ficou muito mal depois que você foi embora, Jesse. – minha mãe falou encarando-o com seriedade. – Eu só espero que você não a faça sofrer mais do que ela já sofreu.
- Mãe, por favor...
- Não, Suzannah – Jesse me interrompeu também sério – Ela tem razão em ficar preocupada. Eu cometi um erro, Sra. Ackerman. Eu cometi o erro de achar que nós poderíamos ser felizes longe um do outro. Eu sei que fiz Suzannah sofrer depois que fui embora e eu só espero que um dia eu consiga reparar esse erro.
- Jesse, eu já esqueci tudo isso. – eu falei com a voz embargada – Você está aqui agora. É só isso que importa.
- E eu não vou a lugar algum. – ele afirmou pegando minha mão na sua e levando aos lábios.
Ouvi minha mãe suspirando e quando olhei em sua direção vi que seus olhos estavam cheios de lágrimas.
- Minha filhinha tão jovem e já tão apaixonada – ela murmurou.
- Eu gostei de você, Jesse. – Andy falou – Você parece ser um rapaz íntegro e de bom caráter. Suze tem muita sorte de ter conhecido alguém como você.
- Não, Sr. Ackerman, eu é que tenho sorte por tê-la conhecido. E por ela corresponder ao meu amor de forma incondicional. – ele falou isso olhando nos meus olhos, prendendo meu olhar ao dele.
- Eu já ia perguntar o quanto você a ama, mas já vi que não precisa. – Andy falou sorrindo.
Ele olhou para Andy e sorriu também.
- Eu a amo mais do que tudo, Sr. Ackerman. Mais do que a minha própria vida. – então voltou a prender seu olhar no meu – Para sempre.
