Capítulo 24 – O Templo do Caos

Rifalyn abriu os olhos vagarosamente. As coisas estavam em câmera lenta. Várias explosões ao seu redor jogavam terra e poeira sobre ele. Com dificuldade, o pagão experiente engatinhou até uma trincheira próxima e se sentou. Respirando com dificuldade, apertou o capacete vermelho na cabeça. Sua malha vermelha também estava intacta. Era um bom sinal, não estava ferido. Olhou rapidamente por sobre a barricada e viu que o confronto da pequena tropa de nordeins contra um grande pelotão da Luz ainda estava intenso. Em um canto mais afastado do combate avistou seu cajado, um bastão longo de mogno negro com uma escultura de morcego na ponta. Rifalyn era inteligente, um dos feiticeiros mais inteligentes que já nascera na Fúria. Entretanto, não era sábio. De um lado, seu fiel cajado jazia caído em meio a uma batalha feroz. Do outro lado, os portões do Castelo de Raigo e a segurança. Ele sabia que poderia sair dali e comprar outro cajado depois, mas não seria a mesma coisa. Seu cajado tinha um passado com ele. Não queria deixá-lo ali. Sua capa estava embolada às suas costas por conta da explosão que o arremessou. Percebeu que sua bandeira de guilda tinha sido embolada junto. Alisou o pano vermelho de sua capa, e com um novo nó, prendeu a bandeira da Re-Connect à ombreira. Contou até três, e com grande agilidade, correu novamente para o meio do combate.

Novas explosões de magia e flechas transformavam a paisagem ao seu redor. Rifalyn mergulhou em direção ao cajado, o apanhou e rolou para o lado. Ficando em pé, notou um lutador humano se lançando em direção a ele com uma grande espada em punho. Rapidamente conjurou uma enorme bola de fogo que explodiu no peito do inimigo. Aproveitando-se da poeira, correu para trás de uma árvore e analisou o campo de batalha. Os soldados da Fúria já haviam perecido. Ele e um guerreiro de extremo poder eram os únicos ainda de pé, porém, o guerreiro estava cercado por um grande número de humanos. Várias espadas desceram sobre o nordein, e Rifalyn se viu sozinho. Por sorte, não tinha sido visto, entretanto, as tropas da Luz estavam entre ele e o Castelo de Raigo. Não havia como voltar para o castelo sem passar pelos inimigos, e tampouco havia como passar por eles sem ser notado. O único modo seria aguardar ali até que tropas aliadas viessem do castelo dar combate à Luz, e aproveitar da confusão para voltar à segurança.

Era apenas questão de tempo...

Porém, enquanto respirava fundo e se escondia atrás da árvore, uma jovem elfa ranger, de um grupo de patrulheiros das árvores, passou ao seu lado em direção à uma pedra próxima para se sentar. Rifalyn ficou imóvel. A elfa loura de armadura leve e esverdeada sentou-se na pedra, puxou um dos pés para cima e começou a desafivelar uma bota, quando ergueu o olhar e viu o vail de pé encostado na árvore. Em seu primeiro impulso, a elfa apertou os olhos e abriu levemente a boca, parando as mãos de desafivelar a bota. Rifalyn não se mexeu, apenas ficou encarando-a. Após alguns segundos imóveis, a elfa abaixou o pé bem devagar, e lentamente levou uma das mãos ao cabo de sua adaga embainhada. Rifalyn não podia desviar os olhos dela, um segundo de distração poderia ser fatal. Então, rápida como uma cobra, a elfa sacou sua adaga curva e brilhante e saltou baixo em direção do pagão. Rifalyn rolou para o lado, e por pouco a adaga não pegou em sua perna direita. Virou-se para encarar a elfa, e notou que seu rolamento o tinha colocado à vista de todo o pelotão da Luz ali parado. Eles se encararam, os humanos e elfos trocavam olhares confusos. O pagão ficou imóvel, respirou fundo e disse para si mesmo.

- É... Agora complicou.

Os inimigos da Luz se levantaram e gritaram. Rifalyn se virou e começou a correr, para cada vez mais longe do castelo de Raigo e sua única fonte de segurança. Os soldados da Luz corriam atrás dele. Uma flecha passou assoviando perto de seu ouvido. Seguiu correndo a trilha colina acima, até que, à esquerda, notou várias pixies colhendo flores em uma planície. Rapidamente bolou um plano. As pixies eram criaturas curiosas, possuíam corpos de fadas, tão altas quanto uma mulher adulta, com enormes asas rosas ou azuis. Seus rostos eram deslumbrantes, e por mais que parecessem pacíficas, adoravam pregar peças em viajantes desavisados. A peça favorita delas era enfeitiçar suas vítimas, deixá-las em câmera lenta enquanto faziam o alvo de brinquedo. A vítima, totalmente lenta e atordoada, não conseguia se livrar das peripécias a tempo. Rifalyn sabia que era arriscado, mas era sua melhor alternativa para escapar. Ainda correndo, saiu da trilha em direção à planície onde as pixies se amontoavam. Como imaginou, os soldados da Luz o seguiram. Quando o pagão chegou perto o suficiente para ser notado, algumas pixies largaram suas flores e começaram a sorrir e cochichar. A alguns metros delas, percebeu que uma pixie grande e rosada começou a fazer pequenos gestos com as mãos...

"É isso, deve ser o feitiço!" pensou ele.

Rapidamente se jogou em meio às flores e moitas e sumiu em meio à relva. A pixie rosa fez uma careta de insatisfação e se precipitou para procurar a criatura vail que se escondera de seu encanto. Porém, algo mais interessante chamou sua atenção e de todas as outras pixies ali reunidas. Descendo da trilha vinham os soldados da Luz. As pixies ficaram maravilhadas com a possibilidade de pregarem várias peças simultâneas. Todas elas soltaram suas flores e voaram em direção aos soldados da Luz. Os lutadores tentaram atacar com suas espadas, mas sem sucesso, acabaram caindo no feitiço de lentidão das fadas. Algumas flechas élficas dos arqueiros conseguiram derrubar uma pixie, mas também acabaram enfeitiçados. As pixie não eram criaturas sanguinárias, muito pelo contrário, eram apenas brincalhonas, com um senso de humor um tanto cruel. Rifalyn sabia que elas não ofereceriam perigo de morte para os soldados da Luz, mas conseguiu o que queria. Seus perseguidores estavam entorpecidos e se moviam em câmera-lenta, ou acabavam amarrados por raízes de flores. Aproveitando-se disso, levantou e correu para a entrada de um antigo calabouço próximo. Antes de entrar, olhou para trás. Não conseguiu conter o riso. As pixies voavam em volta dos soldados pendurando-lhes flores nos cabelos e pintando seus rostos com pós coloridos e brilhantes.

O calabouço estava vazio. Rifalyn sabia que era ali que os soldados vinham para procurar gemas de poder, chamados Lapis. As ruínas do antigo calabouço se tornaram uma caverna de mineração ao longo do tempo. Alguns esqueletos vivos vagavam por ali. Rifalyn não queria chamar a atenção, queria apenas procurar em esconderijo e ficar até a poeira baixar. Sabia que as pixies não segurariam seus perseguidores para sempre. O mais silencioso que podia andava pelos corredores mal iluminados, contornava câmaras e evitava as criaturas que ali habitavam. Tentou penetrar o mais fundo e distante possível, para que não fosse encontrado. Em determinado momento, enquanto se esgueirava por um corredor deserto, se deparou com portas de pedra esverdeada, esculpidas e trabalhadas. Pela aparência já não eram abertas há muito, muito tempo. Rifalyn era inteligente, mas sua curiosidade falava mais alto. Precisava saber o que havia por trás daquelas portas. Tentou empurrar, mas eram pesadas de mais para ele. Com delicadeza, conjurou uma pequena raiz, que brotou do chão, próxima a soleira da porta. Lentamente ela foi crescendo, e conforme crescia, fazia pressão na porta. O som da pedra cedendo estalou pelo corredor. Aos poucos a porta foi se abrindo. Pela pequena fresta aberta, Rifalyn olhou o interior da câmara, mas estava escuro de mais para ver qualquer coisa. O cheiro não era bom, e sua aura mágica detectou algo muito poderoso vindo dali, mas não era energia viva, nem em movimento.

"Provavelmente um artefato mágico." pensou ele.

Continuou conjurando a raiz e abrindo a porta. Quando estava aberta o suficiente para passar, o pagão rompeu sua magia, apertou forte o cajado e entrou na sala se apoiando na agora grossa raiz invocada. Estava muito escuro. Andou um pouco mais adiante apertando os olhos. Levantou seu cajado e conjurou uma pequena bola de fogo tremeluzente. Conseguiu avistar o centro do grande salão, um altar com um grande candelabro a óleo. Novamente no escuro, andou até ele. Conjurou uma segunda bola de fogo e acendeu o óleo. As chamas percorreram o candelabro, até que chegaram ao chão e se alastraram por algumas canaletas que Rifalyn não tinha notado até então. As canaletas levaram o fogo até novas canaletas nas paredes, que por sua vez acenderam tochas no teto. Em segundos, toda a câmara estava iluminada. O pagão estava deslumbrado com a beleza do lugar quando ouviu a porta se fechando atrás de si. Sentiu então a energia mágica se movimentando até ele, e sentiu sua espinha gelar. Lentamente se virou. Um grande ser encapuzado flutuava a alguns centímetros do chão logo atrás dele. Suas mãos esqueléticas seguravam uma grande foice. Por baixo do capuz, Rifalyn notou dois pequenos pontos brilhantes olhando para ele. Prendeu a respiração, apertou o cajado e pensou em voz alta.

- Hoje não é meu dia.

A criatura abriu uma das mãos. Muita poeira se desprendeu de suas juntas. Apontou um dos dedos esqueléticos para o pagão e uma voz sobrenatural falou em sua cabeça.

- Obrigado por me despertar, jovem criatura inferior.

Rifalyn ficou surpreso. Dadas às circunstancias, não esperava ouvir um agradecimento. Algo não parecia certo. Precisava sair dali. Olhou para os lados, coçou a cabeça, sorriu de modo forçado e disse.

- Não foi nada... Senhor..?

- Sou Lich... O Lich, Rei Lich dos necromantes. Deus da Morte e da Escuridão!

- Ahh, nossa... Digo... Alteza... Deus! Fico feliz em ajudar. Mas sabe, está ficando tarde, e eu preciso mesmo ir.

Rifalyn lentamente pôs um pé na frente do outro, para contornar a criatura e ir em direção à porta. Entretanto, uma foice foi colocada em sua frente.

- Ir? Não, você não pode ir jovem criatura. Eu preciso de algo mais de você.

O pagão não estava gostando daquilo. Precisava sair, precisava pensar em algo... Tentou falar o mais natural possível.

- Precisar de mim? Ahh, o senhor é Rei dos... Deus aliás, Deus! Eu sou apenas uma criatura inferior, não sirvo para o senhor, melhor eu ir embora e deixar o senhor em paz para fazer... O que quer que seja que o senhor faz.

- Estou há muito tempo trancado. Preciso de uma alma!

- Que pena, adoraria ajudar, mas não tenho nenhuma sobrando no momento.

Rifalyn apertou firme seu cajado. A situação estava indo de mal a pior.

"Saí do fogo direto para a panela... O que Bolt faria?" pensava ele.

Rifalyn aprendeu muito de sua magia com Bolt, se dedicava a estudar tudo que o pagão havia feito. Se inspirava nele, e quando Bolt perdeu sua aura mágica, Rifalyn se dedicou a se tornar um pagão tão extraordinário quanto ele acreditava ter sido Bolt, e fazer a frente mágica da guilda. A criatura falou com ele, mas não prestou atenção. Estava criando uma teoria para sair dali. Teve então uma ideia, e com um sorriso disfarçado, ergueu a voz em tom respeitoso.

- Ei, vossa alteza, eu possuo aura mágica. Gostaria muito de saber se posso servir ao senhor. Como posso lhe entregar uma alma?

- É preciso fazer o ritual.

- Ritual? Parece complicado. O senhor não pode simplesmente me ensinar e eu consigo uma alma para o senhor lá fora?

- Não, drenar uma alma é algo complexo, pequena criatura. Não é uma arte para pequenos e jovens vails. E além do mais, a alma precisa estar corrompida.

- Entendo, eu acho. E como posso corromper uma alma?

- De várias maneiras... Uma alma que se corrompe ao cometer um crime ou ao se entregar às trevas.

Rifalyn estreitou os olhos. Não gostou de ouvir isso.

- Se entregar às trevas... Então os nordeins e os vails já possuem a alma corrompida?

- Não, nem todos. Os que nasceram vails possuem almas completas. Os elfos que se tornaram vail por corrupção sim.

O pagão sorriu e suspirou. Por um segundo pensou que seu plano tinha ido por água abaixo.

- Pois então senhor, eu sou puro elfo negro, nasci vail, e nunca cometi nenhum crime. Minha alma não serve ao senhor. Refaço minha oferta, posso conseguir uma alma lá fora?

- Existem maneiras de se corromper uma alma jovem criatura. Sofrimento... Raiva... Inveja... Orgulho... Caos. Ahh sim existem maneiras... Você descobrirá. Ahh sim, você descobrirá...

Rifalyn não teve tempo de conjurar magia alguma, ou de responder, ou perguntar. Sentiu uma força o puxar pelo estomago, de dentro para fora, e foi arremessado com força contra algo sólido e escuro. Sentiu-se sendo sacudido, e então tudo que conseguia ver a sua frente era escuridão. Com dificuldade, se apoiou nos joelhos e nas mãos, levantando o corpo do chão. Piscando, se viu cara a cara com um chão de pedra, marcado por desgastes e manchas. A pedra era antiga, antiga de mais. Levantou o rosto e se choque foi vacilante.

"Que diabos é esse lugar! Onde é que vim parar?"

Definitivamente não estava mais no calabouço de mineração. Estava em uma ampla sala redonda, toda em pedra muito antiga. Ao redor, contou sete portas idênticas, e acima delas, algumas frases talhadas na pedra, em várias línguas estranhas. Em meio às palavras desconexas, reconheceu um padrão, uma linguagem élfica. Com dificuldade, leu em voz alta.

- 'No início só existia o caos... E o caos é tudo que restará no final. '. Caos... O que é esse lugar.

Olhou ao redor e notou algumas ossadas, ainda vestidos com trapos, outros com sobretudos e botas, em um tipo de roupas que Rifalyn nunca havia visto antes entre nenhum vail, nordein, humano ou elfo. Eram finas, e não mostravam costuras, inteiramente de algum tipo de pano... A situação estava estranha de mais. Do outro lado da sala, umas peças de armadura jaziam espalhadas. O pagão se aproximou delas e pegou um peitoral do chão. O metal muito enferrujado era simples, mas também diferente de tudo que Rifalyn conhecia. Na ombreira, uma escrita estranha. Não era élfico, nem linguagem humana, ou dracônica, muito menos vail ou nordein... Soltou a armadura que caiu no chão com estrépito. Parado ali, olhando ao redor, o pagão de cabelos negros começou a se sentir diferente. Queria se agachar e ficar encolhido, apenas esperando... Sentiu-se sozinho e triste, e por incrível que pareça, com frio. Não havia animo para mais nada. Então, olhou mais uma vez para a frase... Caos... Portas idênticas... Lugar desconhecido, objetos estranhos... Sua curiosidade aos poucos injetou ânimo em suas veias, e com muito custo, caminhou até uma das portas. Repousou a mão sobre a maçaneta, mas antes de girar, apertou firme seu cajado, invocou uma chama e fez uma marcação na beirada da porta. Feito isso, girou a maçaneta e entrou na sala escura.

Aos poucos a escuridão foi dando espaço para uma claridade aconchegante. Sob seus pés, o chão de pedra deu lugar a uma espécie de tapete fofo e macio, que podia ser sentido mesmo através das botas de couro do pagão. A temperatura estava diferente, mais quente que a sala redonda. Alguns postes de madeira sustentavam camas de redes. Uma melodia calma e concisa chegou aos seus ouvidos. Aos poucos foi sentindo seus músculos pesarem. Notou que segurava fracamente seu cajado. Seus braços pesavam toneladas. Se perguntou quando foi a última vez que havia dormido. Ou pelo menos descansado. Arrastando o cajado pelo chão, andou até um dos postes e se sentou em uma das redes. Foi então que notou uma porta, do outro lado da longa sala. A porta parecia tão longe... E ele se sentia tão cansado... E a rede parecia vibrar sob ele, um balanço gostoso... Ele queria saber o que havia atrás daquela porta, mas, estava tão bem ali sentado, e se sentia tão cansado...

"Se eu descansar só um pouco... Vou me sentir melhor... Mesmo estando neste lugar estranho... Mas, e se a resposta estiver atrás daquela porta? Não parece tão longe assim. Vamos lá Rifalyn, mostre do que você é feito. Só alguns metros... Muitos metros... Que podem ser andados depois... Não, levante e ande!"

Então, se forçando de pé, com muito custo e se escorando no cajado, começou a se arrastar em direção à porta. E a cada passo dado, sentia sua energia sendo revigorada. Ao seu redor, a sala pouco a pouco começou a mudar. A luz se tornou escura, o chão se tornou duro, áspero e gelado. As redes se tornaram amontoados de pano esfarrapadas, e por todo o lado jaziam corpos de soldados em roupas estranhas. Reconheceu uma armadura élfica em um dos esqueletos. O ar estava começando a se tornar insuportavelmente frio, e um ruído agudo irritava seu ouvido. Andou até a porta, e, antes de girar a maçaneta, olhou novamente ao redor e constatou uma sala totalmente diferente da acolhedora e sedutora de antes. Uma sala de morte.

Quando a porta abriu a sua frente, se viu novamente na sala redonda com sete portas. Os mesmos corpos esqueléticos jaziam em seus lugares, e as mesmas palavras em vários tipos de linguagem se encontravam sobre as portas. E então, o sentimento de vazio o tomou por completo. Sentiu-se perdido novamente, e beirando a desolação.

"Por um segundo me senti cansado, como se a sala quisesse que eu ficasse e descansasse. Vencer a sensação me mostrou que eu não estava cansado de fato. E então a sala se transformou no que ela era de fato. Definitivamente não saí pela mesma porta que entrei, disso tenho certeza. Mas esta sala é idêntica. Já sei!"

Analiticamente prendeu sua atenção às portas idênticas, e rapidamente notou que uma delas não estava igual às outras. Assim como a sala, a porta havia se revelado como de fato era, da mesma cor e padrão que todas as demais, mas cheia de marcações. Se aproximando mais, o vail notou todo tipo de marca, e entre elas, a marca que ele próprio havia feito com fogo. Na maçaneta, um X gravado à lâmina era bem recente. Passou os dedos pela superfície e ficou mais confuso. Sacudiu a cabeça e decidiu que descobriria o que estava acontecendo ali. Então, foi até a porta da direita aquela, e assim como a anterior, fez uma marcação a fogo em sua lateral, tomou força e abriu a porta se jogando no negrume.

A primeira coisa que sentiu ao mergulhar na escuridão da sala foi o cheiro salgado de carne assada. E aos poucos, o cheiro da carne se misturou ao de pão recém-feito, um aroma quente... E então um cheiro adocicado cítrico de maçãs... E Rifalyn notou que sua barriga parecia um buraco negro. A escuridão foi clareando, substituída por uma sala retangular de teto alto, completamente iluminada por tochas e fornos. No chão polido, mesas longas atravessavam a sala, e sobre elas, todos os tipos de comidas se encontravam. O pagão repousou sua mão sobre a barriga, e tentou se lembrar quando fora a última vez que havia se alimentado. Sentiu seu estômago se revirar e emitir sons guturais. Olhou mais uma vez para as mesas e seus olhos caíram sobre um javali inteiro assado, perfeitamente dourado, uma obra prima da culinária. Por ali perto, queijos redondos e amarelos, com uma textura perfeita. Ao lado, garrafas de vinho que cheiravam a mais pura uva. Nunca, em toda sua vida, havia visto comidas tão perfeitas. A cada segundo se sentia com mais fome. Salivava tanto que precisou engolir. Vagarosamente andou até uma das mesas próximas e se pôs ao lado de um cesto de pães. Esticou uma das mãos e agarrou um pão. Estava quente e macio. Sem pensar duas vezes, levou o pão à boca e mordeu um pedaço. Sentiu a massa desmanchar na boca enquanto mastigava. E quando notou já havia mastigado o pão inteiro e pego mais um. Soltou o cajado sobre o banco e arrancou um naco de carne assada de javali. Seu êxtase foi quebrado por uma voz ao longe, era uma voz feminina, gritando algo que ele não pôde discernir.

"O que está havendo comigo?" pensou largando um dos pães.

Finalmente notou que sua fome não diminuiu. Apenas aumentou. Sentiu o cheiro das comidas se intensificar. Notou que mais pães apareceram no cesto e que o javali estava inteiro novamente.

"Não consigo parar... Este lugar foi feito para não me deixar parar... Eu não estou com fome... EU NÃO ESTOU COM FOME!"

Largando o pão e apanhando o cajado, se precipitou para a porta do outro lado, quando a sala escureceu e se transformou. A pedra polida e límpida se tornou gasta e suja. A luz brilhante era falha, e as mesas estavam agora cobertas de alimentos estragados, com vermes e moscas. Pelo chão, corpos de soldados mortos que sucumbiram à tentação, vísceras espalhadas e poças de líquidos podres. O cheiro de vômito e bile empesteou a sala rapidamente, e a náusea subiu à cabeça de Rifalyn com velocidade extrema. Sem pensar, se jogou contra a porta, e novamente se viu no centro de uma sala redonda, com sete portas idênticas, a não ser pelo fato de que agora duas estavam cobertas de marcações.

- Mas que diabos... Fome, cansaço... Ou não... Eu não tinha fome, apenas vontade de comer, e não estava cansado, apenas vontade de descansar. Caos...

Novamente olhou a inscrição em dialeto élfico que dizia 'No início só existia o caos... E o caos é tudo que restará no final'. Andou até uma das portas ainda limpas e a marcou com foco mágico de seu cajado no canto. Feito isso, assim como as duas primeiras, girou a maçaneta e entrou em uma sala escura.

Tudo clareou rápido demais. Um brilho dourado ofuscou sua visão, e Rifalyn levou a mão acima dos olhos. Até onde podia ver, numa sala alta de mármore branco aparentemente sem fim, montanhas de moedas de ouro se acumulavam. Em meio ao ouro, pedras preciosas e gemas mágicas davam ao dourado tons coloridos. Rifalyn sentiu seu queixo cair. Nunca havia tido posses o suficiente para luxo, e ver todo aquele ouro ali... Ao seu lado, presa em um suporte, havia uma bolsa de couro. O vail analisou a bolsa e a pegou nas mãos.

"Tem tanto ouro nessa sala... Preciso seguir em frente. Mas, se eu encher esta bolsa com um pouco de ouro, só um pouco, já é suficiente para eu ter um conforto. Aqui cabe mais que o dobro que jamais tive. E algumas dessas gemas parecem ser ótimos canalizadores de magia. Posso levar algumas comigo...".

Perdido em seus pensamentos, Rifalyn caminhou até uma pilha de ouro, ajoelhou-se e começou a encher a bolsa com punhados de ouro. E quanto mais ouro colocava na bolsa, mais espaço aparecia nela. Após certo tempo, notou que a bolsa estava praticamente vazia ainda. Achou estranho, então começou a juntar ouro com as duas mãos e mais rápido, pois precisava seguir em frente. Alguns minutos depois, notou que a bolsa continuava praticamente vazia. E quanto mais rápido a completava, mais rápido notava ela esvaziar. Rodando uma moeda dourada nas mãos, sentindo o calor e a textura do ouro, começou a se perguntar.

"O que eu faria com todo esse ouro? Compraria uma casa e uma montaria... Um cajado novo, uma armadura mais poderosa..." e enquanto pensava assim, imagens de treinos com os soldados da Re-Connect apareciam em sua mente. Imagens do dia que recebeu seu cajado negro em uma missão pela guilda. Imagens de Bolt lhe ensinando a combinar elementos... Então percebeu uma coisa vital, que o despertou. Tudo que ele precisava, tudo o que gostaria, não precisaria de todo aquele ouro para ter. Ele já tinha. Já tinha uma família, amigos, um cajado e uma malha que nunca o haviam desapontado. Então, se pondo de pé e largando a bolsa, sentiu o calor da sala esvanecer. Aos poucos, percebeu que se encontrava em uma sala minúscula, de teto baixo, suja e empoeirada, e as montanhas de ouro eram agora pilhas de serragem e pó. Amontoados no chão da sala apertada vários esqueletos agarrados a bolsas de couro, caixas e caixotes jaziam. Pessoas que amaram demais os objetos ao seu redor e se esqueceram de seu objetivo, sair dali. A porta de saída estava ao seu alcance, então, com confiança, girou a maçaneta, e não foi surpresa ao se ver novamente em uma sala redonda de portas quase idênticas.

Começou a se desesperar. Não entendeu o motivo. Mas à medida que compreendia pelo que estava passando, mais desolado ficava, e mais sozinho se sentia. Caiu de joelhos e se apoiou em seu cajado. As coisas começavam a fazer sentido em sua cabeça.

"Vontade de continuar comendo... Vontade de deitar e não fazer mais nada... Vontade de coletar bens materiais incessantemente... Gula... Preguiça... Avareza... Sete portas... Ahhh, só pode ser brincadeira!".

Percebendo então o que havia pela frente, não teve vontade de lutar mais. Se lembrou então das palavras da criatura autoproclamada Lich, Rei dos Necromantes. "A maneira de quebrar um espírito puro, uma maneira divertida". Se pôs de pé e olhou ao redor mais atentamente. Agora que sabia vagamente o que enfrentava, podia tentar vencer. Passou o olhar pela frase gravada na pedra em vários idiomas estranhos. Abaixou-se e analisou um cadáver em roupas estranhas de pano, botas de couro e um sobretudo escuro. Definitivamente não era de Teos. Lembrou-se da voz feminina que ouvira gritar algo que não compreendeu. No início achou ser fruto de sua imaginação, mas agora, podia ser que não estivesse sozinho ali. E que aquele lugar, aquele templo dedicado ao Caos, não fosse um purgatório apenas para Teos, mas de várias terras, planos, ou realidades. Rifalyn começou a tremer. Aquela sala redonda sugava sua vontade de seguir em frente. Com muito custo, foi até uma das portas ainda não marcadas e repetiu o processo das anteriores, conjurando uma chama e a marcando, para logo em seguida engolir em seco e girar a maçaneta.

Ao começar a clarear, notou que pisava em um tapete avermelhado, que cobria todo o chão. A grande sala possuía um calor aconchegante, e pequenas velas projetavam meia luz no ambiente. Dois degraus levavam a sala para um desnível. Vários véus vermelhos, rosas e brancos pendiam do teto. Uma larga cama estava no centro da sala. Sobre ela, duas lindas vail estavam deitadas, seminuas. Assim que Rifalyn entrou, elas lentamente se levantaram e caminharam até ele, e, sem dizer nada, apenas sorrindo, entrelaçaram seus braços nele. O pagão não pode deixar de notar o perfume de morango das duas lindas mulheres. Sentiu o desejo ferver seu sangue, mas apenas riu e levantou a cabeça, falando em voz bem alta.

- Ok, ok, Luxuria, estou certo? Eu adoraria que tudo isso fosse real, mas tenho mais o que fazer. E só para constar, prefiro perfume de melancia!

Ainda rindo, notou quando a sala se transformou lentamente, se tornando escura e empoeirada. Muitas teias de aranha pendiam do teto, e um ruído metálico irritava seus ouvidos. Novamente, notou muitos esqueletos espalhados pelos cantos, e talvez mais corpos do que nas salas anteriores. Não se surpreendeu por isso. Simplesmente andou até a porta na parede oposta, e com confiança, girou a maçaneta.

Das sete, quatro portas já estavam marcadas, e exibiam vários tipos de marcação, que Rifalyn supôs serem das várias pessoas que passaram por ali antes dele. Não pôde deixar de notar inclusive um X marcado na maçaneta redonda de cada porta, que claramente haviam sido marcados recentemente. Estranhamente, estar ali lhe dava uma sensação de desolação. Seu ânimo era sugado. Sentia-se impotente diante da situação. Mesmo que vencesse as sete salas, o que garantia que ele sairia dali? E se ficasse ali para sempre? Estava prestes a sentar-se e desistir, quando ouviu uma voz feminina gritar.

- CONNOR!

Olhou ao redor. Apertou seu cajado com força e se pôs em posição de combate. Aquele lugar já era assustador o suficiente sozinho. A simples possibilidade de haver inimigos fez o sangue de Rifalyn gelar. Escutou novamente a voz gritar algo que não compreendeu. Pareciam súplicas. De forma estranha, aquilo compadeceu o pagão. Rapidamente procurou a fonte da voz, e imaginou ter ouvido através de uma das três portas desmarcadas. Sem pensar duas vezes, se jogou contra a porta, que cedeu sob seu peso, e se escancarou para a escuridão.

Antes de ver qualquer coisa, sentiu um aperto no peito, uma sensação ruim. Um ruído metálico incessante, seguido por batidas já o estavam irritando. À medida que a sala foi clareando, percebeu estar pisando em um chão escuro e enfumaçado. Percebeu que a fumaça cobria grande parte da sala. Uma iluminação azul brilhante se encontrava perdida no meio da neblina grossa. Esquadrinhou a sala com os olhos, na esperança de identificar a fonte da voz feminina, mas em vão. Encontrou apenas uma porta, no que parecia a parede oposta, não muito longe de onde estava. Estava prestes a se direcionar para ela, quando seu queixo caiu e sua voz sumiu. Ouviu uma voz conhecida... Ouviu a voz de Bolt.

- Bolt... BOLT! BOLT, VOCÊ ESTÁ AQUI? SOU EU!

Através da fumaça, uma silhueta se vez visível, e aos poucos se solidificou. Rifalyn viu então Bolt passar por ele, com uma armadura de mestre ancião em magia, e um cajado negro brilhante, que crepitava em poder. Rifalyn sentiu o poder imenso do pagão quando este passou ao seu lado. Começou a ouvir vozes chamarem por Bolt e enaltecerem seu nome, dando vivas e o consagrando o maior de todos os pagãos existentes. Bolt passou por ele e se perdeu na fumaça novamente. Rifalyn ouviu as vozes sussurrando "Quem é esse pagão aqui? Não é ninguém... Nunca será ninguém... Vamos atrás de Bolt, ele é um pagão de verdade...". Sentiu seu sangue ferver. Mas uma nova silhueta se formou na névoa, e se fez visível um Spark que olhou diretamente em sua direção. Com um sorriso malicioso, passou por ele, e da névoa, algumas mulheres vail surgiram, e todas correram em direção ao assassino. Rifalyn ouviu vozes dizendo "Vê como ele é poderoso? Vê como ele é famoso? Qualquer garota quer ficar ao lado dele... Que garota gostaria de ficar ao lado de um perdedor como esse?". Rifalyn apertou firme as mãos. Começou a sentir raiva, se sentir estranho. O aperto em seu peito, o som metálico, as vozes, estava se enfurecendo. Percebeu que começou a sentir raiva. Começou a ouvir várias vozes desgrenhadas sussurrando coisas que queria em seu íntimo. Deu um passo em direção para onde uma nova silhueta se manifestava, quando sentiu esmagar algo com seu pé, e ouviu um som de vidro. Abaixou e recolheu um estranho objeto. Uma armação metálica circular, com duas lentes de vidro, uma quebrada, e duas hastes dobráveis. Girou nos dedos o estranho objeto, e notou que a cada lado do vidro seus dedos mudavam de perspectiva. Era um objeto estranho, e aparentemente o único ali realmente sólido. Aquele estranho objeto havia tirado sua atenção da névoa, e ao olhar novamente, viu Bolt e os títulos, viu Spark e as garotas, viu Kang e os amigos, viu Gleed e o ouro... E apenas riu.

- Então, essa é a sala da Inveja? É tudo que pode fazer? Esse barulho infernal para irritar e então mostrar essas coisas sem sentido? Não invejo Bolt, sei que ele foi um pagão incrível, e ele fez questão de me ensinar tudo que pôde. Ele é meu mentor, não o invejo por isso. Eu o admiro. Quanto aos amigos, já os tenho, e por sinal, são os mesmos de Kang, por que eu o invejaria? O ouro, já ficou claro que não preciso, ou vamos refazer a sala da Avareza? E as mulheres, não preciso de muitas, me basta uma, e sei que ela está lá fora esperando por mim.

Rifalyn terminou seu discurso com tanta confiança que se sentiu até mais seguro do que antes. Automaticamente a sala mudou. Assim como as outras, era escura e empoeirada, entretanto, o frio era mais intenso. A névoa clareou bastante, mas ainda embaçava um pouco os cantos da sala. Por todo lado, esqueletos e corpos de pessoas jaziam de bruços pelo chão. O pagão achou curioso o fato de todos sucumbirem de costas para o que viam. Apalpou sua malha e sentiu que o estranho objeto ainda estava ali, e o apanhou. O girou novamente nos dedos. Viu duas letras gravadas do aço de uma das hastes, mas de um alfabeto que não conhecia. Guardou novamente o objeto, agarrou firme seu cajado e partiu com confiança para a porta.

Como de costume, o pagão se viu de volta à sala redonda. E como de costume, sentiu suas forças minando. Decidido a não esperar sua vontade ser vencida, foi até uma das portas e não se preocupou em marca-la, apenas girou a maçaneta e foi para o próximo desafio.

Um calor exagerado e abafado beijou seu rosto. Parecia uma sauna. Um tambor tocava muito alto. De uma hora para outra, uma forte luz brilhou, e Rifalyn se viu em um grande salão de piso de madeira, com colunas de pedra. O calor era insuportável. Estava sentindo seu sangue correr rápido pelas veias. Muitas tochas iluminavam demasiadamente a sala. Estava começando a respirar mais rápido. Sentiu suas mãos tremerem e seus pelos se arrepiarem. Parecia que estava levando choques. Começou a sentir uma vontade incontrolável de correr sem parar. Percebeu então que estava em um choque de adrenalina. Muita, muita adrenalina. Seus braços tremiam, sua testa suava, e seu raciocínio estava rápido. Percebeu a porta do outro lado da sala e quis correr até ela, ou apenas correr em círculos. Mas foi aí que algo inusitado aconteceu. O pagão só então notou alguns elfos parados a certa distância dele. E quando os viu, os elfos gritaram para ele, e correram em sua direção. Sem pensar duas vezes, Rifalyn soltou seu cajado e se atracou com os inimigos. Distribuía socos e chutes, empurrões e encontrões. E a medida que olhava ao redor, mais inimigos apareciam, até que em determinado momento se viu entre dezenas de elfos. Não que isso o intimidou. Pelo contrário, apenas aumentou sua fúria. Se jogava sobre os inimigos apertando-lhes a garganta com as mãos, chutando e pisoteando, empurrando e sendo empurrado. Seu coração batia freneticamente, a ponto de sair pela boca. Quando deu por si, estava sobre um elfo caído, batendo com a cabeça dele no chão. De olhos arregalados, olhou ao redor. Vários inimigos gritava com ele, mas não o atacavam. Apenas corriam até ele e de volta para trás. O calor dificultava seu pensamento.

- Estou brigando feito um animal... É isso que essa sala quer me transformar, em um lutador berserker? TERÁ QUE SE ESFORÇAR MAIS! ESTÁ ME OUVINDO? NÃO... ESTOU... EM... IRA!

Colocando-se de pé, Rifalyn se jogou contra um elfo próximo, e novamente caiu engalfinhado com outro inimigo. Percebeu novamente que atacava furiosamente um deles, e novamente se levantou. Com custo, fechou os olhos e sentiu o coração batendo rápido de mais. Sem pensar duas vezes, correu o máximo que pôde para frente. Sentiu trombadas de elfos, mas não parou, até que trombou com força em uma superfície sólida. Abriu os olhos e se viu de cara com uma parede de pedra. A porta estava a alguns metros dele. Se forçando mais uma vez a fechar os olhos e tatear, encontrou uma maçaneta, e a girou. Enquanto passava, olhou para trás, e rapidamente teve um vislumbre de uma sala ampla e empoeirada, com muitos esqueletos e cadáveres por ali, e algo que lhe chamou a atenção, mas que só percebeu o que era quando era tarde de mais. Seu cajado.

A porta fechou atrás dele, e ali, na sala redonda, teve motivo para ficar desapontado. Desolado. Seu cajado, sua arma condutora de poder, seu amuleto precioso de confiança... Jazia no chão empoeirado de um mausoléu amaldiçoado. Sentiu-se nu sem seu cajado. Era um vazio estranho para ele. E em pensar que tudo até ali tinha começado por causa do mesmo cajado. Por desencargo de consciência, tentou forçar a porta, que não abriu. Só havia agora uma opção, uma última porta ainda intacta. E o pagão com muito pesar foi até ela, e a abriu.

Uma sensação de ar fresco invadiu seus pulmões. Uma melodia de vento soprando seus ouvidos era a única coisa que diferenciava da sala da Inveja. Rifalyn se viu em um ambiente caloroso, porém, com uma forte névoa. Luzes brilhantes amareladas se perdiam na fumaça. A névoa era forte demais para se ver qualquer coisa. Sentiu falta de apertar seu cajado. Notou uma silhueta se formar na névoa e se aproximar. E então, várias outras. Então, se fizeram visíveis vários vails e nordeins, homens e mulheres. Sorriam para ele e o aplaudiam. Rifalyn estranhou, e tentou recuar, mas dois nordeins próximos o seguraram e o ergueram até o ombro. O pagão ouvia bravos e gritos de glória, aplausos e vivas. Vozes gritavam em seu ouvido e por toda a sala coisas como "Viva Rifalyn, o pagão mais perspicaz que já existiu! Vejam, ele passou por todas as casas do Templo do Caos! Ele é incrível! E sem um cajado, ele fez a magia fluir! Ele não precisa de arma, ele próprio é poderoso o suficiente! Vejam, ele venceu o Templo, ele é incrível! Glórias à Rifalyn!". O pagão começou a sorrir. Era divertido ver tudo aquilo. Os nordeins o jogavam para cima, e todo aquele povo o tratava como herói. Viu então um Bolt aparecer de meio à névoa, e gritar que ele tinha orgulho de ter ensinado o que sabia, e que havia sido superado. Rifalyn não estava entendendo, mas estava feliz, muito feliz. Todos gritavam seu nome, todos o reconheciam. Mas ainda assim, tentou apertar seu cajado, seu amuleto, e não o sentiu. Na falta do que segurar, apanhou o objeto metálico em sua malha, e ficou olhando para as lentes de vidro. Acabou se desligando do que todos diziam. Observando os próprios dedos por trás das lentes, sorriu, e pensou em voz alta.

- Esse reconhecimento é divertido... Mas não tenho sossego para ver quem me importo. Eu abria mão disso tudo...

E ao terminar a frase, notou que estava sentado em um chão de pedra escuro e frio. Alguns esqueletos jaziam largados pelo chão, e alguns corpos apodreciam sentados na mesma posição ao longo das paredes. Com um breve sorriso melancólico, se pôs de pé. Em silêncio, fechou os olhos e fez uma prece a todos os que sucumbiram naquele lugar. Andou até a porta, e, de olhos fechados, girou a maçaneta.

Abriu os olhos e se viu em um amplo salão brilhando com fogo de um candelabro a óleo. Em um grande altar, o ser que o havia mandado para aquele lugar nefasto. Estava novamente em Teos, no calabouço que havia se escondido. Se deu conta que nunca havia saído dali. Estava preso em uma poderosa ilusão do inimigo. Ainda com os olhos arregalados, notou o ser encapuzado flutuar em sua direção, e ouviu a voz rouca se dirigir a ele.

- Que truque é esse pequena criatura inferior? Como conseguiu escapar do Templo?

Rifalyn não estava disposto a responder o poderoso inimigo, ou a ficar ali por mais um segundo sequer. Respirou fundo, se virou e saiu em disparada. Sentiu uma grande quantidade de energia sendo canalizada atrás de si, mas não parou de correr. Se jogou pela abertura da porta e correu pelo corredor. A alguns metros, parou e olhou para trás, a tempo de ver uma explosão de hálito de fogo desmoronar as portas. A magia do próprio Lich o havia selado. A câmara a sua frente estava repleta de esqueletos vivos. O pagão não se preocupou em não chamar a atenção. Passou correndo por eles, que chiaram e seguiram com espadas em punho. Em sua memória sabia qual caminho percorrer para voltar à superfície e rapidamente encontrou o corredor que levava à saída do calabouço. Entretanto, devido à fuga desembalada, não se lembrava mais do motivo pelo qual havia entrado ali. Se esqueceu completamente do pelotão da Luz.

Estava começando a entardecer quando pisou novamente na colina. Ofegante, Rifalyn apoiou a mão nos joelhos e sorriu. Limpou a poeira de sua malha, aprumou a capa e começou a andar para voltar ao castelo, quando notou que a paisagem havia mudado. Na planície onde antes as pixies colhiam flores, muito sangue cobria a grama. Corpos de pixies, soldados da Luz e alguns soldados da Fúria se espalhavam. Rastros de combate seguiam a trilha que levava até o castelo Karis. Intrigado, Rifalyn decidiu investigar, mas não precisou ir muito longe. Ao virar a colina mais próxima, viu um esquadrão de soldados da Fúria descendo a trilha. Entre eles estavam alguns membros de sua própria guilda, os quais Rifalyn conhecia muito bem, Spark, Bolt, Kang e alguns soldados novatos. O pagão sorriu, se sentiu finalmente em segurança. Spark andou até ele, retirou o capacete e disse rindo.

- Chegou atrasado. A diversão acabou cedo hoje.

- Você nem sabe o quanto eu estou feliz por saber disso!

Bolt vinha logo atrás, com sua adaga pendendo ao lado. Assim como o irmão, retirou o capacete. Próximo ao queixo, um arranhão vermelho vivo combinava com a cor de seu cabelo. Ele analisou o pagão e disse.

- Algo me diz que você não chegou agora... Malha suja, aparência exausta...

- Sim Bolt, hoje não foi meu dia... Aquele pelotão da Luz na campina estava atrás de mim. Fui me esconder no primeiro calabouço e quase virei sacrifício de Lich... E essa magia estranha do Templo... Sério, hoje não foi meu dia!

- Sacrifício de Lich... Acho que já ouvi falar sobre isso... Como escapou?

- Ahh Bolt, nem eu entendi ainda... Foi tudo um... Caos.

Bolt sorriu, olhou para Spark e disse rindo.

- Imagina como seria irônico um general da Re-Connect virar sacrifício antes mesmo de receber a patente.

Rifalyn piscou, olhou para Bolt, e dele para Spark. Novamente olhou para Bolt e ficou piscando confuso. Spark passou a mão pelos cabelos cor de gelo e disse.

- Então Rifalyn, não é coincidência estarmos aqui. Procurávamos por você. Perguntei aos soldados que você treinou hoje pela manhã e me disseram que você estava vindo pra cá. Quando chegamos, o comandante de Raigo disse que um combate havia ocorrido perto do portão. Você não estava entre os feridos, e vimos rastros de uma perseguição. Seguimos e encontramos alguns soldados da Luz combatendo pixies. Entramos combatendo eles... E as pixies. Eu interroguei uma ranger antes de matá-la, que disse ter seguido um pagão até aquele ponto, mas perderam ele de vista. Daí pra frente você deve deduzir.

- Mas o que queriam falar comigo?

Kang veio correndo atrás e disse para os amigos.

- As outras guildas vão montar um cerco em Karis. E aí, ele já aceitou?

- Aceitei? – Perguntou Rifalyn desconfiado olhando para Bolt.

- A guilda precisa de novos generais. Com a saída de Dizzy, e com Silly ausente, precisamos de generais que conheçam a guilda e que sejam familiarizados com os novatos. Você é respeitado por eles Rifalyn. E você é inteligente, conhece nosso sistema. Convivi com você mais de perto que Spark ou qualquer outro general, treinei você, sei que é capaz. Você tem potencial para ser um pagão melhor que fui. A guilda precisa que você a lidere. O que me diz?

Rifalyn sorriu. Sempre quis ser um general, comandar os exércitos, sonhava com isso a noite quando ia dormir. Queria ser o pagão de referência, almejava isso. Mas finalmente vendo a chance de perto sentiu medo de não conseguir. Se lembrou da sensação vivida no Templo.

- Bolt, eu agradeço de coração, mas sinceramente, não sei se consigo.

Spark sorriu, olhou para cima e disse.

- Claro que consegue. Perdemos grandes oportunidades na vida por medo de não conseguir, por medo de não dar certo. Você não estará sozinho. Eu, Bolt, Gleed e Kang também estaremos liderando. Qualquer problema, e você terá alguns sim não vou mentir, estaremos ali para resolver juntos.

Rifalyn sorriu. Sacudiu a cabeça e disse empolgado.

- Então tudo bem, eu topo sim. Vamos fazer isso. Só me digam o que eu preciso fazer exatamente.

- Fique tranquilo. Precisamos encontrar outro possível general ainda. Spark vai atrás dele hoje? Enfim, se ele topar também, reunimos os generais, incluindo vocês dois, para discutir o que precisa ser feito e dar os detalhes administrativos.

- Tudo bem Bolt. E até lá, o que faço?

- Tudo que você fazia antes...

- Ah, isso é fácil. Por hoje, só quero deitar na minha cama e descansar.

Após se despedirem, Rifalyn partiu para casa. Kang liderou os soldados da Re-Connect que foram participar do cerco junto com as outras guildas em Karis, enquanto Spark e Bolt voltavam para Raigo. Após alguns minutos, Spark comentou.

- Ele está inseguro.

- É, eu percebi. Dê tempo a ele, para ele pegar segurança. Ele consegue.

- Não sei se ele vai se impor como líder, Bolt.

- É possível. Ele não é de personalidade forte ou imponente. Ele é muito parecido comigo. Talvez um pouco mais pacífico e observador... E imprudente.

- Eu estava pensando numa possibilidade. Com dois novos generais, ficamos novamente com seis. E se colocarmos mais um? Se ficarmos com sete generais na linha de comando... Mesmo que Rifalyn não se sinta seguro para liderar plenamente nesse inicio, ainda teremos seis generais. Quando ele pegar confiança, a linha de comando ficará completa.

- É uma boa ideia, de fato. Emoldure esse momento Spark, você teve uma boa ideia sozinho, e não envolve matar ninguém! Hahá, não me olhe com essa cara. Voltando ao assunto, precisamos perguntar a Gleed e Kang o que eles acham disso.

- Acho que eles concordarão. De qualquer forma, nosso tempo está curto. Eu vou atrás do segundo nome da nossa lista. Tem como você checar com Gleed o que ela acha? A opinião de Kang será a mesma que a dela. Se ela topar, faz uma nova bandeira de general. Te encontro em casa!

Despediram-se e Spark partiu. Já haviam conseguido um novo general. Faltavam dois.

Rifalyn entrou em casa e se deixou cair na cama. Suspirou e lembrou que precisava retirar sua malha e colocar uma camisa para dormir. Como de hábito, foi até o suporte em sua parede para deixar seu cajado... E só então percebeu que não estava com seu cajado. Sentiu um frio na barriga e olhou ao redor, na esperança de tê-lo deixado cair no cansaço. Nada. Sua mente se anuviou. Lentamente levou a mão até o bolso de sua malha, e sentiu um suave volume. Colocou a mão, e sentiu seus dedos envolverem o objeto de armação metálica e lentes de vidro. Sentou-se na cama e ficou observando o objeto de olhos estreitos. Lembrou-se das palavras do Lich... Escapar do Templo... E se, e apenas se, havia sido real, e não uma ilusão?

"Rifalyn, é apenas cansaço... Seu dia foi difícil, você precisa descansar. E é perfeitamente normal você falar com você mesmo em pensamento nessas condições...".

Então, retirando a malha, repousou o objeto curioso na mesa, deitou-se na cama, e se entregou ao sono.