Capítulo XXV – Um erro para nunca mais esquecer

Como já era de se esperar, o retorno de Mar trouxe alegria a muita gente, especialmente a Lee e Verona. Ficaram alegres, mas também surpresas por saber quem a havia convencido a voltar.

Anna estava feliz pelo irmão, contudo também apreensiva pois Velkan ainda não tomara conhecimento do que acontecera na casa dos dois. Talvez fosse melhor deixá-lo no seu sonho cor-de-rosa por mais umas horas e só depois contar-lhe tudo.

Antes da primeira aula começar, todos se achavam na mesa de Lee e Mar.

"A tua mãe está de acordo com essa tua ideia de ires trabalhar?" perguntou Verona.

"O meu pai aqui," Mar inclinou a cabeça na direcção de Velkan. "está mais preocupado do que ela."

Antes que Velkan pudesse dizer algo, Lee perguntou, "Quando é que ela volta de Massachussets?"

"No fim-de-semana."

"Então tens cinco dias para aproveitares," apontou Gabriel.

"Completamente. Acho que vou contigo sair, Verona. Como vai o número do Brian?"

Verona sorriu instantaneamente. "A dois algarismos de estar completo. Vens comigo, mas vou estar de olho em ti."

"Quem é esse Brian?"

"É um rapaz muito simpático que conheci e que me respeita. Porquê a pergunta, Vlad?" falou Verona com um tom falsamente inocente.

Vlad ficou demasiadamente impressionado para responder.

"Mas… mas tu…"

"O que se passa com esta turma?" comentou Seth que acabara de entrar. Olhava para Mar e Velkan com uma expressão quase enojada. "Não tarda nada, temos orgias nos corredores.

Brooke olhou para os dois espantada e logo depois, desagradada. Trocou um olhar cúmplice com Vanessa.

Ao ouvir isto, Velkan teve uma forte vontade de terminar o que tinha começado na primeira vez que tinha sido obrigado a entrar em contacto físico com o outro rapaz. Se ao menos, nesse dia Frank não os tivessem separado…

"E a tua mentezinha diabólica teria adorado ver uma coisa assim," comentou Verona, apoiando-se no ombro de Seth quando ele passou por ela. No momento em que ela o tocou, ele parara, sempre impressionado quando Verona se lembrava que ele exista. "Mas ainda não chegámos a esse ponto. Quando isso acontecer… ficarás a saber."

Seth não se mexeu, ficou a olhar para a rapariga sem saber o que dizer. Isso já era costume acontecer quando ela ficava perto demais.

"Adeus, Seth."

Perturbado, ele afastou-se. Verona rolou os olhos e Mar abanou a cabeça.

"És má," declarou a loira, sorrindo. Pegou no seu lápis e começou a escrevinhar algo na mesa.

O professor Frankenstein escolheu esse momento para aparecer. Num primeiro momento pareceu muito sério, mal disposto, até, mas no momento seguinte esboçou um grande sorriso, igual ao que sempre exibia quando via os alunos.

"Bom dia!"

Muitos cumprimentaram o professor e todos começaram a tomar os seus lugares sem grandes pressas.

"Porque é que ele está a dormir?" perguntou o professor, apontando para Carl. "A aula nem sequer começou."

"Ele não tem dormido nada ultimamente," explicou Gabriel. "Teve uma discussão qualquer com o professor Spivey e agora tem estado até de madrugada a trabalhar em algo para 'provar as suas declarações'."

"'Afirmações concisas', Van Helsing," corrigiu Velkan, que ainda estava ao pé de Mar.

"Tanto faz… Valerious." Gabriel quase lhe fez uma careta, mas reteve-se. Velkan enviou-lhe um olhar nada simpático.

Anna não notou nada disto, a sua mente longe dali.

"Interessante…" murmurou Frankenstein.

Enquanto isso, Carl começara a falar no sono. "Quase… quase pronto…"

Samantha deu-lhe uma cotovelada. "Acorda!" Não foi a única a dizer estas palavras. O professor também o fez, mas num volume muito mais alto. Carl levantou a cabeça de imediato e olhou em volta assustado. Os seus olhos estavam avermelhados e uma folha estava colada à sua bochecha.

"Diz-me, meu rapaz. Esse teu trabalho tem alguma coisa a ver com o teu último?" perguntou o homem mais velho. "E Mar, apaga isso."

Esta sorriu.Não havia mal em ser apanhada a destruir material escolar. Antes de ela começar a apagar, Velkan conseguiu ver o que ela escrevera.

'Marishka Zylka (Que está feliz demais para importar-se que o seu nome rime) – 16/01/2005 – 9h05'

Aquilo era-lhe estranhamente familiar. E sentir uma sensação incomodativa no fundo do estômago fê-lo decidir que isso não era uma coisa boa.


"Que tipo de pai é este que não espera sequer pelos filhos?" perguntou Velkan quando descobriu que Bóris já não se encontrava na escola. Pelo menos, o seu carro não estava lá.

Anna imaginava que o pai tivesse as suas razões para ficar sozinho. Naquela manhã, ela não viera com ele para às aulas. Não sabia sequer se ele tinha ido trabalhar. Bóris não faltava ao trabalho à toa, mas Anna realmente não o tinha visto na escola… "Bem, pelo menos ele avisa quando não dorme em casa," comentou ela.

Velkan calou-se.

"E tu não ias com ele de qualquer modo," acrescentou Anna.

"Onde está o Lamborghini?" perguntou Gabriel casualmente.

Velkan quase o fulminou com o olhar. "Na garagem," respondeu entredentes.

Desta vez Anna reparou na interacção e franziu um sobrolho na expectativa de ver a continuação da conversa.

"Queres boleia?" Ouvir isto fez Anna cruzar os braços. Eles não tinham combinado irem ao cinema? "O meu não é propriamente um carrão mas anda…"

"Não, Van Helsing. Obrigado."

"Nós vamos a pé," disse Mar, quando também se apercebeu da forçosamente civilizada troca de palavras.

"Vamos, Gabriel?" Anna disse o nome dele com uma maior intensidade e depois fez o mesmo com o do irmão. "Até logo, Velkan." O que se passava com eles?

"O que foi aquilo?" perguntou Mar, quando se viu sozinha com Velkan. "Vocês não eram amigos?"

"Éramos! Não somos mais."

"O que aconteceu?"

"Nada. Isto é, aconteceu, mas não quero falar sobre isso," explicou o rapaz, falando muito rápido.

Mar quase se riu. "Tudo bem. Eu esqueço o assunto, mas promete-me que fazes o mesmo. Pelo menos por agora. Precisava discutir um assunto sério contigo."

"Ok." Velkan dedicou-lhe toda a atenção possível. "Sou todo ouvidos."

O facto de eles estarem a caminharem e de Mar olhar o passeio à sua frente, fez com que ele não a visse corar. "Precisamos de conversar sobre o que aconteceu ontem." Ela não viu a reacção dele a isto, continuou a olhar para o chão.

"O que aconteceu hoje, queres dizer?"

"Ontem."

"Terminou hoje."

Mar chegou a abrir a boca para falar, mas depois disso as palavras fugiram-lhe e ela tapou a cara, embaraçada. Eventualmente, o riso veio. "Como queiras, Velkan," cedeu ela, fitando-o finalmente. Fazer isto, de algum modo lhe deu força para continuar. E para falar o que ela tinha que falar, Mar teve de parar de andar. "O que aconteceu ontem foi… entre outras coisas, especial. Esta característica em destaque é aquela que eu mais valorizo, porque é rara. É também essa característica que previne que eu deixe de ver alguma integridade em mim. Não me arrependo de nada que tenha feito, mas também não me orgulho. Entendes-me?"

Velkan estava sem palavras, porém ele tinha uma resposta certa para lhe dar. "Não."

Ela suspirou. "O que fizemos ontem, não era suposto acontecer. Não tão cedo." Mar fez uma pausa e Velkan percebeu onde ela queria chegar. "Eu quero que isto funcione."

"Cada coisa a seu tempo."

"Exactamente!" exclamou Mar.

Velkan anuiu com a cabeça e cobriu os ombros dela com um braço. Começaram a caminhar de novo. Convencida que ele fizera isto para não ter de olhá-la nos olhos, Mar colocou a cabeça na direcção do olhar dele.

"Estás desapontado." Não foi uma pergunta.

"Não. Não estou. Estás certa. E eu não tenho o direito de exigir nada de ti. Especialmente isto." Velkan falava a verdade. Talvez estivesse, sim, desapontado, mas com ele próprio. Agora que tinha a oportunidade de pensar convenientemente, admitia que talvez não tivesse lidado com a situação da maneira mais… íntegra. Louca talvez, mas não íntegra.

"Deus, vais ficar a remoer o assunto não vais?" perguntou Mar, um pouco preocupada.

"Vou," admitiu ele, sorrindo. "Vamos fazer o seguinte: eu garanto-te que concordo contigo a… noventa e nove por cento," Mar riu-se."enterramos o assunto por agora e tu dás outro tema de conversa. Que tal?"

"Tudo bem," ela concordou, mais satisfeita. "Porque estás zangado com o Gabriel?"

E em tempo recorde, o sorriso de Velkan desapareceu.


Atendendo às circunstâncias do início do seu próprio romance, Mar não conseguiu deixar de se rir como uma perdida, quando Velkan lhe contou porque estava tão furioso com Gabriel. Mesmo confuso, ele não fez perguntas. Raparigas. Que é que as percebia?

Para piorar a situação, quando chegou a casa, Velkan encontrou o pai num estado deplorável. Estava de pernas cruzadas, sentado na sua cama e não tirava os olhos de um quadro pendurado na parede à sua frente. Não parecia ter visto o filho a entrar. Estava demasiado ocupado a não prestar atenção a nada e quando Velkan lhe perguntou o que havia acontecido, não respondeu.

Decidindo deixar o pai sozinho por algum tempo, Velkan desceu ao andar debaixo e sentou-se na sala à espera da irmã. Com sorte, ela teria algumas respostas para lhe dar.

Anna chegou mais cedo do que o normal como intuito de ir a tempo de fazer o jantar. Ela não costumava fazer o jantar à segunda-feira. Aquele era o dia de folga de Angelica… o que não era mais uma influência naquela casa.

Velkan teve, então, as suas respostas. Algumas pelo menos. Ficou a saber da discussão e da saída de Angelica de casa por Anna. Depois de o pai sair do quarto e de terem um jantar constrangedoramente silencioso, Velkan ficou também a saber que um dos motivos por ele ter estado estranho, fora o facto de ele quase ter sido atropelado, apenas algumas horas antes.

Disto, Anna também não sabia. Sem entrar em grandes pormenores, Boris explicou que após um 'pequeno descuido' de sua parte, uma carrinha aparecera do nada e quase o atropelara. Disse também que a condutora da carrinha em questão, fizera questão de o levar a um hospital (ele não quis) e que fora mais simpática do que o necessário, atendendo ao facto de a culpa ter sido dele. Bóris não disse onde o incidente ocorrera e muito menos porque não estava ele no seu local de trabalho a essa hora. Nem Velkan, nem Anna insistiram em saber mais. Sem trocarem palavra, ambos decidiram deixar o pai em sossego. Ele não estava com vontade de mais explicações, e eles decerto também não o queriam aborrecer. Poderiam falar com ele mais tarde. Nenhum dos dois estava preparado para considerar Angelica uma pessoa do passado e esperavam sinceramente que Boris pensasse o mesmo.

Com as semanas seguintes passaram aulas, treinos, jogos e testes. E durante esse tempo, o humor de Bóris foi melhorando consideravelmente. Angelica passara por casa dele na única manhã em que Anna e Velkan não tinham aulas para buscar as suas coisas e desde esse dia não dera notícias. Boris dera a impressão de não se importar quando os filhos o informaram disso, mas só eles sabiam que lá no fundo ele ficara perturbado e que sentia falta dela. No entanto, para contrariar isto, ele começou a passar menos tempo em casa e das muitas vezes que saía, nunca dava satisfações do que fazia. A nível profissional, comportava-se normalmente como fizera no início. Boris sabia separar o seu mundo pessoal do profissional.

"Ele parece mais apto para exercer as suas funções não achas?" perguntou Brooke a Gabriel numa aula de História.

Gabriel fez tudo para reagir normalmente e não parecer surpreso. Como é que ela sabia que o homem não estivera no seu estado normal? Se ele não soubesse o que se passara nunca teria notado…

"Não faço ideia do que a que te referes."

Brooke suspirou. "Esquece."

"Já esqueci. Agora, fica sossegada," ordenou ele, não tirando os olhos do quadro.

"Eu ia calar-me, não precisas de me pedir." Brooke disse isto com um sorriso. "Tu não queres que me cale pois não?"

Gabriel esboçou um sorriso falso e abanou a cabeça enquanto fazia apontamentos. Não se deu sequer ao trabalho de lhe responder.

"Tu amas-me!" declarou ela num tom baixo mas confiante.

Gabriel não aguentou. Era demasiada patetice para se conseguir conter. Desatou a rir.

Para disfarçar o seu desapontamento, Brooke sorriu de orelha a orelha, o que fez com que toda a gente ficasse a pensar que eles agiam daquele modo devido a uma coisa boa, uma razão comum. Anna ficou a olhar para os dois, perplexa e nada contente. O resto dos amigos de Gabriel ficou do mesmo modo.

Quando notou que tinha a turma inteira a olhar para ele, Gabriel pediu desculpa ao professor e focou a atenção no seu livro depois de lançar um olhar grosseiro à companheira.

Esta, contudo, não desistiu de aproveitar a oportunidade de falar com o ex-namorado.

"É verdade e tu sabe-lo."

"O que eu sei é que tu perdes faculdades mentais a cada segundo que passa. Faz um favor àqueles que te rodeiam e cala-te, Brooke."

"Os que me rodeiam são cegos. Incluindo tu, meu amor. Devias de estar mais contente por me teres como colega de carteira. A tua namorada parece não se importar com o dela."

Gabriel inspirou fundo e começou a bater com o pé do chão, repetidamente. Não ia deixá-la manipulá-lo. Ele era inteligente demais para isso.

"Se eu fosse a ti, teria cuidado…" O sussurro de Brooke parecia estar envolto em veneno. "Olha."

Não conseguindo resistir à curiosidade, Gabriel olhou para onde Anna estava sentada e a sua boca abriu alguns milímetros. Anna parecia estar atenta à aula, escrevia normalmente no caderno. O que o espantou foi ver Frank com o olhar fixo na cabeça dela. A sua mão estava levantada, tentando tocar no cabelo da rapariga.

"Professor?" chamou Gabriel alto o suficiente para fazer Frank acordar do transe em que parecia ter estado. "Posso ir à casa-de-banho?"

"Sim," respondeu Boris, que parecia aborrecido com ele. "E fica por lá se quiseres."

Gabriel tomou o seu tempo a sair da sala e prestou tanta atenção a Frank enquanto o fazia, que não reparou no sorriso maldoso que Brooke exibia.

"Professor?" perguntou ela, após a porta bater. "Também posso ir?"

"Não, Brooke. Mas podes fazer um resumo do que eu estive a falar durante os últimos dez minutos."

Com isto, toda a gente se riu. Menos Anna.


"Sou eu o único a ver aqui um problema?"

Velkan encolheu os ombros e suspirou, não gostando de estar muito tempo ao pé de Gabriel sem discutir com ele. Este último reagiu de uma maneira semelhante.

"Não te incomoda veres a Mar com os olhos esbugalhados todas as manhãs, Valerious?" perguntou Vlad, que começava a perder a calma a cada minuto que passava.

"Qual é o problema de algumas saídas à noite? Onde está o mal em elas se divertirem?"

Vendo que não conseguiria nada de Velkan, Vlad virou-se para o melhor amigo. "Estamos a perdê-las! A Mar já só vê aqui o rapaz jeitoso à frente, a Lee está completamente irreconhecível e a Verona… perde-se com tipos mais velhos!"

"Mais velhos?" disse Gabriel. "Como sabes?"

"Eu… segui-as anteontem," confessou Vlad.

Velkan abanou a cabeça lentamente e Gabriel disse, "Eu não acredito que fizeste isso? Ou melhor: acredito sim. Elas matam-te, se sabem."

"Não te distancies do assunto principal, Gabriel. Aposto que se a menina Anna também fosse com elas, vocês já se preocupariam. Cínicos!"

E Vlad deixou-os.

Visivelmente tenso por ter sido deixado sozinho com Gabriel, Velkan franziu um sobrolho antes de se preparar para ir embora.

"Calma aí, cunhadinho."

Velkan arfou, ultrajado e murmurou, "Por cima do meu cadáver."

Gabriel ignorou o comentário. "Já é hora de termos uma conversa. De onde raio vem tanta hostilidade? Não planeio roubar-te a irmã. És assim com todos os namorados dela?"

Durante o tempo em que Gabriel falara, Velkan tornara-se um autêntico tomate andante. "Não sejas sonso! Não passas de um sedutor barato!"

Mesmo antes de responder, Gabriel ouviu um 'click' na sua mente ao mesmo tempo em que se apercebia de onde vinha o problema.

"Já contaste aos teus amigos todos como foi fácil aproveitares-te da inocência da tua namorada?"

Se isto não tivesse sido tão cómico, Gabriel talvez tivesse ficado chocado e não tivesse rido. Mas ele riu-se. E muito. Velkan achou isso ultrajante.

"Meu caro, a tua irmã é tudo – ouve bem, Velkan – tudo, menos inocente."

Velkan arfou uma segunda vez, agora devido ao choque.

"Achas que a forçaria a algo?" perguntou Gabriel, mais seriamente.

"Não," admitiu Velkan vários segundos mais tarde.

"Achas que a levaria a fazer algo que ela não quisesse?"

"…Não."

"Então qual é o problema? Eu? Não sou suficientemente bom para ela?" A cada palavra, Gabriel tornava-se mais zangado. "Tu estiveste sempre aqui! Desde o início! Tu acima de todos devias saber o que a tua irmã significa para mim!"

"Pára de bater no ceguinho!" explodiu Velkan, vencido.

A testa de Gabriel enrugou-se e ele cruzou os braços. "Então admite que não tens qualquer razão para agires desse modo, que o facto de a tua irmã ter crescido corrói-te por dentro, e que lá no fundo tu não consegues ver ninguém melhor para ela."

"Nunca! E cuidado, não te afogues na tua própria pretensão."

Gabriel rugiu com tanta teimosia, o principal defeito da 'raça Valerious', ele descobria. "Vamos fazer um acordo, então: "Eu tento com todas as minhas forças resistir aos avanços sexuais da tua inocente irmã - "Gabriel abaixou a cabeça mesmo a tempo de fugir de uma mão que de repente surgira para o agredir e continuou como se nada tivesse acontecido. "…e tu fazes o mesmo com a Mar. Que tal?"

Depois de pestanejar algumas vezes, confuso e um tanto receoso, Velkan perguntou, "Como é que tu sabes que eu e a Mar…?"

Silêncio.

"Eu não sei," respondeu Gabriel perplexo. Muito tempo depois… ele percebeu. "O que é que tu andas a fazer com ela?"

"Nada." Velkan respondeu isto rápido demais.

"Meu grande sacana! O que fizeste à minha amiga?"

"Nada que seja da tua conta."

Gabriel passou a mão pelo cabelo e apertou-o com força. Estava furioso. "E depois tens coragem de me criticar a mim?"

"Olha o melodramatismo, Gabriel. Conversaremos melhor quando te acalmares."

"Agora é 'Gabriel'?" disse ele bruscamente. "Velkan? Ve-Velkan, volta aqui! VELKAN!"


Apenas Anna conseguiu (Velkan nunca soube como) fazer Gabriel esquecer o assunto. Temporariamente pelo menos. Além disso, passaram-se coisas – a seu ver mais importantes – que tomaram o seu tempo e pensamento. Em primeiro lugar, e depois de andar com um olho sempre em cima de Frank constantemente, concluiu que a sua atitude perante Anna não era normal. Depois, foi adereçado por Carl, que pela primeira vez em semanas não exibia olheiras. Ele acabara o seu novo projecto e queria que ele, Gabriel, servisse de 'objecto de experimentação' como ele costumava referir. E como de costume, Gabriel aceitou, sabendo que mais ninguém o faria.

Pouco mais de um mês antes, Carl tinha tido uma discussão acesa com o professor Spivey durante uma aula. Podia-se dizer que Carl era o aluno que mais respeitava os docentes naquela turma, mas o facto de o referido professor ter duvidado da palavra dele deixou-o fora de si.

A discussão consistira na possibilidade ou não de se conseguir manipular o cérebro; enganá-lo, modificar noções previamente estabelecidas com o tempo e experiência. Devin Spivey achara a teoria de Carl uma patetice, o que constituiu uma provocação. E então, durante o último mês, o rapaz passara grande parte do seu tempo a desenvolver uma nova invenção. Uma não muito diferente da sua última já que também era relacionado com a mente, mas mais complexa já que o seu efeito não era temporário. E foi exactamente isto que assustou Gabriel quando Carl lhe explicou tudo.

"Gabriel, eu tenho a certeza que nada que eu usei nesta substância é nocivo para a saúde."

"Efeitos secundários?" inquiriu Gabriel.

"Improváveis."

Gabriel assentiu. "Disseste que uma mudança seria para sempre. Que tipo de mudança?"

"A mudança pode não ser para sempre. A tua opinião pode sempre mudar. Podes mudar o que quiseres, a mais pequena coisa. Só quero ter a certeza de funcionar," explicou Carl. "Por exemplo: gostas de chocolate?"

"Gosto."

"Queres deixar de gostar?"

Com este exemplo, Gabriel ficou mais descansado. Era bastante simples, até. Ia fazer de cobaia mais uma vez. Qual era o problema? "Não. Vou pensar em algo, mas tenho uma pergunta antes."

Carl anuiu com a cabeça rapidamente, pronto para responder.

"Pode-se mudar algo em geral em vez de uma coisa em particular? Se eu quiser gostar… da comida do Jinette, por exemplo; de toda a comida, independentemente de qual for ou de estar bem cozinhada ou não. É possível?"

"A 'comida' não é nada específico…"

"Como só o arroz, por exemplo."

"Exactamente!" exclamou Carl. "Não tenho a certeza… Mas podíamos experimentar! Podemos começar por algo específico e se funcionar, experimentamos algo no geral."

"Se eu não morrer da primeira vez, isto é," acrescentou Gabriel.

Carl riu-se e não contestou.

"Tenho outra pergunta. Quão grande pode ser essa mudança? Se eu quisesse… esquecer que o Vlad é meu amigo ou… querer suicidar-me. Seria possível?"

Engolindo em seco, Carl assentiu devagar. "Provavelmente."

"Tu és uma ameaça, Carl!" Gabriel acrescentou também que era genial, mas só em pensamento. O ego do rapaz loiro já era grande o suficiente.

"Então…" começou Carl devagar. "Posso trazer a minha substanciazinha genial amanhã?"

Gabriel apenas se riu e Carl teve a sua resposta.

Sem que eles soubessem, alguém ouvira toda a conversa e planeava já aproveitar-se da 'genialidade' do rapaz mais inteligente da turma.


Cautelosamente, ele espreitou pela sua esquina do costume e avistou quem queria. Ela estava com os amigos como sempre. Sempre a rir-se, sempre contente. De longe não parecia muito assustadora. Frente-a-frente era outra história…

Então ela e uma das suas amigas começaram a distanciar-se do resto do grupo, indo… na direcção dele. Num ápice, ele recolheu-se e girou nos calcanhares para afastar-se dali o mais rápido possível. Não ia ela reconhecê-lo…

Infelizmente ele não foi muito longe. Isto porque mal deu um passo na direcção contrária, colidiu com a pior pessoa possível. Pessoa esta, que não pensou duas vezes antes de agarrá-lo.

"Apanhei-te, fedelho!" gritou Brooke, vitoriosa.

"Sim, tenho a certeza que foi a coisa mais feliz que te aconteceu hoje…" disse Alan, começando a espernear para ser solto. "Larga-me, sua bruxa!"

"Surpresa, fedelho! Não tens ninguém para te defender. Agora, fala! É a quarta vez que te apanho a vigiar a minha turma. Em quem é que andas e de olho e porquê?"

Decidindo que pela força, ele não salvaria, Alan mordeu o braço que estava à volta do seu pescoço. Brooke deu um berro e na sua fúria encostou o pequeno rapaz à parede. Com o forte impacto, Alan levou uma mão à cabeça e cerrou os olhos, tonto. Assim, não pôde fugir a tempo do próximo ataque da rapariga.

Brooke bateu-lhe. E depois de lhe bater apertou a mão na orelha direita dele e puxou-a. Foi aqui, e só aqui, que Alan começou a chorar. Não um choro normal. Um desesperado. "Pára!" pediu ele em pânico.

"O que estás a fazer, Anticristo?"

Era Mar. E Lee. "Alan?" disse esta última quando reconheceu o rapaz. Brooke tinha-o largado e olhava as raparigas com ódio no rosto.

"É uma criança, Brooke," sussurrou Mar, especialmente impressionada com o que via.

Lee não estava impressionada, mas furiosa. Não sabia bem porquê, mas sentia-se revoltada. "As tuas atitudes enojam a pessoa mais indiferente do mundo, Brooke. Quando penso que não podes descer mais baixo, surpreendes-me desta maneira." Lee abaixou-se ao pé do rapaz. "Estás bem, Alan?"

Mar e Brooke começaram a discutir e Alan baixou a cabeça, não respondendo.

"Ela magoou-te?" voltou Lee. "Deixa ver." Ela tentou remover a mão que ainda tapava a orelha, mas Alan impediu-a assustado. "Calma…"

Alan limpou as lágrimas com a mão esquerda e deu um pequeno salto quando viu Mar juntar-se à amiga. Brooke não estava mais lá.

"Alan, se não tirares a mão daí, eu não posso ver se estás ferido," disse Lee, pacientemente.

"Eu…" começou Alan aos soluços. "Eu não gosto que me toquem na orelha." Ao confessar isto, ele baixou finalmente a sua mão direita, mas sempre com receio.

"Só nessa?" perguntou Mar.

"Sim…"

"Porquê?" perguntou desta vez, Lee.

Alan levantou a cabeça, ainda na dúvida de responder e Lee alinhou-lhe o cabelo com os dedos para o fazer habituar-se a ela e confiar.

"Ela… entornou água a ferver no meu ouvido quando eu era mais novo," ele murmurou.

A primeira reacção a isto foi o silêncio. Quem falou primeiro foi Mar. "Meu Deus…"

Lee tomou um caminho diferente: puxou o rapaz para si, fazendo com que ele pousasse a cabeça no seu peito. "Bem, isso já passou. Tens de perder esse trauma, Alan." Muito devagar, ela tocou a orelha dele com os dedos. Ele saltou com o susto. "Não estou a magoar-te, Alan."

Quando ele pareceu sossegar, Lee continuou com o carinho. Quase um minuto depois, começou gradualmente a brincar, tocando-o com a ponta dos dedos em partes diversas da orelha. Eventualmente, ele começou a rir e Lee trocou um olhar triunfante com Mar, que sorria.

"Tens namorada, Alan?"

"Não."

"Já tiveste?"

"Não…"

"Olha para mim, então," pediu Lee. "Agora vem a parte mais difícil. Fecha os olhos."

O rapaz pareceu assustado, mas obedeceu à mesma. Lee segurou na cabeça dele e deu-lhe um beijo na orelha. Alan quase gritou com a sensação. A vontade dele foi fugir, mas quando ela repetiu o gesto, ele começou a rir.

"Pára! Faz cócegas!"

"Vês?" disse Lee, também rindo. "Não é assim tão mau."

Alan sorriu e encostou-se à parede, esfregando os olhos. "Para quem pendura cabeças na parede, tu és muito simpática."

O sorriso de Lee cresceu. "Eu sou sempre simpática."

Ele sorriu do mesmo modo e deu-lhe um beijo na face, o que a espantou. "Obrigado, Aleera."

"Alan?" chamou agora Mar. "Como é que a Brooke te fez aquilo quando 'eras mais novo'? De onde a conheces?"

Isto pareceu assustá-lo mais uma vez. O seu rosto tornou-se sério e ele começou a levantar-se. "Não importa. Esqueçam o que vos disse."

"Espera!"

"Tenho de ir. Adeus." E Alan afastou-se o mais rápido que as suas pequenas pernas lhe permitiram.

"Estranho…" comentou Mar, pensativa. "O que se haverá entre ele e a Brooke?"

"É mais estranho que isso…"

"Como assim?"

"Ele disse o meu nome." Lee fitou a amiga. "Eu nunca lhe disse que me chamava Aleera."


Lee podia contar pelos dedos as pessoas que sabiam que o seu nome era 'Aleera'. Toda a gente a conhecia por 'Lee'. E devido a isso, ela ficou a ponderar sobre o assunto durante muito tempo. A Mar não aconteceu o mesmo, já que das vezes que parecia apta para conversar sobre o assunto, tendia a imaginar as histórias mais dramáticas possíveis e nenhuma das amigas as queria ouvir, muito menos acreditar. Verona não sabia o que pensar.

No dia seguinte, porém, Verona teve muito em que pensar. Estava sentada na sua cadeira com os pés em cima da mesa e a verificar o estado das suas unhas com afinco, muito nervosa. No pior sentido da palavra. Ao pé de si estavam Lee (sentada na cadeira de Vlad) muito quieta e Mar, em cima da mesa, a comer um bolo muito grande.

"Ajo queles muvaram te fonecedor," informou Mar, de boca cheia.

"Quê?"

Mar livrou-se do que mastigava e repetiu, "Acho que eles mudaram de fornecedor. Dos bolos. Olha prova."

"Que têm de diferente?" perguntou Verona, após provar um pouco. Não via diferença.

Mar encolheu os ombros, não dando grande importância. "Parecem mais doces."

Nesse momento, Vlad apareceu e as três raparigas olharam-no. Ele tinha um feio arranhão na bochecha e parecia muito maldisposto.

"Que te aconteceu?"

"Coisa minha, Mar."

Verona voltou a atenção às suas unhas e nada disse. Ela sabia o que lhe tinha acontecido. Na noite anterior tinha tido o primeiro encontro com Brian. Tinha sido tudo perfeito até Vlad aparecer. Ele havia-os seguido até um bar e lá começara os problemas. Vlad desatara a discutir com os dois e no fim, tentara levar Verona de lá à força. O resultado fora o arranhão que Vlad agora exibia para todos verem.

Atrás de Vlad, chegaram mais pessoas e quando deu o sinal de entrada, o professor Jinette apareceu. Cerca de dois minutos mais tarde, alguém bateu à porta e não entrou, o que queria dizer que não era aluno. Quando Jinette a abriu, viu que era, pois, um aluno, mas não daquela turma.

Era Will.

"Bom dia, professor. Será que poderia dispensar a Brooke por alguns minutos, por favor?" pediu ele, educadamente. Só Gabriel e Vlad, que o conheciam melhor, é que puderam perceber que ele não estava nada bem. Estava muito pálido, e os que estavam mais perto da porta podiam jurar que tremia.

"Não pode esperar?" perguntou Jinette.

"É urgente, professor."

"Tudo bem, mas que seja rápido."

"Eu não vou a lado nenhum contigo!" avisou logo Brooke.

"Vens, sim," rosnou Will, os seus olhos quase faiscando.

"Eu não saio daqui. Que vais fazer? Arrastar-me pelos cabelos?"

"Ou pela orelha." Will tentava a muito custo manter a sua voz baixa. "De qualquer modo, tu vens comigo."

"Não." Brooke levantou o queixo e cruzou os braços, convencida a levar a sua avante.

Aqui, Will perdeu a paciência e deu um passo, entrando na sala. Ao mesmo tempo, Brooke levantou-se e correu para o fundo da sala. "Se me fizeres mal, eu conto ao meu pai!" disse ela muito rápido.

Os cerca de quinze alunos que estavam na sala, olharam todos para Will para ver a sua reacção. Lee e Mar trocaram um olhar e fitaram o rapaz também.

"Vem comigo, rapaz," pediu Jinette. Saíram ambos da sala e lá ficaram durante alguns minutos. Durante esse tempo o resto da turma chegou e as conversas começaram. Muita gente perguntou a Brooke o que ela tinha feito para merecer a raiva do primo, mas ela teimara em afirmar que nada fizera.

Quando Jinette voltou, fê-lo sozinho, e pediu a Brooke que o seguisse.

"Onde?" perguntou ela. "E onde foi ele?"

"O director requer a tua presença." Foi a única coisa que o professor respondeu e Brooke não ousou questionar mais. Director? Isso não podia ser bom.

Jinette acompanhou-a ao gabinete do director e só voltou com a rapariga, que não queria por nada neste mundo andar sozinha pelos corredores da escola naquele momento. Deste modo metade da aula perdeu-se, assim como todo o bem humor do próprio Jinette. Brooke acabara de ser suspensa durante uma semana. Não disse a ninguém porquê. Apenas ela, Will, Jinette e o director sabiam. E Mar e Lee.

Embora o castigo, Brooke continuou a demonstrar a mesma boa disposição que tinha desde o dia anterior. Tinha a sensação que o dia lhe correria bem.

Carl aproveitara o facto de latim ser a última disciplina daquele dia dele e de Gabriel para fazer a sua experiência. A uma hora mais tardia, tinha o tempo que necessitassem, uma sala vazia, e sossego para o caso de algo correr mal.

"Já fizeste o teu testamento, Gabriel?"

Gabriel riu-se curtamente. "Não. No entanto, despedi-me da minha namorada com mais carinho do que o normal."

"Pelo menos isso. Assim, já não ias tão maldisposto para o Além."

"Verdade."

Carl abriu a sua mochila e de lá retirou uma pequena caixa. Em seguida, abaixou-se, descalçou uma sapatinha e tirou de lá uma pequena chave. Abriu a caixa e pegou num frasco, entregando-o a Gabriel depois.

"Como é que tu fazes isto?" indagou Gabriel mais para ele do que para o amigo.

"Bem, o meu pai dá-me umas dicas…"

Gabriel assentiu. Sabia que o pai de Carl trabalhava na indústria farmacêutica e que era dele que recebia alguns dos ingredientes com os quais fazia as suas experiências. Isso combinado com a sua curiosidade, sabedoria e destreza resultava nestas pequenas invenções.

"Parece… sumo de limão," comentou Gabriel, examinando o frasco.

"Lá limão tem…"

"A sério?"

"Sim," respondeu Carl, que mexia num pequeno estojo seu cheio de pequenos instrumentos e ingredientes quem Gabriel nunca vira antes e nem queria saber do que se tratavam. "Os ácidos do limão eliminam os efeitos nocivos de algumas das substâncias químicas."

Gabriel forçou um sorriso. "Efeitos nocivos de substâncias químicas? Eu não precisava de saber isso, Carl."

"Não te preocupes com isso," assegurou o rapaz loiro, sempre confiante. " Dei-lhe o nome de 'MMM, o que achas?"

"Porquê 'MMM'?"

Carl riu-se. "É tão engraçado ouvir isso da boca de outra pessoa." Não esperou nenhum comentário e perguntou, "Já pensaste no que vais mudar em ti?"

"Sim. Eu quero… passar a gostar dos meus pés."

Carl pestanejou algumas vezes, abriu a boca e voltou a fechá-la. "Como?"

"Preciso repetir?" Gabriel não queria repetir.

"Deixa ver se percebi: Quase cinco semanas a dormir quatro horas por dia, incontáveis horas de pesquisa e trabalho e doses imensas de paciência… para o meu grande feito ser… fazer-te gostar dos teus pés?"

"Tu disseste que íamos começar com algo simples!" argumentou Gabriel, tentando não mostrar o seu constrangimento. "E eu não gosto mesmo nada dos meus pés!"

"Tudo bem, tudo bem!" Carl cedeu, mas não deixou de demonstrar desagrado. "Bebe isto," disse ele, após entornar um pouco do seu líquido para uma colher.

"O que mais tens tu nesse estojo?" perguntou Gabriel, pasmo. "Espera. O que é que vai acontecer? Preciso de pensar naquilo que desejo, ou és tu que…?"

"Sou eu que, agora bebe."

Gabriel concordou com a cabeça. "Se eu tiver um derrame cerebral e morrer" Carl revirou os olhos. "O meu carro é para o Vlad, a minha cadela fica com a Anna, assim como a minha rede…"

"Gabriel…"

"A minha gata é para a Verona e as minhas t-shirts italianas são para a Mar e a Lee."

Carl esperou que ele prosseguisse e quando Gabriel não o fez, ele sentiu-se deixado de lado. "E para mim?"

"Ah… que dizes à minha colecção de caricas?"

Carl semicerrou os olhos e começou a remexeu no seu estojo. "Espera um pouquinho."

"Que estás a fazer?" perguntou Gabriel, espreitando por cima do ombro dele.

"À procura dumas gotinhas de veneno," respondeu Carl, inocentemente.

Num piscar de olhos, Gabriel levou a colher à boca.

E por pouco não cuspiu tudo. A limão, a substância certamente não sabia. Tinha um paladar extremamente azedo e Gabriel teve uma grande dificuldade em engolir.

"Acho que já me sinto a perecer," disse ele, com uma cara feia. Enjoo foi a única coisa que sentiu durante bastante tempo. Carl ficou em silêncio vários minutos a observar a reacção de Gabriel. Gradualmente, ele foi ficando mole e um quarto de hora mais tarde estava já com a cabeça em cima de uma mão e com os olhos entreabertos.

"Como te sentes, Gabriel?" perguntou Carl, temeroso.

Ele não respondeu.

"Ok, eu acho que está na hora…"

"Verdade, Carl? Fabuloso!"

Por meio segundo, Carl viu a cara sorridente de Brooke e em seguida sentiu-se ser arrancado da cadeira e levantado pelas axilas como se de uma criança se tratasse. Isto assustou-o muito. Quem teria uma força assim? Ele era pequeno, mas não tão pequeno.

Quando os seus pés tocaram no chão ele pode olhar para trás e viu…

"Frank? O que estás a fazer? O que estão a fazer?" Para seu susto, Frank não o soltou.

"Sabes Carl," começou a rapariga. "De todos os amigos do Gabriel, tu és aquele de quem eu desgosto menos."

"Brooke, o que estás a fazer?"

Ela sentou-se onde Carl estava antes, e observou Gabriel com os olhos arregalados de antecipação. "Ele está preparado?"

Carl engoliu em seco. "Preparado para quê?" perguntou, fazendo de tudo para que a voz não lhe saísse trémula.

"Carl, não sejas mauzinho, eu sei muito bem o que vocês vieram fazer aqui."

"Sabes?"

"Claro."

"Acho que estás enganada."

"Então como faço agora?" perguntou ela, ignorando-o.

"Eu não sabia que eras amigo dela, Frank." Carl começou a tentar que ele o soltasse, mas em vão. "Nunca imaginaria, julgando pela maneira como ela te trata."

"Não somos amigos," informou Brooke. "Basta falar-lhe? E depois o que acontece?"

"Eu não vou dizer-te nada!" gritou Carl, perdendo a calma.

"Vamos tentar…" Brooke aproximou-se de Gabriel e começou a falar-lhe ao ouvido.

"Pára! O que quer que lhe digas, eu posso mudar mais tarde!" disse Carl com convicção.

Em resposta, ela pegou no frasco de líquido verde e atirou-o contra a parede. "O que dizias, Carl?"

Este ficou a olhar para o chão, espantado por ver aquele destino para o seu trabalho. A pouca cor do seu rosto desapareceu e quando ele olhou para Brooke de novo, ela continuava a falar a Gabriel ao ouvido.

"Se não parares, eu vou começar a gritar," avisou ele, com uma voz fraquinha.

Brooke ignorou-o e momentos depois afastou-se de Gabriel, um belo sorriso enfeitava as suas feições. "Acabei."

"Ouviste o que te disse?" Carl disse isto bruscamente, muito irritado.

"Tu não vais gritar, meu caro. O que iriam os professores pensar se soubessem o estado em que deixaste o teu amigo."

"M-Mas…"

"Podes largá-lo, Frank." Ele assim o fez e Carl correu a socorrer o amigo. "Agora, ajuda-me a levá-lo até ao carro."

"Que carro?" gritou Carl de novo. Tinha vontade de a esganar. "O que pensas que vais fazer?"

"Fazer com que ele descanse, Carl. Que pergunta idiota." Brooke esboçou um sorriso que seria considerado amigável por quem não a conhecesse.

"Ele vai para casa dele," ordenou Carl, que tremia de raiva. "Se o levares para mais algum lado, juro que ligo para o Jinette, Brooke."

Brooke deu uma risada. "Como se o velho se importasse," disse. "Além disso, eu tenho a certeza que o meu amor não se vai importar que eu trate dele."

E ouvir isto foi genuinamente das piores coisas que o rapaz loiro ouviu na vida.