Capítulo 25

Elle entrou na sala de aula onde teria Transfiguração. Sentou-se no seu lugar e abriu o livro começando a ler a matéria sobre transmorfos, que eram raros e… A professora entrou na sala e os alunos preparam-se para a aula. Deixaram os seus trabalhos em cima da mesa e a professora recolheu-os com um aceno de varinha. Elle não se podia queixar da objectividade de McGonagall. Em todos os seus trabalhos conseguira tirar um brilhante, mas gostaria que ela não mostrasse na aula o quanto não ia com a sua cara.

- Miss Rouchouse, posso saber o que a está a distrair? – Elle olhava atentamente para a professora e ouvia tudo o que ela lhe dizia.

- Nada, professora McGonagall, eu estou a ouvi-la com a máxima atenção. – Ela respondeu prontamente. – Estou até a tirar apontamentos.

- Muito bem. – McGonagall voltou-se e Elle sorriu. Ao contrário da professora, ela gostava imenso dela. Sabia que McGonagall era uma pessoa do Bem e que elas lutavam pelo mesmo lado e isso era suficiente para ela. Queria que a professora não pensasse tão mal de si, mas percebia. De uma maneira ou de outra, ela sabia que McGonagall era muito amiga dos seus alunos e que os ajudava sempre que eles precisavam. Por alguma razão, antes era a sub-directora de Hogwarts. Isso fê-la lembrar-se da conversa que tivera com Irina, em que a última lhe revelara que Dumbledore estava vivo, a recuperar, a tentar reaver o seu poder mágico, sem nunca ter abandonado a sua escola.

Elle olhou pela janela. Estava há pouco tempo em Hogwarts e ela sabia que estava a ser difícil não poder falar com os amigos que arranjara e com Irina sempre que quisesse, mas percebia por que razão os alunos defendiam aquela escola com unhas e dentes dos devoradores. Aquela escola tinha sido a sua casa por muito tempo, uma casa onde podiam ser eles próprios e onde se sentiam bem. Aquela repressão que sofriam fazia-os lutar por tudo o que a Hogwarts de Dumbledore era para eles.

- E agora, Miss Rouchouse, será que me está a ouvir? – Perguntou McGonagall chamando a atenção de Elle.

- Sim, estou sim. – Elle disse seriamente. – A professora estava a falar do próximo tema: Transmorfos.

- Sim, pois estava. – McGonagall acenou com a cabeça. – A próxima matéria, que é sobre transmorfos, vai ser feita em trabalho de pares, pares esses que anunciarei para a semana. Nesse trabalho, terão que falar sobre todos os feiticeiros transmorfos de que há conhecimento e terão que formular uma tese tentando explicar por que razão são tão poucos e qual a capacidade que eles possuem para se poderem transformar em todos os seres vivos. Os argumentos vão ser avaliados e espero que tenham a capacidade de fundamentar em condições a vossa explicação. Permito que haja duas teses por trabalho, se a opinião entre os pares for diferente. Mas atenção, mesmo que o colega tenha outra explicação, vocês têm que tentar também argumentar. Eu saberei se não o fizerem.

Nessa noite, Irina foi falar com Neville e Ginny sobre o E.D. Queria mostrar-lhes o quanto estava a adorar as aulas e a força que essas traziam aos alunos. Queria agradecer-lhes por tudo isso.

- Oh, Irina, tu és tão estúpida. – Neville censurou-a com a cabeça. – Tu estás a ser uma preciosa ajuda. Consegues, às vezes, ser mais determinada nas aulas do que eu e a Ginny juntos. Agradeces-nos a nós, mas não reparas que tu própria és essencial para o E.D. continuar. Se não fosses tu a pensar no que fazer provavelmente já teríamos sido apanhados, não costumamos ser tão racionais.

- O Neville tem razão, Irina. – Ginny falou seguramente. – Agora desculpem, mas nós temos de continuar, os feitiços têm de sair bem, sabem? – Os três viraram-se para a aula que ocorria na Sala das Necessidades. Eles eram tantos, Irina estava tão contente por isso, mas tinha receio também, pois quantas mais pessoas, maior o risco de serem apanhados. É claro que ela tinha ideias muito boas para conseguirem ser discretos e, como todos sabiam que não podiam dar nas vistas, não tinha muitos problemas em seguirem os seus conselhos.

- Ginny, vem ajudar-me, se faz favor. – Pediu Dean Thomas que estava com sérias dificuldades no seu Patronus.

- Ora, já estás a retroceder, Dean, é impressionante. – Ginny falou, caminhando na direção do colega, mas fazendo Irina e Neville rirem.

- Ela faz sempre isso com o Dean. – Irina comentou, tentando conter o riso.

- Eles tiveram uma relação mais pessoal, mas ficaram muito amigos quando acabaram. No entanto, a Ginny não perde uma oportunidade para o chatear. – Neville explicou, olhando-a. Irina olhou de volta para ele. – Como vai o teu Patronus?

- Bem. – Irina ergueu a varinha. Logo a seguir, da sua varinha, saiu um patronus em forma de unicórnio.

- Tu deves ser feliz. – Ele comentou, olhando o animal andar pela sala, arrancando sorrisos de esperança dos vários alunos que tentavam com toda a força criar um patronus bom. Alguns seguiram o unicórnio, não com a mesma intensidade, mas com a mesma força de vontade e isso era muito importante. Irina recolheu o seu.

- Sou feliz, sim, apesar da guerra. – Ela sorriu, abraçando Neville como se abraça um companheiro de jogo e olhando para as varinhas erguidas, os patronus formados, os olhares concentrados. – E o teu Patronus? Como vai?

- Bem. – Ele respondeu, apertando o abraço, mas sem mostrar o patronus. – Só que não tanto como o teu, por isso, só vês para a próxima. – Brincou ele, separando-se e indo ajudar um aluno do quinto ano.

- Irina, podes ajudar-me? – Perguntou-lhe Padma, que estava com dificuldades em formar um Patronus com uma forma exata.

- Padma, tu sabes o feitiço, tu sabes o movimento. Falta-te a memória mais feliz. – Irina conversava com ela.

- No que pensas tu quando o fazes?

- Na amizade. – Irina respondeu. – Penso em todos os meus amigos e na força que eles têm para lutar contra isto.

- Mas eu também penso mais ou menos nisso… - Ela sentia-se frustrada.

- Talvez devesses formar um sorriso, porque o sorriso é ainda uma das coisas mais poderosas que existem no mundo.

- Mas sorrir com tudo isto?

- A Guerra é má, mas isto… - Irina abriu os seus braços, olhando para a Sala das Necessidades cheia de gente com brilho de esperança e coragem no olhar… - Isto é lutar pelo que acreditamos, isto é felicidade!

Neville olhou-a, aproximando-se delas e sorrindo. De seguida, olhou para Padma que, com um sorriso, pronunciou:

- Expecto Patronum! – E da sua varinha saiu a forma prateada de uma gata. Todos sorriram e aplaudiram o sucesso da amiga.

Quando o treino acabou, Irina apressou-se a transformar-se em gata, já que a hora de recolher já tinha passado, e andar em direcção à sala de Albus. Chegando à porta, voltou à sua forma original e bateu. Foi Snape quem abriu a porta.

- Estou aqui há imenso tempo à sua espera, Miss Saint-Claire. Mas tinha que chegar atrasada, só para começar mal as suas aulas.

- Mademoiselle Saint-Claire, professor Snape. – Irina insistiu, mas perguntou logo: - Onde está o Albus? – Ela não o via em nenhum canto da sala.

- Entre! – Snape mandou, dando-lhe passagem, Irina obedeceu prontamente. – O Albus está a descansar, já tem apresentado algumas melhoras, mas nós temos que as conservar, que é para ele estar no seu auge o mais depressa possível.

- Ah, ok. Eu queria dizer-lhe uma coisa, mas… - Irina olhou para Snape, que a olhava furiosamente. – Peço desculpa pelo atraso, o ED…

- Eu não quero desculpas, Miss Saint-Claire! Se quer ter aulas vai ter que ser uma aluna bem comportada, ou então estamos mal. – Snape interrompeu-a. – Eu não gosto de esperar.

- Mademoiselle Saint-Claire. – Irina falou irritada. – E, sinceramente, nem sei do que o senhor reclama, eu não estou atrasada para o treino. Sabe porquê? – Ela perguntou retoricamente. – Porque nós não marcámos hora para treinar.

- Pois o treino passa a ser todos os dias uma hora depois do recolher, já que foi a essa hora que chegou à sua primeira aula. – Snape rapidamente se fez ouvir.

- Mas, professor… - Irina desisitiu a meio, não valia a pena reclamar, nunca valia. – Como queira.

- Muito bem. – O homem sentou-se na sua poltrona, olhando-a atentamente. Irina sentou-se na poltrona de Dumbledore em frente a ele de pernas cruzadas. – É normal que se sinta mal quando eu entrar na sua cabeça, mas eu asseguro que só o estou a fazer porque a senhorita assim o pediu e eu não julgarei nada do que vir.

- Eu também não tenho nada que possa ser julgado. Nunca roubei, magoei ou matei alguém como certas pessoas. – Irina falou, olhando-o nos olhos e deixando-o irritado, ele sabia que ela se referia a si.

- Miss Saint-Claire… - Ele ameaçou baixinho, o que o tornou ainda mais assustador. – Bom, quero que fique a saber que, devido ao nosso convívio (mínimo, mas mesmo assim convívio), eu terei mais facilidade em entrar na sua cabeça, uma vez que sei mais ou menos como reagirá. Sei que tem algum treino na área da Oclumância, por isso quero que a use ao máximo contra as minhas investidas.

- Com todo o prazer. – Irina falou ironicamente, não lhe agradava nada a ideia de Snape saber o que se passara com ela.

- Então, vá, prepare-se. – Irina respirou fundo, olhando nos olhos de Snape, que proferiu: - Legilmen!

Irina não foi assaltada de imediato pelo feitiço de Snape, embora o sentisse a tentar romper o muro que guardava todas as suas recordações. Ela sabia que teria de resistir até não poder mais, mas também queria ter força, caso ele entrasse, e de certeza que ele entraria, para o expulsar se fosse necessário.

Finalmente, os olhos da mente de Irina encararam os olhos frios de Snape, que procuravam lembranças. A francesa começou a desesperar, pensando no erro que tinha cometido ao pedir a Dumbledore que convencesse Snape a treiná-la. Ai, o que ele podia descobrir!

A primeira coisa que Snape viu foi a conversa que ela tivera com Elle onde lhe contara que Dumbledore estava vivo. Irina sabia desde logo que ele o iria fazer para se certificar de que ela não contara nada sobre ele à amiga. Mas ele não se ficou por aí e viu mais conversas das amigas até Irina conseguir expulsá-lo, criando um muro à sua volta que o levou para fora de sua mente.

Quando ele saiu da sua mente, Irina reparou que surpreendera Snape, pois ele encarava-a de boca aberta.

- Nunca pensei que fosse tão boa a Oclumância, Miss Saint-Claire, mas ultrapassou as minhas expectativas. – Snape elogiou e, desta vez, foi ela própria que se surpreendeu, Snape nunca a elogiava. – E vejo que não contou nada a Mademoiselle Rouchouse sobre mim.

- O quê? – Irina levantou-se da poltrona. – Ora, o professor é mesmo estúpido. Insiste em chamar-me de Miss e com a Elle…

- Não devia ter-se armado em miúda arrogante e ter quase mandado eu tratá-la por Mademoiselle. – Snape respondeu divertido. Irina respirou fundo, tentando segurar a fúria. – Pergunto-me se realmente pensa aquilo de mim. – Irina reviu a conversa que tivera com Elle na noite em que lhe contou de Albus.

- Que o senhor é um estúpido que não merece a confiança de ninguém? Que o senhor não se importa com o bem estar de ninguém? Que o senhor não gosta de ninguém a não ser do Albus?

- Ai, a única pessoa de quem eu gosto é o Albus… - Ele acenou lentamente com a cabeça, sem mostrar o que sentia ao ouvir aqueles duros insultos.

- Vai dizer que eu menti?

- Se é essa a sua opinião, então penso que não mentiu, mas eu preocupo-me com o bem estar das pessoas e gosto de mais do que uma pessoa. – Irina olhou-o com a sobrancelha erguida.

- Acha que não merece a confiança de ninguém? – Ela perguntou, sentando-se no sofá ao lado da poltrona.

- Bom, o melhor é continuarmos com o treino. – Ele falou, erguendo a varinha e Irina preparou-se, mas desta vez Snape foi mais forte e entrou com mais facilidade, talvez porque já conhecia melhor os seus métodos de Oclumância.

Irina deu por si a lembrar-se de Pratoi e do seu pedido de namoro. Foi em Agosto. Ele havia preparado o jardim de sua casa com flores e pediu-a em namoro. Irina achara a coisa mais romântica do mundo ver Pratoi oferecer-lhe o anel de namoro. Quando contou a Elle, noutra recordação já, a amiga troçara por ela levar tão a sério os rapazes, mas para Irina era importante confiar num rapaz para ter uma relação mais íntima com ele.

Numa outra recordação, ainda nas férias de Verão do ano em que começaram a namorar, eles estavam com uns amigos, Elle entre uns rapazes, sendo o centro das atenções e Irina agarrada a Pratoi, que lhe dizia coisas ao ouvido como:

- Amo-te, Irina, és a mulher da minha vida. – Como havia sido ingénua em acreditar nas palavras dele! Não duvidava que ele gostasse dela, mas talvez ele nunca tivesse querido uma relação tão profunda como ela queria. – Vamos embora daqui. – E ela foi mais ele dar uma volta pela praia, já nem se lembrava em que praia, mas o dia havia sido maravilhoso.

Como todos os dias, depois do pedido de namoro, ele levou-a a sua casa para ouvirem uma música e namorarem um bocadinho mais até ela se ir embora. No fim estava a chorar enquanto Pratoi a beijava levemente e ela se ia entregando às carícias já esquecendo como a música sempre a emocionava…

- Amo-te. – Ela disse a Pratoi entre os seus braços. Ele começou a tirar-lhe a blusa e ela deu-se conta que aquela recordação era demasiado pessoal para ser vista por Snape, mesmo demasiado pessoal.

Com toda a sua força, tentou expulsá-lo sem sucesso, ele conhecia agora os seus truques, mas Irina não desistiu, sabia bem o que tinha que fazer para o expulsar. O que lhe restava da mente fora das recordações, fê-la erguer a varinha e proteger-se com um feitiço adicional da Oclumância que o Mestre Ferry havia ensinado a ela e a Elle.

- Isso não a irá ajudar nada, Miss Saint-Claire. – Ele falou duramente. – Está a permitir que eu veja tudo o que é importante para si, tudo o que pode colocar terceiros em risco se for visto por um feiticeiro do mal. O que precisa de fazer é, em primeiro tentar travar e se não conseguir, então guia o violador de mentes pelas suas recordações, não lhe revelando nada de importante.

- Para si é fácil falar, mas eu não sou uma pessoa fria e mesquinha. – Irina respondeu prontamente.

- Pois devia passar a ser, está a fazer com que corramos riscos despropositados. – Ele falou irritado e levantando-se. – Prepare-se!

Mas ele nem lhe deu tempo e recomeçou a invadir a mente da francesa, que mostrou mais resistência. Se ele já sabia como eram as suas técnicas em Oclumância, ela começava a entender as dele em Legilmância. No entanto, ele estava mais decidido e era muito mais experiente. Dumbledore não se havia enganado ao dizer a Irina que ele era realmente bom a invadir as mentes dos outros.

E lá estava ele, de novo, naquela recordação. Pratoi já sem camisa sobre ela que só tinha a lingerie, as roupas dos dois no chão da sala. Ele a beijar-lhe o pescoço demoradamente, ela a percorrer as costas dele com as mãos.

Irina sabia qual a intenção de Snape: ele queria obrigá-la, da pior maneira, a ouvi-lo, mas ele era tão forte, meu Deus! E ele não precisava fazer isso com ela.

Pratoi a descer a sua língua para o umbigo de Irina, ela a gemer baixinho.

Com toda a sua força, Irina levou Snape até uma memória de um lago. Ela tinha os seus catorze anos e olhava o lago com dedicação e tranquilidade. Oh, como o lago de Pahtellons era belo e lhe fazia tão bem para pensar em tudo! O seu olhar estava perdido nas águas imensas do lago do qual ela não via o fim. Um momento de silêncio, de paz, de tranquilidade em sua vida mundana, mas com os conflitos da adolescência. Sem pensar duas vezes, levou Snape até ao lago e lá começou a afogá-lo, claro que não literalmente, apenas o queria fora da sua mente. E conseguiu, ela realmente conseguiu!

- Não foi difícil, pois não? – Snape perguntou menos irritado, era óbvio que sabia o quanto a tinha afetado ele ver aquilo.

- Bom, acho que chega por hoje. – Irina falou, reparando que transpirava do esforço feito e da invasão nada súbtil da sua mente, mas também do que vira: a primeira vez dela. Sentira tantas emoções juntas com Pratoi nesse dia…

- Miss Saint-Claire… - Snape sentou-se calmamente ao seu lado. – Acho que não percebe o que tudo isto implica. Eu só quero ajudar. – Irina queria realmente acreditar em Snape, mas ela não conseguia.

- Pois eu acho que não está a ajudar em nada. Não é vendo a minha vida íntima que me vai ajudar. – Ela enfrentou com fúria. – Caso não tenha percebido, aquele momento era demasiado pessoal, professor Snape.

- Calma, Miss Saint-Claire. É preferível mostrar-me a mim do que ao Senhor das Trevas. – Ele disse racionalmente e, embora ela soubesse que ele tinha razão, razão era a última coisa que ela queria naquele momento.

- Eu soube desde o início que me iria arrepender disto. – Irina falou, levantando-se. – O senhor até não viu nada de mais, porque eu consegui afastá-lo a tempo, mas podia ter visto.

- Pois podia, mas não o fiz. Parece-me que está a exagerar um pouco.

- Talvez. Mas isto não irá repetir-se. – Irina abriu a porta e saiu, tranformando-se em gata no lado de fora.


Elle entrou no quarto mais Laura. Elas queriam privacidade para discutirem sobre os próximos feitiços a serem praticados na Sala Escondida.

- Muito bem. – Elle disse sentando-se na cama da amiga com ela a seu lado. – Talvez devêssemos praticar o feitiço destrus, aquele que faz com que partamos uma perna ao nosso adversário.

- Sim, acho uma boa ideia. E não há nenhum que sirva para partir o braço da mão que segura a varinha? – Laura perguntou. – É que eu acho que também seria vantajoso.

- Sim, esse era o que eu ia dizer a seguir. – Elle disse. – De qualquer maneira, andei a pesquisar e sei como praticarmos sem magoar ninguém. Há uns bonecos especiais que agem como se fossem um feiticeiro. Eu não sabia como havia de trazer isso para Hogwarts, mas estive a passear e encontrei um velho armário de arrumações. Estavam lá desses bonecos. Eu encolhi-os e levei-os para a sala. Depois multipliquei e estão lá, à nossa espera. – Laura acenou com a cabeça.

- Então, está bem. Eu pensei também em praticarmos o vomitus. Se o nosso adversário começar a vomitar não se vai sentir muito bem. É que alguns feitiços já são de esperar, estamos num combate e é de esperar feitiços de ataque mas quem se vai lembrar deste? – Laura perguntou ao que Elle concordou.

- Sim, e talvez devessemos praticar melhor o filipendo. – Elle sugeriu mais uma vez.

- Bom, então já temos algumas coisas para praticar na sala. Tu estás mais confiante, Elle, assim me parece. – Elle olhou Laura com um sorriso. – Eu não preciso de saber porquê. É bom ver-te ainda com mais confiança. Para mim isso basta para ter também mais confiança.

- Obrigada, Laura. És uma boa amiga. – Elle abraçou-a e tirou a sua vassoura debaixo da cama. – Eu vou voar. Queres vir?

- Oh, não! Eu gostava de te ver, mas tenho que começar a pensar na matéria dos transmorfos. Ainda não tenho nenhuma tese que explique a sua raridade. Sabes? Estou curiosa para saber quem é o meu par. Achas que poderemos ficar juntas? Era bom, porque eu tenho a certeza que tu já pensaste em alguma coisa. – Laura falou ao que Elle se sentou.

- Não penses assim, porque o meu par vai ter que trabalhar tanto como eu. – Elle disse seriamente. – Mas é claro que se fores tu, eu posso fazer a maior parte do trabalho. –Elas riram e Elle levantou-se.

- Espero é que não fiques outra vez com o Malfoy! – Exclamou Laura. – Havia de ser bonito! – Elle encolheu os ombros e voltou-se para a porta. – Quanto ao grupo, acho que devemos também ter mais cuidado. Somos ainda alguns, não tantos como eu desejaria, e estamos a encontrar-nos muitas vezes. Podemos levantar suspeitas dentro da equipa. – Elle voltou-se, também ela com o semblante preocupado.

- Sim, eu acho o mesmo. Talvez devessemos reunir-nos apenas duas ou três vezes por semana. – Elle sentou-se mais uma vez. – Eu sei que pode parecer pouco mas… Temos que o fazer e então podemos aproveitar melhor já que temos menos tempo. E podemos sempre praticar sozinhos. Sim, estou com medo também por isso. Bom, podemos sempre dar "trabalhos de casa".

- Sim, acho também que é o melhor a fazer. E eu acho que eles vão concordar. – Laura sorriu e deu a vassoura a Elle. – Vá, agora vai lá voar, que eu sei que tu queres muito isso.

- Sim, é verdade. Eu nas férias voei contra o meu irmão e ele teve que reduzir a velocidade para eu não sair humilhada. – Laura riu.

- Imagino. – Laura disse agora séria. – Perderes com o teu irmão mais velho, que tem como vida voar para apanhar uma snitch. Tão humilhante.

- Até logo, Laura. – Elle foi para o campo de quiditch. Gostava de conversar com Laura mas tinha que voar para se sentir um bocadinho melhor, mais livre.

Quando Elle, finalmente, deixou o chão, sentiu-se completa. Para ela não faltava mais nada para ser feliz. Ela sabia que era no ar que se sentia melhor, que era no ar que conseguia pensar melhor. Ela adorava a terra, mas o seu elemento preferido era sem dúvida o ar, que lhe dava aquela sensação de liberdade com que muitas pessoas sonham. Adorava todos os elementos, a água era essencial para si. Quando bebia água era como se limpasse o seu corpo. O fogo tinha o poder de a aquecer e a terra segurava a sua casa e as pessoas de quem ela mais gostava. Mas o ar, o ar era um luxo para ela. O Homem sempre pensara em dominar esse elemento, e por vezes não via isso de outro ângulo. Um homem não pode dominar o ar, assim como não pode dominar nenhum elemento. A única coisa que um homem pode fazer é tornar-se companheiro dos elementos e eles formarem um par, serem amigos e ajudarem-se mutuamente. Assim como ela fazia agora, sem pensar realmente em mais alguma coisa senão daquela amizade que a unia àquele elemento.

Porém, Elle sabia que tinha que parar. O dia já estava a escurecer (ainda mais) e ela não podia ficar ali durante muito mais tempo. Aterrou suavemente, lentamente, como se despedindo daquele momento.

- Vens aqui muitas vezes? – Malfoy perguntou fazendo-a olhá-lo. "Diz-me tu!" Ela pensou irritada. Será que ele não a podia deixar um minuto em paz? Será que era pedir muito.

- Não, é a primeira vez. – Elle respondeu aproximando-se dele. Detestava ter que estar sempre a responder às suas perguntas como se ele já não soubesse a resposta. – Porquê?

- Por nada. Só fiquei curioso. – Ele respondeu simples, vendo-a sentar-se a seu lado. – Então, e… Está aprovado o nosso campo de quidditch?

- Sem dúvida. Aprovadíssimo. – Elle respondeu rindo-se. – É pena é não se ver agora nenhum jogo a decorrer.

- Pois. – Malfoy olhou para os aros. – Mas podemos assim estar mais concentrados nos estudos, não achas?

- Por mim, Malfoy, tudo bem. Eu não me importo se não há quidditch. Sei viver com isso. – Elle respondeu encolhendo os ombros. – Há muitas maneiras de ocupar o tempo.

- Como por exemplo?... – Elle olhou-o. Que resposta poderia dar? Percebia que ele tentava apanhá-la a todo o custo. E qualquer passo em falso que ela desse…

- Voar. – Ela respondeu levantando a vassoura. – E ainda podemos ler vários livros sobre vários assuntos. Ainda há os estudos que nos ocupam a cabeça. E depois, podemos simplesmente passear e pensar na vida. Hogwarts é muito bom para reflexões sobre tudo.

- E no que é que reflectes? – Malfoy perguntou, mais uma vez, olhando-a nos olhos. – Quer dizer… Eu sei que é importante reflectir sobre a vida. Temos que ponderar as várias hipóteses que temos e tomar decisões, que por vezes são difíceis. Depois também há as nossas dúvidas existenciais: O que estamos aqui a fazer? Por que razão tenho que ser assim? E sei que ainda temos que pensar se isto é realmente o que queremos fazer, o que queremos ser.

- Malfoy, eu… - Elle desviou o seu olhar. – Em toda minha vida escolar, eu sempre tive vontade de aprender e é realmente nisso que mais penso. Se não foi tudo um desperdício. Será que esses conhecimentos que adquiri foram realmente importantes? Percebes? E ainda há mais. Será que tudo o que eu fiz, eu devia ter feito? Será que tudo o que eu faço, deveria ser feito?

- Sim, era exactamente isso que eu queria dizer. – Ele falou agarrando no braço de Elle para a fazer olhá-lo. – Achas que algum dia te vais arrepender do que estás a fazer agora?

- Oh Malfoy, tu não me conheces. Eu nunca me arrependo do que faço. Aliás, eu só me arrependo do que não faço. – Eles sorriram. No fundo, era tudo a mesma coisa.

- Eu pergunto-me o que teria acontecido se tivesses vindo para aqui há mais tempo. – Malfoy disse prendendo o cabelo de Elle por detrás da sua orelha com a sua mão.

- Ora, o que é que poderia ter acontecido de diferente? – Ela perguntou agarrando na mão de Malfoy que segurava a sua cabeça. – De qualquer maneira isso não aconteceria. Eu sou francesa. – Elle disse afastando-se por fim. – E tenho que me ir embora. Adeus, Malfoy.


Irina estava pior que irritada! Ela estava furiosa! Não, ela estava ainda pior: ela estava com raiva. Quem é que Snape pensava que era para ir entrando assim na sua cabeça e nem sequer pedir desculpa? Tudo bem que ele fizera tudo aquilo para a preparar, mas podia ter sido mais subtil. Albus bem a avisara, mas Irina queria dar uma oportunidade a Snape. Oportunidade essa que ele desperdiçou estupidamente.

- Acalma-te, Irina, ou ainda te metes em sarilhos. – Irina falou para si. Estava deitada já de banho tomado, mas não conseguia dormir, pois era só fechar os olhos para ver Snape a percorrer as suas memórias. – Pratoi… - Ela deu por si a dizer. Há tanto tempo que ele não lhe enviava uma carta… Há mais de duas semanas, será que ele estava bem? Os seus pais sabiam que eles eram amigos, apesar do namoro falhado, por isso, se lhe tivesse acontecido algo, eles diriam, mesmo estando chateados com ela. Isso aliviou Irina, a última coisa que queria era sofrer pela morte do ex-namorado. – Tenta dormir, Irina! – Ela disse mais decidida.

Mas, fechando os olhos, Irina não conseguia dormir, por mais que ela tentasse esquecer. A verdade é que estava profundamente irritada pela maneira com que Snape invadira as suas memórias e, embora ela percebesse que ele fazia aquilo daquela maneira por não saber fazer de outra, Irina não iria esquecer tão cedo. Ainda mais aquela recordação: a sua primeira vez! Uma coisa tão íntima que nem a Elle dissera como foi e aquele canalha sem dó nem piedade… Tudo bem que ele não vira tudo, mas só porque ela não deixou, porque ele veria tudo até ao fim se não o fizesse.

- Porquê logo essa memória? – Irina percorreu a memória invadida e sentiu-se de imediato transportada àquele dia…

Eles não namoravam há muito tempo, mas ela sempre se lembrava de que queria que ela e Pratoi se envolvessem mais intimamente. Sexo era quase um tabu entre os seus pais. Só falara disso com eles duas vezes: quando perguntou à mãe aos seis anos como nasciam os filhos. E, tanto a mãe como o pai, explicaram tudo com naturalidade, como se já esperassem aquela pergunta há muito tempo. Riram-se da sua cara quando ela disse que também queria ter um filho o mais rapidamente possível; a outra vez foi quando ela perguntou à mãe sobre a menstruação. Ela explicou-lhe o porquê de ser menstruada, que tinha a ver com os óvulos, blá blá blá… E o pai, que também lá estava, aproveitou para falar de sexo e das precauções. Não que fossem precisas muitas precauções. Para os feiticeiros não era preciso preservativo ou pílula. Não havia doenças transmitidas por sexo e tomavam uma poção depois ou antes do acto sexual para não engravidarem. Não precisavam de tomá-la diariamente… Se não tivessem sexo diariamente. Irina riu-se baixinho. Os pais pensavam que ela, com 17 anos, ainda era virgem, nunca desconfiaram que Pratoi a "desonrava" prazerosamente.

Mas, voltando àquele dia, Irina foi a casa dele de bom grado, sempre o faziam, mas havia sido ela a provocá-lo para avançarem e ele havia caído na tentação. É claro que ela amava estar com ele e dançar umas músicas agarrada a ele, só que eles tinham a casa toda só para eles e nunca souberam aproveitar. E Pratoi acariciava-a de uma maneira tão deliciosa…

Snape não tinha o direito de abusar dela! Não tinha e ela estava terrivelmente furiosa, porém acabou por adormecer, achando que não valia a pena ficar sem dormir.