Nota:
Desculpem o mega atraso nessa atualização; semana que vem (ou melhor, já nesta quarta), voltamos à programação normal. Espero que tenham aproveitado o feriado!
Boa leitura! ;)
(ver o final do capítulo para mais notas)
Capítulo 25: O Conto Das Cócegas
— Aah, cara, eu não consigo! — Eren passou uma mão por seus cabelos, caminhando de um lado para outro na estreita rua em frente à base das Tropas de Exploração. Frangos se espalhavam para dar caminho a seus passos agitados, cacarejando com indignação enquanto ele pisoteava em sua refeição.
— Você vai me dizer o que eu estou fazendo aqui? — Jean se apoiou em uma das paredes da rua, sem se impressionar com a exibição. Ele estava abrindo pistaches com a parte cega de sua faca de bolso, jogando as cascas às galinhas incomodadas em seu tédio.
— Está me dizendo que você nem sequer perguntou a Marco o que estaria fazendo? — Eren pausou sua passada para fixar o loiro com um olhar incrédulo. Jean apenas deu de ombros.
— Ele me disse para te acompanhar, então aqui estou. — Eren bufou.
— Você é inacreditável. — Marco podia pedir a ele para caminhar pelas docas de Trost direto para o oceano e Jean provavelmente seguiria suas direções sem hesitação.
Eren inicialmente havia suplicado a Marco para acompanhá-lo à base militar para implorar seu caso a Levi, só para descobrir que ele teria uma consulta com um paciente no distrito vizinho que levaria o dia inteiro. Mikasa estava trabalhando e Historia estava cuidando de Armin com Ymir. É claro que Eren nem sequer sonharia em pedir tal favor ao resto dos Titãs; ele sabia como se sentiam sobre a PM e as Tropas. Na verdade, se eles meramente ouvissem falar de seus planos ou acordos anteriores com Levi, ele não tinha dúvidas de que o olhariam com suspeita também.
E então, Marco sugeriu Jean.
— Bem, ou é isso ou você pode ir outro dia. — disse Marco, retirando folhas secas de seus caules e colocando-as em pilhas arrumadas. — A menos que queira tentar sua sorte com Sasha e Connie estragando tudo e fazendo uma piada de toda a situação...?
Eren resmungou, enterrando o rosto em seus braços. Ele queria fazer isso o mais rápido possível antes que pensasse demais sobre tudo e se acovardasse.
— Tudo que ele precisa fazer é te acompanhar. Contanto que ele se certifique de que você não desista antes de tentar, por que não? — Marco deu de ombros. Mas ele não entendia. Ele não conseguia enxergar Jean pelo que era sem as lentes cor-de-rosa. Era inútil, tentar explicar a Marco o quão imbecil seu namorado era. Acredite, ele tentara.
— Só... Só se certifique de que eu faça isso. — disse Eren, acenando para Jean se afastar e encarando resolutamente na direção dos portões da base. Ele estava tão cansado de explicar a situação de novo e de novo, e Jean não precisava saber. Na verdade, Eren estava um pouco surpreso por ele ainda não saber, já que ele e Marco eram basicamente grudados pela cintura.
— Me certificar de que você faça o quê? — Jean fixou-o com um olhar irritado. — Você me arrastou pela cidade até as Tropas de Exploração e tudo o que me disse é que você precisa fazer algo. Espere - você não vai se entregar, vai? — Subitamente, Jean pareceu muito interessado.
— Não! Eu só... Preciso pedir um favor a Levi. — Oh, cara, o que ele estava pensando? O que Levi pensaria quando o visse se empinando pela porta da frente logo depois de concordarem em seguir caminhos separados e não falar mais sobre o que aconteceu? E se Levi continuasse com o plano? Oh, Deus. Eren imaginou Levi fingindo não saber quem ele era e rindo de sua cara abertamente quando Eren propusesse entrar para as Tropas. Ah, isso era uma péssima ideia; abortar, abortar!
— Ei, aonde você pensa que está indo? — Jean o agarrou pela gola de sua camisa quando ele se virou para ir embora, arrastando-o de volta e ignorando seus protestos. — E quem diabos é Levi? Espera... — A face pensativa de Jean era uma visão cômica de se contemplar. Eren esperou as peças do quebra-cabeça se encaixarem. — Você não quer dizer Capitão Levi, quer? Oh, meu Deus, você quer. — Sua expressão ficou grave com descrença. — Você é maluco? Você é suicida de verdade?! Eren, aquele homem vai olhar para você e suas... — Jean levantou a manga da camisa de Eren, expondo as fracas marcas cruzadas do DMT em sua pele antes que ele conseguisse se libertar. — Cicatrizes mais do que óbvias e vai fatiá-lo ali mesmo. Que tipo de favores pretende pedir a ele?!
— Eu sei o que estou fazendo! Nossa, vê se relaxa. — Mas as palavras de Jean só serviram para dar a ele uma nova onda de confiança. Não havia nada que pudesse irritá-lo e açoitar sua determinação mais do que a dúvida do outro rapaz. Jean transformou isso num desafio agora, e Eren não poderia desistir de um desafio.
Eren se deslocou para se libertar do domínio de Jean. — Eu vou ficar bem. — enfatizou, caminhando em direção à base com determinação renovada.
— Você vai é morrer, seu idiota! — Jean gritou para ele. Eren sentiu uma casca de pistache atingir a parte de trás de sua cabeça, mas se recusou a morder a isca. — Vou falar com Mikasa se você não sair em meia hora. — Essa não era uma ameaça inútil; Eren gostaria de ver até Levi tentar lidar com sua irmã quando ela estava em uma de suas iras protetoras.
— Agradeço a preocupação! — atirou por cima do ombro. Os resmungos aflitivos de Jean eventualmente ficaram para trás quando ele atravessou a rua. Eren puxou seu tapa-olho para o lugar e arrumou o lenço em volta de seu pescoço para cobrir as marcas de DMT em seus ombros antes de respirar fundo para acalmar os nervos. Os altos muros da base se elevavam diante dele, assustadoramente altos e bloqueando o sol. A estrutura inteira era uma expansão vasta e angular; não havia enfeites ou pontos de apoio; sem chance de escalar aqueles muros sem o apoio do DMT. Pequenas janelas, estreitas e inacessíveis, mal podiam ser vistas alguns andares acima. Eren precisava inclinar sua cabeça e apertar os olhos para enxergá-las. Era uma fortaleza, arquitetada para suportar qualquer tentativa de violação, exceto talvez de alguém habilidoso com o equipamento?
Eren espantou os pensamentos intrusivos; ele não conseguia evitar de avaliar construções e tentar determinar se era ou não capaz de abrir uma brecha em suas guardas. Era um segundo instinto para ele a esta altura.
Ele voltou sua atenção ao portão. Duas sentinelas estavam a postos do lado de fora, encarando imóveis à sua frente com lanças nas mãos de prontidão. Seus capuzes estavam erguidos e a parte de baixo de suas faces, cobertas por seus lenços. Os olhos de Eren viajaram entre eles, notando a jambiya guardada em suas cintas na cintura e a kilij presa a seus quadris.
Armados até os dentes com olhares duros encarando adiante severamente, eles não pareciam particularmente convidativos. O portão que guardavam era uma alta barricada de madeira reforçada com ferro que deve ter sido criada para resistir a uma força incrível. Uma vez lá dentro, não haveria rotas de fuga fáceis. Eren engoliu em seco, olhos viajando de volta ao caminho por onde veio. Jean estava esperando do outro lado da rua, abrigando-se na sombra de uma barraca de comida com os braços cruzados sobre o peito e assistindo-o atentamente. Ele levantou os ombros em questionamento quando captou o olhar de Eren, mas este rapidamente balançou a cabeça. Não, ele iria fazer isso. Ele podia fazer isso.
Ele mal conseguiu dar outro passo quando as lanças moveram-se rapidamente para a frente para barrar sua entrada. Nenhum dos guardas haviam sequer olhado para ele e Eren não pôde evitar de franzir o cenho. Isso era realmente necessário? Eles suspeitavam que ele seria de algum modo capaz de passar correndo por ambos e derrubar a porta de ferro com o ombro sozinho?
— Diga seu objetivo. — A guarda mais próxima dele falou primeiro. Enquanto isso, o olhar de seu parceiro nem sequer vacilou. Ela olhou para Eren com o canto do olho como se ele não fosse digno nem do esforço de virar seu rosto.
— Hã... — Oh, meu Deus, isso recordava estranhamente o encontro com os seguranças da entrada de Vulture, exceto que aqueles caras pareceram muito mais dóceis. Eren silenciou sua ansiedade. — É... Levi - hã - Capitão Levi está? — Ele soou como se estivesse fazendo uma visita a domicílio! Deveria ter pensado melhor em como abordar isso.
— Eu não fui informada de nenhuma visita agendada.
— É porque é inagendada. — Essa palavra existia? Ele estava tentando tanto parecer oficial agora, mas era difícil fazê-lo estando em frente a dois soldados armados com nada além de suas roupas de rua maltrapilhas e uma pequena faca para se defender. Todos os seus instintos que foram afiados por anos nas ruas estavam gritando para correr; uniformes só significavam problemas, mas ele precisava ver isso por um novo ângulo. Não havia motivo para ter medo, pelo menos não ainda.
— O Capitão não recebe visitantes não autorizados. — É, isso fazia sentido. Eren provavelmente parecia a definição de um larápio, mas nada ameaçador.
— Você não poderia só, de repente, perguntar? Acho que ele gostaria de me ver se soubesse quem eu sou...? — tentou Eren, com um sorriso nervoso. A soldado finalmente o julgou interessante o suficiente para garantir olhar para baixo um pouco. Seus olhos escuros examinaram sua figura criticamente e ele se sentiu encolher debaixo do olhar. Ele conseguia só imaginar os lábios dela se curvando em desdém atrás de seu lenço verde, embora seus olhos não dessem nenhuma indicação de sua linha de raciocínio.
— E quem é você? — Sua voz era dura e condescendente. Eren sentiu seu temperamento incendiar. Mas era uma boa pergunta. Ele odiava dizer seu nome a qualquer um, mas será que tinha outra opção? Até Mike, Nanaba e Hanji o conheciam por Eren. Espere um segundo.
— Pode perguntar a Hanji, Mike ou Nanaba. Diga a eles que Eren está aqui, eles vão confirmar. — Ah, era isso que ele queria ver. O mínimo estreitar de olhos enquanto ela o considerava de novo. A guarda virou para olhar seu parceiro e Eren notou que ele havia se voltado a eles em algum momento durante a conversa. Não podia ler seus olhos, mas aparentemente a segurança viu algo porque ele assentiu uma vez antes de se voltar para encará-lo.
— Espere aqui. — Ela foi até uma escotilha construída no muro ao lado da porta, batendo três vezes em rápida sucessão e esperando o metal deslizar para abri-la e revelar outro guarda. Palavras em voz baixa foram trocadas e a grade foi fechada novamente. A segurança então voltou a seu posto e reassumiu sua postura, lança ao seu lado e olhos encarando diretamente sua frente. Eren olhou para ela e seu parceiro, confuso. Então? E agora?
Mas ele não precisou esperar muito pela resposta. Momentos depois, a pesada porta começou a se abrir, rangendo e gemendo com seu próprio peso. As sentinelas deram um passo para o lado automaticamente, agarrando suas lanças com as duas mãos em frente de si mesmas e ficando em posição de sentido. Eren deu um passo para trás também, intimidado pela visão toda. Ele olhou de relance à sua volta e às pessoas que por ali passavam, mas elas nem olhavam para ele. Isso devia ser bem normal para elas.
— Eren! — Eren instintivamente jogou ambas as mãos à sua frente, abaixando a cabeça e se preparando para o impacto enquanto o corpo se precipitava com força em sua direção. Mas parou antes, e explodiu em risadas. — Oh, olhe para você! É tão engraçado. — Hanji riu e deu um tapa em seu ombro jovialmente.
— Oh, é você. — Eren sorriu, abaixando os braços. A pessoa à sua frente sorriu irradiando alegria, com as mãos plantadas firmemente na cintura enquanto o examinava. — E aí, Hanji. Há quanto tempo.
— Eu sei! Levi tem te mantido todo só pra ele, homenzinho ganancioso. Enfim, enfim; como tem estado? O que é tudo isso, como posso ajudá-lo? — Eren piscou com o bombardeamento de perguntas.
— Eu, hã...
— Ooh, eu gostei do tapa-olho! Muito bom, muito bom. — Hanji se aproximou para poder inspecionar o acessório apropriadamente. — É bem... Travesso. — disse, com uma piscadela. Eren repentinamente se lembrou que não estava usando-o quando se encontraram pela última vez no mercado. Ah, merda.
— Eu posso falar com Levi? Seria possível? — Eren se afastou do olhar inquisitivo de Hanji, inconscientemente virando a cabeça para o lado esquerdo a fim de esconder o tapa-olho. Hanji piscou, endireitando-se.
— Levi? Por que diabos você viria até aqui para vê-lo? Vocês não se encontram normalmente em... — Hanji olhou de relance à sua volta antes de se aproximar novamente. — Muralha Rose? — Seu sussurro não era, porém, particularmente discreto, e Eren se surpreendeu ao ver as duas sentinelas lançarem um olhar rápido em sua direção. Hm, então isso chamou sua atenção.
— Ele não tem aparecido por lá ultimamente, na verdade... — confessou Eren, esfregando sua nuca. Ele não podia exatamente explicar a situação de forma apropriada. Além disso, ele tinha certeza de que Hanji havia interpretado errado a natureza de seu relacionamento de qualquer forma. Os olhos de Hanji se iluminaram em reconhecimento. Oh, ele não gostava desse olhar.
— Oh, querido, vocês tiveram uma DR?
— Uma o quê? — perguntou Eren, atrapalhado.
— Ah, bem, estava destinado a acontecer eventualmente, Levi é uma alma sensível. — Hanji abanou a mão desdenhosamente. — Certo, que tal isto: eu te ajudo a ver Levi se você me disser o que fez para magoá-lo.
— O que faz você pensar que eu sou o errado na história? — Eren não pôde evitar o pingo de indignação que sentiu. O que fazia Hanji pensar que Levi era a parte inocente nessa hipótese?
— Ué, do contrário, por que seria você a procurá-lo? — Hanji inclinou a cabeça para o lado e Eren franziu o cenho. Ah, certo. Fazia sentido.
Eren olhou para os dois guardas atrás de Hanji. Dois pares de olhos culpados imediatamente desviaram-se deles e voltaram a olhar diretamente para a frente. Ele realmente não tinha tempo para explicar por que Hanji interpretara a situação completamente errado e, tinha que admitir, suas teorias e suspeitas eram meio divertidas de entreter...
Ele exalou um suspiro derrotado. — Tá legal, mas você precisa prometer que não vai contar a ninguém. Especialmente Levi. — Eren fixou o(a) soldado de óculos com um olhar sério e seus olhos se iluminaram enquanto assentia, batendo palmas alegremente.
Eren mordeu o lábio, pensativo. — Não é nada de mais, sabe? Foi só um pouco divertido, mas acho que exagerei...
— Com o quê? — Hanji apressou, ansiosamente. Eren sorriu.
— Bem, nós estávamos relaxando depois de algumas... Atividades vigorosas. — Hanji mordeu a palma de sua mão, incapaz de conter sua animação. — Então eu pensei em dar a ele uma pequena massagem, sabe? Relaxá-lo um pouco. — Ele deu uma piscadela e ouviu um dos guardas abafar uma tosse envergonhada antes de ser silenciado pelo outro.
— E?
— E, bem... Você sabia que Levi tem cócegas?
Hanji soltou um grito agudo de deleite. — Não!
— Sim! — Eren deu um sorriso largo em retorno. Não conseguia evitar de ser contagiado pelo entusiasmo de Hanji, sentindo-se emocionado como se estivesse compartilhando algo que realmente acontecera. — Bem, ele me disse para parar e eu não parei, é que era tão fofo! Então ele ficou todo aborrecido e saiu de mau humor. — Eren fez um biquinho e Hanji soltou um som de "aww".
— Oh, isso foi tão precioso.
— Você não pode contar para ninguém, ok? — Eren enfatizou novamente. Afinal, ele estava prestes a entrar e pedir a Levi um enorme favor; se Hanji abrisse a boca, Levi provavelmente o mataria. Oh, Deus. Eren ficou sóbrio bem rapidamente ao imaginar esse cenário.
— Sim, sim, eu prometo. — Hanji deu risadinhas e acenou para que ele entrasse, pendurando um braço sobre seus ombros. — Venha, vamos reparar isso o quanto antes. Cócegas! Oh, céus.
— Obrigado por isso, Hanji.
— Oh, não, eu é que agradeço.
Eren virou a cabeça para olhar por cima do ombro onde Jean estava esperando. O mais alto movera-se para mais perto da beira da rodovia, assistindo a cena com olhos interessados. Seus lábios se torceram quando percebeu o olhar de Eren e assentiu encorajadoramente. "Meia hora!", falou com os lábios. Eren sorriu e assentiu, dando-o um joinha antes de se voltar às grandes portas que se abriam diante dele.
Notas:
Jambiya: lâmina curta (mais ou menos do tamanho de um antebraço) e curva, lembrando mais uma faca do que uma espada.
Kilij: espada também curva, porém mais comprida e fina, tendo um lado da lâmina com corte em toda a sua extensão e, no final dela, tem os dois lados afiados (sugiro pesquisar no google imagens e ver com seus próprios olhos, é uma linda espada).
