Boa leitura!


Coral

Em uma tarde de fim de julho, recebemos a notícia que o pai de Bella havia falecido de infarto. Foi um baque, pois todos que conheciam aquele homem austero e popular por seus julgamentos famosos, nunca imaginariam que ele morreria com pouco mais de sessenta anos. E, apesar da distância imposta por Renée, Charlie era o pai de Bella, o avô de Summer, então, decidi levar minha pequena para despedir-se do avô que ela via nos natais com Renée.

— Papai, como assim vovô Charlie não mais aqui na Terra? Ele tem asas pala í po céu?

— Isso, o vovô tem asas transparentes, ninguém podia ver. Agora ele está no céu, cuidando das estrelas cadentes para que muitas pessoas tenham o direito a um pedido.

Summer ficou quieta, pensando na minha resposta. Ela era tão pequena! Em setembro faria quatro anos, e, ainda não podia ter o peso da morte em seu coração de criança. Já era difícil fazê-la entender que a mamãe era uma "dorminhoca".

— Se a asa ela tanspalente, como você conseguia ?

— O vovô contou para mim uma vez – terminei o assunto. – Pequena, depois dessa viagem, o que você gostaria de fazer? Só você e o papai.

Eu queria que ela tivesse uns dias só para ela, para amenizar as notícias, assim como precisávamos desse tempo a sós. Nossa vida era voltada para Bella e mesmo que um fim de semana doesse, ao ficar longe de Bella, eu tinha certeza que era o necessário no momento. Um hospital não é lugar de criança.

— Disney! – deu um gritinho. – Quelo as pincesas! A mamãe pode í?

— Não, meu amor. Só você e o papai.

O sorriso dela murchou, mas assentiu, escalando meu colo e escondendo o rosto no meu pescoço.

— Eu ainda amá a mamãe, se eu foi na Disney, ?

— Summer, você irá amar a mamãe para sempre e ela também te amará para sempre.

— E você?

Apertei-a em meus braços, o peso do meu passado sendo cobrado quando Summer falava assim, toda manhosa e carente.

— Para sempre e sempre e sempre e sempre...

— Já entendi, papai! – riu, erguendo o rosto, deixando que eu fosse capaz de observar aqueles lindos olhos verdes, tão parecidos com os meus, mas tão autênticos. – Pala todo o sempe!

— Isso aí, gatinha – beijei-a na bochecha. – Agora fique quietinha enquanto o papai liga para tia Esme.

Liguei para minha tia para avisar que estávamos chegando à Jacksonville. Ela disse que nos buscaria no aeroporto. A sorte de Summer ser um pouco previsível, é que eu já tinha arrumado toda a nossa pequena viagem para Orlando, no parque da Disney.

O velório de Charlie Swan era privado, havia a cada canto do manto verde do cemitério de Jacksonville, uma pessoa da elite americana, com lenços a limpar as lágrimas. Renée estava impecável em seu terninho negro, os cabelos ondulados como sempre. Usava óculos escuros para tampar as olheiras, provavelmente. Parecia uma fortaleza.

— Papai, puque a vovó não cholando como todo mundo?

Eu tinha uma menininha indagadora. A cada segundo achava uma nova questão, e às vezes, era difícil achar uma resposta plausível.

— Ela já chorou, é que você não viu, Summy – disse Riley, aparecendo ao nosso lado. Ele estava tristonho, porém, não tão afetado. – Por que não vem ficar comigo um pouco, hein princesinha?

Key.

Vi os dois partirem e suspirei, fazendo meu caminho até Renée. As coisas entre nós não haviam melhorado, nem de longe estava perto de uma resolução. Desde o acidente de Bella, tudo ficou enrolado e mal dito. Queria que as coisas fossem menos complicadas.

— Por que você veio?

Revirei os olhos. Nem no velório do marido ela deixava de ser arrogante.

— Porque Charlie é o pai da minha mulher e o avô da minha filha.

— Meu marido não merecia tanto desgosto como o que você o fez passar... Isabella estar numa cama por quase quatro anos é uma loucura e isso desestabilizou Charlie. Como você consegue dormir à noite, sabendo que colocou uma jovem maravilhosa em coma, que deixou uma criança sem mãe, além de que levou à morte ao homem que livrou muita gente inocente de ir para a cadeia? Como que fica, hein? Será que o peso deixa-o acordado? Eu torço para que sim. Torço para que carregue pelo resto da vida a culpa pela destruição da minha família.

Minhas mãos tremiam e minha vontade era de esganá-la. Será que não via que apesar de todo o mal que causei, eu sofria pra caralho? Ninguém estava lá comigo quando tive que acordar de madrugada para fazer minha filha parar de chorar, mesmo tendo uma prova decisiva no dia seguinte. Ninguém visitava Bella todos os dias. Ninguém chorava pedindo perdão pelos pecados antes de dormir, como eu fazia há tanto tempo! É fácil apontar o dedo e ridicularizar a minha dor. É fácil demais.

— Se sua família foi destruída, foi bem antes do acidente acontecer. Você sabe disso, Renée. Não é idiota. Os erros começaram quando você preferiu priorizar a sociedade elitizada americana aos seus filhos carentes de amor. Não me culpe pelos teus erros também. E eu já vou embora. Summer já despediu-se do avô.

Virei-me para ir atrás de Riley. Só queria pegar a minha filha e sumir da hipocrisia de Renée Swan. Mas ela tocou em meu ombro.

— Fim de semana estarei visitando Isabella.

— Não estarei na cidade, nem Summer. Faz bem em visitar sua filha, afinal, duas vezes por ano é pouco para uma mãe desesperada por justiça.

Saí sem falar mais nada, morrendo de raiva. Encontrei Summer embaixo de uma árvore com Riley. Os dois estavam sentados e conversando baixinho. Ao chegar mais perto, ouvi que a conversa era sobre "ir a Disney sem a mamãe".

— Riley, quer ir conosco?

— Ah, não - fez uma careta. - Vou ficar com minha mãe, ela mal.

Suspirei assentindo. Ele era um garoto de quatorze anos, mas carregava muita coisa nas costas. Como não deveria ter sido difícil para ele ficar naquela situação? Mãe distante, pai distante, irmã distante.

— Vou amanhã com Summer, dormirei hoje na tia Esme. Qualquer mudança de planos, comunique-me. Sei que não é o melhor momento para um passeio na Disney, mas não é sempre que posso e sinto que Summer necessita muito desse relaxamento. Bella e Charlie numa tacada só, para uma criança, é difícil demais.

Riley concordou e deu um beijo na sobrinha antes de nos despedir. Levei logo Summer para longe daquele mundo horrível e mesquinho. Renée não havia dito a ninguém sobre a filha sobrevivente de Isabella Swan. Poucos sabiam, apenas a família e pessoas de convívio contínuo. A elite? Muito engraçado pensar em elite... Mas, agradeço por aqueles arrogantes não ficarem bajulando minha menina só pelo status dos avós. Summer é mais que maços de dinheiro.

— Princesinha, está cansada? - questionei. Ela estava agarrada a mim, como um macaquinho.

— Uhum. com soninho.

— Oh, meu amor, papai já te coloca numa cama, só espere chegar na tia Esme.

Sábado e domingo foram dias espetaculares. Eu me desliguei totalmente de meu celular, ficando cem por cento com Summer. Sentimos tanta falta de Bella, porém, só de ver o sorriso no rosto da minha filha quando via o castelo da Cinderella, já me deixava feliz. Era o certo deixar que Summer tomasse um ar, era tão pequena para aguentar tanta coisa imposta a ela.

Levei-a em todos os brinquedos que queria e tiramos milhares de fotos com os personagens da Disney. Summy não sabia se gritava, se pulava, se ria. E isso era um enorme motivo para eu me orgulhar de mim mesmo. Pelo menos como pai, eu era bom. Não havia sobre o que queixar, já que eu vivia em prol de minha menina.

— Papai! Papai! Gudão doce! Quelo!

Summer havia gritado em certo momento da tarde de domingo. Tínhamos acabado de chegar do passeio no safari e ela era louquinha por doces, quase uma formiga. Comprei o algodão doce dela, recebendo em troca um lindo e animado sorriso.

Era o necessário para fazer-me o melhor pai do mundo.

A viagem de volta foi ao mesmo tempo triste, porém, esperada. Dois dias sem Bella era o máximo que conseguiríamos. Summer e eu éramos tão dependentes de Isabella, que chegava a ser dolorido afastar. Ou pensar em afastar. Apesar de ter sido revigorador esse passeio na Disney, uma parte nossa não estava lá conosco. Nossa felicidade não estava completa.

Chegamos em Hanover quase na hora do almoço de segunda-feira. Meu turno só começaria à tarde e eu estava louco para ver minha Bella, assim como Summer. Deixei minha pequena com a babá depois de alimentá-la devidamente. Iria levá-la até Bella só mais à noite.

Ao chegar no hospital, meu sorriso era imenso. A saudade de Bella estava quase me matando, eu queria ao menos tocá-la, beijá-la suavemente nos lábios. Meu sonho seria se ela acordasse como a Branca de Neve, com um beijo de amor verdadeiro. Sonhos, obviamente. Assim que coloquei meus pés no corredor do quarto dela – eu queria vê-la, antes de iniciar meu turno –, estanquei. A porta do apartamento 267 estava aberta. O que teria acontecido? Não era o horário dos medicamentos.

Quando percebi, eu estava correndo preocupado e desesperado.

Entrei.

Não havia nada.

Estava vazio.

Procurei por todos os cantos, meu coração trepidando no peito, minha respiração rarefeita. Eu estava a ponto de ter uma taquicardia.

— Cadê a minha mulher?! – gritei, saindo para o corredor.

Eu não podia deixar que a mínima chance do sentido de morte chegasse à minha mente. Não era bom entrar nesses caminhos. O fio de esperança tinha que continuar forte e intacto, mas era difícil.

Nancy, uma das enfermeiras mais antigas do hospital universitário, tentou me acalmar, contudo, eu nada ouvia. Tinha que saber onde estava Isabella, se ela tinha trocado de quarto ou se algo estava acontecendo.

— Acalme-se, Cullen! – Dr. Nick apareceu, segurando-me pelos ombros. – Respire fundo, ela não está no quarto porque acordou na manhã de sábado... Edward, foi um milagre, nem sei como te explicar. Ela estava adormecida, então, abriu os olhos perguntando pela mãe. Renée chorava de felicidade. Isabella está em segurança com a mãe, está em Jacksonville.

Soltei-me dele com um safanão. Jacksonville?! Que porra!

— Como assim?! Renée não podia ter feito isso, porra!

— Por favor, estamos em um hospital - tentou fazer com que eu me acalmasse, mas era inútil. Minha mulher, a mãe da minha filha, tinha acordado e agora estava longe de nós! - Ligamos para avisá-lo, como não o encontramos, ligamos para a mãe da paciente e ela estava na cidade.

Agarrei os meus cabelos com força, querendo gritar a plenos pulmões. Bella tinha acordado, porra! Dois dias que fico longe e ela acorda.

Ao mesmo tempo em que me sentia feliz por saber que ela tinha voltado para nós, o meu peito tremia com a sensação de traição. Por que ela tinha que acordar justo quando Renée estava na cidade?! Aquela víbora simplesmente levou Isabella embora sem esperar por minha decisão ou pensar na neta. Odiá-la estava sendo uma tarefa incrivelmente fácil.

— Bella está bem? Acordou bem, não é? - indaguei ao colocar minhas divagações de lado.

— Ela está bem sim, porém, precisa de algumas fisioterapias, além de exercitar o cérebro. Sinto muito em dizer, Edward, mas ela teve uma perda de memória significativa. Não sabemos se será por dias, semanas, meses ou anos. Contudo, Renée a levou dizendo que procuraria os melhores especialistas no caso.

— Perda de memória? – minha voz saiu pequena, não sei como ele conseguiu ouvir.

— Sinto muito – murmurou pesaroso. – Ela só lembra dos pais, que cursou Literatura Inglesa, mas quando perguntamos de você, ela não entendeu. Você é médico, sabe que casos como o dela são comuns. O cérebro recusa-se a lembrar de um grande trauma e bem, quase quatro anos em coma é muita coisa. Deixe-a descansar. Deixe-a respirar. Não é só você que está envolvido... temos uma criança no meio desse tumulto. Por isso que confiamos que o melhor fosse a ideia de Renée levá-la para ser tratada por especialistas.

Uma parte de mim acreditava no que ele estava relatando. Mas, eu sabia muito bem o poder de convencimento de Renée. Ela era ardilosa, peçonhenta. Uma advogada do diabo que conseguia tudo o que queria. Temida. Ninguém iria contra a palavra de Renée Swan.

— Preciso pensar.

— Pense bem no que irá fazer – suspirou. – Temos todos os exames feitos assim que ela acordou, você pode vê-los, sem problema. Só espere um pouco para ir atrás dela. Será um choque muito grande a descoberta de um noivo e uma filha. Precisamos prezar pela saúde dela.

Assenti, quebrando-me por dentro. Meu desejo era correr para Jacksonville, pegar Bella no colo, pedir perdão pelos meus erros e dizer que a amava muito. Contar sobre nossa filha que era apaixonada por ela. Falar o quanto queria que fôssemos uma família unida e feliz. Merecíamos isso. Pena o meu desejo ser abafado pela racionalidade. Bella precisava de uns dias de descanso e eu daria alguns. Mesmo me matando por dentro. Mesmo me corroendo. Ela era mais importante.

Quarta-feira. Era o máximo que aguentei. Peguei Summer e fui até Jacksonville. Tudo girava, a esperança, o medo, o possível. Quando chegamos à casa dos Swan, meus pés congelaram diante à porta.

O que esperar? Ela não se lembrava de mim, nem de nossa filha. O que teriam dito a ela? Teriam contado a verdade aos poucos? Teriam esperado que ela se acostumasse com a morte de Charlie?

Bati na porta.

E ao ser recepcionado, eu soube na hora que estava perdido.

— O que você está fazendo aqui? – grunhiu Renée, da sala. – Deixe-nos em paz!

— Summy – sussurrei no ouvido de minha pequena que estava assustada com os gritos da avó materna. – Vá ficar um pouquinho com a Keila.

Keila era a empregada de longa data que ajudou a cuidar de Riley enquanto Bella estava comigo em Hanover. As duas saíram da sala, deixando eu e minha sogra a sós.

— Nunca mais grite na frente da minha filha! - apontei o dedo em riste, ameaçando-a. – Agora, me mostre Bella!

— Você acha que é assim? Chega na casa dos outros tentando botar ordem, pensando ser o dono do mundo... Está muito enganado. Aqui quem manda sou eu! E nem adianta tentar argumentar, pois não deixarei ver a minha filha.

Fechei minhas mãos em punho com raiva. Ela não pensava na criança chorosa na cozinha que me perguntou por que a mamãe não estava mais dormindo? Por que a mamãe não tinha esperado por ela?

— Renée – cuspi o nome dela como se me fizesse mal. – Não tem dó de sua neta? Não tem dó de manter sua filha no escuro?

— Tenho dó sim, muita dó, aliás. Mas, eu sou uma mulher que tem que pensar racionalmente para fazer o melhor para a minha família. Isabella não está aqui e nem irei dizer aonde ela se encontra. Você tem razão sobre Summer, Isabella merece saber sobre a pequena, só que será nos meus termos. Se você ama mesmo minha filha e minha neta, faça algo de bom nessa vida e dê a guarda da minha neta para mim. Tratarei Summer como uma filha, darei de tudo e direi à Isabella que adotei uma criança. Assim, todos terão seus finais felizes. Minha filha, minha neta. Elas quem realmente importam. Afinal, a culpa disso tudo é sua.

Abri a boca indignado. Ela queria que eu desse a minha filha para ser tratada como uma adotada, sendo que ela tinha sangue Swan correndo nas veias? Bella merecia sim saber de Summer, mas não ter conhecimento dela como irmã. Bella era mãe. Mãe.

— Não vou dar guarda porra nenhuma! Summer é minha filha e de Bella, e será assim que tudo virá à tona!

— Pois então peço que suma. Isabella nunca saberá da filha, nunca terá a dor de saber que foi traída por alguém que amou. Nunca precisará limpar as lágrimas que derramou naquele maldito dia. Pela minha filha eu faço tudo, Cullen. Se tentar achá-la, eu arranco Summer de você a força. Eu adoto ela como minha filha e você se fode. Sabe que comigo não terá chance em um tribunal!

Fechei meus olhos, contendo-me de voar no pescoço dela.

— Isso não acabou – comuniquei.

Fui atrás de Summer e sai daquela casa.

Era preciso encontrar Bella, mas eu tinha que ter cuidado. Summer não seria tirada dos meus braços nunca ou eu não me chamava Edward.


NOTA DA AUTORA:

Mais uma peça do quebra cabeça rsrs E antes que falem "ele foi p Disney", bem, ele estava há quase 4 anos sem fazer nada e a filha merecia tirar da cabeça a morte do vovô. Ele tava com medo dela pensar que Bella também morreria. QUEM QUER MATAR RENÉE?