oi flores... mais um capitulo... ta ficando tenso... não se esqueçam das minhas reviews... estou adorando todas... bjuxx^^


Edward andava de um lado para outro sobre o velho tapete turco na arrojada biblioteca de dois níveis do Dr. Jonah Kauffman. Lá fora e duas dúzias de andares abaixo, Nova York sufocava sob uma terrível onda de calor. Ali, no distinto apartamento de cobertura, era tudo fresco e polido, a mundos de distância da agitação e barulho das ruas.

Nunca parecia Nova York no reino de Kauffman. Sempre que entrava no imponente vestíbulo, com suas madeiras douradas e cores suaves, Edward pensava nos aristocratas rurais ingleses e suas casas.

Um dos primeiros trabalhos dele fora o projeto daquela biblioteca, com a mudança de paredes e tetos para acomodar a enorme coleção de livros de Kauffman, no estilo discreto e tradicional que convinha a um dos maiores neurologistas do país. As estantes de castanheiro, as molduras largas e esculpidas, as janelas triplas, altas erecuadas, formando uma alcova aconchegante, tudo isso fora opção de Edward. Kauffman deixara tudo aos seus, cuidados. Ria sempre que lhe pedia uma opinião.

Você é o doutor neste caso, Edward. Não me peça para colaborar na escolha das vigas estruturais e não lhe pedirei para me ajudar em alguma cirurgia cerebral.

Agora, Edward fazia um esforço para se controlar, enquanto esperava. Desta vez, Kauffman era o doutor, e o presente dele, o futuro, cada opção que viria a fazer, grande ou pequena, estavam nas mãos competentes de Kauffman.

Já haviam se passado seis dias desde que ele deixara Desire. Seis dias desesperadamente longos. Kauffman entrou na biblioteca e fechou as portas.

— Desculpe fazê-lo esperar, Edward. Deveria ter se servido de um conhaque... mas conhaque não é a sua bebida predileta, não é mesmo? Tomarei um e você pode fingir que me acompanha.

—Agradeço por me receber aqui, doutor... com tanta coisa para fazer.

— Ora, garoto, você é parte da família.

Kauffman pegou uma garrafa de cristal Baccarat num aparador para servir dois copos de conhaque. Era um homem alto, quase dois metros, empertigado e esguio mesmo depois de setenta anos. Os cabelos permaneciam abundantes e ele se permitia a vaidade de escová-los para trás, brancos e ondulados. Usava barba e bigode bem-aparados, que cercavam a boca um tanto fina. Preferia as linhas austeras dos ternos britânicos, a elegância dos sapatos italianos. Nunca deixava de se apresentar de forma impecável.

Mas eram seus olhos que atraíam primeiro a atenção das pessoas... e a mantinham na maioria das vezes. Eram escuros e penetrantes, sob sobrancelhas pretas e curvas. Irradiavam afeição quando ele estendeu um copo de conhaque para Edward.

— Sente-se, garoto, e relaxe. Não será necessário abrir seu cérebro em qualquer momento no futuro previsível.

Edward sentiu o estômago se contrair lentamente.

— Os exames?

— Todos eles, e você pediu... mais do que isso, insistiu... uma extensa série de exames, deram negativos. Eu mesmo analisei os resultados, como você pediu. Não tem tumores, não tem sombras, não tem qualquer anormalidade. O que você tem, Edward, é um cérebro muito saudável e um sistema neurológico em perfeitas condições. Agora, sente-se.

— Está bem.

As pernas cederam com bastante facilidade. Ele arriou no couro macio de uma enorme poltrona.

— Obrigado por todo o seu tempo e trabalho, mas me pergunto se não deveria pedir uma segunda opinião.

Kauffman ergueu as sobrancelhas pretas numa expressão dramática. Ao sentar na frente de Edward, puxou as pernas da calça para que caíssem com perfeição.

— Consultei um colega sobre seus exames. A opinião dele confirma a minha. Mas pode procurar outros médicos, é claro.

— Não há necessidade. — Embora não gostasse de conhaque, Edward tomou um gole. — Tenho certeza de que cobriu todas as possibilidades.

— Mais do que isso. A tomografia cerebral e o exame de ressonância magnética também demonstraram que você é absolutamente normal. Os exames físicos, de sangue e todo o resto, comprovaram que é um homem de trinta anos com excelente saúde e ótima forma. — Kauffman girou o conhaque em seu copo antes de tomar um gole. — Agora, está na hora de você me contar por que achava que precisava fazer tantos exames.

— Queria ter certeza de que não havia nada errado fisicamente comigo. Pensei que poderia ter blecautes.

— Tem perdido a noção do tempo?

— Não. Mas como eu poderia saber? Há uma possibilidade de ter apagado... e feito coisas... durante o que você poderia chamar de estado de fuga...

Kauffman contraiu os lábios. Conhecia Edward há tempo demais para considerá-lo um alarmista.

Tem alguma evidência de que isso aconteceu? Descobriu-se em lugares sem saber como chegou lá?

— Não. — Edward permitiu que o alívio se espalhasse, devagar. — Quer dizer que estou bem fisicamente.

— Está em excelentes condições físicas... até mesmo invejáveis. A condição emocional é outro problema. Teve um ano terrível, Edward. A perda de sua família não poderia deixar de cobrar um tributo. Além de um divórcio pouco antes. Muita perda, muita mudança. Também sinto muita saudade de Carlisle e Esme. Gostava muito dos dois.

— Sei disso.

Edward fitou aqueles olhos escuros e firmes. Você sabia?, especulou ele. Desconfiava? Mas nos olhos de Kauffman só havia compaixão e pesar.

— Também tenho saudade de James. — Kauffman deu um suspiro profundo. — Tão jovem... uma morte tão desnecessária...

— Tive tempo para lidar com isso... para começar a aceitar que meus pais morreram. — Até mesmo para agradecer a Deus por isso, pensou Edward. — Quanto a James, não éramos íntimos há muito tempo. A morte de nossos pais não mudou isso.

— E sente-se culpado por não lamentá-lo tanto quanto lamenta a morte de seus pais.

— E possível. — Edward largou o copo de conhaque na mesinha ao lado. Passou as mãos pelo rosto. — Não sei mais onde a culpa está enraizada. Dr. Kauffman, foi amigo de meu pai durante trinta anos. Já era seu amigo antes mesmo de meu nascimento.

— E era amigo de sua mãe também. — Kauffman sorriu. — Como um homem que tem três ex-esposas, admirava a dedicação que dispensavam um ao outro e ao casamento. A seus filhos. Vocês eram uma família adorável. Espero que possa encontrar conforto nessa lembrança.

E isso, pensou Edward, com um aperto no coração, era o xis do problema. Não podia haver conforto nas lembranças agora e nunca mais haveria.

— O que levaria um homem que parece normal, que leva uma vida normal, a planejar e cometer um ato obsceno? Um ato hediondo?

A pressão no peito forçava o coração de Edward a bater muito forte. Ele tornou a pegar o copo de conhaque, mas sem qualquer vontade de beber.

— Ele estaria insano, doente? Haveria alguma causa física?

— Não posso dizer, garoto, diante de uma especulação tão geral. Acha que seu pai cometeu um ato hediondo?

— Tenho certeza. — Antes que Kauffman pudesse falar, Edward sacudiu a cabeça, levantou-se e recomeçou a andar de um lado para outro. — Não posso... não estou livre para explicar. Há outras pessoas com quem preciso falar antes.

— Edward, Carlisle foi um amigo leal, um marido apaixonado, um pai devotado. Pode ficar tranqüilo quanto a isso.

— Não tenho tranqüilidade desde o mês seguinte à sua morte. — As emoções turbilhonavam nos olhos de Edward, deixando-os turvos. — Eu o enterrei, Dr. Kauffman... ele e minha mãe. E me sinto muito tentado a enterrar o resto. Se pudesse ter certeza de que não vai acontecer de novo.

Kauffman inclinou-se para a frente. Vinha tratando da condição humana há meio século e sabia que não existia cura do corpo ou do cérebro sem a cura do coração.

— O que quer que seja que você acredita que ele fez, não pode suportar o peso.

— Quem poderia? Quem haveria de querer? Sou o único que restou.

— Edward... — Kauffman soltou um pequeno suspiro. — Você era um menino inteligente e fascinante... e se tornou um homem inteligente e talentoso. Com bastante freqüência, enquanto você crescia, observei-o arcar com as responsabilidades de outros. Cuidou de seu irmão por tempo demais, para o seu próprio bem e o de James. Não cometa esse erro agora por uma coisa que não pode mudar ou reparar.

— Venho me dizendo isso há dois meses. "Deixe em paz, leve sua própria vida." E decidi não escavar o passado, concentrar-me no presente, construir um futuro.

— Ah ...

Kauffman recostou-se na poltrona, relaxado.

— Estou apaixonado por ela.

— Fico satisfeito em ouvir isso. Adoraria conhecê-la. Ela também estava em férias na ilha para onde você foi?

— Não exatamente. A família dela mora na ilha. Ela voltou para passar algum tempo ali. Teve... dificuldades pessoais. Eu a conheci quando éramos crianças. Ao tornar a vê-la... para simplificar, uma coisa levou a outra. Eu poderia ter evitado.

Edward foi até a janela e contemplou o Central Park, verde e viçoso no verão.

— E talvez devesse ter evitado.

— Por que se negaria a felicidade?

— Sei de uma coisa que a afeta. E se contar, ela vai me desprezar. Mais do que isso, não sei o que poderá lhe causar em termos emocionais. — Porque o parque fazia-o pensar na floresta em Desire, ele virou as costas para a janela. — Seria melhor para ela continuar a acreditar em uma coisa que a magoa, ou saber a verdade e ter de viver com uma angústia que talvez não seja capaz de suportar? Eu a perderia se contasse... e não sei se posso viver comigo mesmo se não contar.

— Ela é apaixonada por você?

— Começa a ficar. Se eu deixar as coisas continuarem como estão, acabará apaixonada. — Uma insinuação de sorriso contraiu os cantos dos lábios de Edward. — Ela detestaria me ouvir dizer isso, como se fosse inevitável. Como se não tivesse qualquer controle.

Kauffman percebeu que o ardor voltava à voz de Edward. O garoto sempre fora o seu predileto, o que só admitira a si mesmo. Mesmo incluindo seus netos.

— Ah, uma mulher independente. Sempre mais interessante... e mais difícil.

— Ela é fascinante e pode ler certeza de que não é fácil. Éforte, mesmo quando émagoada, e já foi magoada demais. Construiu uma carapaça ao seu redor. Desde que tornei a encontrá-la tenho observado essa carapaça rachar, se abrir. Talvez eu tenha contribuído para isso acontecer. Por dentro, ela é gentil e generosa.

— Não disse uma única vez como ela parece.

Kauffman sabia que isso era um detalhe revelador. A atração física levara-o a três casamentos ardentes, seguido por três divórcios gelados. Havia necessidade de mais para uma união longa e com freqüência difícil.

— Ela é linda — disse Edward. — Gostaria de parecer comum, mas é impossível. Bella não confia na beleza. Confia na competência. E na honestidade.

Ele baixou os olhos para o conhaque que quase não bebera, enquanto acrescentava:

— Não sei o que fazer.

— A verdade é admirável, mas nem sempre é a solução. Não posso lhe dizer que opção fazer, mas sempre acreditei que o amor, quando genuíno, resiste a tudo. Talvez você devesse perguntar a si mesmo qual seria o maior ato de amor, revelar a verdade ou permanecer calado.

— E se eu permanecer calado, a base que construímos já terá uma rachadura. Ainda assim, sou a única pessoa viva que pode contar o que aconteceu, Dr. Kauffman. — Edward ergueu o rosto, os olhos transbordando de emoção. — Sou o único que restou.


Edward não voltou para a ilha no dia seguinte, nem no outro. No terceiro dia, Bella convencera-se de que não tinha importância. Não ficaria sentada à espera que ele atravessasse o estreito para buscá-la, como um pirata reclamando seu butim.

No quarto dia, estava chorosa, desprezando por esperar a chegada da barca, na esperança de encontrá-lo.

Ao final da semana, sentia-se furiosa, passando a maior parte do tempo a brigar com qualquer pessoa que corresse o risco de falar com ela. Para restaurar a paz, Sue decidiu enfrentar a crise, no quarto de Bella, para onde ela fora depois de unia briga com Alice.

— Mas o que está fazendo trancada aqui numa manha tão bonita? - Decidida, Sue foi abrir as cortinas, que Bella fechara. O sol entrou no quarto.

— Desfrutando minha privacidade. Se veio tentar me convencer a pedir desculpa a Alice, quero que saiba que perde seu tempo.

— Você e Alice podem continuar a travar suas batalhas, como sempre fizeram. Não estou nem um pouco interessada. — Sue pôs as mãos nos quadris. — Mas controle o tom em que fala comigo, mocinha.

— Peço perdão, mas este é o meu quarto — disse Bella, friamente.

— Não me importo que esteja sentada no alto de sua montanha, porque não permitirei que mostre as garras para mim. Tenho sido paciente porque sei como você anda nos últimos dias, mas acho que já brigou com todo mundo aqui por tempo suficiente.

— Então talvez esteja na hora de eu pensar em voltar para casa. —A decisão é sua. Trate de se controlar, Isabela. — Havia uma certa rispidez na voz de Sue. — O homem partiu há apenas uma semana e tenho certeza de que voltará.

Bella empinou o queixo.

— Não sei do que está falando... nem a quem se refere. - Antes que pudesse se conter, Sue soltou uma risada.

— Não pense que pode ser mais irônica do que eu. Estou nesse jogo há mais tempo. — Sue sentou na cama, onde Bella fingia estar absorvida na seleção final das fotos para seu livro. — Um cego num cavalo a galope seria capaz de perceber que Edward Cullen a deixou confusa. E provavelmente é a melhor coisa que lhe aconteceu em anos.

— Não estou confusa, de qualquer forma, por qualquer coisa.

— Está mais do que meio apaixonada por ele. Não me surpreenderia nem um pouco se ele tivesse se ausentado dessa maneira apenas para pressioná-la a seguir pelo resto do caminho.

Como isso não lhe ocorrera, Bella sentiu seu sangue ferver.

— Neste caso, ele cometeu um tremendo erro de cálculo. Partir sem dizer nada não é a melhor maneira de conquistar minha afeição.

— Quer que ele saiba que você ficou resmungando por aqui, no maior desânimo, durante todo o tempo de sua ausência? — Sue alteou uma sobrancelha ao ver que o ímpeto de raiva avermelhava as faces de Bella. — Há muitas pessoas que ficariam felizes em contar para ele, se você continuar assim. Eu não gostaria que você lhe proporcionasse essa satisfação.

— Não tenciono nem lhe dizer que horas são, se ele voltar. Sue afagou o joelho de Bella.

— Concordo plenamente.

Cautelosa, achando que podia ser uma armadilha, Bella contraiu os olhos.

— Pensei que gostava dele.

— E gosto. Gosto muito até, mas isso não significa que não ache que ele mereça um bom chute no traseiro por deixá-la infeliz. E ficaria muito desapontada se você lhe desse a oportunidade de tripudiar pelo que fez. Portanto, levante-se. — Sue levantou-se. — Vá cuidar de sua vida. Pegue a câmera e tire algumas fotos. E, quando ele voltar, descobrirá que você continuou a viver mesmo sem ele.

— Você está certa. Absolutamente certa. Ligarei para a editora e darei a aprovação final para as últimas fotos. E depois sairei para tirar novas fotos. Tenho uma idéia para outro livro.

Sue sorriu, enquanto Bella se levantava e calçava os sapatos.

— Isso é maravilhoso. Espero que signifique que terá fotos da ilha no novo livro.

— Todas serão da ilha. E desta vez haverá pessoas também. Rostos. Ninguém vai me acusar de ser solitária, de me esconder por trás das lentes. Tenho mais de uma faceta.

— Claro que tem, querida. Vou me retirar agora para que você possa trabalhar.

Quase vibrando com o prazer do sucesso, Sue deixou o quarto. Talvez agora tivessem um pouco de paz, pensou ela.


A adrenalina impulsionou Bella durante aquele dia e o seguinte. Abasteceu-a em sua nova ambição. Pela primeira vez na carreira, ela procurou rostos com entusiasmo, começou a estudá-los e dissecá-los. Ficou encantada com a maneira com que os olhos de Jasper faiscavam sob a pala do boné, com a forma que sua mão segurava o martelo.

Assediou Emmet na cozinha, usando charme quando podia, ameaças quando não podia, para obter a expressão certa, para produzir a linguagem do corpo apropriada.

Alice era fácil. Ela podia posar interminavelmente. Mas a foto predileta de Bella era de Alice e Jasper, os dois exibindo expressões incríveis de felicidade, enquanto ele a girava pelo ar, na beira do jardim.

Ela até fora atrás do pai, usando o silêncio para levá-lo a relaxar e depois captando a expressão serena e pensativa, enquanto ele olhava para o pântano salgado.

— E tempo de guardar essa coisa. — Charlie franziu as sobrancelhas num embaraço irritado quando ela apontou a câmera de novo. — Vá brincar com isso em outro lugar.

— Deixou de ser uma brincadeira quando começou a dar dinheiro. Vire um pouco para a direita e olhe para a água.

Charlie não mexeu um músculo.

— Não me recordo de você jamais ter sido tão chata antes.

— Farei com que saiba que sou uma fotógrafa famosa. Milhares me aplaudem quando aponto minha câmera. — Ela se apressou em clicar quando uma insinuação de sorriso contraiu os cantos dos lábios de Charlie. — Você é muito bonito, papai. E parece o dominador aqui.

— E você é tão famosa que não deveria adular as pessoas para tirar uma foto.

Bella riu e baixou a câmera.

— Tem toda razão. Mas você é mesmo bonito. Tirei algumas fotos de Elsie Pendleton... a viúva Pendleton. — Bella alteou as sobrancelhas, sugestiva. — Ela fez questão de perguntar por você. Várias vezes.

— Elsie Pendleton procura um homem para substituir o que enterrou desde que jogou o primeiro punhado de terra no caixão. Posso garantir que não serei eu.

— E sua família agradece por essa decisão de bom senso.

Charlie descobriu que seus lábios tremiam outra vez. Sacudiu a cabeça, tanto pela reação quanto pela causa.

— Você está bastante animada hoje.

— Não acha que é uma mudança agradável? Cansei de mim mesma. — Ela agachou-se para trocar a lente. — Ocorreu-me que precisava virar uma página. Talvez a vinda para cá tenha sido um começo.

Bella fez uma pausa, olhando para o pântano tremeluzente.

— Não a procure em mim, papai. — Ela fechou os olhos, enquanto sentia uma pontada de angústia. — Não a procure mais em mim. Sempre dói quando faz isso.

— Isabela...

— Tentei não parecer com ela durante toda a minha vida. Na universidade, enquanto as outras garotas se enfeitavam e se exibiam, eu me retraía. Se me enfeitasse, teria de olhar no espelho. E a veria, como acontece com você sempre que olha para mim. — Tinha os olhos cheios de lágrimas quando se ergueu. — O que tenho de fazer, papai, para que compreenda quem eu sou?

— Eu vejo. Não posso evitar de vê-la também, mas eu vejo você, Bella. Não comece a chorar agora. Sou inútil com essas coisas de mulher. — Charlie enfiou as mãos nos bolsos e virou-se. — Tente se controlar. E Alice quem chora por qualquer coisa, não você. Aquela menina chora se você a olha atravessado... e quando não chora, está agitada e impaciente. Se ela não casar logo com Jasper, acho que acabarei enlouquecendo.

Bella soltou uma risada. - Não sabia que a amava tanto a ponto de permitir que ela o leve à loucura, papai.

— Claro que a amo. Ela é minha filha, não é?— Charlie falou em tom ríspido. Obrigou-se a virar para fitar Bella. — E você também é.

— Sei disso. — Ela sorriu e deixou a angústia passar. — Eu também sou.


Quando a luz não mais a agradava, Bella foi para o laboratório. Havia excitamento ali também, do filme para negativos, de negativos para contatos. Examinou os contatos através da lupa, avaliando os detalhes, falhas, sombras.

Entre uma dúzia de fotos, podia selecionar uma que atendia a suas exigências rigorosas. Mesmo assim, a linha de secagem logo se encheu de cópias que achava que valiam a pena. Quando encontrou um filme sem identificação, estalou a língua em irritação.

Uma negligência sua, pensou. Armou o timer, apagou as luzes e iniciou o processo de revelação. A escuridão a acalmava. Podia fazer tudo com a maior competência, de uma forma quase mecânica, apenas pelo tato. Vibrava de expectativa. O que encontraria naquele filme? O que veria? Que momento fora preservado para sempre apenas porque ela o escolhera?

Acendeu a luz vermelha, banhando o laboratório com aquela estranha iluminação. E soltou um grito sufocado, que foi em parte choque, em parte riso, enquanto olhava para o negativo em que aparecia nua, deitada no tapete de Edward.

— Isso vai me ensinar a nunca deixar de marcar um filme.

Ela suspendeu o rolo, examinando os outros negativos. As fotos que tirara da tempestade pareciam promissoras. E contraiu os lábios ao examinar as fotos anteriores, que deviam ter sido tiradas por Edward.

Havia uma tirada das dunas, mostrando a campina em que as flores desabrochavam, com o mar além, as ondas altas, cristas espumantes.

Uma composição razoável, refletiu ela. Para um amador. É claro que encontraria vários defeitos se tivesse o trabalho de passar as fotos para o estágio de contatos.

Seus olhos foram atraídos de volta para o final do rolo. Seu rosto, seu corpo. Mas ela hesitou quando estendeu a mão para a tesoura, com a intenção de destruir os negativos. Seria tão recatada, tão teimosa, a ponto de não satisfazer a própria curiosidade?

Afinal, era a única que vira aquelas fotos.

Num súbito impulso, Bella voltou a trabalhar. Não haveria mal nenhum em tirar os contatos do filme. Podia destruir as fotos de si mesma depois. Assim que acabasse de examiná-las.

Não cantarolou junto com o rádio enquanto trabalhava, como costumava fazer. Sentia-se muito apreensiva e excitada para ouvir a música.

O papel mal secara quando ela levou os contatos para a mesa de luz e acendeu-a. Olhou pela lupa... e ficou sem fôlego quando as imagens foram ampliadas e entraram em foco.

Ela parecia tão... libertina, talvez fosse essa a palavra certa. Os olhos meio fechados, os lábios um pouco contraídos, num sorriso óbvio de satisfação sexual. O corpo parecia quase exuberante. Ao que tudo indicava, recuperara todas as suas curvas, sem sequer notar.

Na foto seguinte, tinha os olhos bem abertos, arregalados em choque. As mãos subiam para os seios, o movimento paralisado pelo filme de exposição rápida. Não havia como negar que parecia... como fora mesmo que Edward expressara? Desgrenhada e sensual?

Ó Deus, nunca se permitira ficar exposta daquela maneira antes. Mas deixara que acontecesse, e agora podia admitir, apenas por um momento, que queria que ocorresse de novo.

Queria que ele a acariciasse, que a fizesse sentir-se desejada e temerária. Havia em seu íntimo um anseio para ser outra vez aquela mulher, a mulher que ele contemplara e captara no filme. Um anseio em deixar que ele a controlasse, em saber que também tinha o poder de controlá-lo.

Edward lhe proporcionara isso e, ao preservar aquele momento, fizera-a olhar de novo e ver o que poderia ter com ele. E o que podia perder sem ele.

— Edward, seu filho-da-puta, eu o odeio por isso.

Bella levantou-se e guardou os negativos no fundo de uma gaveta. Não os destruiria. Guardaria como um lembrete. Sempre que se sentisse tentada a confiar de novo num homem, a se entregar tanto, pegaria os negativos para se controlar.

E para se lembrar da facilidade com que um homem podia ir embora.

— Isabela!

A voz de Alice passou pela porta, acompanhando a batida firme e alta.

— Estou trabalhando.

— Sei disso. Mas pode querer acabar o mais depressa possível. Adivinhe quem chegou na última barca?

— Brad Pitt.

— Não seria maravilhoso? Mas você talvez goste mais do outro. Edward acaba de entrar na cozinha, grande como a vida e duas vezes mais bonito. E está à sua procura.

Bella levantou um punho para o coração e empurrou-o de volta para o lugar.

— Diga a ele que estou ocupada.

— Já dei o recado de indiferença por você, querida. Disse que não via por que você deveria largar o que fazia para ir correndo, só porque ele voltou a Desire como um vento frio.

Bella não pôde deixar de sorrir em apreciação. Podia facilmente imaginar a cena, com Alice bancando a beldade sulista em grande estilo.

— Obrigada.

— Mas tenho de lhe dizer... Ora, Bella, abra logo a porta. Estou cansada de falar dessa maneira.

Porque Alice acabara de subir para o topo de suas pessoas prediletas, Bella abriu a porta, apenas o suficiente para poder se encostar no batente.

— Eu agradeceria se dissesse a ele que não estou interessada em alterar minha agenda para atender a seus caprichos.

— Eu direi. E é uma resposta ótima. Mas ele parece muito ansioso e sensual, Bella, à beira de alguma coisa importante. — Alice revirou os olhos, em total apreciação feminina. — Meu coração começou a palpitar só de olhar para ele.

— Pode parar de palpitar. De que lado você está?

— Do seu, minha querida, cem por cento do seu lado. — Ela deu um beijo no rosto de Bella para comprovar. — Ele tem de ser punido, sem dúvida. E se precisar de algum conselho sobre a maneira de puni-lo, ficarei feliz em oferecer algumas idéias.

— Obrigada, mas já tenho muitas idéias. —Bella flexionou os ombros para aliviar a tensão. — Diga que não tenho o menor desejo de ver ou falar com ele, que passarei algum tempo ocupada com coisas muito mais importantes.

— Eu gostaria que você dissesse tudo isso a ele pessoalmente. Tem um jeito todo especial. — O sorriso de Alice se expandiu, enquanto ela enrolava uma mecha de cabelos em torno de um dedo. — Mas descerei e direi a ele. Subirei em seguida para informar o que ele respondeu.

— Isso não é uma fofoca de adolescente.

— Claro que não. E muito mais interessante e divertido. Sei que está escaldada, Bella, com toda razão. — Ela afagou o rosto da irmã. — Eu estaria cuspindo fogo como um gato de rabo pisado. Mas pense quanto será satisfatório vê-lo rastejar. Não o aceite de volta enquanto ele não fizer isso. E enquanto não se apresentar com dois buquês de flores e um presente caríssimo, no mínimo. Tem de ser uma jóia.

O humor de Bella retornou subitamente.

— Alice, você é uma mulher manipuladora e materialista.

— E me orgulho disso, querida. Escute sua irmã caçula e acabará possuindo aquele homem. Calculo que a esta altura ele já terá suado bastante e estará pronto para o próximo tapa. — Ela esfregou as mãos. - Não se preocupe que farei tudo por você.

Bella permaneceu encostada no batente enquanto Alice se afastava, saltitante.

— Aposto que sim — murmurou ela. — E ficarei lhe devendo isso.

Satisfeita, Bella tornou a entrar no laboratório. Arrumou tudo na bancada, guardou os vidros de substâncias químicas nas posições originais. Examinou as unhas e especulou se não deveria deixar que Alice cuidasse delas.

Ao ouvir os passos, virou-se para a porta, preparada para ouvir o relato de Alice. Quando Edward apareceu, ela sentiu sua fúria no mesmo instante.

— Preciso que você venha comigo.

A voz era incisiva, sem qualquer insinuação de que se desculpava.

— Creio que foi informado de que estou ocupada. E você não foi convidado a entrar aqui.

— Poupe o fôlego, Scarlett.

Ele agarrou a mão de Bella e puxou-a. Quando ela recuou a outra mão e acertou um tapa em seu rosto, Edward contraiu os olhos e balançou a cabeça.

— Muito bem, faremos isso pelo caminho mais difícil.

A sala virou de cabeça para baixo tão depressa que Bella não teve nem tempo de proferir o insulto que queimava sua língua. Ele já se encaminhava para a porta antes que Bella se recuperasse o suficiente do choque para reagir.

— Tire as mãos de mim, seu ianque desgraçado e covarde!

Ela socou as costas de Edward, ainda mais furiosa por não poder fazê-lo com mais força.

— Acha que pode mandar sua irmã me dispensar? Não tem a menor possibilidade. — Ele empurrou a porta com o ombro e começou a descer pela escada estreita. — Viajei durante o dia inteiro e você deve ter a cortesia de escutar o que tenho a dizer.

— Cortesia? Cortesia? O que um vigarista metido a besta de Nova York sabe sobre cortesia? — No espaço restrito da escada, o esforço de Bella para se desvencilhar só fazia com que batesse com a cabeça nas paredes. — Eu o odeio!

Os ouvidos de Bella zumbiam com as pancadas e a humilhação.

— Vim preparado para isso.

Sombrio e determinado, Edward entrou na cozinha. Alice e Emmet ficaram paralisados, boquiabertos.

— Com licença — disse ele, bruscamente, saindo com Bella e deixando em sua esteira uma trilha de ameaças e insultos.

— Oh... — Alice soltou um suspiro longo e profundo, com a mão no coração. — Não foi a coisa mais romântica que você já viu em toda a sua vida?

— Merda... — Emmet largou a torta que acabara de tirar do forno. — Ela vai retalhar o rosto dele na primeira oportunidade.

— Você não sabe nada sobre romance. — Alice encostou-se no balcão. —Aposto vinte dólares como ele a levará para a cama, mais do que disposta, em menos de uma hora.

Emmet ouviu Bella gritar alguma coisa sobre castrar um ianque filho-da-puta. Acenou com a cabeça.

— Está apostado.