In a different light
Capítulo 24: Controle
Autora: TheMaven
Tradutora: Shampoo-chan/Analoguec
Beta-reader: Doks
Fisicamente exausta da seção de cura, Rin mergulhava e saía da consciência, a mente topada, porém em alerta, os ouvidos captando fragmentos de conversas e sons de vida do lado de fora da cabana. Crianças estavam rindo e correndo, os gritos alegres cortando a paz matinal e preenchendo-a com os passos dos pequeninos pés. As mulheres do vilarejo caminhavam, conversavam e riam, carregando os bebês que chiavam. Os homens do vilarejo davam passos pesados, ocasionalmente acompanhados do tilintar de metal contra metal ou do retinir do pesado saco cheio de moedas. E até mesmo alguns cavalos passavam por ali, guinchando e relinchando, os cascos batendo contra a terra macia.
Pela quantidade de barulho, Rin concluiu que deveriam estar perto do centro de uma vila pesqueira. A maior parte das conversas que ouviu tinha a ver com barcos ou pescarias ou a captura do dia, conversas que a mãe e o pai dela sempre tinham. O vilarejo dela tinha sido um desses pequenos centros de pesca, situado ao longo do rio. Ela aprendeu a nadar quando tinha dois anos, e como pescar era negócio de família, mesmo na idade dela, não teve problema algum em pegar um quinhão. O pai e o irmão tinham sido pescadores, e ela e a mãe consertavam as redes de pesca. Além disso, a mãe era uma delicada costureira; tinha feito todas as roupas que a família usava e ainda tinha encomendas de outras pessoas quando pescar não estava bom.
Rin sorriu intimamente no semi-sono. Em todas as horas para pensar nessas coisas… ela tinha tanta liberdade naquela época, não tinha nenhuma preocupação no mundo. Nada de ioga, nada de Tai Chi, nada de treino com espada. Nada de Mestra Sumida, nada de Mestre Li, nada de Sesshoumaru... Ninguém tentando sequestrá-la, matá-la ou acossá-la contra a família. Nada de demônios, nada de meio-demônios, nada de caçadores de demônios...
-Muito mais simples. – ela se ouviu murmurar.
-É isso o que você quer? – uma voz perguntou – Uma vida simples?
-Minha família. – ela respondeu suavemente – Eu quero minha família. – ouviu um som de passos arrastados do lado esquerdo dela. Queria abrir os olhos e ver quem era, mas eles não abriam.
-Está tudo bem, Rin. Somos todos amigos aqui. Ninguém vai machucar você.
Machucar. Tantos machucados nos rostos da família dela – a ferida aberta no pescoço do pai, todos os cortes e ferimentos no irmão… e a mãe dela… as coisas que agora ela sabia que fizeram com a mãe dela… o sangue, os ferimentos e o quimono rasgado… Gritos. Ela pôde ouvi-los gritando do esconderijo dela, no fundo de uma árvore oca.
Os bandidos haviam esperado por eles. Fizeram uma armadilha e ficaram à espreita – não especificamente para a família dela, mas sim para qualquer um que passasse pela floresta.
-Não os machuque. – ela murmurou.
-Machucar quem?
Rin pôde então discernir uma diferença nos falantes: havia dois deles. Um era gentil e delicado, o outro parecia corroer o cérebro dela com cada palavra. Uma carnívora voz fez as perguntas, e ela se sentiu estranhamente compelida a responder.
-Machucar quem? – a segunda voz repetiu.
-Ele. – ela gemeu – Não o machuque. – teve uma súbita lembrança ocorrida no Monte Hakurei. A espada em forma de cobra daquele homem estranho enrolada no mestre dela, cortando-o profundamente, respingando o sangue dele no chão – Não! Eu não vou deixar! – instintivamente ela estendeu a mão para pegar a espada presa na lateral dela. Engraçado, os braços não se moviam também. Não sentia nada amarrando ou prendendo, então por que não conseguia se mexer? Que tipo de sonho era aquele? Ela nunca tivera um desses antes.
-Shhhh. – a voz gentil a assegurou – Ninguém vai se machucar aqui.
-Mentirosa! – ela rosnou. Os olhos ainda não abriam. Os braços ainda não se moviam, e agora que ela tentou, as pernas não se mexiam também. O que era isso? Quem estava fazendo aquilo?
-Rin. – a primeira voz assumiu um tom mais calmo – Acalme-se. Ninguém quer machucar você aqui. Está perfeitamente segura.
-Mentirosa! – ela justificou – Você gosta de machucar pessoas.
-Apenas as más. – a voz insistiu – Nós queremos apenas machucar as pessoas más. Como aqueles que mataram a sua família, aqueles que machucaram o seu lorde.
-Calada! – ela tentou de novo quebrar o que pareciam ser amarras invisíveis. – Meu lorde é forte. Vocês não podem machucá-lo.
-Ah, é? – a voz perguntou – Acho que podemos. Acho que podemos sim, e você sabe disso.
Suki. A segunda voz pertencia a Suki. Por que levou tanto tempo para ela perceber? O que estavam fazendo com ela? Queria balançar a cabeça para se livrar da sensação de ter ruídos nos ouvidos, mas mesmo a cabeça dela se recusava a mover.
-Todo mundo tem uma fraqueza, Rin. – Suki disse – Você tem uma fraqueza por aqueles que você considera como família. Aquele monstro tem uma fraqueza por você. E a querida Kimi aqui… Bem, se ela não fosse uma vira-lata nojenta, não teria nem metade dos problemas que tem agora. – ela deu uma risada fraca e sombria – De fato, você estaria morta agora se fosse humana, não é, Kimi?
-Sim, Mestra.
Kimi era a voz gentil e calma. A que dizia que ela se acalmar e que tudo ficaria bem. Mas ela mentia. Nada estava bem. Alguma coisa estava horrível, terrivelmente errada. Por que o corpo dela não se mexia?
-Veja bem, Rin, Kimi pode controlar você, mas eu a controlo. Se você tentar ajudá-la de qualquer forma, eu vou machucá-la.
Uma imagem de Kimi caindo de joelhos, agarrando a garganta apareceu na mente de Rin. A luta dela para respirar, uivando de dor, lágrimas escorrendo pela face.
-E você gosta de Kimi, não é, Rin? E você acha que sou uma pessoa horrível, horrível mesmo por machucá-la, não é?
-Você é um monstro. – ela cuspiu.
-Eu sou 100% humana, e eu sei qual é meu lugar no mundo… que é mais do que posso afirmar por vocês duas: uma meio-demônio bastardinha e a prostituta de um demônio.
Isso já não era nem mais uma novidade. Eles não tinham outra coisa para chamá-la?
-E quanto a Yori? Ela era uma prostituta também.
-Yori é uma vítima das circunstâncias. Ela simplesmente fez o melhor de uma situação ruim e fez o que era esperado dela. Você, por outro lado, não tem desculpa.
Ela ainda não conseguia se mexer. Por mais que tentasse, Rin não se mexia. E o que Suki quis dizer? Kimi a controlava?
Respirou calma e profundamente. O corpo não estava funcionando, mas a mente, ainda que um pouco nublada, ainda estava razoavelmente aguda.
-Não tem vergonha? – Suki perguntou – Ficar se enrolando com aquele demônio no meio da floresta? Abandonando a decência e o respeito próprio para dar prazer de joelhos a ele?
-E o que você sabe a respeito de homens, afinal?
-Nada. – ela admitiu, sem dúvida sorrindo debaixo do véu negro – Mas eu sei bastante a respeito de mulheres, não é, Kimi?
Rin ouviu algo batendo forte, depois Kimi praguejou de um fôlego.
-Eu falei pra não me tocar! – Kimi gritou – Eu não gosto disso.
Suki riu presunçosa.
-Em pé.
Rin ainda não conseguia enxergar por não ter controle algum sobre as pálpebras, mas ela sabia que o baque surdo que ouvira tinha sido de Kimi, o corpo caindo no solo, as vibrações da queda fazendo o corpo frágil de Rin tremer enquanto ainda estava estirada no chão. Não estava a mais do que dois passos de distância, e ela conseguia ouvir a hanyou-lobo lutar contra, o que só podia ser, um feitiço de subjugação. Diferente da magia de InuYasha que durava apenas alguns segundos, a de Kimi parecia durar infinitamente. E em lugar de fazê-la dar de cara com o rosto no chão, as contas do rosário, sem dúvida escondidos sob o véu, pareciam estrangulá-la.
-Pare com isso! – Rin gritou.
Um choque elétrico claro e muito quente atravessou a espinha dela, fazendo o corpo inteiro entrar em convulsão. Ela rangeu os dentes contra a dor e forçou a mente a se concentrar. O que foi isso?
-Fique fora disso, ou vai receber mais do mesmo. – Suki prometeu – E quanto a você, minha pequena meio-demônio, não se esqueça quem é a sua dona, não esqueça quem domina você, não pense em me desafiar.
-Não… me… toque… - Kimi gaguejou.
-Você ficou cheia de si desde que nossa pequena convidada chegou. Acha que ela vai ajudar você? Acha que vai se livrar de mim? Acha que pode simplesmente nos deixar?
Mais do que nada, Rin queria ver. Queria ver o que Suki estava fazendo com Kimi. Queria ajudar a hanyou. Queria ajudar a si mesma, mas ela ainda não conseguia se mexer.
Kimi tossiu e ficou ofegante, as palavras saindo como se fossem pequenos gritos.
-Eu sou a sua mestra, Kimi. E como tal, eu posso tocar em você como e onde eu quiser.
Parecia que uma delas, que tinha que ser Kimi, estava se arrastando pelo chão, o tecido macio do uniforme dela deslizando contra a madeira do assoalho enquanto avançava mais e mais, a respiração saindo ofegante e rasa.
Rin sentiu a madeira do assoalho vibrar debaixo dela, e instintivamente soube que Suki se levantou, erguendo-se acima dela do lado esquerdo.
-Pensa em escapar? – Suki perguntou.
-Não… - Kimi resmungou.
-Por que você torna tudo tão difícil? – Suki perguntou, os passos lentamente indo na direção de Kimi – Você e eu poderíamos ser muito amigas, ainda assim você resiste a mim, mesmo depois de todos esses anos.
-Forte! – ela engasgou – Eu… fiquei... mais... forte... eu... posso... resistir!
-Em pé!
Rin ouviu um suspiro forte e depois mais nada.
-Kimi? – ela chamou suavemente.
Outra rajada de eletricidade atingiu a espinha dela, mais intensa que a anterior, fazendo os olhos lacrimejarem e a mandíbula travar. A sensação começou no peito, depois se espalhou ao mesmo tempo da cabeça aos pés. O que diabos era aquilo?
-Eu avisei. – Suki disse calmamente – Agora vou dar uma nova lição na sua amiguinha.
Rin engoliu em seco. O que ela ia fazer com Kimi?
Um grito agudo cortou o silêncio da cabana, respondendo a pergunta de Rin.
-Por que você me obriga a fazer isso, Kimi? – Suki perguntou.
Outro grito.
-Você vai pagar por isso mais tarde. Você sabe que odeio ficar com raiva.
Kimi gritou de novo.
-MATE-A… AGORA!
Os olhos de Rin abriram de uma vez, e antes que percebesse, ela já estava em pé e derrubando Suki no chão, as mãos firmemente presas no pescoço da caçadora de demônios… mas o que ela estava fazendo?
Antes que chegasse a uma explicação plausível, a mesma dor atingiu a espinha dela e a forçou a soltá-la.
-Não solte. – Kimi estava agora em pé atrás dela, observando-a ficar em cima dos quadris de Suki, tentando novamente prender as mãos na garganta dela.
A dor persistia e ela soltava, mas Kimi ordenou que continuasse. O corpo dela estava em guerra consigo mesmo. Não sabia por que obedecia Kimi quando estava desesperadamente tentando soltar a outra.
-Se você não matá-la... – Kimi disse – Ela vai matar o seu lorde. Ela, Akemi, Takara e Yori. Elas vão capturá-lo, torturá-lo e purificá-lo lentamente até a morte.
-Não. – Rin murmurou.
-Sim. – Kimi insistiu – Você sabe que é verdade. Já viu o que elas podem fazer. Eu falei do que elas são capazes.
-Não – Rin replicou.
-Você quer que elas o machuquem? Quer que o matem? Talvez você não o ame de verdade. Talvez ficasse feliz se ele morresse. Então você poderia ter aquela "vida simples" que você parece querer.
-Não, isso não é verdade.
-Você o odeia, não é? Você quer que ele morra. Você quer que elas o matem.
-Não! Eu não vou deixar. – as mãos dela apertaram a garganta de Suki e a sufocaram.
-É claro, você não vai deixar. – ela disse suavemente – Você vai protegê-lo do mesmo jeito que ele sempre a protegeu. Agora, aperte mais.
Rin aumentou a pressão aplicada na traqueia de Suki enquanto a caçadora esperneava e lutava debaixo dela, lançando rajadas de purificação pelas mãos nas pernas de Rin. Por quê? Por que os ataques de Suki a machucavam? E por que o corpo dela não estava se movendo antes, mas agora estava seguindo muito bem os comandos de Kimi?
As cortinas de contas se abriram.
-Yori! – Kimi gritou.
A líder das caçadoras pisoteou até Rin e a jogou para trás, fazendo-a chocar contra a parede de trás.
-O que diabos está acontecendo aqui, Kimi? Eu ouvi o barulho, vim aqui e…
A hanyou balançou a cabeça enquanto Yori se agachava ao lado de Suki.
-Ela a atacou. – Kimi replicou – Suki e eu estávamos no meio de uma conversa quando ela pulou e a estrangulou.
Yori lançava a Rin um olhar severo enquanto estudava a propensa forma de Suki.
-Ela está morta. – disse por fim – Você a matou.
Rin encontrou o olhar severo dela com outro. Não, ela não queria matar Suki, mas não queria ser sequestrada também. E certamente não queria que nada de ruim acontecesse com Sesshoumaru por causa disso. E Kimi…
-E o que você estava fazendo, Kimi? Quando eu cheguei aqui, você estava parada só olhando.
-Nós já tínhamos implantado a semente quando ela atacou. – a outra replicou – Suki estava tentando purificá-la, e eu não quis ficar no meio.
Yori olhou Suki novamente. Os olhos negros de Suki estavam vítreos e claros, manchas vermelhas tingindo os cantos. A pele do rosto estava cinzenta e azul, e o peito dela estava completamente imóvel. Depois de mais um instante, ela deu um salto para ficar em pé e agarrou a espada.
-Você vai pagar por isso, garota.
-Não! – Kimi ficou entre as duas – Ainda precisamos dela viva, lembra? Uma isca viva funciona melhor que morta.
A mão de Yori permanecia no cabo da espada, os olhos cinzentos estreitados, a testa e o queixo tensos.
-Você ainda quer as Terras do Oeste, não é? Você não poderia dar ao seu lorde um presente melhor, não é?
-Ela matou Suki.
-E nós vamos matá-la. – Kimi replicou calmamente – Mas se o companheiro dela chegar agora e encontrá-la morta, não vamos durar nem um segundo. Com ela viva, ele vai ser mais cuidadoso conosco. Ele não vai se livrar de nós até saber exatamente onde ela está.
Yori pareceu ficar mais calma, a tensão desaparecendo da testa e da mandíbula.
-E enquanto ele estiver tentando descobrir onde ela está, vamos tentar matá-lo. Mesmo sem Suki, o plano ainda está de pé. Primeiro, é Takeda e o exército dele. Em seguida, vem eu e Akemi. Depois vem Takara, e finalmente você. Mesmo se alguém falhar, você ainda a terá para agir como um escudo.
Ela gradualmente soltou o cabo da espada.
-A semente está nela, então?
Kimi assentiu.
-Ela não pode passar pela barreira sem sentir uma dor imensa.
Yori lançou a Rin um último olhar, depois virou-se para ir embora. Ao chegar às cortinas, ela olhou as duas por cima do ombro.
-Ponha o corpo de Suki contra a parede da esquerda. Vamos cuidar dela depois que tudo isso acabar.
Kimi baixou a vista e depois assentiu. Yori afastou as cortinas e saiu.
-O que você fez comigo? – Rin perguntou, ainda incapaz de mover o corpo por vontade própria.
Kimi ergueu Suki acima dos ombros, girou o corpo e levou o corpo dela para a parte esquerda da cabana.
-Você é uma de nós agora. – disse simplesmente – Você pertence a mim.
Akemi retornou. Observava Kimi enquanto ela carregava o cadáver de Suki pela cabana, depois pareceu se recuperar.
-Takara disse que ele está a caminho. Vamos nos arrumar para partir. Ele está a menos de uma hora daqui.
Sesshoumaru estava sem mais pistas, e estava quase sem paciência também. Aquelas pessoas o levaram pelo mesmo caminho que ele e Rin viajaram no dia anterior. Ele agora estava em pé exatamente no mesmo ponto que ficou quando Rin saiu da trilha da floresta para se aliviar. Naquela distância ele conseguia sentir o cheiro do mesmo vilarejo como antes. Eles haviam alterado anteriormente o curso para evitar tanto ele quanto os... odores diversificados, mas era mais provável que os adversários dele tivessem parado lá. Cheiros individuais eram mais difíceis de seguir num vilarejo, e pelos cálculos dele, os sequestradores de Rin não poderia ter viajado mais de 20 milhas a pé no tempo transcorrido, principalmente carregando o peso morto de Rin. Como não havia marcas que indicassem algo arrastado no chão da trilha, e sabendo que Rin não se permitiria ser levada enquanto estivesse consciente e capaz de lutar, alguém deve tê-la carregado o tempo todo.
Lutou contra um rosnado, inconscientemente flexionando as garras. A ideia de alguém colocando as mãos na Rin dele, deixando o fedor no corpo delicado dela...
Já basta, ele ordenou-se. O que aconteceu não pode ser desfeito. Mas pode e deveser vingado. Rin está esperando.
Continuou pela trilha da floresta, sentindo o cheiro do ar enquanto passava, o sol do meio-dia lançando luz nele por entre os galhos das árvores. Nunca mais, ele jurou a si. Nunca mais Rin seria tirada do lado dele. Nunca mais a saúde e o bem-estar dela seriam ameaçados. Nunca mais alguém a usaria para chegar até ele. Ele mandaria a esses humanos e, através deles, ao Lorde das Terras do Norte uma mensagem muito clara.
Ninguém pegava o que era dele.
O Lorde do Oeste parou no caminho, sentindo um cheiro distinto. Cavalos, homens, metal e armas de fogo – um exército de humanos composto por 10 cavalos e 30 homens. Sesshoumaru zombou intimamente. Esses humanos realmente eram muito cheios de si.
Manteve o atual passo e logo chegou à clareira onde os homens armadas estavam aguardando. Era uma grande clareira com grama alta que chegava aos joelhos dele; os tetos das cabanas do eram visíveis na distância além da copa das árvores. Os homens formavam um arco no centro da clareira, de frente na direção dele, as armas preparadas para atirar. Os dez homens no centro do arco estavam nos cavalos. Em cada lado deles havia dez homens em pé, seguidos de dez homens sob um joelho. Aparentemente, eles pretendiam atirar nele de todos os ângulos de uma vez. Os cavaleiros acertariam a cabeça dele, os homens em pé o torso, e os ajoelhados pegariam as pernas.
Muito esperto da parte deles, mesmo. Nenhum humano e poucos demônios suportariam tal ataque.
Inalou discretamente e ficou de imediato em alerta porque conhecia um daqueles cavaleiros – o chefe do vilarejo de InuYasha. Takeda. O único sem uma arma.
-Então nos encontramos de novo, demônio.
Sesshoumaru permanecia calmo. Ele não estava ali para acabar com Takeda; estava ali para resgatar a companheira dele. Mas ele tinha certeza de que não havia coincidência para o chefe do vilarejo estar ali, para não ter Rin com ele ou ter qualquer cheiro dela nele, e, além disso, não pensasse nas consequências. E quanto mais tempo ele perdia, mais a mulher dele estava sofrendo. Assim como não estava com humor para lidar com youkais de classe inferior que não sabiam de onde vinham, ele não estava com humor para lidar com aquele humano inferior.
Os rifles dos homens permaneciam apontados para ele. Estava cercado por todos os lados, exceto pela retaguarda.
Sesshoumaru deu um passo para frente.
-Saiam do meu caminho, humanos.
Takeda zombou.
-Você pode ter levantado a mão antes, monstro, mas eu estou no controle desta situação.
Sesshoumaru continuou a avançar, não dando a mínima às palavras do chefe do vilarejo. Ele conseguia sentir o medo de Takeda aumentar pelo cheiro.
-Fogo! – o chefe do vilarejo ordenou.
Vinte e nove tiros foram seguidos por uma forte luz quando Sesshoumaru devolveu as balas aos donos com um açoite do Chicote de Luz. Vinte e nove homens caíram no chão, um único buraco de bala desfigurando o meio da testa de cada um. Nove cavalos, agora sem cavaleiros, dispararam pela clareira.
Um cavalo e um homem ainda restavam. Takeda sacou a espada e a ergueu acima da cabeça, a mão esquerda segurando as rédeas enquanto domava o cavalo.
-Sua cabeça vai enfeitar a parede da minha casa hoje, demônio. Nunca mais vou deixar fazer piada de mim de novo.
Mesmo diante da morte, o humano sentia necessidade de ficar cheio de si.
Takeda tomou impulso.
Sesshoumaru deu um passo elegantemente e sem esforço algum para o lado, depois ergueu o chicote para partir o humano da cabeça até a virilha enquanto ele ainda estava na sela. O chefe do vilarejo nem teve tempo de gritar quando as duas metades se desconectavam e caiam no chão com um baque surdo. O cavalo de Takeda fugiu, e Sesshoumaru continuou andando em direção do vilarejo.
Se houvesse mais alguma distração como aquela antes de chegar a Rin, ele ficaria muito irritado.
Yori separou com as mãos a cortina de contas e entrou na cabana, com duas espadas no quadril. Rin ainda estava encolhida nos fundos sem poder se mover. Kimi estava agachada na parte direita dos fundos da pequena cabana, e Akemi estava sentada de costas para a parede direita, polindo um tipo de... ferramenta. Rin não pôde ver direito, mas era brilhante e dourado, reluzindo intensamente mesmo com a pouca iluminação da cabana. O sol, que movera para a posição do meio-dia, não deixou luz alguma brilhar através da única entrada. Dentro tudo parecia perfeitamente calmo, mas do lado de fora ela conseguia ouvir homens e mulheres andando, crianças correndo para lá e para cá, mercadores anunciando ofertas especiais do dia pelas vielas, e idosos parando para conversar.
Enquanto Rin estava sentada ali, observando a cabana, encarando uma ou outra caçadora, os sons do lado de fora preenchendo a silenciosa e pequenina cabana, ela se perguntou se os aldeões ao menos sabiam o que acontecia dentro da cabana. Eles sabiam que havia caçadores de demônios no vilarejo deles? Sabia que um demônio estava a caminho ao vilarejo? Sabiam que ela estava em cativeiro lá? Sabiam que ela matou uma das caçadoras? Sabiam que o cadáver dela ainda estava na cabana? Eles sabiam de alguma coisa afinal?
Ou foi tudo perfeitamente acobertado pela barreira de Takara?
-Está na hora. – Yori finalmente anunciou, olhando a forma encolhida de Rin.
Kimi e Akemi se levantaram, giraram nos calcanhares, curvaram-se para Yori, depois saíram.
-Aonde elas vão? – Rin perguntou.
-Aonde você acha que elas vão? – ela perguntou suavemente.
-Vocês não irão vencer. – Rin replicou – Não sei o que vocês fizeram comigo, mas vocês não irão vencer.
Yori ficou sob um joelho em frente a ela, os olhos cinzentos entediados nos castanhos de Rin, os rostos a meros centímetros um do outro.
-Então você quer saber o que elas fizeram com você. – disse sem muitos rodeios.
Rin queria virar o rosto para evitar a intimidade forçada que a proximidade provocou, mas não pôde. O corpo dela se recusou a ceder, e ela continuava recebendo desagradáveis lembranças do passado dela.
-Por que eu não consigo me mexer? – perguntou.
A líder das caçadoras pareceu sorrir, uma ligeira curva se formando nos cantos dos olhos cinzentos.
-Vou fazer um trato com você. Eu conto o que elas fizeram se me contar o que realmente aconteceu com Suki.
Rin franziu a testa.
-Você sabe o que aconteceu. Eu a… matei. Estrangulei.
-Eu sei disso. – ela zombou – Eu vi. O que eu quero saber é como. Como você a matou?
Rin bufou. Agora sabia por que Sesshoumaru odiava se repetir.
-Eu a estrangulei. – ela repetiu.
-Entrangule-me agora. – Yori disse – Ou melhor ainda... – pegou uma das espadas e a cravou no chão. Não era a espada dela, era a que Mestre Li havia dado a Rin – Pegue. – disse – Pegue, lute comigo e fuja.
Rin focou o olhar na espada que não estava nem a dois palmos da mão direita dela. Pegue, ordenou-se. Agarre! Pegue!
-O que foi? – Yori perguntou – Não consegue se mexer?
Rin engoliu em seco. Não, ela não podia se mexer.
-E se você não pode se mexer, não poderia ter feito o que eu vi você fazer... A menos que Kimi tenha dito para fazer.
-Que ridículo.
-Ela não disse para fazer, então?
-Por que o meu corpo escuta o que ela fala e não me obedece? – Rin questionou.
-Porque não é mais seu corpo. Você tem uma semente da Floresta da Aflição.
-Floresta da Aflição?
-É uma floresta demoníaca que se alimenta de tristeza e arrependimentos. Quando uma criatura passa pela floresta, a árvore a agarra com as raízes, paralisa e depois a cutuca com as memórias mais dolorosas, alimentando-se de tristeza e arrependimento ao trazer de volta essas lembranças.
Rin zombou.
-Tem uma árvore crescendo na minha cabeça?
-A semente que Suki usou era de uma árvore youkai de menor nível. Ela a plantou na sua cabeça, para se alimentar de você e para que não consiga passar pela barreira de Takara. Não pode se mexer por causa do efeito paralisante.
Havia… alguma coisa se mexendo na cabeça dela. Alguma coisa que cutucava e apertava, nublava a mente dela, tirava o equilíbrio. E ela pensou em coisas que ela não pensava há anos...
-A semente é parte de você agora. O youki dela é parte de você, então não poderá passar pela barreira de Takara sem sentir uma dor imensa.
E por causa disso os ataques de Suki a machucavam. Ela estava carregando um demônio dentro dela… Mas… Seria desse jeito quando carregasse um filho de Sesshoumaru?
-Agora que respondi a sua pergunta, responda a minha. A Kimi disse para matar Suki?
Rin recusou-se a responder.
Yori ficou em pé.
-Seu silêncio fala alto. – ela andou até o corpo de Suki, deitado perto da parede do lado esquerdo, ficando de costas para Rin – Parece que encontramos uma nova utilidade para nossa pequena Kimi. Se ela consegue controlar plantas, faz todo o sentido que ela consiga controlar a planta que está crescendo na sua cabeça. – os ombros dela se curvaram ligeiramente e balançou a cabeça, a voz rouca e fraca – Só queria que tivéssemos percebido isso antes.
A cabana ficou em silêncio.
-Você gostou? – Yori perguntou – Gostou de matar a minha Suki? Ver a cor sumir do rosto dela? Tirar a vida dela por entre os dedos? Escutá-la gemer e ofegar enquanto você tirava o último suspiro do corpo dela?
-Não. – Rin disse suavemente – Matar não é algo que se deva gostar. Mas algumas vezes se deve encarar.
Yori zombou, novamente encarando Rin.
-Bem, então você não é uma santinha?
Os olhos de Rin ficaram estreitados.
-Foi a primeira? – ela perguntou – A primeira vez que matou?
-Sim.
-Eu já imaginava. – ela assentiu.
-Oh?
-Quando lutou conosco, você não atacava para matar. Poderia ter tirado a cabeça de Akemi meia dúzia de vezes, e ter feito um dano irreparável aos nossos órgãos internos... Mas você não fez isso.
Rin não replicou.
-Sabe, você não deveria deixar que uma experiência ruim colorisse sua ideia sobre matar. Digo, ninguém gosta da primeira vez. Você… passa mal quando para um instante para pensar a respeito. Sem contar a culpa: toda a vida é preciosa, blá, blá, blá.
-Toda vida é preciosa.
-Oh? Você não pareceu achar Suki preciosa. Você superou fácil demais.
-Kimi me obrigou. Você mesma disse: ela controla a planta na minha cabeça.
-Sim. – Yori concordou – Mas os poderes da árvore não são absolutos. Se você romper o feitiço, você se libertará do controle de Kimi. Então se realmente não queria fazer isso, você não teria matado. Se ela mandasse você se matar, tenho certeza de que não faria isso. Ou se dissesse para pôr fogo no vilarejo... Ela não pode forçar a ir inteiramente contra a sua natureza. Entenda então que uma pequena parte sua queria matar Suki.
-E daí? – ela retorquiu – Eu tenho todo direito de me proteger. Vocês admitiram que são assassinas. Se não tivessem me raptado, ela estaria viva.
-Se o seu lorde não tivesse ofendido nosso camarada, nós não teríamos sequestrado você.
-Se o seu camarada não me desonrasse e insultasse meu lorde, não haveria necessidade de "ofendê-lo", como disse.
-Se você não estivesse com o seu lorde, não haveria razão para tanta desgraça.
-Você! Não tem razão! Para falar!
Yori riu num deboche, cruzando os braços na frente do tronco.
-Acho que está certa. Eu sou tão vadia quanto você, não é?
-Eu! Não sou! Uma vadia! Ele me ama, e eu o amo!
A líder das caçadoras zombou dela.
-Demônios são incapazes de sentir tais coisas. Eu sei disso. Fui casada com dois deles. Eu fiquei com Kentaro por cinco anos antes de ele ser morto, e estou com Zinan, o Lorde das Terras do Norte, pelos últimos sete. E acredite, as únicas coisas que demônios são capazes de sentir são raiva, ódio e desejo. E isso recai sobre você, minha cara. Quando mais tempo estiver com ele, mais fica parecida com ele.
-Essa foi a sua desculpa para matar suas antecessoras?
-As outras mulheres de Zinan, você diz? – ela jogou a cabeça para trás e deu alguns passos na direção dela – Não seja estúpida, criança. Não tinha nada a ver em me tornar como Zinan. Tem a ver com a sobrevivência do mais apto. O macho quer a mais forte, a mais rápida, a mais apta e a mais atraente mulher para manter relações. Pais fortes geram crias fortes.
-Crias?
-Kentaro era, e Zinan é um demônio-falcão. Os filhotes dele eram chamados de crias. E para gerar as melhores crias, você precisa do melhor macho.
-E você fez isso? – Rin perguntou – Produziu as melhores crias?
-Certamente que sim. – ela replicou numa presunção – Eu sou a melhor mulher de todas, comprovado através de batalha com minhas antecessoras. Yoshi e Michiko são as crias favoritas de Zinan, e quando eles crescerem, serão conquistadores tanto do mundo dos humanos quanto dos humanos. Eles são o orgulho do avô.
-Você é hipócrita. – Rin declarou – Você vive por aí matando demônios, e está mantendo relações com um.
Yori deu de ombros.
-O seu lorde nunca matou outro demônio, então?
-Você sabe o que eu quero dizer.
-Não. – ela balançou a cabeça – O que você quer dizer?
-Seus filhos são meio-demônios, e olha só o jeito como trata Kimi.
-Kimi não é minha filha, portanto, não é do meu interesse. Ela tem suas utilidades, porém. E enquanto ela for útil, eu a deixarei viver.
-Que gentil da sua parte. – Rin zombou.
-É gentil da minha parte. Já tive motivos para matar todos os demônios que passassem pela frente do meu lorde. Não que ele apreciasse, caso se interesse. Como eu disse, as únicas coisas que os demônios são capazes de sentir são raiva, ódio e desejo.
Rin bufou.
-Talvez essas são as únicas emoções que você é capaz de inspirar num demônio.
Num instante, Yori já tinha desembainhado a espada, ajoelhado diante de Rin e colocado a ponta fria e afiada contra o pescoço dela.
-Ora, ora, mas você tá doida pra morrer, né?
A cabana inteira estremeceu, sacudindo o assoalho e as paredes, fazendo tilintar a cortina de contas.
Yori brevemente lutou para se manter equilibrada quando foi jogada para frente, a espada raspando no pescoço de Rin. Ela depois se levantou e correu até a porta.
-O que foi isso? – Rin sentou sem forças enquanto o sangue fresco escorria pela garganta.
-Kimi e Akemi. – disse de costas para Rin – Estão dando ao seu lorde uma bela amostra do que são capazes.
Rin pôde ouvir os gritos de pânico dos aldeões enquanto eles corriam de um lado a outro.
-Um demônio! – todos pareciam dizer – Fujam do demônio branco!
Sesshoumaru estava perdendo a paciência. Estava quase para chegar ao arvoredo perto do vilarejo quando duas mulheres mascaradas saltaram para cima dele. Uma era uma ookami hanyou, uma meio-demônio lobo, a outra parecia ser um tipo de religiosa. As duas estavam vestidas inteiramente de preto e tinham o cheiro de sangue e dor de Rin. Duas dos raptores dela, ele rosnou para si.
Queria acabar depressa com elas e continuar o caminho, mas a loba era rápida, e usou a própria paisagem como arma contra ele. A religiosa tinha um ataque místico que ele nunca tinha visto antes, algum tipo de chama branca. As duas lutavam em conjunto, lado a lado. A meio-demônio tentou prendê-lo, fazendo a grama crescer para prender as pernas dele e mantê-lo no lugar, enquanto a outra ficou parada e lançava bolas de fogo. Ele nunca viu as chamas queimarem algo, mas instintivamente percebeu que as rajadas de fogo branco fariam um belo estrago nele. Entre as chamas da religiosa e os ataques de grama da meio-demônio, Sesshoumaru passou mais tempo se abaixando e esquivando que atacando.
Inaceitável, ele repreendeu-se ao saltar por cima de um pinheiro que a meio-demônio lançou na direção dele. Elas eram mulheres – uma hanyou ainda criança e uma humana. Ele se esquivou habilmente para o lado quando uma chama particularmente maior foi em direção ao meio do peito dele. Elas não deveriam dar tanto trabalho assim.
-Ele está ficando com raiva. – a hanyou gritou – Eu consigo sentir o cheiro.
-Pare com essas brincadeiras e acabe logo com ele.
Sesshoumaru zombou intimamente. Acabar com ele? Como Rin teria dito, elas devem estar de brincadeira.
Sacou a Tokijin e mandou uma rajada da pressão da espada na direção delas. A religiosa ergueu uma barreira, bloqueando a força destrutiva. Cansado de lutar contra a grama, o Lorde do Oeste saltou no ar e lançou outra rajada de Tokijin, destruindo o chão em que as duas estavam. Uma foi lançada para frente, a outra foi para trás. Sesshoumaru então mirou na religiosa, indo para cima dela com as Garras Venenosas.
De novo, ela produziu uma barreira. Era um impasse. Garras Venenosas contra Barreira Mística. Lorde demônio contra fêmea humana. Homem no alto versus mulher no chão. Olhos âmbares se entediando ao olhar as profundezas dos olhos cor avelã dela, nenhum dos dois querendo ser o primeiro a piscar.
-Akemi!
Sesshoumaru ergueu a cabeça quando a hanyou apareceu de cima e fez dele um alvo, de garras à mostra. Enquanto o lorde demônio recuou para evitar o golpe da hanyou, a humana lançou uma bola de fogo. Ele se esquivou para a direita, mas foi atingido na manga esquerda, deixando-a em chamas, expondo a pele do antebraço e do ombro.
-Acertei! – a hanyou vibrou.
Ele apagou as chamas, mas ela o queimou, não apenas a carne. Sentia como se abrasasse a alma dele. Purificação. A serva humana estava tentando purificá-lo!
-Prenda-o, Kimi! Prenda-o!
Prender? Ele? Um golpe de sorte e a cadela pensa que já é Buda.
Sesshoumaru saltou no ar enquanto a que se chamava Kimi tentou de novo prendê-lo com uma corda feita de grama viva. Ele ficou surpreso de ver que ela fez centenas de cordas de uma vez, e que elas estavam chegando até ele, tentando agarrá-lo pelos pés. Ele voou ainda mais alto, depois desintegrou o mato com o vapor ácido das Garras Venenosas. Enquanto estava distraído, a humana acertou outro golpe de sorte nele. Desta vez fez um buraco na armadura e o acertou diretamente nas costas, mandando um choque doloroso de cima a baixo pela extensão da coluna, trilhando-o da cabeça aos pés.
A visão dele ficou nublada em branco, azul e verde enquanto ele aterrissava na terra, temporariamente privado do youki dele. Sim, ele estava definitivamente irritado agora.
Outro golpe o acertou enquanto o mato foi para cima, prendendo a mão dele ao lado do corpo e amarrando os pés. Nem a morte dessas duas o deixaria satisfeito agora. Elas causaram dor nele, amarraram-no, fizeram que caísse no chão. Queimaram o corpo dele e estragaram a armadura. E agora, a garota hanyou estava erigindo uma jaula dos galhos das árvores e da grama seca numa artimanha para prendê-lo.
-Rápido. – a humana ordenou.
Um profundo rosnado se formou no centro do peito dele enquanto por cima uma grade – parecida com uma jaula – se fechou ao redor dele, efetivamente bloqueando o sol. Ele não era um animal, e não seria tratado como um.
-Nós o pegamos! – a hanyou gritou.
Vermelho. Para Sesshoumaru, o mundo inteiro ficou vermelho.
-K-Kimi, a-acho que nós temos que fugir.
Mesmo dentro da jaula, ele conseguia sentir o medo da humana, escutar o coração dela acelerando.
-O que foi? – a meio-demônio perguntou – Acerte-o com outra Chama Mística. Elas pareceram dar um jeito nele.
O lorde conseguia sentir os poderes místicos da humana se expandindo. Ela ia queimá-lo de novo.
-N-Não.
Sesshoumaru sentiu os poderes dela diminuírem, o pulso ficar ainda mais rápido. Ela ia fugir. Ela conseguia sentir o youki dele expandindo, e sabia que era demais para ela dar conta.
-Kimi, vamos lá. Plano B.
-Mas…
-Agora!
Ouviu com a apurada audição quando passos apressados passaram pela grama alta e o cheiro das fêmeas ficou misturado com o da floresta.
Não. Elas não iam escapar assim tão facilmente. O cheiro do sangue e da dor de Rin estava pelas roupas pretas das mulheres mascaradas, e elas tomaram muito tempo dele. Agora ele ia sentir o gosto do sangue e da dor delas.
Sesshoumaru estava transformado.
Não apenas a cabana tremia agora, a terra inteira estremecia.
Yori segurou-se na batente da porta para manter-se em pé, as contas coloridas da cortina drapejando sobre a figura vestida de preto. Os gritos de pânico dos aldeões preenchiam o ar, enquanto eles corriam pelo lado de fora da cabana. Rin ainda não conseguia se mover.
-O que está havendo? – Rin gritou com todo aquele tumulto.
Yori riu ironicamente e lançou um olhar a ela por cima do ombro.
-Seu lorde está vindo por você! Aparentemente, Kimi e Akemi não conseguiram pará-lo.
Rin sabia que deveria ficar agradecida pelo lorde vir em busca dela. Deveria estar grata e aliviada, mas… considerando as vibrações da cabana, o tremor de terra, os gritos da multidão apavorada, e uma misteriosa pontada que sentiu pela espinha... Ela meio que ficou feliz por não poder se mexer e ver o que estava acontecendo do lado de fora.
-Takara! Takara!
Rin reconheceu aquela voz. Era Akemi.
-Não desfaça a barreira. – Yori ordenou.
Rin não conseguia ver Takara, mas como ela não deu uma resposta, imaginou que a sacerdotisa assentiu.
A pontada na espinha se intensificou quando um rosnado agudo e inumano ressoou. S-Sesshoumaru?
-Desfaça a barreira!
-Não! - Yori ordenou.
Houve um forte grito e uma brilhante luz quando um corpo foi arremessado pela porta, acertando Yori no processo. Rin reconheceu a voz como sendo de Kimi, mas olhando a forma imóvel da caçadora, ela não reconheceu os traços da hanyou lobo. Algumas partes do traje negro estavam queimados, expondo a pele pálida e chamuscada dos braços, da perna direita, do peito e do lado direito dos quadris. A máscara tinha sido completamente queimada e Rin conseguia ver claramente o rosário que ligava Kimi a Suki. Era vermelho-sangue e estava enrolado fortemente no pescoço dela. E quanto à aparência, ela não parecia ser uma meio-demônio. Os olhos dela estavam pesados, e não eram mais de um violeta claro e brilhante. Os olhos de Kimi eram tão castanhos quanto os dela. O cabelo era escuro e preso atrás numa trança. E apesar dos 83 anos, não havia uma única linha ou ruga no rosto dela. A pele era suave como porcelana, o nariz dela, apesar de ligeiramente pontudo, era delicado e pequeno; os lábios eram carnudos e rosados, e o rosto tinha formato de coração – largo em cima e estreito embaixo... Era parecida com uma criança, até mais nova que Rin com 17 anos
-O que aconteceu com ela? – Rin perguntou suavemente.
Yori ficou parada perto de Kimi, olhando a aflita hanyou e cruzando os braços sobre o peito.
-A barreira purificou o youki dela. Agora ela é humana.
Os gritos do lado de fora se intensificaram, o barraco tremeu tão forte que Rin achou que fosse se partir e ruir. Outro rosnado sobrenatural ressoou.
-Pelos deuses…
Subitamente, o teto da cabana foi arrancado quando uma enorme pata varreu o horizonte. Yori e Kimi ficaram soterradas debaixo de palha e madeira enquanto metade da cabana desabava. Sem mais paredes, Rin pôde ver exatamente o que estava acontecendo.
Era um massacre. Pessoas corriam e gritavam, segurando membros quebrados, sangue escorrendo pelo rosto. Pessoas pisavam uma nas outras, e havia uma enorme montanha de pelo branco bloqueando a luz do dia. Claro que Rin sabia que não era uma montanha, não era um monstro... Mas quando a cabeça sem máscara e parte do torso de Akemi caiu aos pés dela do feroz maxilar cheio de caninos, as presas roendo e rangendo enquanto o enjoativo e adocicado ácido corrosivo gotejava da boca dele em poças rasas que vaporizavam tudo no chão, Rin instintivamente recuou enquanto os olhos vermelhos se focavam nela e a pata de trás inadvertidamente esmagou uma garotinha que corria para tentar chegar até a família.
Rin fechou os olhos tentando bloquear a assustadora imagem.
-Para trás!
Rin abriu os olhos para ver Takara, a última das caçadoras, erguendo o báculo acima da cabeça com a mão direita, a esquerda segurando aquela... coisa que Akemi estava polindo antes.
-Volte para onde veio, demônio!
A cabeça gigante do cachorro desceu sobre Takara, numa tentativa de engoli-la de uma vez, mas a barreira da sacerdotisa ainda estava em pé e o monstro foi incapaz de rompê-la. Ele continuou a rosnar e morder a barreira sagrada enquanto Takara continuava bloqueando o avanço dele.
-Para trás, eu falei! – ela cutucou o nariz do cão com o báculo, fumaça saindo do lugar onde a ponta espetou, a fera uivando em absoluta dor.
Estava preso. Como Kimi havia dito, a barreira sagrada prende e purifica ao mesmo tempo. Uma vez que se avança nela, não se pode mais voltar.
A energia branca continuou a crepitar ao redor da sacerdotisa e da verdadeira forma do lorde. Outro uivo escapou da boca do cão. Dor. A sacerdotisa estava provocando dor nele. Ele não podia mais avançar e não podia mais recuar.
-Com o meu báculo sagrado e esta relíquia sagrada de Buda...
Buda! Rin engasgou. Sim, o lorde era forte, mas...
-Eu disperso sua energia profana e o sentencio...
Sentenciá-lo? O que ela pensa que está fazendo?
Alguma coisa se mexeu do lado direito de Rin. Era Kimi.
-Ela vai… purificá-lo... – ela ofegou – Ele vai morrer...
Não!
-Kimi, ajude-me! Faça eu me mexer!
-Sem… poderes. Humana…
Rin praguejou intimamente, depois avistou o cabo da espada dela, a que Yori havia fincado no assoalho. A lâmina estava debaixo de madeira e palha, mas ela só precisava pegá-la.
Pense... em... coisas... boas.
Pensar coisas boas? De onde? Tudo que ela via era morte e destruição. Tudo que sentia era vazio e solidão. A família dela a deixou, e agora Sesshoumaru ia deixá-la também.
-Para as profundezas do Inferno!
O monstro diante dela rugiu!
Eu amo você, Rin.
Este Sesshoumaru sempre vai desejá-la, e nada que alguém diga ou faça vai mudar isso.
Eu escolhi, e não serei julgado… Você já é minha, e eu não a abandonarei.
Pense... em... coisas... boas.
-NÃO!
Takara balançou o báculo juntamente com a relíquia sagrada. Rin sentiu aquela familiar pontada na espinha, seguido de uma luz aquecida e branca. A luz desintegrou a semente, e Rin conseguiu se mexer.
O demônio cão uivou enquanto a força vital dele era arrancada violentamente do corpo e canalizada no outro mundo, provocando uma dor lancinante pela coluna, do focinho até a cauda. Ele não podia acreditar, mas era tolice negar. Ele ia morrer. Os ferimentos que a religiosa e a hanyou causaram não iam curar. A barreira da sacerdotisa era forte, impenetrável pelos poderes de Buda. Cada ataque que a serva fazia provocava mais dor nele, exaurindo o youki que ele precisava para viver.
Um uivo sobrenatural escapou da garganta dele enquanto os olhos vermelhos passaram da sacerdotisa para sua amada Rin. Ela estava tão perto, e ele ia morrer. Ele finalmente conseguia vê-la, ouvi-la, sentir o cheiro dela de novo... E ele ia morrer.
Rin.
-Não o machuque!
Takara olhou por cima do ombro quando Rin deu um giro em forma de arco com a espada, cortando a cabeça dela com um único, suave e fluído movimento. Rin tomava golfadas firmes de ar enquanto observava a cabeça da sacerdotisa desconectar do corpo, os olhos de Takara arregalados de horror e surpresa enquanto a cabeça finalmente descia ao chão, rolando alguns metros antes de parar num monte de palha perto do corpo imóvel de Yori, ainda debaixo das ruínas. Os olhos verdes da sacerdotisa estavam abertos, piscaram duas vezes, depois se fecharam. O corpo caiu no solo, o báculo e a relíquia seguiram em conjunto.
-Maldição…
Houve uma forte explosão de luz, depois uma esfera brilhante pairou brevemente onde a forma de demônio de Sesshoumaru estava antes.
Rin deu um passo hesitante, a mão ainda firme no cabo da espada.
-Se-Sesshoumaru?
A esfera disparou pelo céu, deixando um rastro branco em contraste com o azul do céu, indo em direção ao oeste. Rin ficou em pé em meio aos destroços, os olhos castanhos voltados para o céu, fixos no último ponto em que vira a brilhante bola.
Estava sozinha, completa e absolutamente sozinha. Era ainda dia, talvez uma hora depois do início da tarde, o sol ainda lançando raios através das árvores áridas e quebradas... Mas parecia ser escuridão, muito escuro, com muito vento e frio. A parte de cima do corpo de Akemi estava à direita de Rin, o cadáver decapitado de Takara em frente a ela, Yori e Kimi permaneciam parcialmente soterradas na cabana destruída, a mesma que tinha sido a prisão dela nas últimas oito horas. Rin fechou os olhos na esperança de bloquear os gritos e berros dos aldeões. As imagens das construções destruídas e corpos ao redor dela: a poça de sangue e ossos que eram da menininha, o cheiro de carne queimada, sangue fresco, madeira lascada e o enjoativo e adocicado cheiro do ácido corrosivo.
Rin caiu de joelhos e vomitou, apertando o cabo da espada em uma das mãos e segurando o estômago com a outra.
Sabe, você não deveria deixar que uma experiência ruim colorisse sua ideia sobre matar. Digo, ninguém gosta da primeira vez. Você… passa mal quando para um instante para pensar a respeito. Sem contar a culpa: toda a vida é preciosa, blá, blá, blá.
Rin forçou-se a levantar-se e fugiu em direção da floresta, com a espada manchada de sangue em mãos.
Nota da autora: Obrigada por ler e comentar, e espero não tê-los desapontado,
theMaven :)
Nota da tradutora: Estão vendo o link aí abaixo? Pois é. Comentem. Já sabem: 15 reviews=update
(e bom final de semana!)
