24º Capítulo
Hugo
A madrugada já se alongara. Foram horas com os dois lados da família conversando e finalmente preenchendo todas as lacunas daquela história trágica. O fato de que Hermione havia escondido um filho, não apenas de Rony, mas de todos os familiares do ruivo, foi o cume da reunião. E não se podia negar que essa ocultação causou uma perturbação pelo lado dos Weasley. Foi inevitável, assim como saber da imobilidade de Rony diante ao filho. Mas agora não havia como cobrar contas de nenhum deles e não valia esforço algum ficar remoendo as decisões mal feitas de outras pessoas. O foco era em Hugo que teria apenas seus familiares. E ambas as partes tinham plena consciência de que não podiam iniciar essa interação se desfazendo de uma ligação tão forte que vem acontecendo há tanto anos entre eles.
Quando já em casa, Gina não conseguia desligar sua mente e dormir. Só pensava em como Hermione conseguira fazer algo desse tamanho. Aquilo não combinava com ela. Queria que ela estivesse viva, para escutar o que ela tinha a dizer e não saber tudo por uma carta!
Andava de um lado para o outro na sala, totalmente inquieta, quando Harry chegou do quarto das crianças e sentou-se no sofá.
-Eu sei o que você vai dizer. –falou ela na defensiva, antes que Harry pudesse dizer algo. – Mas eu não consigo engolir, isso tudo não está descendo pela minha garganta! É tanta coisa inacreditável, que eu me recuso a acreditar! Eu sei que não vale a pena remoer nada agora, mas eu não consigo parar de pensar. Não consigo. –falou derrotada. –Como Hermione conseguiu fazer algo assim? Como Rony não fez nada? Como ele não contou para ninguém? Merlin!, você vê o quanto isso é ridículo? –falou exasperada, quase aos prantos.
Harry a entendia. A situação chegava ao ponto de ser ridícula se não fosse trágica e isso causava uma raiva além da conta.
-Gina...
-Não tente me consolar... –avisou num fio de voz.
-Não vou. Apenas sente aqui. –apontou para o sofá. Ela esfregou o rosto e sentou-se de frente para ele. Harry apenas ficou olhando para ela, esperando que ela falasse tudo o que desejasse.
-Eu estou com raiva, com raiva dos dois. Sei que não é normal porque eles morreram e eu nunca mais vou vê-los. Mas não consigo conter minha raiva nesse momento. E também não consigo conter minha saudade... meu sofrimento. Eu estou uma bagunça, Harry.
-Eu sei. Eu acho que não vai adiantar muita coisa tentar entender as motivações de cada um. Eles não estão mais aqui para termos uma conversa franca e o porquê já foi dito, você aceitando ou não. Acreditando ou não. -suspirou. -Sua raiva vai passar. –alisou seu rosto. –Amanhã quando conhecermos o Hugo você vai agradecer aos dois por deixar uma lembrança tão viva. –sorriu.
Gina se aninhou em seus braços e o abraçou forte.
-Você já pensou? –perguntou ela.
-Sobre?
- "Eu tenho mais um pedido... Conte ao mundo essa história. Mostre ao mundo a história que começou naquele 1º de setembro há tantos anos." - repetiu as palavras de Hermione. Harry suspirou.
-Não sei. Não havia pensado nisso. Na verdade, será que isso seria certo, abrir a vida deles para o mundo? Eu tive a minha vida aberta todo o tempo, e ainda tenho! E a privacidade? Não quero isso para eles.
-Acho que Hermione deve ter pensado bem antes de ter feito um pedido desses.
-Mas e Rony? Como ele se sentiria com sua vida exposta para todos? E Hugo? Como ele ficaria daqui uns anos vendo a história dos pais publicada? Você já pensou no alarde que isso pode causar?
-Você não precisa fazer isso agora, pode esperar ele ter idade. Pode conversar com papai e mamãe e saber se eles autorizam que você libere o que está relacionado ao Rony.
-Você gostaria que isso acontecesse? –perguntou surpreso. Gina ergueu o corpo e o olhou.
-Você teve uma experiência ruim com a sua vida exposta, aliás todo mundo tem. Mas a sua foi quase cem por cento ruim. Mas eu vejo o pedido de Hermione por outra perspectiva. Quando Rose morreu todos só falavam sobre isso e você sabe que muitos boatos foram levantados, ainda mais depois da separação, depois que Hermione pediu exoneração do cargo. Até hoje o assassino de Rose é um mistério, de certa forma. Eu acho que Hermione só quer mostrar a verdade. Ela quer mostrar a verdade, mostrar seu erro e também o amor e chance que ela perdeu. Não é uma questão de privacidade, de expor sua vida. É a questão de contar uma história real.
Harry ficou em silêncio e Gina se aconchegou novamente em seu peito.
-Fica aqui comigo, eu não vou consegui dormir. –falou com a voz baixa.
-Tudo bem. –falou ele, também, sem um pingo de sono.
O dia seguinte chegou, um sábado agitado, e todos estavam bastante ansiosos.
Harry estava oficialmente de férias e agora tinha certeza que fora a melhor decisão que tomara nos últimos tempos. Gina por sua vez, sentia-se muito mais amparada por tê-lo ao seu lado. Iriam se recuperar juntos o que era essencial para o casal. As crianças estavam muito alegres por terem o pai em casa vinte e quatro horas por dia e não davam descanso o que era muito bom.
Toda a família Weasley, sem exceção, estava reunida na Toca a espera da chegada do pequeno Hugo com os avós maternos. O silêncio era palpável e tenso. Logo o som do carro foi ouvido e Arthur se levantou de um pulo e correu até a porta.
Logo, Marre e Paul, um tanto abatidos, mas com um sorriso sincero nos lábios, entraram. Há muito esperaram por esse momento.
Hugo, que estava perto de completar quatro anos, mantinha-se agarrado às pernas da avó um tanto tímido. Assim como dissera Hermione na carta, seus olhos eram exatamente como os de Rony, e nesse momento estavam arregalados exatamente como o pai costumava fazer. Podia se ver um ou outro traço de Rony no filho, mas os de Hermione dominavam. Seus cabelos castanhos eram lisos, com algumas ondas, cortados em tamanho médio e franja caindo-lhe pelos olhos, parecendo muito com o corte do pai.
-Meu amor, não precisa ficar com vergonha. Você não queria conhecer todo mundo? –perguntou Marre. Hugo apenas acenou a cabeça, desajeitado, e largou as pernas da avó. Deu um passo à frente.
-Oi, eu sou o Hugo. –falou com as bochechas corando.
-Hugo! –Molly falou emocionada e foi a primeira a abraçar o neto, emocionada. Ele podia ser quase a cópia de Hermione, mas o jeitinho era do seu Rony!
-Você é a vovó Molly. Mamãe falou que você abraça até quebrar o esqueteto. –riu. Molly riu junto com ele e beijou sua bochecha.
À medida que Hugo ia cumprimentando todos, ficava mais a vontade e mostrando seu espírito alegre, sempre destacando alguma característica ou algum detalhe que Hermione havia lhe contado.
-Mamãe falou para eu ter cuidado com vocês. – referiu-se a Fred e Jorge, fazendo-os rir.
Quando chegou a vez de Harry, porém, ele parou e o analisou. Harry sentiu seu corpo tenso e esperou.
-Você é o tio Harry. –falou com certo ar admirado, mas ao mesmo tempo com ar triste.
-Sim, sou eu. –sorriu.
-Mamãe me disse que você era o melhor amigo dela junto com o meu pai. –falou com voz baixa, mas seus olhos brilhavam.
Harry engoliu seco.
-Nós éramos muito amigos. Os três. –falou com dificuldade.
-A vovó e o vovô falô que a mamãe foi pro céu e que o papai foi com ela. –olhou para os avós e voltou a olhar para Harry. –Eu não quero que eles vai. Eu nunca mais vou ver ela. –afirmou em voz baixa.
-Eu também não queria que eles fossem. –falou tentando conter a emoção e se agachou de frente para o sobrinho.
-Você sabe por que meu pai nunca foi me ver, tio Harry? –perguntou finalmente. – Mamãe falava que ele estava viajando, mas eu nunca nem falei com ele. Eu não sou burro, existe telefone e existe a varinha. Ele podia falar comigo, não podia? Mamãe falava que ele me amava, mas eu não sei... –falou desconfiado.
Harry respirou fundo e olhou para todos os rostos tensos ao seu redor.
-Olha só... –tentou sorrir, mas foi uma lágrima que desceu de seu olho esquerdo. – Sua mãe te amava muito você entende isso?
-Entendo.
-Que bom. E o que ela disse era verdade, seu pai te amava, pensava em você todos os dias, mas ele tinha medo de aparecer.
-Medo?
-Sim. Medo. Você tem medo de alguma coisa?
-De aranha. –falou sentindo um arrepio. –Eu lembro quando eu era criança e uma enorme subiu pela minha perna. Não gosto desse bicho!
Harry riu, sentindo seu coração inflar de emoção e enxugou o rosto.
-Pois é! Seu pai também tinha medo de aranhas e muito outros medos, por isso ele não ia te ver. E você vai entender tudo quando for mais velho. Eu prometo.
-Tá bom. –falou satisfeito e se jogou nos braços de Harry, que o abraçou emocionado. Logo Hugo o soltou sendo atraído pela presença de Gina.
-Ahhh, e você é a tia Gina! O cabelo de vocês são todos iguais! –falou gesticulando.
-Sim, sou eu! –falou sorridente.
-Mamãe falou que você era a irmã preferida do meu pai, mas que vocês brigavam muito!
Gina gargalhou em meio às lágrimas e abraçou Hugo o tirando do chão.
-Mamãe também falou que você é a única menina. Isso é estranho. –falou franzindo a sobrancelha. –Mas ela também falou que você é menina, mais é mais forte que todos os meninos!
Todos riram alto, fazendo Hugo se divertir.
-Pois é, Hugo, ninguém mexe com a tia Gina! –deu uma piscadela. – E... eu tenho um presente para você, mas você precisa guardar para usar só quando for um pouco mais velho, ok?
-Tá bom. –falou ansioso.
Gina pegou o embrulho e entregou. Ele abriu apressado e arregalou os olhos.
-Essa varinha foi do seu pai e agora é sua. –sorriu.
-Sério? –falou maravilhado.
-Claro que sim!
-Obrigada, tia Gina! –abraçou-a novamente.
-Não a de que, querido. Seu pai deixou várias coisas para você, mas nada de pressa. Temos muito tempo. –beijou sua testa.
Quando conheceu os primos, Hugo sentiu-se ainda mais a vontade e não houve mais cerimonias. Ele conversou durante várias horas com seus novos familiares contando quase tudo o que sabia sobre eles e claro, conhecendo ainda mais sobre eles. Após horas de conversa e brincadeiras almoçaram no jardim da Toca, num clima regado de alegria. Hugo era um sobrevivente sem pais. Assim como Harry e Teddy. Mas ao contrário da sua história, Harry ficava imensamente feliz de saber que ele, assim como Teddy, crescerá rodeado de pessoas que o ama incondicionalmente. A falta dos pais nunca poderá ser superada, mas de uma forma ou de outra eles sempre serão lembrados. E um dia chegará o momento de revelar toda a verdade e o momento em que Hugo terá que lidar com o conflito de seus sentimentos.
Desde a leitura das últimas palavras de Rony e Hermione e agora com a apresentação de Hugo, todos se sentiam renovados, apesar da dor e da saudade ainda muito presentes.
Na hora de embora, Hugo negou enfaticamente querer deixar o conforto daquele lar o que, claro, causou a alegria de Molly e Arthur que acabou recebendo o neto para a primeira noitada na Toca. Não poderiam ter um sábado melhor que aquele.
Harry e Gina voltaram para casa aceitando a oferta de Percy e Penelope para ajudarem Molly e Arthur com as crianças.
Gina subiu direto para o quarto e jogou-se na cama. Harry veio logo atrás, sentou ao seu lado e tirou os sapatos da ruiva, fazendo-a sorrir.
-Eu não te perguntei ainda... como você descobriu que Hermione teve um filho?
-Quando ela fugiu e eu fui à casa dos pais dela, eu vi o Hugo por curtos minutos. Achei estranho e Marre falou que era filho de uma sobrinha. Achei estranho, mas tirei isso da cabeça. Depois o jeito que Hermione agia e falava, parecia que escondia algo e então, tirei minhas próprias conclusões. Mas certeza eu só tive naquele dia que fomos vê-la no chalé.
-Eu percebi que havia algum segredo entre vocês dois. E agora, com minha raiva mais amena, fico imaginando criar uma criança inventando tantas desculpas. Como ela conseguiu passar por isso?
-Acho que podemos fazer uma pequena ideia.
-E o que vai acontecer quando Hugo descobrir a verdade?
-Não quero pensar nisso até chegar o momento.
Gina sorriu o confortando. Sentou-se e soltou seus cabelos longos. Não queria falar mais sobre aquele assunto pesado. Queria descanso.
-Preciso de um banho. –falou e tirou a blusa. Desabotoou a calça e fez menção de se levantar, mas Harry a empurrou de volta para a cama. Ela soltou um suspiro, surpresa, e o olhou séria sentindo um arrepio subir-lhe pelo corpo diante seu olhar.
Ele pousou uma das mãos em sua barriga, alisando-a com as pontas dos dedos, fazendo um caminho até o vale dos seios e chegar ao pescoço. Gina fechou os olhos sentindo seu corpo reagir àquele pequeno toque. Ele se curvou e beijou seu colo, arrancando um suspiro profundo de seus lábios. Estavam ali, os amantes Harry e Gina, e tudo o que ela queria era se entregar a ele e havia se esquecido do quanto queria isso.
Ele, por sua vez, percebeu que há tempos não via Gina tão relaxada e quando a viu tão simples deixando seu corpo quase nu, constatou que precisava daquele contato íntimo, que tinha necessidade de estar com Gina o mais intimamente possível.
Harry subiu os beijos até seu rosto e quando chegou à orelha sussurrou simplesmente:
-Eu te amo. –parou e olhou-a esperando a confirmação, algum sinal de que era o que ela também queria, de que o desejo era recíproco. Observou seus lábios entreabertos prontos para serem beijados, suas pupilas dilatadas e seu peito arquejar de ansiedade.
Gina sentia seu peito inflar de tanto amor por aquele homem na sua frente. Sentiu uma emoção sem tamanho tomar conta do seu ser e seus olhos se encheram de lágrimas.
-Eu te amo. –falou sem fôlego e quase perdendo a lucidez, sentindo seu corpo queimar e clamar por Harry.
Não precisavam dizer mais palavra alguma. Harry teve sua confirmação e atacou seus lábios com euforia sem se importar em recuperar o fôlego. Enlaçou Gina pela cintura fazendo-a sentar-se em seu colo e a partir dali reviveram todas as sensações e desejos máximos que podiam partilhar.
A vida continuava, apesar de tudo, e não havia maneira melhor que voltar a vida do que celebrando o amor, partilhando aquele momento tão íntimo e vivaz!
N/A: Pessoal!
Mais um capítulo e agora estamos chegando ao fim!
Espero que gostemmm! Um beijo enormeeeee!
