Elisabeth cochilou por vinte minutos até que Natalie foi ao seu quarto chamá-la para comer a sopa. A mesa estava posta e Holmes aguardava-a com seu habitual cavalheirismo mesclado a uma paciente compaixão com a qual Elisabeth não estava habituada. Ela se sentia tão confusa e frágil, tudo parecia tão irreal que o ato de comer era um ultraje. Queria morfina, precisava da inconsciência da morfina. Bebeu o vinho, tentando aplacar a sede que lhe queimava a garganta e tentou comer, consciente de que Holmes a observava, sentado à sua frente na mesa.

"Assim que a manhã chegar, precisará fazer um anúncio no jornal e talvez mandar uma nota aos amigos mais próximos como Mrs. Forrester." Ela assentiu, repetindo mentalmente que precisava ser forte por ela e pelo irmão. "Talvez... talvez você se sinta mais confortável se chamar os Bigelow aqui, não? Especialmente Miss Bigelow e..."

"Não. Não quero nenhum estranho nessa casa. Sua ajuda é tudo o que nós precisamos, Holmes. Ninguém mais." Ele ficou confuso quando Elisabeth chamou os Bigelow de estranhos, incluindo Helen, de quem ela não desgrudava mais, mas não contestou. Não contestou porque saber que Elisabeth e John precisavam dele e queriam ele por perto em um momento de dor como aquele era tudo o que precisava.

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O piano permaneceu silencioso como o resto da casa nos três dias subsequentes. Elisabeth corria de um lado ao outro, arrumando a casa, fazendo com que John comesse, preparando o velório e o enterro. O velório foi simples e pequeno; mal tinham trinta pessoas na capela no último dia e esse número caiu a quase quinze no cemitério quando baixavam os caixões à sepultura.

Sherlock surpreendia-se com o fato de que, após o choro convulsivo no dia da tragédia (que provocara o abraço cujo calor parecia não deixar seu corpo), ela não derramara mais nenhuma lágrima na frente dos outros. É claro que as olheiras escuras e fundas em seu rosto pálido não enganavam ninguém, mas ele não podia deixar de admirar a firmeza com que ela suportava toda a dor e a forma decidida com que abraçava John, que tinha os olhos injetados e o corpo trêmulo, parecendo desvairado com a viuvez.

"Eu só tenho vocês dois." Dissera ele com uma voz rouca na primeira manhã sem Mary, após emergir do sono de calmantes a que se tinha submetido.

Os olhares de piedade lançados por sua irmã e seu melhor amigo irritaram John. Ele não queria ser aquele que sofria mais, o digno de pena. Mas era.

Acordava no meio da noite em seu novo quarto, sentindo falta de outro peso na cama, de outro calor. Acordava no meio da noite achando que ela tivera um pesadelo, que ela andava pela casa, que ela estava grávida e tinha contrações. O parto! O parto vinha assombrá-lo a cada vez que cochilava. Não pudera ajudá-la, não pudera salvar a mulher que amava. Racionalmente, ele sabia que o corte que fizera em seu períneo não fora o responsável por sua morte, apenas fizera sair de seu corpo o verdadeiro assassino. Aquela criança monstruosa, deformada, horrenda, roubara a cor do rosto de sua mãe ao provocar o descolamento de placenta. Roubara a alegria dos Watson. O doutor se odiava por ter engravidado Mary, pois era ele também responsável pela existência daquele natimorto odiento.

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Após os ritos de morte, o silêncio que dominou a casa dos Watson tornou-se pesado e, aparentemente, nada pior poderia acontecer. Acharam isso até Elisabeth cair doente com uma febre altíssima que a fez se debater durante a noite.

"É o luto. Sua estrutura já é delicada por conta da infância que teve e ela se forçou demais nos últimos dias." Decretou o Dr. Prendergast após examiná-la na manhã seguinte à primeira noite de febre; John não queria nunca mais tratar como médico de alguém da sua família, então chamou seu sócio para cuidar da irmã. "Ela precisa de repouso, atenção e muita água. Se a febre subir muito, dê-lhe um banho sem molhar seu cabelo – nunca a deixe molhada nesse frio – e esse xarope." Prendergast colocou o vidro na mesa de cabeceira de Elisabeth e fechou sua maleta. "Se precisar de ajuda, me chame. Peça ajuda a alguém, amigo, você não vai conseguir sozinho." John agradeceu e apertou sua mão, se desculpando por não poder acompanhá-lo até a porta para não abandonar o lado do leito de Elisabeth.

Precisava de alguém que o ajudasse a velar por ela. Alguém mais real do que o fantasma de Mary que lhe impregnava os sentidos, ao menos.

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Ficou sentado ao lado de sua cama, observando-a se debater no sono do mesmo jeito que há um ano e meio. Mas como ela mudara nesse meio tempo! Os cabelos, com os tais cachos furiosos que harmonizavam graciosamente em seu rosto, espalhavam-se agora pelos travesseiros e se enroscavam em seu pescoço torneado. Às vezes, ela arregalava os olhos assombrosamente azuis e se erguia parcialmente na cama, respirando desesperada, como se estivesse se afogando. Nesses momentos, ele tirava seus cabelos do rosto, secava o suor que lhe encharcava a fronte e sussurrava que tinha sido apenas um pesadelo, que ele estava ali. Sempre estaria ali.

Em seus sonhos, Elisabeth não sabia daqueles dois homens que, por motivos não muito diferentes, se revezavam em velar seu sono. Sabia apenas da febre que lhe doía em todo o corpo e dos horrores que desfilavam em seu quarto. Fantasmas pálidos de lembranças torturantes enterravam o medo em sua carne sem nenhuma ordem cronológica.

Por vezes achava que estava sozinha e delirante em seu velho quarto imundo, arranhando-se e choramingando. Em outras, eram os gritos de uma mãe apavorada – cuja voz Elisabeth nem sabia que lembrava – e suas mãos brancas e cheirosas que não conseguiam segurá-la enquanto alguém a arrancava de seus braços e Elisabeth sentia-se pouco mais do que um bebê infeliz. Recorrentes vezes lembrava-se da cabeça aberta do pai no tapete bonito da sala, encharcado de sangue. Sangue. Sangue. Sangue de Mary. Sangue de Mary encharcando os lençóis em que Elisabeth estava deitada.

Acordava, abria os olhos tentando sair do pesadelo e sequer tinha voz para gritar. E então um par de mãos de dedos compridos agarrava seus ombros, tentando puxá-la para a segurança de seu abraço. Abraço que outro homem, loiro e largo, lhe dava enquanto beijava suas frontes. Ambos sussurravam coisas que ela não conseguia entender, mas que a acalmavam e faziam-na voltar a dormir.

Só para ser assolada pela lembrança de Jaroslav espancando-a, de Mary morrendo, de sua mãe implorando para que não a machucassem. E as quatro mãos acalmando-a, acariciando sua carne febril.

"Você está segura agora, ninguém mais pode machucá-la."

"Eu estou aqui. Você não está sozinha."

"Não me abandone, Lizzie, se recupere, por favor."

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Foram dois dias exaustivos em que John quase não dormia para ficar ao lado da irmã. Sua Lizzie forçara demais o corpo deteriorado pelos maus-tratos e o cansaço a consumia em forma de febre. Ela se cansara para poupá-lo e agora ele deveria cuidar de Elisabeth.

Agora eram só ele e Elisabeth. Certo, ele, Elisabeth e Holmes, que ficara em sua casa trabalhando com Elisabeth até o enterro de Mary e voltara assim que Watson pediu ajuda para cuidar de sua febre. Ele nunca poderia retribuir toda a amizade abdicada que Holmes dedicava à sua família, era o que pensava em seu estado normal. Durante a depressão, achava que o amigo não fazia mais do que a obrigação. Watson precisava dele e um bom amigo ajudava como possível. Holmes vivia em uma caixa de fósforos e não precisava trabalhar para ter dinheiro, fazia-o pelo amor aos mistérios. Passar uns dias na casa dos Watson quando eles precisavam tanto era o mínimo que podia fazer.

Em seus momentos de descanso (quando Holmes velava Elisabeth), Watson perambulava pela casa ou tentava dormir um pouco, insatisfeito com sua ausência de desejo de fazer qualquer coisa.

Era ele quem estava ao lado de Elisabeth quando seu sono aquietou na tarde do segundo dia e ela dormiu profundamente, com o peito subindo e descendo suavemente com a respiração. Avisou a Holmes que ela estava boa, querendo intimamente que o amigo não fosse embora; sem ele, a casa viraria um mausoléu.

"Volto amanhã." Prometeu Holmes, pegando sua cartola e deixando a casa. John ficou parado no vestíbulo por uns instantes, sem saber o que fazia. Andou até a sala de música e adormeceu no sofá, imaginando que Elisabeth tocava piano.

Acordou assustado no meio da noite, jurando que ouvia Mary acalentar uma criança.