Marcado

Kaline Bogard

Capítulo 25 – Derrotados

Uma ação ousada, em que a Kirisaki Daichi envolvera humanos e de alguma forma descobrira o endereço do Ômega. Subestimaram o Pack rival. Terrivelmente.

Antes que Aomine tivesse a menor chance de responder ao elo mental ou tentar uma reação, aquele homem puxou o gatilho.

A bala atravessou o ombro de Daiki, queimando a carne como o inferno. Era feita de prata. Dor minou forte, atordoando Taiga; como se ele experimentasse o sofrimento em si próprio, e alcançando todos os membros do Pack.

Kagami saltou do sofá, sem entender direito o que acontecia, dado o ângulo em que estava. Acabara de ouvir um estampido abafado, um segundo antes daquela sensação ruim. Assim que aproximou-se da porta e viu a cena, entendeu tudo.

Havia um homem estranho, humano, parado a porta, segurando uma arma com um silenciador preso a ponta. Sorria sem humor algum. O ruivo alternou olhares entre o desconhecido e Daiki, que segurava o ombro com a mão. Sangue escorria por seus dedos e a expressão revelava o sofrimento.

Ambos fizeram menção de atacar, porém o outro foi mais rápido. Evidenciou a arma com um gesto rude. O dedo indicador repousava sobre o gatinho, perigosamente.

— Tenho ordens de levar você vivo — falou para Taiga antes de indicar Daiki com um aceno de cabeça, vigiando os garotos com atenção — Ele não.

A ameaça foi clara e paralisou Kagami, que sentia a dor e a intenção agressiva de Aomine. O Alpha estava prestes a atacar.

"Daiki, não!", aconselhou pelo elo. Um movimento mal interpretado e o invasor dispararia. O Tigre em si reagia com cautela, diferente da Pantera, tão ansiosa para atacar quanto sua parte humana.

A única resposta do Alpha foi uma espécie de rosnado, algo que o inimigo parecia estar pedindo como reação, apenas para poder atirar. Os garotos não podiam saber que suas ordens eram de levar os dois com vida.

"DAIKI!", insistiu no chamado. Tudo o que menos precisavam era um descontrole naquele momento.

— Eu disse que tenho que levá-lo vivo — o homem voltou a falar naquela voz rouca, dessa vez ameaçando o Ômega — Não necessariamente inteiro.

A simples idéia de Taiga sendo ferido devolveu a razão a Aomine.

— Excelente. Ouçam bem o que vão fazer... — seu tom era vitorioso.

R&B

Todos os Betas do Pack sentiram o momento exato em que seu Alpha foi ferido. Resquícios do sofrimento ainda os deixava entorpecidos. Momoi foi a primeira a se recuperar e tomar uma decisão. Era de natureza defensiva, ir de encontro ao Alpha e o Ômega tornou-se prioridade.

Diferente de Murasakibara e Midorima, dois Betas agressivos, que acreditavam na capacidade de defesa do Alpha e priorizavam impedir o avanço do inimigo, defendendo não apenas o território, mas o apartamento de Kagami, por tabela. Nenhum deles podia entender como os rivais já haviam alcançado os companheiros, já que estavam usando um humano como subterfúgio.

Quando Satsuki deu as costas aos invasores que se aproximavam, notou vagamente que eles não vinham atrás de si. Não compreendeu a desistência inexplicável, fato que apenas aumentou sua angústia e necessidade de ir logo até o líder do Pack. Tentou estabelecer contato várias vezes naqueles derradeiros segundos, mas encontrou barreiras tanto em Kagami quanto em Aomine, como se ambos tivessem canalizado a atenção apenas um para o outro, sem permitir interferência externa. Coisa que ocorria diante de um grande perigo, como parecia ser o caso.

Em desespero, desviou o foco para Akashi. O capitão já estava ciente e se pondo em movimento, assim como Kuroko e Kise.

Foi um choque para a garota e demais shifters captar a presença de Daiki e Taiga se afastando, rápido, de modo que a única conclusão possível era de estarem em algum tipo de veiculo automotor. Mas apenas os dois! Sem nenhum Beta ou Alpha perto! Como era possível?! Não fazia sentido! E aquele ferimento infligido a Daiki? Alguém tinha que ter feito! Não existia no mundo shifter capaz de ocultar a própria presença. Seria associação com outra criatura mágica?

O ponto de vigia da menina não ficava distante. Era cuidadosamente calculado por Akashi, algo que permitia uma defesa eficiente e proporcionava tempo para Aomine tomar as medidas necessárias, fosse para ajudar na batalha ou fugir.

De alguma forma, os inimigos estavam um passo a frente, destruindo a defesa de Seijuro e conseguindo o que tanto lutaram para impedir.

Momoi chegava à entrada do prédio quando a resposta insinuou-se por sua mente, uma desconfiança que a fez estremecer. Existia uma única criatura conhecida no mundo, que os shifters não podiam sentir a presença. Humanos.

Pelas leis dos Packs, a existência sobrenatural deveria ser um segredo. Humanos nunca sabiam da verdade. Desconfiavam, claro. Criavam lendas, contos. Davam vida ao mito através de livros e filmes. Mas a prova da existência incontestável sempre lhes escapava ao alcance.

Mas, pelo visto, nem isso a Kirisaki Daichi respeitava. Seriam eles capazes de ir tão longe para pegar um Ômega? A resposta era única: sim.

Mal acreditou quando chegou ao prédio em que Kagami morava. A presença dele, nem de seu companheiro podia ser sentida lá dentro. Captava fragmentos no ar, mas não os identificava, pois eram muito leves.

Sim. Sentia-os muito ao longe, afastando-se rapidamente para fora do alcance que mantinha o Pack ligado. Longe o bastante para não alcançá-los nem mentalmente. Tinham acabado de perder o Ômega e o Alpha.

R&B

A pseudo invasão fôra feita com o único objetivo de causar distração. Os Betas rivais fugiram ao confronto, como se quisessem se preservar antes que os demais membros da Geração Milagrosa aparecessem por ali.

Midorima ainda perseguiu dois deles por um tempo, até que chegassem na estação do metrô e conseguissem entrar em um dos vagões cujas portas estavam para se fechar. Reconheceu a ambos: eram shifters da Kirisaki Daichi, reservas que sempre ficavam no banco.

Recebeu ordens de Akashi de se reunir com Murasakibara e Momoi e esperar no apartamento de Kagami. Desse modo, descobriram que o pobre porteiro se deixara enganar pela credencial do professor, fato que não era raro no Japão: um professor visitar o aluno. Tal figura de autoridade não precisava ser anunciada na visita surpresa.

Akashi chegou primeiro, trazido por uma das limusines de sua família. Seu semblante não revelava a raiva que borbulhava em seu interior e todos os demais Betas captavam.

— Eles usaram um humano — falou assim que entrou no apartamento, onde já estavam três dos Betas, os vigilantes daquela noite — Sinto o cheiro do suor dele.

— Notamos isso — Midorima andava pelo apartamento examinando tudo. Não era o único odor possível de reconhecer, ao contrário do que Momoi sentira fora do prédio. Na sala, mais especificamente perto da porta, o aroma férreo de sangue era muito forte e emanava principalmente de pingos avermelhados no piso de madeira. Resquícios de pólvora deflagrada junto com prata queimava as vias respiratórias bem de leve. A munição usada não era das comuns, o invasor usara balas de prata. Uma das fraquezas dos shifters.

— Assumo a culpa por ter uma visão limitada — Seijuro amargurou aquele momento. Orgulhava-se de ser um ótimo estrategista e deixara de lado uma parte importante da questão. Hanamiya não tinha escrúpulos. Nada o impedia de recorrer a qualquer tática suja para alcançar seus objetivos. Mas usar um humano...? Parecia demais até para Makoto e sua corja — Como encontraram esse lugar?

Com suas rotas de acesso era difícil para um shifter descobrir o apartamento de Kagami. Para humanos normais seria impossível!

— Talvez a escola? — Murasakibara sugeriu, incrivelmente não comia nada.

— Não — Seijuro descartou a possibilidade. Seu pai ligara para Seirin, tentando obter o endereço de um aluno, não conseguira, nem mesmo mediante suborno. Se tivessem invadido o colégio, saberiam. O sistema de vigilância era novo e um tanto moderno. Agora não adiantava ficar matutando. Precisavam reagir e pensar no modo de resgatar os dois garotos.

— Que cruel — Momoi — Tai chan acabou de ser marcado... e Dai chan foi ferido...

A frase dita baixinho incomodou Akashi. O rapaz estreitou os olhos na direção da única shifter fêmea, analisando-a de modo pensativo. Então foi como se todo o plano de Hanamiya se descortinasse diante de si. Compreendeu os passos do inimigo.

— Ele precisava que Kagami estivesse marcado — falou com certa irritação. Tornava-se tão óbvio agora que sentiu-se humilhado por não ter sacado antes — A Marca intensifica tudo. Hanamiya foi ao Intercolegial espiar suas chances e viu que Kagami e Daiki tinham um vínculo de companheirismo. Ele deduziu que só poderia fazer um tipo de vínculo com o Ômega.

— Negativo — Midorima começou a ver o ponto. Seu sonho fez sentido agora. Realmente perderam o Alpha e o Ômega por algo que não tinham considerado, talvez graças a falta de experiencia de vida.

— A Marca torna as sensações mais profundas. As boas e as ruins, e liga dois shifters, assim um sempre sabe o que está acontecendo com o outro — Seijuro continuou — Existe um vínculo negativo, talvez o pior de todos eles, que pode suplantar a ligação entre dois companheiros, por ser um paralelo, ainda que oposto.

Momoi e Murasakibara aguardaram que Akashi completasse a revelação, mas foi Midorima quem falou a chave do mistério.

— Síndrome de Estocolmo.

— Exato. Uma vitima exposta a um prolongado estado de ameaça acaba desenvolvendo certa simpatia, até mesmo amor por seu agressor. Graças ao poder da Marca, Hanamiya não precisa de tempo, ele tem intensidade.

— Tudo o que um companheiro sente, o outro recebe pelo laço — Atsushi falou. Seu tom era neutro.

Akashi cerrou os punhos. Seu animal interior agitou-se revoltado, respondendo ao estado dos outros três Betas.

— Hanamiya não vai torturar apenas Tai chan. Vai torturar Dai chan também! — Satsuki exclamou horrorizada diante da possibilidade, acabou cobrindo os lábios com as mãos.

O Ômega sofreria em dobro: por si próprio e por seu companheiro.

continua...