Capitulo 24

De vez em quando, James dá um pontapé no pneu traseiro da sua Kymco estourada, fixada num cavalete, fazendo-a girar.

Fuma um cigarro. Um pouco mais longe, pelo menos cinco ou seis Winston azuis já acabaram da mesma maneira. Olha novamente para o fim da estrada. Lá está ela.

James apaga o cigarro e corre em sua direção.

"Mas onde cacete você estava? Aonde você foi? Hein? Onde raios você estava?"

Vitoria avança serena. Está feliz. Tem um sorriso radiante.

"Amor, me aceitaram, me aceitaram!"

"Mas por que você não ligou?"

"Meus créditos terminaram, não dava nem para um torpedo, e minha mãe estava usando o fixo. Me chamaram para um recall..."

"Um o quê?"

"Um recalll. É quando chamam para fazer mais um teste... Fui de ônibus... Não dava para esperar e depois peguei o metro, o teste não era longe, mais uma vez em Cinecittà."

Ela o abraça e o beija, macia, doce, sensual como Vitoria sabe ser. Quando quer.

"Mas com o que está chateado? Não está contente? Me aceitaram!"

James ainda está de cenho franzido. Liberta-se do abraço.

"Cacete, já falei mil vezes...não gosto quando você vai sozinha."

Vitoria revira os olhos.

"Quer dizer, não é que eu não goste que você vá fazer os testes, pelo contrário, mas eu gosto mesmo é de acompanhá-la."

"Ora, desculpe, mas nenhuma das outras vai acompanhada pelo namorado."

"É, valeu, obrigado, porque eles estão pouco se lixando. Eu não, eu me preocupo. E, outra coisa, já falei mil vezes, quando o seu crédito estiver no fim, me fale, está bem? Minha mãe trabalha na tabacaria da esquina... Eu a chamo e peço para recarregar direto. Ou então eu mesmo recarrego em algum outro lugar."

Em seguida, James fica quieto. Sim, mas com que dinheiro?, pensa consigo mesmo. Mas não é certamente aquele o momento para contar isso a ela.

Vitoria abre a sua grande bolsa com alças largas.

"Veja, depois do teste fui até Cinecittà 2 e comprei isto pra você..."

Tira fora um ursinho de pelúcia com a camiseta do Roma.

"Fantástico! Genial demais, obrigado, amor..."

"Viu? É o ursinho Totti, é como o seu capitão, um pequeno gladiador...peludo."

"Puxa, lindo demais."

"Sinta, sinta", Vitoria o esfrega no rosto dele.

James o afasta, coçando o nariz.

"Assim você me vai fazer espirrar, pare!"

"Mas você não percebeu?"

James o aproxima novamente do nariz, desta vez sozinho, mais

tranquilamente.

Vitoria sorri.

"Eu coloquei nele um pouco do meu Batik, assim, quando você o levar para a cama, vai pensar em mim. Mas por que está rindo? É porque coloquei demais, hein, James?"

James sorri e guarda o ursinho no bolso interno do casaco.

"Não... Não, é que eu te desejo tanto que esse ursinho não dá conta, amor... Você é muito melhor que ele."

James lhe dá um beijo de língua, a aperta contra si, fazendo-a perceber que está excitado.

"Sério, estou com vontade. Vamos pra sua garagem, no carro do seu pai..."

Vitoria apalpa o próprio ventre, embaixo.

"Não posso. Desceu justamente hoje, enquanto eu estava fazendo o teste, e por sorte que tinham ali."

"E tinham o quê?"

"A propaganda que faço é justamente sobre eles..."

Tira da bolsa um pacote com 24 absorventes.

"Talvez tenha sido pela emoção, mas veio antes. Olha que sorte, ganhei um pacote!"

"Amor, você está brincando?"

James se afasta dela.

"Mas, sério, você tem que fazer propaganda dessas coisas? Isto é, como que dizendo a todos que você tem o ciclo?"

Vitoria se enche.

"Mas o que é que você tem hoje? Está com vontade de brigar? É uma coisa natural! Não é vulgar, o que tem de errado? Todas as mulheres, todos os meses, necessitam usá-los. Em geral, os homens não gostam quando não são necessários, porque quer dizer que..."

"Entendi, mas parece tão grosseiro."

Vitoria se aproxima novamente dele e o beija no pescoço.

"Você está muito nervoso. Você me vai acompanhar quando for rodar, vai ver que não tem nada que possa incomodá-lo, viu? Ouça, o que você acha se formos comer uma pizza, hein? Eu pago."

"Não", James vai em direção da moto.

"Vamos sim, mas eu pago."

"Como você quiser, eu só queria festejar porque me aceitaram!"

"E já me deu o ursinho, não é?"

"Está bem... Vamos ao Paradiso? Não fica longe e sempre tem um monte de artistas."

"Está bem, vamos."

James lhe passa o capacete e depois põe o seu.

Vitoria senta: atrás, coloca a grande bolsa entre ela e as costas de James.

"Oh, Vitoria, já pensou que um dia vai ser famosa e as pessoas irão ao Paradise: para vê-la comer?"

James sorri para ela, observando-a pelo retrovisor.

"Vá, não me fique gozando."

"Mas por quê? Falo sério, o que pensa, tudo pode acontecer..."

Bem naquele momento, chega uma moto possante que para ao lado deles, o sujeito levanta a viseira do capacete.

"Oba, James. Belezas...o que fazem?"

James sorri.

"Vamos comer uma pizza."

"Fui procurar você na sua casa, mas já tinha saído. Eu precisava de uma ajuda."

"Obrigado. Mas já disse, eu não posso."

"Me avise quando decidir. Essa moto é sua quando quiser, presente. Assim mesmo quando for comer uma simples pizza, você chega mais rápido. E sobretudo a sua namorada fica mais confortável. Olhe, James, as mulheres amam a comodidade viu... Não pode esquecer disso nunca!"

O sujeito abaixa a viseira. Engata a primeira e, com uma meia empinada, se afasta velozmente. Segunda, terceira, quarta. Já sumiu no fim da rua. James acelera lentamente. Vitoria apoia-se sobre o ombro dele.

"Mas quem é esse babaca, hein, James?"

"Ninguém."

"Como ninguém? Me conte, hein?"

"Já falei...ninguém. Estudamos juntos na escola, mas fazia um tempão que não o via. Era chamado de Coruja, é um cara simpático."

"Pode ser. Pra mim ele parece só um babaca e também perigoso. E, além disso, que bobagem é essa de que as mulheres amam a comodidade? As mulheres amam o amor, diga pra ele se o encontrar."

James sorri e toca a perna dela. Vitoria lhe acaricia a mão.

"Melhor, não. Não diga nada a ele. Ele não ia entender mesmo."

James acelera e assim segue, em direção do Paradíso, um grande restaurante não longe de Cinecittà. Mas a moto, uma velha Kymco, mais do que isso não consegue.

Continua tranquilo pela noite. O pneu dianteiro não está muito cheio e em cima estão dois passageiros cheios de ilusões e de esperanças.

Notas Finais:

Agradecer a JOKBpor adicionar esta fic às suas favoritas.

Então que dizem?

Beijos.